Arquivo do mês: fevereiro 2013

Sexta Selvagem: Besouro-guitarrista

por Piter Kehoma Boll

Besouros são o grupo mais rico em espécies em nosso planeta, então está na hora de a Sexta Selvagem trazer um representante deles. Eu escolhi minha espécie favorita, o besouro-viola ou besouro-guitarrista Compsocerus violaceus (White, 1853).

Não é uma criatura linda? Foto de Silvio Tanaka.*

Não é uma criatura linda? Foto de Silvio Tanaka.*

Com um belo par de élitros azul-metálicos e um corpo laranja com longas antenas portando um tufo preto, esta espécie é muito carismática e aparece durante a primavera e o verão aqui no sul do Brasil, sendo geralmente vista em árvores, especialmente de novembro a janeiro. Quando agarrado ou mantido dentro de uma mão fechada, ele costuma emitir um som como guinchos curtos consecutivos, motivo pelo qual recebe o nome de besouro-guitarrista.

Apesar de sua fofura, no entanto, ele é considerado uma praga agrícola, atacando árvores de diferentes espécies, incluindo acácias, eucaliptos, salgueiros, figueiras, árvores cítricas e pereiras.

Os adultos se alimentam de frutas e seiva correndo de troncos machucados, enquanto as larvas se alimentam da madeira em si, construindo galerias nela.

Quando prontas para a postura, as fêmeas caminham sobre os ramos procurando por rachaduras na casca para pôr os povos, às vezes fazendo vários cortes transversal pequenos para o mesmo propósito. Elas costumam pôr os ovos na mesma árvore em que eclodiram. Os ovos são postos isoladamente, mas muitos podem ser deixados no mesmo galho. Cada fêmea põe cerca de 60 a 130 ovos.

A medida que as larvas crescem e aumentam sua galeria dentro da madeira, o ramo passa a apresentar alterações em seu aspecto, com a casca de tornando mais escura e as folhas mais amarelas.

Em casos onde há larvas demais em um galho, ele geralmente morre e pode até mesmo quebrar devido ao dano causado.

Quem é o responsável por tornar essa espécie adorável uma praga? Nós, humanos, é claro. Como plantamos centenas de árvores juntas em grandes pomares, nós estamos meio que anunciando “toneladas de comida aqui”. E quando eles vêm, nós jogamos a culpa neles.

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Referências:

Garcia, H. A. 1994. Ocorrência e danos de Compsocerus violaceus (White, 1853) (Coleoptera, Cerambycidae) em pomar de citros. Anais das Escolas de Agronomia e Veterinária, 24 (1), 148-153

Garcia, A. H., & Cunha, M. G. 1994. Comportamento da população de Compsocerus violaceus (White, 1853) (Coleoptera, Cerambycidae) em relação a fauna de cerambicídeos coletados em pomares de citros. Anais das Escolas de Agronomia e Veterinária, 24 (1), 154-163

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Uma árvore é mais do que só uma árvore

por Piter Kehoma Boll

ResearchBlogging.org A maioria das pessoas comuns pensa em uma árvore como sendo só isso, uma árvore, uma planta grande com um caule duro e alto que oferece sombra e oxigênio e às vezes belas flores ou frutos deliciosos. Assim, não parece ser um problema tão grande cortar uma árvore e plantar outra para compensar. Afinal, em alguns anos aquela muda crescerá e ocupará completamente o papel de sua precursora.

Contudo, se você olhar de perto, descobrirá que uma árvore é muito mais do que só uma árvore. Você pode ver que há outras coisas crescendo nela, como samambaias epífitas, bromélias, orquídeas, musgos, cogumelos, líquens e ervas-de-passarinho. E você também pode encontrar muitos animais comendo ou vivendo nela também, por exemplo aves, aranhas, opiliões, insetos, pererecas e até mesmo planárias terrestres!

Musgo e fungos crescendo em uma laranjeira. Você pode ver algumas laranjas (fora de foco) ao fundo. Foto por Piter K. Boll.*

Musgo e fungos crescendo em uma laranjeira. Você pode ver algumas laranjas (fora de foco) ao fundo. Foto de Piter K. Boll.*

Muitas comunidades de invertebrados e plantas epífitas são altamente dependentes da idade da árvore, bem como da riqueza de espécies em florestas. Insetos saproxílicos, isto é, aqueles que vivem em madeira podre, como mosquitinhos e besouros, são comuns em florestas velhas. O mesmo acontece com líquens e, à medida que eles se estabelecem, eles oferecem uma série de alimentos e habitats de postura para vários invertebrados.

Uma samambaia epífita sobre a mesma árvore. Foto por Piter K. Boll.*

Uma samambaia epífita sobre a mesma árvore. Foto de Piter K. Boll.*

Como muitos invertebrados associados a florestas velhas são altamente especializados, tendo uma forte conexão com sua árvore hospedeira, eles são muito suscetíveis à fragmentação de florestas. Esta é uma das razões pelas quais uma muda não pode substituir o papel ecológico de uma árvore velha.

Esta pena nos diz que uma ave passou por aqui. Foto de Piter K. Boll.*

Esta pena nos diz que uma ave passou por aqui. Foto de Piter K. Boll.*

Alguns estudos também mostraram que a comunidade total de organismos associados a árvores, incluindo plantas epífitas e invertebrados da copa e da serapilheira em torno dela, pode ser influenciada por variações genéticas intraespecíficas das árvores, ou seja, mesmo árvores da mesma espécie podem ter organismos diferentes sobre e ao redor delas dependendo do seu conjunto individual de genes. Isso possui implicações em todo o ecossistema, já que a diversidade genética de árvores influencia a diversidade de espécies da comunidade.

Assim, da próxima vez que você vir uma árvore sendo cortada, lembre-se de que não é só uma árvore sendo cortada, mas uma comunidade inteira sendo morta. E eu espero que isso possa fazer você e outras pessoas pensarem um pouco mais antes de fazerem algo que parece mais trivial do que realmente é.

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Referências:

Moeed, A., & Meads, M. J. 1983. Invertebrate fauna of four tree species in Orongorongo Valley, New Zealand, as revealed by trunk traps. New Zealand Journal of Ecology, 6, 39-53

Walsh, N. 2012. A preliminary study into the use of canopy invertebrates and sampling techniques in relation to forest indicators in a fragmented Scottish woodland – application and management. The Plymouth Student Scientist, 5 (2), 44-79

Zytynska, S., Fay, M., Penney, D., & Preziosi, R. (2011). Genetic variation in a tropical tree species influences the associated epiphytic plant and invertebrate communities in a complex forest ecosystem. Philosophical Transactions of the Royal Society B: Biological Sciences, 366 (1569), 1329-1336 DOI: 10.1098/rstb.2010.0183

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Sexta Selvagem: Flor-cadáver

por Piter Kehoma Boll

Acho que a maioria de vocês já conhece a Rafflesia arnoldii, a flor-cadáver, visto que ela é bem popular por várias razões. Mas às vezes é legal mostrar os clássicos, certo?

Descrita em 1822 por Robert Brown, a flor-cadáver é notável por ter a maior entre todas as plantas com flores (e sem flores também). Seu nome científico honra seus dois descobridores, o estadista Sir Thomas Stamford Bingle Raffles e o botânico Joseph Arnold, os quais coletaram o primeiro espécime em 1818. Ela é conhecida das ilhas indonésias de Sumatra e Bornéu, ocorrendo em florestas secundárias e primárias. É uma das três flores nacionais da Indonésia.

Rafflesia arnoldii. Foto de Henrik Hansson*.

Rafflesia arnoldii. Foto de Henrik Hansson*.

Ainda há muitas outras coisas esquisitas sobre ela para mencionar. Seu nome comum, flor-cadáver, é devido ao fato de as flores cheirarem a carne podre para atrair moscas da carniça dos gêneros Lucilia e Sarcophaga que as polinizam. Além disso, Rafflesia arnoldii também é uma planta parasita, extraindo todos os nutrientes de que precisa das raízes e caules de cipós do gênero Tetrastigma, de forma que ela não tem nem raízes nem folhas e passa a maior parte de sua vida escondida dentro da planta parasitada. A única estrutura visível é a flor, a qual leva meses para crescer, mas se mantém aberta somente por poucos dias.

Atualmente a flor-cadáver não é avaliada pela IUCN, de forma que não está designada como ameaçada, mas a perturbação humana em seu hábitat natural, incluindo o ecoturismo, parece diminuir o número de flores que abrem a cada ano.

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Referências:

Brown, R. 1821. XV. An Account of a new Genus of Plants, named Rafflesia. Transactions of the Linnean Society of London, 13 (1), 201-234 DOI: 10.1111/j.1095-8339.1821.tb00062.x

KEW Royal Botanic Gardens: Rafflesia arnoldii (corpse flower). Disponível em: <http://www.kew.org/plants-fungi/Rafflesia-arnoldii.htm > Acesso em 8 de fevereiro de 2013.

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