Arquivo do mês: setembro 2017

Sexta Selvagem: Diatomácea-navio-lira

por Piter Kehoma Boll

É hora da nossa próxima diatomácea e, assim como com o radiolário da semana passada, é uma tarefa difícil encontrar boas imagens e boas informações de qualquer espécie para apresentar aqui.

Hoje vou apresentar uma espécie do gênero mais diverso (eu acho, ou ao menos um dos mais diversos) de diatomáceas, Navicula, um nome que significa “naviozinho” em latim devido ao formato das células. Há mais de 1200 espécies no gênero, e uma delas é chamada Navicula lyra, que eu decidi chamar de diatomácea-navio-lira. Também a encontrei com o nome Lyrella lyra, sendo a espécie-tipo de um gênero Lyrella (lirazinha) que foi separado de Navicula. Eu não sei qual é a forma oficial hoje em dia, mas parece que Lyrella às vezes é algo como um subgênero de Navicula, apesar de algumas vezes os dois gêneros não estarem nem na mesma família!

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Navicula lyra, um naviozinho-lira. Foto de Patrice Duros.*

Enfim, a diatomácea-navio-lira é uma espécie planctônica que é encontrada em oceanos do mundo, estando presente em listas de espécies de todos os lugares. Ela mede cerca de 100 µm ou menos, um tamanho típico para uma diatomácea.

Como com outras diatomáceas nos gêneros NaviculaLyrella, a diatomácea-navio-lira possui diferentes variedades, que poderão eventualmente se revelarem espécies distintas, eu acho. Veja, por exemplo, a variedade constricta mostrada abaixo. Ela parece consideravelmente diferente da imagem acima, a qual aprece ser da variedade-tipo.

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Lyrella lyra var. constricta. Extraído de Siqueiros-Beltrones et al. (2017)

Apesar de ser uma espécie amplamente disseminada, pouco parece ser conhecido da história natural da diatomácea-navio-lira. Você não está interessado em estudar a ecologia desses pequeninos barcos de vidro?

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Referências:

Nevrova, E.; Witkowski, A.; Kulikovskiy, M.; Lange-Bertalot, H.; Kociolek, J. P. (2013) A revision of the diatom genus Lyrella Karayeva (Bacillariophyta: Lyrellaceae) from the Black Sea, with descriptions of five new species. Phytotaxa 83(1): 1–38.

Siqueiros-Beltrones, D. A.; Argumedo-Hernández, U.; López-Fuerte, F. O. (2017) New records and combinations of Lyrella (Bacillariophyceae: Lyrellales) from a protected coastal lagoon of the northwestern Mexican Pacific. Revista Mexicana de Biodiversidad 88(1): 1–20.

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A falácia do natural-não natural: vamos parar com essa besteira

por Piter Kehoma Boll

Esta postagem pode vir a incomodar algumas pessoas, talvez pessoas de universos bem diferentes e pontos de vista bem diferentes em relação à sociedade ou a práticas humanas, mas eu sinto que preciso discutir esse assunto que vem sendo usado como uma forma de justificar ou condenar alguns comportamentos.

Todo mundo já ouviu, ou talvez até use, o argumento de “isto não é natural” como justificativa para se opor a algo. Você pode ouvir homofóbicos usando isso para condenar a homossexualidade, veganos para condenar a ingestão de carne ou mesmo pessoas idosas para lamentar a morte de um filho. Isso é às vezes chamado de “argumentum ad naturam” ou “apelo à natureza”, uma falácia que considera que algo natural sempre é melhor que algo não natural.

Quando um homofóbico diz que é contra a homossexualidade porque ela não é natural, seus opositores, pessoas que defendem a liberdade da sexualidade, rapidamente apresentam evidências de homossexualidade em outras espécies. Eu mesmo, sendo um homem gay, usei, no passado, exemplos de outros animais gays para explicar que a homossexualidade é de fato natural.

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Oh, yeah, babe. Dois leões machos fazendo sexo. Foto do usuário Rufus46 do Wikimedia.*

Em relação à dieta humana, podemos encontrar a mesma coisa, incluindo dois grupos opostos usando exatamente o mesmo argumento. Você pode ver vegetarianos advogando contra o consumo de carne porque nossa dentição ou nosso intestino não são típicos de uma espécie carnívora. Por outro lado, pessoas que defendem a assim chamada dieta “paleo” tentam reconstruir a dieta que era comum aos nossos ancestrais pré-históricos, o que seria nossa dieta “natural”, e assim eles consomem grandes quantidades de carne e frutas e evitam consumir grãos, grandes quantidades de açúcar ou outros alimentos que precisam ser domesticados. Da mesma forma, outras pessoas, como veganos (e mesmo os amantes do paleo) são contra o consumo de leite porque isso é comida de bebê e não deveria ser ingerida por mamíferos adultos, afinal “não é natural” pegar o leite de uma fêmea de outra espécie e bebê-lo.

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Várias espécies de formigas “ordenham” pulgões para beber as secreções doces que eles liberam. Foto de Friedrich Böhringer.**

Agora deixe-me dizer uma coisa: tudo isso não significa bosta nenhuma! Não é assim que as coisas funcionam no mundo real, que por acaso é o mesmo que a natureza. Quando usamos o argumento de algo ser natural ou não natural, estamos implicando que há uma forma pré-estabelecida para as coisas funcionarem, que há um propósito na vida. Bom, não há! Sabe a seleção natural, né? Bom, ela basicamente afirma que as variações mais bem-sucedidas de algo são aquelas que vão sobreviver, independente do que elas são ou como elas são usadas. A boca evoluiu primariamente como uma abertura pela qual os animais ingerem alimento, mas usamos nossas bocas para muitas coisas diferentes, como para falar, respirar, beijar, segurar coisas ou pagar boquetes. Essas coisas não são naturais? Quem se importa? Enquanto a boca for boa para fazer isso, ela vai continuar sendo usada para fazer isso.

E mais do que isso, usar outras espécies como uma comparação para coisas que são naturais ou não para humanos é ridículo. Só porque somos a única espécie que escreve, escrever não é natural? Se considerarmos isso verdade, então podemos aplicar isso para encontrar comportamentos não naturais em qualquer outra espécie. Contanto que um comportamento seja encontrado em apenas uma espécie, ele seria não natural.

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O pássaro-cetim é a única espécie a usar objetos azuis para decorar a estrutura que constrói para atrair uma fêmea. Esse comportamento não é natural por causa disso? Foto de Joseph C Boone.***

Como uma espécie social e (supostamente) científica, deveríamos considerar um comportamento como bom ou ruim baseado em suas consequências para a sociedade ou para os indivíduos, bem como para o mundo como um todo. Assassinato não é ruim porque não é natural, mas porque mata pessoas! Poluição não é ruim porque não é natural, ela é ruim porque polui! Então mais do que apenas ser estúpido por sua suposição de que coisas naturais são boas e coisas não naturais são ruins, o apelo à natureza também é estúpido porque não há como separar coisas em naturais e não naturais. Vamos crescer intelectualmente e parar de usar essa besteira como argumento de uma vez por todas.

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Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 3.0 Não Adaptada.

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Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 2.5 Genérica.

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Sexta Selvagem: Radiolário-esponja-de-espinhos-torcidos

por Piter Kehoma Boll

É hora do nosso próximo radiolário. Como de costume, é difícil encontrar boas informações de qualquer espécie. (Se você trabalha com radiolários e tem boas fontes disponíveis e espécies legais para sugerir, por favor, nos contate!)

É difícil encontrar imagens de radiolários vivos, especialmente aqueles identificados a nível específico, mas um que encontrei pode ser visto abaixo e é chamado Spongosphaera streptacantha, ou o radiolário-esponja-de-espinhos-torcidos, como eu decidi chamá-los.

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Uma bela foto de uma Spongosphaera streptacantha viva. Extraído de Galerie de l’Observatoire Océanologique de Villefranche-sur-Mer.

O radiolário-esponja-de-espinhos-torcidos é encontrado em águas quentes dos oceanos Atlântico e Pacífico (talvez do Índico também?) e, como pode-se ver, pode ter um diâmetro de mais de 1 mm se contarmos os espinhos mais longos. Como com a maioria dos radiolários, a célula desta espécie tem duas conchas concêntricas e um conjunto de espinhos que ocorrem num número de 6 a 15.

O alimento do radiolário-esponja-de-espinhos-torcidos consiste de organismos menores, como bactérias e algas, que ele captura com seus longos pseudópodes em forma de bastão chamados actinópodes.

Como com a maioria dos radiolários, o radiolário-esponja-de-espinhos-torcidos é pouco estudado em relação à sua ecologia. Esperemos que mais pessoas se interessem em estudar este fascinante grupo de organismos.

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Referências:

Kurihara, T.; Matsuoka, A. (2004) Shell structure and morphological variation in Spongosphaera streptacanthaHaeckel (Spumellaria, Radiolaria). Science Reports of Niigata University (Geology), 19: 35–48. http://hdl.handle.net/10191/2141

Matsuoka, A. (2007) Living radiolarian feeding mechanisms: new light on past marine ecosystems. Swiss Journal of Geosciences, 100: 273-279. https://dx.doi.org/10.1007/s00015-007-1228-y

Radiolaria.org: Spongosphaera streptacantha. Disponível em: < http://www.radiolaria.org/species.htm?sp_id=90 >. Acesso em 8 de agosto de 2017.

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A história da Sistemática: Plantas no Systema Naturae, 1758 (parte 6)

por Piter Kehoma Boll

Finalmente uma nova postagem na série sobre a história da sistemática. Esta é a sexta parte da classificação das plantas por Linnaeus. Veja as partes 1, 2, 3, 4 e 5. Aqui, apresentarei mais duas classes que são caracterizadas por terem estames surgindo de uma base comum na flor.

16. Monadelphia (“irmãos únicos”)

“Maridos, ou irmãos, surgindo de uma base”, isto é, os filamentos dos estames são fundidos em um corpo único.

16.1 Monadelphia Pentandria (“irmãos únicos, cinco machos”), cinco estames fundidos numa estrutura única: Waltheria (malvas-brancas), Hermannia (hermânias), Bombax (paineiras), Melochia (melóquias).

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Estas 5 espécies partenciam à ordem Monadelphia Pentandria de Linnaeus (da esquerda para a direita: douradinha (Waltheria indica), hermânia-de-três-folhas (Hermannia trifoliata), erva-de-chocolate (Melochia corchorifolia), paineira-vermelha (Bombax aculeatum, agora Bombax ceiba). Créditos a J. M. Garg (douradinha), C. E. Timothy Paine (hermânia), Jeevan Jose (erva-de-chocolate), Dinesh Walke (paineira).

16.2 Monadelphia Decandria (“irmãos únicos, dez machos”), dez estames fundidos numa estrutura única: Connarus (madeira-zebrada-da-Índia), Geranium (gerânios), Hugonia (uma espécie de identidade duvidosa).

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As espécies acima foram postas por Linnaeus na ordem Monadelphia Decandria: madeira-zebrada-da-Índia (Connarus monocarpus, esquerda) e gerânio-da-Bulgária (Geranium macrorhizum, direita). Créditos a Dinesh Valke (madeira-zebrada) e usuário Hardyplants da Wikipedia (gerânio).

16.3 Monadelphia Polyandria (“irmãos únicos, muitos machos”), muitos estames fundidos numa estrutura única: Stewartia (camélia-de-seda), Napaea (malva-da-clareira), Sida (guanxumas), Adansonia (baobás), Pentapetes (gojicas), Gossypium (algodões), Lavatera (malvas-arbóreas), Malva (malvas), Malope (malvervas), Urena (aguaximas), Alcea (malvas-reais), Hibiscus (hibiscos), Althaea (malvaviscos), Camellia (camélia).

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Linnaeus classificou as espécies acima como Monadelphia Polyandria (da esquerda para a direita, de cima para baixo): baobá-comum (Adansonia digitata), guanxuma-rombifólia (Sida rhombifolia), malva-da-clareira (Napaea dioica), malva-real-comum (Alcea rosea), malva-comum (Malva sylvestris), malva-arbórea-de-jardim (Lavatera thuringiaca), aguaxima-comum (Urena lobata), algodão-do-Levante (Gossypium herbaceum), hibisco-chinês (Hibiscus rosa-sinensis), gojica (Pentapetes phoenicea), camélia-de-seda (Stewartia malacodendron), camélia-comum (Camellia japonica). Créditos a Jeevan Jose (guanxuma), Pablo Alberto Salguero Quiles (malvavisco), Stan Shebs (malva-real), Joanna Voulgaraki (malva), Bob Peterson (aguaxima), H. Zell (algodão), Andrew Fogg (hibisco), Frank Vicentz (camélia), usuários da Wikipedia Atamari (baobá), Botaurus stellaris (malva-arbórea), Melburnian (camélia-de-seda), usuários do flickr peganum (malva-da-clareira) e Lalithamba (gojica).

17. Diadelphia (“dois irmãos”)

“Maridos originando de uma base dupla, bem como de uma mãe dupla”, isto é, os filamentos dos estames são agrupados em dois corpos.

17.1 Diadelphia Pentandria (“dois irmãos, cinco machos”), duas estruturas formadas de cinco estames fundidos: Monnieria (moniéria).

17.2 Diadelphia Hexandria (“dois irmãos, seis machos”), duas estruturas formadas de seis estames fundidos: Fumaria (fumárias).

17.3 Diadelphia Octandria (“dois irmãos, oito machos”), duas estruturas formadas de oito estames fundidos: Polygala (leiteiras), Securidaca (segureiras).

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A planta à esquerda, a fumária-comum (Fumaria officinalis) estava na ordem Diadelphia Hexandria, enquanto a planta à direita, a leiteira-comum (Polygala vulgaris), estava na ordem Diadelphia Octandria. Créditos a Isidre Blanc (fumária) e Radio Tonreg (leiteira).

17.4 Diadelphia Decandria (“dois irmãos, dez machos”), duas estruturas formadas de dez estames fundidos: Amorpha (falsa-anileira), Ebenus (ébanos), Erythrina (corticeiras), Spartium (vassouras), Genista (mais vassouras), Lupinus (tremoceiros), Anthyllis (antiles), Aeschynomene (angiquinhos), Piscidia (barbasco), Borbonia (tojos-do-cabo), Aspalathus (mais tojos-do-cabo), Ononis (rilha-bois), Crotalaria (crotalárias), Colutea (senas-bexigas), Phaseolus (feijões), Dolichos (feijões-longos, feijão-labelabe), Orobus (ervilhaquinhas), Pisum (ervilhas), Lathyrus (chícharos), Vicia (ervilhacas), Astragalus (ervilhacas-leiteiras), Biserrula (mais ervilhacas-leiteiras), Phaca (ainda mais ervilhacas-leiteiras), Psoralea (alguns trevos), Trifolium (trevos), Glycyrrhiza (alcaçuzes), Hedysarum (ervilhacas-doces), Coronilla (mais ervilhacas), Ornithopus (serradelas), Scorpiurus (cornilhões), Hippocrepis (ervilhacas-ferraduras), Medicago (alfafas), Trigonella (feno-grego e parentes), Glycine (sojas), Clitoria (clitórias), Robinia (robínias, caraganas e sesbânias), Indigofera (anileiras), Ulex (tojos), Cicer (grão-de-bico), Ervum (lentilhas, ervilhacas), Cytisus (laburnos e ainda mais vassouras), Galega (galegas), Lotus (trevinas), Arachis (amendoim).

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Estas 36 plantas foram incluídas na ordem Diadelphia Decandria (da esquerda para a direita, de cima para baixo): feijão-coral (Erythrina herbácea), barbasco (Piscidia erythrina, agora Piscidia piscipula), tojo-do-cabo-cordado (Borbonia cordata, agora Aspalathus cordata), vassoura-de-tecelão (Spartium junceum), vassoura-de-tintureiro (Genista tinctoria), falsa-anileira-do-deserto (Amorpha fruticosa), angiquinho-da-Índia (Aeschynomene indica), crotalária-azul (Crotalaria verricusa), rilha-boi-do-campo (Ononis arvensis), vulnerária (Anthyllis vulneraria), tramoceiro-branco (Lupinus albus), sena-bexiga (Colutea arborescens), feijão-comum (Phaseolus vulgaris), feijão-labelabe (Dolichus lablab, agora Lablab purpureus), ervilha-comum (Pisum sativum), ervilhaquinha-peluda (Orobus hirsutus, agora Lathyrus hirsutus), chícharo-comum (Lathyrus nissolia), ervilhaca-comum (Vicia sativa), grão-de-bico (Cicer arietinum), lentilha (Ervum lens, now Lens culinaris), laburno-comum (Cytisus laburnum, agora Laburnum anagyroides), tojo-comum (Ulex europaeus), amendoim (Arachis hypogaea), alcaçuz (Glycyrrhiza glabra), ervilhaca-escorpião (Coronilla glauca), serradela-brava (Ornithopus perpusillus), ervilhaca-ferradura (Hippocrepis comosa), cornilhão-pequeno (Scorpiurus muricatus), ervilhaca-doce-alpina (Hedusarum alpinum), anileira (Indigofera tinctoria), galega-comum (Galega officinalis), clitória-azul (Clitoria ternatea), soja-comum (Glycine max), ervilhaca-leiteira-alpina (Astragalus alpinus), trevo-branco (Trifolium repens), ébano-de-Creta (Ebenus cretica). Créditos a Everglades NPS (feijão-coral), Jon Richfield (tojo-do-cabo), Bernd Haynold (vassoura-de-tintureiro), Dinesh Valke (angiquinho), J. M. Garg (crotalária), Kristian Peters (rilha-boi, ervilhaca, serradela), Massimiliano Marcelli (tramoceiro), Mauricio Laurente (feijão), Bogdan Giuşcă (ervilhaquinha), Carl Davies-CSIRO (grão-de-bico), Christian Kooyman (lentilha), Jean François Gaffard (laburno), H. Zell (amendoim), Carsten Niehaus (ervilhaca-escorpião), Isidre Blanc (ervilhaca-ferradura), Hans Hillewaert (cornilhão, trevo), Nicola Cocchia (galega), Tusli Bhagat (clitória), Jörg Hempel (ervilhaca-leiteira), Rüdiger Kratz (ébano), usuários do flickr jayeshpatil912 (barbasco) e Eskimo Potato (ervilhaca-doce), usuários do Wikimedia ectonichus (vassoura-de-tecelão), AnRo0002 (falsa-anileira, vulnerária, sena-bexiga), Dalgial (lablab), Rasbak (ervilha), Sannse (chícharo), Rosser1954 (tojo), Pharaoh han (alcaçuz), Pancrat (anileira), vegetalist (soja).

18. Polyadelphia (“muitos irmãos”)

Maridos originando de mais de duas mães, isto é, estames juntados em três ou mais corpos.

18.1 Polyadelphia Pentandria (“muitos irmãos, cinco machos”), mais de duas estruturas de cinco estames fundidos: Theobroma (cacau e mutamba).

18.2 Polyadelphia Icosandria (“muitos irmãos, vinte machos”), mais de duas estruturas de vinte estames fundidos: Citrus (plantas de frutas cítricas).

18.3 Polyadelphia Polyandria (“muitos irmãos, muitos machos”), mais de duas estruturas de muitos estames fundidos: Hypericum (ervas-de-são-joão), Ascyrum (cruz-de-Santo-André).

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O cacaueiro (Theobroma cacao, esquerda) era um dos membros da ordem Polyadelphia Pentandria; a cidra (Citrus medica, meio-esquerda) era um membro da ordem Polyadelphia Icosandria; e a erva-de-São-João-das-Baleares (Hypericum balearicum, meio-direita) e a cruz-de-Santo-André (Ascyrum hypericoides, agora Hypericum hypericoides) eram membros da ordem Polyadelphia Polyandria. Créditos a H. Zell (cacaueiro), Christer T Johansson (cidra), usuário Eric in SF do Wikimedia (erva-de-São-João) e Bob Peterson (cruz-de-Santo-André).

Com poucas exceções, a maioria das plantas nestas classes atualmente pertence às famílias Malvaceae e Fabaceae (Leguminosae) de plantas com flores. Acho que ainda precisamos de mais três postagens em plantas e teremos concluído! Espero que a próxima parte não demore tanto.

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Referências:

Linnaeus, C. (1758) Systema Naturae per Regna Tria Naturae…

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Sexta Selvagem: Mancha-marrom-do-milho

por Piter Kehoma Boll

Hoje continuarei a tendência parasita da semana passada, mas dessa vez trocando de um parasita de humanos para um parasita do milho, e de um parasita procarionte para um eucarionte. Então vamos falar de Physoderma maydis, comumente chamado de mancha-marrom-do-milho.

A mancha-marrom-do-milho é um fungo da divisão Blastocladiomycota que infecta as plantas do milho. Seu nome comum vem do fato de causar uma série de manchas marrons nas folhas das plantas infectadas.

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As manchas marrons vistas nesta folha de milho são devido a uma infecção por Physoderma maydis. Créditos da foto a Clemson University – USDA Comparative Extension Slide Series.*

O ciclo de vida da mancha-marrom-do-milho é tão complexo quanto o de muitos fungos. A infecção das plantas ocorre através de esporos que ficam no solo durante o inverno e são carregados para o hospedeiro pelo vento, germinando na estação chuvosa. Os esporos germinados produzem zoósporos, esporos flagelados capazes de nadar. Nadando através da folha de milho, os zoósporos infectam células isoladas e produzem zoosporângios na superfície da folha. Os zoosporângios liberam novos zoósporos que infectam novas células. No final da primavera e no versão, os zoósporos produzem um falo que cresce para dentro da folha do milho, infectando muitas células e produzindo esporângios de parede espessa. Depois que a planta morre e as folhas se tornam secas e quebram, os esporângios são liberados e atingem o solo, onde esperam pela próxima primavera para reiniciar o ciclo.

A mancha-marrom-do-milho é considerada um problema para plantações de milho em países com pluviosidade alta. Infecções graves podem matar a planta ou reduzir severamente seu desempenho antes de as espigas estarem prontas para a colheita. Apesar de fungicidas ajudarem a reduzir a infecção através das plantações, uma das formas mais eficientes de reduzir os danos é destruindo, geralmente com fogo, os restos da colheita anterior.

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Referências:

Olson, L. W.; Lange, L. (1978) The meiospore of Physoderma maydis. The causal agent of Physoderma disease of maize. Protoplasma 97: 275–290. https://dx.doi.org/10.1007/BF01276699

Plantwise Knowledge Bank. Brown spot of corn (Physoderma maydis). Available at: < http://www.plantwise.org/KnowledgeBank/Datasheet.aspx?dsid=40770&gt;. Access on Agust 7, 2017.

Robertson, A. E. (2015) Physoderma brown spot and stalk rot. Integrated Crop Management News: 679. http://lib.dr.iastate.edu/cropnews/679/

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Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição 3.0 Não Adaptada.

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Sexta Selvagem: H. pylori

por Piter Kehoma Boll

Já apresentei três espécies de bactéria aqui, todas de vida livre ou amiguinhas. Mas todos sabemos que muitas bactérias podem ser um verdadeiro incômodo para nós, humanos, então é hora de mostrar algumas dessas, certo?

Eu decidi começar com uma que eu pensei estar vivendo dentro de mim algum tempo atrás (mas no fim não estava), e esta é a temperamental Helicobacter pylori, que como sempre não tem nome comum, mas ela é comumente chamada de H. pylori pelos médicos, então vou chamá-la assim.

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Micrografia eletrônica de um espécie de H. pylori mostrando os flagelos.

O lugar mais comum para se encontrar a H. pylori é dentro do estômago. Estima-se que mais da metade da população humana tenha essa bactéria vivendo em seu trato gastrointestinal, mas na maioria das vezes isso não afeta sua vida em nada. No entanto algumas vezes as coisas podem ficar feias.

H. pylori é uma bactéria de 3 µm de comprimento com o formato de um bastão retorcido, de onde o nome Helicobacteri, significando “bastão hélice”. Ela também tem um conjunto de quatro a seis flagelos em uma de suas extremidades, o que a faz uma bactéria muito móvel. Pensa-se que o formato torcido, junto com os flagelos, é útil para a H. pylori penetrar o revestimento de muco do estômago. Ela faz isso para escapar do ambiente extremamente ácido no estômago, sempre penetrando em direção a um lugar menos ácido, eventualmente chegando ao epitélio do estômago e às vezes até vivendo dentro das células epiteliais.

De maneira a evitar ainda mais os ácidos, a H. pylori produz grandes quantidades de urease, uma enzima que digere a ureia no estômago, produzindo amônia, a qual é tóxica para humanos. A presença de H. pylori no estômago pode levar a inflamação como uma resposta imune do hospedeiro, o que aumenta as chances das membranas mucosas do estômago e do duodeno serem prejudicadas pelos fortes ácidos, levando a gastrite e eventualmente úlceras.

A associação entre humanos e H. pylori parece ser bem velha, possivelmente tão velha quanto a espécie humana em si, pois suas origens foram traçadas até a África Oriental, o berço do Homo sapiens. Esta bactéria é, portanto, um velho amigo e rival e provavelmente continuará conosco por muitos e muitos anos no futuro.

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Referências:

Linz, B.; Balloux, F.; Moodley, Y. et al. (2007) An African origin for the intimate association between humans and Helicobacter pyloriNature 445: 915–918. https://dx.doi.org/10.1038/nature0556

Wikipedia. Helicobacter pylori. Disponível em < https://en.wikipedia.org/wiki/Helicobacter_pylori >. Acesso em 5 de agsto de 2017.

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A Planaria elegans de Darwin: escondida, extinta ou mal identificada?

por Piter Kehoma Boll

Durante sua viagem épica no Beagle, Charles Darwin visitou o Rio de Janeiro, no Brasil, e coletou algumas incríveis planárias terrestres, um grupo que até então era muito pouco conhecido. Uma das espécies que ele encontrou foi Geoplana vaginuloides, a espécie-tipo do gênero Geoplana, na época chamada Planaria vaginuloides.

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Geoplana vaginuloides (Darwin, 1844), a primeira espécie de planária terrestre brasileira a ser descrita. Foto de Fernando Carbayo.*

A segunda espécie descrita por Darwin foi chamada Planaria elegans. A descrição de Darwin é como segue (traduzida do original em inglês):

“Posição dos orifícios como em P. vaginuloides. Parte anterior do corpo pouco alongada. Ocelos ausentes na extremidade anterior, e somente alguns poucos ao redor da margem do pé. Cores belas; dorso branco-neve, com duas linhas aproximadas de marrom-avermelhado; próximo dos lados com várias linhas finas paralelas do mesmo tom; pé branco, exteriormente marcado, junto com a margem do pé, com roxo-enegrecido-pálido: corpo cruzado por três anéis sem cor, nos dois posteriores se situam os orifícios. Comprimento 1 polegada; largura mais uniforme, e maior em proporção ao comprimento do corpo que na última espécie.
Hab. O mesmo que em P. vaginuloides. [Rio de Janeiro]”

E isso é tudo que sabemos desta espécie. Darwin não forneceu nenhum desenho e pesquisadores posteriores não registraram a espécie novamente, exceto quando mencionando a publicação de Darwin. Como você pode ver pela descrição, ela não é muito acurada. Ele não diz qual é a largura de cada linha ou banda, nem quantas as “várias linhas finas paralelas do mesmo tom” há. Aqui está um rápido desenho que eu fiz de como eu imagino que a criatura seria:

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Minha ideia de com o que a Planaria elegans de Darwin deve ter se parecido. Cabeça para a esquerda. Créditos para mim mesmo, Piter Kehoma Boll.**

Em 1938, Albert Riester descreveu uma planária terrestre de Barreira, um distrito na cidade de Teresópolis, Rio de Janeiro, chamando-a Geoplana barreirana. Ele a descreveu como segue (traduzido do original em alemão):

“Planária terrestre encontrada sobre uma folha depois de uma chuva; maior comprimento ca. 20 mm. Meio do dorso branco com duas finas estrias paralelas roxo-vermelhas (atropurpúreo claro). Do lado de fora do branco também limitado por vermelho pálido, então segue (de cada lado) uma faixa preta e lateralmente um padrão marmorado marrom-preto sobre um fundo marrom. A listra do meio termina na [extremidade] posterior. Cabeça manchada, marcada por faixas transversais manchadas (regenerado?). Lado inferior cinza, bordeado de marrom-preto. Extremidade anterior é arqueada para trás.”

Felizmente, Riester forneceu um desenho, o qual você pode ver abaixo:

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Geoplana barreirana desenhada por Riester (1938).

Elas se parecem um pouco, certo? Felizmente Geoplana barreirana (atualmente chamada Barreirana barreirana) foi encontrada por pesquisadores posteriores e temos fotografias! Veja um espécime abaixo:

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Um espécime de Barreirana barreirana encontrado no Parque Nacional da Tijuca, Rio de Janeiro. Foto de Fernando Carbayo.*

Riester não descreveu nenhuma marca transversal em seus espécimes, mas ele pode tê-los confundido com perda de cor em espécies preservados ou algo assim. Fora isso o espécime é muito similar ao desenho de Riester, e a anatomia interna, a qual Riester forneceu também, é compatível.

Agora vamos tentar encaixar a descrição de Darwin de Planaria elegans nessa fotografia. Fundo branco, duas listras marrom-avermelhas e várias listras finas paralelas do mesmo tom. Ele provavelmente descreveu os animais a partir de espécimes preservados, mesmo tendo-os visto vivos e os coletado. Talvez as cores já estivessem um pouco apagadas e as listras pretas, que internamente tocam duas das listras avermelhadas, possam ter sido consideradas uma única listra vermelho-roxa? Não fica claro, na sua descrição, se há branco entre as linhas marrom-avermelhadas e os lados de “roxo-enegrecido pálido”, como eu fiz no desenho, ou não, como em Barreirana barreirana, mas certamente os lados cinza-escuros de B. barreirana poderia ser o mesmo que os lados roxo-enegrecido pálidos de Planaria elegans, não acha? E B. barreirana TEM três “anéis” brancos cruzado no corpo. Você pode ver o primeiro e o segundo bem claramente no espécime acima. O terceiro não é muito bem marcado, mas você pode ver uma terceira marca branca interrompendo os lados cinzas. E as segunda e quase terceira marcadas parecem estar bem onde se esperariam estar os dois orifícios (boca e gonóporo) da planária!

E quanto ao lado ventral?  Darwin descreveu o de P. elegans como sendo branco com borda roxo-enegrecida pálida como os lados do dorso. Riester descreveu o de G. barreirana como sendo cinza bordeado de marrom-preto. Aqui está o lado ventral de Barreirana barreirana:

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Lado ventral de Barreirana barreirana do Parque Nacional da Tijuca, Rio de Janeiro. Foto de Fernando Carbayo.*

É branco, ou cinza-claro talvez, e as bordas são da mesma cor dos lados do dorso!

Eu acho que é muito, muito provável que a Planaria elegans de Darwin e a Geoplana barreirana de Riester sejam a mesma espécie. O fato de ninguém mais além de Darwin jamais ter visto um espécime de P. elegans torna isso ainda mais provável.

O que você acha?

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Veja também:

A fabulosa aventura taxonômica do gênero Geoplana.

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Referências:

Darwin, C. (1844) Brief Description of several Terrestrial Planariae, and of some remarkable Marine Species, with an Account of their Habits. Annals and Magazine of Natural History 14, 241–251.

Riester, A. (1938) Beiträge zur Geoplaniden-Fauna Brasiliens. Abhandlungen der senkenbergischen naturforschenden Gesellschaft 441, 1–88.

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