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Sexta Selvagem: Ácaro-da-lacerdinha-da-figueira

por Piter Kehoma Boll

Semana passada, apresentei a lacerdinha-da-figueira, que se alimenta de várias figueira, incluindo a figueira-lacerdinha e a figueira-cubana. Hoje, continuaremos subindo pela cadeia alimentar e falaremos sobre um ácaro que é parasita da lacerdinha-da-figueira. Chamado Adactylidium gynaikothripsi, decidi dar a ele o nome comum de “ácaro-da-lacerdinha-da-figueira”.

O ácaro-da-lacerdinha-da-figueira foi descrito apenas em 2011 a partir de populações da lacerdinha-da-figueira na Grécia. Este é o quarto ácaro do gênero Adactylidium que se sabe que parasita a lacerdinha-da-figueira, os outros três sendo Adactylidium ficorum (“ácaro-da-figueira-lacerdinha”), A. brasiliensis (“ácaro-da-lacerdinha-brasileiro”) and A. fletchmani (“ácaro-da-lacerdinha-de-Fletchman”). Como você deve imaginar, para parasitar um inseto tão pequeno como a lacerdinha-da-figueira, estes ácaros precisam ser ainda menores, medindo cerca de 0,1 mm de comprimento.

Fêmea adulta do ácaro-da-lacerdinha-da-figueira. Extraído de Antonatos et al. (2011).

O ciclo de vida do ácaro-da-lacerdinha-da-figueira, que é basicamente o mesmo para todas as espécies de Adactylidium, é bem bizarro. Fêmeas adultas se alimentam dos ovos da lacerdinha-da-figueira. Elas começam sua vida adulta vagando sobre folhas de figueira procurando um ovo de lacerdinha adequado para atacarem. Uma vez que o acham, elas furam a casca do ovo com suas quelíceras e se prendem a eles como carrapatos, começando a comer. Elas se alimentam de um só ovo ao longo de toda a vida. Se elas não são capazes de encontrar um ovo, podem também se prender a uma lacerdinha adulta como último recurso, caso contrário morrerão em poucas horas.

Assim que a fêmea começa a comer, um pequeno grupo de ovos, geralmente entre 5 e 10, começa a se desenvolver dentro dela. Os ovos crescem durante as primeiras 48 horas após a fêmea se prender ao ovo, fazendo-a dobrar de tamanho e se tornando algo como um saco de ovos esférico. Os ovos eclodem por essa época e as larvas ficam dentro da mãe. Estas larvas não possuem peças bucais, portanto se acredita que absorvam nutrientes da mãe diretamente pela superfície corporal. Cerca de 24 horas mais tarde, as larvas se transformam em ninfas, que permanecem inativas dentro da pele descartada de larva. Elas também não possuem nenhuma peça bucal.

Fêmeas de ácaro-da-lacerdinha-da-figueira presas a ovos da lacerdinha-da-figueira. Extraído de Antonatos et al. (2011).*

Outras 24 se passam e as ninfas se transformam em ácaros adultos. Elas ainda estão dentro da mãe quando isso acontece. Os adultos são compostos sempre de um único macho e várias fêmeas. Este macho então começa a copular com as próprias irmãs, ainda dentro do abdome da mãe, e, quando a cópula termina, eles começam a rasgar o corpo da mãe em pedaços para se libertarem, matando-a no processo. Uma vez fora do corpo, o macho morre em poucos minutos, nunca comendo nada além do corpo da própria mãe. As fêmeas, por outro lado, começam a procurar por ovos de lacerdinha para se alimentarem, apenas para serem mortas pelos próprios filhos menos de 4 dias depois.

Este ciclo de vida inteiro pode parecer insano de nossa perspectiva humana, mas a natureza nunca esteve interessada em seguir nosso código moral.

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Referências:

Antonatos SA, Kapaxidi EV, Papadoulis, GT (2011) Adactylidium gynaikothripsi n. sp. (Acari: Acarophenacidae) associated with Gynaikothrips ficorum (Marshal) (Thysanoptera: Phlaeothripidae) from Greece. International Journal of Acarology, 37(sup1), 18–26. doi: 10.1080/01647954.2010.531763

Elbadry, EA, Tawfik, MSF (1966) Life Cycle of the Mite Adactylidium sp. (Acarina: Pyemotidae), a Predator of Thrips Eggs in the United Arab Republic. Annals of the Entomological Society of America, 59(3), 458–461. doi:10.1093/aesa/59.3.458

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Sexta Selvagem: Opilião-de-Escudo-Platense

por Piter Kehoma Boll

Sob troncos caídos e rochas na serapilheira de florestas e jardins em torno do Rio La Plata na Argentina e no Uruguai, você pode encontrar o camarada de hoje. Cientificamente conhecido como Discocyrtus prospicuus, é um opilião, um membro de um grupo de aracnídeos que lembram aranhas. Como de costume entre pequenos invertebrados escondidos, ele não possui um nome comum, de forma que cunhei o termo opilião-de-escudo-platense para me referir a ele.

Discocyrtus prospicuus em Buenos Aires, Argentina. Foto de Nicolas Olejnik.*

O opilião-de-escudo-platense pertence à família Gonyleptidae, que inclui opiliões com corpos impressionantemente armados e um prossoma (ou cefalotórax) com um formato triangular que lembra algum tipo de escudo. Ele possui uma cor marrom-avermelhada escura e duas poderosas patas traseiras armadas com vários espinhos.

O opilião-de-escudo-platense é encontrado em várias localidades da Argentina e do Uruguai, mas especialmente em áreas de floresta em torno do Rio La Plata e seus afluentes. Como de costume entre opiliões gonileptídeos, o opilião-de-escudo-platense depende de ambientes com um grau considerável de umidade.

Diferente da maioria dos aracnídeos, os opiliões geralmente são necrófagos onívoros, alimentando-se de matéria vegetal e animal morta, e o opilião-de-escudo-platense não é diferente. Em relações predador-presa, eles geralmente são a presa de outros animais, especialmente aranhas, como as aranhas-lobo que compartilham o mesmo hábitat. Quando está de frente para uma grande aranha que está prestes a caçá-lo, o opilião-de-escudo-platense pode usar uma série de mecanismos de defesa. Uma das formas mais simples de evitar ser comido é ficar imóvel ou se fingir de morto, um comportamento chamado tanatose. Quando está de frente para um opilião aparentemente morto, uma aranha-lobo geralmente o ignora completamente, como se ele nem mesmo estivesse lá. Quando isso não é suficiente para parar o ataque, o opilião pode usar estratégias adicionais como “mostrar a bunda” para a aranha ao levantar o abdome em direção ao predador e às vezes chutando a aranha com as patas traseiras. Outro mecanismo de defesa comum em opiliões é liberar compostos químicos com um odor forte e repulsivo, mas o opilião-de-escudo-platense não parece usá-lo frequentemente, ao menos não contra aranhas.

Pouco se sabe sobre a história natural do opilião-de-escudo-platense ou qualquer de seus parentes próximos. Como eu disse várias vezes antes, precisamos de mais pessoas estudando as pequenas criaturas que vivem ao nosso redor.

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Referências:

Costa LE, Guerrero EL (2011) Geographical distribution of Discocyrtus prospicuus (Arachnida: Opiliones: Gonyleptidae): Is there a pattern? Zootaxa 2043: 1–24.

Fernandes NS, Stanley E, Costa FG, Toscano-Gadea CA, Willemart RH (2017) Chemical sex recognition in the harvestman Discocyrtus prospicuus (Arachnida: Opiliones). Acta Ethologica 20(3): 215–221. doi: 10.1007/s10211-017-0264-5

Segalerba A, Toscano-Gadea CA (2016) Description of the Defensive Behaviour of Four Neotropical Harvestmen (Laniatores: Gonyleptidae) Against a Synchronic and Sympatric Wolf Spider (Araneae: Lycosidae). Arachnology 17(1): 52–58. doi:10.13156/arac.2006.17.1.52

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*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição Não Comercial 4.0 Internacional

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Sexta Selvagem: Perseguidor-da-Morte

por Piter Kehoma Boll

O nome da espécie da Sexta Selvagem de hoje soa intimidador, e é por uma boa razão. Cientificamente conhecido como Leiurus quinquestriatus, o perseguidor-da-morte, que também é conhecido como escorpião-palestino ou escorpião-israelense, é considerado uma das mais peçonhentas espécies de escorpião do mundo.

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Um perseguidor-da-morte em Israel. Foto do usário מינוזיג do Wikimedia.*

O perseguidor-da-morte é encontrado em regiões áridas do Norte da África e do Oriente Médio. Há duas subespécies, L. quinquestriatus quinquestriatus, encontrada na África da Algéria e do Níger até a Somália e o Sudão, e L. q. hebraeus encontrada da Turquia até o Irã e o Iêmen. Eles são escorpiões relativamente grandes, medindo até 11 cm de comprimento.

A peçonha do perseguidor-da-morte demonstrou conter uma variedade de diferentes neurotoxinas, incluindo vários inibidores de canais de potássio e cloreto, o que afeta a transmissão de impulsos nervosos através do sistema nervoso. Apesar de bastante dolorosa, a picada de um único escorpião dificilmente mataria um humano adulto saudável, mas tratamento médico imediato com antipeçonha é sempre requerido para evitar qualquer consequência desagradável. Crianças, idosos ou adultos com problemas de coração ou alergias, no entanto, podem facilmente morrer.

Uma das toxinas, clorotoxina, que afeta canais de cloreto, apresentou o potencial de ser usada no tratamento de tumores cerebrais.

Apesar do perigo, o perseguidor-da-morte é frequentemente criado como animal de estimação. Por quê? Porque humanos…

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Referências:

Castle, N. A.; Strong, P. N. (1986) Identification of two toxins from scorpion (Leiurus quinquestriatus) venom which block distinct classes of calcium-activated potassium channel. FEBS Letters 209(1): 117–121. DOI: 10.1016/0014-5793(86)81095-X

EOL – Encyclopedia of Life. Leiurus quinquestriatus. Disponível em < http://eol.org/pages/10208954/overview >. Acesso em 7 de janeiro de 2018.

Garcia, M. L.; Garcia-Calvo, M.; Hidalgo, P.; Lee, A.; McKinnon, R. (1994) Purification and Characterization of Three Inhibitors of Voltage-Dependent K+ Channels from Leiurus quinquestriatus var. hebraeusVenom. Biochemistry 33(22): 6834–6839. DOI: 10.1021/bi00188a012

Gueron, M.; Ilia, R.; Shahak, E.; Sofer, S. (1992) Renin and aldosterone levels and hypertension following envenomation in humans by the yellow scorpion Leiurus quinquestriatusToxicon 30(7): 765–767. DOI: 10.1016/0041-0101(92)90010-3

Lyons, S. A.; O’Neal, J.; Sontheimer, H. (2002) Chlorotoxin, a scorpion-derived peptide, specifically binds to gliomas and tumors of neuroectodermal origin. GLIA 39(2): 162–173. DOI: 10.1002/glia.10083

Sofer, S.; Gueron, M. (1988) Respiratory failure in children following envenomation by the scorpion Leiurus quinquestriatus: Hemodynamic and neurological aspects. Toxicon 26(10): 931–939. DOI: 10.1016/0041-0101(88)90258-9

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*Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 4.0 Internacional.

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