Arquivo do mês: maio 2019

Sexta Selvagem: Percebe-Comum

por Piter Kehoma Boll

A superfície do oceano aberto pode a princípio parecer um grande lençol sem vida. Contudo, se você olhar mais de perto, verá que há muito mais vida lá do que poderia imaginar. E esta vida não inclui apenas o plâncton microscópico que flutua na coluna d’água, mas também grandes organismos que moram no limite entre a água e o ar. Essas criaturas são chamadas de nêuston e ocorrem em diversas formas, e uma delas é a Lepas anserifera, ou percebe-comum.

Vários percebes-comuns encontrados crescendo em um osso de sépia na costa oeste da Índia. As pernas modificadas (cirros) estão expostas, procurando comida. Foto de Abhishek Jamalabad.*

O percebe-comum é encontrado em águas tropicais e subtropicais ao redor do mundo todo. Ele pertence à subclasse Cirripedia, um grupo peculiar de crustáceos comumente conhecidos como cracas e percebes. Eles vivem presos ao substrato e são hermafroditas, ambas características que são incomuns entre artrópodes. Dentro da subclasse Cirripedia, o percebe-comum pertence à ordem Pedunculata, conhecidos como percebes, e que são caracterizados pela presença de um pedúnculo que os prende ao substrato.

Perecebe-comum em Taiwan. Um espécime menor é visto crescendo em um maior. Foto de Liu JimFood.*

O substrato escolhido pelo percebe-comum é quase exclusivamente material flutuante. Este material, que inclui algas marinhas e todo tipo de detritos, como pedaços de madeira, cocos e carcaças de animais, raramente permanece flutuando por muito tempo, ou porque sua decomposição o faz afundar ou porque ele acaba indo parar na praia. Assim, o percebe precisa encontrar uma maneira de completar seu ciclo de vida muito rapidamente, e é isso que ele faz.

Percebes-comuns crescendo numa maçã que deve ter flutuado por algum tempo e acabou na praia no estado da Bahia, no Brasil. Foto do usuário kuroshio do iNaturalist.**
Percebes-comuns crescendo sobre uma lâmpada elétrica que foi jogada na praia em Palau Pinang, na Malásia. Foto de Al Kordesch.

Percebes começam suas vidas como larvas planctônicas de apenas um olho e que, após cinco estágios, se desenvolvem em outra forma larval conhecida como ciprídeo. O único propósito do ciprídeo é encontrar uma superfície adequada para viver e, assim que a encontra, secreta uma substância glicoproteica que o prende ao substrato pela cabeça. Ele então se desenvolve em um animal adulto que secreta uma série de placas calcificadas que rodeiam seu corpo. O adulto usa sua patas plumosas (cirros) para capturar alimento, principalmente plâncton, e o carregar para dentro da concha.

Percebes-comuns crescendo numa escova que parou na praia em New Jersey, EUA. Foto de Stan Rullmann.**

Devido a atividades humanas, a quantidade de material flutuante na superfície dos oceanos aumentou grandemente. Assim, o número de substratos disponíveis para o percebe-comum também aumentou, e da mesma forma provavelmente sua população também aumentou. Infelizmente, o material flutuante gerado por humanos também inclui muitas pequenas partículas de plástico, e percebes frequentemente as ingerem junto com o alimento. Apesar de o dano causado pela ingestão de partículas de plástico ainda não ter sido averiguado, elas certamente não melhoram a saúde do percebe.

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Referências:

Goldstein MC, Goodwin DS (2013) Gooseneck barnacles (Lepas spp.) ingest microplastic debris in the North Pacific Subtropical Gyre. PeerJ 1: e184. doi:10.7717/peerj.184

Inatsuchi A, Yamato S, Yusa Y (2010) Effects of temperature and food availability on growth and reproduction in the neustonic pedunculate barnacle Lepas anserifera. Marine Biology 157(4): 899–905. doi: 10.1007/s00227-009-1373-0

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*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição Não Comercial e Compartilhamento Igual 4.0 Internacional.

**Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição Não Comercial 4.0 Internacional

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Quarta de Quem: Louis-Jean-Marie Daubenton

por Piter Kehoma Boll

Depois de algumas semanas falando de pesquisadores de tempos mais recentes, hoje vamos voltar aos velhos naturalistas do século XVIII.

Hoje comemoramos o aniversário de Louis-Jean-Marie Daubenton, que nasceu em 29 de maio de 1716 em Montbard, Côte-d’Or, França. Seu pai, Jean Daubenton, era um notário e queria que seu filho se tornasse padre, assim enviando-o a Paris para estudar Teologia. O desejo de Daubenton, no entanto, era estudar medicina. Felizmente para ele (eu acho), seu pai morreu em 1736, quando Daubenton estava com 20 anos, e assim ele ficou livre para estudar o que bem quisesse.

Estudando medicina em Reims, Daubenton se graduou em 1741 e voltou a Montbard. Sua intenção era trabalhar lá como médico em tempo integral, mas as coisas mudaram um pouco somente um ano depois. O naturalista Georges-Louis Leclerc de Buffon, também de Montbard, estava planejando escrever um trabalho de vários volumes sobre História Natural, chamado Histoire naturelle, générale et particulière, e, em 1742, convidou Daubenton para ajudá-lo, especialmente com descrições anatômicas.

Devido a sua parceria com Buffon, Daubenton se tornou membro da Academia de Ciências Francesa em 1744 como botânico adjunto. Durante esse tempo, Buffon era o curador do Jardin du Roi (atualmente Jardin des plantes), o principal jardim botânico da França até hoje, e apontou Daubenton como mantenedor e demonstrador do gabinete do Rei.

Em 1749, o primeiro volume da Histoire Naturelle de Buffon foi finalmente publicado, apesar de a maioria das contribuições de Daubteon só aparecer a partir do quarto volume publicado em 1753. O trabalho incluía descrições detalhadas de 182 quadrúpedes (mamíferos) dadas por Daubenton e aumentaram sua reputação como anatomista comparativo.

Retrato de Daubenton em 1791 por Alexander Roslin.

Daubenton se tornou um dos contribuidores da famosa Encyclopédie, a primeira enciclopédia a ser escrita, escrevendo principalmente artigos sobre história natural. Ele também publicou muitos artigos nas memórias da Académie Royale des Sciences de Paris, especialmente em anatomia comparada, mas também em agricultura e mineralogia. Ele se tornou professor de mineralogia no Jardin du Roi e mais tarde também ensinou história natural no Colégio de Medicina (a partir de 1775) e economia rural no Colégio Alfort (a partir de 1783).

As opiniões políticas controversas dos escritores da Encyclopédie, que desconsideravam o Catolicismo e a Realeza, ajudaram a preparar o cenário que levou à Revolução Francesa. Em dezembro de 1799, ao fim da Revolução, Daubenton, que já estava com 83, foi apontado membro do Senado. Contudo, durante a primeira reunião em que participou, ele caiu de sua cadeira após sofrer um derrame e morreu em Paris em primeiro de janeiro de 1800.

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Referências:

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Arquivado em Biografias

Fiquem que nem líquen: folhas disfarçadas de tronco para evitar serem comidas

por Piter Kehoma Boll

Todos estamos familiarizados com animais de muitas espécies que desenvolveram mecanismos interessantes para evitar serem comidos. Isso inclui, por exemplo, animais que se parecem com partes de plantas:

O famoso bicho-folha-gigante Phyllium giganteum. Foto de Bernard Dupont.**

e animais que se mesclam com o fundo:

Um chacal-da-África-Oriental, Canis mesomelas, na Savana. Consegue vê-lo? Foto de Nevit Dilmen.***

Também há animais que se parecem com outros animais não palatáveis ou perigosos para afastar os predadores:

A borboleta comestível vice-rei, Limenitis archippus (acima) imita a venenosa borboleta-monarca Danaus plexippus (abaixo). Créditos ao usuário do Wikimedia DRosenbach. Fotos de D. Gordon E. Robertson e Derek Ramsey.***

Mas nós raramente pensamos que as plantas também usam este tipo de mecanismo para evitar serem comidas. Há, no entanto, alguns casos registrados de comportamentos similares em plantas. Um caso é o da planta Corydalis benecincta, cujas folhas comumente possuem a cor amarronzada das rochas ao redor:

As folhas de Corydalis benecincta se parecem com as rochas encontradas em seu habitat natural. Foto extraída de http://www.svenlandrein.com/yunnancollections/10CS2204.html

Recentemente, um estudo com plantas do gênero Amorphophallus encontrou outro caso interessante de imitação. Este gênero, que inclui o famoso jarro-titã, geralmente desenvolve uma única folha grande que em algumas espécies atinge o tamanho de uma pequena árvore ou de um arbusto. Uma folha gigante assim parece ser a refeição perfeita para um herbívoro, mas, para evitá-los, muitas espécies do gênero desenvolveram uma série de marcas ao longo do pecíolo da folha que se parecem com líquens ou cianobactérias.

Marcas semelhantes a cianobactérias no pecíolo de Amorphophallus gigas (A); Marcas semelhantes a cianobactérias + marcas semelhantes a líquens também em A. gigas (B); e marcas semelhantes a líquens em A. hewittii (C) e A. dactylifer (D). Extraído de Claudel et al. (2019).

Com esta imitação, os pecíolos, que são bem tenros, acabam se parecendo com um tronco duro e velho que não parece tão interessante para a maioria dos herbívoros. As marcas de líquens são tão bem representadas que podem até mesmo ser associadas com gêneros reais de líquens. Por exemplo, as marcas vistas nas figuras B e C acima se parecem com líquens do gênero Cryptothecia.

Líquens da espécie Cryptothecia striata, que parecem ser imitados pelas marcas em Amorphophallus gigas e A. hewittii. Foto de Jason Hollinger.*

Como e por que estas marcas evoluíram através das espécies de Amorphophallus ainda não é bem compreendido. Apesar da hipótese de que elas ajudam a planta a imitar um tronco de árvore, algumas espécies com folhas pequenas também possuem essas marcas, enquanto outras com folhas grandes não possuem qualquer marca ou as têm em padrões mais simples. O jarro-titã Amorphophallus titanum é um bom exemplo do último caso:

Amorphophallus titanum é a maior espécie de Amorphophallus, mas apresenta um padrão de líquen consideravelmente simples. Foto do usuário do flickr Bjorn S.**

Por muito tempo, as plantas foram consideradas organismos menos dinâmicos que os animais, mas em anos recentes nosso conhecimento sobre elas está aumentando e mostrando que na verdade elas são criaturas muito versáteis e desenvolveram estratégias igualmente criativas e complexas.

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Referência:

Claudel C, Lev-Yadun S, Hetterscheid W, & Schultz M 2019. Mimicry of lichens and cyanobacteria on tree-sized Amorphophallus petioles results in their masquerade as inedible tree trunks. Bot J Linn Soc 190: 192–214.

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*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição 2.0 Genérica.

**Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 2.0 Genérica.

***Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 3.0 Não Adaptada.

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Arquivado em Botânica, Evolução

Sexta Selvagem: Cesta-de-flores-de-Vênus

por Piter Kehoma Boll

Esponjas são os animais mais esquisitos de todos, mas também alguns dos mais lindos. Uma espécie de beleza especial que é consideravelmente popular é Euplectella aspergillum, popularmente conhecida como cesta-de-flores-de-Vênus.

Cesta-de-flores-de-Vênus no Oceano Pacífico.

Crescendo no fundo do oceano em águas tropicais, a cesta-de-flores-de-Vênus é comum ao redor das Filipinas and este pode ser o único lugar onde ocorre. Outras espécies similares são encontradas em áreas próximas como o Japão, a Indonésia e a Austrália e são comumente confundidas com a cesta-de-flores-de-Vênus. Há, de fato, populações desta espécie identificadas na Austrália e na Indonésia, dentre outras áreas próximas das Filipinas, mas são consideradas subespécies devido a diferenças morfológicas sutis e podem de fato ser espécies completamente separadas.

A cesta-de-flores-de-Vênus é uma esponja de tamanho médio, medindo até 1,3 m de altura, apesar de a maioria dos espécimes medir entre 10 e 30 cm. O corpo é branco e possui vários poros que a fazem parecer uma cesta alongada, daí o nome comum. O ósculo, a grande abertura no topo, é coberto por uma rede de fibras que faz seu interior inacessível a organismos maiores.

Esqueleto de uma cesta-de-flores-de-Vênus. Créditos ao Auckland Museum.*

Recentemente, a cesta-de-flores-de-Vênus chamou a atenção de cientistas por causa da complexidade estrutural de seu esqueleto, o qual é composto por sílica (isto é, vidro). Estudos mostraram que as espículas de ancoração, isto é, aquelas que prendem a esponja ao substrato, são similares a fibras ópticas artificiais em relação a suas propriedades, mas são melhores em relação à resistência. Entender o caminho detalhado usado pelas esponja para construir estas espícula poderia levar ao desenvolvimento de maneiras mais fáceis de criar fibras ópticas e mesmo melhorar sua qualidade.

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Referências:

Monn MA, Weaver JC, Zhang T, Aizenberg J, Kesari H (2015) New functional insights into the internal architecture of the laminated anchor spicules of Euplectella aspergillum. PNAS 1112(16): 4976-498. doi: 10.1073/pnas.1415502112

Shimizu K, Amano T, Bari MR, Weaver JC, Arima J, Mori N (2015) Glassin, a histidine-rich protein from the siliceous skeletal system of the marine sponge Euplectella, directs silica polycondensation. PNAS 112(37): 11449-11454. doi: 10.1073/pnas.1506968112

Tabachnick KR, Janussen D, Menschenina LL (2008) New Australian Hexactinellida (Porifera) with a revision of Euplectella aspergillum. Zootaxa 1866: 7–68.

Weaver JC, Aizenberg J, Fantner GE, Kisailus D, Woesz A, Allen P, Fields K, Porter MJ, Zok FW, Hansma PK, Fratzl P, Morse DE (2007) Hierarchical assembly of the siliceous skeletal lattice of the hexactinellid sponge Euplectella aspergillum. Journal of Structural Biology 158: 93–106. doi: 10.1016/j.jsb.2006.10.027

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Arquivado em esponjas, Sexta Selvagem

Quarta de Quem: Patricia Louise Dudley

por Piter Kehoma Boll

Hoje comemoramos o nascimento de uma figura importante no estudo dos fascinantes crustáceos copépodes.

Patricia Louise Dudley, frequentemente chamada de Pat Dudley, nasceu em 22 de maio de 1929 em Denver, Colorado, EUA, filha de David C. Dudley, um fornecedor de produtos para o Estado e Escolas, e Carolyn Dudley (nascida Latas). Seu pai morreu em 1932, quando ela tinha apenas 3 anos de idade.

Durante sua infância, Dudley morou com sua mãe e seus avós maternos em Colorado Springs. Ela fez o ensino médio no Colorado Springs High School e se formou em 1947. Logo após, ela começou sua graduação na Universidade do Colorado, onde estudou com o limnólogo Robert William Pennak. Ela obteve seu bacharelado em 1951 e permaneceu na mesma universidade para seu mestrado, tendo Pennak como orientador. Sua tese de mestrado foi uma pesquisa sobre a fauna aquática de quatro riachos em Boulder County, Colorado.

Concluindo seu mestrado em 1953, ela foi atrás de um doutorado na Universidade de Washington em Seattle. Sua intenção inicial era continuar seus estudos limnológicos, mas ela acabou conhecendo o carcinólogo Paul Louis Illg que estudava copépodes. Na Universidade de Washington e na sua estação biológica marinha em Friday Harbor, Dudley passou a dar atenção a copépodes marinhos que vivem associados a ascídias. Este grupo de copépodes possui uma variedade enorme de formas e Dudley dedicou seu doutorado a estudar os estágios de desenvolvimento destes pequenos crustáceos comensais. Ela defendeu sua tese em 1957.

Em 1959, Dudley se juntou à Universidade de Columbia e passou a ensinar zoologia no Barnard College. Ela permaneceu lá até se aposentar em 1994 e dedicou sua pesquisa ao estudo de copépodes comensais, em sua maioria associados a ascídias, mas mais tarde também a aqueles comensais em outros invertebrados marinhos, especialmente poliquetos. Ela foi um dos primeiros pesquisadores a usar microscopia eletrônica para o estudo de estruturas de copépodes.

Pat Dudley em seus últimos anos em Seattle. Extraído de https://fhl.uw.edu/wp-content/uploads/sites/17/2015/10/Patricia-L.-Dudley-Endowment.pdf

Após sua aposentadoria, Dudley se mudou de volta para Seattle e planejava continuar sua pesquisa com copépodes lá. Infelizmente, ela passou a ter problemas de saúde logo em seguida, o que a forçou a abandonar sua pesquisa. Ela ficou seriamente doente nos anos seguintes e morreu em 30 de setembro de 2004, aos 75 anos.

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Referências:

Damkaer DM (2004) Patricia Louise Dudley (22 May 1929 – 30 September 2004). Monoculus: Copepod Newsletter 48: 10.

Wikipedia. Patricia Louise Dudley. Disponível em <https://en.wikipedia.org/wiki/Patricia_Louise_Dudley >. Acesso em 21 de maio de 2019.

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Arquivado em Biografias

Sexta Selvagem: Mosca-Serra-do-Nabo

por Piter Kehoma Boll

Depois dos besouros, que formam a ordem Coleoptera, o segundo grupo mais diverso de insetos é a ordem Lepidoptera, que inclui borboletas e mariposas. Contudo a ordem Hymenoptera tem o potencial de eventualmente ultrapassar Lepidoptera e se tornar mais próxima dos besouros porque muitas espécies novas estão sendo constantemente descritas.

Os himenópteros mais conhecidos são as abelhas, formigas e vespas, mas uma enorme parte de sua diversidade é formada pelas chamadas moscas-serra. Uma destas espécies é comumente conhecida como mosca-serra-do-nabo e cientificamente conhecida como Athalia rosae.

Mosca-serra-do-nabo nos Países Baixos. Foto de Herman Berteler.*

A mosca-serra-do-nabo é encontrada ao longo da Região Paleártica, do oeste da Europa até o Japão, e seu nome comum vêm do fato de suas larvas se alimentarem de plantas da família Brassicaceae, que inclui o nabo, bem como o repolho, entre outros. As larvas são consideravelmente grandes e se parecem com lagartas, tendo uma cor dorsal cinza-escura, quase preta, e são mais claras perto das pernas. Quando elas estão prestes a se tornarem pupas, elas se enterram no solo, constroem um casulo e permanecem ali até se tornarem adultos.

Uma larva na Dinamarca. Foto de Donald Hobern.**

Os adultos medem cerca de 6 a 8 mm de comprimento, as fêmeas sendo maiores que os machos. O corpo e as pernas possuem uma cor amarela a laranja, mais escura na superfície dorsal do tórax, que também possui duas grandes manchas pretas. A cabeça e as antenas são pretas.

Um adulto na Alemanha. Foto de Martin Grimm.*

Himenópteros no geral são caracterizados por uma determinação sexual única na qual fêmeas são diploides, isto é, possuem dois conjuntos de cromossomos, e machos são haploide, tendo somente um conjunto. Acasalamentos conduzidos em laboratório com a mosca-serra-do-nabo, contudo, foram capazes de produzir combinações anômalas, incluindo machos diploides e machos e fêmeas triploides. Aparentemente isto é possível devido ao sexo ser determinado por um alelo em um cromossomo, de forma que machos são sempre homozigotos e fêmeas sempre heterozigotas, mas isso precisa ser explicado em outra postagem. O fato é que o estudo deste peculiar sistema nesta espécie está ajudando a entender como a determinação do sexo evoluiu em himenópteros.

Um adulto na Rússia. Foto de Roman Providuhin.*

Uma última coisa interessante a mencionar sobre a mosca-serra-do-nabo é que ela é capaz de contornar os mecanismos de defesa das plantas das quais sua larva se alimenta. Plantas na família Brassicaceae produzem um grupo de compostos chamados glucosinolatos que dão a elas seu odor e amargor característicos, como na mostarda e no rábano-de-cavalo. Estes compostos são usados por plantas como uma defesa contra pragas que se alimentam delas. Contudo a mosca-serra-do-nabo é resistente a estes compostos e consegue sequestrá-los e armazená-los em sua hemolinfa, isto é, o “sangue”, em concentrações muito maiores que as encontradas nas plantas. Quando atacadas por predadores como formigas, as larvas liberam gotas de hemolinfa em uma forma de sangramento defensivo e podem parar o ataque.

A mosca-serra-do-nabo pode ser um incômodo para humanos e suas plantações, mas é certamente um animal fascinante.

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Referências:

Müller C, Agerbirk N, Olsen CE, Boevé JL, Schaffner U, Brakefield PM (2001) Sequestration of host plant glucosinolates in the defensive hemolymph of the sawfly Athala rosae. Journal of Chemical Ecology 27(12): 2505–2516. doi: 10.1023/A:1013631616141

Müller C, Boevé JL, Brakefield PM (2002) Host plant derived feeding deterrence towards ants in the turnip sawfly Athalia rosae. In: Nielsen J.K., Kjær C., Schoonhoven L.M. (eds) Proceedings of the 11th International Symposium on Insect-Plant Relationships. Series Entomologica, vol 57. Springer, Dordrecht. doi: 10.1007/978-94-017-2776-1_18

Naito T, Suzuki H (1991) Sex determination in the sawfly, Athalia rosae ruficornis (Hymenoptera): occurrence of triploid males. Journal of Heredity 82(2): 101–104. 10.1093/oxfordjournals.jhered.a111042

Oishi K, Sawa M, Hatakeyama M, Kageyama Y (1993) Genetics and biology of the sawfly, Athalia rosae (Hymenoptera). Genetica 88(2–3): 119–127. doi: 10.1007/BF02424468

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Quarta de Quem: Élie Metchnikoff

por Piter Kehoma Boll

Pela terceira semana em sequência, nosso cientista de destaque é um vencedor do Nobel!

Ilya Ilyich Mechnikov (em Russo: Илья Ильич Мечников), também conhecido como Élie Metchnikoff, nasceu em 15 de maio de 1845 da vila de Ivanovka na Ucrânia. Seu pai, Ilya Ivanovich Mechnikov, era um oficial russo da guarda imperial e sua mãe, Emilia Lvovna Nevakhovich, era filha do escritor Leo Nevakhovich.

Metchnikoff por volta de 1861.

Em 1856, aos 11 anos, Metchnikoff entrou para a escola Kharkiv Lycée e desenvolveu um interesse por biologia. Devido à influência de sua mãe, ele se interessava por ciência desde uma tenra idade. Ela também o convenceu a estudar ciências naturais em vez de medicina. Assim, em 1862, ele tentou estudar biologia na Universidade de Würzburg, na Alemanha, mas, como o ano acadêmico lá somente começaria no final do ano, ele acabou matriculado na Universidade de Kharkiv para estudar ciências naturais. Em 1863, ele se casou com Ludmila Feodorovitch e, em 1864, se formou aos 19 anos, completando o curso de quatro anos em dois. Naquele mesmo ano, ele foi à Alemanha para estudar a fauna marinha na ilha de Heligoland no Mar do Norte.

Após conhecer o botânico Ferdinand Cohn, Metchnikoff foi aconselhado por ele a trabalhar com o zoólogo Rudolf Leuckart na Universidade de Giessen. Junto com Leuckart, ele estudou a reprodução de nematódeos e descobriu a digestão intracelular em platelmintos. Em 1866, ele se mudou para Nápoles e trabalhou em uma tese de doutorado sobre o desenvolvimento embrionário de sépias do gênero Sepiola. Em 1867, ele se mudou para a Rússia e recebeu seu grau de doutorado com Alexander Kovalevsky da Universidade de São Petersburgo. Pelo trabalho dos dois no desenvolvimento das camadas embrionárias de invertebrados, Metchnikoff e Kovalevsky venceram o prêmio Karl Ernst von Baer.

Devido à sua competência, Metchnikoff foi apontado, ainda em 1867, professor da nova Universidade Imperial de Novorossiya (atualmente Universidade de Odessa). Ele tinha apenas 22 anos, sendo mais jovem que a maioria de seus alunos. No ano seguinte, devido a um conflito com um colega mais velho, ele foi transferido para a Universidade de São Petersburgo, mas o ambiente profissional lá era ainda pior. Ele retornou a Odessa em 1870 como professor de Zoologia e Anatomia Comparada.

Em 20 de abril de 1873, a esposa de Metchnikoff morreu de tuberculose. Este evento, combinado com seus problemas profissionais, o fizeram tentar suicídio tomando uma grande dose de ópio. Ele sobreviveu e eventualmente se recuperou e, em 1875, se casou com sua aluna Olga Belokopytova.

O assassinato de Alexandre II em 1881 levou a conflitos políticos na Rússia, os quais fizeram Metchnikoff deixar a Universidade de Odessa em 1882. Ele se mudou para a Sicília e iniciou um laboratório particular em Messina. Lá, enquanto estudava larvas de estrelas-do-mar, ele notou que, ao inserir um pequeno espino de citrus nas larvas, um grupo de células começava a rodear o espinho. Ele sugeriu que alguns glóbulos brancos no sangue eram capazes de atacar e matar patógenos, e o zoólogo Carl Friedrich Wilhelm Claus, com quem ele discutiu sua hipótese, sugeriu o nome “fagócito” para tais células.

Élie Metchnikoff por volta de 1908.

Metchnikoff apresentou seus achados sobre fagócitos em Odessa em 1883, mas sua ideia foi recebida com ceticismo por muitos especialistas, incluindo Louis Pasteur. A ideia na época era que os glóbulos brancos carregavam os patógenos para longe do local da infecção e os entregavam em outro local, espalhando-os em vez de destruí-los. Seu principal apoiador era o patologista Rudolf Virchow. De volta a Odessa, Metchnikoff foi apontado diretor de um instituto criado para produzir a vacina de Louis Pasteur contra a raiva.

Em 1885, a segunda esposa de Metchnikoff sofreu de uma febre tifoide severa. Como resultado, ele tentou suicídio mais uma vez, desta vez se injetando com bactérias espiroquetas que causam a febre recorrente. Ele sobreviveu novamente e sua esposa também sobreviveu.

Em 1888, Metchnikoff deixou Odessa novamente devido a novas dificuldades e foi a Paris pedir o conselho de Pasteur, que lhe deu uma vaga no Instituto Pasteur. Metchnikoff permaneceu lá pelo resto de sua vida. Em 1908, ele venceu o prêmio Nobel em fisiologia ou medicina devido à sua descoberta dos fagócitos. Durante seus últimos anos, ele desenvolveu uma teoria de que o envelhecimento era uma doença causada por bactérias tóxicas no intestino e que o ácido lático produzido por Lactobacillus poderia prolongar a vida.

Ele faleceu em 15 de julho de 1916 de parada cardíaca, em Paris, aos 71 anos.

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Referências:

Goldstein BI (1916) Elie Metchnikoff. The Canadian Jewish Chronicle. Disponível em < https://news.google.com/newspapers?id=BQodAAAAIBAJ&sjid=xGEEAAAAIBAJ&pg=6460,5413902&dq=%C3%A9lie+metchnikoff&hl=en >. Acesso em 14 de maio de 2019.

Wikipedia. Élie Metchnikoff. Disponível em <
https://en.wikipedia.org/wiki/%C3%89lie_Metchnikoff >. Acesso em 14 de maio de 2019.

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