Arquivo da categoria: Comportamento

Mais uma espécie se junta ao Clube das Matadoras de Marido

por Piter Kehoma Boll

Read it in English

Canibalismo sexual é o ato de comer um parceiro sexual logo antes, durante ou logo depois da cópula. Apesar de ser um comportamento consideravelmente raro, sua ocorrência é muito popular entre o público em geral.

Quando canibalismo sexual ocorre, geralmente consiste na fêmea comendo o macho. Dois casos populares são os dos louva-a-deuses e das aranhas, especialmente a viúva-negra. Este fenômeno, ao menos entre viúvas-negras, é muito mais raro do que a maioria das pessoas pensa.

Louva-a-deus-fêmea comento um macho saboroso. Foto de Oliver Koemmerling.*

Apesar de às vezes o canibalismo sexual ocorrer porque um dos parceiros confunde o outro com comida, em muitas espécies é uma estratégia selecionada evolutivamente para assegurar que a fêmea coma o suficiente para a prole se desenvolver adequadamente. Pode parecer horrível do ponto de vista humano, especialmente se pensarmos da perspectiva do macho, mas temos que lembrar que passar os genes para a próxima geração é o principal propósito da maioria dos organismos e, se o macho é bem-sucedido em fertilizar os ovos da fêmea, sua vida serviu seu propósito e ele pode morrer feliz.

Canibalismo sexual é, claro, quase exclusivamente observado entre predadores, o que é um tanto óbvio. E, como eu disse acima, ele é comumente realizado pela fêmea. Um grupo que é famoso por suas espécies com fêmeas empoderadas é a ordem de insetos Hymenoptera, que inclui abelhas, formigas, vespas, moscas-serra, entre outros. Visto que muitos himenópteros apresentam algum grau de socialidade, na qual sociedades são compostas quase exclusivamente por fêmeas, e os machos são gerados apenas para a reprodução, é curioso que canibalismo sexual nunca tenha sido registrado neste grupo… até agora.

Um estudo recentemente publicado examinou o comportamento de acasalamento de uma pequena vespa parasitoide, Gonatopus chilensis. Esta espécie pertence à família Dryinidae, da qual todas as espécies põem os ovos em insetos da subordem Auchenorrhyncha, que inclui cigarras, cigarrinhas, jequitiranaboias, entre outros. As larvas, após eclodirem do ovo, se alimentam do hospedeiro. Fêmeas adultas de vespas driinídeas também são predadores vorazes e se alimentam das mesmas espécies das quais se alimentaram como larvas.

Macho de Gonatopus chilensis (esquerda) inseminando uma fêmea (a), e fêmea comendo um macho (b e c). Extraído de Vira & Espinosa (2019).*

Após a cópula, fêmeas de G. chilensis foram frequentemente observadas tentando capturar os machos da mesmo forma como capturam as presas. Contudo apenas em uma ocasião a fêmea foi bem-sucedida e capturar o macho e comeu seu gáster (a porção grande e arredondada que forma a maior parte do abdome em vespas). Como apenas um evento de canibalismo foi observado, ele pode ser um fenômeno raro nesta espécie, mas como várias tentativas de capturar o macho foram vistas, parece que comer o macho é uma ideia interessante para as fêmeas.

Este é o primeiro caso conhecido de canibalismo sexual em himenópteros e, portanto, um registro importante que aumentou o número de grupos nos quais se sabe que este comportamento ocorre.

– – –

Você também pode gostar:

Fêmeas malvadonas não são populares entre louva-a-deuses

Libélulas machos não são tão violentas quanto se pensava

Ter poucas fêmeas transforma jabutis machos em estupradores

– – –

Curta nossa página no Facebook!

Siga-me (@piterkeo) no Twitter!

– – –

Referência:

Virla EG, Espinosa MS (2019) Observations on the mating behavior of a dryinid and first record of sexual cannibalism in the hymenoptera. Acta Ethologica. doi: 10.1007/s10211-019-00315-9

– – –

*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 3.0 Não Adaptada.

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Comportamento, Entomologia, Evolução

Pegos no flagra: Sexo de insetos preservado em âmbar

por Piter Kehoma Boll

Um artigo publicado recentemente descreve uma nova espécie de inseto da ordem Zoraptera a partir de dois espécimes encontrados em âmbar do Cretáceo médio do norte de Myanmar.

O casal preservado. ELes não deixaram descendentes, mas foram eternizados na ciência. Créditos a Chen & Su (2019).*

Mas a coisa mais impressionante sobre esta nova espécie pré-histórica, chamada Zorotypus pusillus, é o fato de que o fóssil contém um macho e uma fêmea que aparentemente morreram enquanto estavam acasalando. Isso é concluído porque os dois indivíduos estão muito próximos um do outro e o macho possui uma estrutura alongada saindo do seu abdome, o que provavelmente é o edeago ou órgão intromitente, um órgão similar a um pênis encontrado na maioria dos zorápteros e usado para levar o esperma até o interior da fêmea.

Um detalhe da extremidade posterior do macho mostrando o edeago ou órgão intromitente. Uma reconstrução anatômica é mostrada à direita. Cŕeditos a Chen & Su (2019).*

A ordem Zoraptera contém um número muito pequeno de espécies, atualmente 44 vivas e 14 fósseis. Eles são muito pequenos, vivem em grupos e se parecem com minúsculos cupins, apesar de não serem proximamente relacionados a estes. A maioria das espécies atuais acasala com o macho introduzindo o edeago na fêmea para entregar o esperma, mas pelo menos uma espécie, Zorotypus impolitus, não copula. Nesta espécie, o macho deposita espermatóforos microscópicos no abdome da fêmea.

A descoberta do comportamento de acasalamento preservado nesta espécie do Cretáceo indica que o comportamento de acasalamento visto na maioria das espécies vivas já era usado por espécies vivendo 99 milhões de anos atrás. A origem dos zorápteros ainda não é bem conhecida, mas este e outros fósseis indicam que eles existem pelo menos desde o começo do Cretáceo.

– – –

Curta nossa página no Facebook!

Siga-me (@piterkeo) no Twitter!

– – –

Referência:

Chen X, Su G (2019) A new species of Zorotypus (Insecta, Zoraptera, Zorotypidae) and the earliest known suspicious mating behavior of Zorapterans from the mid-cretaceous amber of northern Myanmar. Journal of Zoological Systematics and Evolutionary Research. doi: 10.1111/jzs.12283

– – –

*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição 4.0 Internacional.

Deixe um comentário

Arquivado em Comportamento, Entomologia, Evolução, Paleontologia

Virando padrasto para transar: o incomum cuidado aloparental em uma abelhinha-carpinteira

por Piter Kehoma Boll

Read it in English

Mês passado, fiz alguns comentários sobre cuidado aloparental, isto é, o ato de tomar conta de uma prole que não é sua.

Na maioria das vezes, quando cuidado parental existe numa espécie, ele é realizado somente pela mãe. Quando há um ajudante, ele geralmente é o pai entre vertebrados, ou irmãos entre artrópodes, especialmente entre insetos sociais como abelhas e formigas. Machos tomando conta da prole em insetos sociais é algo improvável de acontecer na maioria das espécies porque o macho geralmente morre logo depois de acasalar.

Contudo uma situação incomum foi recentemente descoberta em Ceratina nigrolabiata, uma espécie de abelha-carpinteira-pequena da região do Mediterrâneo. Nesta espécie, a fêmea é poliândrica, isto é, ela acasala com vários machos, de forma que nem toda a sua prole tem o mesmo pai.

Esta não é a parte incomum, no entanto. O estranho é que machos desta espécie não morrem após acasalarem e ajudam a fêmea a tomar conta da prole. Enquanto a fêmea deixa o ninho para procurar alimento, o macho fica e toma conta dos ovos e das larvas, protegendo-os de inimigos naturais, como formigas. No entanto, como dito acima, as fêmeas desta espécie acasalam com muitos machos, e estudos genéticos revelaram que o macho guardando o ninho é o pai de somente cerca de 10% da prole.

Cuidado parental na abelhinha-carpinteira Ceratina nigrolabiata:
(A) A fêmea chega ao ninho. Um macho está voando por perto, procurando uma “solteirona”
(B) A fêmea cumprimenta seu macho ajudante
(C) Ninho seccionado mostrando três células com larvas/ovos e alimento e uma quarta célula sendo construída; a fêmea está à esquerda e o macho à direita
Créditos a Mikát et al. (2019) (Veja referências)

Então por que machos de Ceratina nigrolabiata cuidam dos filhos de outro macho? O que a equipe estudando este sistema descobriu é que quanto mais tempo o macho toma conta de um ninho, maior é a quantidade da prole que o tem como pai. Em outras palavras, parece que ajudar uma fêmea aumenta as chances de um macho copular com aquela fêmea, assim aumentando o número de descendentes que ele possui. Não obstante, os machos raramente ficavam por muito tempo no mesmo ninho, geralmente se movendo para outro ninho a cada semana mais ou menos, o que não aumenta a quantidade de sua própria prole no ninho.

A equipe também experimentalmente removeu fêmeas dos ninhos para observar como os machos se comportariam na ausência de uma fêmea. O que eles descobriram é que os machos geralmente abandonam o ninho quando isso acontece, não estando nem aí para os pobres bebês. Portanto, é provável que o cuidado aloparental dos machos seja na verdade um sub-produto de guardar a fêmea, isto é, o macho está lá para assegurar que terá acesso à fêmea quando ela estiver disposta a acasalar. Ele não se importa de verdade com os filhotes.

– – –

Curta nossa página no Facebook!

Siga-me (@piterkeo) no Twitter!

– – –

Referência:

Mikát M, Janošik L, Černá K, Matuošková E, Hadrava J, Bureš V, Straka J (2019) Polyandrous bee provides extended offspring care biparentally as an alternative to monandry based eusociality. PNAS 116(13): 6238-6243. doi: 10.1073/pnas.1810092116

Deixe um comentário

Arquivado em Comportamento, Entomologia, Zoologia

Tartarugas-verdes confundem resíduos plásticos com lulas mortas, os comem, e morrem

por Piter Kehoma Boll

Read it in English

Poluição por plástico é um tópico popular recentemente e não é raro encontrar figuras de animais que morreram devido à ingestão de plástico ou outras complicações, como asfixia, causadas por pedaços de plástico. Contudo a causa da ingestão de plástico pela maioria das espécies ainda é desconhecida.

Albatroz com o estômago cheio de peças plásticas.

A tartaruga-de-couro, Dermochelys coriacea, é frequentemente mencionada como uma espécie que sofre pela ingestão de plástico devido a sua dieta ser composta primariamente por águas-vivas, com as quais sacolas plásticas flutuantes podem ser confundidas. Contudo outra tartaruga-marinha de ampla distribuição, a tartaruga-verde, Chelonia mydas, também é uma vítima comum da ingestão de plástico e quantidades tão pequenas quanto 1 g são suficientes para matar espécimes jovens bloqueando seus tratos digestivos. A dieta de tartarugas-verdes jovens e adultas é composta principalmente por ervas-marinhas e algas, de forma que a ingestão de plástico deve ser o resultado de outra causa e não sua similaridade com águas-vivas.

Uma sacola plástica em decomposição no oceano se parece com uma água-viva. Foto do usuário Seegraswise do Wikimedia.*

Apesar de serem quase estritamente herbívoras, tartarugas-verdes ingerem matéria animal quando são muito jovens e podem eventualmente consumir animais como adultas também, provavelmente como uma estratégia para sobreviver quando sua fonte de alimento principal é escassa. A ingestão de matéria animal geralmente acontece pela ingestão de animais mortos e um item animal morto comumente consumido são lulas mortas.

Uma tartaruga-verde rodeada de ervas-marinhas, sua principal fonte de alimento. Foto do usuário Danjgi do Wikimedia.**

Um estudo recente investigou a relação entre o comportamento necrofágico e o consumo de plástico na tartaruga-verde e descobriu que a quantidade de plástico ingerida por indivíduos se alimentando de lulas mortas é muito maior que a ingerida por indivíduos que não apresentam um comportamento necrofágico. No Brasil, a ingestão de plástico é responsável por cerca de 10% das mortes de tartarugas-verdes, mas este número pode chegar a 67% entre tartarugas-verdes que se alimentam de carcaças de lulas.

A ingestão de animais mortos costumava ser uma maneira eficiente de tartarugas-verdes adquirirem grandes porções de proteína. Contudo o fato de, atualmente, a maioria do material flutuante no oceano ser plástico e não animais mortos transformou uma estratégia bem-sucedida numa armadilha mortal. Se os humanos não começarem a controlar a produção de lixo plástico, haverá apenas dois resultados possíveis para as tartarugas-verdes em face a esta nova pressão seletiva: adaptação ou extinção.

– – –

Curta nossa página no Facebook!

Siga-me (@piterkeo) no Twitter!

– – –

Referências:

Andrades R, Santos RA, Martins AS, Teles D, Santos RG (2019) Scavenging as a pathway for plastic ingestion by marine animals. Environmental Pollution 248: 159–165. doi: 10.1016/j.envpol.2019.02.010

Mrosovsky N, Ryan GD, James MC (2009) Leatherback turtles: the menace of plastic. Marine Pollution Bulletin 58(2): 287–289. doi: 10.1016/j.marpolbul.2008.10.018

Santos RG, Andrades R, Boldrini MA, Martins AS (2015) Debris ingestion by juvenile marine turtles: an underestimated problem. Marine Pollution Bulletin 93(1–2): 37–43. doi: 10.1016/j.marpolbul.2015.02.022

– – –

*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 3.0 Não Adaptada.

**Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 4.0 Internacional.

Deixe um comentário

Arquivado em Comportamento, Conservação, Extinção, Poluição, Zoologia

Antidepressivos no esgoto estão desequilibrando teias alimentares

por Piter Kehoma Boll

Read it in English

Esgoto é uma das principais causas de poluição da água em escala global e isso inclui esgoto doméstico. Com o aumento do uso de medicamentos de muitos tipos para tratar uma variedade de problemas de saúde, essas substâncias acabam no esgoto doméstico e, mesmo em locais com tratamento de esgoto, tais drogas não são sempre completamente removidas.

As drogas mais comumente detectadas em ambientes aquáticos incluem antidepressivos. Apesar de ocorrerem em concentrações muito baixas, seus efeitos em organismos são pouco conhecidos.

Um estudo recente investigou como a presença de dois antidepressivos, citalopram (um inibidor seletivo de recaptação de serotonina) e tramadol (um inibidor de recaptação de serotonina e norepinefrina) afetam a atividade predatória de ninfas de libélula da espécie Aeshna cyanea. Os insetos foram expostos a concentrações de cerca de 1 micrograma por litro das substâncias, uma concentração similar à encontrada naturalmente em ambientes afetados por esgotos. Adicionalmente, eles usaram efluentes de estações de tratamento de esgoto que incluíam uma mistura de várias´ drogas em concentrações reais.

Uma ninfa de Aeshna cyanea. Foto de André Karwath.*

Os resultados indicam que ninfas de libélula aumentam a quantidade de tempo que passam procurando alimento na presença dos dois antidepressivos e passam mais tempo manipulando presas, mas sua taxa de alimentação diminuiu, isto é, elas comeram menos que ninfas do grupo controle, isto é, em água sem antidepressivos. Por outro lado, ninfas expostas a efluentes de estações de tratamento de esgoto comeram mais que ninfas do grupo controle. O motivo exato para o efeito oposto causado pelo esgoto normal é desconhecido, mas pode estar relacionado ao efeito combinado de várias drogas.

Apesar de os efeitos não parecerem tão problemáticos a princípio, um aumento ou uma diminuição na taxa de alimentação dos predadores pode desequilibrar a população da presa ao fazê-la aumentar ou diminuir e eventualmente atingir um ponto que leve a um colapso no ecossistema.

– – –

Curta nossa página no Facebook!

Siga-me (@piterkeo) no Twitter!

– – –

Referência:

Bláha M, Grabicova K, Shaliutina O, Kubec J, Randák T, Zlabek V, Buřič M, Veselý L (2019) Foraging behaviour of top predators mediated by pollution of psychoactive pharmaceuticals and effects on ecosystem stability. Science of The Total Environment 662: 655–661.

– – –

*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 2.5 Genérica.

Deixe um comentário

Arquivado em Comportamento, Conservação, Poluição

Ame ao filho do teu próximo: por que alguns animais cuidam dos filhotes de outros?

por Piter Kehoma Boll

Read it in English

Cuidado parental, aqui definido como qualquer comportamento em que um animal toma conta de seus filhotes, é uma prática difundida no reino animal, tendo evoluído repetidamente em muitos táxons. Não é difícil notar, considerando a seleção natural, por que o cuidado parental é um traço adaptativo. Ele aumenta a chance de a prole sobreviver e assim carregar os genes para a próxima geração.

Uma ave alimentando seus bebês. Foto de JJ Harrison.*

Por outro lado, o comportamento relacionado a este e conhecido como cuidado aloparental não é tão fácil de explicar em todas as situações em que ocorre.

Enquanto cuidado parental significa cuidar da sua própria prole, cuidado aloparental significa cuidar da prole de outro indivíduo. Se você gasta tempo e recursos tomando conta de um animal que não é seu descendente direto, você deve ter uma boa razão para fazê-lo, uma razão que de alguma forma te beneficie. Ou você pode apenas ser muito burro.

A maioria dos animais rejeita ou mesmo mata a prole de outros indivíduos da mesma espécie. Um clássico exemplo é um leão macho que mata os filhotes que ele sabe não serem seus. Ele faz isso porque ele não vê vantagem em deixar a prole de outro macho sobreviver.

Um exemplo extremo de cuidado com jovens que não são sua prole direta é encontrado em insetos sociais como abelhas e formigas. Formigas operárias geralmente não reproduzem, mas criam suas irmãs como se fossem suas próprias filhas. Nesse caso, é mais vantajoso fazer irmãos do que fazer filhos por causa do peculiar sistema de reprodução dos himenópteros. Não entrarei em detalhes, mas, basicamente, formigas compartilham 100% do DNA de seu pai e 50% do DNA de sua mãe, de forma que duas formigas irmãs possuem 75% dos genes em comum, enquanto a relação entre uma formiga fêmea e uma prole fêmea é de apenas 50%.

Abelhas ajudam a mãe a criar suas irmãs. Foto do usuário Waugsberg do Wikimedia.*

No entanto cuidado aloparental é encontrado em muitos outros animais, especialmente em mamíferos. Apesar de não terem 75% de similaridade entre irmãos como em formigas, muitos mamíferos e outros animais ajudam suas mães e/ou seus pais a criarem seus irmãos. Isso possui vantagens menos diretas, mas elas ainda estão lá. Afinal, seus irmãos (se eles são da mesma mãe E do mesmo pai) compartilham 50% do seu DNA, a mesma quantidade que você compartilha com seus filhos. Mas cuidado aloparental também pode acontecer com parentes mais distantemente relacionados, como netos ou meios-irmãos, que compartilham somente 25% do DNA com você. Isso não é um problema, no entanto, porque se você não é capaz de ter seus próprios filhos naquele momento, é melhor ajudar a criar aqueles jovens que compartilham algum DNA com você do que não fazer nada, porque 25% dos seus genes ainda é melhor que nada.

Um artigo recentemente publicado reporta a primeira observação de cuidado aloparental em campo no peixe ciclídeo Neolamprologus savoryi. A equipe observeu um peixe macho ajudando a tomar conta dos ovos de outro macho que se descobriu ser seu pai, apesar de a mãe dos ovos não ser sua mãe. O macho ajudante era pequeno e provavelmente sexualmente imaturo, de forma que, como dito acima, ajudar seus meios-irmãos, que possuem 25% de seus genes, a sobreviver é melhor do que não fazer nada.

Um macho imaturo de Neolamprologus savoryi tomando conta dos ovos de seu pais e sua madrasta. Créditos a Josi et al. (2019).

Uma coisa realmente difícil de explicar é por que alguns animais aceitam tomar conta da prole de indivíduos não aparentados, no qual não há uma vantagem adaptativa clara. Uma situação como essa foi descoberta recentemente ocorrendo na lacrainha-comum Forficula auricularia. Fêmeas que tiveram seus ovos substituídos pelos de uma fêmea não relacionada tomaram conta deles como se eles fossem seus próprios. Nenhuma vantagem de qualquer tipo pode ser extraída deste comportamento, de forma que a explicação mais provável é simplesmente a falta de pressão adaptativa para rejeitar ovos não relacionados. É provável que, em condições naturais, uma fêmea de lacrainha nunca encontre ovos de outra fêmea. Desta forma, nunca houve um cenário no qual a capacidade de reconhecer os próprios ovos (e diferenciá-los de outros) pudesse evoluir. A seleção natural precisa de oportunidades para agir.

Forficula auricularia com uma massa de ovos. Foto de Tom Oates.*

– – –

Você também pode gostar de ler:

Endosperma: o pivô do conflito sexual em angiospermas

Sua mãe ama você mais quando ela ama seu pai… se você é um peixe

– – –

Curta nossa página no Facebook!

Siga-me (@piterkeo) no Twitter!

– – –

Referências:

Josi D, Taborsky M, Frommen JG (2019) First field evidence of alloparental egg care in cooperatively breeding fish. Ethology 125(3): 164–169. doi: 10.1111/eth.12838

Royle NJ, Moore AJ (2019) Nature and Nurture in Parental Care. In: Genes and Behaviour, pp. 131–156. John Wiley & Sons, Ltd. doi: 10.1002/9781119313663.ch7

Van Meyel S, Devers S, Meunier J (2019) Love them all: mothers provide care to foreign eggs in the European earwig Forficula auriculariaBehavioral Ecology. doi:10.1093/beheco/arz012

– – –

*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 3.0 Não Adaptada.

1 comentário

Arquivado em Comportamento, Entomologia, Evolução, Peixes

A solidão me fez fêmea: mais sobre o dilema do hermafrodita

por Piter Kehoma Boll

Read it in English

Um tempo atrás eu escrevi sobre os conflitos de organismos hermafroditas quando fazem sexo, isto é, como ambos podem ser o macho e a fêmea ao mesmo tempo, mas isso geralmente não é de interesse deles, especialmente se fazer o papel de fêmea te força a ganhar esperma de baixa qualidade para seus ovos.

Duas lesmas-bananas prontas para copular. Foto de Andy Goryachev.

Mas sexo é geralmente muito mais complexo, e como ele ocorre geralmente é moldado por condições ambientais, especialmente pela presença de competidores. Em espécies dioicas, machos geralmente competem pelas fêmeas, mas existe um comportamento similar aplicado a hermafroditas?

De acordo com a teoria de alocação sexual, organismos hermafroditas têm que escolher quanto eles investem nas funções de macho e fẽmea. Se você produz mais ovos, assim preferindo o lado feminino, acaba produzindo menos esperma e vice versa. Então o que os hermafroditas deveriam fazer?

Às vezes há competição. Foto do usuário Miekemuis do Wikimedia.*

Uma forma de tentar tirar o melhor da situação é alocando recursos para o papel de fêmea ou de macho de acordo com o que te der mais vantagens no cenário atual. Isso seria determinado principalmente pelo número, ou a densidade, de indivíduos na população.

Quando há muitos indivíduos, há muito esperma, e ser capaz de fertilizar os ovos se torna mais difícil. Assim, hermafroditas aumentariam o investimento na função masculina para terem maiores chances contra o esperma dos outros. Em outras palavras, é melhor ser um macho quando há muitos caras em torno de você.

Por outro lado, quando econtrar um parceiro se torna raro, há pouca competição de esperma, então focar em ser fêmea se torna mais vantajoso. Afinal, o pouco esperma que você produz vai ser suficiente para fertilizar os ovos dos outros poucos indivíduos que estão por aí.

A maioria dos estudos procurando por evidências da teoria de alocação sexual encontraram resultados conflitantes. Em muitos organismos, apenas uma das funções sexuais muda de acordo com a densidade populacional, com o número de ovos ou de esperma ficando o mesmo e às vezes ambas as funções aumentam ao mesmo tempo, indo contra a ideia do trade-off que a teoria de alocação sexual prevê.

O problema pode ser simplesmente causado pela forma de olhar as coisas. A maioria dos estudos se focou apenas na produção de gametas, mas sexo é muito mais que isso. Uma parte importante que é negligenciada é o comportamento sexual. De forma a testar se o investimento comportamental pode apresentar diferenças de alocação sexual, um estudo recente comparou o investimento do poliqueto hermafrodita Ophryotrocha diadema em um comportamento relacionado a fêmeas e outro relacionado a machos. De acordo com a hipótese, uma densidade baixa de organismos aumentaria o cuidado parental, um comportamento relacionado a fêmeas, enquanto uma alta densidade de organismos aumentaria a motilidade para encontrar um parceiro, um comportamento relacionado a machos.

Dois indivíduos de Ophryotrocha diadema. As marcas amarelas no de cima são ovos. Foto de Virginia Boutias. Extraído de http://leec.univ-paris13.fr/new/animals_en.html

E a hipótese do estudo estava correta! Vermes mantidos em pares, isto é, com poucas oportunidades de acasalar devido à baixa densidade de indivíduos, se moviam menos, mas tomaram mais conta dos ovos. Por outro lado, vermes mantidos em groups, isto é, com maiores oportunidades de acasalar, se moveram mais e não cuidaram tanto dos ovos.

Mais do que ser uma bela evidência da teoria de alocação sexual, este estudo destaca a necessidade de olhar além da produção de gametas para determinar alocação sexual não apenas em hermafroditas, mas em todos os organismos.

– – –

Curta nossa página no Facebook!

Siga-me (@piterkeo) no Twitter!

– – –

Referência:

Picchi L & Lorenzi MC 2019. Gender-related behaviors: evidence for a trade-off between sexual functions in a hermaphrodite. Behav Ecol. doi: 10.1093/beheco/arz014

– – –

*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 3.0 Não Adaptada.

Deixe um comentário

Arquivado em Comportamento, vermes