Arquivo do mês: agosto 2019

Novas Espécies: Agosto de 2019

por Piter Kehoma Boll

Aqui está uma lista de espécies descritas este mês. Ela certamente não inclui todas as espécies descritas. A maioria das informações vem dos jornais Mycokeys, Phytokeys, Zookeys, Phytotaxa, Mycological Progress, Journal of Eukaryotic Biology, International Journal of Systematic and Evolutionary Biology, Systematic and Applied Microbiology, Zoological Journal of the Linnean Society, PeerJ, Journal of Natural History e PLoS One, além de vários jornais restritos a certos táxons.

Bactérias

Arqueias

SARs

Amentotaxus hekouensis é um novo teixo da China, do Vietnã e do Laos. Créditos a Gao et al. (2019).*

Plantas

Isotrema sanyaense é uma nova angiosperma da China. Créditos a Li et al. (2019).*
Disporum nanchuanense é outra nova angiosperma da China. Créditos a Zhu et al. (2019).*
Lysimachia fanii é mais uma nova angiosperma da China. Créditos a Huang et al. (2019).*
Primula dongchuanensis é ainda mais uma nova angiosperma da China. Créditos a Wu et al. (2019).*

Amoebozoans

Fungos

Camarophyllopsis olivaceogrisea (acima) e Hodophilus glaberripes (abaixo) são dois novos cogumelos da China. Créditos a Zhang et al. (2019).*

Poríferos

Bunga payung é um novo coral da Malásia. Créditos a Lau & Reimer (2019).*

Cnidários

Platelmintos

Matuxia tymbyra é uma nova planária terrestre do Brasil. Foto de Piter Kehoma Boll.*

Anelídeos

Moluscos

Sinoxychilus melanoleucus é um novo caracol da China. Créditos a Wu & Liu (2019).*

Nematódeos

Aracnídeos

Miriápodes

Mediapotamon liboense é um novo caranguejo da China. Créditos a Wang et al. (2019).*

Crustáceos

Oligoneuriella tuberculata é uma nova efêmera do Irã. Créditos a Sroka et al. (2019).*

Hexápodes

Dryinus georgianus é uma nova vespa dos Estados Unidos. Créditos a Speranza et al. (2019).*
Aedes amateuri é um novo mosquito do México. Créditos a Ortega-Morales et al. (2019).*

Equinodermos

Actinopterígios

Eigenmannia sirius é um novo peixe do Brasil. Créditos a Peixoto & Ohara (2019).*

Anfíbios

Takydromus yunkaiensis é um novo lagarto da China. Créditos a Wang et al. (2019).*

Répteis

– – –

*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição 4.0 Internacional.

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Sistemática, Taxonomia

Sexta Selvagem: Pseudoescorpião-Doméstico

por Piter Kehoma Boll

Aranhas, ácaros, opiliões e escorpiões são os aracnídeos mais bem conhecidos pelo público. No entanto outro grupo que possui muitas espécies, até mais que o dos escorpiões, é o dos pseudoescorpiões. Há uma boa chance de que alguns deles vivam bem próximos a você, especialmente se você pensar no Chelifer cancroides, o pseudoescorpião-doméstico.

Um pseudoescorpião-doméstico fotografado perto de Toronto, Canada. Foto de Ryan Hodnett.*

O nome pseudoescorpião vem do fato de estes aracnídeos se assemelharem a escorpiões, exceto pela ausência da cauda. Eles também são muito menores. O pseudoescorpião-doméstico é marrom e mede apenas cerca de 0,5 cm de comprimento e, como seu nome sugere, vive em residências humanas.

Pseudoscorpiões-domésticos machos defendem um pequeno território com um raio de apenas alguns centímetros. Eles permitem que fêmeas entrem no território e, durante o período de acasalamento, começam o comportamento de corte pelo qual iniciam uma dança que conduz a fêmea ao saco de esperma (espermatóforo) depositado no substrato. As fêmeas pegam o espermatóforo com seu orifício genital e usam o esperma para fertilizarem seus ovos.

Um gordão, provavelmente uma fêmea grávida, em Leibniz, Áustria. Foto de Gernot Kunz.**

Quando os ovos são postos, eles permanecem presos ao poro genital da fêmea e são cobertos coletivamente por uma membrana. Quando os filhotes eclodem dos ovos, eles ainda são larvas e permanecem dentro do saco formado pela membrana cobrindo os ovos. A fêmea então secreta uma substância parecida com leite de seu útero e as larvas se alimentam dela. Após sofrerem a primeira muda, as larvas, agora ninfas de primeiro ínstar, deixam a mãe e, após mais três mudas, atingem o estágio adulto.

Fêmea se alimentando de um ácaro. Foto de Roland Sachs.*

Apesar de poder passar despercebido na maioria das vezes, o pseudoescorpião-doméstico é uma espécie cosmopolita e comum, vivendo perto e dentro de casas. Seus pedipalpos, que se assemelham àqueles dos escorpiões, são muito longos e atingem quase 1 cm de comprimento quando estendidos. Como a maioria dos aracnídeos, eles são predadores e sua presença em habitações humanas pode ser bem útil pois eles se alimentam de criaturas menores e incômodas, como ácaros, percevejos e piolhos-dos-livros.

Se você encontrar um em sua casa, seja gentil e o agradeça pelo seu serviço.

– – –

Curta nossa página no Facebook!

Siga-me (@piterkeo) no Twitter!

– – –

Referências:

Harvey MS (2014) A review and redescription of the cosmopolitan pseudoscorpion Chelifer cancroides (Pseudoscorpiones: Cheliferidae). Journal of Arachnology 42: 86–104.

Levi HW (1948) Notes on the life history of the pseudoscorpion Chelifer cancroides (Linn.) (Chelonethida). Transactions of the American Microscopical Society 67(3): 290–298. doi: 10.2307/3223197

– – –

*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 4.0 Internacional.

**Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição Não Comercial 4.0 Internacional

Deixe um comentário

Arquivado em Aracnídeos, Sexta Selvagem, Zoologia

Sexta Selvagem: Soldadinho-Chifrudo-da-Acácia

por Piter Kehoma Boll

Semana passada apresentei uma bela acácia australiana, a acácia-dourada, então hoje decidi apresentar uma pequena criatura que vive em seus ramos. Chamado Sextius virescens, este inseto é comumente conhecido como soldadinho-chifrudo-da-acácia (tradução do nome em inglês: wattle horned treehopper) ou simplesmente soldadinho-verde. Ele é membro da ordem Hemiptera e da família Membracidae, comumente conhecidos como soldadinhos, sendo proximamente relacionados a cigarras e cigarrinhas.

Um soldadinho-chifrudo-da-acácia sobre uma acácia-dourada em Brisbane, Austrália. Foto de Jenny Thyne.*

O corpo do soldadinho-chifrudo-da-acácia mede cerca de 1 cm de comprimento e é em sua maioria verde, mas as pernas são marrons. Também há duas projeções em forma de chifres no tórax que possuem uma cor de marrom a negro e outra extensão longa do tórax que fica deitada sobre o abdome. O soldadinho-chifrudo-da-acácia vive em grupos nos ramos de acácias e os indivíduos costumam se posicionar alinhados sobre os ramos.

Um soldadinho-chifrudo-da-acácia perto de Melbourne. Foto de Andrew Allen.**

Como todos os soldadinhos, o soldadinho-chifrudo-da-acácia se alimenta da seiva das plantas nas quais vive, sugando-a com suas peças bucais adaptadas. Eles excretam um líquido doce chamado melada que atrai formigas. Tais formigas geralmente se alimentam do néctar produzido pelos nectário extraflorais da acácia e defendem a planta contra herbívoros. Contudo os soldadinhos-chifrudos-da-acácia fazem as formigas dedicarem sua atenção a eles ao invés da planta. Deliciadas pela melada, as formigas param de defender a planta e passam a defender os soldadinhos, o que não é nem um pouco bom para a planta.

Formigas coletando melada de soldadinhos-chifrudos-da-acácia no leste da Austrália. Foto do usuário fruitbat do iNaturalist.*

Mas assim é a natureza. Uma criatura sempre tentando explorar as relações entre outras criaturas para tirar o melhor proveito para si.

– – –

Curta nossa página no Facebook!

Siga-me (@piterkeo) no Twitter!

– – –

Referências:

Buckley R (1983) Interaction between ants and membracid bugs decreases growth and seed set of host plant bearing extrafloral nectaries. Oecologia 58: 132–136.

Museums Victoria Sciences Staff (2017) Sextius virescens Green Treehopper in Museums Victoria Collections. Disponível em <https://collections.museumvictoria.com.au/species/8561>. Acesso em 10 de agosto de 2019.

– – –

*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição Não Comercial e Compartilhamento Igual 4.0 Internacional.

**Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição Não Comercial 4.0 Internacional

Deixe um comentário

Arquivado em Entomologia, Sexta Selvagem, Zoologia

A comunidade de planárias terrestres da FLONA-SFP e como elas conseguem conviver

por Piter Kehoma Boll

(Em primeiro lugar, eu gostaria que fosse o Bolsonaro, aquele pedaço de câncer em forma de diarreia, que estivesse morrendo queimado no lugar da Floresta Amazônica.)

(Agora vamos à postagem em si:)

A Floresta Nacional de São Francisco de Paula (FLONA-SFP) é uma unidade de conservação para uso sustentável no sul do Brasil. Ela era originalmente coberta de floresta de araucária, mas atualmente é composta de um mosaico de floresta nativa e plantações de árvores dos gêneros Araucaria, Pinus e Eucalyptus. Esta área de proteção é uma das principais áreas de estudo do Instituto de Pesquisas de Planárias da Unisinos, onde conduzi minhas pesquisas de iniciação científica, mestrado e doutorado.

Após estudarmos a comunidade de planárias terrestres da FLONA-SFP por muitos anos, concluímos que ela inclui um número consideravelmente alto de espécies. Dê uma olhada em algumas delas e como são legais:

Obama ladislavii, a planária-folha-de-Ladislau. Foto de Piter Kehoma Boll.*
Obama anthropophila, a planária-folha-urbana-marrom. Foto de Piter Kehoma Boll.*
Obama josefi, a planária-foolha-de-Josef. Foto de Piter Kehoma Boll.*
Obama ficki, a planária-folha-de-Fick. Foto de Piter Kehoma Boll.
Obama maculipunctata, a planária-folha-manchada-e-pintada. Foto de Piter Kehoma Boll.*
Cratera ochra, a planária-cratera-ocre. Foto de Piter Kehoma Boll.*
Luteostriata arturi, a planária-amarela-listrada-de-Artur. Créditos ao Instituto de Pesquisas de Planárias, Unisinos.**
Luteostriata ceciliae, a planária-amarela-listrada-de-Cecília. Foto de Piter Kehoma Boll.*
Luteostriata pseudoceciliae, a falsa-planária-amarela-listrada-de-Cecília. Créditos ao Instituto de Pesquisas de Planárias, Unisinos.**
Luteostriata ernesti, a planária-amarela-listrada-de-Ernst. Foto de Piter Kehoma Boll.*
Luteostriata graffi, a planária-amarela-listrada-de-Graff. Foto de Piter Kehoma Boll.*
Supramontana irritata, a planária-amarelada-irritada. Foto de Piter Kehoma Boll.*
Pasipha backesi, a planária-brilhante-de-Backes. Foto de Piter Kehoma Boll.*
Pasipha brevilineata, a planária-brilhante-de-linha-curta. Foto de Piter Kehoma Boll.*
Matuxia tymbyra, a planária-tupi-enterrada. Foto de Piter Kehoma Boll.*
Choeradoplana iheringi, a planária-de-pescoço-inchado-de-Ihering. Foto de Piter Kehoma Boll.*
Choeradoplana benyai, a planária-de-pescoço-inchado-de-Benya. Foto de Piter Kehoma Boll.*
Choeradoplana minima, a planária-de-pescoço-inchado-menor. Foto de Piter Kehoma Boll.*
Cephaloflexa araucariana, a planária-de-cabeça-virada-das-araucárias. Foto de Piter Kehoma Boll.*
Paraba franciscana, a planária-colorida-franciscana. Foto de Piter Kehoma Boll.*
Paraba rubidolineata, a planária-colorida-de-linha-vermelha. Créditos ao Instituto de Pesquisas de Planárias, Unisinos.**
Imbira guaiana, a planária-tira-de-casca-caingangue. Foto de Piter Kehoma Boll.*

As planárias terrestres vivem na serapilheira do solo de florestas e predam outros invertebrados. As 22 espécies mostradas acima são aquelas encontradas na FLONA-SFP que estão formalmente descritas, mas há ainda algumas esperando uma descrição. Poderíamos dizer que há pelo menos 30 espécies diferentes coexistindo nessa unidade de conservação.

Como todas elas conseguem persistir juntas? Não existe nenhum tipo de competição por alimento? Pensando nisso, eu conduzi minha pesquisa de mestrado investigando a dieta dessas e de outras planárias terrestres. Meus resultados sugerem que, apesar de algumas espécies compartilharem muitos itens alimentares, a maioria possui um alimento preferido ou um item alimentar exclusivo que poderia ser considerado o que Reynoldson e Pierce (1979) chamaram de “refúgio alimentar”.

Aqui está o que conhecemos sobre as espécies da FLONA-SFP até agora:

  • Obama ficki se alimenta de lesmas e caracóis e parece preferir lesmas grandes;
  • Obama ladislavii se alimenta de lesmas e caracóis e parece preferir caracóis;
  • Obama maculipunctata se alimenta de lesmas e caracóis com preferência desconhecida;
  • Obama anthropophila se alimenta de lesmas, caracóis e outras planárias terrestres, especialmente do gênero Luteostriata, e prefere as últimas;
  • Obama josefi aparentemente se alimenta apenas de outras planárias terrestres;
  • Todas as espécies de Luteostriata se alimentam exclusivamente de tatuzinhos-de-jardim;
  • Espécies de Choeradoplana aparentemente se alimentam de tatuzinhos-de-jardim e de opiliões;
  • Cephaloflexa araucariana aparentemente se alimenta de opiliões;
Obama ladislavii capturando uma lesma. Foto de Piter Kehoma Boll.*

A dieta das outras espécies é ainda completamente desconhecida, mas, baseado em outras espécies dos mesmos gêneros, é provável que espécies de Pasipha se alimentem de milípedes, espécies de Paraba se alimentem de lesmas e planárias, e Imbira guaiana se alimente de minhocas.

Luteostriata ernesti perto de alguns tatuzinhos-de-jardim suculentos. Foto de Piter Kehoma Boll.*

Há um grande número de diferentes grupos de invertebrados que compartilham a serapilheira com as planárias terrestres. Apesar da anatomia aparentemente simples destes platelmintos, eles são capazes de se adaptarem para se alimentarem de diferentes tipos de presas e possuem adaptações musculares e faríngeas para isso. Uma tentativa de relacionar adaptações anatômicas à dieta de planárias terrestres foi parte da minha pesquisa de doutorado. Assim que for publicada, farei uma postagem a respeito. Há alguns resultados interessantes!

– – –

Mais sobre planárias terrestres:

Sexta Selvagem: Planária-amarela-listrada-abundante

Sexta Selvagem: Planária-de-Ladislau

A Planaria elegans de Darwin: escondida, extinta ou mal identificada?

Obama invade a Europa: “Yes, we can!”

A fabulosa aventura taxonômica do gênero Geoplana

Planárias cabeça-de-martelo: outrora uma bagunça, agora uma bagunça ainda maior

A planária-da-Nova-Guiné visita a França: uma ameaça

– – –

Curta nossa página no Facebook!

Siga-me (@piterkeo) no Twitter!

– – –

Referências:

Boll PK & Leal-Zanchet AM 2015. Predation on invasive land gastropods by a Neotropical land planarian. J. Nat. Hist. 49: 983–994.

Boll PK & Leal-Zanchet AM 2016. Preference for different prey allows the coexistence of several land planarians in areas of the Atlantic Forest. Zoology 119: 162–168.

Leal-Zanchet AM & Carbayo F 2000. Fauna de Planárias Terrestres (Platyhelminthes, Tricladida, Terricola) da Floresta Nacional de São Francisco de Paula, RS, Brasil: uma análise preliminar. Acta Biologica Leopoldensia 22: 19–25.

Oliveira SM, Boll PK, Baptista V dos A, & Leal-Zanchet AM 2014. Effects of pine invasion on land planarian communities in an area covered by Araucaria moist forest. Zool. Stud. 53: 19.

Reynoldson TB & Piearce B 1979. Predation on snails by three species of triclad and its bearing on the distribution of Planaria torva in Britain. Journal of Zoology 189: 459–484.

– – –

*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 4.0 Internacional.

**Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição Não Comercial e Compartilhamento Igual 4.0 Internacional.

Deixe um comentário

Arquivado em Ecologia, platelmintos, vermes, Zoologia

Sexta Selvagem: Acácia-Dourada

por Piter Kehoma Boll

Se você caminhar pelas florestas de eucalipto no leste da Austrália, poderá encontrar a espécie de hoje em seu ambiente natural. Seu nome é Acacia pycnantha, comumente conhecida como acácia-dourada e, como é óbvio pelos nomes científico e comum, é uma espécie de acácia.

Uma acácia dourada entre eucaliptos no sul da Austrália. Foto de David Muirhead.*

A acácia-dourada é uma árvore peculiar. Ela atinge uma altura de cerca de 8 metros, apesar de a maioria dos indivíduos chegar apenas a 6 m. Como é comum entre espécies australianas do gênero Acacia, a acácia-dourada não possui folhas verdadeiras. Em vez disso, possui pecíolos modificados, chamados filódios, que são alargados para se parecerem com e funcionarem como folhas. Os filódios possuem uma forma lanceolada e falcada, isto é, se parecem com uma folha típica que é ligeiramente curvada para um lado, como uma foice. O lado externo desta “foice” possui um nectário extrafloral, uma estrutura que produz néctar e atrai insetos e aves que se alimentam dele.

Filódios da acácia-dourada com o nectário extrafloral visível como uma pequena protuberância redonda. Foto do usuário Melburnian do Wikimedia.**

A planta produz botões de flor o ano inteiro, mas somente aqueles produzidos entre novembro e maio se desenvolverão adiante e abrirão entre julho e novembro do ano seguinte. As flores ocorrem em inflorescências e possuem uma cor amarela intensa e o aspecto felpudo típico de flores de acácias que é causado por estames muito longos.

Uma inflorescência com várias flores e seus estames muito longos. Foto de Patrick Kavanagh.***

Apesar da enorme quantidade de flores que uma árvore única produz, esta espécie é autoincompatível, significando que não pode fertilizar a si mesma e precisa que seu pólen seja levado para as flores de outro indivíduo da mesma espécie. Já se sabe que aves são polinizadores muito importantes da acácia-dourada e a árvore usa seus nectários extraflorais para auxiliar nisso. Quando uma ave visita a árvore, ela se alimenta do néctar dos nectários extraflorais e, no processo, esbarra contra as flores, ficando coberta de pólen. Quando as aves visitam a próxima árvore e colidem contra suas flores, parte do pólen da primeira planta passa para as flores da segunda.

A casca da acácia-dourada produz grandes quantidades de taninos, mais do que qualquer outra acácia australiana, o que levou a seu cultivo para este propósito. Quando estressado, o tronco exsuda uma goma (resina) que é similar à goma-arábica produzida por espécies africanas de acácia.

Goma exsudando do tronco da acácia-dourada. Foto de Patrick Kavanagh.***

A acácia-dourada foi introduzida em vários países, especialmente na Europa e na África, para propósitos ornamentais e econômicos. Na África do Sul, seu cultivo para a produção de tanino fez com que ela se espalhasse rapidamente pelos ecossistemas nativos, tornando-se invasora. E agora, como sempre, temos que lidar com as consequências de nossos atos irracionais e correr para resolver este problema.

– – –

Curta nossa página no Facebook!

Siga-me (@piterkeo) no Twitter!

– – –

Referências:

Hoffmann JH, Impson FAC, Moran VC, Donnelly D (2002) Biological control of invasive golden wattle trees (Acacia pycnantha) by a gall wasp, Trichilogaster sp. (Hymenoptera: Pteromalidae), in South Africa. Biological Control 25(1): 64–73. 10.1016/S1049-9644(02)00039-7

Vanstone VA, Paton DC (1988) Extrafloral Nectaries and Pollination of Acacia pycnanthaBenth by Birds. Australian Journal of Botany 36(5): 519–531. doi: 10.1071/BT9880519

Wikipedia. Acacia pycnantha. Disponível em < https://en.wikipedia.org/wiki/Acacia_pycnantha >. Acesso em 9 de agosto de 2019.

– – –

*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição Não Comercial 4.0 Internacional

**Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 3.0 Não Adaptada.

***Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição 2.0 Genérica.

Deixe um comentário

Arquivado em Botânica, Sexta Selvagem

Sexta Selvagem: Mosca-d’Água-Manchada

por Piter Kehoma Boll

É hora de apresentar uma nova ordem de insetos aqui e, mais uma vez, este é um táxon complicado. A ordem Trichoptera consiste de pequenos insetos parecidos com mariposas conhecidos como moscas-d’água ou frigâneas. Eles são proximamente relacionados a mariposas e borboletas (ordem Lepidoptera), sendo um grupo irmão destas. Tendo 10 vezes menos espécies que a ordem Lepidoptera, a ordem Trichoptera é menos comum e bem menos popular, de forma que é difícil encontrar espécies que são bem estudadas para apresentar aqui.

A espécie que escolhi é chamada Glyphotaelius pellucidus e conhecida popularmente como mosca-d’água-manchada. Ela vive na Europa central e boreal e possui o ciclo de vida típico de uma mosca-d’água.

Uma mosca-d’água-manchada na Alemanha. Foto do usuário Pjt56 do Wikimedia.*

A larva da mosca-d’água-manchada vive em águas paradas ou de correnteza fraca que são cobertas por árvores, especialmente amieiros, carvalhos e faias, em áreas de baixa altitude. Como de costume entre moscas-d’água, a larva da mosca-d’água-manchada constrói um abrigo de seda no qual vive e prende pedaços de detritos, especialmente fragmentos de folhas das árvores mencionadas acima, para fortalecê-lo. Nesta espécie, os fragmentos que são presos fazem o abrigo ser bem grande e característico. Dos lados do abrigo, a larva prende fragmentos pequenos e irregulares de folhas, enquanto que nos lados dorsal e ventral ela prende seções grandes e circulares que são muito maiores que o corpo da larva.

Uma larva dentro do abrigo na Alemanha. Foto do usuário fuerchtegott do iNaturalist.**

A larva vive vários meses, de outubro a abril, e se alimenta de fragmentos de folhas, o mesmo material com que constrói o abrigo. Em abril, a larva se transforma em pupa que, geralmente durante o verão (por volta de junho ou julho), se transforma num adulto. O adulto não é aquático como a larva e a pupa. Assim, a pupa nada para a superfície antes de se romper e liberar o adulto. Durante este momento, o adulto é muito vulnerável a predadores, especialmente peixes. É por isso que moscas-d’água artificiais são comumente usadas como iscas para pescar.

Mosca-d’água-manchada adulta no Reino Unido. Foto de Philip Mark Osso.**

Se o adulto consegue deixar a água vivo, ele ainda precisa passar um tempo esperando suas asas secarem, o que é outro momento muito vulnerável. A cor do adulto é marrom e as asas possuem um padrão manchado de marcas claras e escuras que o fazem parecer um fragmento de folha seca.

Massa de ovos numa folha no Reino Unido. Foto de Martin Cooper.***

Moscas-d’água adultas em geral raramente comem e isso não é diferente com a mosca-d’água-manchada. O único propósito dos adultos é acasalar e pôr ovos. Após o acasalamento, a fêmea põe uma massa de novos na superfície de folhas penduradas sobre um corpo d’água. Uma fêmea pode pôr até seis massas de ovos que diminuem em tamanho da primeira para a última, e então ela morre. Quando os ovos eclodem, as larvas caem na água e recomeçam o ciclo.

– – –

Curta nossa página no Facebook!

Siga-me (@piterkeo) no Twitter!

– – –

Referências:

Crichton MI (1987) A study of egg masses of Glyphotaelius pellucidus (Retzius), (Trichoptera: Limnephilidae). In: Bournaud M., Tachet H. (eds) Proceedings of the Fifth International Symposium on Trichoptera. Series Entomologica, vol 39. Springer, Dordrecht. doi: 10.1007/978-94-009-4043-7_30

Gullefors B (2010) Seasonal decline in clutch size of the caddisfly Glyphotaelius pellucidus (Retzius) (Trichoptera: Limnephilidae). Denisia 29: 125–131.

Kiauta B, Lankhorst L (1969) The chromosomes of the caddis-fly, Glyphotaelius pellucidus (Retzius, 1783) (Trichoptera: Limnephilidae, Limnephilinae). Genetica 40: 1–6.

Otto C (1983) Behavioural and Physiological Adaptations to a Variable Habitat in Two Species of Case-Making Caddis Larvae Using Different Food. Oikos 41(2): 188–194. doi: 10.2307/3544262

Rowlands MLJ, Hansell MH (1987) Case design, construction and ontogeny of building in Glyphotaelius pellucidus caddisfly larvae. Journal of Zoology 211(2): 329–356. doi: 10.1111/j.1469-7998.1987.tb01538.x

– – –

*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 3.0 Não Adaptada.

**Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição Não Comercial 4.0 Internacional

***Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição 2.0 Genérica.

Deixe um comentário

Arquivado em Entomologia, Sexta Selvagem

Sexta Selvagem: Caramujo-Pião-Morango

por Piter Kehoma Boll

Olhe para essa coisa:

É tão lindamente vermelha como um morango que sinto minha boca salivar e um desejo de mordê-la. Mas em vez de uma fruta doce e suculenta como um morango, é uma concha salgada e dura da espécie Clanculus puniceus, que possui o nome comum apropriado de caramujo-pião-morango.

Esta espécie é encontrada no Oceano Índico ao longo da costa leste da África, do Mar Vermelho ao Cabo Agulhas, incluindo ilhas próximas como Madagascar e as Mascarenas. Ela pertence à família Trochidae, comumente chamados de concha-pião ou caramujo-pião porque a concha lembra o brinquedo com esse nome.

Caramujo-pião-morango na África do Sul. Foto do usuário jaheymans do iNaturalist.*

A concha do caramujo-pião-morango mede, no adulto, pelo menos 15 mm de diâmetro, atingindo até 23 mm, e possui uma linda cor vermelha, causada por uroporfirinas, que varia de vermelho-alaranjado a carmesim. A espiral da concha, quando vista de cima, possui uma linha formada por pontos pretos, causados por melanina, intercalados por dois ou três pontos brancos. Quando vista de baixo, há duas linhas adicionais com esse padrão que correm lado a lado perto da abertura da concha.

A concha vista de vários ângulos. Foto de H. Zell.**

Como de costume entre caramujos-piões, o caramujo-pião-morango vive nas zonas entre-marés e sublitoral e se alimenta de algas que raspa das rochas usando sua língua dentada (a rádula). Eles são dioicos, isto é, há indivíduos machos e fêmeas, como de costume entre caramujos marinhos, mas não existe dimorfismo sexual.

Devido à sua beleza, a concha do caramujo-pião-morango é altamente desejada por colecionadores de conchas. Contudo pouco se sabe sobre a história natural desta espécie em particular. Eu nem mesmo consegui encontrar uma fotografia na qual o caramujo em si é visível.

Esta foi a única fotografia que encontrei em que a parte mole do corpo de um caramujo do gênero Clanculus é visível. A espécie, de Taiwan, não foi identificada. Foto de Cheng Te Hsu.***

Se você trabalha com esta espécie ou pelo menos possui uma fotografia de um espécime vivo mostrando o caramujo dentro da concha, por favor, compartilhe! Precisamos de mais informação disponível sobre as maravilhosas criaturas que compartilham este planeta conosco.

– – –

Mais caramujos marinhos:

Sexta Selvagem: Lapa-Ornada (em 3 de maio de 2019)

Sexta Selvagem: Cone-Tulipa (em 29 de dezembro de 2017)

– – –

Curta nossa página no Facebook!

Siga-me (@piterkeo) no Twitter!

– – –

Referências:

Herbert DG (1993) Revision of the Trochinae, tribe Trochini (Gastropoda: Trochidae) of southern Africa. Annals of the Natal Museum 34(2): 239–308.

Wikipedia. Trochidae. Available at < https://en.wikipedia.org/wiki/Trochidae >. Access on 29 July 2019.

Williams ST, Ito S, Wakamatsu K, Goral T, Edwards NP, Wogelius RA, Henkel T, Oliveira LFC, Maia LF, Strekopytov S, Jeffries T, Speiser DI, Marsden JT (2016) Identification of Shell Colour Pigments in Marine Snails Clanculus pharaonius and Cmargaritarius (Trochoidea; Gastropoda). PLoS ONE 11(7): e0156664. doi: 10.1371/journal.pone.0156664

– – –

*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição Não Comercial 4.0 Internacional

**Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição 3.0 Não Adaptada.

***Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 4.0 Internacional.

Deixe um comentário

Arquivado em moluscos, Sexta Selvagem, Zoologia