Arquivo da categoria: Extinção

Indo longe com a boca aberta a novos sabores

por Piter Kehoma Boll

Todo mundo sabe que atividades humanas levaram nosso ambiente em direção a uma situação infeliz. As formas mais populares de impacto humano incluem poluição, desmatamento e superexploração de recursos naturais, mas certamente um fator importante no remodelamento de ecossistemas é a invasão de espécies.

Enquanto os humanos se movem ao redor do mundo, eles levam muitas espécies consigo, seja intencionalmente ou não, e algumas delas se estabelecem com sucesso no novo ambiente, enquanto outras não. Mas o que faz com que algumas espécies sejam invasores bem-sucedidos enquanto outras são incapazes disso?

É evidente há algum tempo que ter um nicho amplo, isto é, uma ampla tolerância a condições ambientas e um amplo uso de recursos, é importante para ser bem-sucedido em invadir um novo habitat. A amplitude de nicho trófico, isto é, a quantidade de tipos diferentes de comida que se pode ingerir, está entre as dimensões mais importantes do nicho a influenciar a disseminação de uma espécie.

Eu mesmo estudei a amplitude de nicho trófico de seis planárias terrestres neotropicais na minha dissertação de mestrado (veja referências abaixo), e ficou claro que as espécies com o nicho mais amplo são mais prováveis de se tornarem invasoras. Na verdade aquela com o nicho mais amplo, Obama nungara, já é uma invasora na Europa, como já discuti aqui.

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Um espécime de Obama nungara do Sul do Brasil que eu usei em minha pesquisa. Foto por mim mesmo, Piter Kehoma Boll.*

Mas a O. nungara possui um nicho trófico amplo em seu local de ocorrência nativo, que inclui o sul do Brasil, e provavelmente refletiu essa amplitude na Europa. Mas uma espécie que possui um nicho trófico mais restrito em seu local nativo poderia ampliá-lo em um novo ambiente?

Um estudo recente por Courant et al. (veja referências) investigou a dieta da rã-de-unhas-africana, Xenops laevis, que é uma espécie invasora em muitas partes do mundo. Eles compararam sua dieta em seu local de origem na África do Sul com aquela em várias populações em outros países (Estados Unidos, País de Gales, Chile, Portugal e França).

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A rã-de-unhas-africana Xenopus laevis. Foto de Brian Gratwicke.**

Os resultados indicaram que X. laevis possui um nicho consideravelmente amplo tanto em seus locais nativos quanto nos não-nativos, mas a dieta em Portugal apresentou uma mudança maior comparada àquela em outras áreas, o que indica uma grande habilidade de se adaptar a novas situações. De fato, a população de Portugal vive em água corrente, enquanto em todos os outros locais esta espécie prefere água parada.

Podemos concluir que parte do sucesso da rã-de-unhas-africana ao invadir novos habitats está relacionada à sua habilidade de provar novos sabores, aumentando seu nicho trófico além daquele de suas populações originais. A situação em Portugal, incluindo um ambiente diferente e uma dieta diferente, também pode ser o resultado de uma pressão seletiva maior e talvez as chances são de que esta população irá se transformar em uma nova espécie mais cedo que as demais.

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Referências:

Boll PK & Leal-Zanchet AM (2016). Preference for different prey allows the coexistence of several land planarians in areas of the Atlantic Forest. Zoology 119: 162–168.

Courant J, Vogt S, Marques R, Measey J, Secondi J, Rebelo R, Villiers AD, Ihlow F, Busschere CD, Backeljau T, Rödder D, & Herrel A (2017). Are invasive populations characterized by a broader diet than native populations? PeerJ 5: e3250.

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Movendo os quadris de dinossauros e mexendo com suas cabeças

por Piter Kehoma Boll

Recentemente surgiram notícias relacionadas à filogenia de dinossauros que deixaram muitos atônitos, como você deve ter ouvido ou lido. Novas evidências anatômicas reconstruíram completamente a base da árvore genealógica dos dinossauros e estou aqui para explicar um pouco o que aconteceu.

Como todos sabemos, os dinossauros incluem uma grande variedade de criaturas, dos terópodes comedores de carne aos pescoçudos saurópodes e dos ceratopsianos chifrudos aos armados anquilossauros, entre muitos outros.

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Silhueta de um humano comparada aos maiores dinossauros de cada grupo principal. Imagem de Matt Martyniuk.*

Por mais de um século, os dinossauros têm sido classificados em dois grupos, chamados Ornithischia e Saurischia. Ornithischia (“com quadril de ave”) incluem dinossauros cujos ossos pélvicos são mais similares ao que é encontrado em aves, com um púbis direcionado para trás. Saurischia (“com quadril de lagarto”), por outro lado, têm um púbis direcionado para a frente, como em répteis no geral. Isso agrupa os terópodes e os saurópodes no mesmo grupo como Saurischia enquanto outros dinossauros são agrupados como Ornithischia. Mas as aves são na verdade terópodes, assim sendo dinossauros com quadril de lagarto e não dinossauros com quadril de ave! Confuso, né? Então vamos dar uma olhada em seus quadris:

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Comparação dos quadris de um crocodilo (Crocodylus), um saurópode (Diplodocus), um terópode não aviano (Tyrannosaurus), uma ave (Apteryx), um tireóforo (Stegosaurus) e um ornitópode (Iguanodon). Vermelho = púbis; azul = ísquio; amarelo = ílio. Imagem minha, Piter K. Boll.**

Como se pode perceber, o estado primitivo, encontrado em crocodilos, saurópodes e terópodes primitivos, é o púbis voltado para a frente. Um púbis voltado para trás evoluiu pelo menos duas vezes independentemente, tanto em terópodes mais avançados (como aves), quanto em dinossauros ornitísquios. Mas podemos estar tão certos de que Tyrannosaurus Diplodocus são mais proximamente relacionados entre si (formando um clado Saurischia) só por causa de seus quadris? Afinal, esse é um quadril primitivo, então é bem improvável que seja uma sinapomorfia (um caráter derivado compartilhado). Não obstante, continuou sendo usado como um caráter unindo saurópodes e terópodes.

Um novo artigo publicado recentemente na Nature, no entanto, mostrou novas evidências de apontam para uma relação diferente dos grupos. Depois de uma análise detalhada da anatomia dos ossos, Matthew G. Baron, David B. Norman e Paul M. Barrett encontraram 20 caráteres que unem terópodes com ornitísquios e não com saurópodes. Entre esses podemos mencionar a presença de um forâmen (um furo) na região anterior do osso premaxilar que fica dentro da fossa narial (a depressão do osso que circunda a abertura da narina) e uma crista longitudinal afiada ao longo da maxila.

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Os crânios tanto de ornitísquios quanto de terópodes (acima) apresentam um forâmen premaxilar na fossa narial (em amarelo) e uma crista afiada na maxila (em verde), bem como outros caracteres que não estão presentes em sauropodomorfos e herrerasaurídeos (abaixo). Composição usando imagens originais de Carol Abraczinskas e Paul C. Sereno (Heterodontosaurus), usuário do Wikimedia Ghedoghedo (Eoraptor e Herrerasaurus), e usuário do flickr philosophygeek (Plateosaurus).**

Em seu blog Tetrapod Zoology, o Dr. Darren Naish comenta a nova classificação e aponta alguns problemas que surgem com essa nova visão. Um deles é o fato de que tanto terópodes quanto sauropodomorfos possuem ossos pneumáticos (ocos), enquanto ornitísquios não os possuem assim. Se a nova filogenia estiver mais próxima da verdade, significa que a pneumacidade evoluiu duas vezes independentemente ou evoluiu apenas uma vez e foi perdida nos ornitísquios.

Ele também menciona que tanto ornitísquios quanto terópodes possuem estruturas como plumas e pelos na pele. Em terópodes, isso eventualmente originou as penas. Poderia essa ser outra sinapomorfia unindo esses grupos? Talvez… mas quando pensamos que pterossauros também tinham “pelos”, pode-se também concluir que uma estrutura integumentária já estava presente no ancestral comum dos dinossauros. Neste caso, talvez, apenas não os encontramos ainda em saurópodes. Agora imagine um Argentinosaurus gigante coberto de penas!

Uma preocupação que surgiu com essa nova organização é se sauropodomorfos ainda seriam considerados dinossauros. O termo “dinossauro” foi cunhado por Richard Owen em 1842 para se referir aos restos dos três gêneros de dinossauros conhecidos na época, Iguanodon, Hylaeosaurus Megalosaurus, os dois primeiros sendo ornitísquios e o último um terópode. Como consequência, a definição original de dinossauro não incluía saurópodes. De forma similar, a definição filogenética moderna de dinossauro era “o menor clado inclusivo contendo Passer domesticus (o pardal) e Triceratops horridus”. De forma a permitir que o Brachiosaurus e seus amigos continuem sentando com os dinossauros, Baron et al. sugeriram expandir a definição para incluir Diplodocus carnegii. Assim, dinossauros seriam o menor clado inclusivo contendo P. domesticusT. horridusD. carnegii.

Nesta nova árvore, o nome Saurischia ainda seria usado, mas se referindo apenas aos sauropodomorfos e alguns carnívoros primitivos, os herrerassaurídeos. O novo clado formado pela união de terópodes e ornitísquios foi proposto ser chamado de Ornithoscelida (“com pernas de ave”), um nome cunhado em 1870 para se referir às patas traseiras semelhantes às das aves em terópodes e ornitópodes (o subgrupo de ornitísquios que inclui dinossauros como o Iguanodon e os dinossauros com bico de pato.

O que podemos concluir com tudo isso? Nada vai mudar se você é só um entusiasta de dinossauros e não se importa com o que é um ornitísquio e um saurísquio. Agora se você é um fã de filogenia como eu, você está acostumado a mudanças súbitas nos ramos. A maioria dos fósseis de dinossauros basais são incompletos, assim aumentando o problema de saber como eles estão relacionados uns aos outros. Talvez esta nova visão vá durar e talvez novas evidências mudarão tudo de novo na semana que vem.

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Referências e leitura adicional:

Baron, M., Norman, D., & Barrett, P. (2017). A new hypothesis of dinosaur relationships and early dinosaur evolution Nature, 543 (7646), 501-506 DOI: 10.1038/nature21700

Naish, D. (2017). Ornithoscelida Rises: A New Family Tree for DinosaursTetrapod Zoology.

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Sexta Selvagem: Fungo-quitrídio-dos-anfíbios

por Piter Kehoma Boll

Hoje estou trazendo uma espécie que é provavelmente a mais terrível a existir hoje, o fungo-quitrídio-dos-anfíbios, Batrachochytrium dendrobatidis, também conhecido simplesmente como Bd.

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Vários esporângios de Batrachochytrium dendrobatidis (estruturas esféricas) crescendo num artrópode de água doce. Foto de AJ Cann.*

O fungo-quitrídio-dos-anfíbios, como o nome diz, é um quitrídio, um fungo da divisão Chytridiomycota, que inclui espécies microscópicas que geralmente se alimentam degradando quitina, queratina e outros materiais do tipo. No caso do fungo-quitrídio-dos-anfíbios, ele infecta a pele de anfíbios e se alimenta dela. Ele cresce pela pele formando uma rede de rizoides que originam esporângios esféricos que contêm esporos.

A infecção causada pelo fungo-quitrídio-dos-anfíbios é chamada de quitridiomicose. Ela causa uma série de sintomas, incluindo avermelhamento da pele, letargia, convulsões, anorexia e espessamento excessivo e descamamento da pele. Esse espessamento da pele causa problemas na ingestão de alimento, na liberação de toxinas e mesmo na respiração, eventualmente levando à morte.

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Um indivíduo da espécie Atelopus limosus infectado pelo fungo-quitrídio-dos-anfíbios. Foto de Brian Gratwicke.**

Desde sua descoberta e nomeação em 1998, o fungo-quitrídio-dos-anfíbios devastou as populações de muitas espécies de anfíbios no mundo todo. Algumas espécies, como o sapo-dourado e a perereca-de-membros-franjados-de-Rabb, foram recentemente extintas por esse fungo terrível. Todo esse cenário  drástico já é considerado um dos exemplos mais severos de extinção holocênica. A razão para um aumento tão súbito nas infecções é desconhecido, mas pode estar relacionado com o impacto humano no ambiente.

Só nos resta esperar que se encontre uma maneira de reduzir a disseminação deste pesadelo à biodiversidade.

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Referências:

Fisher, M., Garner, T., & Walker, S. (2009). Global Emergence of Batrachochytrium dendrobatidis and Amphibian Chytridiomycosis in Space, Time, and Host Annual Review of Microbiology, 63 (1), 291-310 DOI: 10.1146/annurev.micro.091208.073435

Wikipedia. Batrachochytridium dendrobatidis. Available at <https://en.wikipedia.org/wiki/Batrachochytrium_dendrobatidis&gt;. Access on March 4, 2017.

Wikipedia. Chytridiomycosis. Disponível em <https://en.wikipedia.org/wiki/Chytridiomycosis >. Acesso em 4 de março de 2017.

Wikipedia. Decline in amphibian populations. Disponível em <https://en.wikipedia.org/wiki/Decline_in_amphibian_populations >. Acesso em 4 de março de 2017.

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Briga biológica: Devemos trazer os mamutes de volta?

por Piter Kehoma Boll

Todo mundo conhece os incríveis grandes animais que são encontrados na África e no Sudeste da Ásia. Elefantes, girafas, rinocerontes, hipopótamos, cavalos, leões, tigres… essas grandes criaturas, a maioria mamíferos, são geralmente chamadas de megafauna, a “grande fauna”.

Mamíferos tão grandes quanto o elefante-africano-da-savana já vagaram pelas Américas. Foto do usuário do flickr nickmandel2006*.

Mamíferos tão grandes quanto o elefante-africano-da-savana já vagaram pelas Américas. Foto do usuário do flickr nickmandel2006*.

As Américas outrora também tinham uma impressionante megafauna, cheia de mastodontes, mamutes, preguiças gigantes, tatus gigantes e tigres-dentes-de-sabre. Hoje em dia ela é restrita a alguns ursos e onças. O que aconteceu com o resto deles? Bem, a maioria se extinguiu no final do Pleistoceno, cerca de 11 mil anos atrás.

A América do Sul já teve mamíferos tão grandes quanto o elefante-Africano-da-savana, tal como a preguça-gigante. Imagem de Dmitry Bogdanov** (dibdg.deviantart.com)

A América do Sul já teve mamíferos tão grandes quanto o elefante-Africano-da-savana, tal como a preguiça-gigante. Imagem de Dmitry Bogdanov** (dibdg.deviantart.com)

Visto que os humanos já habitavam as Américas nesta época, sempre se especulou se humanos tiveram algo a ver com a extinção. É verdade que hoje em dia centenas, milhares de espécies estão ameaçadas devido a atividades humanas, então é fácil pensar que humanos são a melhor explicação para a extinção, mas há 10 mil anos o número de humanos no planeta era milhares de vezes menor do que é hoje e nossa tecnologia ainda era muito primitiva, de forma que é improvável que pudéssemos caçar uma espécie até a extinção nesse período… se estivéssemos trabalhando sozinhos.

Não, não estou falando de humanos cooperando com aliens! Nosso camarada foi a famosa mudança climática. Períodos de extremo calor durante o pleistoceno parecem ter tido um forte impacto sobre populações de muitos grandes mamíferos e, com a ajuda de humanos caçando-os e se espalhando como uma espécie invasora, os pobres gigantes pereceram.

Le Mammouth por Paul Jamin

Le Mammouth por Paul Jamin

Isso aconteceu há mais de 10 mil anos, DEZ MIL ANOS.

Na África, elefantes e grandes carnívoros são bem conhecidos pela sua importância em estruturar comunidades, especialmente devido às interações tróficas que moldam outras populações. A megafauna extinta das Américas muito provavelmente tinha o mesmo impacto no ecossistema. Como resultado, sugestões para restaurar esta megafauna extinta foram propostas, seja por clonagem de espécies extintas ou, mais plausivelmente, pela introdução de espécies com um papel ecológico similar.

Svenning et al. (2015) revisaram o assunto e argumentaram em favor da reintroduão da megafauna para restaurar papéis ecológicos perdidos no Pleistoceno, uma ideia chamada de “renaturalização pleistocênica” ou “renaturalização trófica”, como eles preferem. Eles apresentam alguns mapas que mostram a distribuição atual de grandes mamíferos e sua distribuição histórica no Pleistoceno, a qual eles chamam de “natural”. Eles também propõem algumas espécies para serem introduzidas de forma a substituir aquelas extintas, incluindo substituições de espécies extintas há até 30 mil anos. Agora isso é uma boa ideia? Eles acham que é, e um dos exemplos usados é a reintrodução de lobos no Parque Nacional de Yellowstone. Mas lobos são estavam extintos ali por milênios, nem são uma espécie diferente que substituiria o papel de uma extinta.

Uma alcateia de lobos no Parque Nacional de Yellowstone.

Uma alcateia de lobos no Parque Nacional de Yellowstone.

Rubenstein & Rubenstein (2016) criticaram a ideia, argumentando que deveríamos focar em proteger os ecossistemas restantes e não em tentar restaurar aqueles que foram corrompidos milhares de anos atrás. Eles também argumentam que usar espécies similares pode ter consequências não intencionadas. Svenning et al. responderam que isso é apenas uma opinião e que um programa sistemático de pesquisa em renaturalização trófica deveria ser desenvolvido. A reintrodução de cavalos no Novo Mundo e suas consequências não-catastróficas são outro ponto usado para responder às críticas.

Então qual é sua opinião? Devemos trazer mamutes, mastodontes, preguiças gigantes e tigres-dentes-de-sabre de volta? Devemos introduzir elefantes e leões nas Américas para desempenharem o papel que mastodontes e esmilodontes tinham?

Minha opinião é não. A ideia pode parecer bela, mas penso que é na verdade fantástica, fabulosa demais e sensacionalista. Cavalos podem ter voltado às Américas sem trazer destruição, mas não podemos ter certeza de nada, mesmo com vários estudos teóricos e em pequena escala. Todos sabemos o quão frequentemente introduzir espécies dá errado, muito errado. Olhem para os pobres Austrália e Havaí, por exemplo. Além disso, esses mamíferos gigantes se etinguiram HÁ DEZ MIL ANOS. Certamente os ecossistemas se adaptaram à sua extinção. A vida sempre encontra um jeito. Há ameaças piores a esses ecossistemas que devem ser abordadas, tal como a destruição iminente para construir mais cidades e criar mais gado e plantações.

Superem. Os mamutes se foram. Vamos tentar salvar os elefantes em vez disso, mas sem trazê-los para o cerrado brasileiro. Eles não pertencem a esse lugar. Eles pertencem à savana africana.

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Referências:

Rubenstein, D. R.; Rubenstein, D. I. From Pleistocene to trophic rewilding: A wolf in sheep’s clothing. PNAS, 113(1): E1. DOI: 10.1073/pnas.1521757113

Svenning, J-C.; Pedersen, P. B. M.; Donlan, C. J.; Ejrnæs, R.; Faurby, S.; Galetti, M.; Hansen, D. M.; Sandel, B.; Sandom, C. J.; Terborgh, J. W.; Vera, F. W. M. 2016. Science for a wilder Anthropocene: Synthesis and future directions for trophic rewilding research. PNAS, 113(4): 898-906. DOI: 10.1073/pnas.150255611

Svenning, J-C.; Pedersen, P. B. M.; Donlan, C. J.; Ejrnæs, R.; Faurby, S.; Galetti, M.; Hansen, D. M.; Sandel, B.; Sandom, C. J.; Terborgh, J. W.; Vera, F. W. M. 2016. Time to move on from ideological debates on rewilding. PNAS, 113(1): E2-E3. DOI: 10.1073/pnas.1521891113

Wade, L. 2016. Giant jaguars, colossal bears done in by deadly combo of humans and heat. Science News. DOI: 10.1126/science.aag0623

Wade, L. 2016. Humans spread through South America like an invasive species. Science News. DOI: 10.1126/science.aaf9881

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Sexta Selvagem: Baleia-azul

por Piter Kehoma Boll

Já falamos do mais fofo e do mais pernudo, então agora é hora de apresentar o maior, de uma vez.

Acho que a maioria de nós já sabe que o maior animal de todos os tempos é nossa querida baleia-azul, Balaenoptera musculus. Ela pode chegar a 30 m de comprimento e pesar mais de 180 toneladas. É realmente grande, mas provavelmente não tão grande quanto muitas pessoas pensam. Há algumas lendas populares, como a de que o coração de uma baleia-azul é do tamanho de um carro e que um humano poderia nadar em sua aorta, que não são realmente verdade.

É quase impossível achar uma foto de corpo inteiro de uma baleia azul. Afinal, ela é enorme e vive embaixo d'água!

É quase impossível achar uma foto de corpo inteiro de uma baleia azul. Afinal, ela é enorme e vive embaixo d’água!

Mas o que mais podemos dizer sobre a baleia-azul? Ela é um rorqual, um nome usado para designar baleias da família Balaenopteridae e, como todas elas, se alimenta quase exclusivamente de krill, um pequeno crustáceo muito abundante nos oceanos. E o krill precisa ser abundante de maneira a fornecer as milhares de toneladas que todas as baleias nos oceanos precisam comer todos os dias. Uma única baleia-azul come até 40 milhões de krills em um dia, o que equivale a cerca de 3,5 toneladas. Um filhote de baleia-azul nasce medindo cerca de 7 m de comprimento e bebe cerca de 500 litros de leite por dia!

Baleias-azuis eram abundantes em quase todos os oceanos até o começo do século XX, quando começaram a ser caçadas e quase foram extintas. Hoje em dia, o tamanho real da população é difícil de estimar, mas pode compreender tão pouco quanto 5.000 espécimes, muito menos que as estimadas centenas de milhares no século XIX. Devido a umaa redução tão drástica na população, a baleia-azul é atualmente listada como “em perigo” na Lista Vermelha da IUCN.

Mas vamos ver uma baleia-azul em toda a sua azulância.

Mas vamos ver uma baleia-azul em toda a sua azulância.

Ocasionalmente, as baleias-azuis podem hibridizar com baleias-comuns (Balaenoptera physalus) e talvez até com baleias-jubartes (Megaptera novaeanglie), uma espécie classificada num gênero diferente! Algumas análises genéticas recentes, contudo, indicam que o gênero Balaenoptera é polifilético e a baleia-azul pode passar a ser conhecida como Rorqualus musculus.

Diferente de outras baleias, as baleias-azuis geralmente vivem sozinhas ou em pares, mas nunca formam grupos, mesmo que às vezes se juntem em lugares com grandes concentrações de alimento.

Como outros cetáceos, especialmente outras baleias, a baleia-azul canta. O canto, no entanto, não é tão complexo e dinâmico quanto o produzido pela aparentada baleia-jubarte. Um fato intrigante que foi descoberto recentemente é que a frequência do canto da baleia-azul está se tornando mais e mais baixa pelo menos desde os anos 1960. Não há uma boa hipótese para explicar este fenômeno ainda, mas várias já foram propostas, incluindo o aumento do barulho de fundo devido a atividades humanas ou o aumento na densidade populacional devido à redução da caça.

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Referências:

Hassanin, A.; Delsuc, F.; Ropiquet, A.; Hammer, C.; van Vuuren, B. J.; Matthee, C.; Ruiz-Garcia, M.; Catzeflis, F.; Areskoug, V.; Nguyen, T. T.; Couloux, A. 2012. Patter and timing of diversification of Cetartiodactyla (Mammalia, Laurasiatheria), as revealed by a comprehensive analysis of mitochondrial genomes.  Comptes Rendus Biologies, 335: 32-50.

Mellinger, D. K.; Clark, C. W. 2003. Blue whale (Balaenoptera musculus) sounds from the North Atlantic. Journal of the Acoustical Society of America, 114(2): 1108-1119.

Wikipedia. Blue whale. Disponível em: <https://en.wikipedia.org/wiki/Blue_whale&gt;. Acessso em 27 de janeiro de 2016.

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A História da Ema Anã

por Rafael Nascimento

A família Rheidae hoje é representada por duas ou três espécies (dependendo do autor) de emas, aves de porte grande, corredoras e incapazes de voar, semelhantes aos avestruzes africanos com três dedos nos pés ao invés de dois. A maior delas, a ema comum Rhea americana, possui cinco subespécies distribuídas desde o Nordeste do Brasil até o leste argentino, passando pela Bolívia, Paraguai e Uruguai. As outras formas, outrora sob o gênero Pterocnemia, são R. pennata e R. tarapacensis (popularmente ema ou nandu-de-darwin e ema-de-puna, respectivamente). A ema-de-darwin, que auxiliou o célebre naturalista britânico na elaboração de sua teoria da seleção natural, habita a Patagônia argentina e chilena. A situação sistemática da ema-de-puna (e suas duas possíveis subespécies), que é encontrada na região de encontro dos territórios peruano, boliviano, chileno e argentino, ainda não é clara, e atualmente considera-se uma forma distinta com base em algumas características físicas, mas pendentes de estudos mais esclarecedores.

Além dessas formas atuais e algumas espécies fósseis, como Opisthodactylus horacioperezi e Hinasuri nehensis, do Mioceno e Plioceno argentinos, respectivamente, uma outra espécie foi descrita em 1894 pelo naturalista britânico Richard Lydekker com base em um pequeno ovo: Rhea nana – então representando uma possível quarta espécie de ema vivendo em tempos históricos.

Richard Lydekker, ca 1900.

Richard Lydekker, ca 1900.

Abaixo a tradução do texto original publicado na revista Proceedings of the Zoological Society of London de 1894, com comentários acerca dessa possível nova espécie:

“Sr. R. Lydekker exibiu fotografias e um modelo de um ovo único, o qual o original foi obtido muitos anos atrás no Sul da Patagônia, e agora está preservado no Museu em La Plata. Se não se trata de um espécime anormal, não pode ser atribuído a nenhuma espécie de ave conhecida.

Quando em viagem pelo distrito onde o espécime foi obtido, Dr. P. Moreno, Diretor do Museu em La Plata, muitos anos atrás viu algumas aves ratitas pequenas, o qual de primeira assumiu serem pequenas emas. Pelos nativos, para os quais elas eram bem conhecidas, ele foi, no entanto, assegurado que eram aves adultas, parentes das emas. Desejando confirmar essa informação, Dr. Moreno escreveu a um amigo familiarizado com o distrito; que respondeu que não apenas conhecia bem as aves, mas que também possuía um ovo, sendo esse ovo o espécime original do qual um modelo está sendo exibido agora.

Assumindo que seja um ovo normal, Sr. Lydekker tem a opinião que, tomada em conexão com a evidência de duas testemunhas independentes que viram as aves, isso aponta a existência no Sul da Patagônia de uma pequena ave ratita desconhecida mais ou menos parecida com as emas.“

Ilustração de John Gould de 1841 da ema de Darwin, Rhea pennata.

Ilustração de John Gould de 1841 da ema de Darwin, Rhea pennata.

Até hoje, no entanto, não se encontrou nenhum outro ovo semelhante ou ave adulta que seja diferente das espécies já mencionadas. Quando se lida com espécies potencialmente extintas, conhecidas por relatos escassos ou espécimes aberrantes, deve-se ver os dados através de um olhar cético. É preciso ter certeza de que não se trata de variações dentro da espécie ou confusão das testemunhas. A falta de material comparativo extenso dada a data das descrições também deve ser levada em conta, assim como os avanços constantes no entendimento da ciência.

Ovo normal de R. pennata, no Museu Wiesbaden (Alemanha). Foto de Klaus Rassinger/Gerhard Cammerer.

Ovo normal de R. pennata, no Museu Wiesbaden (Alemanha). Foto de Klaus Rassinger/Gerhard Cammerer.

Esse ovo hoje é tratado como uma forma aberrante de um ovo de Rhea pennata. O modelo citado por Lydekker, feito em cera, encontra-se no Museu de História Natural Tring, na Inglaterra.

del Hoyo, J., Collar, N. & Garcia, E.F.J. (2015) Puna Rhea (Rhea tarapacensis). In: del Hoyo, J., Elliott, A., Sargatal, J., Christie, D.A. & de Juana, E. (eds.). Handbook of the Birds of the World Alive. Lynx Edicions, Barcelona. (retirado de http://www.hbw.com/node/467080 em 24 de dezembro de 2015).

Folch, A., Jutglar, F., Garcia, E.F.J. & Boesman, P. (2015) Greater Rhea (Rhea americana). In: del Hoyo, J., Elliott, A., Sargatal, J., Christie, D.A. & de Juana, E. (eds.). Handbook of the Birds of the World Alive. Lynx Edicions, Barcelona. (retirado de http://www.hbw.com/node/52399 em 24 de dezembro de 2015).

Folch, A., Christie, D.A., Jutglar, F. & Garcia, E.F.J. (2015) Lesser Rhea (Rhea pennata). In: del Hoyo, J., Elliott, A., Sargatal, J., Christie, D.A. & de Juana, E. (eds.). Handbook of the Birds of the World Alive. Lynx Edicions, Barcelona. (retirado de http://www.hbw.com/node/52400 em 24 de dezembro de 2015).

Hume, J. P.; Walters, M. (2012) Extinct Birds. T & AD Poyser. Londres.

Knox, A. G.; Walters M. P. (1994) Extinct and Endangered Birds in the collections of The Natural History Museum. British Ornithologists’ Club Occasional Publications.

Lydekker, R. (1894) Exhibition of, and remarks upon, a photograph and model of an egg from Southern Patagonia in the La Plata Museum. Proceedings of the Zoological Society of London (1894): 654.

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A planária-da-Nova-Guiné visita a França – uma ameaça

por Piter Kehoma Boll

Desde que a vida existe, ela se espalha. Os organismos se movem (mesmo que somente como gametas ou esporos) e conquistam novos ambientes caso se adaptem. Se não fosse assim, a vida não seria encontrada por todo o planeta. Recentemente, porém, devido à dispersão humana, as espécies conseguem atingir locais bem longe de onde nasceram muito mais facilmente. Consideramos espécies vivendo fora de sua área nativa como sendo exóticas. E há várias delas. Será que existe algum lugar sem espécies exóticas hoje em dia?

No primeiro post deste blog, eu falei sobre como espécies exóticas não são sempre uma ameaça a ecossistemas nativos. Mas muitas são, de fato, perigosas à diversidade local. O ISSG (Invasive Species Specialist Group) lista o que são consideradas as 100 piores espécies invasoras. Estranhamente eles esquecem de mencionar a pior de todas elas, Homo sapiens.

Entre essas 100 espécies, uma bem famosa é o caracol-gigante-africano, Achatina fulica. Nativo da África Oriental, ele foi introduzido por todo o mundo e é uma grande praga em jardins e áreas agrícolas, e também pode ser um hospedeiro intermediário de diversos parasitas que infectam humanos.

O caracol-gigante-africano Achatina fulica. Foto de Eric Guinther*. Extraído de commons.wikimedia.org

O caracol-gigante-africano Achatina fulica. Foto de Eric Guinther*. Extraído de commons.wikimedia.org

Numa tentativa de controlar a população de Achatina fulica, algum “gênio” decidiu introduzir mais uma espécie exótica nas áreas onde A. fulica era uma praga: um predador de caracóis voraz e generalista.

Vamos lutar contra uma praga exótica com outra praga exótica!

Vamos lutar contra uma praga exótica com outra praga exótica!

Como resultado, o caracol predador Euglandina rosea, conhecido como “caracol-lobo-rosado” ou “caracol-canibal” em inglês, foi introduzido em áreas infestadas por A. fulica. Mas E. rosea é nativo da América do Norte, enquanto A. fulica é da África Oriental. De forma a ser efetivo, E. rosea precisava ser um predador generalista, se alimentando de qualquer tipo de caracol. E é isso que ele faz…

O caracol-lobo-rosado Euglandina rosea. Foto de Tim Ross. Extraído de commons.wikimedia.org

O caracol-lobo-rosado Euglandina rosea. Foto de Tim Ross. Extraído de commons.wikimedia.org

Euglandina rosea passou a predar A. fulica, mas… ops! Ele também atacou caracóis nativos e levou diversas espécies à extinção em ilhas do Pacífico. Ele se tornou uma praga ainda pior que o caracol-gigante-africano…

Não satisfeitas com o dano causado por este predador, as pessoas decidiram introduzir mais uma espécie para controlar A. fulica. E a escolha foi outro predador de caracóis voraz e generalista, a planária-da-Nova-Guiné Platydemus manokwari. Como o nome sugere, a planária-de-Nova-guiné é nativa da Nova Guiné, novamente um lugar diferente e, assim, para se alimentar o caracol-gigante-africano, ela precisaria se alimentar de qualquer tipo de caracol. Assim, ela se tornou uma praga tão perigosa quanto a anterior e levou diversas espécies de caracóis à extinção em ilhas do Pacífico.

Até recentemente se pensava que a infestação da planária-da-Nova-Guiné estava restrita à região Indo-Pacífica, não muito longe de casa. Contudo um artigo recente de Justine et al. (2014) registra sua presenta em uma estufa em Caen, no norte da França. Este registro expande significativamente sua ocorrência no mundo e indica que ela pode estar muito mais disseminada do que se pensava anteriormente. Infelizmente, as pessoas estão mais interessadas em preservar seus jardins do que preservar a biodiversidade. Assim estas pragas predadoras provavelmente continuarão sendo introduzidas como controle biológico, mesmo sendo ameaças a ecossistemas.

Bonjour tout le monde! Vim visitar Paris! A planária-da-Nova-Guiné Platydemus manokwari. Foto de Pierre Gros**, extraída de Justine et al., 2014 via commons.wikimedia.org

Bonjour tout le monde! Vim visitar Paris! A planária-da-Nova-Guiné Platydemus manokwari. Foto de Pierre Gros**, extraída de Justine et al., 2014 via commons.wikimedia.org

Felizmente, na França, P. manokwari parece restrista a estufas. Esperemos que ela não seja encontrada em mais nenhum outro lugar.

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Referências:

Albuquerque, F., Peso-Aguiar, M., & Assunção-Albuquerque, M. 2008. Distribution, feeding behavior and control strategies of the exotic land snail Achatina fulica (Gastropoda: Pulmonata) in the northeast of Brazil. Brazilian Journal of Biology, 68 (4), 837-842 DOI: 10.1590/S1519-69842008000400020

ISSG, Invasive Species Specialist Group. 100 of the World’s Worst Invasive Alien Species. Availabe at: < http://www.issg.org/database/species/search.asp?st=100ss >. Access on April 04, 2014.

Justine, J., Winsor, L., Gey, D., Gros, P., & Thévenot, J. 2014. The invasive New Guinea flatworm in France, the first record for Europe: time for action is now. PeerJ, 2DOI: 10.7717/peerj.297

Sugiura, S., Okochi, I., & Tamada, H. 2006. High Predation Pressure by an Introduced Flatworm on Land Snails on the Oceanic Ogasawara Islands. Biotropica, 38(5), 700-703 DOI: 10.1111/j.1744-7429.2006.00196.x

Sugiura, S., & Yamaura, Y. 2008. Potential impacts of the invasive flatworm Platydemus manokwari on arboreal snails. Biological Invasions, 11 (3), 737-742 DOI: 10.1007/s10530-008-9287-1

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