Sexta Selvagem: Pulga-da-Praia-da-Califórnia

por Piter Kehoma Boll

Se você está andando pela praia na costa oeste dos Estados Unidos, especialmente à noite, pequenas criaturas podem pular em torno de seus pés. Se você olhar mais de perto, notará que são pequenos crustáceos popularmente conhecidos como pulgas-da-praia.. Eles pertencem à ordem Amphipoda e há uma boa chance de que aqueles entre os quais você caminha pertençam à espécie Megalorchestia californiana, popularmente conhecida como pulga-da-praia-da-Califórnia.

Uma fêmea na Califórnia. Foto do usuário lbyrley do iNaturalist.*

A pulga-da-praia-da-Califórnia ocorre do extremo sul do litoral do Canadá, perto da Ilha Vancouver, até a costa sul dos Estados Unidos, por volta de Laguna Beach. Elas são muito grandes para um anfípode, atingindo mais de 2 cm de comprimento, e possuem uma cor “crustácea” típica variando de marrom-claro a acinzentado. Os machos são ligeiramente maiores que as fêmeas e possuem o segundo par de antenas aumentado e com uma característica cor vermelha.

Um macho na Califórnia mostrando as antenas vermelhas aumentadas e os gnatópodes aumentados em forma de luvas de boxe. Foto de Kim Cabrera.*

Durante o dia, a pulga-da-praia-da-Califórnia se mantém dentro de pequenas tocas que cava na areia ou se esconde sob pedaços de algas que a maré trouxe para a praia. Fêmeas podem dividir o mesmo abrigo, mas os machos não suportam um ao outro. Ao anoitecer, elas saem de seus abrigos aos milhares e se movem sobre a areia procurando por matéria orgânica em decomposição da qual se alimentam.

Várias fêmeas tentando compartilhar o mesmo abrigo no Oregon, EUA. Foto de Ken Chamberlain.*

O dimorfismo sexual visto nessa espécie revela um comportamento sexual complexo. As antenas aumentadas dos machos parecem ser um sinal visual para outros machos que avisa sobre sua força. Além dessas antenas aumentadas, os machos também possuem o segundo par de gnatópodes ou maxilípedes (patas logo atrás da boca) parecendo um par de luvas de boxe. Usando os gnatópodes, os machos lutam entre si pela posse de tocas contendo muitas fêmeas. O macho que vence a luta se torna o dono do harém.

Um macho em Washington tentando invadir a toca de outro macho (cujas antenas são visíveis). Foto do usuário pushtheriver do iNaturalist.*

Como tanto machos quanto fêmeas saem de suas tocas à noite para se alimentarem, os haréns também podem ser temporários. Apesar de um macho poder conquistar uma toca cheia de fêmeas, elas só retornarão para o mesmo lugar se considerarem que o macho é bom o bastante para ser o pai de seus filhos. Isso é assim porque as fêmeas só se reproduzem uma vez na vida, então é crucial deixar o melhor macho fertilizá-las. Mais do que isso, as fêmeas só conseguem liberar os ovos logo depois de fazerem uma muda porque o exoesqueleto endurecido impede a postura durante o resto da vida.

Não é fácil ser uma pulga-da-praia vivendo na Califórnia.

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Referências:

Beermann J, Dick TA, Thiel M (2015) Social Recognition in Amphipods: An Overview. In: Aquiloni L, Tricarico E (Eds.) Social Recognition in Invertebrates: 85–100.

Iyengar VK, Starks BD (2008) Sexual selection in harems: male competition plays a larger role than female choice in an amphipod. Behavioral Ecology 19(3): 642–649. doi: 10.1093/beheco/arn009

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Sexta Selvagem: Mariposa-Leopardo

por Piter Kehoma Boll

Eu cresci numa casa com um quintal grande cheio de árvores e outras plantas perto de vários pequenos fragmentos florestais. Como resultado disso, mariposas sempre foram visitantes muito comuns à noite, especialmente durante os meses mais quentes. Uma que sempre chamou minha atenção é uma mariposa com um belo padrão nas asas.

Esta é a bela mariposa que chamou minha atenção quando criança. Este espécime foi fotografado no estado do Rio Grande do Sul, Brasil, perto de onde cresci. Foto de Jhonatan Santos.*

Apenas recentemente descobri que seu nome é Pantherodes pardalaria, chamada apropriadamente de mariposa-leopardo. Suas asas possuem um fundo amarelo marcado com várias manchas cinza-metálicas com um contorno preto e um centro preto. Realmente lindo! Um padrão similar é encontrado em todas as espécies do gênero Pantherodes, sendo esta a característica que mais claramente define o gênero.

Mariposa-leopardo na Bolívia. Foto do usuário shirdipam do iNaturalist.*

A mariposa-leopardo ocorre do México até a Argentina e é muito comum no sul do Brasil. Ela pertence a uma das famílias mais diversas de mariposas, Geometridae, caracterizada pela lagarta, chamada mede-palmo, que caminha como se estivesse medindo o chão, de onde o nome Geometridae (a partir do gênero-tipo Geometra, “medidora da terra”).

Mariposa-leopardo no sul do México. Foto de Roberto Pacheco García.*

Não fui capaz de encontrar muita informação sobre a mariposa-leopardo, no entanto. Suas lagartas parecem se alimentar de urtigas (família Urticaceae). No México, as lagartas desta espécie eram historicamente ingeridas como alimento pelos astecas e consideradas um alimento de grande valor, e a prática pode ainda acontecer em alguns grupos humanos.

E isso é tudo que eu consegui. Apesar de ser linda e facilmente notada, a mariposa-leopardo é mais uma espécie pouco conhecida.

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Mais borboletas e mariposas:

Sexta Selvagem: Borboleta-88 (em 7 de setembro de 2012)

Sexta Selvagem: Pingos-de-prata (em 15 de abril de 2016)

Sexta Selvagem: Zigena-de-seis-pontos (em 26 de agosto de 2016)

Sexta Selvagem: Mariposa-luna (em 12 de julho de 2019)

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Referências:

Biezanko CM, Ruffinelli A, Link D (1974) Plantas y otras sustancias alimenticias de las orugas de los lepidopteros uruguayos. Revista do Centro de Ciências Rurais 4(2): 107–148.

Pitkin LM (2002) Neotropical ennomine moths: a review of the genera (Lepidoptera: Geometridae). Zoological Journal of the Linnean Society 135(2–3): 121–401. doi: 10.1046/j.1096-3642.2002.00012.x

Ramos-Elorduy J, Moreno JMP, Vázquez AI, Landero I, Oliva-Rivera H, Camacho VHM (2011) Edible Lepidoptera in Mexico: Geographic distribution, ethnicity, economic and nutritional importance for rural people. Journal of Ethnobiology and Ethnomedicine 7: 2. doi: 10.1186/1746-4269-7-2

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Sexta Selvagem: Besouro-Tartaruga-Manchado

por Piter Kehoma Boll

É finalmente hora de apresentar outro besouro e eu decidi seguir com um membro da família Chrysomelidae, uma das mais diversas e importantes no mundo. A espécie escolhida, Aspidimorpha miliaris, é comumente conhecida como o besouro-tartaruga-manchado.

Um besouro-tartaruga-manchado em Taiwan. Foto de 羅忠良.*

Nativo da região indo-malaia, o besouro-tartaruga-manchado ocorre da Índia até Taiwan, as Filipinas e a Indonésia. Ele mede 1,5 cm de comprimento e, como de praxe entre besouros-tartarugas, seus élitros (asas frontais enrijecidas) e seu pronoto (a placa dorsal mais anterior do tórax) são alargados e cobrem o corpo todo. Essas estruturas são transparentes e os élitros também possuem muitas manchas pretas. O corpo visto abaixo desta armadura transparente varia de branco a amarelo e laranja.

Um espécime laranja no Nepal. Foto de Sebastian Doak.*

O besouro-tartaruga-manchado chama atenção não só por suas cores lindas, mas também porque suas larvas se alimentam vorazmente de plantas do gênero Ipomoea e outros gêneros aparentados, o que inclui, entre outras plantas, a batata-doce. Por seu hábitat ser próximo do equador, o besouro-tartaruga-manchado é capaz de se reproduzir durante o ano inteiro, apesar de seu pico de abundância ser lá por junho.

Um grupo de larvas comendo uma folha de Ipomoea em Taiwan. Foto de 利承拔.*

Os ovos eclodem cerca de 10 dias após serem postos pela fêmea e as larvas passam por cinco ínstares durante um período de 18 a 22 dias, após os quais sofrem uma muda e se tornam uma pupa que, cerca de uma semana depois, vira um adulto. As larvas vivem em grupos e possuem um corpo pálido marcado por manchas pretas no lado dorsal da maioria dos segmentos. Também há algumas projeções espinhosas correndo ao longo das margens do corpo.

Um besouro-tartaruga-manchado em Cingapura. Foto de Soh Kam Yung.*

Devido ao status do besouro-tartaruga-manchado como praga em plantações de batata-doce, formas biológicas de controlá-lo vêm sendo estudadas e incluem o uso de extratos de folhas como pesticidas e vespas parasitoides como predadores dos ovos. Por outro lado, o próprio besouro poderia ser usado como um agente eficiente para controlar a dispersão de algumas espécies invasoras de Ipomoea.

É assim que a natureza age. Seu inimigo de um lado pode ser seu amigo do outro.

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Mais besouros:

Sexta Selvagem: Besouro-guitarrista (em 22 de fevereiro de 2013)

Sexta Selvagem: Besouro-castanho (em 6 de fevereiro de 2015)

Sexta Selvagem: Gorgulho-girafa (em 20 de maio de 2016)

Sexta Selvagem: Besouro-de-Hitler (em 17 de junho de 2016)

Sexta-Selvagem: Besouro-tigre-verde (em 8 de julho de 2016)

Sexta Selvagem: Besouro-de-casaco-marrom-e-ouro (em 2 de setembro de 2016)

Sexta Selvagem: Besouro-do-sol (em 28 de outubro de 2016)

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Referências:

Bhuiya BA, Miah MI, Ferdous E (2000) Biology of Cassidocida aspidomorphae Crawford (Hymenoptera: Tetracampidae), an egg parasitoid of tortoise beetles. Bangladesh Journal of Entomology 10(1/2): 23–30.

Bhuyan M, Mahanta JJ, Bhattacharyya PR (2008) Biocontrol potential of tortoise beetle (Aspidomorpha miliaris) (Coleoptera: Chrysomelidae) on Ipomoea carnea in Assam, India. Biocontrol Science and Technology 18(9): 941–947. doi: 10.1080/09583150802353705

Nakamura K, Abbas I (1987) Preliminary life table of the spotted tortoise beetle Aspidomorpha miliaris (Coleoptera: Chrysomelidae) in Sumatra. Researches on Population Ecology 29: 229–236.

Oudhia P (2000) Toxic effects of Parthenium leaf extracts on Aspidomorpha miliaris F. and Zonabris pustulata Thunb. Insect Environment 5(4): 168.

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Novas Espécies: Agosto de 2019

por Piter Kehoma Boll

Aqui está uma lista de espécies descritas este mês. Ela certamente não inclui todas as espécies descritas. A maioria das informações vem dos jornais Mycokeys, Phytokeys, Zookeys, Phytotaxa, Mycological Progress, Journal of Eukaryotic Biology, International Journal of Systematic and Evolutionary Biology, Systematic and Applied Microbiology, Zoological Journal of the Linnean Society, PeerJ, Journal of Natural History e PLoS One, além de vários jornais restritos a certos táxons.

Bactérias

Arqueias

SARs

Amentotaxus hekouensis é um novo teixo da China, do Vietnã e do Laos. Créditos a Gao et al. (2019).*

Plantas

Isotrema sanyaense é uma nova angiosperma da China. Créditos a Li et al. (2019).*
Disporum nanchuanense é outra nova angiosperma da China. Créditos a Zhu et al. (2019).*
Lysimachia fanii é mais uma nova angiosperma da China. Créditos a Huang et al. (2019).*
Primula dongchuanensis é ainda mais uma nova angiosperma da China. Créditos a Wu et al. (2019).*

Amoebozoans

Fungos

Camarophyllopsis olivaceogrisea (acima) e Hodophilus glaberripes (abaixo) são dois novos cogumelos da China. Créditos a Zhang et al. (2019).*

Poríferos

Bunga payung é um novo coral da Malásia. Créditos a Lau & Reimer (2019).*

Cnidários

Platelmintos

Matuxia tymbyra é uma nova planária terrestre do Brasil. Foto de Piter Kehoma Boll.*

Anelídeos

Moluscos

Sinoxychilus melanoleucus é um novo caracol da China. Créditos a Wu & Liu (2019).*

Nematódeos

Aracnídeos

Miriápodes

Mediapotamon liboense é um novo caranguejo da China. Créditos a Wang et al. (2019).*

Crustáceos

Oligoneuriella tuberculata é uma nova efêmera do Irã. Créditos a Sroka et al. (2019).*

Hexápodes

Dryinus georgianus é uma nova vespa dos Estados Unidos. Créditos a Speranza et al. (2019).*
Aedes amateuri é um novo mosquito do México. Créditos a Ortega-Morales et al. (2019).*

Equinodermos

Actinopterígios

Eigenmannia sirius é um novo peixe do Brasil. Créditos a Peixoto & Ohara (2019).*

Anfíbios

Takydromus yunkaiensis é um novo lagarto da China. Créditos a Wang et al. (2019).*

Répteis

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Sexta Selvagem: Pseudoescorpião-Doméstico

por Piter Kehoma Boll

Aranhas, ácaros, opiliões e escorpiões são os aracnídeos mais bem conhecidos pelo público. No entanto outro grupo que possui muitas espécies, até mais que o dos escorpiões, é o dos pseudoescorpiões. Há uma boa chance de que alguns deles vivam bem próximos a você, especialmente se você pensar no Chelifer cancroides, o pseudoescorpião-doméstico.

Um pseudoescorpião-doméstico fotografado perto de Toronto, Canada. Foto de Ryan Hodnett.*

O nome pseudoescorpião vem do fato de estes aracnídeos se assemelharem a escorpiões, exceto pela ausência da cauda. Eles também são muito menores. O pseudoescorpião-doméstico é marrom e mede apenas cerca de 0,5 cm de comprimento e, como seu nome sugere, vive em residências humanas.

Pseudoscorpiões-domésticos machos defendem um pequeno território com um raio de apenas alguns centímetros. Eles permitem que fêmeas entrem no território e, durante o período de acasalamento, começam o comportamento de corte pelo qual iniciam uma dança que conduz a fêmea ao saco de esperma (espermatóforo) depositado no substrato. As fêmeas pegam o espermatóforo com seu orifício genital e usam o esperma para fertilizarem seus ovos.

Um gordão, provavelmente uma fêmea grávida, em Leibniz, Áustria. Foto de Gernot Kunz.**

Quando os ovos são postos, eles permanecem presos ao poro genital da fêmea e são cobertos coletivamente por uma membrana. Quando os filhotes eclodem dos ovos, eles ainda são larvas e permanecem dentro do saco formado pela membrana cobrindo os ovos. A fêmea então secreta uma substância parecida com leite de seu útero e as larvas se alimentam dela. Após sofrerem a primeira muda, as larvas, agora ninfas de primeiro ínstar, deixam a mãe e, após mais três mudas, atingem o estágio adulto.

Fêmea se alimentando de um ácaro. Foto de Roland Sachs.*

Apesar de poder passar despercebido na maioria das vezes, o pseudoescorpião-doméstico é uma espécie cosmopolita e comum, vivendo perto e dentro de casas. Seus pedipalpos, que se assemelham àqueles dos escorpiões, são muito longos e atingem quase 1 cm de comprimento quando estendidos. Como a maioria dos aracnídeos, eles são predadores e sua presença em habitações humanas pode ser bem útil pois eles se alimentam de criaturas menores e incômodas, como ácaros, percevejos e piolhos-dos-livros.

Se você encontrar um em sua casa, seja gentil e o agradeça pelo seu serviço.

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Referências:

Harvey MS (2014) A review and redescription of the cosmopolitan pseudoscorpion Chelifer cancroides (Pseudoscorpiones: Cheliferidae). Journal of Arachnology 42: 86–104.

Levi HW (1948) Notes on the life history of the pseudoscorpion Chelifer cancroides (Linn.) (Chelonethida). Transactions of the American Microscopical Society 67(3): 290–298. doi: 10.2307/3223197

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Sexta Selvagem: Soldadinho-Chifrudo-da-Acácia

por Piter Kehoma Boll

Semana passada apresentei uma bela acácia australiana, a acácia-dourada, então hoje decidi apresentar uma pequena criatura que vive em seus ramos. Chamado Sextius virescens, este inseto é comumente conhecido como soldadinho-chifrudo-da-acácia (tradução do nome em inglês: wattle horned treehopper) ou simplesmente soldadinho-verde. Ele é membro da ordem Hemiptera e da família Membracidae, comumente conhecidos como soldadinhos, sendo proximamente relacionados a cigarras e cigarrinhas.

Um soldadinho-chifrudo-da-acácia sobre uma acácia-dourada em Brisbane, Austrália. Foto de Jenny Thyne.*

O corpo do soldadinho-chifrudo-da-acácia mede cerca de 1 cm de comprimento e é em sua maioria verde, mas as pernas são marrons. Também há duas projeções em forma de chifres no tórax que possuem uma cor de marrom a negro e outra extensão longa do tórax que fica deitada sobre o abdome. O soldadinho-chifrudo-da-acácia vive em grupos nos ramos de acácias e os indivíduos costumam se posicionar alinhados sobre os ramos.

Um soldadinho-chifrudo-da-acácia perto de Melbourne. Foto de Andrew Allen.**

Como todos os soldadinhos, o soldadinho-chifrudo-da-acácia se alimenta da seiva das plantas nas quais vive, sugando-a com suas peças bucais adaptadas. Eles excretam um líquido doce chamado melada que atrai formigas. Tais formigas geralmente se alimentam do néctar produzido pelos nectário extraflorais da acácia e defendem a planta contra herbívoros. Contudo os soldadinhos-chifrudos-da-acácia fazem as formigas dedicarem sua atenção a eles ao invés da planta. Deliciadas pela melada, as formigas param de defender a planta e passam a defender os soldadinhos, o que não é nem um pouco bom para a planta.

Formigas coletando melada de soldadinhos-chifrudos-da-acácia no leste da Austrália. Foto do usuário fruitbat do iNaturalist.*

Mas assim é a natureza. Uma criatura sempre tentando explorar as relações entre outras criaturas para tirar o melhor proveito para si.

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Referências:

Buckley R (1983) Interaction between ants and membracid bugs decreases growth and seed set of host plant bearing extrafloral nectaries. Oecologia 58: 132–136.

Museums Victoria Sciences Staff (2017) Sextius virescens Green Treehopper in Museums Victoria Collections. Disponível em <https://collections.museumvictoria.com.au/species/8561>. Acesso em 10 de agosto de 2019.

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A comunidade de planárias terrestres da FLONA-SFP e como elas conseguem conviver

por Piter Kehoma Boll

(Em primeiro lugar, eu gostaria que fosse o Bolsonaro, aquele pedaço de câncer em forma de diarreia, que estivesse morrendo queimado no lugar da Floresta Amazônica.)

(Agora vamos à postagem em si:)

A Floresta Nacional de São Francisco de Paula (FLONA-SFP) é uma unidade de conservação para uso sustentável no sul do Brasil. Ela era originalmente coberta de floresta de araucária, mas atualmente é composta de um mosaico de floresta nativa e plantações de árvores dos gêneros Araucaria, Pinus e Eucalyptus. Esta área de proteção é uma das principais áreas de estudo do Instituto de Pesquisas de Planárias da Unisinos, onde conduzi minhas pesquisas de iniciação científica, mestrado e doutorado.

Após estudarmos a comunidade de planárias terrestres da FLONA-SFP por muitos anos, concluímos que ela inclui um número consideravelmente alto de espécies. Dê uma olhada em algumas delas e como são legais:

Obama ladislavii, a planária-folha-de-Ladislau. Foto de Piter Kehoma Boll.*
Obama anthropophila, a planária-folha-urbana-marrom. Foto de Piter Kehoma Boll.*
Obama josefi, a planária-foolha-de-Josef. Foto de Piter Kehoma Boll.*
Obama ficki, a planária-folha-de-Fick. Foto de Piter Kehoma Boll.
Obama maculipunctata, a planária-folha-manchada-e-pintada. Foto de Piter Kehoma Boll.*
Cratera ochra, a planária-cratera-ocre. Foto de Piter Kehoma Boll.*
Luteostriata arturi, a planária-amarela-listrada-de-Artur. Créditos ao Instituto de Pesquisas de Planárias, Unisinos.**
Luteostriata ceciliae, a planária-amarela-listrada-de-Cecília. Foto de Piter Kehoma Boll.*
Luteostriata pseudoceciliae, a falsa-planária-amarela-listrada-de-Cecília. Créditos ao Instituto de Pesquisas de Planárias, Unisinos.**
Luteostriata ernesti, a planária-amarela-listrada-de-Ernst. Foto de Piter Kehoma Boll.*
Luteostriata graffi, a planária-amarela-listrada-de-Graff. Foto de Piter Kehoma Boll.*
Supramontana irritata, a planária-amarelada-irritada. Foto de Piter Kehoma Boll.*
Pasipha backesi, a planária-brilhante-de-Backes. Foto de Piter Kehoma Boll.*
Pasipha brevilineata, a planária-brilhante-de-linha-curta. Foto de Piter Kehoma Boll.*
Matuxia tymbyra, a planária-tupi-enterrada. Foto de Piter Kehoma Boll.*
Choeradoplana iheringi, a planária-de-pescoço-inchado-de-Ihering. Foto de Piter Kehoma Boll.*
Choeradoplana benyai, a planária-de-pescoço-inchado-de-Benya. Foto de Piter Kehoma Boll.*
Choeradoplana minima, a planária-de-pescoço-inchado-menor. Foto de Piter Kehoma Boll.*
Cephaloflexa araucariana, a planária-de-cabeça-virada-das-araucárias. Foto de Piter Kehoma Boll.*
Paraba franciscana, a planária-colorida-franciscana. Foto de Piter Kehoma Boll.*
Paraba rubidolineata, a planária-colorida-de-linha-vermelha. Créditos ao Instituto de Pesquisas de Planárias, Unisinos.**
Imbira guaiana, a planária-tira-de-casca-caingangue. Foto de Piter Kehoma Boll.*

As planárias terrestres vivem na serapilheira do solo de florestas e predam outros invertebrados. As 22 espécies mostradas acima são aquelas encontradas na FLONA-SFP que estão formalmente descritas, mas há ainda algumas esperando uma descrição. Poderíamos dizer que há pelo menos 30 espécies diferentes coexistindo nessa unidade de conservação.

Como todas elas conseguem persistir juntas? Não existe nenhum tipo de competição por alimento? Pensando nisso, eu conduzi minha pesquisa de mestrado investigando a dieta dessas e de outras planárias terrestres. Meus resultados sugerem que, apesar de algumas espécies compartilharem muitos itens alimentares, a maioria possui um alimento preferido ou um item alimentar exclusivo que poderia ser considerado o que Reynoldson e Pierce (1979) chamaram de “refúgio alimentar”.

Aqui está o que conhecemos sobre as espécies da FLONA-SFP até agora:

  • Obama ficki se alimenta de lesmas e caracóis e parece preferir lesmas grandes;
  • Obama ladislavii se alimenta de lesmas e caracóis e parece preferir caracóis;
  • Obama maculipunctata se alimenta de lesmas e caracóis com preferência desconhecida;
  • Obama anthropophila se alimenta de lesmas, caracóis e outras planárias terrestres, especialmente do gênero Luteostriata, e prefere as últimas;
  • Obama josefi aparentemente se alimenta apenas de outras planárias terrestres;
  • Todas as espécies de Luteostriata se alimentam exclusivamente de tatuzinhos-de-jardim;
  • Espécies de Choeradoplana aparentemente se alimentam de tatuzinhos-de-jardim e de opiliões;
  • Cephaloflexa araucariana aparentemente se alimenta de opiliões;
Obama ladislavii capturando uma lesma. Foto de Piter Kehoma Boll.*

A dieta das outras espécies é ainda completamente desconhecida, mas, baseado em outras espécies dos mesmos gêneros, é provável que espécies de Pasipha se alimentem de milípedes, espécies de Paraba se alimentem de lesmas e planárias, e Imbira guaiana se alimente de minhocas.

Luteostriata ernesti perto de alguns tatuzinhos-de-jardim suculentos. Foto de Piter Kehoma Boll.*

Há um grande número de diferentes grupos de invertebrados que compartilham a serapilheira com as planárias terrestres. Apesar da anatomia aparentemente simples destes platelmintos, eles são capazes de se adaptarem para se alimentarem de diferentes tipos de presas e possuem adaptações musculares e faríngeas para isso. Uma tentativa de relacionar adaptações anatômicas à dieta de planárias terrestres foi parte da minha pesquisa de doutorado. Assim que for publicada, farei uma postagem a respeito. Há alguns resultados interessantes!

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Mais sobre planárias terrestres:

Sexta Selvagem: Planária-amarela-listrada-abundante

Sexta Selvagem: Planária-de-Ladislau

A Planaria elegans de Darwin: escondida, extinta ou mal identificada?

Obama invade a Europa: “Yes, we can!”

A fabulosa aventura taxonômica do gênero Geoplana

Planárias cabeça-de-martelo: outrora uma bagunça, agora uma bagunça ainda maior

A planária-da-Nova-Guiné visita a França: uma ameaça

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Referências:

Boll PK & Leal-Zanchet AM 2015. Predation on invasive land gastropods by a Neotropical land planarian. J. Nat. Hist. 49: 983–994.

Boll PK & Leal-Zanchet AM 2016. Preference for different prey allows the coexistence of several land planarians in areas of the Atlantic Forest. Zoology 119: 162–168.

Leal-Zanchet AM & Carbayo F 2000. Fauna de Planárias Terrestres (Platyhelminthes, Tricladida, Terricola) da Floresta Nacional de São Francisco de Paula, RS, Brasil: uma análise preliminar. Acta Biologica Leopoldensia 22: 19–25.

Oliveira SM, Boll PK, Baptista V dos A, & Leal-Zanchet AM 2014. Effects of pine invasion on land planarian communities in an area covered by Araucaria moist forest. Zool. Stud. 53: 19.

Reynoldson TB & Piearce B 1979. Predation on snails by three species of triclad and its bearing on the distribution of Planaria torva in Britain. Journal of Zoology 189: 459–484.

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