Sexta Selvagem: Lacrimária-Cisne

por Piter Kehoma Boll

Em meio ao heterogêneo grupo dos eucariontes unicelulares frequentemente chamados de protistas, um grupo que apresenta uma impressionante diversidade e complexidade celular é o dos ciliados. Hoje apresentarei mais uma espécie deste grupo. A primeira foi apresentada alguns anos atrás.

Chamada de Lacrymaria olor, a espécie de hoje não possui nome comum, mas lacrimária-cisne parece ser um bom. Cisne aqui vem da tradução do seu epíteto específico, olor, mas é muito adequado considerando a forma desta espécie. Encontrada em corpos de água doce, ela se encontra frequentemente perto da vegetação aquática ou de matéria vegetal em decomposição, onde seu alimento também vive.

A parte principal do corpo da lacrimária-cisne não é tão diferente de um ciliado médio, medindo cerca de 100 µm de comprimento e tendo meio que a forma de uma lágrima, de onde o nome do gênero Lacrymaria, do latim lacryma, lágrima. Mas saindo da célula já um “pescoço” muito longo que faz a célula se parecer com um tipo de cisne de pescoço bem bem longo.

Lacrymaria olor, um cisne microscópico. Foto do usuário Picturepest do Flickr*.

A projeção que forma o pescoço é a parte mais ativa da célula da lacrimária-cisne. Enquanto o corpo celular em forma de gota continua consideralmente parado e escondido, o pescoço vasculha o ambiente procurando alimento, o qual consiste de organismos menores. O pescoço pode se mover de um lado para o outro, contornar obstáculos e se esticar até 2 mm, o que é cerca de 20 vezes o tamanho da célula. A extremidade do pescoço possui o aparato oral, através do qual o alimento é ingerido. Um anel de longos cílios contorna o aparato oral, e os cílios batem furiosamente durante o comportamento de caça.

Assista este vídeo incrível com o protista em ação. Extraído de Coyle et al. (2019) .

Quando uma presa é encontrada, a lacrimária-cisne a captura e engolfa em menos de um segundo, provavelmente injetando uma toxina paralisante no processo. Uma vez na “boca”, a presa é “engolida”, sendo empurrada em direção à porção principal da célula, o que pode levar vários segundos.

A incrível agilidade do pescoço da lacrimária-cisne parece estar relacionada com seu complexo citoesqueleto, no qual, por exemplo, as fibras mudam de orientação no pescoço em relação ao corpo. É incrível assistir um comportamento tão complexo num organismo unicelular.

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Referências:

Coyle, S. M., Flaum, E. M., Li, H., Krishnamurthy, D., & Prakash, M. (2019). Coupled active systems encode an emergent hunting behavior in the unicellular predator Lacrymaria olor. Current Biology29(22), 3838-3850.

Wan, K. Y. (2019). Ciliate Biology: The Graceful Hunt of a Shape-Shifting Predator. Current Biology29(22), R1174-R1176.

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*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição 2.0 Genérica.

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Arquivado em protistas, Sexta Selvagem

Sexta Selvagem: Vidália

por Piter Kehoma Boll

Ilhas oceânicas são um tesouro de biodiversidade e incluem muitas espécies pequenas e endêmicas. Quando chegamos ao arquipélago dos Açores, encontramos um desses pequenos tesouros na forma de um pequeno arbusto chamado de vidália. Taxonomicamente, a espécie é chamada de Azorina vidalii, sendo a única espécie no gênero Azorina. Os gêneros da família Campanulaceae (as campainhas) são uma bagunça, no entanto, e isso pode eventualmente mudar.

A vidália cresce em todas as nove ilhas que formam os Açores. Ela gosta de crescer perto da costa, especialmente em fendas de rochas costeiras ou barrancos arenosos, mas pode colonizar estruturas humanas, como telhados e paredes. Ela gosta de locais bem expostos e é bem tolerante à brisa marinha. Apesar de ser um arbusto bem pequeno, com cerca de 30 cm de altura, ela pode crescer a uma altura de até 2 m.

Jeitão típico da planta. Foto do usuário experience.NATURE do iNaturalist.*

Mesmo sendo encontrada pelo arquipélago todo, a vidália é considerada uma espécie em perigo. Há somente cerca de mil espécimes adultos no total. Uma das razões de uma população tão pequena pode ser a falta de um polinizador eficiente. As flores são rosa-claras ou brancas e possuem uma forma que sugere que aves sejam os polinizadores prováveis, mas não há espécies de aves nativas que poderiam fazer esse serviço. Vários insetos visitam as flores, incluindo abelhas, vespas, moscas e mariposas, e podem ser os polinizadores atuais, mas provavelmente nenhum é muito eficiente nisso. No entanto a combinação de todos eles parece ser suficiente para manter a população relativamente estável.

As belas flores da vidália. Foto da usuária mariamadalena do iNaturalist*.

Quando abelhas-domésticas visitam as plantas, geralmente estão mais interessadas no látex que a vidália secreta. As abelhas procuram por ferimentos recentes nas plantas onde o látex esteja escorrendo e o coletam, às vezes tendo dificuldade de sair da planta porque o látex é tão pegajoso que as abelhas ficam parcialmente grudadas na planta. Acredita-se que o látex tenha propriedades antimicrobianas, protegendo a planta de infecções bacterianas, e as abelhas provavelmente exploram esse recurso para usá-lo como um antibiótico natural em suas colmeias, talvez o misturando com o pólen para fazer própolis.

Uma planta com flores mais rosadas. Foto de Attila Steiner.*

A população atual da vidália é estável, mas muito pequena, sendo a principal razão de ser considerada em perigo. Para garantir sua sobrevivência pelas próximas décadas ou séculos (e além), é essencial preservar as costas rochosas onde elas se dão bem e, claro, a diversidade de polinizadores que estão fazendo o seu melhor para trazer novas gerações dessa joia açoriana.

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Referências:

Haberle, R. C., Dang, A., Lee, T., Peñaflor, C., Cortes-Burns, H., Oestreich, A., … & Jansen, R. K. (2009). Taxonomic and biogeographic implications of a phylogenetic analysis of the Campanulaceae based on three chloroplast genes. Taxon58(3), 715-734. https://doi.org/10.1002/tax.583003

Weissmann, J. A., & Schaefer, H. (2015). Honeybees (Apis mellifera) collect latex of Azores bellflowers (Azorina vidalii, Campanulaceae). ARQUIPÉLAGO. Life and Marine Sciences32https://repositorio.uac.pt/handle/10400.3/3906

Weissmann, J. A., & Schaefer, H. (2018). The importance of generalist pollinator complexes for endangered island endemic plants. Arquipélago-Life and Marine Sciences35, 23-40. https://repositorio.uac.pt/handle/10400.3/4861

Wikipedia. Azorina. Disponível em < https://en.wikipedia.org/wiki/Azorina >. Acesso em 29 de abril de 2021.

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*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição Não Comercial 4.0 Internacional

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Arquivado em Botânica, Conservação, Sexta Selvagem

Dando Nomes Científicos para os Pokémon

por Piter Kehoma Boll

Se a nomenclatura binomial fosse aplicada a Pokémon e eles recebessem nomes científicos, como isso funcionaria? Quais os nomes ideias para cada Pokémon? Neste vídeo eu apresento a minha ideia de como aplicar a nomenclatura taxonômica a Pokémon, usando nomes em latim científico. Este vídeo é o primeiro de uma série de muitos que virão por aí, então se inscreva no canal para garantir que não vá perder os próximos!

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Arquivado em Taxonomia

Sexta Selvagem: Microsporídio-Interno-das-Lava-Pés

por Piter Kehoma Boll

Semana passada aprendemos sobre a formiga-lava-pés-vermelha e o incômodo que ela é na América do Norte, onde foi introduzida quase um século atrás e se tornou uma ameaça para ecossistemas e pessoas. Como pesticidas químicos costumam ser prejudicais para espécie que não são a alvo, alternativas mais espécie-específicas são frequentemente procuradas. Uma dessas é controle biológico, o qual também pode ser problemático se usado incorretamente.

A espécie de hoje é um desses agentes biológicos e pode ajudar a controlar a invasão da formiga-lava-pés-vermelha. Chamada Kneallhazia solenopsae, que eu decidi apelidar de microsporídio-interno-das-lava-pés, esta espécie pertence à divisão Microsporidia, que são fungos unicelulares. Eu já apresentei um deles aqui muitos anos atrás, a glúgea-de-solha.

O microsporídio-interno-das-lava-pés é conhecido por infectar formigas-lava-pés, incluindo a formiga-lava-pés-vermelha. Ele tem um ciclo de vida bem complexo com vários estágios e que não é completamente entendido ainda.

A infecção mais séria ocorre nas rainhas, nas quais o estágio de vida conhecido como esporo dicariótico do tipo 2 (DK do tipo 2) infecta seu tecido adiposo. Este é um estágio do microsporídio no qual a célula tem dois núcleos, daí o nome. Outras formigas adultas também são infectadas de forma similar. A infecção se espalha lentamente, causando hipertrofia do tecido adiposo e, em estágios avançados, faz esse tecido ser completamente substituído por massas de esporos, impedindo o desenvolvimento e a reprodução da rainha. Contudo demora muito tempo para o microsporídio causar uma doença tão grave. Isso não significa que ele não está fazendo nada para piorar as coisas antes disso, no entanto.

Enquanto o tecido adiposo da rainha está sendo lentamente consumido pelos esporos DK do tipo 2, muitos deles se convertem em outro estágio, o octósporo, assim chamado porque ocorre numa vesícula que contem oito deles. Essas vesículas são relativamente grandes se comparadas a outros estágios e são consideradas o estágio infeccioso. Uma formiga morta ou machucada, que é frequentemente canibalizada por outras, libera as vesículas no ambiente. Elas precisam ser ingeridas para que a infecção ocorra, mas somente as larvas de quarto ínstar são capazes de engoli-las, porque todos os outros estágios larvais, bem como os adultos, possuem um “filtro” na boca que os previne de ingerir partículas maiores que 0.8 µm e as vesículas são maiores que isso.

Várias vesículas de octósporos e um esporo DK do tipo 2 no microsporídio-interno-das-lava-pés. Foto de David Williams.*

Dentro das larvas de quarto ínstar, as vesículas liberam os octósporos que infectam a larva e se fundem, transformando-se em outro tipo de célula com dois núcleos, os esporos DK do tipo 1. Esses esporos só são encontrados em larvas de quarto ínstar e pupas e se supõe que se transformem em esporos DK do tipo 2 durante o desenvolvimento para a forma adulta, onde podem produzir novos octósporos.

Mas essa não é a única forma pela qual o microsporídio se espalha pela colônia. Voltando às rainhas, os esporos DK do tipo 2 também infectam os ovários e, depois que a rainha é inseminada, se trasnformam em outro estágio, o chamado megásporo. Os megásporos infectam os ovos e são incorporados no embrião e de lá passam diretamente para larvas de primeiro ínstar, onde se desenvolvem em esporos DK do tipo 1 a medida em que crescem.

Então a única forma de uma formiga se infectar é se ela recebe o parasita diretamente da rainha no ovo ou se ingere vesículas de octósporos como larva de quarto ínstar? Não. E a razão está no fato de que as formigas realizam trofalaxia, que é a transferência de alimento de um indivíduo para outro, isto é, as formigas vomitam uma na boca da outra. Assim, se um adulto troca alimento com uma larva de quarto ínstar que liberou os octósporos no tubo digestivo, ele pode se infectar também.

É um ciclo bem complicado, certo? Mas ele parece ser bem afinado para que o microsporídio seja um parasita bem-sucedido das formigas-lava-pés. Mas ele é um controle biológico eficiente? Bem, eu diria que ele pode ajudar a retardar a disseminação das formigas-lava-pés, mas como seus efeitos de causar esterilidade levam muito tempo para surgir, ele não causará a remoção das formigas em áreas que já foram invadidas.

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Referências:

Knell, J. D., Allen, G. E., & Hazard, E. I. (1977). Light and electron microscope study of Thelohania solenopsae n. sp.(Microsporida: Protozoa) in the red imported fire ant, Solenopsis invicta. Journal of Invertebrate Pathology29(2), 192-200. https://doi.org/10.1016/0022-2011(77)90193-8

Oi, D. H., & Williams, D. F. (2002). Impact of Thelohania solenopsae (Microsporidia: Thelohaniidae) on polygyne colonies of red imported fire ants (Hymenoptera: Formicidae). Journal of Economic Entomology95(3), 558-562. https://doi.org/10.1603/0022-0493-95.3.558

Sokolova, Y. Y., & Fuxa, J. R. (2008). Biology and life-cycle of the microsporidium Kneallhazia solenopsae Knell Allan Hazard 1977 gen. n., comb. n., from the fire ant Solenopsis invictaParasitology135(8), 903.

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**Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição 3.0 Não Adaptada.

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Arquivado em Fungos, Parasitas, protistas, Sexta Selvagem

Sexta-Selvagem: Formiga-Lava-Pés-Vermelha

por Piter Kehoma Boll

Enquanto a maioria das espécies apresentadas aqui possui pouquíssima informação disponível sobre sua ecologia, a espécie de hoje é um organismo muito bem pesquisado porque é uma ameaça a nível global. Seu nome científico atual é Solenopsis invicta e seu nome comum é formiga-lava-pés-vermelha.

A formiga-lava-pés-vermelha é nativa das regiões centrais da América do Sul, incluindo o oeste do Brasil, norte da Argentina, Paraguai, Bolívia e sudeste do Peru. As operárias variam de 2,5 a 6 mm de comprimento e possuem uma cor marrom-avermelhada ou amarelada, com um abdome mais escuro. Algumas colônias possuem duas castas de operárias, uma menor e uma maior, enquanto outras possuem só uma.

O acasalamento ocorre durante os meses quentes, quando o voo nupcial típico acontece. Os machos morrem logo após a cópula e as rainhas começam a construir seus ninhos, às vezes sozinhas, às vezes em grupos. Assim, as colônias podem ter só uma ou múltiplas rainhas, e no último caso elas podem brigar pela dominância. Os ninhos são construídos no chão e o solo que elas deslocam para escavar o ninho é frequentemente depositado em torno da entrada do ninho, formando um monte de pequenos grãos.

Um monte típico na entrada de um formigueiro. Foto do usuário stanushhn do iNaturalist.**

A formiga-lava-pés-vermelha é onívora e primariamente carniceira, alimentando-se de animais mortos e líquidos doces como néctar e melada, a substância doce secretada por alguns insetos. Como predadora, ela pode atacar outros insetos, especialmente dípteros e cupins, mas também outros artrópodes, como aranhas e opiliões, e mesmo lesmas ou pequenos vertebrados. Sementes também são eventualmente incluídas na sua dieta.

Alimentando-se de uma barata morta. Foto do usuário bellumknight do iNaturalist.**

O comportamento dessas formigas e muito complexo e elas são muito resilientes, sendo capazes de se adaptar tanto à seca quanto a condições de cheias. Por exemplo, quando o solo fica coberto de água, elas se unem e formam uma bola ou jangada que flutua.

Devido a sua dieta ampla e habilidade de viver em vários tipos de habitats, a formiga-lava-pés-vermelha se adapta facilmente a novas áreas, e isso é exatamente o que aconteceu.

A formiga-lava-pés-vermelha chegou nos Estados Unidos através do porto de Mobile, Alabama, em navios cargueiros, nos anos 1930 ou 1940 e as estimativas são de que cerca de 9 a 20 rainhas não relacionadas foram introduzidas nessa época. Durante as décadas seguintes, as colônias começaram a se espalhar pelo sul dos Estados Unidos e norte do México, causando sérios danos ambientais e econômicos.

Uma jangada de formigas-lava-pés-vermelhas flutuando durante uma enchente. Foto do usuário TheCoz do Wikimedia.*

Estudos mostraram que muitos artrópodes nativos desaparecem de uma área quando as formigas-lava-pés-vermelhas chegam. Alguns deles se tornam presas das formigas e outros são provavelmente expulsos por competição ou porque as formigas removem suas fontes de alimento. Para humanos, os impactos econômicos são principalmente relacionados à sua presença em plantações, onde elas podem remover sementes em germinação. Se os ninhos são construídos perto ou embaixo de ruas, calçadas ou prédios, o solo que é deslocado pode eventualmente danificar a base da estrutura. Em áreas habitadas por humanos elas podem ser um incômodo por causa de seu comportamento agressivo, tornando as atividades ao ar livre difíceis.

Quando ameaçadas, as formigas-lava-pés reagem com um ataque agressivo em que várias operárias abordam a ameaça e a ferroam. Seu veneno é formado por uma mistura de muitos compostos e, em humanos, geralmente causa uma sensação de queimação seguida por urticária e formação de pústulas. Pessoas alérgicas podem sofrer reações alérgicas sérias e correr risco de vida.

Mais recentemente, a invasão da formiga-lava-pés-vermelha continuou e ela atingiu o Caribe, a China, Taiwan, a Austrália e a Nova Zelândia. Há também registros não confirmados de sua ocorrência na Índia e nas Filipinas.

Devido a essa combinação de fatores, a formiga-lava-pés-vermelha é mais uma espécie na lista das 100 piores espécies invasoras do mundo, da mesma forma que o caracol-gigante-africano e a planária-da-Nova-Guiné, que eu apresentei aqui algumas semanas atrás.

Tenho que dizer que acho engraçado que a presença dessas formigas em jardins seja um problema para atividades ao ar livre nos Estados Unidos. Como brasileiro, passei minha infância brincando num quintal cheio de formigas-lava-pés e perdi a conta de quantas vezes acidentalmente pisei num formigueiro e acabei com o pé coberto de picadas. Os bons e velhos tempos…

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Referências:

Ascunce, M. S., Yang, C. C., Oakey, J., Calcaterra, L., Wu, W. J., Shih, C. J., … & Shoemaker, D. (2011). Global invasion history of the fire ant Solenopsis invicta. Science331(6020), 1066-1068. https://science.sciencemag.org/content/331/6020/1066.full

Morrison, L. W. (2002). Long‐term impacts of an arthropod‐community invasion by the imported fire ant, Solenopsis invicta. Ecology83(8), 2337-2345. https://doi.org/10.1890/0012-9658(2002)083[2337:LTIOAA]2.0.CO;2

Morrison, L. W., Porter, S. D., Daniels, E., & Korzukhin, M. D. (2004). Potential global range expansion of the invasive fire ant, Solenopsis invicta. Biological invasions6(2), 183-191. https://doi.org/10.1023/B:BINV.0000022135.96042.90

Wikipedia. Red Imported Fire Ant. Disponível em < https://en.wikipedia.org/wiki/Red_imported_fire_ant >. Acesso em 15 de abril de 2021.

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*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 4.0 Internacional.

**Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição Não Comercial 4.0 Internacional

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Arquivado em Entomologia, Sexta Selvagem

Sexta Selvagem: Copo-de-Vidro-de-Porto-Rico

por Piter Kehoma Boll

Se você por acaso estiver andando por uma floresta, ou às vezes em locais abertos também, e encontrar uma série de pequenos cogumelos parecidos com tacinhas e geralmente semitransparentes saindo do solo ou da vegetação, você pode estar de frente com um grupo peculiar de fungos, os copos-de-vidro que constituem o gênero Orbilia. Hoje falaremos sobre uma destas espécies que é encontrada em Porto Rico, Orbilia jesu-laurae, que eu decidi chamar de copo-de-vidro-de-Porto-Rico.

Como a maioria dos fungos, os copos-de-vidro possuem dois estágios de vida, um sexuado e um assexuado. Durante o estágio sexuado, o copo-de-vidro-de-Porto-Rico produz pequenos corpos de frutificação circulares medindo somente 1,5 mm de diâmetro com uma cor marrom-clara a marrom-alaranjada. As margens podem ser meio onduladas, quebrando o aspecto de um círculo perfeito.

Corpos de frutificação do copo-de-vidro-de-Porto-Rico. Extraído de Quijada et al. (2020).*

Quando os corpos de frutificação liberam os esporos no ambiente, eles germinam para originar o estágio assexuado que crescerá no substrato para formar uma rede de hifas, o micélio, como típico da maioria dos fungos. Contudo, enquanto a maioria dos fungos é parasita ou saprótrofa durante esse estágio, o copo-de-vidro-de-Porto-Rico é um predador.

Crescendo pelo substrato, o micélio do copo-de-vidro-de-Porto-Rico procura por pequenos nematódeos, que são muito comuns no ambiente, e os captura com as hifas. Quando o nematódeo foi capturado, o fungo cresce hifas em seu interior, alimentando-se de seus tecidos.

Captura de um nematódeo pelo copo-de-vidro-de-Porto-Rico. O nematódeo está perto das hifas em C1, capturado pelas hifas, mas ainda vivo, em C2 e C3, e morto e preenchido de hifas em C4. Foto extraída de Quijada et al. (2020).

Os copos-de-vidro ainda se alimentam de matéria vegetal em decomposição, no entanto. De fato, a razão para consumirem nematódeos é provavelmente porque eles são uma boa fonte de nitrogênio, o qual pode não ser muito disponível no substrato. Assim, eles agem mais ou menos como plantas carnívoras.

Nem todos os copos-de-vidro parecem ser predadores, mas muitos são. Nematódeos são a presa mais comum, mas algumas espécies podem se alimentar de outros animais pequenos, especialmente pequenos artrópodes como copépodes, colêmbolos, dípteros e ácaros. Como muitos nematódeo, e outros dos pequenos animais eventualmente consumidos, são pragas de plantas, já se sugeriu usar os copos-de-vidro como controle biológico dessas criaturas, mas não há estudos abordando a viabilidade de tal método ainda.

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Referências:

Moosavi, M. R., & Zare, R. (2020). Fungi as biological control agents of plant-parasitic nematodes. In Plant defence: biological control (pp. 333-384). Springer, Cham. https://www.researchgate.net/profile/Rasoul-Zare/publication/227255809_Fungi_as_Biological_Control_Agents_of_Plant-Parasitic_Nematodes/links/09e4150b346c874d3a000000/Fungi-as-Biological-Control-Agents-of-Plant-Parasitic-Nematodes.pdf

Quijada, L., Baral, H. O., Beltrán-Tejera, E., & Pfister, D. H. (2020). Orbilia jesu-laurae (Ascomycota, Orbiliomycetes), a new species of neotropical nematode-trapping fungus from Puerto Rico, supported by morphology and molecular phylogenetics. Willdenowia50(2), 241-251. https://doi.org/10.3372/wi.50.50210

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Arquivado em Fungos, Sexta Selvagem

As cores em latim científico

por Piter Kehoma Boll

Vamos ver como descrever diferentes cores em latim científico e assim entender como interpretar táxons e criar novos caso você seja um taxonomista. Por serem línguas antigas, o grego clássico e o latim tinham poucos termos para cores, sendo que os únicos bem definidos em ambas as línguas são preto, branco e vermelho, e verde e amarelo são razoavelmente definidos. Azul ou qualquer outra cor não existiam independentemente e para isso em latim científico temos que fazer adaptações.

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Arquivado em Taxonomia

Sexta Selvagem: Alface-do-Mar-Larga

por Piter Kehoma Boll

Se você está acostumado a ir à praia, especialmente litorais rochosos, pode ter visto umas coisas verdes pequenas e “folhosas” crescendo nas rochas e às vezes trazidas pelas ondas que se parecem com pequenos pés de alface ou algo do tipo. Bem, essas são algas verdes da espécie Ulva lactuca, comumente conhecida como alface-do-mar. Contudo, como esse nome também é usado para outras espécies de Ulva, o nome alface-do-mar-larga vai ser usado aqui para se referir a esta espécie específica.

Alface-do-mar-larga crescendo pelos arredores de San Diego, EUA. Foto do usuário annegero-stillwell do iNaturalist.*

O talo da alface-do-mar-larga é muito fino e semitransparente, tendo uma espessura de apenas duas células. Ele geralmente tem uma margem crespa ou rasgada e pode crescer até 18 cm de comprimento e 30 cm de largura, mas é normalmente muito menor. Ele é preso ao substrato, geralmente rochas, mas às vezes outros organismos, por uma pequena base em forma de disco.

Como todas as plantas, a alface-do-mar-larga possui uma fase haploide (na qual as células têm apenas um cromossomo de cada) e uma fase diploide (com dois cromossomos de cada por célula). Ambas as fases têm a mesma aparência geral, mas as plantas haploides são ou macho, ou fêmea e liberam gametas na água, que se unem para formar o zigoto, o qual vai crescer para formar uma planta diploide. Este, por sua vez, libera esporos móveis (zoósporos), que germinarão para produzir novas plantas haploides.

Um espécime no norte da França. Foto do usuário simondenis142857 do iNaturalist.*

A alface-do-mar-larga possui uma distribuição a nível global, sendo encontrada em todos os continentes e oceanos. Ela é uma alga comestível e é particularmente rica em ferro e no aminoácido histidina. Contudo, é necessário ter precaução sobre onde ela é colhida para consumo, já que ela pode acumular metais pesados em zonas poluídas.

Espécime do Rio de Janeiro, Brasil. Diliça, né? Foto de Ricardo da Silva Ribeiro.*

Em águas ricas em nutrientes devido à poluição, as populações da alface-do-mar-larga podem crescer rapidamente e milhares de indivíduos podem acabar trazidos pelas ondas. Quando elas começam a se decompor, emitem gases tóxicos como sulfeto de hidrogênio, o qual pode matar animais por hipóxia, isto é, falta de oxigênio, já que inibe a respiração celular. Há registros de humanos morrendo por caminharem perto de grandes quantidades de algas em decomposição.

Formas de vida frequentemente têm essa natureza dupla, e a mesma coisa que te engorda também pode te matar.

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Referências:

Dominguez, H., & Loret, E. P. (2019). Ulva lactuca, a source of troubles and potential riches. Marine drugs17(6), 357. https://doi.org/10.3390/md17060357

Wikipedia. Ulva lactuca. Available at < https://en.wikipedia.org/wiki/Ulva_lactuca >. Access on 1 April 2021.

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*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição Não Comercial 4.0 Internacional

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Arquivado em Algas, Sexta Selvagem

Sexta Selvagem: Briozoário-Roxo-do-Havaí

por Piter Kehoma Boll

Beleza por si só geralmente não é o bastante para promover a pesquisa com invertebrados, seja pelos próprios pesquisadores ou pelos financiadores da pesquisa. Este parece ser o caso do camaradinha de hoje, um briozoário absolutamente lindo mas completamente inestudado chamado Disporella violacea, o qual decidi chamar de briozoário-roxo-do-Havaí.

Esta é uma espécie encrustante de briozoário, o que significa que ela cresce firmemente presa ao substrato, que pode ser rochas ou a superfície de outras espécies com esqueleto rígido, como moluscos, especialmente bivalves. Ele é colonial, claro, como é a regra para briozoários, e os zooides individuais são frequentemente organizados em círculos. A colônia toda possui um lindo tom roxo ou azul e aparece como uma mancha achatada, frequentemente irregular, com várias marcas circulares mais claras formadas pelos zooides organizados em círculos.

Disporella violacea nos recifes ao redor de Oahu, Havaí. Foto de Craig Fujii.*

Eu encontrei uma única fonte dizendo que o briozoário-roxo-do-Havaí é encontrado através do Indo-Pacífico, mas só encontrei fotos de colônias crescendo em recifes de coral em torno de Oahu, no Havaí.

O que podemos dizer de sua ecologia? Bem, nada. Não pude encontrar um artigo sequer tratando desta espécie. Não temos ideia nenhuma sobre como ela interage com outras espécies, como se reproduz, nada! Ela pertence à ordem Cyclostomatida, geralmente chamada de ciclóstomos (que não devem ser confundidos com Cyclostomata, que inclui lampreias e peixes-bruxas). Briozoários ciclóstomos parecem ser competidores fracos por espaço em recifes de coral, sendo frequentemente desalojados por outros animais sésseis como esponjas, ascídias e outros briozoários, como os briozoários quilostomados.

E é isso que temos por hoje. Um lindo organismo cuja história de vida é completamente desconhecida.

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Referências:

Reeflex. Disporella violacea. Disponível em < https://www.reeflex.net/tiere/6412_Disporella_violacea.htm >. Acesso em 25 de março de 2021.

Wikipedia. Cyclostomatida. Disponível em < https://en.wikipedia.org/wiki/Cyclostomatida >. Acesso em 25 de março de 2021.

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Sexta Selvagem: Colêmbolo-da-Praia

por Piter Kehoma Boll

Insetos e seus parentes de seis patas são espécies predominantemente terrestres e de água doce, com muito poucas espécies no mar. Uma dessas poucas espécies é o colêmbolo Anurida maritima, conhecido como colêmbolo-da-praia (seashore springtail em inglês) porque aí é exatamente onde ele é encontrado.

O habitat preferido do colêmbolo-da-praia são costas rochosas e argilosas com frestas onde eles possam se esconder quando a maré sobe. Eles são encontrados especialmente na costa do Atlântico na Europa e na América do Norte, mas podem chegar a porções do sul da América do Sul e da África.

Vários colêmbolos-da-praia na Inglaterra. Foto de Calum McLennan.*

Durante a maré baixa, eles andam pela costa procurando por alimento, que é composto principalmente de animais mortos, especialmente gastrópodes. O colêmbolo-da-praia é, de fato, considerado um carniceiro muito importante nos locais em que ocorre. Cerca de uma hora antes de a maré ficar alta, ou quando o céu escurece porque tem chuva vindo, eles correm para as frestas que habitam e onde também constroem seus ninhos. Como o comportamento deles é governado pela maré e não pelo dia, eles possuem um ritmo circa-maré que dura cerca de 12,4 horas, o que os ajuda a ajustá-lo à medida que a maré vai mudando de um dia para o próximo enquanto a lua se desloca ao redor da Terra.

Colêmbolos-da-praia se reunindo dentro do exoesqueleto de um caranguejo morto. Foto de Mary Johnson.*

Eles preferem locais que os protejam da corrente da água, especialmente onde há raízes ou outras estruturas vegetativas que aumentem a proteção e a superfície. Centenas de colêmbolos podem se reunir num único ninho e se tornarem rodeados por uma grande bolha de ar quando a água do mar enche o espaço. E lá eles esperam até que a maré baixe de novo. Eles também usam esses ninhos para fazer suas mudas e pôr os ovos, formando um tipo de ninho coletivo.

Durante o inverno, todos eles morrem e deixam só seus ovos para trás. Na primavera os ovos eclodem e o litoral fica cheio deles de novo, todos ávidos para explorar e comer tantos caramujos mortos quanto possível.

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Referências:

Joosse, E. N. (1966). Some observations on the biology of Anurida maritima (Guérin),(Collembola). Zeitschrift für Morphologie und ökologie der Tiere57(3), 320-328. https://doi.org/10.1007/BF00407599

King, P., Pugh, P. J. A., Fordy, M. R., Love, N., & Wheeler, S. A. (1990). A comparison of some environmental adaptations of the littoral collembolans Anuridella marina (Willem) and Anurida maritima (Guérin). Journal of Natural History24(3), 673-688. https://doi.org/10.1080/00222939000770461

Manica, A., McMeechan, F. K., & Foster, W. A. (2001). An aggregation pheromone in the intertidal collembolan Anurida maritima. Entomologia experimentalis et applicata99(3), 393-395. https://citeseerx.ist.psu.edu/viewdoc/download?doi=10.1.1.709.8452&rep=rep1&type=pdf

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