Arquivo do mês: julho 2014

A abelha poliglota

por Piter Kehoma Boll

ResearchBlogging.orgComunicação é essencial para humanos, e também é para outros animais que vivem em grupos. Um fato interessante é que, mesmo que humanos modernos somente tenham surgido cerca de 200 mil anos atrás, o número de línguas que evoluíram em nossa espécie desde então é  enorme. E duas pessoas falando línguas diferentes geralmente não conseguem se entender. Mesmo gestos manuais, como o sinal significando “vem cá”, é bem diferente entre culturas. A maior parte de nossa comunicação não é herdada, mas aprendida.

Três maneiras diferentes de dizer "vem cá" com gestos. As duas primeiras são ocidentais e a última é oriental. Fotos tiradas de forum.onverse.com (esquerda), scmorgan.com (centro) and japanpowered.com (direita).

Três maneiras diferentes de dizer “vem cá” com gestos. As duas primeiras são ocidentais e a última é oriental. Fotos tiradas de forum.onverse.com (esquerda), scmorgan.com (centro) and japanpowered.com (direita).

Mas e quanto à comunicação em outros animais? É possível que línguas diferentes evoluam em populações separadas de forma que um grupo não possa entender o que o outro está dizendo?

Uma forma de comunicação bem conhecida e bem estudada em animais é a dança das abelhas, usada por abelhas para indicar a localização de uma fonte de alimento a outras. Esta dança informa a direção e a distância de uma fonte de comida a partir da colmeia de maneira a guiar outras abelhas para o local certo.

Esquema da dança das abelhas. Imagem pelo usuário Audriusa*, do Wikimedia Commons.

Esquema da dança das abelhas. Imagem pelo usuário Audriusa*, do Wikimedia Commons.

Basicamente, o que a abelha faz é se mover em um trajeto formando uma figura em forma de 8. O ângulo da dança em relação à orientação da colmeia indica o ângulo da fonte de alimento em relação ao sol. A parte média da dança, que representa a parte onde os dois laços do 8 se sobrepõem, é feita com uma sacudida frenética. A duração dessa parte sacudida da dança informa a distância  da fonte de alimento da colmeia.

Há muitas subespécies de abelhas e a dança pode ter se tornado diferente em cada uma delas por evolução, criando diferentes línguas ou dialetos de dança. É difícil, no entanto, comparar esses dialetos porque eles podem ser ajustados a diferentes condições do ambiente, de forma que duas colmeias precisam estar nas exatas mesmas condições para serem comparadas. A melhor maneira de comparar diferenças seria criando duas espécies diferentes de abelhas na mesma colmeia. Mas isso é difícil porque abelhas tendem a atacar estranhos por eles serem facilmente identificáveis pelo cheiro.

Ainda assim, após algumas tentativas, um grupo de cientistas da universidade de Zhejiang na China foi capaz de criar algumas colmeias mistas de abelhas-europeias (Apis mellifera ligustica) e abelhas-asiáticas (Apis cerana cerana).. Eles observaram o comportamento de indivíduos de ambas as espécies na colmeia de maneira a encontrar diferenças em suas danças e como elas se comunicavam entre si.

Apis cerana cerana (esquerda) e Apis mellifera ligustica (direita). Fotos pelo usuário Viriditas*, do Wikimedia Commons (esquerda), e por Charles Lamm** (direita). Extraídas de commons.wikimedia.org

Apis cerana cerana (esquerda) e Apis mellifera ligustica (direita). Fotos pelo usuário Viriditas*, do Wikimedia Commons (esquerda), e por Charles Lamm** (direita). Extraídas de commons.wikimedia.org

Os resultados foram muito interessantes. As danças eram consideravelmente diferentes para cada espécie, mas as abelhas retiveram parte de sua dança original nas colmeias mistas e alteraram outra parte. Não houve diferença em comunicar a direção do alimento entre espécies criadas na colmeia mista, mas abelhas-asiáticas mostraram uma sacudida de dureção mais longa que abelhas-europeias para informar a mesma distância. Apesar disso, ambas as espécies foram capazes de entender a dança de indivíduos da outra espécie e chegar à fonte de alimento sem problemas. Mesmo quando outra fonte de comida na mesma direção estava mais próxima da colmeia, as abelhas escolhiam a fonte mais distante informada na dança.

Parece então que abelhas são excelentes em entender línguas estrangeiras, mas não tão boas em “falá-las”. Elas ficam com um forte sotaque, mas são capazes de se entender de qualquer forma.

Além disso, apesar de se estimar que abelhas-europeias e abelhas-asiáticas tenham se divergido há mais de seis milhões de anos, elas ainda conseguem se entender. Isso indica que a dança é um comportamento bastante conservado.

A dança parece ter uma possível parte genética, como a duração das sacudidas, visto que ela não foi afetada pelo ambiente misto. Mas ele também possui uma parte aprendida, como a informação sobre a direção da comida.

Tais resultados levantam boas questões e indicam um caminho a seguir para estudar e entender melhor o aprendizado social, isto é, aprendizado por informações adquiridas e outros indivíduos e não por experiência pessoal.

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Referências:

Su, S.; Cai, F.; Si, A.; Zhang, S.; Tautz, J. & Chen, S. 2008. East Learns from West: Asiatic Honeybees Can Understand Dance Language of European Honeybees PLoS ONE, 3 (6) DOI: 10.1371/journal.pone.0002365

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Elefantes não se divertem pintando

por Piter Kehoma Boll

ResearchBlogging.orgElefantes são considerados animais de inteligência elevada, com alta complexidade social, capazes de resolver problemas, usar ferramentas, ter empatia e reconhecer a si mesmos. Além disso, é claro, possuem uma memória surpreendente.

Quando em cativeiro, elefantes tendem a ficar estressados e entediados, o que leva muitos estabelecimentos que os possuem a desenvolver programas de atividades específicas de enriquecimento para melhorar o bem-estar destes animais.

Uma das atividades comumente usadas é a pintura, onde os elefantes pintam telas enquanto seguram um pincel com suas trombas. Apesar de esta e outras atividades geralmente serem consideradas redutoras de estresse nesses animais, não há muitos estudos rigorosos testando tal suposição.

Um elefante pintando no Zoológico de Melbourne. Foto do artigo original por English et al., 2014.

Um elefante pintando no Zoológico de Melbourne. Foto do artigo original por English et al., 2014.

Um grupo de pesquisadores da Universidade de New England, na Austrália, decidiu então testar os efeitos das atividades de pintura sobre elefantes em cativeiro. Para isso, foram utilizados quatro elefantes-asiáticos do zoológico de Melbourne envolvidos na atividade de pintura.

Dos quatro elefantes, dois eram diariamente levados para a área de pintura, onde um recebia comida e o outro pintava. As sessões de pintura duravam menos de cinco minutos.

O comportamento dos elefantes foi monitorado algumas horas antes e algumas horas depois das sessões de pintura e divididos em três situações: (1) dias em que o elefante pintou, (2) dias em que o elefante não pintou, mas outros pintaram, e (3) dias em que nenhum elefante pintou.

Os resultados finais demonstraram que as sessões de pintura não alteraram significativamente o comportamento dos elefantes. Não houve evidências de redução nos níveis de estresse dos animais nos dias em que estes foram submetidos às sessões de pintura. Mesmo durante as sessões, pelo menos dois dos elefantes não pareciam muito interessados, prestando mais atenção no treinador do que na tela.

Conclui-se então que pintar quadros não altera o humor de elefantes e a atividade tem somente o propósito de entreter o público e arrecadar fundos às instituições com suas vendas. Os elefantes continuam tão entediados quanto sempre estiveram em cativeiro.

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Referência:

English, M.; Kaplan, G. & Rogers, L. 2014. Is painting by elephants in zoos as enriching as we are led to believe? PeerJ, 2 DOI: 10.7717/peerj.471

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Túnel do Tempo #1: Evolução – O Jogo da Vida

por Carlos Augusto Chamarelli

Olá pessoal, PK aqui como de costume. Hoje apresentarei o primeiro dos artigos do Túnel do Tempo, onde relembraremos algumas das obras multimídias que vimos publicadas no Brasil e no mundo, incluindo jogos, filmes, documentários, livros, revistas, programas de computador ou qualquer outra coisa relacionada às ciências biológicas ou gerais, nos influenciando e dando asas à nossa imaginação, e claro, nos entretendo enquanto o fazem.

Nosso primeiro item do Túnel do Tempo será o jogo primariamente responsável pelo meu interesse na história da Terra e a evolução dos seres vivos: Evolução – O Jogo da Vida. Inicialmente desenvolvida pela Crossover Technologies e a Discovery Multimedia em 1997 sob o nome “Evolution – The Game of Intelligent Life”, foi lançado no Brasil, no ano seguinte, pelo Globo Multimídia, totalmente traduzido em português. Até hoje eu me recordo do dia em que eu vi sua peculiar caixa numa loja de informática no Shopping Nova América, hoje em dia uma loja de roupas, com blusas feiosas no lugar onde uma vez sua nobre caixa esteve.

Se ao menos fosse uma blusa com essa imagem talvez até salvaria.

Se ao menos fosse uma blusa com essa imagem talvez até salvaria.

O jogo é um misto de simulação com estratégia, e os jogadores têm a opção de escolher jogar na Terra histórica ou num mundo gerado aleatoriamente, além de poder escolher sua duração, tendo opções para só alguns períodos ou para a história completa dos vertebrados terrestres, de tetrápodes primitivos há 360 milhões de anos até o aparecimento de espécies inteligentes – o objetivo final do jogo – com um segundo representado cerca de 30 mil anos.

Poucas pessoas sabem mas os dinossauros apareceram no início do Permiano e sobreviveram até os dias de hoje na África. Pelo menos assim nos ensina Evolução.

Poucas pessoas sabem mas os dinossauros apareceram no início do Permiano e sobreviveram até os dias de hoje na África. Pelo menos assim nos ensina Evolução.

Há cerca de 170 espécies animais, incluindo tanto espécies famosas como o mamute lanoso e o Tiranossauro, quanto outras – na época em que foi lançado – pouco conhecidas, como o Indricotherium e o Ventastega. Há também espécies inteligentes além do Homo sapiens, inventadas pelos desenvolvedores para oferecer uma maior variedade e explorar possibilidades, tal como o Elephasapiens, um elefante inteligente, e o Saurosapiens, evoluídos de dinossauros; então não apenas esse jogo influenciou-me quanto à idéia geral da evolução, também foi de certa forma meu primeiro contato com evolução especulativa. Há também o Bestiário, a enciclopédia do jogo contendo textos informativos sobre cada criatura, além de explicar algumas decisões e explorações de idéias sutilmente introduzidas, tal como sinapisídeos e répteis anapsídeos podendo originar análogos aos dinossauros e a possibilidade de outros animais serem candidatos a originarem espécies inteligentes.

Um dos quais se parece com isso.

Um dos quais se parece com isso.

O jogo pode ser jogado sozinho ou com até 5 oponentes, mas mesmo sozinho o jogo é bem desafiante pois os continentes se movem, o clima muda e os habitats se alteram e você precisa evoluir suas criaturas para outras que consigam acompanhar os tempos – algo que não é tão fácil por vezes, mas quando você faz um Pantylus sobreviver do Carbonífero ao Cenozóico é difícil não sentir orgulho de si mesmo. Cada criatura tem uma época e ambientes específicos em que sobrevivem e se alimentam melhor, então é imperativo que você consiga tomar posse das fontes de alimento antes que seus inimigos o façam. Ao evoluir novas criaturas você deve alocar pontos que determinam o quão rápido você evolui – determinado pelo quão bem a população de criaturas está se alimentando -, o quanto sua alimentação irá melhorar, e quão bem sua criatura ataca ou se defende de outra criatura, este último sendo algo mais importante para partidas com vários jogadores, pois espécies predatórias são sua principal ferramenta para manter o controle de seu território e espantar invasores. Como se não bastasse essa luta pela sobrevivência entre as criaturas, há também os desastres naturais, causando extinções e por vezes alterando o clima global para desafiá-lo ainda mais.

Apesar de aparentemente ainda viverem em pântanos, os saurópodes não arrastam a cauda.

Apesar de aparentemente ainda viverem em pântanos, os saurópodes não arrastam a cauda.

No lançamento brasileiro há de brinde um pôster da Árvore da Vida, contendo todas as criaturas do jogo e suas linhas evolutivas, o que é ótimo e até hoje guardo a minha com muito cuidado para que sobreviva o dia em que eu possa emoldurá-la e pendurar na parede, mas infelizmente faltou o Bestiário do lançamento original, que traz as informações de cada espécie e ilustrações maiores em forma de livro. Mas tudo bem, o pôster já é um ótimo brinde por si só. O manual do jogo também, como era costume dos lançamentos dos anos 90, continha informações adicionais, em especial as notas do designer Greg Costikyan acerca das decisões que tomaram no desenvolvimento do jogo, tal como as limitações da época em que foi feito forçando que a seleção de espécies ter sido rigorosa para que pudesse oferecer uma boa variedade de criaturas interessantes e ainda criar uma árvore evolutiva análoga ao da vida real; tudo isso cabendo num CD.

Embora com jogabilidade de andamento lento – algo que não atrai muita gente que normalmente apenas se interessa com jogos de tiro em primeira pessoa –, é até hoje um dos meus favoritos, apesar de apenas rodar em Windows 98 e anteriores sem o auxílio de alterações. Antes desse jogo meu conhecimento sobre o passado da Terra se limitava a dinossauros e ao que era ensinado na escola sobre a história da humanidade, portanto eu fico feliz de ter assegurado uma cópia da loja virtual do Globo antes dessa fechar e agradeço com toda sinceridade a todos os que foram responsáveis por esse projeto.

 

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