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Sexta Selvagem: Capim-Africano

por Piter Kehoma Boll

As gramíneas compreendem uma das famílias mas bem-sucedidas de plantas com flores e são as personagens principais em campos, os quais podem cobrir enormes áreas da superfície da Terra. Nem todas as espécies cobrem grandes áreas, no entanto, ao menos não em seus habitats nativos. Um exemplo é Pennisetum macrourum, o “capim africano”.

Nativo da África do Sul e de países vizinhos, o capim-africano é uma espécie perene que cresce em solos que passam por inundação periódica. Assim, ele geralmente cresce perto de corpos d’água ou em áreas que formam lagoas temporárias durante a estação chuvosa.

Uma touceira de capim-africano no Parque Nacional Kruger na África do Sul com um cudo-maior (Tragelaphus strepsiceros strepsiceros) ao fundo. Foto de Johnny Wilson.*

Atingindo até 2 m de altura, o capim-africano forma touceiras densas e não se espalha uniformemente através do substrato. Ele produz a inflorescência típica do gênero Pennisetum, uma panícula estreita e densa com espiguetas intercaladas com cerdas, dando um aspecto felpudo. A panícula fresca é verde-clara a branca mas se torna marrom-clara quando madura.

Panícula vista de perto. Foto de Douglas Euston-Brown.*

Enquanto a maioria das gramíneas morre durante a época seca, o capim-africano persiste através do ano, sendo uma fonte importante de alimento para animais pastadores selvagens, e também é oferecido como alimento ao gado domesticado. Ele não é uma gramínea muito saborosa e nutritiva, no entanto, e a maioria dos animais evita comê-lo se há outras gramíneas disponíveis.

Uma touceira em Stellenbosch, África do Sul. Foto de Dave Richardson.*

Apesar de sua importância para espécies nativas, o capim-africano ganhou status de vilão em outros lugares. A espécie foi introduzida na Nova Zelândia e na Austrália e se tornou uma praga incômoda. Espalhando-se rapidamente pelo ambiente, o capim-africano elimina gramíneas nativas por competição e não é visto como um alimento de boa qualidade pelos animais de lá tampouco. Apesar disso, não fui capaz de encontrar qualquer trabalho recente se referindo a esta situação, incluindo o status do capim nos países mencionados acima e formas de controlá-lo.

Panículas cobertas de teia-de-aranha e orvalho na Nova Zelândia. Foto do usuário ben_banks do iNaturalist.*

Parece que ainda há muito a ser estudado sobre esta gramínea africana tanto em seus habitats nativos quanto em locais em que foi introduzida.

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Referências:

Brewer J, Loveless AR (1977) Ergot of Pennisetum macrourum in South Africa. Kirkia 10(2):589–600.

Harradine AR (1980) The biology of African feather grass (Pennisetum macrourum Trin.) in Tasmania, I. Seedling establishment. Weed Research 20(3):165–168. DOI: 10.1111/j.1365-3180.1980.tb00063.x

Shem M, Mtengeti EJ, Luaga M, Ichinohe T, Fujihara T (2003) Feeding value of wild Napier grass (Pennisetum macrourum) for cattle supplemented with protein and/or energy rich supplements. Animal Feed Science and Technology 108:15–24. DOI: 10.1016/S0377-8401(03)00167-6

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Sexta Selvagem: Sofronite-Vermelha

por Piter Kehoma Boll

Orquídeas são flores ornamentais muito populares e vêm numa grande variedade de cores, tamanhos e formas. Encontrá-las em ambientes naturais não é sempre tão fácil, mas também não é difícil se você estiver visitando uma área de Mata Atlântica no Brasil.

Uma espécie de orquídea que é nativa deste bioma ameaçado é Cattleya coccinea, até muito recentemente conhecida como Sophronitis coccinea, razão pela qual ainda é frequentemente chamada de sofronite, ou Sophronitis, pelos orquidófilos. Mesmo entre orquidófilos, esta espécie geralmente não possui um nome comum, mas acho que “sofronite-vermelha” fica bem, apesar de, bem… quase todas as espécies do antigo gênero Sophronitis serem vermelhas.

Um espécime de Cattleya coccinea crescendo perto dos cânions entre Santa Catarina e o Rio Grande do Sul. Foto de João Gava Just.*

Ocorrendo em áreas de elevação média a alta do Espírito Santo para o sul até o Rio Grande do Sul e áreas vizinhas em Misiones, Argentina, a sofronite-vermelha é uma orquídea relativamente pequena que produz flores solitárias de um vermelho-escarlate brilhante. As duas pétalas são muito mais largas que as três sépalas, apesar de o labelo, a terceira pétala, tubular, ser mais estreita.

Apesar de às vezes mencionada como uma espécie ameaçada, a sofronite-vermelha é a espécie do grupo Sophronitis com a maior população natural e maior distribuição geográfica. Uma espécie proximamente relacionada, a sofronite-da-Mantiqueira, Cattleya mantiqueirae, está numa situação muito mais crítica e foi, inicialmente, considerada uma subespécie da sofronite-vermelha. Análises moleculares recentes, no entanto, questionaram a classificação atual de ambas as espécies e elas podem acabar se tornando novamente uma só espécie ou serem divididas em ainda mais espécies.

Close na flor. Foto de Naoki Takebayashi.**

A sofronite-vermelha floresce entre o fim do inverno e o começo da primavera, com o pico de floração entre agosto e outubro. A flor, normalmente só uma por vez, não tem cheiro nem néctar. Mesmo assim, a natureza conspícua da flor sugere que a planta seja polinizada por um animal orientado pela visão. Após algumas observações na natureza, o único polinizador identificado foi o beija-flor Chlorostilbon lucidus. A pequena ave visita as flores procurando por néctar, mas, sem achar nada, vai embora bem depressa, em menos de 5 segundos, mas isso é suficiente para levar o pólen de uma flor para outra. Abelhas, que são polinizadores comuns de outras espécies de Cattleya, não parecem ter qualquer interesse nesta espécie.

Apesar da aparência adorável, a sofronite-vermelha é uma mentirosa. Ela atrai um polinizador ingênuo prometendo alguma recompensa, mas faz a pobre criatura ir embora sem nada. Mas beleza nunca foi sinônimo de bondade apesar dos esforços humanos para achar que sim.

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Referências:

Caballero-Villalobos L, Silva-Arias GA, Buzatto CR, Nervo MH, Singer RB (2017) Generalized food-deceptive pollination in four Cattleya (Orchidaceae: Laeliinae) species from Southern Brazil. Flora 234: 195–206. doi: 10.1016/j.flora.2017.07.014

Rodrigues JF, van den Berg C, Abreu AG, Novello M, Veasey EA, Oliveira GCX, Koehler S (2014) Species delimitation of Cattleya coccinea and C. mantiqueirae (Orchidaceae): insights from phylogenetic and population genetics analyses. Plant Systematics and Evolution 301:1345–1359. doi: 10.1007/s00606-014-1156-z

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Sexta Selvagem: Salgueiro-Ártico

por Piter Kehoma Boll

Quando ouvimos a palavra “salgueiro”, a imagem que vem à mente é de uma bela árvore como o salgueiro-chorão e o salgueiro-branco. O gênero Salix, no entanto, inclui centenas de espécies, e algumas são bem diferentes de um salgueiro-chorão.

Uma destas espécies peculiares é Salix arctica, o salgueiro-ártico. Como seu nome sugere, o salgueiro-ártico cresce bem ao norte no mundo, na região ártica. Ele é, de fato, a planta lenhosa mais setentrional do mundo, ocorrendo na Eurásia e na América do Norte. Sua distribuição se estende além da chamada linha das árvores, que marca o limite norte em que árvores conseguem crescer. Como resultado, apesar de ser um salgueiro, o salgueiro-ártico não é uma árvore. Na verdade ele é tão pequeno que até chamá-lo de arbusto é esquisito.

Salgueiro-ártico crescendo no Canadá. Foto de Zack Harris.*

O salgueiro-ártico vive como uma planta rasteira, crescendo bem perto do chão e geralmente atingindo até 15 cm de altura, apesar de poder chegar a 25 cm em locais mais quentes e, em alguns casos excepcionais, a 50 cm. Ele possui folhas pequenas e pilosas e, como todos os salgueiros, flores masculinas e femininas ocorrem em plantas separadas, isto é, o salgueiro-ártico é uma espécie dioica.

Amentos femininos bem pilosos com os pistilos vermelhos claramente visíveis. Foto do usuário mayoung do iNaturalist.*

As flores são arranjadas na típica inflorescência do tipo amento que ocorre em salgueiros e outras árvores e são polinizadas por insetos. Amentos femininos são mais pilosos que os masculinos e possuem carpelos um tanto cônicos com um pistilo vermelho-escuro. Amentos masculinos possuem estames bem visíveis com anteras vermelhas que se tornam amarelas quando ficam cobertas pelo pólen que liberam.

Amento masculino com as anteras vermelhas. Foto do usuário ivyevergreen do iNaturalist.*

Apesar do pequeno tamanho, o salgueiro-ártico é uma planta muito importante em muitos aspectos. Ele é uma fonte de alimento importante, e às vezes a única, de muitas espécie árticas. Entre humanos, possui um papel central nas culturas Inuit e Gwich’in, sendo usado como combustível, medicamento e às vezes até mesmo como alimento.

Um espécime crescendo na Rússia. Foto de Елена Шубницина.*

O salgueiro-ártico pode viver mais de 80 anos e, como é uma planta lenhosa em um ambiente bem extremo, produz anéis de crescimento como uma árvore típica. Estes anéis recentemente se provaram uma boa fonte de dados climáticos sobre o Ártico.

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Referências:

Kevan PG (1990) Sexual differences in temperatures of blossoms on a dioecious plant, Salix arctica: Significance for life in the Arctic. Arctic and Alpine Research 22:283–289. doi: 10.1080/00040851.1990.12002792

Schmidt NM, Baittinger C, Forchhammer MC (2006) Reconstructing century-long snow regimes using estimates of High Arctic Salix arctica Radial Growth. Arctic, Antarctic, and Alpine Research 38: 257–262. doi: 10.1657/1523-0430(2006)38[257:RCSRUE]2.0.CO;2

Schmidt NM, Baittinger C, Kollmann J, Forchhammer MC (2010) Consistent Dendrochronological Response of the Dioecious Salix arctica to Variation in Local Snow Precipitation across Gender and Vegetation Types. Arctic, Antarctic, and Alpine Research 42: 471–476. doi: 10.1657/1938-4246-42.4.471

Woodcock H, Bradley RS (1994) Salix arctica (Pall.): its potential for dendroclimatological studies in the high Arctic. Dendrocronologia 12: 11–22.

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Sexta Selvagem: Urumbeta

por Piter Kehoma Boll

Cactos formam uma família diversa de angiospermas que é endêmica das Américas, do sul do Canadá até a Patagônia. Ainda não havíamos tido um cacto na Sexta Selvagem até agora, mas isso muda hoje com a apresentação de Opuntia cochenillifera, conhecida como urumbeta ou palma-de-cochonilha.

Urumbeta crescendo no México. Foto de Rigel Nava.**

Nativa do México, a urumbeta pertence ao gênero Opuntia, cujas espécies são conhecidas em português como palma ou nopal. As espécies deste gênero são caracterizadas pelos ramos achatados que são conhecidos em nauatle como nohpalli, de onde o nome nopal. Como a maioria dos cactos, as palmas não possuem folhas e o caule é macio e verde, retendo água e fazendo a fotossíntese. A urumbeta cresce como uma árvore, podendo atingir até 4 metros de altura. Suas flores são rosadas e os frutos se tornam vermelhos quando maduros. Tanto os nopais quanto a fruta são comestíveis e precisam ser descascados com cuidado para remover os espinhos e as pequenas cerdas espinhosas chamadas de gloquídeos que se desprendem facilmente e penetram a pele ainda mais facilmente.

Flor da urumbeta. Foto de Dick Culbert.*

Originalmente a urumbeta era cultivada para ser hospedeiro de cochonilhas (insetos coccídeos do gênero Dactylopus), os quais eram usados para produzir corante vermelho, vindo daí o nome comum de palma-de-cochonilha. Seu cultivo para consumo cresceu com o tempo mas ainda não é tão comum quanto a do seu parente mais famoso, a palma-comum ou figo-da-Índia Opuntia ficus-indica. Ela é cultivada principalmente no sul dos Estados Unidos, na Califórnia e no Texas, mas não muito no México, e também pode ser cultivada como planta ornamental. No nordeste o Brasil, a urumbeta é cultivada especialmente para ser usada como alimento para o gado durante a estação seca do semiárido, apesar de ser eventualmente consumida por humanos. Esta planta também é cultivada na Jamaica, especialmente por causa de suas supostas propriedades medicinais e cosméticas.

Frutos maduros e um tanto ressecados. Foto da usuária elizabeth1 do iNaturalist.**

Recentemente outros usos para a urumbeta têm sido explorados. Por exemplo, descobriu-se que seus caules possuem um coagulante natural que pode ser eficiente para limpar água para o consumo humano. Outro estudo revelou que a urumbeta é muito eficiente absorvendo cromo do solo e poderia ser usada para extrair este elemento de sedimentos contaminados.

Provavelmente há muito mais para ser descoberto sobre esta planta já muito importante mais ainda um tanto negligenciada.

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Referências:

Adki VS, Jadhav JP, Bapat VA (2013) Nopalea cochenillifera, a potential chromium (VI) hyperaccumulator plant. Environmental Science and Pollution Research 20(2): 1173–1180. doi: 10.1007/s11356-012-1125-4

Freitas BLS, Sabogal-Paz LP (2019) Pretreatment using Opuntia cochenillifera followed by household slow sand filters: technological alternatives for supplying isolated communities. Environmental Technology. doi: 10.1080/09593330.2019.1582700

Jiménez-Antillón J, Vargas-Camareno M, Quirós-Bustos (2012) Evaluación de la tuna (Opuntia cochenillifera) para la remoción del color en agua potable. Tecnología en Marcha 25(4): 2012.

Santos DC, Farias I, Lira MA, Santos MVF, Arruda GP, Coelho RSB, Dias FM, Melo JN (2006) Manejo e utilização da palma forrageira (Opuntia e Nopalea) em Pernambuco. Recife: IPA: 48 pp.

Stintzing FC, Carle R (2005) Cactus stems (Opuntia spp.): A review on their chemistry, technology, and uses. Molecular Nutrition & Food Research 49(2): 175–194. doi: 10.1002/mnfr.200400071

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Sexta Selvagem: Eucalipto-Vermelho

por Piter Kehoma Boll

Há poucas coisas tão típicas da vegetação australiana quanto um pé de eucalipto. Cerca de 3/4 de todas as florestas australianas são florestas de eucalipto, e há muitas espécies diferentes neste pequeno continente, muitas das quais possuem uma distribuição bem restrita. Uma espécie, contudo, é naturalmente encontrada através do continente inteiro, Eucalyptus camaldulensis, o eucalipto-vermelho.

Eucaliptos-vermelhos em Eltham, Victoria, Austrália. Foto de Mary Boyd.*

Sendo a espécie de eucalipto com a distribuição mais ampla, o eucalipto-vermelho é encontrado ao longo de cursos d’água do continente. Ele possui um típico jeitão de eucalipto, com uma casca lisa e de cor branca ou creme com algumas marcas mais escuras em amarelo, rosa e marrom, e folhas lanceoladas de um verde-pálido. A árvore atinge a altura de cerca de 20 metros, mas alguns espécimes podem chegar a até 45 metros. As flores são brancas e abrem no verão, e os frutos são cápsulas lenhosas como na maioria das espécies de eucalipto.

Ramos do eucalipto-vermelho com folhas e flores perto de Melbourne, Austrália. Créditos ao usuário Rexness do flickr.**

Devido à sua ampla distribuição e associação com cursos d’água, o eucalipto-vermelho é uma espécie muito importante em ecossistemas australianos. Em áreas mais secas da Austrália, as árvores crescendo perto da água são o único habitat disponível para muitas espécies. Quando as árvores caem na água, seus troncos também fornecem habitas essenciais para muitos peixes. Ao atingir 120 anos de idade ou mais, o tronco começa a apresentar buracos, criando ainda mais habitats para outras espécies, tal como morcegos, aves e cobras.

Como muitas outras espécies de eucalipto, o eucalipto-vermelho foi introduzido ao redor do mundo para a produção de madeira devido ao seu rápido crescimento. Sua madeira possui uma cor vermelha brilhante, de onde o nome comum, apesar de a cor variar de rosa-claro a quase preto dependendo da idade e do tempo. Outros usos incluem lenha, produção de carvão e como fonte de néctar para abelhas durante a época de floração. Sendo altamente adaptável e capaz de se reproduzir rapidamente, ele se tornou uma espécie invasora em muitos locais de todos os continentes.

A madeira do eucalipto vermelho. Foto de Paul Venter.

O estudo de óleos essenciais do eucalipto-vermelho revelou várias aplicações interessantes. Alguns compostos possuem boa atividade antibacteriana e podem ser usados para o desenvolvimento de antissépticos ou desinfetantes. Outros compostos se revelaram excelentes repelentes de mosquitos.

Um herói nos ecossistemas australianos, o eucalipto-vermelho se tornou um vilão em todos os outros lugares por nossa necessidade humana de levar tudo conosco.

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Referências:

Butcher PA, McDonald MW, Bell JC (2009) Congruence between environmental parameters, morphology and genetic structure in Australia’s most widely distributed eucalypt, Eucalyptus camaldulensis. Tree Genetics & Genomes 5: 189–210. doi: 10.1007/s11295-008-0169-6

Ghalem BR, Mohamed B (2008) Antibacterial activity of leaf essential oils of Eucalyptus globulus and Eucalyptus camaldulensis. African Journal of Pharmacy and Pharmacology 2(10): 211–215.

Negahban M, Moharrampiour S (2007) Fumigant toxicity of Eucalyptus intertextaEucalyptus sargentii and Eucalyptus camaldulensis against stored‐product beetles. Journal of Applied Entomology 131(4): 256–261. doi: 10.1111/j.1439-0418.2007.01152.x

Watanabe K, Shono Y, Kakimizu A, Okada A, Matsuo N, Satoh A, Nishimura H (1993) New mosquito repellent from Eucalyptus camaldulensis. Journal of Agricultural and Food Chemistry 41: 11. doi: 10.1021/jf00035a065

Wikipedia. Eucalyptus camaldulensis. Available at < https://en.wikipedia.org/wiki/Eucalyptus_camaldulensis >. Access on 20 October 2019.

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Sexta Selvagem: Acácia-Dourada

por Piter Kehoma Boll

Se você caminhar pelas florestas de eucalipto no leste da Austrália, poderá encontrar a espécie de hoje em seu ambiente natural. Seu nome é Acacia pycnantha, comumente conhecida como acácia-dourada e, como é óbvio pelos nomes científico e comum, é uma espécie de acácia.

Uma acácia dourada entre eucaliptos no sul da Austrália. Foto de David Muirhead.*

A acácia-dourada é uma árvore peculiar. Ela atinge uma altura de cerca de 8 metros, apesar de a maioria dos indivíduos chegar apenas a 6 m. Como é comum entre espécies australianas do gênero Acacia, a acácia-dourada não possui folhas verdadeiras. Em vez disso, possui pecíolos modificados, chamados filódios, que são alargados para se parecerem com e funcionarem como folhas. Os filódios possuem uma forma lanceolada e falcada, isto é, se parecem com uma folha típica que é ligeiramente curvada para um lado, como uma foice. O lado externo desta “foice” possui um nectário extrafloral, uma estrutura que produz néctar e atrai insetos e aves que se alimentam dele.

Filódios da acácia-dourada com o nectário extrafloral visível como uma pequena protuberância redonda. Foto do usuário Melburnian do Wikimedia.**

A planta produz botões de flor o ano inteiro, mas somente aqueles produzidos entre novembro e maio se desenvolverão adiante e abrirão entre julho e novembro do ano seguinte. As flores ocorrem em inflorescências e possuem uma cor amarela intensa e o aspecto felpudo típico de flores de acácias que é causado por estames muito longos.

Uma inflorescência com várias flores e seus estames muito longos. Foto de Patrick Kavanagh.***

Apesar da enorme quantidade de flores que uma árvore única produz, esta espécie é autoincompatível, significando que não pode fertilizar a si mesma e precisa que seu pólen seja levado para as flores de outro indivíduo da mesma espécie. Já se sabe que aves são polinizadores muito importantes da acácia-dourada e a árvore usa seus nectários extraflorais para auxiliar nisso. Quando uma ave visita a árvore, ela se alimenta do néctar dos nectários extraflorais e, no processo, esbarra contra as flores, ficando coberta de pólen. Quando as aves visitam a próxima árvore e colidem contra suas flores, parte do pólen da primeira planta passa para as flores da segunda.

A casca da acácia-dourada produz grandes quantidades de taninos, mais do que qualquer outra acácia australiana, o que levou a seu cultivo para este propósito. Quando estressado, o tronco exsuda uma goma (resina) que é similar à goma-arábica produzida por espécies africanas de acácia.

Goma exsudando do tronco da acácia-dourada. Foto de Patrick Kavanagh.***

A acácia-dourada foi introduzida em vários países, especialmente na Europa e na África, para propósitos ornamentais e econômicos. Na África do Sul, seu cultivo para a produção de tanino fez com que ela se espalhasse rapidamente pelos ecossistemas nativos, tornando-se invasora. E agora, como sempre, temos que lidar com as consequências de nossos atos irracionais e correr para resolver este problema.

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Referências:

Hoffmann JH, Impson FAC, Moran VC, Donnelly D (2002) Biological control of invasive golden wattle trees (Acacia pycnantha) by a gall wasp, Trichilogaster sp. (Hymenoptera: Pteromalidae), in South Africa. Biological Control 25(1): 64–73. 10.1016/S1049-9644(02)00039-7

Vanstone VA, Paton DC (1988) Extrafloral Nectaries and Pollination of Acacia pycnanthaBenth by Birds. Australian Journal of Botany 36(5): 519–531. doi: 10.1071/BT9880519

Wikipedia. Acacia pycnantha. Disponível em < https://en.wikipedia.org/wiki/Acacia_pycnantha >. Acesso em 9 de agosto de 2019.

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Sexta Selvagem: Figueira-Lacerdinha

por Piter Kehoma Boll

Com a postagem de hoje, pretendo começar uma série de três Sextas Selvagens que estão conectadas. Afinal, isso é o que a vida é, não é? Organismos interagindo.

Então para começar, vamos falar hoje sobre uma magnífica árvore, a figueira Ficus microcarpa, comumente conhecida como figueira-lacerdinha, baniano-malaio, gajumaru e muitos outros nomes. Ela ocorre nativamente da China até a Austrália, incluindo todo o sudeste da Ásia e várias ilhas do Pacífico no caminho. Contudo, ela pode ser encontrada em muitos outros países hoje porque se tornou uma planta ornamental um tanto popular.

Uma figueira-lacerdinha no Jardim Botânico de Maui Nui, Havaí. Foto de Forest & Kim Starr.*

Em seu hábitat natural, a figueira-lacerdinha atinge 30 metros de altura ou mais, com uma copa que se espalha por mais de 70 metros e um tronco com mais de 8 metros de espessura. A maioria das árvores são menores, no entanto, e nunca atingem tamanhos tão impressionantes em climas temperados. Sua casca possui uma cor cinza-clara e as folhas são lisas, inteiras e oblanceoladas, com 5 a 6 cm de comprimento. Os figos são consideravelmente pequenos, de onde o nome microcarpa (com frutos pequenos). É comum que espécimes grandes produzam raízes aéreas, que crescem dos galhos e tocam o solo, formando um sistema intrincado e belo.

Um espécime com várias raízes aéreas. Foto de Forest & Kim Starr.*

Como é típico entre figueiras, a figueira-lacerdinha é polinizada por uma vespa-do-figo, neste caso da espécie Eupristina verticillata. Fora de sua área nativa, a árvore só consegue produzir sementes viáveis na presença da vespa, de forma que o inseto precisa ser introduzido junto com ela. Seus frutos são muito atrativos para aves, que espalham as sementes em suas fezes. Após passarem pelo trato digestivo da ave e atingirem o ambiente externo de novo, as sementes atraem formigas que as espalham ainda mais. Sendo bem versátil em relação ao substrato em que germina, a figueira-lacerdinha pode crescer sobre muitas superfícies, frequentemente brotando através de frestas em muros e calçadas e os quebrando enquanto cresce.

Folhas e fruto. Foto de Forest & Kim Starr.*

A figueira-lacerdinha é usada na medicina tradicional chinesa para tratar uma variedade de condições, incluindo dor, febre, gripe, malária, bronquite e reumatismo. Estudos em laboratório isolaram compostos anticâncer, antioxidantes e antibacterianos da casca, das folhas, das raízes aéreas e dos frutos, bem como compostos antifúngicos do látex. A árvore tem, portanto, o potencial de ser usada para o desenvolvimento de muitos medicamentos.

Uma muda crescendo num muro. Foto de Forest & Kim Starr.*

Devido ao seu tamanho impressionante e o intrincado labirinto formado pela rede de raízes aéreas, a figueira-lacerdinha possui um papel importante para muitos grupos religiosos em sua região nativa, sendo frequentemente considerada a casa de espíritos, sejam eles bons ou maus, e sua presença costuma marcar locais de adoração. Independente destas crenças, no entanto, esta magnífica árvore merece toda a admiração que recebe.

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Referências:

Ao C, Li A, Elzaawely AA, Xuan TD, Tawata S (2008) Evaluation of antioxidant and antibacterial activities of Ficus microcarpa L. fil. extract. Food Control 19(10): 940–948. doi: 10.1016/j.foodcont.2007.09.007

Chiang YM, Chang JY, Kuo CC, Chang CY, Kuo YH (2005) Cytotoxic triterpenes from the aerial roots of Ficus microcarpa. Phytochemistry 66(4): 495–501. doi:10.1016/j.phytochem.2004.12.026

Kaufmann S, McKey DB, Hossaert-McKey M, Horvitz CC (1991) Adaptations for a two-phase seed dispersal system involving vertebrates and ants in a hemiepiphytic fig (Ficus microcarpa: Moraceae). American Journal of Botany 78(7): 971–977. doi: 10.1002/j.1537-2197.1991.tb14501.

Taira T, Ohdomari A, Nakama N, Shimoji M, Ishihara M (2005) Characterization and Antifungal Activity of Gazyumaru (Ficus microcarpa) Latex Chitinases: Both the Chitin-Binding and the Antifungal Activities of Class I Chitinase Are Reinforced with Increasing Ionic Strength. Bioscience, Biotechnology and Biochemistry 69(4): 811–819. doi: 10.1271/bbb.69.811

Wikipedia. Ficus microcarpa. Disponível em < https://en.wikipedia.org/wiki/Ficus_microcarpa >. Acesso em 8 de junho de 2019.

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