Sexta Selvagem: Lagosta-Espinhosa-Pintada

por Piter Kehoma Boll

Nenhuma outra espécie no mundo come uma diversidade tão grande de tipos de alimento quanto humanos. E entre todas as coisas que comemos, algumas são muito mais valiosas que outras, e uma dessas comidas preciosas é a carne de Panulirus versicolor, a lagosta-espinhosa-pintada.

Lagosta-espinhosa-pintada em Fiji. Foto de Mark Rosenstein.*

Também conhecida como lagosta-das-rochas-pintada, a lagosta-espinhosa-azul, este crustáceo mede até 40 cm de comprimento e, como todas as lagostas-espinhosas, possui um par de antenas muito grande e espinhoso e não possui as grandes quelas (pinças) no primeiro par de pernas cursoriais que são típicas das lagostas verdadeiras. Seu padrão de coloração é muito complexo e inclui várias marcas brancas e pretas nas pernas, no cefalotórax e na borda posterior de cada segmento abdominal. As grandes antenas possuem uma cor rosada na base mais espessa e são brancas mais à frente.

Outra em Fiji. Foto de Mark Rosenstein.*

A lagosta-espinhosa-pintada é encontrada em recifes de corais da região indo-pacífica, da África do Sul até a Polinésia. Ela é um carnívoro voraz, alimentando-se de carcaças, mas também caçando ativamente outros crustáceos e eventualmente peixes. Elas são noturnas e permanecem durante o dia escondidas em abrigos rochosos e saem à noite para capturar outros bentos (isto é, espécies que se movem pelo fundo do mar). Apesar de não terem uma estrutura social complexa, as lagostas-espinhosas-pintadas podem dividir a mesma toca caso haja espaço suficiente e elas aparentemente preferem fazer assim, mesmo os grupos não permanecendo juntos, pois a maioria dos indivíduos muda para uma nova toca a cada poucos dias. A forma como elas compartilham as tocas não é aleatória, no entanto. Lagostas-espinhosas-pintadas fêmeas compartilham tocas mais frequentemente do que aconteceria ao acaso, mas dois machos nunca são encontrados na mesma toca. Assim, mesmo tocas grandes que podem abrigar sete ou mais lagostas-espinhosas terão no máximo um macho.

Esta é de Sulawesi, Indonesia. Foto de Albertini maridom.**

Machos e fêmeas têm cerca do mesmo tamanho e se tornam sexualmente maduros quando sua carapaça atinge cerca de 8 a 9 cm de comprimento, o que ocorre quando estão com cerca de 4 anos de idade. Após o acasalamento, a fêmea pode produzir centenas de milhares de ovos em uma só ninhada. Como elas vivem em águas tropicais, podem acasalar mais de uma vez por ano.

Através de sua distribuição, a lagosta-espinhosa-pintada é considerada um alimento valioso em vários países, especialmente Quênia, Índia, Palau, Nova Guiné e Austrália. É, de fato, uma das lagostas-espinhosas mais consumidas na região indo-pacífica. Contudo há poucos estudos sobre o impacto que coletá-las pode ter nos ecossistemas, apesar de se esperar que a maioria dos pescadores de lagostas-espinhosas saiba que indivíduos imaturos não devem ser capturados de forma a assegurar a sobrevivência da espécie.

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Referências:

Frisch AJ (2007) Growth and reproduction of the painted spiny lobster (Panulirus versicolor) on the Great Barrier Reef (Australia). Fisheries Research 85:61–67. doi: 10.1016/j.fishres.2006.12.001

Frisch AJ (2007) Short- and long-term movements of painted lobster (Panulirus versicolor) on a coral reef at Northwest Island, Australia. Coral Reefs 26:311–317. doi: 10.1007/s00338-006-0194-6

Frisch AJ (2008) Social organisation and den utilisation of painted spiny lobster (Panulirus versicolor) on a coral reef at Northwest Island, Australia. Marine and Freshater Research 59:521–528. doi: 10.1071/MF06110

Vijayakumaran M, Maharajan A, Rajalakshmi S, Jayagopal P, Subramanian MS, Remani MC (2012) Fecundity and viability of eggs in wild breeders of spiny lobsters, Panulirus homarus (Linnaeus, 1758), Panulirus versicolor (Latreille, 1804) and Panulirus ornatus (Fabricius, 1798). Journal of the Marine Biological Association of India 54: 18–22.

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*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição Não Comercial e Compartilhamento Igual 4.0 Internacional.

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Sexta Selvagem: Efêmera-Amarela

por Piter Kehoma Boll

Efêmeras constituiem a ordem Ephemeroptera, uma das mais antigas entre os insetos. Proximamente relacionadas às libélulas (ordem Odonata), efêmeras possuem uma ninfa aquática e uma imago (isto é, um adulto) terrestre. Uma espécie consideravelmente bem conhecida é Heptagenia sulphurea, comumente conhecida como efêmera-amarela.

Nativa da Europa, a efêmera-amarela vive a maior parte de sua vida como ninfa. Ela prefere águas correntes e limpas, onde vive sob pedras e se alimenta de matéria vegetal em decomposição e biofilmes de bactérias associados a esse material. A ninfa possui um corpo achatado e uma cor escura com várias marcas amareladas. As pernas são curtas e largas e possuem uma série de listras transversais sinuosas amarelas e pretas alternadas. Como em todas as ninfas de efêmera, o abdome possui brânquias visíveis em ambos os lados e três longos cercos (caudas) na ponta. Durante seu estágio final como ninfa, a efêmera-amarela mede cerca de 1 cm de comprimento.

Ninfa da efêmera amarela. Créditos a European Fly Angler.

A maioria das efêmeras são muito sensíveis à poluição e a efêmera-amarela é uma das mais sensíveis de todas, ao menos na Europa. Quando a água de um riacho começa a se tornar poluída, a efêmera-amarela é a primeira efêmera a desaparecer. Assim, sua presença indica água de qualidade muito boa.

Subimago fêmea na Rússia. Foto de Robin Bad.*

Diferente de todos os outros insetos, efêmeras possuem um estágio intermediário entre a ninfa e a imago, a chamada subimago. Este estágio já é terrestre como a imago e já possui asas, apesar de serem geralmente menos desenvolvidas, tornano-as má voadoras. O estágio de subimago na efêmera-amarela possui uma cor amarela típica, de onde o nome efêmera-amarela. As fêmeas possuem olhos pretos pouco desenvolvido, enquanto malhos possuem olhos maiores que variam de cinza-escuro a esbraquiçado. As ninfas se transformam em subimagos a partir de maio, quando o pico ocorre, mas podem aparecer até o final de julho.

Imago macho da efêmera-amarela na Rússia. Foto de Vladimir Bryukhov.*

Quando a subimago se transforma em adulto, geralmente após poucos dias, o corpo se torna marrom-claro e os olhos esbranquiçados em ambos os sexos, mas os olhos ainda são menores em fêmeas que em machos. Os adultos possuem somente a função de reproduzir e é o que fazem. Após acasalar, o macho morre em poucas horas, e assim acontece com a fêmea após pôr os ovos num riacho.

A efêmera-amarela é frequentemente usada como isca de pesca. Outrora uma espécie comum através da Europa, suas populações diminuíram consideravelmente no último século devido ao aumento de poluição da água. Alguns esforços recentes para despoluir riachos podem, felizmente, ajudar esta e outras espécies de efêmera a encontrarem novamente locais para proliferarem.

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Referências:

Beketov MA (2004) Different sensitivity of mayflies (Insecta, Ephemeroptera) to ammonia, nitrite and nitrate between experimental and observational data. Hydrobiologia 528:209–216.

Macan TT (1958) Descriptions of the nymphs of the British species of Heptagenia and Rhithrogena (Ephem.). Entomologist’s Gazette 9:83–92.

Madsen BL (1968) A comparative ecological investigation of two related mayfly nymphs. Hydrobiologia 31:3–4.

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Sexta Selvagem: Cigarrinha-de-Ponta-Preta

por Piter Kehoma Boll

A primeira espécie de 2020 é encontrada em florestas, jardins e plantações do sudeste e do leste da Ásia. Um membro do grupo de pequenos insetos conhecidos como cigarrinhas, seu nome científico é Bothrogonia ferruginea e seu nome comum em inglês é black-tipped leafhopper, o qual adaptei como cigarrinha-de-ponta-preta.

Cigarrinhas pertencem à ordem Hemiptera e se alimentam da seiva de várias plantas. A cigarrinha-de-ponta-preta mede um pouco mais de 1 cm de comprimento quando adulta. A cor dorsal é amarela, um pouco mais verde nas asas que na cabeça e no tórax, e há um grupo de manchas pretas na cabeça e no tórax, bem como uma margem preta na extremidade posterior das asas anteriores. Os olhos são pretos e as pernas também são amarelas, com áreas pretas nas articulações. Alguns espécimes podem ter um tom mais alaranjado, de onde o nome ferruginea (cor de ferrugem) deve ter vindo. O lado ventral é preto com uma borda amarela em cada segmento.

Bothrogonia ferruginea no Japão. Foto do usuário Keisotyo do Wikimedia.*

Os ovos são alongados, esverdeados e pequenos, e são postos em pequenos aglomerados na primavera. As ninfas de primeiro ínstar, que são pequenas e brancas, eclodem dos ovos após cerca de 8,5 dias. Elas se desenvolvem em adultos após cerca de 2 meses, passando por mais 4 ínstares de ninfa. Os adultos são imaturos de início e vivem 10 meses. Eles desenvolvem seus órgãos sexuais lentamente durante o verão e o outono, hibernam durante o inverno e acordam da hibernação na primavera prontos para acasalar.

Ninfa da cigarrinha-de-ponta-preta em Taiwan. Foto da usuária nicolle10 do iNaturalist.**

Cigarrinhas-de-ponta-preta machos prendem seu esperma a um material transparente que lembra uma corda e o transferem às fêmeas dentro de um grande espermatóforo que é depositado na bolsa copulatória. Parte do material dentro do espermatóforo parece ser transferido para dentro dos ovos, como se fosse um tipo de presente nutritivo do pai para seus futuros filhos.

Sugeriu-se que o peculiar padrão de coloração da cigarrinha-de-ponta-preta é uma forma de mimetismo. O fundo amarelo com manchas pretas lembra o padrão de coloração de pupas de joaninhas. Visto que joaninhas contêm algumas toxinas que as tornam uma refeição desagradável, imitá-las ajuda a cigarrinha-de-ponta-preta a ser evitada como alimento por muitos predadores.

Duas cigarrinhas-de-ponta-preta em Taiwan. Foto da usuária nicolle10 do iNaturalist.**

Como a cigarrinha-de-ponta-preta se alimenta de várias espécies de plantas, ela pode ser uma ameaça a alguns cultivares, especialmente uvas e chá. Mais que apenas se alimentar da seiva, a cigarrinha-de-ponta-preta pode ser um vetor para transmitir a bactéria Xylella fastidiosa entre plantas. Esta bactéria é responsável por muitas doenças, incluindo a doença de Pierce das uvas, que causa frutas enrugadas e queda prematura das folhas.

Felizmente a cigarrinha-de-ponta-preta (ainda) não é uma grande ameaça a nenhuma planta cultivada, de forma que não há urgência em estudar seu ciclo de vida em detalhes.

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Mais hemípteros:

Sexta Selvagem: Pulgão-da-Ervilha (em 12 de junho de 2015)

Sexta Selvagem: Maria-Fedida (em 10 de maio de 2019)

Sexta Selvagem: Soldadinho-Chifrudo-da-Acácia (em 23 de agosto de 2019)

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Referências:

Hayashi F, Kamimura Y (2002) The potential for incorporation of male derived proteins into developing eggs in the leafhopper Bothrogonia ferruginea. Journal of Insect Physiology, 48(2), 153–159. doi: 10.1016/s0022-1910(01)00159-7 

Tuan SJ, Hu FT, Chang HY, Chang PW, Chen YS, Huang TP (2016) Xylella fastidiosa transmission and life history of two cicaellinae sharpshooters, Kolla paulula and Bothrogonia ferruginea (Hemiptera: Cicadellidae), in Taiwan. Journal of Economic Entomology 109(3): 1034-1040. doi: 10.1093/jee/tow016

Yamazaki K (2010) Leafhopper’s face mimics the ladybird pupae. Current Science 98(4): 487–488.

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Novas Espécies: Dezembro de 2019

por Piter Kehoma Boll

Aqui está uma lista de espécies descritas este mês. Ela certamente não inclui todas as espécies descritas. A maioria das informações vem dos jornais Mycokeys, Phytokeys, Zookeys, Phytotaxa, Mycological Progress, Journal of Eukaryotic Biology, International Journal of Systematic and Evolutionary Biology, Systematic and Applied Microbiology, Zoological Journal of the Linnean Society, PeerJ, Journal of Natural History e PLoS One, além de vários jornais restritos a certos táxons.

Bacteria

Rhodopirellula heiligendammensis (Poly21), Rhodopirellula pilleata (Pla100), and Rhodopirellula solitaria (CA85) são três novos planctomicetos. Créitos a Kallscheuer et al. (2019).

SARs

Linum aksehirense é uma nova espécie de linho da Turquia. Créditos a Tugay & Ulukuş (2019).*

Plantas

Zahora ait-atta é um novo primo do repolho do Marrocos. Créditos a Koch & Lemmel (2019).*

Fungos

Aureoboletus glutinosus é um novo cogumelo da China. Créditos a Zhang et al. (2019).*

Cnidários

Platelmintos

Moluscos

Sinorachis baihu é um novo caracol da China. Créditos a Wu et al. (2019).*

Anelídeos

Sigambra olivai é um novo poliqueto do Caribe. Créditos a Salazar-Vallejo et al. (2019).*

Nematódeos

Aracnídeos

Miriápodes

Crustáceos

Nebalia tagiri é um novo leptostraco do Japão. Créitos a Hirata et al. (2019).*

Hexápodes

Cabeça de Amblycheila katzi, um novo besouro-tigre dos EUA. Créditos a Duran & Roman (2019).*

Equinodermos

Holothuria viridiaurantia é um novo pepino-do-mar do Pacífico. Créditos a Borrero-Pérez & Vanegas-González (2019).*

Actinopterígios

Anfíbios

Répteis

Liolaemus tajzara é um novo lagarto da Bolívia. Créditos a Abdala et al. (2019).*

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Arquivado em Sistemática, Taxonomia

Sexta Selvagem: Piolho-de-Peixe-Comum

por Piter Kehoma Boll

Como bem sabemos, os crustáceos formam o grupo de artrópodes mais diverso tanto morfológica quando ecologicamente. Um clado peculiar é o dos arguloídeos ou piolhos-de-peixe.

Como você deve deduzir pelo nome comum, piolhos-de-peixe são parasitas de peixes e eventualmente de outros vertebrados. Uma das espécies mais comuns e conhecidas é Argulus foliaceus, chamada comumente de piolho-de-peixe-comum.

O piolho-de-peixe-comum é encontrado em corpos de água doce da Europa e parasita várias espécies diferentes de peixe. Seu único alimento é sangue de peixe, de forma que ele é obrigado a procurar um hospedeiro assim que eclode do ovo. Assim que encontram um peixe, os piolhos-de-peixe se prendem firmemente à sua pele e permanecem ali a maior parte da vida, só deixando o hospedeiro para acasalar ou se o hospedeiro morre e se torna necessário encontrar um hospedeiro novo. Trutas, percas, pardelhas e esgana-gatas são hospedeiros frequentes do piolho-de-peixe-comum.

Observe alguns ovos eclodindo e as larvas que saem deles.

O primeiro e único estágio larval, chamado de metanáuplio, mede menos de 1 mm de comprimento e possui antenas e palpos longos e plumosos, mas pernas relativamente curtas. As pernas torácicas possuem garras, no entanto, e ajudam a larva a se prender no hospedeiro. No segundo estágio, já um jovem adulto, as antenas se tornam muito mais curtas, mas as pernas crescem mais, especialmente as pernas abdominais, que se tornam plumosas como as antenas costumavam ser. Daí em diante, o corpo permanece com uma forma mais ou menos constante, mas aumenta de tamanho, atingindo cerca de 6 mm no décimo primeiro estágio.

Vários piolhos-de-peixe-comuns parasitando uma truta na Dinamarca. Foto do usuário mikkel65 do iNaturalist.*

Em ambientes naturais, o número de piolhos-de-peixe-comuns por peixe é geralmente pequeno e eles não prejudicam o hospedeiro tanto assim. Contudo, em habitats confinados, como criadouros de peixe, eles podem atingir densidades altas e acabar causando uma elevada mortalidade.

Assim como muitos outros parasitas externos e outros tipos de animais sugadores de sangue, o piolho-de-peixe-comum pode servir como hospedeiro intermediário de alguns parasitas nematódeos que infectam peixes de água doce. Os estágios larvais do verme chegam ao piolho-de-peixe quando ele se alimenta de peixes infectados e permanecem em seu corpo, eventualmente infectando um novo peixe quando o crustáceo abandona seu lar atual e procura por um novo.

Assim, às vezes o maior problema que o peixe enfrenta não é o piolho-de-peixe em si, mas sim seus caroneiros.

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Mais maxilópodes:

Sexta Selvagem: Cálano-glacial (em 1 de julho de 2016)

Sexta Selvagem: Percebe-comum (em 31 de maio de 2019)

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Referências:

Harrison AJ, Gault NFS, Dick JTA (2006) Seasonal and vertical patterns of egg-laying by the freshwater fish louse Argulus foliaceus (Crustacea: Branchiura). Diseases of Aquatic Organisms 68:167–173.

Molnár K, Székely C (1998) Occurrence of skrjabillanid nematodes in fishes of Hungary and in the intermediate host, Argulus foliaceus. Acta Veterinaria Hungarica 46(4): 451-463.

Pasternak AF, Mikheev VN, Valtonen ET (2000) Life history charactheristics of Argulus foliaceus L. (Crustacea: Branchiura) populations in Central Finland. Annales Zoologici Fennici 37: 25–35.

Rushton-Mellor SK, Boxshall GA (1994) The developmental sequence of Argulus foliaceus (Crustacea: Branchiura). Journal of Natural History 28(4): 763–785. doi: 10.1080/00222939400770391

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Sexta Selvagem: Mutuca-de-Hipopótamo

por Piter Kehoma Boll

Se você já viveu no interior ou visita o interior frequentemente, deve estar ciente da existência de um grupo incômodo de moscas que mordem humanos e outros animais, as chamadas mutucas, que compõem a família Tabanidae. A espécie de hoje é membro desta família e é cientificamente conhecida como Tabanus biguttatus e comumente pode ser chamada de mutuca-de-hipopótamo.

Esta espécie é encontrada através da África e algumas áreas do Oriente Médio, sendo, aparentemente, muito mais comum no leste e no sudeste da África. Como ocorre com todas as mutucas, a mutuca-de-hipopótamo possui uma larva semiaquática que vive em áreas lamacentas. Elas são predadores ferozes e predam outros animais vivendo no mesmo habitat, tal como larvas de tipulídeos, e podem se alimentar também de animais mortos. Quando as larvas estão prestes a empupar, elas constroem um cilindro de lama, o cobrem com uma tampa circular com apenas um pequeno buraco que as permita respirar, e permanecem ali até se tornarem adultos. Esta é, aparentemente, uma estratégia para evitar dessecação.

Mutuca-de-hipopótamo macho na África do Sul. Foto de Ryan Tippett.*

Mutucas-de-hipopótamo adultas medem cerca de 2 cm de comprimento, sendo mutucas relativamente grandes, e mostram um dimorfismo sexual considerável. Como ocorre em todos os tabanídeos, os machos são menores e possuem olhos compostos maiores que as fêmeas. Os olhos dos machos são tão grandes que tocam um ao outro, cobrindo todo o topo da cabeça. Fêmeas, por outro lado, possuem olhos menores com um espaço considerável entre eles. O corpo tanto do macho quanto da fêmea é predominantemente preto. Os machos possuem duas manchas triangulares brancas no abdome enquanto as fêmeas possuem o tórax coberto de pelos que variam de branco a dourado com uma pequena mancha preta em forma de coração no meio.

Mutuca-de-hipopótamo fêmea na África do Sul. Créditos à usuária bdwright do iNaturalist.*

Mutucas-de-hipopótamo machos adultas são inofensivas e se alimentam apenas de néctar. Fêmeas, por outro lado, precisam de sangue de mamíferos para conseguirem proteína suficiente para o desenvolvimento dos ovos. Elas atacam muitas espécies de mamíferos de grande porte, incluindo humanos, gado e até cães, mas possuem uma forte preferência por hipopótamos, de onde o nome comum.

Duas mutucas-de-hipopótamo fêmeas se alimentando num facocero-do-sul (Phacochoerus africanus spp. sundevallii). Foto do usuário happyasacupake do iNaturalist.*

Mutucas-de-hipopótamo, como todos os tabanídeos, são moscas diurnas e amam locais ensolarados. Elas evitam áreas sombreadas, então animais em áreas abertas são muito mais vulneráveis. Para conseguir sangue, uma fêmea se aproxima dos animais e lhes corta a pele com suas peças bucais afiadas, fazedo-os sangrarem e lambendo o sangue. A mordida é muito dolorida, como você deve saber se já foi picado por uma mutuca. Se não é perturbada, a mosca pode ficar até três minutos bebendo sangue.

Close das duas moscas nas costas do facocero. Foto do usuário happyasacupake do iNaturalist.*

A atividade de beber sangue das mutucas-de-hipopótamo fêmeas, e de tabanídeos em geral, as torna prováveis vetores mecânicos de alguns parasitas, incluindo espécies do gênero de flagelados Tripanossoma, bem como Bacillus anthracis, a bactéria que causa o antraz, uma doença consideravelmente comum em hipopótamos.

Mutucas-de-hipopótamo são um incômodo tão grande para hipopótamos que o comportamento deles é altamente afetado pela presença das moscas, muito mais que presença de qualquer predador de grande porte. Muitas vezes os hipopótamos permanecem na água unicamente para se livrarem destes insetos irritantes.

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Mais dípteros:

Sexta Selvagem: Mosca-doméstica (em 12 de outubro de 2012)

Sexta Selvagem: Mosca-abelha-fofa (em 29 de julho de 2016)

Sexta Selvagem: Mosquinha-do-banheiro (em 5 de abril de 2019)

Sexta Selvagem: Mosquito-de-remo-azul (em 27 de setembro de 2019)

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Referências:

Callan EM (1980) Larval feeding habits of Tabanus biguttatus and Amanella emergens in South Africa (Diptera: Tabanidae). Revue de Zoologie Africaine 94(4): 791-794.

Tinley KL (2009) Some observations on certain tabanid flies in North-Eastern Zululand (Diptera: Tabanidae). Proceedings of the Royal Entomological Society of London. Series A, General Entomology, 39(4-6), 73–75. doi: 10.1111/j.1365-3032.1964.tb00789.x

Tremlett JG (2009) Mud cylinders formed by larvae of Tabanus biguttatus Wied. (Diptera: Tabanidae) in Kenya. Proceedings of the Royal Entomological Society of London. Series A, General Entomology, 39(1-3), 23–24. doi: 10.1111/j.1365-3032.1964.tb00779.x

Wiesenhütter E (1975) Research into the relative importance of Tabanidae (Diptera) in mechanical disease transmission. Journal of Natural History, 9(4), 385–392. doi: 10.1080/00222937500770281 

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Sexta Selvagem: Broca-Verde-do-Freixo

por Piter Kehoma Boll

E hora do próximo besouro e desta vez nosso camarada é uma espécie que passou seu primeiro século após sua descoberta sem chamar muita atenção, mas então algo aconteceu. Seu nome é Agrilus planipennis e é comumente conhecido em inglês como emerald ash borer, que eu adaptei para o português como broca-verde-do-freixo.

Uma broca-verde-do-freixo adulta em Virginia, EUA. Foto de Bryan Wright.*

Nativa da Ásia Oriental, a broca-verde-do-freixo é encontrada no sudeste da Rússia, na Mongólia, no norte da China, na Coreia e no Japão. Os adultos medem cerca de 8.5 mm de comprimento e possuem uma cor verde metálica na cabeça, no pronoto e nos élìtros, e uma cor roxo-iridescente no lado dorsal do abdome que é visto quando as asas estão abertas. Eles vivem na copa de freixos (Fraxinus spp.) durante a primavera e o verão e se alimentam de suas folhas.

Após cerca de uma semana como adultos, as brocas-verdes-do-freixo começam a acasalar. As fêmeas permanecem nas árvores e os machos sobrevoam o local procurando por elas. Assim que uma fêmea é localizada, o macho se deixa cair sobre ela e eles começam a acasalar. Depois de o acasalamento ser concluído, as fêmeas vivem por mais algumas semanas e tipicamente põem cerca de 40 a 70 ovos, apesar de algumas viverem mais tempo e porem até 200 ovos.

Vista dorsal de uma broca-verde-do-freixo com as asas abertas mostrando o abdome roxo-iridescente.

Os ovos são postos entre frestas e rachaduras da casca e eclodem cerca de duas semanas depois. As larvas recém-eclodidas abrem um caminho com mordidas através da casca, atingem os tecidos internos e começam a se alimentar deles. Elas atingem até 32 mm de comprimento no quarto ínstar, mais de três vezes o comprimento do adulto, e empupam durante a primavera, emergindo como adultos logo depois. Na China, os adultos emergem das árvores em maio.

Uma larva dentro de um freixo na Pensilvânia, EUA. Créditos a Pennsylvania Department of Conservation and Natural Resource.**

Em sua área nativa, a broca-verde-do-freixo pode ser um incômodo, mas não é altamente problemática porque ocorre em baixa densidade. Contudo em 2002 a espécie foi encontrada nos Estados Unidos se alimentando de espécies locais de freixo. Visto que a broca-verde-do-freixo não possui inimigos naturais na América do Norte e que as espécies de freixo neste continente não evoluíram para serem resistentes à infecção, ela começou a se espalhar rapidamente. Em menos de duas décadas, o besouro matou milhões de freixos e é uma ameaça séria aos outros mais de oito bilhões de freixos que ainda ocorrem na América do Norte. Com a morte dos freixos, as florestas da América do Norte se tornam vulneráveis a mais espécies invasoras, as quais só vão piorar o cenário.

Dano causado pelas larvas a uma árvore no estado de Nova Iorque, EUA. Foto do usuário bkmertz do iNaturalist.*

De modo a controlar a disseminação da broca-verde-do-freixo, os freixos são tratados com pesticidas. Quatro vespas parasitoides da China que se sabe que atacam apenas a broca-verde-do-freixo também foram soltas na América do Norte para ajudar a controlar a disseminação e seu sucesso ainda está sendo avaliado. Armadilhas, como painéis roxos cobertos de cola, os quais são visualmente atrativos para os besouros, também são usadas para capturar os animais e determinar a extensão da invasão.

Mais uma vez, uma espécie bem tranquila levou a um desastre ecológico devido à influência humana e agora estamos correndo para evitar um colapso ecossistêmico ao longo de um continente inteiro.

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Referências:

Francese JA, Mastro VC, Oliver JB, Lance DR, Youssef N, Lavallee SG (2005) Evaluation of colors for trapping Agrilus planipennis (Coleoptera: Buprestidae). Journal of Entomological Science 40(1): 93-95.

Liu H, Bauer LS, Miller DL, Zhao T, Gao R, Song L, Luan Q, Jin R, Gao C (2007) Seasonal abundance of Agrilus planipennis (Coleoptera: Buprestidae) and its natural enemies Oobius agrili (Hymenoptera: Encyrtidae) and Tetrastichus planipennisi (Hymenoptera: Eulophidae) in China. Biological Control 42(1): 61-71. doi: 10.1016/j.biocontrol.2007.03.011

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