Arquivo da categoria: Aracnídeos

Sexta Selvagem: Ácaro-da-Babosa

por Piter Kehoma Boll

Alguns meses atrás eu apresentei uma minúscula vespa que causa galhas no eucalipto. Agora vou apresentar outra criatura minúscula, até menor que aquela vespa, que causa um tipo bem anormal de galha em espécies do gênero Aloe, popularmente chamadas de babosa .

Chamado Aceria aloinis e comumente conhecido como o ácaro-da-babosa, este aracnídeo minúsculo pode ser um pesadelo para espécies de babosa e aqueles que as cultivam. Eles são tão minúsculos que mal são visíveis a olho nu. Seu corpo é alongado e cilíndrico, vermiforme, como uma salsicha microscópica, e os adultos possuem apenas quatro patas em vez das típicas oito da maioria dos aracnídeos. Esta é a aparência típica da maioria dos ácaros da família Eriophyidae, conhecidos como ácaros-de-galha.

Dois ácaros-da-babosa. Extraído de Deinhart (2011).

Alimentando-se de células da epiderme dos pés de babosa, o ácaro-da-babosa leva a um enorme problema na planta hospedeira. Sua presença causa um crescimento anormal e feio formando uma galha disforme que é adequadamente conhecida como câncer da babosa. Este câncer frequentemente possui uma aparência esponjosa e às vezes, mais do que apenas estranhos crescimentos das folhas, do caule e das inflorescências, ele aparece como um aglomerado de folhas malformadas.

Uma galha nada bela formada pelo ácaro-da-babosa. Foto de Colin Ralston.*

Esta malformação provavelmente tem efeitos negativos sobre o desempenho a planta, mas a principal preocupação se deve ao fato de ela tornar espécies ornamentais de babosa esteticamente desagradáveis. A forma mais simples de se livrar do ácaro-da-babosa é cortando as partes infectadas e as queimando.

Mas como eles chegam até a planta para começar? Bem, ácaros eriofiídeos geralmente usam o vento para serem carregados de um lugar para outro e o ácaro-da-babosa não é exceção. Então você pode conseguir curar sua planta com uma amputação, mas, se houver outras plantas infectadas na região, os ácaros podem logo estar de volta.

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Referências:

Deinhart N (2011) Tiny Monsters: Aceria alionis. Cactus and Succulent Journal 83(3): 120–122. doi: 10.2985/0007-9367-83.3.120

Villavicencio LE, Bethke JA, Dahlke B, Vander Mey B, Corkidi L (2014) Curative and preventive control of Aceria aloinis (Acari: Eriophyidae) in Southern California. Journal of Economic Entomology 107(6):2088-2094.

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*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição Não Comercial 4.0 Internacional

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Sexta Selvagem: Aranha-florinda

por Piter Kehoma Boll

Há muitos grupos de aranhas que são bem conhecidos pelo público em geral, como caranguejeiras, papa-moscas, aranhas-lobo, tecedoras de teias orbiculares… mas um grupo com um número muito grande de espécies, a família Linyphiidae, geralmente passa despercebido.

Aranhas da família Linyphiidae são comumente conhecidas como aranhas-anãs ou tecedoras de lençóis pelo formato de suas teias. Uma espécie comum no leste dos Estados Unidos, especialmente no sudeste, é Florinda coccinea. Conhecida em inglês como black-tailed red sheetweaver, não possui nome popular em português, então decidi chamá-la simplesmente de aranha-florinda. Tendo apenas de 3 a 4 mm de comprimento, a aranha-florinda possui um corpo vermelho e uma pontinha preta no abdome. As pernas são marrom-avermelhadas a pretas.

Aranha-florinda fêmea no Mississipi, EUA. Foto de Tiffany Stone.*

Machos e fêmeas são muito similares em tamanho, com os machos sendo apenas ligeiramente menores. Os sexos podem ser facilmente distinguidos pelo abdome e pelos pedipalpos como na maioria das aranhas. As fêmeas possuem pedipalpos menores e um abdome mais arredondado, enquanto machos possuem pedipalpos com uma expansão redonda na ponta e abdome mais esbelto.

Um macho na Flórida. Foto do usuário rsnyder11 do iNaturalist.*

A teia da aranha-florinda, como a de outras tecedoras de lençol, consiste de um lençol horizontal com alguns fios adicionais por cima. Insetos voadores, quando colidem com os fios, caem no lençol e são capturados pela aranha.

Aspecto típico da teia da aranha-florinda como vista em campo, aqui coberta de gotículas de orvalho. Foto do usuário ndrobinson do iNaturalist.**

O comportamento de acasalamento da aranha-florinda começa com o macho entrando na teia da fêmea. Ele geralmente corta fora parte da teia da fêmea e deposita teia nova no mesmo lugar. Depois disso, ele se aproxima da fêmea, toca todas as pernas dela com seu par de pernas anteriores e aí começa a pseudocópula, na qual introduz os tubos de seus pedipalpos na genitália da fêmea, mas, como eles ainda estão vazios, a cópula não pode acontecer. Após algum tempo nessa brincadeira, o macho constrói uma pequena teia triangular e deposita uma gota de esperma nela. Ele então coleta o esperma com seus pedipalpos e se aproxima da fêmea mais uma vez, dessa vez fecundando-a pra valer.

De novo, a ecologia e a história de vida da aranha-florinda não são bem estudadas. E o mesmo vale para quase todas as espécies da família Linyphiidae, mesmo sendo a segunda maior família de aranhas no planeta. Elas são pequeninas demais para que a maioria de nós se importe.

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Referências:

Robertson MW, Adler PH (1994) Mating behavior of Florinda coccinea (Hentz) (Araneae: Linyphiidae). Journal of Insect Behavior 7(3): 313–326. doi: 10.1007/BF01989738

Wikipedia. Blacktailed red sheetweaver. Disponível em < https://en.wikipedia.org/wiki/Blacktailed_red_sheetweaver >. Acesso em 23 de outubro de 2019.

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*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição Não Comercial e Compartilhamento Igual 4.0 Internacional.

**Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição Não Comercial 4.0 Internacional

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Sexta Selvagem: Carrapato-de-Rinoceronte

por Piter Kehoma Boll

Parasitas existem existem em todo lugar e, apesar de muitos de nós verem-nos como criaturas odiosas, mais da metade de todas as formas de vida conhecidas vivem como parasitas pelo menos em parte da vida. E provavelmente há muitos parasitas ainda desconhecidos por aí. Hoje vou falar sobre um deles, que é encontrado em grandes porções da África.

Seu nome é Dermacentor rhinocerinus, conhecido como o carrapato-de-rinoceronte. Como seu nome sugere, ele é um carrapato, portanto um ácaro parasita, e seu estágio adulto vive na pele dos rinocerontes-brancos (Ceratotherium simum) e dos criticamente ameaçados rinocerontes-negros (Diceros bicornis).

Um carrapato-de-rinoceronte macho preso à pele de um rinoceronte na África do Sul. Créditos ao usuário bgwright do iNaturalist.*

Machos e fêmeas do carrapato-de-rinoceronte são consideravelmente diferentes. Em machos, o corpo possui um fundo preto com muitas manchas laranjas grandes. Em fêmeas, por outro lado, o abdome é principalmente preto com somente duas grandes manchas laranjas e a placa no tórax é laranja com duas pequenas manchas pretas. Machos e fêmea acasalam na superfície dos rinocerontes. Após o acasalamento, a fêmea começa a aumentar de tamanho enquanto os ovos se desenvolvem dentro dela e então cai ao chão, pondo os ovos lá.

Um carrapato-de-rinoceronte fêmea esperando pacientemente que um rinoceronte passe por perto. Foto de Martin Weigand.*

As larvas, assim que eclodem, passam a procurar por outro hospedeiro, geralmente um mamífero de pequeno porte como roedores e musaranhos-elefantes. Elas se alimentam desse hospedeiro menor até atingirem o estágio adulto, quando então caem ao chão e sobem na vegetação ao redor, esperando que um rinoceronte passe por ali e então se agarrando a ele.

Esforços de conservação para preservar a biodiversidade são focados principalmente em vertebrados, especialmente aves e mamíferos. Rinocerontes, que são hospedeiros essenciais para o carrapato-de-rinoceronte sobreviver, são frequentemente parte de programas de conservação e, de maneira a aumentar seu sucesso reprodutivo, a prática de remover parasitas de sua pele é comum. Isso é, no entanto, ruim para os carrapatos-de-rinoceronte. Se seu hospedeiro está ameaçado, eles certamente estão ameaçados também, e removê-los piora ainda mais sua condição. Os parasitas são menos importantes para o planeta? Eles não merecem viver como qualquer outra forma de vida? Não podemos nos esquecer de que a natureza precisa de mais do que só aquilo que consideramos bonito.

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Mais ácaros e carrapatos:

Sexta Selvagem: Ácaro-de-Veludo-Vermelho-Gigante (em 22 de junho de 2016)

Sexta Selvagem: Ácaro-da-Lacerdinha-da-Figueira (em 28 de junho de 2019)

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Referências:

Horak IG, Fourie LJ, Braack LEO (2005) Small mammals as hosts of immature ixodid ticks. Onderstepoort Journal of Veterinary Research 72:255–261.

Horak IG, Cohen M (2001) Hosts of the immature stages of the rhinoceros tick, Dermacentor rhinocerinus (Acari, Ixodidae). Onderstepoort Journal of Veterinary Research 68:75–77.

Keirans JE (1993) Dermacentor rhinocerinus (Denny 1843) (Acari: Ixodida: Ixodidae): redescription of the male, female and nymph and first description of the larva. Onderstepoort Journal of Veterinary Research 60:59–68.

Mihalca AD, Gherman CM, Cozma V (2011) Coendangered hard ticks: threatened or threatening? Parasites & Vectors 4:71. doi: 10.1186/1756-3305-4-71

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Sexta Selvagem: Pseudoescorpião-Doméstico

por Piter Kehoma Boll

Aranhas, ácaros, opiliões e escorpiões são os aracnídeos mais bem conhecidos pelo público. No entanto outro grupo que possui muitas espécies, até mais que o dos escorpiões, é o dos pseudoescorpiões. Há uma boa chance de que alguns deles vivam bem próximos a você, especialmente se você pensar no Chelifer cancroides, o pseudoescorpião-doméstico.

Um pseudoescorpião-doméstico fotografado perto de Toronto, Canada. Foto de Ryan Hodnett.*

O nome pseudoescorpião vem do fato de estes aracnídeos se assemelharem a escorpiões, exceto pela ausência da cauda. Eles também são muito menores. O pseudoescorpião-doméstico é marrom e mede apenas cerca de 0,5 cm de comprimento e, como seu nome sugere, vive em residências humanas.

Pseudoscorpiões-domésticos machos defendem um pequeno território com um raio de apenas alguns centímetros. Eles permitem que fêmeas entrem no território e, durante o período de acasalamento, começam o comportamento de corte pelo qual iniciam uma dança que conduz a fêmea ao saco de esperma (espermatóforo) depositado no substrato. As fêmeas pegam o espermatóforo com seu orifício genital e usam o esperma para fertilizarem seus ovos.

Um gordão, provavelmente uma fêmea grávida, em Leibniz, Áustria. Foto de Gernot Kunz.**

Quando os ovos são postos, eles permanecem presos ao poro genital da fêmea e são cobertos coletivamente por uma membrana. Quando os filhotes eclodem dos ovos, eles ainda são larvas e permanecem dentro do saco formado pela membrana cobrindo os ovos. A fêmea então secreta uma substância parecida com leite de seu útero e as larvas se alimentam dela. Após sofrerem a primeira muda, as larvas, agora ninfas de primeiro ínstar, deixam a mãe e, após mais três mudas, atingem o estágio adulto.

Fêmea se alimentando de um ácaro. Foto de Roland Sachs.*

Apesar de poder passar despercebido na maioria das vezes, o pseudoescorpião-doméstico é uma espécie cosmopolita e comum, vivendo perto e dentro de casas. Seus pedipalpos, que se assemelham àqueles dos escorpiões, são muito longos e atingem quase 1 cm de comprimento quando estendidos. Como a maioria dos aracnídeos, eles são predadores e sua presença em habitações humanas pode ser bem útil pois eles se alimentam de criaturas menores e incômodas, como ácaros, percevejos e piolhos-dos-livros.

Se você encontrar um em sua casa, seja gentil e o agradeça pelo seu serviço.

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Referências:

Harvey MS (2014) A review and redescription of the cosmopolitan pseudoscorpion Chelifer cancroides (Pseudoscorpiones: Cheliferidae). Journal of Arachnology 42: 86–104.

Levi HW (1948) Notes on the life history of the pseudoscorpion Chelifer cancroides (Linn.) (Chelonethida). Transactions of the American Microscopical Society 67(3): 290–298. doi: 10.2307/3223197

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Sexta Selvagem: Ácaro-da-lacerdinha-da-figueira

por Piter Kehoma Boll

Semana passada, apresentei a lacerdinha-da-figueira, que se alimenta de várias figueira, incluindo a figueira-lacerdinha e a figueira-cubana. Hoje, continuaremos subindo pela cadeia alimentar e falaremos sobre um ácaro que é parasita da lacerdinha-da-figueira. Chamado Adactylidium gynaikothripsi, decidi dar a ele o nome comum de “ácaro-da-lacerdinha-da-figueira”.

O ácaro-da-lacerdinha-da-figueira foi descrito apenas em 2011 a partir de populações da lacerdinha-da-figueira na Grécia. Este é o quarto ácaro do gênero Adactylidium que se sabe que parasita a lacerdinha-da-figueira, os outros três sendo Adactylidium ficorum (“ácaro-da-figueira-lacerdinha”), A. brasiliensis (“ácaro-da-lacerdinha-brasileiro”) and A. fletchmani (“ácaro-da-lacerdinha-de-Fletchman”). Como você deve imaginar, para parasitar um inseto tão pequeno como a lacerdinha-da-figueira, estes ácaros precisam ser ainda menores, medindo cerca de 0,1 mm de comprimento.

Fêmea adulta do ácaro-da-lacerdinha-da-figueira. Extraído de Antonatos et al. (2011).

O ciclo de vida do ácaro-da-lacerdinha-da-figueira, que é basicamente o mesmo para todas as espécies de Adactylidium, é bem bizarro. Fêmeas adultas se alimentam dos ovos da lacerdinha-da-figueira. Elas começam sua vida adulta vagando sobre folhas de figueira procurando um ovo de lacerdinha adequado para atacarem. Uma vez que o acham, elas furam a casca do ovo com suas quelíceras e se prendem a eles como carrapatos, começando a comer. Elas se alimentam de um só ovo ao longo de toda a vida. Se elas não são capazes de encontrar um ovo, podem também se prender a uma lacerdinha adulta como último recurso, caso contrário morrerão em poucas horas.

Assim que a fêmea começa a comer, um pequeno grupo de ovos, geralmente entre 5 e 10, começa a se desenvolver dentro dela. Os ovos crescem durante as primeiras 48 horas após a fêmea se prender ao ovo, fazendo-a dobrar de tamanho e se tornando algo como um saco de ovos esférico. Os ovos eclodem por essa época e as larvas ficam dentro da mãe. Estas larvas não possuem peças bucais, portanto se acredita que absorvam nutrientes da mãe diretamente pela superfície corporal. Cerca de 24 horas mais tarde, as larvas se transformam em ninfas, que permanecem inativas dentro da pele descartada de larva. Elas também não possuem nenhuma peça bucal.

Fêmeas de ácaro-da-lacerdinha-da-figueira presas a ovos da lacerdinha-da-figueira. Extraído de Antonatos et al. (2011).*

Outras 24 se passam e as ninfas se transformam em ácaros adultos. Elas ainda estão dentro da mãe quando isso acontece. Os adultos são compostos sempre de um único macho e várias fêmeas. Este macho então começa a copular com as próprias irmãs, ainda dentro do abdome da mãe, e, quando a cópula termina, eles começam a rasgar o corpo da mãe em pedaços para se libertarem, matando-a no processo. Uma vez fora do corpo, o macho morre em poucos minutos, nunca comendo nada além do corpo da própria mãe. As fêmeas, por outro lado, começam a procurar por ovos de lacerdinha para se alimentarem, apenas para serem mortas pelos próprios filhos menos de 4 dias depois.

Este ciclo de vida inteiro pode parecer insano de nossa perspectiva humana, mas a natureza nunca esteve interessada em seguir nosso código moral.

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Referências:

Antonatos SA, Kapaxidi EV, Papadoulis, GT (2011) Adactylidium gynaikothripsi n. sp. (Acari: Acarophenacidae) associated with Gynaikothrips ficorum (Marshal) (Thysanoptera: Phlaeothripidae) from Greece. International Journal of Acarology, 37(sup1), 18–26. doi: 10.1080/01647954.2010.531763

Elbadry, EA, Tawfik, MSF (1966) Life Cycle of the Mite Adactylidium sp. (Acarina: Pyemotidae), a Predator of Thrips Eggs in the United Arab Republic. Annals of the Entomological Society of America, 59(3), 458–461. doi:10.1093/aesa/59.3.458

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Sexta Selvagem: Opilião-de-Escudo-Platense

por Piter Kehoma Boll

Sob troncos caídos e rochas na serapilheira de florestas e jardins em torno do Rio La Plata na Argentina e no Uruguai, você pode encontrar o camarada de hoje. Cientificamente conhecido como Discocyrtus prospicuus, é um opilião, um membro de um grupo de aracnídeos que lembram aranhas. Como de costume entre pequenos invertebrados escondidos, ele não possui um nome comum, de forma que cunhei o termo opilião-de-escudo-platense para me referir a ele.

Discocyrtus prospicuus em Buenos Aires, Argentina. Foto de Nicolas Olejnik.*

O opilião-de-escudo-platense pertence à família Gonyleptidae, que inclui opiliões com corpos impressionantemente armados e um prossoma (ou cefalotórax) com um formato triangular que lembra algum tipo de escudo. Ele possui uma cor marrom-avermelhada escura e duas poderosas patas traseiras armadas com vários espinhos.

O opilião-de-escudo-platense é encontrado em várias localidades da Argentina e do Uruguai, mas especialmente em áreas de floresta em torno do Rio La Plata e seus afluentes. Como de costume entre opiliões gonileptídeos, o opilião-de-escudo-platense depende de ambientes com um grau considerável de umidade.

Diferente da maioria dos aracnídeos, os opiliões geralmente são necrófagos onívoros, alimentando-se de matéria vegetal e animal morta, e o opilião-de-escudo-platense não é diferente. Em relações predador-presa, eles geralmente são a presa de outros animais, especialmente aranhas, como as aranhas-lobo que compartilham o mesmo hábitat. Quando está de frente para uma grande aranha que está prestes a caçá-lo, o opilião-de-escudo-platense pode usar uma série de mecanismos de defesa. Uma das formas mais simples de evitar ser comido é ficar imóvel ou se fingir de morto, um comportamento chamado tanatose. Quando está de frente para um opilião aparentemente morto, uma aranha-lobo geralmente o ignora completamente, como se ele nem mesmo estivesse lá. Quando isso não é suficiente para parar o ataque, o opilião pode usar estratégias adicionais como “mostrar a bunda” para a aranha ao levantar o abdome em direção ao predador e às vezes chutando a aranha com as patas traseiras. Outro mecanismo de defesa comum em opiliões é liberar compostos químicos com um odor forte e repulsivo, mas o opilião-de-escudo-platense não parece usá-lo frequentemente, ao menos não contra aranhas.

Pouco se sabe sobre a história natural do opilião-de-escudo-platense ou qualquer de seus parentes próximos. Como eu disse várias vezes antes, precisamos de mais pessoas estudando as pequenas criaturas que vivem ao nosso redor.

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Referências:

Costa LE, Guerrero EL (2011) Geographical distribution of Discocyrtus prospicuus (Arachnida: Opiliones: Gonyleptidae): Is there a pattern? Zootaxa 2043: 1–24.

Fernandes NS, Stanley E, Costa FG, Toscano-Gadea CA, Willemart RH (2017) Chemical sex recognition in the harvestman Discocyrtus prospicuus (Arachnida: Opiliones). Acta Ethologica 20(3): 215–221. doi: 10.1007/s10211-017-0264-5

Segalerba A, Toscano-Gadea CA (2016) Description of the Defensive Behaviour of Four Neotropical Harvestmen (Laniatores: Gonyleptidae) Against a Synchronic and Sympatric Wolf Spider (Araneae: Lycosidae). Arachnology 17(1): 52–58. doi:10.13156/arac.2006.17.1.52

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Sexta Selvagem: Perseguidor-da-Morte

por Piter Kehoma Boll

O nome da espécie da Sexta Selvagem de hoje soa intimidador, e é por uma boa razão. Cientificamente conhecido como Leiurus quinquestriatus, o perseguidor-da-morte, que também é conhecido como escorpião-palestino ou escorpião-israelense, é considerado uma das mais peçonhentas espécies de escorpião do mundo.

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Um perseguidor-da-morte em Israel. Foto do usário מינוזיג do Wikimedia.*

O perseguidor-da-morte é encontrado em regiões áridas do Norte da África e do Oriente Médio. Há duas subespécies, L. quinquestriatus quinquestriatus, encontrada na África da Algéria e do Níger até a Somália e o Sudão, e L. q. hebraeus encontrada da Turquia até o Irã e o Iêmen. Eles são escorpiões relativamente grandes, medindo até 11 cm de comprimento.

A peçonha do perseguidor-da-morte demonstrou conter uma variedade de diferentes neurotoxinas, incluindo vários inibidores de canais de potássio e cloreto, o que afeta a transmissão de impulsos nervosos através do sistema nervoso. Apesar de bastante dolorosa, a picada de um único escorpião dificilmente mataria um humano adulto saudável, mas tratamento médico imediato com antipeçonha é sempre requerido para evitar qualquer consequência desagradável. Crianças, idosos ou adultos com problemas de coração ou alergias, no entanto, podem facilmente morrer.

Uma das toxinas, clorotoxina, que afeta canais de cloreto, apresentou o potencial de ser usada no tratamento de tumores cerebrais.

Apesar do perigo, o perseguidor-da-morte é frequentemente criado como animal de estimação. Por quê? Porque humanos…

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Referências:

Castle, N. A.; Strong, P. N. (1986) Identification of two toxins from scorpion (Leiurus quinquestriatus) venom which block distinct classes of calcium-activated potassium channel. FEBS Letters 209(1): 117–121. DOI: 10.1016/0014-5793(86)81095-X

EOL – Encyclopedia of Life. Leiurus quinquestriatus. Disponível em < http://eol.org/pages/10208954/overview >. Acesso em 7 de janeiro de 2018.

Garcia, M. L.; Garcia-Calvo, M.; Hidalgo, P.; Lee, A.; McKinnon, R. (1994) Purification and Characterization of Three Inhibitors of Voltage-Dependent K+ Channels from Leiurus quinquestriatus var. hebraeusVenom. Biochemistry 33(22): 6834–6839. DOI: 10.1021/bi00188a012

Gueron, M.; Ilia, R.; Shahak, E.; Sofer, S. (1992) Renin and aldosterone levels and hypertension following envenomation in humans by the yellow scorpion Leiurus quinquestriatusToxicon 30(7): 765–767. DOI: 10.1016/0041-0101(92)90010-3

Lyons, S. A.; O’Neal, J.; Sontheimer, H. (2002) Chlorotoxin, a scorpion-derived peptide, specifically binds to gliomas and tumors of neuroectodermal origin. GLIA 39(2): 162–173. DOI: 10.1002/glia.10083

Sofer, S.; Gueron, M. (1988) Respiratory failure in children following envenomation by the scorpion Leiurus quinquestriatus: Hemodynamic and neurological aspects. Toxicon 26(10): 931–939. DOI: 10.1016/0041-0101(88)90258-9

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