Sexta Selvagem: Ehux

por Piter Kehoma Boll

Continuaremos entre as maravilhas unicelulares do mar esta semana. Desta vez nosso camarada é outro membro de um grupo pouco  conhecido de protistas mas muitíssimo importante, os cocolitóforos.

Os cocolitóforos são um grupo de algas unicelulares do fitoplâncton marinho que são caracterizadas por uma série de placas de carbonato de cálcio, chamados cocólitos, que cobrem seu corpo, fazendo-as parecerem células cobertas de escamas.

Hoje vamos conhecer a espécie mais abundante e disseminada deste grupo, Emiliania huxleyi, geralmente chamda apenas de Ehux, que eu usarei aqui como seu nome comum.

600px-emiliania_huxleyi_coccolithophore_28plos29

Micrografia eletrônica de varredura de uma célula de Emiliania huxleyi coberta por cocólitos. Créditos a Alison R. Taylor.*

A Ehux é encontrada em oceanos ao redor do mundo todo, sendo ausente apenas perto dos polos. De acordo com o registro fóssil, esta espécie apareceu cerca de 270 mil anos atrás, mas se tornou o cocolitóforo dominante apenas cerca de 70 mil anos atrás. Devido a sua abundância, a Ehux é uma espécie importante para controlar o clima global. Sendo um organismo fotossintético, ela ajuda a aumentar o oxigênio atmosférico e diminuir o dióxido de carbono. Adicionalmente, o fato de que sua célula é coberta de placas de carbonato de cálcio aumenta ainda mais a importância em remover CO2 da atmosfera. Ao capturar CO2 como carbonato de cálcio, a Ehux o envia diretamente para o fundo do oceano quando morre e sua concha afunda.

O ciclo de vida da Ehux ainda não é completamente compreendido, mas inclui pelo menos duas formas celulares diferentes. A forma C é esférica, não-móvel e coberta por cocólitos (de onde o nome C) e pode se reproduzir assexuadamente por fissão. A outra forma, chamada S (scaly, escamosa) não possui cocólitos mas é coberta por um grupo de escamas orgânicas. Essa forma é móvel, nada usando dois flagelos e também se reproduz assexuadamente por fissão. Como uma forma se transforma na outra ainda não é claro, mas há algumas evidências de que a  forma C é diploide e a S haploide, então as células C poderiam se tornar células S por meiose e duas células S poderiam agir como gametas e fundir para produzir uma nova célula C. Uma terceira forma, chamada N (nua) é similar à célula C, mas é  incapaz de produzir os cocólitos. Pensa-se que elas surgem por uma mutação das células C que as faz perderem a capacidade de produzir cocólitos, já que células N nunca se convertem de volta para a forma C.

750px-cwall99_lg

Uma floração de Ehux ao sul da Grã Bretanha como visto de uma foto de satélite. Créditos a NASA.

Durante algumas condições especiais, como irradiação alta, temperaturas ideias e águas ricas em nitrogênio, as populações de Ehux podem causar florações que se estendem sobre grandes porções do oceano. Esta espécie é conhecida como uma produtora de dimetil sulfeto (DMS), um líquido inflamável que evapora a 37°C e possui um cheiro característico geralmente chamado de “cheiro do mar” ou “cheiro de repolho”. A liberação de DMA na atmosfera interfere na formação de nuvens, de forma que esta é mais uma maneira pela qual a Ehux influencia o clima global.

– – –

Curta nossa página no Facebook!

– – –

Referências:

Paasche E (2002) Paasche, E. (2001). A review of the coccolithophorid Emiliania huxleyi (Prymnesiophyceae), with particular reference to growth, coccolith formation, and calcification-photosynthesis interactions. Phycologia 40(6), 503–529. doi:10.2216/i0031-8884-40-6-503.1

– – –

*Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição 2.5 Genérica.

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Algas, protistas, Sexta Selvagem

Sexta Selvagem: Grômia-gigante

por Piter Kehoma Boll

Algum tempo atrás eu apresentei uma interessante alga unicelular, o olho-do-marinheiro, que pode atingir cerca de 5 cm de diâmetro, sendo um dos maiores organismos unicelulares conhecidos.

Hoje conheceremos mais uma criatura deste tipo, mas não se trata de uma alga e sim de uma ameba testada mais proximamente relacionada aos foraminíferos. Chamada Gromia sphaerica, vou chamá-la aqui de grômia-gigante.

gromia fig2

Espécimes de grômia-gigante das Bahamas. Imagem extraída de Matz et al. (2008)

A grômia-gigante foi primeiro encontrada no Mar da Arábia a profundidades de mais de 1100 m e foi formalmente descrita em 2000. Ela vive deitada no substrato e geralmente está coberta por uma fina camada de sedimento, aparecendo como pequenas esferas espalhadas através do fundo do mar. O corpo é esférico ou em formato de uva, mas oco, com o interior preenchido de material fecal (chamados estercomas) ou outros fluidos. Esta célula esférica é coberta por uma concha, ou testa, de material orgânico que apresenta várias perfurações pequenas pelas quais finas expansões do citoplasma, formando um tipo de pseudópode, podem ser estendidas. O tamanho da testa pode chegar a 3 cm de diâmetro, sendo muito maior que a de seu parente mais bem conhecido, Gromia oviformis.

Em 2008, outra população da espécie foi encontrada em águas em torno das Bahamas. Os espécimes lá não são tão esféricos como na população do Mar da Arábia e foram vistos associados a rastros que indicam que estes organismos se movem lentamente através do sedimento. Os rastros se assemelham claramente a alguns rastros fósseis do Pré-Cambriano, que são geralmente considerados uma indicação da evolução precoce de animais pluricelulares. Contudo esta descoberta de organismos unicelulares capazes de produzir rastros similares aos associados a animais levanta dúvidas sobre o momento em que animais pluricelulares surgiram.

– – –

Curta nossa página no Facebook!

– – –

Referências:

Gooday AJ, Bowser SS, Bett BJ, Smith CR (2000) A large testate protist, Gromia sphaerica sp. nov. (Order Filosea), from the bathyal Arabian Sea. Deep-Sea Research II 47: 55–73.

Matz MV, Frank TM, Marshall NJ, Widder EA, Johnsen S (2008) Giant deep-sea protists produces bilaterian-like traces. Current Biology 18(23): 1849–1854. https://doi.org/10.1016/j.cub.2008.10.028

Deixe um comentário

Arquivado em protistas, Sexta Selvagem

A história da Sistemática: Plantas no Systema Naturae, 1758 (Parte 9)

por Piter Kehoma Boll

A última parte da série está finalmente aqui! Veja também as partes 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7 e 8. A única classe que falta ser apresentada é Cryptogamia, as plantas sem flores.

24. Cryptogamia (“casamentos ocultos”)

“O casamento é celebrado em privado”, i.e., órgãos sexuais não são claramente visíveis.

24.1 Filices (fetos): Equisetum (cavalinhas), Onoclea (samambaia-sensível), Ophioglossum (línguas-de-cobra), Osmunda (samambaias-reais), Acrostichum (samambaias-de-couro), Polypodium (polipódios), Hemionitis (hemionites), Asplenium (asplênios), Blechnum (samambaias-pentes), Lonchitis (lonquites), Pteris (ptérides), Adiantum (avencas), Trichomanes (samambaias-felpudas e samambaias-laços), Marsilea (trevos-d’água), Pilularia (pilulárias), Isoetes (isoetas).

1758Linnaeus_cryptogamia_filices

A ordem Filices de Linnaeus incluía (da esquerda para a direita, de cima para baixo) a cavalinha-comum (Equisetum arvense), a samambaia-sensível (Onoclea sensibilis), a língua-de-cobra-comum (Ophioglossum vulgatum), a samambaia-real-comum (Osmunda regalis), a samambaia-de-couro-dourada (Acrostichum aureum) a ptéride-da-China (Pteris vittata), a samambaia-pente-ocidental (Blechnum occidentale), o asplênio-negro (Asplenium adiantum-nigrum), o polipódio-comum (Polypodium vulgare), o cabelo-de-Vênus (Adiantum capillus-veneris), a samambaia-laço (Trichomanes chinensis, agora Sphenomeris chinensis), o trevo-d’água-europeu (Marsilea quadrifolia), a pilulária-comum (Pilularia globulifera) e a isoeta-de-lago (Isoetes lacustris). Créditos a Rob Hille (cavalinha), Kurt Stueber (samambaia-real), Krzysztof Ziarnek (samambaia-pente), Forest & Kim Starr (asplênio e samambaia-laço), H. Zell (polipódio), Tato Grasso (cabelo-de-Vênus), Daria Inozemtseva (isoeta), usuários do Wikimedia JMK (ptéride), Keisotyo (trevo-d’água) e Kembangraps (pilulária), e usuário do flickr peganum (samambaia-sensível).

24.2 Musci (musgos): Lycopodium (licopódios), Porella (porelas), Sphagnum (esfagnos), Phascum (fascos), Fontinalis (musgos d’água), Buxbaumia (musgos-de-elfo), Splachnum (musgos-do-esterco), Polytrichum (musgos-cabelos), Mnium (musgos-calcários), Bryum (musgos-comuns), Hypnum (musgos-achatados).

1758Linnaeus_cryptogamia_musci

Entre as espécies da ordem Musci havia (da esquerda para a direita, de cima para baixo) o licopódio-comum (Lycopodium clavatum), a porela-pinada (Porella pinnata), o esfagno-das-pradarias (Sphagnum palustre), o musgo-d’água-comum (Fontinalis antipyretica), o musgo-de-elfo-comum (Buxbaumia aphylla), o musgo-cabelo-dos-Alpes (Polytrichum alpinum), o musgo-calcário-do-ano (Mnium hornum), o musgo-prateado (Bryum argenteum) e o musgo-cipreste (Hypnum cupressiforme). Créditos a Christian Fischer (licopódio), Rafael Medina (porela), Bernd Haynold (esfagno), Hermann Schachner (musgo-cabelo, musgo-prateado), Bernard Dupont (musgo-calcário), e usuários do Wikimedia AnRo0002 (musgo-d’água) e Aconcagua (musgo-cipreste).

24.3 Algae (algas): Jungermannia (hepáticas-folhosas), Targionia (targiônias), Marchantia (hepáticas-talosas), Blasia (blásia), Riccia (cristalárias), Anthoceros (antóceros), Lichen (líquens), Chara (caras), Tremella (vários organismos gelatinosos), Fucus (algas marrons e vemelhas), Ulva (alfaces-do-mar e noris), Conferva (várias algas filamentosas), Byssus (vários organismos crustosos e lanosos), Spongia (esponjas).

1758Linnaeus_cryptogamia_algae

A diversa ordem Algae incluía (da esquerda para a direita, de cima para baixo) a hepática-folhosa-da-mata (Jungermannia nemora, agora Scapania nemorea), a targiônia-comum (Targionia hypophylla), a hepática-língua-verde (Marchantia polymorpha), a blásia (Blasia pusilla), a cristalária-flutuante (Riccia fluitans), o antócero-liso (Anthoceros laevis, agora Phaeoceros levis), o líquen-mapa (Lichen geographicus, agora Rhizocarpon geographicum), a cara-comum (Chara vulgaris), a geleia-de-bruxa (Tremella nostoc, agora Nostoc commune), fuco-serrado (Fucus serratus), alface-do-mar-comum (Ulva lactuca), limo-da-rocha (Conferva rupestris, agora Cladophora ruprestris), lã-dourada (Byssus aurea, agora Trentepohlia aurea), e a esponja-de-banho (Spongia officinalis). Créditos a Bernd Haynold (hepática-folhosa, blásia), Luis Fernández García (targiônia), Benis Barthel (língua-verde), Christian Fischer (cristalária), Fritz Geller-Grimm (líquen), Lairich Rig (geleia-de-bruxa), Kristian Peters (alface-do-mar), Bioimages (limo-da-rocha), JK Johnson (lã-dourada), Guido Picchetti (esponja) e usuários do Wikimedia Oliver s. (antócero), Mnolf (caras) e Citron (fuco).

24.4 Fungi (fungos): Agaricus (cogumelos lamelados), Boletus (cogumelos com poros), Hydnum (cogumelos-dentados), Phallus (cogumelos fálicos), Clathrus (fungos com formato de dedo), Elvela (cogumelos em forma de sela), Peziza (cogumelos em forma de taça), Clavaria (cogumelos em forma de clava), Lycoperdon (cogumelos esféricos), Mucor (mofos).

1758Linnaeus_cryptogamia_fungi

A ordem Fungi continha (da esquerda para a direita, de cima para baixo) o cogumelo-do-campo (Agaricus campestres), a orelha-de-pau-vermelha-comum (Boletus sanguineus, agora Pycnoporus sanguineus), o dente-doce (Hydnum repandum), o falo-impudico (Phallus impudicus), o mixomiceto-algodão-doce (Clathrus denudatus, agora Arcyria denudata), o copo-de-vinagre (Peziza acetabulum, agora Helvella acetabulum), o cogumelo-clava-doce (Clavaria pistillaris, agora Clavariadelphus pistillaris), o peido-de-lobo-do-campo (Lypoderon cervinum, agora Lycoperdon lividum) e o bolor-alfinete-comum (Mucor mucedo). Créditos a Nathan Wilson (cogumelo-do-campo), Instituto Últimos Refúgios (orelha-de-pau), H. Krisp (dente-doce, copo-de-vinagre), Jörg Hempel (falo), Bea Leiderman (mixomiceto), Francisco J. Díez Martín (cogumelo-clava), Michel Beeckman (peido-de-lobo) e James Lindsey (bolor-alfinete).

Aqui podemos ver que a bagunça de Linnaeus chegou ao limite. Há mesmo animais classificados como plantas, como você pode ver com esponjas aparecendo como algas. Na verdade a ordem Algae incluía espécies pertencendo a quase todos os reinos atualmente reconhecidos, de bactérias a animais, fungos, plantas e heterocontas. As outras ordens são consideravelmente mais uniformes.

Terminamos o sistema de Linnaeus! Oba!

Eu farei uma postagem adicional com um resumo e então podemos seguir para mudanças que aconteceram nos sistemas seguintes. Vejo vocês lá!

– – –

Referência:

Linnaeus, C. (1758) Systema Naturae per regna tria Naturae…

– – –

Creative Commons License
Todas as imagens estão licenciadas sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 4.0 Internacional.

Deixe um comentário

Arquivado em Botânica, Sistemática, Taxonomia

Sexta Selvagem: Peripato-de-Rowell

por Piter Kehoma Boll

Onicóforos formam um grupo intrigante de animais que são o grupo-irmão dos artrópodes e também o único filo animal com apenas espécies terrestres, apesar de espécies aquáticas serem conhecidas de registros fósseis.

Hoje decidi trazer uma espécie de onicóforo para ser nosso camarada da sexta. Cientificamente conhecido como Euperipatoides rowelli, decidi dar a ele o nome comum de peripato-de-Rowell.

61533_orig

Um espécie do peripato-de-Rowell em laboratório. Foto de Alan Couch.*

O peripato-de-Rowell é encontrado no sudeste da Austrália habitando florestas temperadas úmidas. Eles são animais pequenos, com cerca de 5 cm de comprimento e vivem em madeira em decomposição, morando em rachaduras e se alimentando de invertebrados pequenos como cupins e grilos.

Os troncos caídos são geralmente habitados por grupos de vários indivíduos que vivem em um tipo de relação social e são compostos de fêmeas, machos e jovens, as fêmeas sendo maiores e ocorrendo em maior número que os machos. Uma espécie de organização social também parece ocorrer, com uma fêmea sendo dominante e seguida em dominância pelas outras fêmeas, com machos e jovens ocupando a base da pirâmide. A captura de presas geralmente ocorre em grupo e após a presa ser abatida, a fêmea dominante comerá primeiro e somente após estar saciada ela permitirá que as outras fêmeas comam. Machos e jovens comem os restos deixados pelas fêmeas.

26038_orig

Bem-vindo ao nosso tronco! Foto de Andras Keszei.**

Troncos novos são colonizados por machos errantes. Estes liberam feromônios que atraem mais machos e posteriormente fêmeas. Assim, troncos recém-colonizados possuem uma agregação com mais machos, mas o número de fêmeas mais tarde ultrapassa o de machos. Foi sugerido que essa agregação inicial de machos os ajuda a atrair fêmeas devido ao aumento da concentração de feromônios.

Durante a reprodução, o macho deposita espermatóforos na pele da fêmea. Com a ajuda das células sanguíneas da fêmea, a parede corporal abaixo do espermatóforo é rompida e o esperma é liberado na cavidade corporal da fêmea, onde nada até o trato reprodutivo feminino.

Devido à sua abundância no sudeste da Austrália, o peripato-de-Rowell é uma espécie fácil de se obter e está aos poucos se tornando mais um organismo-modelo interessante.

– – –

Curta nossa página no Facebook!

– – –

Referências:

Barclay S, Ash JE, Rowell DM (2000) Environmental factors influencing the presence and abundance of a log-dwelling invertebrate, Euperipatoides rowelli(Onychophora: Peripatopsidae)Journal of Zoology 250: 425–436.

Barclay S, Rowell DM, Ash Je (2000) Pheromonally mediated colonization patterns in the velvet worm Euperipatoides rowelli (Onychophora)Journal of Zoology 250: 437–446.

Reinhardt J, Rowell DM (2006) Social behavior in an Australian velvet worm, Euperipatoides rowelli(Onychophora: Peripatopsidae)Journal of Zoology 250: 1–7.

Sunnucks P, Curach NC, Young A, French J, Cameron R, Briscoe DA, Tait NN (2000) Reproductive biology of the onychophoran Euperipatoides rowelliJournal of Zoology 250: 447–460.

– – –

*Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição 2.0 Genérica.

**Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição Não Comercial e Compartilhamento Igual 2.0 Genérica.

Deixe um comentário

Arquivado em Sexta Selvagem, vermes

Sexta Selvagem: Glomo-Funil-Versátil

por Piter Kehoma Boll

É hora de voltar para o mundo microscópico e apresentar as maravilhas que ele contém. Hoje a espécie escolhida é Funneliformis mosseae que, como sempre, não possui um nome comum. Eu, portanto, decidi chamá-la de glomo-funil-versátil.

O glomo-funil-versátil é um fungo da divisão Glomeromycota. Estes fungos são caracterizados por formarem uma relação endossimbionte com plantas através de estruturas chamadas micorrizas arbusculares, ou MAs para abreviar. Este tipo especial de micorriza é formado com o fungo crescendo dentro dos tecidos e das células das raízes das plantas. Sabe-se que cerca de 80% de todas as famílias de plantas vasculares contém MAs.

800px-spores_tomato_root

Esporos do glomo-funil-versátil em raízes de tomate. Foto do usuário Samson90 do Wikimedia.

Nossa espécie, o glomo-funil-versátil, é considerado um dos fungos mais comuns associados a raízes de plantas. Encontrado no mundo todo, ele pode formar MAs com muitas plantas diferentes, incluindo vários cultivares, como milho, cebola, tomate e muitos outros.

funneliformis_mosseae_spore

Um esporo único do glomo-funil-versátil mostrando a base em forma de funil à direita. Foto extraída de Schüßler & Walker (2010).

Como o glomo-funil-versátil vive dentro dos tecidos e das células das raízes, ele geralmente não é conspícuo, mas pode ser facilmente identificado por seus esporos, os quais possuem cerca de 0,2 mm de diâmetro e são agrupados em esporocarpos. A base do esporo possui um formato de funil, sendo esta a razão para o nome Funneliformis.

A associação do glomo-funil-versátil com plantas aumenta a absorção de nutrientes pelas plantas e também as ajuda a lidarem com ambientes contaminados por metais pesados, como o chumbo, ao absorver parte dos contaminantes, assim reduzindo seus efeitos deletérios nas plantas.

– – –

Curta nossa página no Facebook!

– – –

Referências:

Citterio, S.; Prato, N.; Fumagalli, P.; Aina, R.; Massa, N.; Santagostino, A.; Sgorbati, S.; Berta, G. (2005) The arbuscular mycorrhizal fungus Glomus mosseae induces growth and metal accumulation changes in Cannabis sativa LChemosphere 59(1): 21–29.

EOL – Encyclopedia of Life. Glomus mosseae. Available at < http://eol.org/pages/988675/overview >. Access on July 17, 2018.

Schüßler, A.; Walker, C. (2010) The Glomeromycota. A species list with new families and new genera. Gloucester, UK.

Xu, Z.; Ban, Y.; Yang, R.; Zhang, X.; Chen, H.; Tang, M. (2016) Impact of Funneliformis mosseae on the growth, lead uptake, and localization of Sophora viciifoliaCanadian Journal of Microbiology 62(4): 361–373.

Deixe um comentário

Arquivado em Fungos, Sexta Selvagem

A história da Sistemática: Plantas no Systema Naturae, 1758 (Parte 8)

por Piter Kehoma Boll

Esta é a última parte do sistema de classificação de plantas de Linnaeus lidando com plantas com flores (veja partes 1, 2, 3, 4, 5, 6 e 7) e apresenta três classes compostas por plantas que contêm mais de um tipo de flor. A última parte do sistema (parte 9) lidará com plantas sem flores.

21. Monoecia (“casa única”)

“Maridos habitam com mulheres na mesma casa, mas num quarto diferente”, isto é, órgãos masculinos e femininos ocorrem na mesma planta, mas em flores diferentes.

21.1 Monoecia Monandria (“casa única, marido único”), flores masculinas com um único estame: Zannichellia (capins-chifrudos), Ceratocarpus (frutos-chifres), Hippomane (mancenilheiras), Cynomorium (polegar-do-deserto).

21.2 Monoecia Diandria (“casa única, dois maridos”), flores masculinas com dois estames: Lemna (lentilhas-d’água).

1758Linnaeus_monoecia_monandria

O capim-chifrudo (Zanichellia palustris), esquerda), a mancinelheira (Hippomane mancinella), centro-esquerda) e o polegar-do-deserto (Cynomorium coccineum, centro-direita) eram classificados na ordem Monoecia Monandria, enquanto a lentilha-d’água-comum (Lemna minor, direita) era classificda na ordem Monoecia Diandria. Créditos a Yu Ito (capim-chifrudo), Hans Hillewaert (mancinelheira, polegar-do-deserto), e usuário do Wikimedia 3268zauber (lentilha-d’água).

21.3 Monoecia Triandria (“casa única, três machos”), flores masculinas com três estames: Typha (taboas), Sparganium (espadanas), Zea (milho), Tripsacum (guatemalas), Coix (lágrima-de-Jó), Olyra (carricilo), Carex (carriços), Axyris (ervas-de-porco), Omphalea (umbigueiros), Tragia (urtigas-de-nariz), Hernandia (hernândias), Phyllanthus (quebra-pedras, sarandis e outros).

1758Linnaeus_monoecia_triandria

A ordem Monoecia Triandria incluía (da esquerda para a direita, de cima para baixo) a taboa-comum (Typha latifólia), a espadana-delgada (Sparganium erectum), o milho (Zea mays), a guatemala-comum (Tripsacum dactyloides), a lágrima-de-Jó (Coix lacryma-jobi), o carricilo (Olyra latifolia), o carriço-cravo (Carex panicea), umbigueiro-da-Jamaica (Ophalea triandra), urtiga-de-nariz-da-Índia (Tragia involucrata), quebra-pedra-comum (Phyllanthus urinaria). Créditos a H. Zell (milho), Mason Brock (guatemala), Alex Popovkin (carricilo), Kristian Peters (carriço), e usuários do Wikimedia AnRo002 (taboa), Hugo.arg (espadana), Vinayaraj (lágrima-de-Jó, urtiga-de-nariz), Carstor (umbigueiro) e Atsuko-y (quebra-pedra).

21.4 Monoecia Tetrandria (“casa única, quatro machos”), flores masculinas com quatro estames: Betula (bétulas e amieiros), Buxus (buxo), Urtica (urtigas), Morus (amoreiras).

1758Linnaeus_monoecia_tetrandria

A bétula-anã (Betula nana, esquerda), o buxo-comum (Buxus sempervirens, centro-esquerda), a urtiga-comum (Urtica dioica) e a amoreira-negra (Morus nigra, direita) eram classificados na ordem Monoecia Tetrandria. Créditos a Uwe H. Friese (urtiga), Fritz Geller-Grimm (amoreira) e usuários do Wikimedia El Grafo (bétula) e Abrimaal (buxo).

21.5 Monoecia Pentandria (“casa única, cinco machos”), flores masculinas com cinco estames: Xanthium (carrapichos), Ambrosia (carpineiras), Parthenium (losnas-brancas), Iva (velhos-do-banhado), Amaranthus (carurus).

1758Linnaeus_monoecia_pentandria

O carrapicho-grande (Xanthium strumarium), esquerda), a carpineira-comum (Ambrosia artemisiifolia, centro-esquerda), a losna-branca-americana (Parthenium integrifolium, centro), o velho-do-banhado-anual (Iva annua) e o caruru-espinho (Amaranthus spinosus) eram parte da ordem Monoecia Pentandria. Créditos a Javier Martin (carrapicho), Meneerke Bloem (carpineira), Krzysztof Ziarnek (losna-branca), e Forest & Kim Starr (caruru).

21.6 Monoecia Hexandria (“casa única, seis machos”), flores masculinas com seis estames: Zizania (arroz-bravo), Pharus (capim-de-talo), Solandra (uma espécie de identificação duvidosa).

21.7 Monoecia Heptandria (“casa única, sete machos”), flores masculinas com sete estames: Guettarda (gardênia-da-praia).

1758Linnaeus_monoecia_hexandria-heptandria

O arroz-bravo (Zizania aquatica, esquerda) e o capim-de-talo-largo (Pharus latifolius, centro) estavam alocados na ordem Monoecia Hexandria, enquanto a gardência-da-praia (Guettarda speciosa, direita) estava na ordem Monoecia Heptandria. Créditos a Michael Wolf (arroz-bravo), Alex Popovkin (capim-de-talo) e Cas Liber (gardênia-da-praia).

21.8 Monoecia Polyandria (“casa única, muitos machos”), flores masculinas com muitos estames: Ceratophyllum (rabos-de-raposa), Myriophyllum (pinheirinhas-d’água), Sagittaria (sagitárias), Theligonum (repolho-de-cão), Poterium (ervas-da-faca), Quercus (carvalhos), Juglans (nogueiras), Fagus (faias e castanheiras), Carpinus (carpinos), Corylus (avelaneiras), Platanus (plátanos), Liquidambar (liquidâmbares).

1758Linnaeus_monoecia_polyandria

Linnaeus incluiu na ordem Monoecia Polyandria (da esquerda para a direita, de cima para baixo) o rabo-de-raposa-comum (Ceratophyllum demersum), pinheirinha-d’água-verticilada (Myriophyllum verticillatum), sagitária-comum (Sagittaria sagittifolia), carvalho-comum (Quercus robus), nogueira-comum (Juglans regia), faia-comum (Fagus sylvatica), carpino-comum (Carpinus betulus), avelaneira-comum (Corylus avellana), plátano-oriental (Platanus orientalis) e liquidâmbar-americano (Liquidambar styraciflua). Créditos a Christian Fischer (rabo-de-raposa, sagitária), Piotr Panek (pinheirinha-d’água), Krzysztof Ziarnek (carvalho), H. Zell (nogueira), Franz Xaver (carpino), André Karwath (avelã), Dimitar Nàydenov (plátano), Kurt Stueber (liquidâmbar) e usuário do Wikimedia Der Michels (faia).

21.9 Monoecia Monadelphia (“casa única, irmãos únicos”), flores masculinas com estamens fundidos em uma estrutura única pelos seus filamentos: Pinus (pinhos, lariços espruces e abetos), Thuja (tuias), Cupressus (ciprestes), Acalypha (acalifas), Croton (crótons), Jatropha (pinhões), Ricinus (mamonas), Sterculia (chichá), Plukenetia (amendoeira-inca), Hura (açacu).

1758Linnaeus_monoecia_monadelphia

A ordem Monoecia Monadelphia incluía (da esquerda para a direita, de cima para baixo) o pinho-da-Suíça (Pinus cembra), a tuia-ocidental (Thuja occidentalis), o cipreste-do-Mediterrâneo (Cupressus sempervirens), a acalifa-da-Índia (Acalypha indica), o cróton-de-jardim (Croton variegatus, agora Codiaeum variegatum), o pinhão-roxo (Jatropha gossypifolia), a mamona (Ricinus communis), o chichá-fedorento (Sterculia foetida), a amendoeira-inca (Plukenetia volubilis) e o açacu (Hura crepitans). Créditos a Wouter Hagens (tuia), J. M. Garg (acalifa, cróton, pinhão), Martina Nolte (mamona), Raju Kasambe (chichá), Hans Hillewart (açacu) e usuários do Wikimedia Moroder (pinho), Philmarin (cipreste) e NusHub (amendoeira-inca).

21.10 Monoecia Syngenesia (“casa única, mesma geração”), flores masculinas com estames unidos formando um cilindro: Trichosanthes (cabaças-de-cobra), Momordica (melão-de-São-Caetano e lufas), Cucurbita (morangas, abóboras, porongos, melacia), Cucumis (melões, pepinos), Bryonia (briônias), Sicyos (melão-estrela).

21.11 Monoecia Gynandria (“casa única, marido feminino”), flores masculinas com estames fundidos ao pistilo (estéril): Andrachne (andracne).

1758Linnaeus_monoecia_syngenesia_gynandria

A ordem Monoecia Syngenesia inclui (da esquerda para a direita) a cabaça-de-cobra (Trichosanthes cucumerina), melão-de-São-Caetano (Momordica charantia), abóbora (Cucurbita pepo), pepino (Cucumis sativus), briônia-branca (Bryonia alba) e o melão-estrela-pequeno (Sicyos angulatus). Já a ordem Monoecia Gynandria incluía a andracne-comum (Andrachne telephioides, direita). Créditos a Florian Wickern (abóbora), H. Zell (pepino), Robert H. Mohlenbrock (melão-estrela), Vojtĕch Zavadil (andracne), usuário do flickr tanakawho (cabaça-de-cobra) e usuários do Wikimedia Prenn (melão-de-são-caetano) e Sannse (briônia).

22. Dioecia (“duas casas”)

“Maridos e mulheres vivem em quartos e casas diferentes”, isto é, órgãos masculinos e femininos ocorrem em flores diferentes e em plantas diferentes.

22.1 Dioecia Monandria (“duas casas, macho único”), flores masculinas com um único estame: Najas (náiades).

22.2 Dioecia Diandria (“duas casas, dois machos”), flores masculinas com dois estames: Vallisneria (valisnérias), Cecropia (embaúba), Salix (salgueiros).

1758Linnaeus_dioecia_monandria-diandria

A ordem Dioecia Monandria incluía uma única espécie, a náiade-espinhosa (Najas marina, esquerda). A ordem Dioecia Diandria incluía a valisnéria-comum (Vallisneria spiralis, centro-esquerda), a embaúba (Cecropia peltata, centro-direita) e o salgueiro-chorão (Salix babylonica, direita). Créditos a Stefan Lefnaer (náiade), Ori Fragman-Sapir (valisnéria), e usuários do Wikimedia Cmales (embaúba) e Viaouest (salgueiro).

22.3 Dioecia Triandria (“duas casas, três machos”), flores masculinas com três estames: Empetrum (camarinhas), Osyris (osire), Excoecaria (mangue-de-cego).

1758Linnaeus_dioecia_triandria

A camarinha-negra (Empetrum nigrum), esquerda), a osire (Osyris alba, centro), e o mangue-de-cego (Excoecaria agallocha, direita) eram parte da ordem Dioecia Triandria. Créditos a Krzysztof Ziarnek (camarinha), Hans Hillewaert (osire) e usuário Vengolis do Wikimedia (mangue-de-cego).

22.4 Dioecia Tetrandria (“duas casas, quatro machos”), flores masculinas com quatro estames: Trophis (trofe), Batis (manhã-do-mar), Viscum (viscos), Hippophae (cambroeiros-da-praia), Myrica (samoucos).

1758Linnaeus_dioecia_tetrandria

A manhã-do-mar (Batis maritima, esquerda), o visco-comum (Viscum album, centro-esquerda), o cambroeiro-da-praia-comum (Hippophae rhamnoides, centro-direita) e o samouco-de-brabante (Myrica gale, direita) compunham a ordem Dioecia Tetrandria. Créditos a Forest & Kim Starr (manhã-do-mar), Karunakar Rayker (cambroeiro-da-praia), Sten Porse (samouco) e usuário AnRo0002 do Wikimedia (visco).

22.5 Dioecia Pentandria (“duas casas, cinco machos”), flores masculinas com cinco estames: Pistacia (pistaches e lentiscos), Zanthoxylum (mamicas), Ceratonia (alfarrobeira), Iresine (iresine), Antidesma (hinembila), Spinacia (espinafre), Acnida (cânhamo-d’água), Cannabis (cânhamo), Humulus (lúpulo), Zanonia (zanônia), Fevillea (andiroba).

1758Linnaeus_dioecia_pentandria

A ordem Dioecia Pentandria incluía (da esquerda para a direita, de cima para baixo) o pistache (Pistacia vera), a mamica-de-loba (Zanthoxylum clava-herculis), a alfarrobeira (Ceratonia siliqua), a iresine (Iresine celosia, agora Iresine diffusa), o espinafre (Spinacia oleracea), o cânhamo (Cannabis sativa), o lúpulo-comum (Humulus lupulus), a zanônia (Zanonia indica) e a andiroba-de-rama (Fevillea cordifolia). Créditos a Franz Xaver (iresine), Dinesh Valke (cânhamo), Fritz Geller-Grimm (lúpulo), P. Acevedo (andiroba), e usuários do Wikimedia NAEINSUN (pistache), Rickjpelleg (alfarrobeira), Rasbak (espinafre) e Vinayaraj (zanônia).

22.6 Dioecia Hexandria (“duas casas, seis machos”), flores masculinas com seis estames: Tamus (arrebenta-boi), Smilax (salsaparrilhas), Rajania (rajânias), Dioscorea (carás).

1758Linnaeus_dioecia_hexandria

Linnaeus incluiu o arrebenta-boi (Tamus communis, agora Dioscorea communis, esquerda), a salsaparrilha-comum (Smilax aspera, centro) e o cará-do-ar (Dioscorea bulbifera) na ordem Dioecia Hexandria. Créditos a Alan Fryer (arrebenta-boi), Carsten Niehaus (salsaparrilha) e Dinesh Valke (cará).

22.7 Dioecia Octandria (“duas casas, oito machos”), flores masculinas com oito estames: Populus (choupos e álamos), Rhodiola (raiz-de-ouro).

22.8 Dioecia Enneandria (“duas casas, nove machos”), flores masculinas com nove estames: Mercurialis (mercuriais), Hydrocharis (nacos-de-rã).

1758Linnaeus_dioecia_octandria-enneandria

A ordem Dioecia Octandria incluía o choupo-tremedor (Populus tremula, esquerda) e a raiz-de-ouro (Rhodiola rosea, centro-esquerda). Já a ordem Dioecia Enneandria incluía o mercurial-de-cão (Mercurialis perennis, centro-direita) e o naco-de-rã (Hydrocharis morsus-ranae, direita). Créditos a usuários do Wikimedia AnRo0002 (choupo), Amazonia Exotics U.K (raiz-de-ouro), BerndH (mercurial) e Salicyna (naco-de-rã).

22.9 Dioecia Decandria (“duas casas, dez machos”), flores masculinas com dez estames: Carica (mamoeiro), Kiggelaria (pêssego-bravo), Coriaria (coriárias), Datisca (datiscas).

22.10 Dioecia Polyandria (“duas casas, muitos machos”), flores masculinas com muitos estames: Cliffortia (clifórtia).

1758Linnaeus_dioecia_decandria-polyandria

A ordem Dioecia Decandria incluía (da esquerda para a direita) o mamoeiro (Carica papaya), o pêssego-bravo (Kiggelaria africana), o sansá (Coriaria ruscifolia) e a datisca-asiática (Datisca cannabina). Já a clifórtia-pontuda (Cliffortia ruscifolia, direita) era um dos poucos membros da ordem Dioecia Polyandria. Créditos a Vijayan Rajapuram (mamoeiro), Franz Xaver (sansá), H. Zell (datisca) e usuários do Wikimedia JMK (pêssego-bravo) e Dwergenpaartje (clifórtia).

22.11 Dioecia Monadelphia (“duas casas, irmãos únicos”), flores masculinas com estamens fundidos em uma estrutura única pelos seus filamentos: Juniperus (juníperos ou sabinas), Taxus (teixos), Ephedra (efedras), Cissampelos (orelha-de-onça), Adelia (adélias).

1758Linnaeus_dioecia_monadelphia

Entre os membros da ordem Dioecia Monadelphia havia (da esquerda para a direita) a sabina-das-praias (Juniperus phoenicea), o teixo-europeu (Taxus baccata), a efedra-comum (Ephedra distachya) e a orelha-de-onça (Cissampelos pareira). Créditos a Isidre Blanc (sabina), Didier Descouens (teixo), Dinesh Valke (orelha-de-onça) e usuário do Wikimedia Le.Loup.Gris (efedra).

22.12 Dioecia Syngenesia (“duas casas, mesma geração”), flores masculinas com estames unidos formando um cilindro: Ruscus (gilbardeiras e louro-dos-poetas).

22.13 Dioecia Gynandria (“duas casas, marido feminino”), flores masculinas com estames fundidos ao pistilo (estéril): Clutia (relampagueiras).

1758Linnaeus_dioecia_syngenesia-gynandria

A gilbardeira-comum (Ruscus aculeatus, esquerda) estava na ordem Dioecia Syngenesia, e a relampagueira (Clutia pulchella, direita) estava na ordem Dioecia Gynandria. Créditos a Fritz Geller-Grimm (gilbardeira) e usuário JMK do Wikimedia (relampagueira).

23. Polygamia (“muitos casamentos”)

“Maridos com esposas, assim como solteiros, vivem juntos em quartos diferentes”, isto é, há flores hermafroditas, assim como flores unicamente masculinas ou unicamente femininas na mesma espécie.

23.1 Polygamia Monoecia (“muitos casamentos, casa única”), flores hermafroditas ocorrem na mesma planta em que ocorrem flores unicamente masculinas ou unicamente femininas: Musa (bananeiras), Ophioxylon (pimenta-do-diabo), Celtis (lódãos), Veratrum (heléboros-falsos), Andropogon (gramões, jaraguazões, barbadouros, capins-limões, entre outros), Holcus (capins-moles, capins-elefantes, sorgos, entre outros), Apluda (grama-de-Maurício), Ischaemum (capins-moreias), Cenchrus (esporas-da-areia), Aegilops (trigos-de-perdiz), Valantia (valâncias), Parietaria (parietárias), Atriplex (oraches), Dalechampia (dalechâmpias), Clusia (clúsias), Acer (bordos), Begonia (begônias), Mimosa (mimosas, maricás, ingás, manjeriobas, angicos, entre outros).

1758Linnaeus_polygamia_monoecia

A diversa ordem Polygamia Monoecia incluía (da esquerda para a direita, de cima para baixo) a bananeira (Musa paradisíaca, atualmente Musa × paradisíaca, um híbrido), a pimenta-do-diabo (Ophioxylon serpentinum, agora Rauvolfia serpentina), o lódão-bastardo (Celtis australis), o heléboro-branco (Veratrum álbum), o gramão-vassoura (Andropogon virginicus), o capim-mole-rasteiro (Holcus mollis), a grama-de-Maurício (<Apluda mutica), o capim-moreia-comum (Ischaemum aristatum), a espora-da-areia-comum (Cenchrus echinatus), o trigo-de-perdiz-barbado (Aegilops triuncialis), a valância-dos-muros (Valantia muralis), a parietária-ereta (Parietaria officinalis), a orache-de-jardim (Atriplex hortensis), a dalechâmpia-comum (Dalechampia scandens), a clúsia-menor (Clusia minor), o bordo-vermelho (Acer rubrum), a begônia-das-Antilhas (Begonia obliqua) e a sensitiva (Mimosa pudica). Créditos a Franz Xaver (bananeira), H. Zell (pimenta-do-diabo), Krish Dulal (lódão), Hedwig Storch (heléboro-branco), Harry Rose (gramão), Krzysztof Ziarnek (capim-mole), J. M. Garg (grama-de-maurício), Javier Martin (trigo-de-perdiz), Radio Tonreg (parietária), Stefan Lefnaer (orache), David J. Stang (clúsia), Yercaud Elango (begônia), usuário doflickr Macleay Grass Man (espora-da-areia), e usuários do Wikimedia Keisotyo (capim-moreia), Aroche (valância), Aniprina (dalechâmpia), Famartin (bordo) e Werner1122 (sensitiva).

23.2 Polygamia Dioecia (“muitos casamentos, duas casas”), flores hermafroditas e flores unicamente masculinas ou unicamente femininas ocorrem em plantas separadas: Gleditsia (espinheiros), Fraxinus (freixos), Diospyros (caquizeiros), Nyssa (tupelo), Anthospermum (antospermo), Arctopus (pé-de-urso), Pisonia (pisônias), Panax (ginseng).

1758Linnaeus_polygamia_dioecia

Na ordem Polygamia Dioecia, Linnaeus incluiu (da esquerda para a direita, de cima para baixo) o espinheiro-da-Virgínia (Gleditsia triacanthos), o freixo-comum (Fraxinus excelsior), o caquizeiro-americano (Diospyros virginiana), o tupelo-d’água (Nyssa aquatica, o pé-de-urso (Arctopus echinatus), a pisônia-espinhenta (Pisonia aculeata) e o ginseng (Panax quinquefolius). Créditos a Andrew Butko (espinheiro), Donar Reiskoffer (freixo), Dinesh Valke (caquizeiro), Winfried Bruenken (pé-de-urso), Alex Popvkin (pisônia), Dan J. Pittillo (ginseng) e usuário do Flickr lucianvenutian (tupelo).

23.3 Polygamia Trioecia (“muitos casamentos, três casas”), há plantas apenas com flores masculinas, outras apenas com flores femininas e outras com flores tanto masculinas quanto femininas: Ficus (figueiras).

1758Linnaeus_polygamia_trioecia

A ordem Polygamia Trioecia incluía apenas o gênero Ficus, com espécies como a figueira-comum (Ficus carica, esquerda) e a figueira-sagrada (Ficus religiosa, direita). Créditos ao usuário do Flickr INRA DIST (figueira-comum) e ao usuário do Wikimedia Amada44 (figueira-sagrada).

Ao classificar todas as plantas com flores de diferentes sexualidades em três classes, Linnaeus fez uma bagunça grande. Geralmente podemos ver ao menos um vago padrão em direção ao que foi posteriormente descoberto ser filogeneticamente verdadeiro em outros grupos, mas é difícil encontrar algo que ainda seja relevante hoje em dia aqui.

Nós só precisamos de mais uma parte e finalmente teremos concluído o sistema de Linnaeus!

– – –

Referência:

Linnaeus, C. (1758) Systema Naturae per regna tria Naturae…

– – –

Creative Commons License
Todas as imagens estão licenciadas sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 4.0 Internacional.

1 comentário

Arquivado em Botânica, Sistemática, Taxonomia

Sexta Selvagem: Grilo-da-mata

por Piter Kehoma Boll

Sempre é legal olhar para as espécies extravagantes, incomuns e extremas do nosso mundo, mas também é bom conhecer sobre as criaturinhas mais comuns que vivem em torno de nós. Assim, hoje vamos falar sobre um inseto encontrado na Europa Ocidental, Central e Meridional, bem como no Norte da África, o grilo-da-mata, Nemobius sylvestris.

800px-nemobius_sylvestris_lateral

Um grilo-da-mata macho. Foto de Piet Spaans.*

O grilo-da-mata é um grilo pequeno, atingindo cerca de 1 cm de comprimento. Ele não voa e os machos possuem apenas um par de asas anteriores que atingem metade do abdome, enquanto as fêmeas não possuem asa nenhuma. Vivendo na serapilheira, especialmente próximo à borda da floresta, o grilo-da-mata se alimenta de matéria vegetal em decomposição e fungos crescendo nela.

800px-nemobius_sylvestris_28238898632029

Uma fêmea sem asas. Foto de Gilles San Martin.**

Durante a estação de acasalamento, os machos atraem as fêmeas por estridulação (“cantando”) e então as presenteiam com um espermatóforo, isto é, um saco cheio de esperma, o qual prendem à abertura genital da fêmea. Às vezes, antes de transferir o espermatóforo grande (chamado macroespermatóforo) para a fêmea, o macho transfere um espermatóforo menor (chamado microespermatóforo) que não contém esperma. A fêmea come o microespermatóoforo e então aceita o macroespermatóforo, comendo-o também alguns minutos depois de ele estar conectado a ela. O macho geralmente persegue a fêmea, às vezes empurrando-a com a cabeça, aparentemente para prevenir que ela coma o espermatóforo cedo demais, já que isso reduziria as chances de fertilização.

As fêmeas parecem realmente gostar de comer espermatóforos. Às vezes elas também “lambem” as asas do macho enquanto eles acasalam, como se pensasse “isso parece delicioso”. Meio bizonho, não é?

Apesar de ser uma espécie comum na Europa, o grilo-da-mata é raro no Reino Unido, tendo apenas poucas populações isoladas conhecidas. Como resultado, ele é considerado uma espécie preocupante para a conservação nesse país, um status que invertebrados raramente adquirem no mundo, infelizmente.

– – –

Curta nossa página no Facebook!

– – –

Referências:

Brouwers, N. C.; Newton, A. C. (2009) Habitat requirements for the conservation of wood cricket (Nemobius sylvestris) (Orthoptera: Gryllidae) on the Isle of Wight, UKJournal of Insect Conservation13(5): 529–541.

Brouwers, N. C.; Newton, A. C. (2010) Movement analyses of wood cricket (Nemobius sylvestris) (Orthoptera: Gryllidae)Bulletin of Entomological Research (2010) 100, 623–634.

Prokop, P.; Maxwell, M. R. (2008) Interactions Between Multiple Forms of Nuptial Feeding in the Wood Cricket Nemobius sylvestris (Bosc): Dual Spermatophores and Male ForewingsEthology 114: 1173–1182.

– – –

*Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 2.5 Genérica.

**Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 2.0 Genérica.

Deixe um comentário

Arquivado em Entomologia, Sexta Selvagem