Arquivo da categoria: Botânica

Sexta Selvagem: Acácia-Dourada

por Piter Kehoma Boll

Se você caminhar pelas florestas de eucalipto no leste da Austrália, poderá encontrar a espécie de hoje em seu ambiente natural. Seu nome é Acacia pycnantha, comumente conhecida como acácia-dourada e, como é óbvio pelos nomes científico e comum, é uma espécie de acácia.

Uma acácia dourada entre eucaliptos no sul da Austrália. Foto de David Muirhead.*

A acácia-dourada é uma árvore peculiar. Ela atinge uma altura de cerca de 8 metros, apesar de a maioria dos indivíduos chegar apenas a 6 m. Como é comum entre espécies australianas do gênero Acacia, a acácia-dourada não possui folhas verdadeiras. Em vez disso, possui pecíolos modificados, chamados filódios, que são alargados para se parecerem com e funcionarem como folhas. Os filódios possuem uma forma lanceolada e falcada, isto é, se parecem com uma folha típica que é ligeiramente curvada para um lado, como uma foice. O lado externo desta “foice” possui um nectário extrafloral, uma estrutura que produz néctar e atrai insetos e aves que se alimentam dele.

Filódios da acácia-dourada com o nectário extrafloral visível como uma pequena protuberância redonda. Foto do usuário Melburnian do Wikimedia.**

A planta produz botões de flor o ano inteiro, mas somente aqueles produzidos entre novembro e maio se desenvolverão adiante e abrirão entre julho e novembro do ano seguinte. As flores ocorrem em inflorescências e possuem uma cor amarela intensa e o aspecto felpudo típico de flores de acácias que é causado por estames muito longos.

Uma inflorescência com várias flores e seus estames muito longos. Foto de Patrick Kavanagh.***

Apesar da enorme quantidade de flores que uma árvore única produz, esta espécie é autoincompatível, significando que não pode fertilizar a si mesma e precisa que seu pólen seja levado para as flores de outro indivíduo da mesma espécie. Já se sabe que aves são polinizadores muito importantes da acácia-dourada e a árvore usa seus nectários extraflorais para auxiliar nisso. Quando uma ave visita a árvore, ela se alimenta do néctar dos nectários extraflorais e, no processo, esbarra contra as flores, ficando coberta de pólen. Quando as aves visitam a próxima árvore e colidem contra suas flores, parte do pólen da primeira planta passa para as flores da segunda.

A casca da acácia-dourada produz grandes quantidades de taninos, mais do que qualquer outra acácia australiana, o que levou a seu cultivo para este propósito. Quando estressado, o tronco exsuda uma goma (resina) que é similar à goma-arábica produzida por espécies africanas de acácia.

Goma exsudando do tronco da acácia-dourada. Foto de Patrick Kavanagh.***

A acácia-dourada foi introduzida em vários países, especialmente na Europa e na África, para propósitos ornamentais e econômicos. Na África do Sul, seu cultivo para a produção de tanino fez com que ela se espalhasse rapidamente pelos ecossistemas nativos, tornando-se invasora. E agora, como sempre, temos que lidar com as consequências de nossos atos irracionais e correr para resolver este problema.

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Referências:

Hoffmann JH, Impson FAC, Moran VC, Donnelly D (2002) Biological control of invasive golden wattle trees (Acacia pycnantha) by a gall wasp, Trichilogaster sp. (Hymenoptera: Pteromalidae), in South Africa. Biological Control 25(1): 64–73. 10.1016/S1049-9644(02)00039-7

Vanstone VA, Paton DC (1988) Extrafloral Nectaries and Pollination of Acacia pycnanthaBenth by Birds. Australian Journal of Botany 36(5): 519–531. doi: 10.1071/BT9880519

Wikipedia. Acacia pycnantha. Disponível em < https://en.wikipedia.org/wiki/Acacia_pycnantha >. Acesso em 9 de agosto de 2019.

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*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição Não Comercial 4.0 Internacional

**Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 3.0 Não Adaptada.

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Sexta Selvagem: Figueira-Lacerdinha

por Piter Kehoma Boll

Com a postagem de hoje, pretendo começar uma série de três Sextas Selvagens que estão conectadas. Afinal, isso é o que a vida é, não é? Organismos interagindo.

Então para começar, vamos falar hoje sobre uma magnífica árvore, a figueira Ficus microcarpa, comumente conhecida como figueira-lacerdinha, baniano-malaio, gajumaru e muitos outros nomes. Ela ocorre nativamente da China até a Austrália, incluindo todo o sudeste da Ásia e várias ilhas do Pacífico no caminho. Contudo, ela pode ser encontrada em muitos outros países hoje porque se tornou uma planta ornamental um tanto popular.

Uma figueira-lacerdinha no Jardim Botânico de Maui Nui, Havaí. Foto de Forest & Kim Starr.*

Em seu hábitat natural, a figueira-lacerdinha atinge 30 metros de altura ou mais, com uma copa que se espalha por mais de 70 metros e um tronco com mais de 8 metros de espessura. A maioria das árvores são menores, no entanto, e nunca atingem tamanhos tão impressionantes em climas temperados. Sua casca possui uma cor cinza-clara e as folhas são lisas, inteiras e oblanceoladas, com 5 a 6 cm de comprimento. Os figos são consideravelmente pequenos, de onde o nome microcarpa (com frutos pequenos). É comum que espécimes grandes produzam raízes aéreas, que crescem dos galhos e tocam o solo, formando um sistema intrincado e belo.

Um espécime com várias raízes aéreas. Foto de Forest & Kim Starr.*

Como é típico entre figueiras, a figueira-lacerdinha é polinizada por uma vespa-do-figo, neste caso da espécie Eupristina verticillata. Fora de sua área nativa, a árvore só consegue produzir sementes viáveis na presença da vespa, de forma que o inseto precisa ser introduzido junto com ela. Seus frutos são muito atrativos para aves, que espalham as sementes em suas fezes. Após passarem pelo trato digestivo da ave e atingirem o ambiente externo de novo, as sementes atraem formigas que as espalham ainda mais. Sendo bem versátil em relação ao substrato em que germina, a figueira-lacerdinha pode crescer sobre muitas superfícies, frequentemente brotando através de frestas em muros e calçadas e os quebrando enquanto cresce.

Folhas e fruto. Foto de Forest & Kim Starr.*

A figueira-lacerdinha é usada na medicina tradicional chinesa para tratar uma variedade de condições, incluindo dor, febre, gripe, malária, bronquite e reumatismo. Estudos em laboratório isolaram compostos anticâncer, antioxidantes e antibacterianos da casca, das folhas, das raízes aéreas e dos frutos, bem como compostos antifúngicos do látex. A árvore tem, portanto, o potencial de ser usada para o desenvolvimento de muitos medicamentos.

Uma muda crescendo num muro. Foto de Forest & Kim Starr.*

Devido ao seu tamanho impressionante e o intrincado labirinto formado pela rede de raízes aéreas, a figueira-lacerdinha possui um papel importante para muitos grupos religiosos em sua região nativa, sendo frequentemente considerada a casa de espíritos, sejam eles bons ou maus, e sua presença costuma marcar locais de adoração. Independente destas crenças, no entanto, esta magnífica árvore merece toda a admiração que recebe.

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Referências:

Ao C, Li A, Elzaawely AA, Xuan TD, Tawata S (2008) Evaluation of antioxidant and antibacterial activities of Ficus microcarpa L. fil. extract. Food Control 19(10): 940–948. doi: 10.1016/j.foodcont.2007.09.007

Chiang YM, Chang JY, Kuo CC, Chang CY, Kuo YH (2005) Cytotoxic triterpenes from the aerial roots of Ficus microcarpa. Phytochemistry 66(4): 495–501. doi:10.1016/j.phytochem.2004.12.026

Kaufmann S, McKey DB, Hossaert-McKey M, Horvitz CC (1991) Adaptations for a two-phase seed dispersal system involving vertebrates and ants in a hemiepiphytic fig (Ficus microcarpa: Moraceae). American Journal of Botany 78(7): 971–977. doi: 10.1002/j.1537-2197.1991.tb14501.

Taira T, Ohdomari A, Nakama N, Shimoji M, Ishihara M (2005) Characterization and Antifungal Activity of Gazyumaru (Ficus microcarpa) Latex Chitinases: Both the Chitin-Binding and the Antifungal Activities of Class I Chitinase Are Reinforced with Increasing Ionic Strength. Bioscience, Biotechnology and Biochemistry 69(4): 811–819. doi: 10.1271/bbb.69.811

Wikipedia. Ficus microcarpa. Disponível em < https://en.wikipedia.org/wiki/Ficus_microcarpa >. Acesso em 8 de junho de 2019.

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Fiquem que nem líquen: folhas disfarçadas de tronco para evitar serem comidas

por Piter Kehoma Boll

Todos estamos familiarizados com animais de muitas espécies que desenvolveram mecanismos interessantes para evitar serem comidos. Isso inclui, por exemplo, animais que se parecem com partes de plantas:

O famoso bicho-folha-gigante Phyllium giganteum. Foto de Bernard Dupont.**

e animais que se mesclam com o fundo:

Um chacal-da-África-Oriental, Canis mesomelas, na Savana. Consegue vê-lo? Foto de Nevit Dilmen.***

Também há animais que se parecem com outros animais não palatáveis ou perigosos para afastar os predadores:

A borboleta comestível vice-rei, Limenitis archippus (acima) imita a venenosa borboleta-monarca Danaus plexippus (abaixo). Créditos ao usuário do Wikimedia DRosenbach. Fotos de D. Gordon E. Robertson e Derek Ramsey.***

Mas nós raramente pensamos que as plantas também usam este tipo de mecanismo para evitar serem comidas. Há, no entanto, alguns casos registrados de comportamentos similares em plantas. Um caso é o da planta Corydalis benecincta, cujas folhas comumente possuem a cor amarronzada das rochas ao redor:

As folhas de Corydalis benecincta se parecem com as rochas encontradas em seu habitat natural. Foto extraída de http://www.svenlandrein.com/yunnancollections/10CS2204.html

Recentemente, um estudo com plantas do gênero Amorphophallus encontrou outro caso interessante de imitação. Este gênero, que inclui o famoso jarro-titã, geralmente desenvolve uma única folha grande que em algumas espécies atinge o tamanho de uma pequena árvore ou de um arbusto. Uma folha gigante assim parece ser a refeição perfeita para um herbívoro, mas, para evitá-los, muitas espécies do gênero desenvolveram uma série de marcas ao longo do pecíolo da folha que se parecem com líquens ou cianobactérias.

Marcas semelhantes a cianobactérias no pecíolo de Amorphophallus gigas (A); Marcas semelhantes a cianobactérias + marcas semelhantes a líquens também em A. gigas (B); e marcas semelhantes a líquens em A. hewittii (C) e A. dactylifer (D). Extraído de Claudel et al. (2019).

Com esta imitação, os pecíolos, que são bem tenros, acabam se parecendo com um tronco duro e velho que não parece tão interessante para a maioria dos herbívoros. As marcas de líquens são tão bem representadas que podem até mesmo ser associadas com gêneros reais de líquens. Por exemplo, as marcas vistas nas figuras B e C acima se parecem com líquens do gênero Cryptothecia.

Líquens da espécie Cryptothecia striata, que parecem ser imitados pelas marcas em Amorphophallus gigas e A. hewittii. Foto de Jason Hollinger.*

Como e por que estas marcas evoluíram através das espécies de Amorphophallus ainda não é bem compreendido. Apesar da hipótese de que elas ajudam a planta a imitar um tronco de árvore, algumas espécies com folhas pequenas também possuem essas marcas, enquanto outras com folhas grandes não possuem qualquer marca ou as têm em padrões mais simples. O jarro-titã Amorphophallus titanum é um bom exemplo do último caso:

Amorphophallus titanum é a maior espécie de Amorphophallus, mas apresenta um padrão de líquen consideravelmente simples. Foto do usuário do flickr Bjorn S.**

Por muito tempo, as plantas foram consideradas organismos menos dinâmicos que os animais, mas em anos recentes nosso conhecimento sobre elas está aumentando e mostrando que na verdade elas são criaturas muito versáteis e desenvolveram estratégias igualmente criativas e complexas.

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Referência:

Claudel C, Lev-Yadun S, Hetterscheid W, & Schultz M 2019. Mimicry of lichens and cyanobacteria on tree-sized Amorphophallus petioles results in their masquerade as inedible tree trunks. Bot J Linn Soc 190: 192–214.

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Sexta Selvagem: Fritilária-Imperial

por Piter Kehoma Boll

Vamos trazer uma alta dose de beleza para a Sexta Selvagem de hoje com uma espécie maravilhosa que pode às vezes ser encontrada em seu jardim.

Fritilária-imperial crescendo em seu ambiente natural no Curdistão. Foto do usuário A2raya07 do Wikimedia.*

Fritillaria imperialis, a fritilária-imperial ou coroa-imperial, é nativa das terras altas asiáticas entre a Turquia e os Himalaias, mas é cultivada a nível global, tendo uma série de cultivares artificialmente selecionados. A planta atinge uma altura de cerca de 1 m e possui uma série de folhas em forma de lança ao longo de seu caule, de forma similar ao que é encontrado em outras espécies da família do lírio, Liliaceae, a qual pertence. As flores aparecem em uma espiral perto do topo do caule e são viradas para baixo. Uma coroa de pequenas folhas fica acima das flores, daí o nome imperialis. As flores em forma de sino são geralmente laranjas na natureza, mas, em cultivares, variam entre vermelho e amarelo.

Um cultivar chamado ‘Rubra Maxima’. Foto de Hendry Heatly.**

A fritilária-imperial vem sendo usada em medicina tradicional por séculos por pessoas vivendo em sua área de distribuição nativa. Estudos recentes revelaram que a planta contém uma série de de alcaloides, principalmente alcaloides esteroides anticolinérgicos, que possuem o potencial de serem usados para o desenvolvimento de novos medicamentos para tratar várias condições.

Apesar de sua popularidade como planta ornamental, populações selvagens da fritilária-imperial estão ameaçadas em muitos países em que ela ocorre, especialmente devido a perda de habitat. De forma a auxiliar na preservação e na restauração de populações selvagens, algumas técnicas de laboratório vêm sendo desenvolvidas para gerar clones que poderiam ajudar a aumentar o tamanho populacional na natureza.

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Referências:

Akhtar MN, Rahman A, Choudhary MI, Sener B, Erdogan I, Tsuda Y (2003) New class of steroidal alkaloids from Fritillaria imperialisPhytochemistry 63: 115–122. doi: 10.1016/S0031-9422(02)00569-1

Gilani AH, Shaheen F, Christopoulos A, Mitchelson F (1997) Interaction of ebeinone, an alkaloid from Fritillaria imperialis, at two muscarinic acetylcholine receptor subtypes. Life Sciences 60 (8): 535–544. doi: 
10.1016/S0024-3205(96)00691-1

Kiani M, Mohammadi S, Babaei A, Sefidkon F, Naghavi MR, Ranjbar M, Razavi SA, Saeidi K, Jafari H, Asgardi D, Potter D (2017) Iran supports a great share of biodiversity and floristic endemism for Fritillaria spp. (Liliaceae): A review. Plant Diversity 39(5): 245–262. doi: 10.1016/j.pld.2017.09.002

Mohammadi-Dehcheshmeh M, Khalighi A, Naderi R, Sardari M, Ebrahimie E (2008) Petal: a reliable explant for direct bulblet regeneration of endangered wild populations of Fritillaria imperialis L. Acta Physiologiae Plantarum 30(3): 395–399. doi: 10.1007/s11738-007-0126-2

Wikipedia. Fritillaria imperialis. Disponível em < https://en.wikipedia.org/wiki/Fritillaria_imperialis >. Access em 11 de fevereiro de 2019.

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Sexta Selvagem: Samambaia-Preta

por Piter Kehoma Boll

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Você pode ter visto partes da espécie de hoje ao menos uma vez na vida, já que ela é uma planta muito popular em arranjos de flores.

Um buquê de flores com folhas de Rumohra adiantiformis.

Rumohra adiantiformis é como ela é conhecida por botânicos, e nomes comuns incluem samambaia-preta, samambaia-de-sete-semanas e samambaia-de-ferro. Esta espécie de samambaia é amplamente distribuída  na Australásia, no sul da África e nos Neotrópicos, bem como em várias ilhas do Oceano Pacífico.

Vivendo em áreas de floresta, especialmente onde não há muita sombra, a samambaia-preta possui uma biologia que não é muito diferente daquela de outras samambaias. Ela geralmente cresce no solo, apesar de poder eventualmente ocorrer em rochas ou em árvores. O que torna esta samambaia especial é que suas frondes maduras são um tanto duras e, após serem cortadas, continuam a ter uma aparência verde e viva por um longo tempo, geralmente várias semanas.  Essa incrível resistência em murchar a faz uma espécie ideal para ser usada em arranjos de flores.

Samambaia-preta crescendo na África do Sul. Foto do usuário JMK do Wikimedia.*

Atualmente, a maioria da produção de samambaia-preta para uso comercial ocorre no estado da Flórida, EUA, onde ela é cultivada em viveiros irrigados e sombreados. Outros grandes produtores são a África do Sul e o Brasil, especialmente o sul do Brasil, mas nestes dois países a planta é explorada por extrativismo, isto é, é colhida na natureza e não cultivada. Apesar de a extração da samambaia-preta ser uma atividade de ocorrência ampla tanto na África do Sul quanto no sul do Brasil e ser uma fonte importante de renda para muitas famílias, ela é ilegal de acordo com leis nacionais ou regionais. Contudo, ao menos no sul do Brasil, onde a samambaia-preta ocorre nas maiores densidades registradas no mundo, a principal razão para suas populações estarem diminuindo não parece ser a extração, mas sim a sucessão florestal natural. À medida que as florestas envelhecem e se tornam mais escuras, elas se fornam inadequadas para o crescimento da samambaia-preta.

É necessário, é claro, estabelecer limites para sua colheita. Caso contrário, a crescente demanda no mercado florista pode acabar causando efeitos preocupantes em sua ocorrência. A melhor alternativa continua sendo cultivar a samambaia, já que isso protege populações selvagens e permite a colheia de frondes de alta qualidade e uma recuperação mais rápida depois da desfolhação.

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Referências:

Geldenhuys CJ, van der Merwe CJ (1988) Population structure and growth of the fern Rumohra adiantiformis in relation to frond harvesting in the southern Cape forests. South African Journal of Botany 54(4): 351–362.

Milton SJ (1987) Growth of Seven-weeks Fern (Rumohra adiantiformis) in the Southern Cape Forests: Implications for Management. South African Forestry Journal 143: 1–4.

Souza GC, Cubo R, Guimarães L, Elisabetsky E (2006) An ethnobiological assessment of Rumohra adiantiformis (samambaia-preta) extractivism in Southern Brazil. Biodiversity and Conservation 15: 2737–2746. doi: 10.1007/s10531-005-0309-3

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Sexta Selvagem: Micrastérias-denticulada

por Piter Kehoma Boll

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Um novo ano está começando com a Sexta Selvagem, e vamos começar pequenos com uma adorável alguinha chamada Micrasterias denticulata, ou a micrastérias-denticulada, como eu decidi chamar. Encontrada em ambientes de água doce, especialmente turfeiras com água ácida, pelo mundo todo, esta espécie pertence à ordem Desmidiales, que é caracterizada por sua anatomia celular peculiar.

Um indivíduo de Micrasterias denticulata coletado na Espanha. Créditos a Proyecto Agua.*

Como a maioria das desmídias, a micrastérias-denticulada é um organismo unicelular e sua célula é dividida em duas metades chamadas semicélulas que são unidas por um estreito istmo. Cada semicélula contém um grande coloroplasto, e o núcleo fica dentro do istmo. Devido à sua célula simétrica com um formato bem definido, incluindo uma série de lobos, a micrastérias-denticulada e outras espécies do gênero são ideais para o estudo de morfogênese celular.

Recentemente, a micrastérias-denticulada vem sendo usada para estudar os efeitos de várias variáveis ambientais, especialmente poluentes e nutrientes, no formato da célula. Tais estudos são importantes para entender os efeitos de mudanças ambientais causadas por atividades humanas, como a agricultura e a produção de resíduos, em organismos de água doce. Vivendo em ambientes que mudam constantemente de pH, salinidade e temperatura, a micrastérias-denticulada é um organismo resistente e desenvolveu mecanismos para evitar intoxicação, como a cristalização de metais pesados para torná-los inativos dentro da célula.

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Referências:

Affenzeller MJ, Darehshouri A, Andosch A, Lütz C, Lütz-Meindl U (2009) Salt stress-induced cell death in the unicellular alga Micrasterias denticulata. Journal of Experimental Botany 60(3): 939–954.
https://doi.org/10.1093/jxb/ern348

Niedermeier M, Gierlinger N, Lütz-Meindl U (2018) Biomineralization of strontium and barium contributes to detoxification in the freshwater alga Micrasterias. Journal of Plant Physiology 230: 80–91.
https://doi.org/10.1016/j.jplph.2018.08.008

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A história da Sistemática: Systema Naturae de 1758 a 1767–1770

por Piter Kehoma Boll

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Em uma série de postagens anteriores, eu detalhei a classificação dos seres vivos por Linnaeus na sua obra Systema Naturae com apresentada na décima edição, publicada e 1758. Aqui, vou apresentar a classificação de forma resumida e mostrar mudanças que aconteceram entre a 10ª edição e a 13ª edição publicada em duas porta, uma 9 anos depois, em 1767, tratando dos animais, e uma 12 anos depois, em 1770, tratando das plantas.

Animais

Linnaeus classificou os animais em 6 classes: Mammalia, Aves, Amphibia, Pisces, Insecta e Vermes.

1. Mammalia incluía mamíferos e em 1758 eram classificados em 8 ordens: Primates, Bruta, Ferae, Bestiae, Glires, Pecora, Belluae, Cete (veja detalhes aqui).

A classificação dos mamíferos de Linnaeus em 1758 e 1767.

Em 1767, a ordem Bestiae não existe mais. Tatus (Dasypus) foram transferidos para Bruta, porcos (sus) para Belluae e os restantes para Ferae. Adicionalmente, rinocerontes (Rhinoceros) foram transferidos de Glires para Belluae e uma espécie de morcego foi transferida do gênero Vespertilio em Primates para um novo gênero, Noctilio, em Glires.

2. Aves incluía aves e em 1758 elas eram classificadas em 6 ordens: Accipitrae, Picae, Anseres, Grallae, Gallinae, Passeres (veja detalhes aqui).

Classificação dos aves de Linnaeus em 1758 e 1767.

Em 1767, cinco novos gêneros surgiram em Picae: Buphaga, os pica-bois, Trogon, os surucuás, Oriolus, os oriolos (anteriormente no gênero Coracias), Bucco, os rapazinhos, e Todus, os todinhos. Um novo gênero aparece em Anseres, Plotus, as biguatingas. A ordem Grallae recebe o novo gênero Palamedea, as seriemas e os tachãs, Parra, as jaçanãs, e Cancroma, a garça-bico-de-barco. A ordem Gallinae é aumentada com o novo gênero Didus, o dodô (que foi anteriormente um membro do gênero Struthio na ordem Grallae), e Numida, a galinha-de-Angola (anteriormente no gênero Phasianus). E, finalmente, a ordem Passeres recebeu os novos gêneros Pipra para os uirapurus (antes em Parus), Ampelis, os picoteiros e as cotingas (antes no gênero Lanius na ordem Accipitrae), Tanagra, os tangarás (antes em Fringilla), e Muscicapa, os papa-moscas (antes nos gêneros Corvus e Motacilla).

Também é interessante notar uma mudança no nome da ordem Accipitrae para Accipitres, e o gênero Jynx é aqui escrito Yunx.

3. Amphibia incluía répteis, anfíbios e alguns peixes e tinha 3 ordens: Reptiles, Serpentes e Nantes (veja detalhes aqui).

Classificação dos Anfíbios de Linnaeus em 1758 e 1767.

As ordens Reptiles e Serpentes se mantiveram as mesmas. A ordem Nantes, que em 1758 incluía principalmente peixes cartilaginosos, em 1767 incluía muitos gêneros que eram anteriormente classificados na classe Pisces, especialmente na ordem Branchiostegi (veja abaixo).

4. Pisces incluía a maioria dos peixes e tinha 5 ordens: Apodes, Jugulares, Thoracici, Abdominales e Branchiostegi (veja detalhes aqui).

Classificação dos peixes de Linnaeus em 1758 e 1767.

O gênero Ophidion foi transferido da ordem Jugulares para Apodes e aparece grafado como Ophidium. A ordem Thoracici recebeu o gênero adicional Cepola (suspensórios) e a ordem Abdominales foi aumentada com o gênero Amia (a amia), Teuthis e Elops (a ubarana), bem como o gênero Mormyrus, antes parte da ordem Branchiostegi que deixou de existir.

5. Insecta incluía artrópodes e tinha 7 ordens: Coleoptera, Hemiptera, Lepidoptera, Neuroptera, Hymenoptera, Diptera, Aptera (veja detalhes aqui).

Classificação dos insetos de Linnaeus em 1758 e 1767.

A ordem Coleoptera recebeu os novos gêneros Lucanus (vacalouras, antes em Scarabaeus), Byrrhus (besouros-pílula), Gyrinus (besouros-giradores, Bruchus (gorgulhos-da-ervilha), Ptinus (besouros-aranhas), Hispa, Lampyris (vagalumes). Os gêneros Blatta e Gryllus foram transferidos para Hemiptera e os louva-a-deuses foram removidos de Gryllus e receberam seu próprio gênero, Mantis. Além disso, as jequitiranaboias foram removidas do gênero Cicada e transferidas para Fulgora. Na ordem Neuroptera, as formigas-leão foram removidas do gênero Hemerobius e transferidas para o novo gênero Myrmeleon. Na ordem Hymenoptera, as vespas-cuco foram transferidas do gênero Sphex para o novo gênero Chrysis.

6. Vermes incluía vários vermes, moluscos, equinodermos, cnidários e a feiticeira. Havia 5 ordens: Intestina, Mollusca, Testacea, Lithophyta e Zoophyta (veja detalhes aqui).

Classificação dos vermes de Linnaeus em 1758 e 1767.

De 1758 a 1767, o gênero Furia, de uma espécie fictícia, foi transferido de Intestina para Zoophyta, e o gênero Teredo (turus) foi transferido de Intestina para Testacea. Um novo gênero Sipunculus, foi adicionado a Intestina para incluir os vermes-amendoim. Na ordem Mollusca, encontramos agora os novos gêneros Ascidia (ascídias), Aplysia (lebres-do-mar), Terebella (alguns poliquetos antes em Nereis) e Clio (algumas lesmas marinhas). O gênero Priapus, contendo as anêmonas-do-mar, é agora chamado Actinia. A ordem Testacea recebeu os novos gêneros Mactra (amêijoas, antes em Cardium) e Sabella (verme-leque, antes em Serpula). A ordem Lithophyta recebeu o novo gênero Cellepora (para briozoários). Na ordem Zoophyta, encontramos o novo gênero Flustra (para briozoários antes em Eschara), Vorticella (para ciliados antes em Hydra) e Chaos (para amebas, antes em Volvox). Um gênero adicional é visto em Zoophyta: Spongia (esponjas), transferido de Algae, lá no reino das plantas.

Plantas

O sistema de classificação das plantas era muito mais complicado que o dos animais. Havia plantas com flores regulares classificadas de acordo com o número de órgãos sexuais masculinos e femininos, respectivamente (como você pode ler em detalhes nas partes 1, 2, 3 e 4 das plantas no Systema Naturae). Pouco mudou exceto por alguns gêneros, como você pode ver na tabela abaixo.

Classificação de Linnaeus das plantas com flores hermafroditas regulares em 1758 e 1770. Veja a imagem em maior resolução aqui.

O mesmo é verdade para espécies nas classes Didynamia e Tetradyamia, que possuem flores com estames de diferentes tamanhos. Pouco mudou em sua classificação.

Classificação de Linnaeus das plantas com flores que possuem estames de dois tamanhos diferentes em 1758 e 1770.

Em relação às três classes caracterizadas por flores com estames aglomerados, podemos ver duas novas ordens na classe Monadelphia.

Classificação de Linnaeus das plantas com estames aglomerados em 1758 e 1770.

Na classe Syngenesia, podemos notar que a ordem Polygamia Superflua deixou de existir, com a maior parte das espécies transferida para Polygamia Aequalis, e uma nova ordem, Polygamia Segregata, está agora presente. Na classe Gynandria, uma nova ordem, Dodecandria, foi criada. Veja estas duas classes com mais detalhes aqui.

Classificação de Linnaeus das plantas com estames fundidos uns aos outros ou aos carpelos em 1758 e 1770.

Nas três classes de plantas com órgãos masculinos e femininos ocorrendo em flores separadas, acho que a novidade mais interessante é que o gênero Chara, que em 1758 foi classificado como um gênero de algas, está agora entre as plantas com flores na classe Monoecia, ordem Monandria.

Classificação de Linnaeus das plantas com órgãos masculinos e femininos em flores diferentes em 1758 e 1770.

Finalmente, entre as criptógamas, as “plantas sem flores”, pouco mudou exceto pela transferência de Chara para as plantas com flores e Spongia para o reino animal.

Classificação de Linnaeus das criptógamas em 1758 e 1770.

Enquanto Linnaeus continuou a desenvolver seu próprio sistema, outras classificações foram sendo propostas. Começaremos a olhar para elas nos próximos capítulos.

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Referências:

Linnaeus, C. (1758) Systema Naturae per regna tria Naturae…

Linnaeus, C; (1967) Systema Naturae per regna tria Naturae….

Linnaeus, C. (1770) Systema Naturae per regna tria Naturae…

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