Sexta Selvagem: Mosca-Serra-do-Nabo

por Piter Kehoma Boll

Depois dos besouros, que formam a ordem Coleoptera, o segundo grupo mais diverso de insetos é a ordem Lepidoptera, que inclui borboletas e mariposas. Contudo a ordem Hymenoptera tem o potencial de eventualmente ultrapassar Lepidoptera e se tornar mais próxima dos besouros porque muitas espécies novas estão sendo constantemente descritas.

Os himenópteros mais conhecidos são as abelhas, formigas e vespas, mas uma enorme parte de sua diversidade é formada pelas chamadas moscas-serra. Uma destas espécies é comumente conhecida como mosca-serra-do-nabo e cientificamente conhecida como Athalia rosae.

Mosca-serra-do-nabo nos Países Baixos. Foto de Herman Berteler.*

A mosca-serra-do-nabo é encontrada ao longo da Região Paleártica, do oeste da Europa até o Japão, e seu nome comum vêm do fato de suas larvas se alimentarem de plantas da família Brassicaceae, que inclui o nabo, bem como o repolho, entre outros. As larvas são consideravelmente grandes e se parecem com lagartas, tendo uma cor dorsal cinza-escura, quase preta, e são mais claras perto das pernas. Quando elas estão prestes a se tornarem pupas, elas se enterram no solo, constroem um casulo e permanecem ali até se tornarem adultos.

Uma larva na Dinamarca. Foto de Donald Hobern.**

Os adultos medem cerca de 6 a 8 mm de comprimento, as fêmeas sendo maiores que os machos. O corpo e as pernas possuem uma cor amarela a laranja, mais escura na superfície dorsal do tórax, que também possui duas grandes manchas pretas. A cabeça e as antenas são pretas.

Um adulto na Alemanha. Foto de Martin Grimm.*

Himenópteros no geral são caracterizados por uma determinação sexual única na qual fêmeas são diploides, isto é, possuem dois conjuntos de cromossomos, e machos são haploide, tendo somente um conjunto. Acasalamentos conduzidos em laboratório com a mosca-serra-do-nabo, contudo, foram capazes de produzir combinações anômalas, incluindo machos diploides e machos e fêmeas triploides. Aparentemente isto é possível devido ao sexo ser determinado por um alelo em um cromossomo, de forma que machos são sempre homozigotos e fêmeas sempre heterozigotas, mas isso precisa ser explicado em outra postagem. O fato é que o estudo deste peculiar sistema nesta espécie está ajudando a entender como a determinação do sexo evoluiu em himenópteros.

Um adulto na Rússia. Foto de Roman Providuhin.*

Uma última coisa interessante a mencionar sobre a mosca-serra-do-nabo é que ela é capaz de contornar os mecanismos de defesa das plantas das quais sua larva se alimenta. Plantas na família Brassicaceae produzem um grupo de compostos chamados glucosinolatos que dão a elas seu odor e amargor característicos, como na mostarda e no rábano-de-cavalo. Estes compostos são usados por plantas como uma defesa contra pragas que se alimentam delas. Contudo a mosca-serra-do-nabo é resistente a estes compostos e consegue sequestrá-los e armazená-los em sua hemolinfa, isto é, o “sangue”, em concentrações muito maiores que as encontradas nas plantas. Quando atacadas por predadores como formigas, as larvas liberam gotas de hemolinfa em uma forma de sangramento defensivo e podem parar o ataque.

A mosca-serra-do-nabo pode ser um incômodo para humanos e suas plantações, mas é certamente um animal fascinante.

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Referências:

Müller C, Agerbirk N, Olsen CE, Boevé JL, Schaffner U, Brakefield PM (2001) Sequestration of host plant glucosinolates in the defensive hemolymph of the sawfly Athala rosae. Journal of Chemical Ecology 27(12): 2505–2516. doi: 10.1023/A:1013631616141

Müller C, Boevé JL, Brakefield PM (2002) Host plant derived feeding deterrence towards ants in the turnip sawfly Athalia rosae. In: Nielsen J.K., Kjær C., Schoonhoven L.M. (eds) Proceedings of the 11th International Symposium on Insect-Plant Relationships. Series Entomologica, vol 57. Springer, Dordrecht. doi: 10.1007/978-94-017-2776-1_18

Naito T, Suzuki H (1991) Sex determination in the sawfly, Athalia rosae ruficornis (Hymenoptera): occurrence of triploid males. Journal of Heredity 82(2): 101–104. 10.1093/oxfordjournals.jhered.a111042

Oishi K, Sawa M, Hatakeyama M, Kageyama Y (1993) Genetics and biology of the sawfly, Athalia rosae (Hymenoptera). Genetica 88(2–3): 119–127. doi: 10.1007/BF02424468

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*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição Não Comercial 4.0 Internacional

**Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição 2.0 Genérica.

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Quarta de Quem: Élie Metchnikoff

por Piter Kehoma Boll

Pela terceira semana em sequência, nosso cientista de destaque é um vencedor do Nobel!

Ilya Ilyich Mechnikov (em Russo: Илья Ильич Мечников), também conhecido como Élie Metchnikoff, nasceu em 15 de maio de 1845 da vila de Ivanovka na Ucrânia. Seu pai, Ilya Ivanovich Mechnikov, era um oficial russo da guarda imperial e sua mãe, Emilia Lvovna Nevakhovich, era filha do escritor Leo Nevakhovich.

Metchnikoff por volta de 1861.

Em 1856, aos 11 anos, Metchnikoff entrou para a escola Kharkiv Lycée e desenvolveu um interesse por biologia. Devido à influência de sua mãe, ele se interessava por ciência desde uma tenra idade. Ela também o convenceu a estudar ciências naturais em vez de medicina. Assim, em 1862, ele tentou estudar biologia na Universidade de Würzburg, na Alemanha, mas, como o ano acadêmico lá somente começaria no final do ano, ele acabou matriculado na Universidade de Kharkiv para estudar ciências naturais. Em 1863, ele se casou com Ludmila Feodorovitch e, em 1864, se formou aos 19 anos, completando o curso de quatro anos em dois. Naquele mesmo ano, ele foi à Alemanha para estudar a fauna marinha na ilha de Heligoland no Mar do Norte.

Após conhecer o botânico Ferdinand Cohn, Metchnikoff foi aconselhado por ele a trabalhar com o zoólogo Rudolf Leuckart na Universidade de Giessen. Junto com Leuckart, ele estudou a reprodução de nematódeos e descobriu a digestão intracelular em platelmintos. Em 1866, ele se mudou para Nápoles e trabalhou em uma tese de doutorado sobre o desenvolvimento embrionário de sépias do gênero Sepiola. Em 1867, ele se mudou para a Rússia e recebeu seu grau de doutorado com Alexander Kovalevsky da Universidade de São Petersburgo. Pelo trabalho dos dois no desenvolvimento das camadas embrionárias de invertebrados, Metchnikoff e Kovalevsky venceram o prêmio Karl Ernst von Baer.

Devido à sua competência, Metchnikoff foi apontado, ainda em 1867, professor da nova Universidade Imperial de Novorossiya (atualmente Universidade de Odessa). Ele tinha apenas 22 anos, sendo mais jovem que a maioria de seus alunos. No ano seguinte, devido a um conflito com um colega mais velho, ele foi transferido para a Universidade de São Petersburgo, mas o ambiente profissional lá era ainda pior. Ele retornou a Odessa em 1870 como professor de Zoologia e Anatomia Comparada.

Em 20 de abril de 1873, a esposa de Metchnikoff morreu de tuberculose. Este evento, combinado com seus problemas profissionais, o fizeram tentar suicídio tomando uma grande dose de ópio. Ele sobreviveu e eventualmente se recuperou e, em 1875, se casou com sua aluna Olga Belokopytova.

O assassinato de Alexandre II em 1881 levou a conflitos políticos na Rússia, os quais fizeram Metchnikoff deixar a Universidade de Odessa em 1882. Ele se mudou para a Sicília e iniciou um laboratório particular em Messina. Lá, enquanto estudava larvas de estrelas-do-mar, ele notou que, ao inserir um pequeno espino de citrus nas larvas, um grupo de células começava a rodear o espinho. Ele sugeriu que alguns glóbulos brancos no sangue eram capazes de atacar e matar patógenos, e o zoólogo Carl Friedrich Wilhelm Claus, com quem ele discutiu sua hipótese, sugeriu o nome “fagócito” para tais células.

Élie Metchnikoff por volta de 1908.

Metchnikoff apresentou seus achados sobre fagócitos em Odessa em 1883, mas sua ideia foi recebida com ceticismo por muitos especialistas, incluindo Louis Pasteur. A ideia na época era que os glóbulos brancos carregavam os patógenos para longe do local da infecção e os entregavam em outro local, espalhando-os em vez de destruí-los. Seu principal apoiador era o patologista Rudolf Virchow. De volta a Odessa, Metchnikoff foi apontado diretor de um instituto criado para produzir a vacina de Louis Pasteur contra a raiva.

Em 1885, a segunda esposa de Metchnikoff sofreu de uma febre tifoide severa. Como resultado, ele tentou suicídio mais uma vez, desta vez se injetando com bactérias espiroquetas que causam a febre recorrente. Ele sobreviveu novamente e sua esposa também sobreviveu.

Em 1888, Metchnikoff deixou Odessa novamente devido a novas dificuldades e foi a Paris pedir o conselho de Pasteur, que lhe deu uma vaga no Instituto Pasteur. Metchnikoff permaneceu lá pelo resto de sua vida. Em 1908, ele venceu o prêmio Nobel em fisiologia ou medicina devido à sua descoberta dos fagócitos. Durante seus últimos anos, ele desenvolveu uma teoria de que o envelhecimento era uma doença causada por bactérias tóxicas no intestino e que o ácido lático produzido por Lactobacillus poderia prolongar a vida.

Ele faleceu em 15 de julho de 1916 de parada cardíaca, em Paris, aos 71 anos.

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Referências:

Goldstein BI (1916) Elie Metchnikoff. The Canadian Jewish Chronicle. Disponível em < https://news.google.com/newspapers?id=BQodAAAAIBAJ&sjid=xGEEAAAAIBAJ&pg=6460,5413902&dq=%C3%A9lie+metchnikoff&hl=en >. Acesso em 14 de maio de 2019.

Wikipedia. Élie Metchnikoff. Disponível em <
https://en.wikipedia.org/wiki/%C3%89lie_Metchnikoff >. Acesso em 14 de maio de 2019.

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Sexta Selvagem: Maria-Fedida

por Piter Kehoma Boll

Hemípteros constituem a quinta ordem mais numerosa de insetos com cerca de 80 mil espécies atualmente conhecidas. Entre elas, uma que é amplamente disseminada ao redor do mundo e que você pode ter visto por aí é a maria-fedida Nezara viridula, também conhecida como fede-fede, fede-fede-verde e provavelmente muitos outros nomes. O nome fede-fede aplicado a esta espécie e outras próximas se refere ao fato de que elas secretam uma substância defensiva com um cheiro forte de seu tórax quando ameaçadas.

Nezara viridula em Taiwan. Foto de Jaycee Snow.*

Esta espécie geralmente é verde quando adulta e pode ser reconhecida por uma linha de três pequenos pontos brancos na borda anterior do escutelo, a placa triangular entre as asas. Também há um pequeno ponto preto em cada um dos cantos anteriores do escutelo, alinhados com a linha de pontos brancos. Em alguns espécimes, a parte anterior da cabeça e a borda anterior do tórax podem ter uma cor diferente, geralmente branco, amarelo ou laranja, e às vezes o corpo inteiro possui uma borda branca. Durante o inverno, a cor verde geralmente desaparece e é substituída por um tom marrom.

Variedade com a borda esbranquiçada na Grécia. Foto de Anna Chapman.

Outra forma muito mais rara possui um corpo completamente laranja ou vermelho, o qual contrasta grandemente com o verde típico. Os três pequenos pontos brancos, e especialmente os pretos, ainda estão presentes, tornando fácil reconhecer estas variações como pertencendo à mesma espécie.

Variedade amarela na Argentina. Foto de Gonzalo Roget.**

A maria-fedida é originalmente de algum lugar na África oriental, provavelmente pelos arredores da Etiópia, mas atualmente é encontrada em áreas tropicais e subtropicais de todos os continentes. Com um aparelho bucal picador-sugador como todos os membros da ordem Hemiptera, ela se alimenta de mais de 30 famílias de plantas, perfurando sua superfície, injetando enzimas digestivas e depois sugando o produto parcialmente digerido. Algumas de suas plantas favoritas incluem legumes como o feijão e a soja, tornando-as pragas importantes destas plantações. Eles preferem sugar em partes mais tenras da planta, como nos brotos em crescimento ou frutos em desenvolvimento e, portanto, são comumente encontradas perto destes.

Duas marias-fedidas copulando na França. Uma tem o padrão inteiramente verde e a outra o padrão com borda branca. Foto de Bernard Dupont.***

Em áreas tropicais, a maria-fedida pode se reproduzir ao longo do ano todo, mas em zonas temperadas seu período reprodutivo é restrito aos meses mais quentes do ano. Em tais áreas, os adultos começam a acasalar e procurar alimento assim que as temperaturas sobem, às vezes viajando até 1 km por dia em busca de alimento e local para depositar os ovos.

Nezara viridula em sua forma marrom de inverno na França. A estrutura branca na cabeça, perto do olho direito, é um ovo da mosca parasitoide Trichopoda pennipes. Foto de Didier Descouens.***

O comportamento sexual da maria-fedida é bastante complexo. Os machos liberam feromônios que atraem tanto machos quanto fêmeas, aparentemente como uma maneira de aumentar as oportunidades de acasalamento. Como resultado, vários indivíduos podem ser encontrados aglomerados e prontos para copular. O comportamento de corte inclui uma série de sons estridulantes produzidos tanto pelos machos quanto pelas fêmeas e uma sequência específica de canções masculinas e femininas alternadas parece ser necessária para que a cópula ocorra.

Ovos depositados por uma maria-fedida fêmea na Nova Zelândia. Foto de Robert Briggs.****

Os ovos da maria-fedida são amarelados e a fêmea os põe em aglomerados poligonais, arranjados em fileiras regulares, e os cola uns aos outros. O tempo até a eclosão depende da temperatura do ambiente e pode levar 5 dias ou menos no verão e até 3 semanas em meses mais frios.

Ninfas de primeiro ínstar ainda ao redor dos restos dos ovos na Alemanha. Foto do usuário Slimguy do Wikimedia.****

As ninfas de primeiro ínstar eclodidas são marrom-escuras e permanecem perto umas das outras próximo às cascas dos ovos. Após fazerem a muda e se tornarem o segundo ínstar, que é preto, as ninfas passam a se dispersar. Os terceiro e quarto ínstares são marrom-escuros a pretos e possuem uma série de pontos brancos no abdome. É somente durante o quinto e último ínstar da ninfa que a cor verde do adulto começa a aparecer.

Ninfa de terceiro ínstar em Gran Canaria. Foto de Juan Emilio.***

A maria-fedida possui vários inimigos naturais, incluindo aranhas e formigas predadoras, bem como moscas parasitoides, que se alimentam dos adultos, e vespas parasitoides que se alimentam dos ovos. As espécies parasitoides são conhecidas por usarem os feromônios liberados por fede-fedes adultos para localizá-los no ambiente.

Ninfa de quinto ínstar na Nova Zelândia. Foto de Uwe Schneehagen.**

Com o aumento da temperatura causado pelas mudanças climáticas, a maria-fedida pode se espalhar para novas partes do mundo e eventualmente se tornar uma praga muito mais séria.

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Referências e leitura complementar:

Čokl A, Virant-Doberlet M, McDowell A (1999) Vibrational directionality in the southern green stink bug, Nezara viridula (L.), is mediated by female song. Animal Behavior 58(6): 1277–1283. doi: 10.1006/anbe.1999.1272

Čokl A, Zorović M, Žunić A, Virant-Doberlet M (2005) Tuning of host plants with vibratory songs of Nezara viridula L (Heteroptera: Pentatomidae). Journal of Experimental Biology 208: 1481–1488. doi: 10.1242/jeb.01557

Colazza S, Salerno G, Wajnberg E (1999) Volatile and Contact Chemicals Released by Nezara viridula (Heteroptera:Pentatomidae) Have a Kairomonal Effect on the Egg Parasitoid Trissolcus basalis (Hymenoptera: Scelionidae). Biological Control 16(3): 310–317. doi: 10.1006/bcon.1999.0763

Mattiacci L, Vinson SB, Williams HJ, Aldrich JR, Bin F (1993) A long-range attractant kairomone for egg parasitoid Trissolcus basalis, isolated from defensive secretion of its host, Nezara viridula. Journal of Chemical Ecology 19(6): 1167–1181. doi: 10.1007/BF00987378

Musolin DL, Numata H (2003) Photoperiodic and temperature control of diapause induction and colour change in the southern green stink bug Nezara viridula. Physiological Entomology 28(2): 65–74. doi: 10.1046/j.1365-3032.2003.00307.x

Todd JW (1989) Ecology and behavior of Nezara viridula. Annual Review of Entomology 34: 272–292. doi: 10.1146/annurev.en.34.010189.001421

Tougou D, Musolin DL, Fujisaki K (2009) Some like it hot! Rapid climate change promotes changes in distribution ranges of Nezara viridula and Nezara antennata in Japan. Entomologia Experimentalis et Applicata 130(3): 249–258. doi: 10.1111/j.1570-7458.2008.00818.x

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*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição Não Comercial e Compartilhamento Igual 4.0 Internacional.

**Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição Não Comercial 4.0 Internacional

***Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 2.0 Genérica.

****Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 4.0 Internacional.

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Quarta de Quem: André Michel Lwoff

por Piter Kehoma Boll

Hoje, novamente, como na semana passada, o cientista que trazemos é um ganhador do Nobel.

André Michel Lwoff nasceu em 8 de maio de 1902 em Ainay-le-Château, França. Sua mãe, Marie Siminovitch, era uma pintora e escultora, e seu pai, Solomon Lwoff, era psiquiatra. De origem russa, seus pais vieram à França para escapar da opressão do regime tsarista.

Desde tenra idade, Lwoff mostrava grande interesse em ciências experimentais, mas seu pai o pressionou para se tornar um médico. Após terminar a escola secundária em Lycée Voltaire, em Paris, Lwoff começou a estudar medicina na Faculdade de Medicina de Paris.

Como Lwoff estava nas imediações do Muséum National d’Histoire Naturelle durante este tempo, ele tomou a oportunidade para fazer um curso técnico de histologia no laboratório de Edmond Perrier. Seu interesse por ciências naturais logo chamou a atenção do biólogo Édouard Chatton, que estava apenas começando seus estudos com protistas. Aos 19 anos, Lwoff se tornou assistente de Chatton e eles trabalharam juntos por muitos anos, levando à descoberta de todo um grupo novo de protistas ciliados que chamaram de Apostomatida. Devido à influência de Chatton, Lwoff também passou a trabalhar no Instituto Pasteur com o biólogo Félix Mesnil.

No laboratório de Mesnil, Lwoff estudou diferentes grupos de protistas e tentou estabelecer uma cultura de ciliados, eventualmente sendo bem-sucedido com a espécie Tetrahymena pyriformis. Através de seus estudos, ele descobriu os requerimentos nutricionais de muitos protistas e foi capaz de arranjá-los numa ordem que expressava uma perda progressiva de funções biossintéticas. Esta ideia, de que a evolução poderia levar à perda de funções, foi a principal conclusão da tese de doutorado de Lwoff. Ele defendeu essa visão com paixão, mas isto não foi visto com bons olhos por muitos pesquisadores, que viam a evolução como um caminho contínuo em direção à complexidade.

André Lwoff por volta de 1965.

Durante os anos seguintes, Lwoff, junto com sua futura esposa Marguerite (com quem casou em 1952), trabalhou neste assunto e conseguiu provar que muitos microrganismos dependem de compostos que outros são capazes de sintetizar por conta própria, assim provando que a evolução pode de fato levar à perda de funções. Tais estudos mais tarde levaram ao desenvolvimento da genética bioquímica e da biologia molecular.

Em 1938, Lwoff se tornou chefe do Service de Physiologie Microbienne, que foi criado para ele no Instituto Pasteur. Em 1946, ele participou do Cold Spring Harbor Symposium e descobriu o trabalho com bacteriófagos, vírus que infectam bactérias, que estava sendo conduzido nos EUA por um grupo chefiado por Max Delbrück. Apesar de este grupo, chamado de phage group, ter feito descobertas importantes, Delbrück rejeitava qualquer teoria que fosse gerada por alguém de fora do grupo. Ele não aceitava a ideia de que uma bactéria pudesse liberar bacteriófagos sem ser previamente infectada por um vírus. Lwoff provou que ele estava errado e que uma única bactéria poderia eventualmente arrebentar em muitos fagos que atacariam outras bactérias. Logo ficou claro que isso acontecia porque o DNA do vírus é replicado com o DNA da bactéria durante a mitose. Lwoff chamou de “provirus” este genoma viral que é integrado ao genoma da bactéria e, em 1865, recebeu o Nobel em Medicina por esta descoberta.

Lwoff continuou a trabalhar com vírus a maior parte de sua vida, mais tarde mudando sua atenção para vírus de animais, e foi o primeiro a sugerir uma definição de vírus baseada em sua estrutura e não em seu tamanho. Ele cunhou várias novas palavras para descrever estruturas de vírus, tais como vírion, capsídeo e capsômero, e sugeriu a primeira classificação de vírus.

Ele faleceu em 30 de setembro de 1994 em Paris aos 92 anos.

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Referências:

Jacob F, Girard M (1998) André Michel Lwoff. 8 May 1902–30 September 1994. Biographical Memoirs of Fellows of the Royal Society 44: 255–263. doi: 
10.1098/rsbm.1998.0017

Wikipedia. André Michel Lwoff. Disponível em < https://en.wikipedia.org/wiki/Andr%C3%A9_Michel_Lwoff >. Acesso em 7 de maio de 2019.

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Sexta Selvagem: Lapa-Ornada

por Piter Kehoma Boll

Gastrópodes são a classe de animais mais rica em espécies na Terra depois dos insetos, mas faz muito tempo desde que apresentei o último. Então hoje vou trazer um da costa da Nova Zelândia, a lapa-ornada Cellana ornata.

Duas lapas-ornadas na costa de Northland, Nova Zelândia. Foto do usuário pedromalpha do iNaturalist.*

Seu corpo em forma de cone, como na maioria das lapas, possui um padrão característico que pode ser usado para reconhecê-la. Há uma série de cristas elevadas correndo do centro escuro em direção às margens da concha. Geralmente há onze delas e elas possuem um tom alaranjado, às vezes muito intenso, quase vermelho ou marrom, e às vezes bem fraco, quase branco. A região entre as cristas é mais escura, geralmente preta, e possui uma fileira de nódulos correndo paralela às cristas, às vezes com uma fileira de nódulos adicionais menores de cada lado. O padrão pode ser obscurecido por organismos crescendo na concha, especialmente algas e cracas.

Uma lapa-ornada coberta de cracas. Foto do usuário pedromalpha do iNaturalist.*

Como de costume entre lapas, a lapa-ornada vive na zona entremarés na superfície de rochas. Ela se alimenta de algas crescendo no substrato, raspando-as da rocha usando sua rádula, a língua dentada dos gastrópodes. Quando as ondas estão batendo nas rochas ou a rocha é exposta ao sol e está secando, a lapa-ornada baixa a concha contra o substrato e se mantém firmemente presa usando seu pé poderoso. Somente quando as condições são ideais, isto é, quando a rocha esta está molhada e sem ondas fortes, é que a lapa-ornada se desloca.

Um belo espécime da lapa-ornada na Ilha Stweart. Foto do usuário naturewatchwidow do iNaturalist.**

A lapa-ornada vive cerca de dois anos e sua reprodução acontece durante o verão, por volta de fevereiro, o que significa que cada indivíduo reproduz no máximo duas vezes antes de morrer. Condições ambientais provavelmente afetam a longevidade, porque espécimes vivendo em rochas menos expostas possuem um metabolismo mais elevado que aqueles habitando um substrato que está constantemente sujeito à dessecação e que os força a ficaram inativos por longos períodos.

Comparada a outras espécies proximamente relacionadas, a lapa-ornada possui uma vida curta e poucos eventos reprodutivos. Mesmo assim, ela ainda é uma espécie comum pela Nova Zelândia, tendo desenvolvido uma fecundidade elevada que a permite proliferar.

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Referências:

Dunmore RA, Schiel DR (2000) Reproduction of the intertidal limpet Cellana ornata in southern New Zealand. New Zealand Journal of Marine and Freshwater Research 34(4): 653–660. doi: 10.1080/00288330.2000.9516966

Smith SL (1975) Physiological ecology of the limpet Cellana ornata (Dillwyn). New Zealand Journal of Marine and Freshwater Research 9(3): 395–402. doi: 10.1080/00288330.1975.9515575

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Quarta de Quem: Santiago Ramón y Cajal

por Piter Kehoma Boll

Hoje comemoramos o nascimento do vencedor do Nobel que é considerado o pai da neurociência moderna.

Santiago Felipe Ramón y Cajal nasceu em 1º de maio de 1852 em Petilla de Aragón, Espanha. Ele era filho de Antonia Cajal e Justo Ramón Casasús, um cirurgião e professor de anatomia. Devido à profissão de seu pai, a família mudava de residência continuamente e aos 8 anos ele já havia morado em pelo menos 6 cidades diferentes.

Mais que mudar de residência, Ramón y Cajal era constantemente transferido de uma escola para outra por causa de seu comportamento rebelde e sua atitude antiautoritária. Em 1863, aos 11 anos, ele foi preso após destruir o portão do quintal de seu vizinho usando um canhão feito em casa.

Desde uma tenra idade, Ramón y Cajal mostrou grande talento como desenhista e pintor, mas seu pai não apreciava estas habilidades. Em 1868, aos 16 anos, ele foi levado por seu pai a cemitérios para encontrar restos humanos para estudos anatômicos. Seu pai esperava desenvolver nele o interesse em medicina, e a experiência realmente o fez seguir estudos nesta área.

Ramón y Cajal teve aulas de medicina na Universidade de Zaragoza, onde seu pai era professor, e graduou em 1873 aos 21 anos. Logo após, as forças armadas da Espanha abriram vagas para trabalhar no Corpo de Saúde Militar. Ramón y Cajal fez o exame e foi um dos 30 selecionados entre mais de 100 candidatos.

Retrato de Santiago Ramón y Cajal em Cuba em 1874 pintado por Izquiredo Vives.

Em 1874, ele participou de uma expedição a Cuba, que naquela época lutava por sua independência da Espanha. Ao chegar à ilha, ele foi nomeado para trabalhar como médico em uma enfermaria em Vistahermosa na província de Camagüey, que ficava no meio de um banhado. O local era incapaz de atender todos os soldados doentes atingidos por várias doenças tropicais e logo Ramón y Cajal contraiu malária e tuberculose. Sua doença, que começou a ficar mais séria com o passar do tempo, bem como os problemas administrativos com que ele tinha de lidar, o fizeram pedir por uma licença para sair de Cuba. Seu pedido foi atendido em 30 de maio de 1875 após ele ser diagnosticado com “caquexia palúdica severa”. Ele voltou à Europa em junho e visitou a cidade-spa Panticosa nos Pirineus para se curar.

De volta à Espanha, Ramón y Cajal recebeu seu doutorado em medicina em 1877 e, em 1879, se tornou diretor do Museu de Zaragoza. No mesmo ano, ele se casou com Silveria Fañanás García, com quem ele teria 12 filhos (7 meninas e 5 meninos). Ele trabalhou até 1883 na Universidade de Zaragoza e então até 1887 na Universidade de Valencia. Em ambas as universidades, ele desenvolveu estudos microscópicos sobre inflamação, cólera e a estrutura de células e tecidos epiteliais.

Em 1887, Ramón y Cajal se mudou para Barcelona e aprendeu o método de Golgi para corar neurônios com uma cor preta escura sem corar as células vizinhas. Ele melhorou o método e o usou para dedicar sua atenção ao sistema nervoso central e fez extensivos desenhos de material neural, incluindo as principais regiões do encéfalo. Em 1892, ele se tornou professor em Madri e, em 1899, diretor do Instituto Nacional de Higiene. Em 1922, ele fundou o Laboratório de Investigações Biológicas, atualmente conhecido como o Instituto Cajal.

Santiago Ramón y Cajal em 1899.

Os trabalhos de Ramón y Cajal foram os primeiros a revelar a verdadeira organização do sistema nervoso. Até então, a ideia dominante era a de que o sistema nervoso não era constituído de células indivíduais como os outros sistemas, mas que era uma rede contínua através do corpo, conhecida como teoria reticular. Um dos maiores defensores desta teoria naquele tempo era Camillo Golgi. Ironicamente, Ramón y Cajal melhorou o método para corar criado por Golgi, como mencionado acima, e o usou para provar que Golgi estava errado, levando ao desenvolvimento da atual teoria neuronal, que diz que o sistema nervoso é formado de células discretas como qualquer outro sistema.

Em 1906, Ramón y Cajal recebeu o Prêmio Nobel em Fisiologia ou Medicina junto com Golgi em reconhecimento ao trabalho dos dois na estrutura do sistema nervoso. Isso foi um tanto bizarro considerando que os dois discordavam entre si. Com esta premiação, Ramón y Cajal se tornou a primeira pessoa de origem hispânica a receber um Prêmio Nobel.

Ramón y Cajal continuou a trabalhar até sua morte em 17 de outubro de 1934 aos 82 anos.

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Referências:

Wikipedia. Santiago Ramón y Cajal. Disponível em <
https://en.wikipedia.org/wiki/Santiago_Ram%C3%B3n_y_Cajal >. Acesso em 30 de abril de 2019.

Wikipedia (em Espanhol). Santiago Ramón y Cajal. Disponível em <
https://es.wikipedia.org/wiki/Santiago_Ram%C3%B3n_y_Cajal >. Acesso em 30 de abril de 2019.

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Novas Espécies: Abril de 2019

por Piter Kehoma Boll

Aqui está uma lista de espécies descritas este mês. Ela certamente não inclui todas as espécies descritas. A maioria das informações vem dos jornais Mycokeys, Phytokeys, Zookeys, Phytotaxa, Mycological Progress, Journal of Eukaryotic Biology, International Journal of Systematic and Evolutionary Biology, Systematic and Applied Microbiology, Zoological Journal of the Linnean Society, PeerJ, Journal of Natural History e PLoS One, além de vários jornais restritos a certos táxons.

Bactérias

Árqueos

SARs

Plantas

Nasa angeldiazoides é uma nova angiosperma do Peru. Créditos a Henning et al. (2019).*

Excavados

Rossbeevera griseobrunnea é um novo basidiomiceto da China. Créditos a Hosen et al. (2019).*

Fungos

Dermea chinensis é um novo ascomiceto da China. Créditos a Jiang & Tian (2019).*

Esponjas

Cnidários

Platelmintos

Microstomum schultei é um novo platelminto da Itália. Créditos a Atherton & Jondelius (2019).*

Rotíferos

Aethozooides uraniae é um novo briozoário do Mediterrâneo. Créditos a Schwaha et al. (2019).*

Briozoários

Anelídeos

Madrella amphora (a-d) e Janolus tricellarioides (e-h) são duas novas lesmas marinhas da Nova Guiné e das Filipinas, respectivamente. Créditos a Pola et al. (2019).*

Moluscos

Quinorrincos

Arpocelinus itecrii é um novo nematódeo da Costa Rica. Créditos a Peña-Santiago & Varela-Benavides (2019).

Nematódeos

Tardígrados

Phintelloides brunne (A-D) e Phintelloides flavoviri (E,F) são duas novas aranhas-saltadoras do sul da Ásia. Créditos a Kanesharatnam & Benjamin (2019).*

Quelicerados


Cryptocorypha enghoffi é um novo piolho-de-cobra da Tailândia. Créditos a Likhitrakarn et al. (2019).*

Miriápodes

Vinaphilus unicus é uma nova centopeia do sudeste da Ásia. Créditos a Tran et al. (2019).*

Crustáceos

O gênero de besouros Hexanchorus cresceu com quatro novas espécies do Equador. Créditos a Linský et al. (2019).*

Hexápodes

Condrícties

Prognathodes geminus é um novo peixe-borboleta de Palau. Créditos a Copus et al. (2019).*

Actinopterígios

Noblella thiuni é uma nova rã do Peru. Créditos a Catenazzi & Ttito (2019).*

Anfíbios

Répteis

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