Arquivo do mês: abril 2017

Sexta Selvagem: Lábios-de-puta

por Piter Kehoma Boll

Sempre ficamos fascinados por plantas que possuem algum formato peculiar e se assemelham a alguma coisa diferente. E certamente uma dessas espécies é a que vou apresentar hoje, Psychotria elata, também conhecida como lábios-de-puta.

Encontrada em florestas tropicais da América Central, em áreas de média a alta elevação, a lábios-de-puta é um arbusto do sub-bosque e produz uma inflorescência que é rodeada por um par de brácteas que lembram lábios vermelhos brilhantes. Não olhe demais ou você pode ficar tentado a beijá-los.

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“Beije-me”, imploram os lábios-de-puta. Foto do usuário do Wikimedia IROZ.*

Certamente algumas criaturas os beijam,especialmente beija-flores, os quais são seus polinizadores, mas também muitas espécies de borboletas e abelhas. Contudo, quando eles vêm beijar os lábios vermelhos, eles já se expandiram demais, de maneira a deixar as flores expostas, e não se parecem mais com uma boca.

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Uma vez que a boca se abre, a magia do beijo se perde. Foto de Dick Culbert.**

Depois da polinização, as flores se desenvolvem em baguinhas azuis e são facilmente percebidas por aves, as quais dispersam as sementes. Como a lábios-de-puta produz frutos ao longo de todo o ano, é uma fonte de alimento importante para aves frugívoras.

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Referências:

EOL –  Encyclopedia of Life. Psychotria elata. Available at <http://eol.org/pages/1106123/overview&gt;. Acesso em 5 de março de 2017.

Silva, C., & Segura, J. (2015). Reproductive Biology and Herkogamy of Psychotria elata (Rubiaceae), a Distylous Species of the Tropical Rain Forests of Costa Rica American Journal of Plant Sciences, 06 (03), 433-444 DOI: 10.4236/ajps.2015.63049

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Sexta Selvagem: Pé-de-Crista-Cristalino

por Piter Kehoma Boll

Mesmo nas menores poças de água-doce perdidas num campo, a diversidade de formas de vida é incrível. Infelizmente, estes ambientes estão entre os mais danificados de todos os ecossistemas na Terra e nós provavelmente levamos várias espécies pequeninas à extinção. O camarada de hoje, no entanto, ainda está vivo, e seu nome é Lophopus crystallinus, ou como eu decidi chamá-lo, o pé-de-crista-cristalino.

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Uma colônia de Lophopus crystallinus. Foto do Museu de História Natural de Londres.*

O pé-de-crista-cristalino é um membro do filo Bryozoa, às vezes chamados de animais-musgos. De fato, ele foi o primeiro briozoário a ser descrito. Como outros briozoários, o pé-de-crista-cristalino vive em uma colônia de indivíduos presos a substratos em lagos e poças onde eles existem, o que inclui a Europa e a América do Norte. Os indivíduos não são inteiramente independentes e possuem funções especializadas dentro da colônia, assim agindo como um único superorganismo. Como regra geral, briozoários, incluindo o pé-de-crista-cristalino, são filtradores, extraindo partículas e microalgas da água.

Apesar de ser consideravelmente tolerante a eutrofização (aumento da matéria orgânica na água) e poluição por metais pesados, o pé-de-crista-cristalino ainda é ameaçado por outras formas de impacto humano, como mudanças climáticas, e certamente pela destruição de seu habitat. Atualmente ele é considerado uma espécie ameaçada no Reino Unido e é o único briozoário a ter um plano de ação específico. Vamos esperar que consigamos encontrar uma maneira de evitar que ele seja varrido deste mundo.

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Referências:

References:

Elia, A., Galarini, R., Martin Dörr, A., & Taticchi, M. (2007). Heavy metal contamination and antioxidant response of a freshwater bryozoan (Lophopus crystallinus Pall., Phylactolaemata). Ecotoxicology and Environmental Safety, 66 (2), 188-194 DOI: 10.1016/j.ecoenv.2005.12.004

Hill, S., Sayer, C., Hammond, P., Rimmer, V., Davidson, T., Hoare, D., Burgess, A., & Okamura, B. (2007). Are rare species rare or just overlooked? Assessing the distribution of the freshwater bryozoan, Lophopus crystallinus. Biological Conservation, 135 (2), 223-234 DOI: 10.1016/j.biocon.2006.10.023

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Sexta Selvagem: Alga-aranha-rastejante

por Piter Kehoma Boll

O mundo de criaturas unicelulares inclui espécies fascinantes, algumas das quais já foram apresentadas aqui. E hoje mais uma está chegando, o protista ameboide marinho fitoplanctônico Chlorarachnion reptans, que de novo é uma espécie sem nome comum, de forma que eu criei um: alga-aranha-rastejante.

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Um plasmódio da alga-aranha-rastejante Chlorarachnion reptans. Foto do usuário do Wikimedia NEON*.

A alga-aranha-rastejante foi descoberta nas Ilhas Canárias em 1930. Ela é uma alga ameboide que forma plasmódios (redes multinucleadas) de células conectadas por finos filamentos de citoplasma (reticulopódios). Os reticulopódios também são usados para capturar presas (bactérias e protistas menores, especialmente algas), funcionando mais ou menos como uma teia de aranha. Adicionalmente, a alga-aranha-rastejante tem cloroplastos, de forma que pode realizar fotossíntese. Ela é, portanto, um organismo mixotrófico, tendo mais de uma maneira de se alimentar.

Os cloroplastos da alga-aranha-rastejante, bem como de outras espécies no grupo, chamado Chlorarachniophyceae, têm quatro membranas e parece ter evoluído de uma alga verde que foi ingerida e se tornou um endossimbionte. Como resultado, o cloroplasto da alga-aranha-rastejante tem dois conjuntos de DNA, um do cloroplasto original que veio de uma bactéria endossimbionte (localizado dentro da membrana interna), e um da alga verde (entre as duas membranas internas e as duas externas).

Apesar de tradicionalmente vistas como um grupo de algas, as cloraracniófitas não são proximamente relacionadas com nenhuma das algas mais “típicas”, como as vermelhas, verdes, marrons e douradas ou diatomáceas. Elas na verdade são parentes de outros protistas com finos pseudópodes em forma de redes ou fios, como os radiolários e foraminíferos, formando com eles o grupo Rhizaria.

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Referências:

AlgaeBase. Chlorarachnion reptans Geitler. Disponível em <http://www.algaebase.org/search/species/detail/?species_id=59340&gt;. Acesso em 5 de março de 2017.

EOL – Encyclopedia of Life. Chlorarachnion reptans. Disponível em <http://eol.org/pages/897235/overview&gt;. Acesso em 5 de março de 2017.

Hibberd, D., & Norris, R. (1984). Cytology and ultrastructure of Chlorarachnion reptans (Chlorarachniophyta divisio nova, Chlorarachniophyceae classis nova) Journal of Phycology, 20 (2), 310-330 DOI: 10.1111/j.0022-3646.1984.00310.x

Ludwig, M., & Gibbs, S. (1989). Evidence that the nucleomorphs of Chlorarachnion reptans (Chloraracnhiophyceae) are vestigial nuclei: morphology, division and DNA-DAPI fluorescence Journal of Phycology, 25 (2), 385-394 DOI: 10.1111/j.1529-8817.1989.tb00135.x

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Movendo os quadris de dinossauros e mexendo com suas cabeças

por Piter Kehoma Boll

Recentemente surgiram notícias relacionadas à filogenia de dinossauros que deixaram muitos atônitos, como você deve ter ouvido ou lido. Novas evidências anatômicas reconstruíram completamente a base da árvore genealógica dos dinossauros e estou aqui para explicar um pouco o que aconteceu.

Como todos sabemos, os dinossauros incluem uma grande variedade de criaturas, dos terópodes comedores de carne aos pescoçudos saurópodes e dos ceratopsianos chifrudos aos armados anquilossauros, entre muitos outros.

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Silhueta de um humano comparada aos maiores dinossauros de cada grupo principal. Imagem de Matt Martyniuk.*

Por mais de um século, os dinossauros têm sido classificados em dois grupos, chamados Ornithischia e Saurischia. Ornithischia (“com quadril de ave”) incluem dinossauros cujos ossos pélvicos são mais similares ao que é encontrado em aves, com um púbis direcionado para trás. Saurischia (“com quadril de lagarto”), por outro lado, têm um púbis direcionado para a frente, como em répteis no geral. Isso agrupa os terópodes e os saurópodes no mesmo grupo como Saurischia enquanto outros dinossauros são agrupados como Ornithischia. Mas as aves são na verdade terópodes, assim sendo dinossauros com quadril de lagarto e não dinossauros com quadril de ave! Confuso, né? Então vamos dar uma olhada em seus quadris:

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Comparação dos quadris de um crocodilo (Crocodylus), um saurópode (Diplodocus), um terópode não aviano (Tyrannosaurus), uma ave (Apteryx), um tireóforo (Stegosaurus) e um ornitópode (Iguanodon). Vermelho = púbis; azul = ísquio; amarelo = ílio. Imagem minha, Piter K. Boll.**

Como se pode perceber, o estado primitivo, encontrado em crocodilos, saurópodes e terópodes primitivos, é o púbis voltado para a frente. Um púbis voltado para trás evoluiu pelo menos duas vezes independentemente, tanto em terópodes mais avançados (como aves), quanto em dinossauros ornitísquios. Mas podemos estar tão certos de que Tyrannosaurus Diplodocus são mais proximamente relacionados entre si (formando um clado Saurischia) só por causa de seus quadris? Afinal, esse é um quadril primitivo, então é bem improvável que seja uma sinapomorfia (um caráter derivado compartilhado). Não obstante, continuou sendo usado como um caráter unindo saurópodes e terópodes.

Um novo artigo publicado recentemente na Nature, no entanto, mostrou novas evidências de apontam para uma relação diferente dos grupos. Depois de uma análise detalhada da anatomia dos ossos, Matthew G. Baron, David B. Norman e Paul M. Barrett encontraram 20 caráteres que unem terópodes com ornitísquios e não com saurópodes. Entre esses podemos mencionar a presença de um forâmen (um furo) na região anterior do osso premaxilar que fica dentro da fossa narial (a depressão do osso que circunda a abertura da narina) e uma crista longitudinal afiada ao longo da maxila.

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Os crânios tanto de ornitísquios quanto de terópodes (acima) apresentam um forâmen premaxilar na fossa narial (em amarelo) e uma crista afiada na maxila (em verde), bem como outros caracteres que não estão presentes em sauropodomorfos e herrerasaurídeos (abaixo). Composição usando imagens originais de Carol Abraczinskas e Paul C. Sereno (Heterodontosaurus), usuário do Wikimedia Ghedoghedo (Eoraptor e Herrerasaurus), e usuário do flickr philosophygeek (Plateosaurus).**

Em seu blog Tetrapod Zoology, o Dr. Darren Naish comenta a nova classificação e aponta alguns problemas que surgem com essa nova visão. Um deles é o fato de que tanto terópodes quanto sauropodomorfos possuem ossos pneumáticos (ocos), enquanto ornitísquios não os possuem assim. Se a nova filogenia estiver mais próxima da verdade, significa que a pneumacidade evoluiu duas vezes independentemente ou evoluiu apenas uma vez e foi perdida nos ornitísquios.

Ele também menciona que tanto ornitísquios quanto terópodes possuem estruturas como plumas e pelos na pele. Em terópodes, isso eventualmente originou as penas. Poderia essa ser outra sinapomorfia unindo esses grupos? Talvez… mas quando pensamos que pterossauros também tinham “pelos”, pode-se também concluir que uma estrutura integumentária já estava presente no ancestral comum dos dinossauros. Neste caso, talvez, apenas não os encontramos ainda em saurópodes. Agora imagine um Argentinosaurus gigante coberto de penas!

Uma preocupação que surgiu com essa nova organização é se sauropodomorfos ainda seriam considerados dinossauros. O termo “dinossauro” foi cunhado por Richard Owen em 1842 para se referir aos restos dos três gêneros de dinossauros conhecidos na época, Iguanodon, Hylaeosaurus Megalosaurus, os dois primeiros sendo ornitísquios e o último um terópode. Como consequência, a definição original de dinossauro não incluía saurópodes. De forma similar, a definição filogenética moderna de dinossauro era “o menor clado inclusivo contendo Passer domesticus (o pardal) e Triceratops horridus”. De forma a permitir que o Brachiosaurus e seus amigos continuem sentando com os dinossauros, Baron et al. sugeriram expandir a definição para incluir Diplodocus carnegii. Assim, dinossauros seriam o menor clado inclusivo contendo P. domesticusT. horridusD. carnegii.

Nesta nova árvore, o nome Saurischia ainda seria usado, mas se referindo apenas aos sauropodomorfos e alguns carnívoros primitivos, os herrerassaurídeos. O novo clado formado pela união de terópodes e ornitísquios foi proposto ser chamado de Ornithoscelida (“com pernas de ave”), um nome cunhado em 1870 para se referir às patas traseiras semelhantes às das aves em terópodes e ornitópodes (o subgrupo de ornitísquios que inclui dinossauros como o Iguanodon e os dinossauros com bico de pato.

O que podemos concluir com tudo isso? Nada vai mudar se você é só um entusiasta de dinossauros e não se importa com o que é um ornitísquio e um saurísquio. Agora se você é um fã de filogenia como eu, você está acostumado a mudanças súbitas nos ramos. A maioria dos fósseis de dinossauros basais são incompletos, assim aumentando o problema de saber como eles estão relacionados uns aos outros. Talvez esta nova visão vá durar e talvez novas evidências mudarão tudo de novo na semana que vem.

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Referências e leitura adicional:

Baron, M., Norman, D., & Barrett, P. (2017). A new hypothesis of dinosaur relationships and early dinosaur evolution Nature, 543 (7646), 501-506 DOI: 10.1038/nature21700

Naish, D. (2017). Ornithoscelida Rises: A New Family Tree for DinosaursTetrapod Zoology.

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Sexta Selvagem: Fungo-quitrídio-dos-anfíbios

por Piter Kehoma Boll

Hoje estou trazendo uma espécie que é provavelmente a mais terrível a existir hoje, o fungo-quitrídio-dos-anfíbios, Batrachochytrium dendrobatidis, também conhecido simplesmente como Bd.

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Vários esporângios de Batrachochytrium dendrobatidis (estruturas esféricas) crescendo num artrópode de água doce. Foto de AJ Cann.*

O fungo-quitrídio-dos-anfíbios, como o nome diz, é um quitrídio, um fungo da divisão Chytridiomycota, que inclui espécies microscópicas que geralmente se alimentam degradando quitina, queratina e outros materiais do tipo. No caso do fungo-quitrídio-dos-anfíbios, ele infecta a pele de anfíbios e se alimenta dela. Ele cresce pela pele formando uma rede de rizoides que originam esporângios esféricos que contêm esporos.

A infecção causada pelo fungo-quitrídio-dos-anfíbios é chamada de quitridiomicose. Ela causa uma série de sintomas, incluindo avermelhamento da pele, letargia, convulsões, anorexia e espessamento excessivo e descamamento da pele. Esse espessamento da pele causa problemas na ingestão de alimento, na liberação de toxinas e mesmo na respiração, eventualmente levando à morte.

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Um indivíduo da espécie Atelopus limosus infectado pelo fungo-quitrídio-dos-anfíbios. Foto de Brian Gratwicke.**

Desde sua descoberta e nomeação em 1998, o fungo-quitrídio-dos-anfíbios devastou as populações de muitas espécies de anfíbios no mundo todo. Algumas espécies, como o sapo-dourado e a perereca-de-membros-franjados-de-Rabb, foram recentemente extintas por esse fungo terrível. Todo esse cenário  drástico já é considerado um dos exemplos mais severos de extinção holocênica. A razão para um aumento tão súbito nas infecções é desconhecido, mas pode estar relacionado com o impacto humano no ambiente.

Só nos resta esperar que se encontre uma maneira de reduzir a disseminação deste pesadelo à biodiversidade.

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Referências:

Fisher, M., Garner, T., & Walker, S. (2009). Global Emergence of Batrachochytrium dendrobatidis and Amphibian Chytridiomycosis in Space, Time, and Host Annual Review of Microbiology, 63 (1), 291-310 DOI: 10.1146/annurev.micro.091208.073435

Wikipedia. Batrachochytridium dendrobatidis. Available at <https://en.wikipedia.org/wiki/Batrachochytrium_dendrobatidis&gt;. Access on March 4, 2017.

Wikipedia. Chytridiomycosis. Disponível em <https://en.wikipedia.org/wiki/Chytridiomycosis >. Acesso em 4 de março de 2017.

Wikipedia. Decline in amphibian populations. Disponível em <https://en.wikipedia.org/wiki/Decline_in_amphibian_populations >. Acesso em 4 de março de 2017.

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