Arquivo da categoria: Evolução

Mais uma espécie se junta ao Clube das Matadoras de Marido

por Piter Kehoma Boll

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Canibalismo sexual é o ato de comer um parceiro sexual logo antes, durante ou logo depois da cópula. Apesar de ser um comportamento consideravelmente raro, sua ocorrência é muito popular entre o público em geral.

Quando canibalismo sexual ocorre, geralmente consiste na fêmea comendo o macho. Dois casos populares são os dos louva-a-deuses e das aranhas, especialmente a viúva-negra. Este fenômeno, ao menos entre viúvas-negras, é muito mais raro do que a maioria das pessoas pensa.

Louva-a-deus-fêmea comento um macho saboroso. Foto de Oliver Koemmerling.*

Apesar de às vezes o canibalismo sexual ocorrer porque um dos parceiros confunde o outro com comida, em muitas espécies é uma estratégia selecionada evolutivamente para assegurar que a fêmea coma o suficiente para a prole se desenvolver adequadamente. Pode parecer horrível do ponto de vista humano, especialmente se pensarmos da perspectiva do macho, mas temos que lembrar que passar os genes para a próxima geração é o principal propósito da maioria dos organismos e, se o macho é bem-sucedido em fertilizar os ovos da fêmea, sua vida serviu seu propósito e ele pode morrer feliz.

Canibalismo sexual é, claro, quase exclusivamente observado entre predadores, o que é um tanto óbvio. E, como eu disse acima, ele é comumente realizado pela fêmea. Um grupo que é famoso por suas espécies com fêmeas empoderadas é a ordem de insetos Hymenoptera, que inclui abelhas, formigas, vespas, moscas-serra, entre outros. Visto que muitos himenópteros apresentam algum grau de socialidade, na qual sociedades são compostas quase exclusivamente por fêmeas, e os machos são gerados apenas para a reprodução, é curioso que canibalismo sexual nunca tenha sido registrado neste grupo… até agora.

Um estudo recentemente publicado examinou o comportamento de acasalamento de uma pequena vespa parasitoide, Gonatopus chilensis. Esta espécie pertence à família Dryinidae, da qual todas as espécies põem os ovos em insetos da subordem Auchenorrhyncha, que inclui cigarras, cigarrinhas, jequitiranaboias, entre outros. As larvas, após eclodirem do ovo, se alimentam do hospedeiro. Fêmeas adultas de vespas driinídeas também são predadores vorazes e se alimentam das mesmas espécies das quais se alimentaram como larvas.

Macho de Gonatopus chilensis (esquerda) inseminando uma fêmea (a), e fêmea comendo um macho (b e c). Extraído de Vira & Espinosa (2019).*

Após a cópula, fêmeas de G. chilensis foram frequentemente observadas tentando capturar os machos da mesmo forma como capturam as presas. Contudo apenas em uma ocasião a fêmea foi bem-sucedida e capturar o macho e comeu seu gáster (a porção grande e arredondada que forma a maior parte do abdome em vespas). Como apenas um evento de canibalismo foi observado, ele pode ser um fenômeno raro nesta espécie, mas como várias tentativas de capturar o macho foram vistas, parece que comer o macho é uma ideia interessante para as fêmeas.

Este é o primeiro caso conhecido de canibalismo sexual em himenópteros e, portanto, um registro importante que aumentou o número de grupos nos quais se sabe que este comportamento ocorre.

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Referência:

Virla EG, Espinosa MS (2019) Observations on the mating behavior of a dryinid and first record of sexual cannibalism in the hymenoptera. Acta Ethologica. doi: 10.1007/s10211-019-00315-9

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*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 3.0 Não Adaptada.

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Pegos no flagra: Sexo de insetos preservado em âmbar

por Piter Kehoma Boll

Um artigo publicado recentemente descreve uma nova espécie de inseto da ordem Zoraptera a partir de dois espécimes encontrados em âmbar do Cretáceo médio do norte de Myanmar.

O casal preservado. ELes não deixaram descendentes, mas foram eternizados na ciência. Créditos a Chen & Su (2019).*

Mas a coisa mais impressionante sobre esta nova espécie pré-histórica, chamada Zorotypus pusillus, é o fato de que o fóssil contém um macho e uma fêmea que aparentemente morreram enquanto estavam acasalando. Isso é concluído porque os dois indivíduos estão muito próximos um do outro e o macho possui uma estrutura alongada saindo do seu abdome, o que provavelmente é o edeago ou órgão intromitente, um órgão similar a um pênis encontrado na maioria dos zorápteros e usado para levar o esperma até o interior da fêmea.

Um detalhe da extremidade posterior do macho mostrando o edeago ou órgão intromitente. Uma reconstrução anatômica é mostrada à direita. Cŕeditos a Chen & Su (2019).*

A ordem Zoraptera contém um número muito pequeno de espécies, atualmente 44 vivas e 14 fósseis. Eles são muito pequenos, vivem em grupos e se parecem com minúsculos cupins, apesar de não serem proximamente relacionados a estes. A maioria das espécies atuais acasala com o macho introduzindo o edeago na fêmea para entregar o esperma, mas pelo menos uma espécie, Zorotypus impolitus, não copula. Nesta espécie, o macho deposita espermatóforos microscópicos no abdome da fêmea.

A descoberta do comportamento de acasalamento preservado nesta espécie do Cretáceo indica que o comportamento de acasalamento visto na maioria das espécies vivas já era usado por espécies vivendo 99 milhões de anos atrás. A origem dos zorápteros ainda não é bem conhecida, mas este e outros fósseis indicam que eles existem pelo menos desde o começo do Cretáceo.

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Referência:

Chen X, Su G (2019) A new species of Zorotypus (Insecta, Zoraptera, Zorotypidae) and the earliest known suspicious mating behavior of Zorapterans from the mid-cretaceous amber of northern Myanmar. Journal of Zoological Systematics and Evolutionary Research. doi: 10.1111/jzs.12283

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Peixes-Bruxas: Outra Dor de Cabeça Filogenética

por Piter Kehoma Boll

Anos atrás, fiz uma postagem sobre os problemáticos Acoelomorpha e sua posição controversa entre animais bilaterais. Agora vou falar sobre outra dor de cabeça: peixes-bruxas.

Os peixes-bruxas são cordados primitivos que compõem a classe Myxini. Eles são animais marinhos que vivem no fundo do mar e se alimentam principalmente de vermes poliquetos que puxam para fora do substrato. Contudo eles também são carniceiros e possuem um comportamento peculiar no qual perfuram o corpo de peixes mortos e entram nele, comendo o animal morto de dentro para fora.

Espécime do peixe-bruxa-do-Pacífico Eptatretus stoutii. Foto de Jeanette Bham.*

Morfologicamente, peixes-bruxas são caracterizados pela presença de um crânio cartilaginoso, como vertebrados, mas não possuem uma coluna vertebral, mantendo a notocorda, a estrutura dorsal de material parecido com cartilagem, durante a vida toda. Devido a esta falta de vértebras, os peixes-bruxas eram classificados fora dos vertebrados, mas unidos a eles pela presença do crânio. Assim, Myxini era visto como o grupo irmão de Vertebrata e os dois juntos formavam o clado Craniata.

Entre os vertebrados, a maioria dos grupos atuais possui uma mandíbula que evoluiu de arcos branquiais modificados, compondo o clado Gnathostomata. Os únicos animais com uma coluna vertebral que não possuem mandíbulas são as lampreias (Petromyzontiformes) e, apesar de esta falta de mandíbulas ser compartilhada com peixes-bruxas, ela não é geralmente vista como uma sinapomorfia unindo estes grupos. Em peixes-bruxas, a boca sem mandíbula possui placas laterais de queratina com estruturas em forma de dente que agem mais ou menos como as mandíbulas verdadeiras de Gnathostomata, mas trabalhando a partir dos lados e não de cima e de baixo. Em lampreias, por outro lado, a boca é circular e possui estruturas de queratina em forma de dente arranjadas circularmente.

Organização geral da cabeça de peixes-bruxas, lampreias e vertebrados de mandíbula, com atenção especial às bocas. Extraído de Oisi et al. (2012).

Há muitas características morfológicas que unem lampreias a vertebrados e as separam de peixes-bruxas, a principal sendo a já mencionada coluna vertebral. Similarmente, lampreias e vertebrados de mandíbula possuem nadadeiras dorsais enquanto peixes-bruxas não as possuem. Lampreias também possuem olhos com lentes em comum com vertebrados de mandíbula, enquanto lampreias possuem ocelos simples sem lentes ou mesmo músculos associados.

Alguns dos traços compartilhados entre peixes-bruxas e lampreias, assim como a falta de mandíbulas, são geralmente vistos como um estado primitivo que mudou em vertebrados de mandíbula, ou claramente evoluíram de forma independente. Por exemplo, tanto peixes-bruxas quanto lampreias possuem apenas uma narina, enquanto vertebrados de mandíbula possuem duas, mas isto provavelmente é uma característica primitiva. Peixes-bruxas e lampreias adultos também possuem uma só gônada, mas ela aparece em peixes-bruxas pela atrofia da gônada esquerda, de forma que somente a direita se desenvolve, enquanto em lampreias as gônadas esquerda e direita se fundem em um órgão único.

Espécimes da lampreia-de-riacho-menor, Lampetra aepyptera. Foto de Jerry Reynolds.*

Portanto, morfologicamente, parece lógico considerar peixes-bruxas como grupo irmão de vertebrados, que inclui lampreias e vertebrados de mandíbula. Também é importante mencionar que há mais grupos de vertebrados sem mandíbula que estão atualmente extintos, como a classe Osteostraci, um dos vários grupos fósseis tradicionalmente chamados de ostracodermos. Apesar de também não possuírem uma mandíbula, estes vertebrados possuíam nadadeiras pares como vertebrados de mandíbula. Assim, a organização filogenética destes principais grupos com base na morfologia seria como mostrada na figura abaixo:

A hipótise dos craniados, onde peixes-bruxas são grupo irmão de vertebrados.

Contudo, nas últimas décadas, o uso de filogenia molecular desafiou esta visão ao agrupar peixes-bruxas e lampreias em um clado monofilético que é grupo irmão dos vertebrados de mandíbula. Mas como isso poderia ser possível? Tal relação implicaria que o estado primitivo dos peixes-bruxas é o resultado de perdas secundárias.

A hipótese dos ciclostomados. Peixes-bruxas são grupo irmão de lampreias.

Evidências de fósseis poderiam ajudar a esclarecer este assunto, mas a maioria dos fósseis que foram associados a peixes-bruxas não possuem caracteres morfológicos preservados que sejam bons o bastante para determinar sua correta posição filogenética. Recentemente, no entanto, um fóssil bem preservado de um peixe-bruxa do Cretáceo ajudou a elucidar parte da filogenia dos peixes-bruxas. A divergência entre lampreias e peixes-bruxas, considerando conhecimento prévio, era geralmente posicionada perto do início do período Cambriano, logo após o começo da divergência da maioria dos filos animais, mas com dados do novo fóssil, é empurrada para um ponto mais recente no tempo, pelo começo do Siluriano, mais de 130 milhões de anos depois. Este novo fóssil, chamado de Tethymyxine tapirostrum, claramente não possui esqueleto ou nadadeiras dorsais como vistos em lampreias e vertebrados de mandíbula, mas possui várias características compartilhadas com peixes-bruxas modernos.

Pelo menos duas sinapomorfias podem ser encontradas unindo peixes-bruxas e lampreias e separando-as de vertebrados de mandíbula. A primeira são os dentes, que nestes dois grupos são compostos de placas de queratina. O segundo é a organização dos miômeros, a série de músculos arranjados ao longo do corpo de cordados de forma um tanto segmentada, que tanto em peixes-bruxas quanto em lampreias começam bem ao redor dos olhos.

Considerando as evidências de dados moleculares, o novo fóssil que torna provável que peixes-bruxas e lampreias divergiram mais recentemente se são um grupo monofilético, e as prováveis sinapomorfias verdadeiras unindo estes dois grupo de vertebrados sem mandíbula, parece que peixes-bruxas e lampreias são de fato grupos irmãos, formando um clado chamado Cyclostomata e grupo irmão dos vertebrados de mandíbula, Gnathostomata. Se este é mesmo o caso, então as características aparentemente mais primitivas de peixes-bruxas são de fato o resultado de perdas secundárias e seu ancestral provavelmente possuía uma aparência mais vertebrada, com uma coluna vertebral, nadadeiras dorsais e olhos com lentes.

Mas vamos continuar de olho. As coisas podem mudar de novo no futuro conforme novos dados se tornam disponíveis.

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Referências:

Miyashita T, Coates MI, Farrar R, Larson P, Manning PL, Wogelius RA, Edwards NP, Anné J, Bergmann U, Palmer AR, Currie PJ (2019) Hagfish from the Cretaceous Tethys Sea and a reconciliation of the morphological–molecular conflict in early vertebrate phylogeny. PNAS 116(6): 2146–2151. doi: 10.1073/pnas.1814794116

Oisi Y, Ota KG, Kuraku S, Fujimoto S, Kuratani S (2012) Craniofacial development of hagfishes and the evolution of vertebrates. Nature 493: 175–180. doi: 10.1038/nature11794

Wikipedia. Cyclostomata. Disponível em <
https://en.wikipedia.org/wiki/Cyclostomata >. Acesso em 25 de março de 2019.

Wikipedia. Hagfish. Disponível em <
https://en.wikipedia.org/wiki/Hagfish >. Acesso em 25 de março de 2019.

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Ame ao filho do teu próximo: por que alguns animais cuidam dos filhotes de outros?

por Piter Kehoma Boll

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Cuidado parental, aqui definido como qualquer comportamento em que um animal toma conta de seus filhotes, é uma prática difundida no reino animal, tendo evoluído repetidamente em muitos táxons. Não é difícil notar, considerando a seleção natural, por que o cuidado parental é um traço adaptativo. Ele aumenta a chance de a prole sobreviver e assim carregar os genes para a próxima geração.

Uma ave alimentando seus bebês. Foto de JJ Harrison.*

Por outro lado, o comportamento relacionado a este e conhecido como cuidado aloparental não é tão fácil de explicar em todas as situações em que ocorre.

Enquanto cuidado parental significa cuidar da sua própria prole, cuidado aloparental significa cuidar da prole de outro indivíduo. Se você gasta tempo e recursos tomando conta de um animal que não é seu descendente direto, você deve ter uma boa razão para fazê-lo, uma razão que de alguma forma te beneficie. Ou você pode apenas ser muito burro.

A maioria dos animais rejeita ou mesmo mata a prole de outros indivíduos da mesma espécie. Um clássico exemplo é um leão macho que mata os filhotes que ele sabe não serem seus. Ele faz isso porque ele não vê vantagem em deixar a prole de outro macho sobreviver.

Um exemplo extremo de cuidado com jovens que não são sua prole direta é encontrado em insetos sociais como abelhas e formigas. Formigas operárias geralmente não reproduzem, mas criam suas irmãs como se fossem suas próprias filhas. Nesse caso, é mais vantajoso fazer irmãos do que fazer filhos por causa do peculiar sistema de reprodução dos himenópteros. Não entrarei em detalhes, mas, basicamente, formigas compartilham 100% do DNA de seu pai e 50% do DNA de sua mãe, de forma que duas formigas irmãs possuem 75% dos genes em comum, enquanto a relação entre uma formiga fêmea e uma prole fêmea é de apenas 50%.

Abelhas ajudam a mãe a criar suas irmãs. Foto do usuário Waugsberg do Wikimedia.*

No entanto cuidado aloparental é encontrado em muitos outros animais, especialmente em mamíferos. Apesar de não terem 75% de similaridade entre irmãos como em formigas, muitos mamíferos e outros animais ajudam suas mães e/ou seus pais a criarem seus irmãos. Isso possui vantagens menos diretas, mas elas ainda estão lá. Afinal, seus irmãos (se eles são da mesma mãe E do mesmo pai) compartilham 50% do seu DNA, a mesma quantidade que você compartilha com seus filhos. Mas cuidado aloparental também pode acontecer com parentes mais distantemente relacionados, como netos ou meios-irmãos, que compartilham somente 25% do DNA com você. Isso não é um problema, no entanto, porque se você não é capaz de ter seus próprios filhos naquele momento, é melhor ajudar a criar aqueles jovens que compartilham algum DNA com você do que não fazer nada, porque 25% dos seus genes ainda é melhor que nada.

Um artigo recentemente publicado reporta a primeira observação de cuidado aloparental em campo no peixe ciclídeo Neolamprologus savoryi. A equipe observeu um peixe macho ajudando a tomar conta dos ovos de outro macho que se descobriu ser seu pai, apesar de a mãe dos ovos não ser sua mãe. O macho ajudante era pequeno e provavelmente sexualmente imaturo, de forma que, como dito acima, ajudar seus meios-irmãos, que possuem 25% de seus genes, a sobreviver é melhor do que não fazer nada.

Um macho imaturo de Neolamprologus savoryi tomando conta dos ovos de seu pais e sua madrasta. Créditos a Josi et al. (2019).

Uma coisa realmente difícil de explicar é por que alguns animais aceitam tomar conta da prole de indivíduos não aparentados, no qual não há uma vantagem adaptativa clara. Uma situação como essa foi descoberta recentemente ocorrendo na lacrainha-comum Forficula auricularia. Fêmeas que tiveram seus ovos substituídos pelos de uma fêmea não relacionada tomaram conta deles como se eles fossem seus próprios. Nenhuma vantagem de qualquer tipo pode ser extraída deste comportamento, de forma que a explicação mais provável é simplesmente a falta de pressão adaptativa para rejeitar ovos não relacionados. É provável que, em condições naturais, uma fêmea de lacrainha nunca encontre ovos de outra fêmea. Desta forma, nunca houve um cenário no qual a capacidade de reconhecer os próprios ovos (e diferenciá-los de outros) pudesse evoluir. A seleção natural precisa de oportunidades para agir.

Forficula auricularia com uma massa de ovos. Foto de Tom Oates.*

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Sua mãe ama você mais quando ela ama seu pai… se você é um peixe

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Referências:

Josi D, Taborsky M, Frommen JG (2019) First field evidence of alloparental egg care in cooperatively breeding fish. Ethology 125(3): 164–169. doi: 10.1111/eth.12838

Royle NJ, Moore AJ (2019) Nature and Nurture in Parental Care. In: Genes and Behaviour, pp. 131–156. John Wiley & Sons, Ltd. doi: 10.1002/9781119313663.ch7

Van Meyel S, Devers S, Meunier J (2019) Love them all: mothers provide care to foreign eggs in the European earwig Forficula auriculariaBehavioral Ecology. doi:10.1093/beheco/arz012

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Sua mãe ama você mais quando ela ama seu pai… se você é um peixe

por Piter Kehoma Boll

Seleção sexual é um tema frequente de minhas postagens aqui, mas elas costumam ser focadas em como fêmeas e machos se comportam um em relação ao outro. Contudo há um terceiro elemento que resulta de suas interações: os filhos.

Fêmeas tendem a selecionar os melhores machos para serem o pai de seus filhos porque estão interessadas em ter uma prole saudável e forte com melhores chances de sobreviver. Mas o que acontece quando uma fêmea não tem escolha a não ser acasalar com um macho de baixa qualidade? Ela cuidará dos filhotes da mesma forma?

Um estudo recente conduzido com o ciclídeo ponta-vermelha-de-Honduras, Amatitlania siquia, investigou essa questão. Esse peixe é nativo da América Central e, como geralmente acontece com ciclídeos, uma fêmea e um macho se unem e tomam conta juntos dos ovos e dos filhotes.

Um casal de Amatitlania siquia. Foto extraída de nvcweb.nl

Os pesquisadores puseram uma fêmea em um aquário de lados transparentes onde ela era capaz de analisar visualmente dois machos, um numa câmara à esquerda e outro numa câmara à direita. Um dos machos era maior que o outro, ambos sendo maiores que a fêmea. Após 48 horas, a fêmea foi posta aleatoriamente com o macho maior ou o macho menor para acasalarem.

Os resultados indicam que fêmeas produzem um número similar de ovos e tomam conta deles de forma similar quando acasalam com machos maiores ou menores. Contudo, depois que os ovos eclodem e as larvas se desenvolvem em pequenos juvenis, as fêmeas passam mais tempo cuidando deles caso o pai seja o peixe maior.

Elas não parecem muito animadas em perder tempo com crianças de baixa qualidade. Afinal, elas pode encontrar aquele belo peixe grande novamente no futuro.

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Referências:

Robart AR, Sinervo B (2019) Females increase parental care, but not fecundity, when mated to high-quality males in a biparental fish. Animal Behavior 148: 9–18. https://doi.org/10.1016/j.anbehav.2018.11.012

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Espécies em andamento: borboletas de classe alta e baixa não se bicam

por Piter Kehoma Boll

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Especiação, isto é, a separação de uma espécie em duas ou mais, geralmente acontece quando duas populações se tornam espacialmente isoladas uma da outra. Tal separação pode acontecer de muitas maneiras diferentes, e às vezes uma simples preferência ecológica pode causá-la.

Archaeoprepona demophon na Colômbia. Foto do usuário dengland81 do iNaturalist.*

Isso é o que acontece com uma borboleta neotropical, o sapateiro-rei-de-faixa, Archaeoprepona demophon. Encontrada em florestas tropicais do México até o norte da América do Sul, esta borboleta se alimenta de frutas podres.

Muitas outras borboletas também se alimentam de frutas podres. Dentro da floresta, elas geralmente ocorrem no sub-bosque, perto do solo, ou somente no dossel, entre as copas das árvores. Archaeoprepona demophon é uma exceção, vivendo tanto no sub-bosque quanto no dossel.

Um estudo recente, contudo, descobriu que as populações vivendo no sub-bosque e no dossel são geneticamente distintas, indicando que elas não cruzam entre si. A distância vertical entre as duas populações é de cerca de 20 m, mas o grau de divergência é tão alto quanto o encontrando entre populações vivendo em diferentes localidades separadas por cerca de 1500 km.

Parece que uma vez que você ascenda ao topo da comunidade florestal, você não está mais a fim de manter contato com as classes inferiores. Se as condições ambientais que mantêm essa separação continuarem no futuro, populações do sub-bosque e o dossel podem se tornar espécies diferentes.

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Referência:

Nice CC, Fordyce JA, Bell KL, Forister ML, Gompert Z, & DeVries PJ (2019). Vertical differentiation in tropical forest butterflies: a novel mechanism generating insect diversity? Biology Letters 15: 20180723. 
https://doi.org/10.1098/rsbl.2018.0723

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Altas temperaturas afetam o julgamento de mandarins e dos humanos que os estudam

por Piter Kehoma Boll

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O mandarim, Taeniopygia guttata, é uma ave australiana que é frequentemente usada como modelo de estudos comportamentais focados na vocalização.

Mandarim (Taeniopygia guttata). Foto de Jim Bendon.*

Recentemente, uma equipe de pesquisadores da Austrália descobriu um novo tipo de chamado nesta espécie e o chamou de “chamado de incubação”. Esta vocalização particular foi identificada como ocorrendo durante os últimos cinco dias de incubação quando uma das aves, o macho ou a fêmea, estava sozinha com os ovos, e somente quando a temperatura estava acima de 26°C. Isso levantou a hipótese de que esse chamado é usado pelos pais para comunicar aos embriões que a temperatura ambiente está alta e que esta informação seria usada pelos filhotes para adaptarem seu comportamento e seu metabolismo a temperaturas mais altas.

Um estudo experimental foi conduzido onde os ovos foram mantidos em incubadoras sob uma temperatura constante e expostos (teste) ou não (controle) a chamados de incubação gravados. O resultado indicou que os filhotes que foram expostos aos chamados cresceram mais rápido em altas temperaturas que aqueles que não foram expostos ao chamado. A diferença média em massa dos filhotes entre as diferentes temperaturas foi de cerca de 2 g apenas, apesar de a diferença em massa entre dois filhotes aleatoriamente selecionados poder ser de até 6 g. Adicionalmente, o valor de R² das análises, que diz quanto da variação é explicada pela variável medida, foi de apenas 0.1, ou seja, a temperatura explicou apenas 10% das diferenças de crescimento entre as diferentes temperaturas para ambos os tratamentos.

Filhotes no ninho.

Um dos aspectos mais intrigantes, no entanto, foi o fato de o chamado de incubação ser produzido em temperaturas tão baixas quanto 26°C, o que não é particularmente quente no ambiente natural do mandarim. Assim, outra equipe conduziu novos estudos para entender melhor como e quando o “chamado de incubação” é produzido. Eles decidiram renomear o chamado de “chamado-v” porque seu formato é de um V invertido em espectrogramas. Eles descobriram que o chamado-v está relacionado ao arquejo, quando as aves respiram rapidamente com o bico aberto para ajudar a reduzir a temperatura corporal, e é possivelmente um efeito colateral do arquejo e não um chamado deliberadamente direcionado. Ele também não é produzido somente nos últimos cinco dias de incubação, mas durante a incubação toda e durante o crescimento dos filhotes, e algumas aves são mais propensas a v-chamar que outras. Os resultados sugerem que o chamado-v dificilmente evoluiu como um chamado de incubação e é mais provavelmente um efeito colateral de arquejar. Há, no entanto, a possibilidade de que os embriões usem essa informação para modular seu crescimento, apesar de mais estudos serem necessários.

Outros estudos recentes com mandarins indicam que temperaturas elevadas podem possuir efeitos negativos no sucesso reprodutivo das aves. Temperaturas perto de 40°C reduzem a qualidade do esperma em mandarins machos e reduzem a habilidade de fêmeas discriminarem entre cantos produzidos por machos da mesma espécie e machos de espécies diferentes e distantemente relacionadas. A combinação destes dois efeitos pode levar a uma severa redução na reprodução ao reduzir os eventos de acasalamento e reduzir a habilidade do esperma de fertilizar os ovos.

Uma modulação fisiológica em embriões para lidar com os efeitos negativos das temperaturas elevadas, como sugerido pelo uso de chamados-v, certamente seria benéfico. Talvez seja um comportamento ainda sob seleção? Vamos ver o que futuros estudos nos dizem.

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Referências:

Coomes CM, Danner RM, Derryberry EP (2019) Elevated temperatures reduce discrimination between conspecific and heterospecific sexual signals. Animal Behavior 147: 9–15. https://doi.org/10.1016/j.anbehav.2018.10.024

Hurley LL, McDiarmid CS, Friesen CR, Griffih SC, Rowe M (2018) Experimental heatwaves negatively impact sperm quality in the zebra finch. Proceedings of the Royal Society B: Biological Sciences 285(1871): 20172547. https://doi.org/10.1098/rspb.2017.2547

Mariette MM, Buchanan KL (2016) Prenatal acoustic communication programs offspring for high posthatching temperatures in a songbird. Science 353(6301): 812–814. https://doi.org/10.1126/science.aaf7049

McDiarmid CS, Naguib M, Griffith SC (2018) Calling in the heat: the zebra finch “incubation call” depends on heat but not reproductive stage. Behavioral Ecology 29(6): 1245–1254. https://doi.org/10.1093/beheco/ary123

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