Arquivo do mês: março 2014

Sexta Selvagem: Suiriri

por Piter Kehoma Boll

Esta é a primeira ave apresentada na Sexta Selvagem e eu a escolhi por uma razão especial: seu nome científico é Tyrannus melancholicus, o tirano melancólico. Não é quase poético?

Encontrado do sul dos Estados Unidos até a metade norte da Argentina, o suiriri é bem adaptado a áreas antropizadas, de forma que é facilmente avistado ao longo de estradas ou em jardins e parques. Populações habitando áreas com estações bem marcadas geralmente migram para áreas mais quentes, especialmente para o sul dos Estados Unidos, durante o inverno no hemisfério sul.

Suiriri em São Paulo, Brasil. Foto de Dario Sanches*.

Suiriri em São Paulo, Brasil. Foto de Dario Sanches*.

Suiriris são principalmente predadores, capturando insetos que interceptam durante o voo. Eles não parecem muito sensíveis às defesas químicas de borboletas, comendo até mesmo algumas espécies não-palatáveis e espécies com padrões de coloração similares, apesar de que algumas espécies altamente desagradáveis são de fato rejeitadas. Ocasionalmente eles também podem comer frutas.

Durante a estação de acasalamento, eles formam casais e constroem juntos um ninho em forma de tigela usando ramos pequenos, palha e fios de nylon e plástico. A fêmea geralmente põe três ovos no ninho e ambos os pais os chocam e cuidam dos filhotes.

Como consequência de sua adaptabilidade a humanos, não é considerada ameaçada de forma alguma, ao menos até o momento, e possui o status de pouco preocupante (LC) pela IUCN.

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Referências:

Cintra, R. 1997. Spatial Distribution and Foraging Tactics of Tyrant Flycatchers in Two Habitats in the Brazilian Amazon. Studies on Neotropical Fauna and Environment, 32 (1), 17-27 DOI: 10.1076/snfe.32.1.17.13459

Legal, E. 2007. Aspectos da nidificação do siriri, Tyrannus melancholicus (Vieillot, 1819), (Aves, Tyrannidae) em Santa Catarina. Atualidades Ornitológicas On-line, 140, 51-52

Pinheiro, C. E. G. 1996. Palatablility and escaping ability in Neotropical butterflies: tests with wild kingbirds (Tyrannus melancholicus, Tyrannidae) Biological Journal of the Linnean Society, 59 (4), 351-365 DOI: 10.1111/j.1095-8312.1996.tb01471.x

Wikipedia. Tropical Kingbird. Disponível em < http://en.wikipedia.org/wiki/Tropical_Kingbird >. Acesso em 27 de março de 2014.

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Sexta Selvagem: Palmeira-de-cera-de-Quindio

por Piter Kehoma Boll

Então a Sexta Selvagem está de volta! Depois de quase um ano… mas está!

Para reiniciar esta seção, decidi falar sobre uma planta interessante que pode ser encontrada na região onde a misteriosa Leimacopsis terricola foi encontrada no século XIX: a palmeira-de-cera-de-Quindio, ou palma de cera del Quindío, em espanhol.

Esta palmeira, que pertence à espécie Ceroxylon quindiuense, é a árvore nacional da Colômbia e nativa do Vale Cocora, um vale de alta altitude da região andina no departamento de Quindío, Colômbia, de onde era considerada basicamente endêmica. Contudo recentemente uma população significativa foi encontrada mais ao sul nos andes do norte do Peru.

Ceroxylon quindiuense no Vale Cocora, Quindío, Colômbia. Foto de Diego Torquemada*

Ceroxylon quindiuense no Vale Cocora, Quindío, Colômbia. Foto de Diego Torquemada*

Como todas as espécies de Ceroxylon (“madeira de cera” em grego), a palmeira-de-cera-de-Quindío tem um tronco cilíndrico coberto com uma cera branca marcada por cicatrizes deixadas por bases foliares. Também é a palmeira mais alta do mundo, atingindo até 60 m de altura ou até mais.

Até o começo do século XX, ela era uma espécie muito abundante na Colômbia, mas sua população já estava sendo reduzida devido a várias atividades, principalmente por ser colhida como uma fonte importante para a fabricação de velas durante o século XIX. Além disso, até muito recentemente, folhas jovens eram cortadas para ser usadas no Domingo de Ramos, levando à morte ou retardamento do crescimento. Hoje em dia ambas as práticas estão amplamente reduzidas, mas a espécie ainda está ameaçada por outras atividades. A criação de gado tornou a maior parte da floresta onde a palmeira-de-cera-de-Quindio cresce em pasto e, apesar de haver um grande número de árvores crescendo no pasto, não há indivíduos jovens, visto que todas (ou quase todas) as mudas são comidas pelo gado. Por isso, ela é considerada em perigo (EN) na Lista Vermelha de Plantas da Colômbia e Vulnerável (VU) pela IUCN. Como uma iniciativa para salvar a espécie, ela é legalmente protegida na Colômbia desde 1985, quando se tornou a árvore nacional do país.

A redução das populações de palmeira-de-cera também ameaça espécies associadas a elas, como o papagaio-de-orelha-amarela, que faz seus ninhos nos troncos ocos das palmeiras-de-cera e é uma espécie ameaçada de acordo com a IUCN. Mas esse é assunto para outra sexta…

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Referências:

Bernal, R. & Sanín, M. J. 2013. Los palmares de Ceroxylon quindiuense (Arecaceae) en el Valle de Cocora, Quindío: perspectivas de un ícono escénico de Colombia. Colombia Florestal, 16 (1), 67-79

Salaman, P. G., López-Lanús, B. & Krabbe, N. 1991. Critically endangered: Yellow-eared Parrot Ognorhynchus icterotis in Colombia Cotinga, 11, 39-41

Sanín, M. J. & Galeano, G. 2011. A revision of the Andean wax palms, Ceroxylon (Arecaceae). Phytotaxa, 34, 1-64

Wikipedia. Ceroxylon quindiuense. Disponível online em < http://en.wikipedia.org/wiki/Ceroxylon_quindiuense >. Acesso em 20 de março de 2014.

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O que na Terra é Leimacopsis terricola? Um mistério platelmíntico.

por Piter Kehoma Boll

Ah, os velhos tempos…

Os séculos XVIII e XIX foram bem marcados por expedições mundiais de naturalistas a bordo de navios viajando ao redor do mundo. Charles Darwin é certamente o mais famoso deles, mas ele não foi o único.

Um destes naturalistas foi Karl Ludwig Schmarda, nascido em 1819. Ele estudou em Viena e foi posteriormente um professor em Graz, Áustria. De 1853 a 1857, ele viajou ao redor do mundo investigando várias localidades e coletando primariamente invertebrados. Depois de seu retorno, ele publicou um trabalho entitulado Neue wirbellose Thiere beobachtet und gesammelt auf einer Reise um die Erde 1853 bis 1857 (Novos animais invertebrados observados e amostrados em uma viagem ao redor da Terra, 1853 a 1857).

Entre os incontáveis animais que ele descreveu havia um verme que ele chamou de Prostheceraeus terricola. A descrição é como segue:

Prostheceraeus terricola. Schmarda.
Taf. VI. Fig. 69.

Char. : Corpus oblongo-lanceolatum. Dorsum convexum viride. Fascia mediana et margo purpureus. Tentacula subuliformia.

Der Körper ist weniger flach als in andern Planarien, länglich, hinten lanzettförmig zugespitzt, vorne beinahe quer abgeschnitten. Die Fühler sind kurz und pfriemenförmig zugespitzt. Der Rücken ist stark convex, fast grasgrün, mit einer purpurrothen Längslinie nach seinem ganzen Verlaufe. Der Rand nicht wellenförmig, purpurroth gesäumt. Die Hauchfläche ist grünlichgrau. Die Länge 20mm, grösste Breite 5mm. Die Augen sind am innern Rande und der Basis der Fühler. Die Gruppe im Nacken, habe ich nicht beobachtet. Die Mundöffnung ist im vordern Drittel. Die Geschlechtsöffnungen habe ich nicht aufgefunden.
Der Grund meiner unvollständigen Kenntniss dieser Thierform ist der Umstand, dass ich nur ein Exemplar in dem obern Theile des Quindiu-Passes ober der Region der Bergpalmen gefunden hatte, welches ich in Gallego skizzirte, das aber schon zu Grunde gegangen war, als ich es in meiner Abendstation in Tocho einer wiederholten nähern Prüfung unterziehen wollte.

Em português:

Corpo oblongo-lanceolado. Dorso convexo verde. Listras mediana e marginais roxas. Tentáculos em forma de furador.

O corpo é menos achatado que em outras planárias, alongado, atrás pontudo e lanceolado, na frente quase transversalmente cortado. Os sensores são curtos e em formato de furador. O dorso é fortemente convexo, quase verde-grama com uma linha roxa correndo completamente ao longo dele. Margem não ondulada e colorida de roxo. A superfície ventral é cinza esverdeado. Comprimento de 20 mm, largura máxima 5 mm. Os olhos são na borda interna e na base dos sensores. O grupo no pescoço em não observei. A abertura da boca é no terço anterior. A abertura sexual eu não encontrei.
A razão do meu conhecimento incompleto desta forma animal é devido à circunstância de encontrar apenas um espécime na parte superior da passagem Quindiu acima da região das palmeiras das montanhas, o qual rascunhei em Gallego, visto que ele já estava se deteriorando, para fazer uma revisão ao voltar para a estação em Tocho.

Aqui você pode ver um desenho do animal:

Desenho de Prostheceraeus terricola por Schmarda, 1859

Desenho de Prostheceraeus terricola por Schmarda, 1859

Schmarda pôs outros vermes no mesmo gênero, todos eles marinhos. O gênero é válido até hoje para espécies marinhas e elas são classificadas como pertencendo a Polycladida, aqueles belos platelmintos marinhos.

De fato, este animal na verdade se parece um pouco com um policladido, mas Schmarda o encontrou no topo das montanhas! Isso é bem incomum, e infelizmente ele encontrou somente um espécime.

Prostheceraeus giesbrechtii, outra espécie descrita por Schmarda (1859). Foto de Parent Géry.

Prostheceraeus giesbrechtii, outra espécie descrita por Schmarda (1859). Foto de Parent Géry.

Mais tarde, em 1862, K. M. Diesing fez uma revisão de turbelários e definiu que, como a criatura vivia na terra, ela certamente era uma coisa diferente de um policladido e a mudou para um novo gênero que ele chamou de Leimacopsis (semelhante a lesma):

XVIII. LEIMACOPSIS DIESING.
Prostheceraei spec. Schmarda.

Corpus elongato-lanceolatum, supra convexum. Caput corpore continuum antice truncatum, tentaculis duobus genuinis frontalibus. Ocelli numerosi tentaculorum. Os ventrale antrorsum situm, oesophago… Apertura genitalis. . . Terrestres, Americae tropicae.

1. Leimacopsis terricola DIESING.
Corpus elongato-lanceolatum, supra convexum, viride, vitta mediana corpori aequilonga et marginibus haud undulatis purpureis, subtus viridi-cinereum. Tentacula subuliformia, brevia. Ocelli ad marginem internum et ad basim tentaculorum. Os in anteriore corporis tertia parte. Longit. 10′”, latit. 2 1/3 “.
Prostheceraeus terricola Schmarda: Neue wirbell. Th. I. 1. 30. Tab. VI. 69.
Habitaculum. In parte superiore transitus Andium Quindiu, supra regionem Palmarum montanarum (Bergpalmen), specimen unicum (Schmarda).

É basicamente uma repetição da descrição de Schmarda e baseada somente nela. Parece que mais nenhum outro espécime fora encontrado até este tempo.

Anos mais tarde, em 1877, H. N. Moseley publicou um catálogo de todas as planárias terrestres conhecidas até o momento. Ele incluiu Leimacopsis terricola com a seguinte descrição:

Family. — Leimacopsidæ, Diesing.

Genus Leimacopsis. — Diesing, Revision der Turbellarien, Abtheilung Dendrocoelen, Sitzbt. Akad. Wiss., Wien, 1861, p. 488.
Leimacopsis terricola.—Diesing, 1. c.
Prostheraceus terricola. — Schmarda, ‘Neue Wirbellose Thiere,’ Th. 1, 1—30, Tab. VI, fig. 69.
With a pair of true frontal tentacles beset with numerous eyes. Occurs high up in the Andes at the pass of Quindiu, above the region of mountain palms.

Como pode-se ver, é novamente uma simples repetição da descrição de Schmarda baseada naquele único espécie de 20 anos antes, mas a partir de Diesing o animal passou a ser considerado uma planária terrestre em vez de um policladido.

Depois em 1899, Ludwig von Graff publicou sua grande monografia dos turbelários e eu estou certo de ter visto algo sobre Leimacopsis lá. Infelizmente nunca encontrei uma versão digital e não tenho uma cópia física de fácil acesso, mas de acordo com Ogren (1992), é só uma repetição de Schmarda. Graff, contudo, trocou a ortografia para Limacopsis, mas isso não é válido de acordo com o Código Internacional de Nomenclatura Zoológica.

Em 1914, finalmente um novo artigo, por O. Fuhrmann, foi publicado sobre planárias terrestres da Colômbia. Ele começa comentando que havia somente três espécies conhecidas para o país para esse momento, um deles sendo Limacopsis [sic] terricola. Contudo a espécie não foi encontrada de novo nessa ocasião…

Os anos se passaram e nada mudou. Em 1991, Ogren & Kawakatsu, em parte de seu índice de espécies de planárias terrestres, comentam que vários pesquisadores, incluindo E. M. Froehlich e L. H. Hyman, consideravam Leimacopsis terricola como sendo possivelmente uma lesma.

Em 1992, Robert Ogren escreveu uma revisão excelente desta espécie, a qual apresenta toda a informação que dei aqui e muito mais. Ele concluiu que o organismo é uma species inquerenda (que necessita de mais investigação) e nomen dubium (nome duvidoso). Não é possível considerar o animal nem como planária nem como molusco, ou qualquer outra coisa devido à falta de informação. Ogren o considerou como “claramente pertencendo ao mundo da criptozoologia”.

Como podemos ver, os criptídeos não precisam ser animais grandes como dinossauros ou pés-grandes. Mesmo pequenos vermes parecidos com lesmas dos Andes podem servir.

Leimacopsis terricola é certamente um organismo interessante. O que ele era realmente? Ele era real? Talvez uma pesquisa extensiva na árvore pudesse revelar algo… ou não. Vamos esperar… ou quem sabe… que tal ir para uma aventura na região andina colombiana em busca desta misteriosa criatura?

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Referências:

Diesing, K. M. 1862. Revision der Turbellarien. Abtheilung: Dendrocoelen. Keiserlich-Königlichen Hof- und Staatsdruckerei DOI: 10.5962/bhl.title.2108

Fuhrmann, O. 1914. Planaires terrestres de Colombie. In: Fuhrmann & Mayor (eds.) Voyage d’Exploration Scientifique en Colombie. Mémoires de la Société des sciences naturelles de Neuchâtel, 5 (2), 748-792

Moseley, H. 1874. On the Anatomy and Histology of the Land-Planarians of Ceylon, with Some Account of Their Habits, and a Description of Two New Species, and with Notes on the Anatomy of Some European Aquatic Species. Philosophical Transactions of the Royal Society of London, 164, 105-171 DOI: 10.1098/rstl.1874.0005

Ogren, R. E. 1992. The systematic position of the cryptic land organism, Leimacopsis terricola (Schmarda, 1859)(olim Prostheceraeus)(Platyhelminthes). Journal of The Pennsylvania Academy of Science, 66 (3), 128-134

Ogren, R. E. & Kawakatsu, M. 1991. Index to the species of the family Geoplanidae (Turbellaria, Tricladida, Terricola) Part II: Caenoplaninae and Pelmatoplaninae. Bulletin of Fuji Women’s College, 29, 35-58

Schmarda, L. K. 1859. Thiere beobachtet und gesammelt auf einer Reise um die Erde 1853 bis 1857. Lepizig: W. Engelmann. DOI: 10.5962/bhl.title.14426

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