Arquivo do mês: janeiro 2012

Encontrados e depois perdidos: o lado não tão iluminado da taxonomia

por Piter Kehoma Boll

ResearchBlogging.org

Uma das grandes questões sem resposta em nosso conhecimento do mundo é “Quantas espécies há na Terra?” e nós estamos longe de ter ao menos uma aproximação do número real. Há, é claro, milhares de especulações, variando enormemente entre si, mas poderíamos dizer que o valor médio seria de cerca de dez milhões de espécies, enquanto atualmente conhecemos somente cerca de 1,5 milhão. E esse é exatamente o ponto no qual eu estou interessado em focar aqui: o número de espécies que conhecemos atualmente. Temos certeza de que tudo o que consideramos espécies de fato o são?

Provavelmente todo mundo já ouviu falar sobre a situação onde um grupo de organismos outrora considerados uma única espécie eram de fato duas distintas, como os elefantes africanos Loxodonta africanaL. cyclotis, onde o segundo só foi classificado como uma espécie distinta em 2010.

Elefante-da-savana, Loxodonta africana (esquerda) e elefante-da-floresta Loxodonta cyclotis (direita). Fotos por uhammad Mahdi Karim (esquerda), de http://www.micro2macro.net, e Peter H. Wredge (direita), extraída da Wikipedia.

Elefante-da-savana, Loxodonta africana (esquerda) e elefante-da-floresta Loxodonta cyclotis (direita). Fotos por uhammad Mahdi Karim (esquerda), de http://www.micro2macro.net, e Peter H. Wredge (direita), extraída da Wikipedia.

Quanto às pessoas no geral, se você lhes pedir para que digam o nome de um animal, elas provavelmente dirão o nome de um mamífero, ou talvez de uma ave, um réptil ou, se você tiver sorte, dirão “borboleta” ou “aranha” e isso é tudo. Bem, não há nada de errado com isso, mas eu acho que as pessoas deveriam se dar conta de que esses animais, como leões ou elefantes, são apenas uma partícula pequena de todo o mundo de espécies.

Eu no momento tenho uma bolsa de iniciação científica na Unisinos (Universidade do Vale do Rio dos Sinos), onde trabalho no IPP (Instituto de Pesquisa de Planárias) com ecologia, fisiologia e comportamento de planárias terrestres.

Para aqueles que não as conhecem (e eu sei que há muitas pessoas que não), planárias terrestres são vermes achatados terrestres, pertencentes ao filo Platyhelminthes, no grupo Tricladida. Elas geralmente são encontradas sob rochas ou troncos em áreas de floresta, mas também em jardins ou outros lugares. Muitas delas são muito sensíveis à luz, a altas temperaturas ou a extremos  de seca e umidade, de forma que sua presença costuma indicar uma área mais conservada.

Dois espécies de Luteostriata abundans (Graff, 1899), uma planária terrestre do sul do Brasil. Foto por Piter K. Boll.

Dois espécimes de Luteostriata abundans (Graff, 1899), uma planária terrestre do sul do Brasil. Foto por Piter K. Boll.

Geoplana rubidolineata Baptista & Leal-Zanchet, 2006. Foto por Fernando Carbayo, extraída de Baptista & Leal-Zanchet, 2006.

Geoplana rubidolineata Baptista & Leal-Zanchet, 2006. Foto por Fernando Carbayo, extraída de Baptista & Leal-Zanchet, 2006.

Planárias terrestres são um grupo ainda muito pouco conhecido e, apesar de um grande número de espécies ter sido descrito nas últimas décadas, muitas mais ainda precisam ser, e aquelas já descritas não são muito compreendidas no que condiz à sua ecologia e ao seu comportamento.

As primeiras planárias terrestres descritas foram definidas baseadas somente em características externas, principalmente forma do corpo, cor e disposição dos olhos. Mas Ludwig von Graff, em seu trabalho de 1986 “Über die Morphologie des Geschlechtesapparates der Landplanarien” (Sobre a morfologia do aparelho reprodutor das planárias terrestres) já percebia a importância da morfologia interna, principalmente a do aparelho copulador, para uma identificação mais precisa ao nível de espécie.

Reconstrução sagital do aparelho copulador de Rhynchodemus scharffi Graff, 1896. Extraído de Graff, 1896.

Reconstrução sagital do aparelho copulador de Rhynchodemus scharffi Graff, 1896. Extraído de Graff, 1896.

Apesar disso, os anos seguintes ainda foram marcados por publicações considerando somente aspectos externos, como o trabalho de Schirch (1929). Somente pelos anos 1950 um foco real passou a ser dado à estrutura de órgãos masculinos e femininos. A maioria dos trabalhos sobre a descrição de planárias terrestres, como os dos casais Marcus e Froehlich, focaram-se no aparelho copulador juntamente com características externas, dando assim uma descrição mais confiável de novas espécies. Nessa época, estruturas reprodutivas se tornaram essenciais para a classificação de novas espécies e eventualmente levaram à criação de novos gêneros.

Desenhos de várias planárias terrestres. Extraído de Schirch, 1929.

Desenhos de várias planárias terrestres. Extraído de Schirch, 1929.

Desenhos de estruturas internas e externas de várias planárias terrestres. Extraído de Marcus, 1951.

Desenhos de estruturas internas e externas de várias planárias terrestres. Extraído de Marcus, 1951.

Em 1990, Ogren e Kawakatsu publicaram um índice de todas as espécies de planárias terrestres conhecidas para a família Geoplanidae naquela época. Eles perceberam que muitas espécies ainda classificadas no gênero Geoplana, como as descritas por Schirch, nunca foram revistas e ainda eram conhecidas apenas por características externas, de forma que sua posição dentro de Geoplana poderia não estar correta. Para evitar essa classificação errônea, eles criaram um novo “gênero temporário”, o qual chamaram de Pseudogeoplana (falsa Geoplana) e puseram todas essas espécies duvidosas nele até que alguém as revisse e pudesse colocá-las no gênero correto, ou Geoplana ou algum outro.

Mas adivinhem? Ogren e Kawakatsu fizeram isso em 1990 e agora estamos em 2012 e a situação continua a mesma. Essas pobres espécies de planárias ainda estão esperando nesse abrigo taxonômico até que alguém as mova para o local a qual pertencem.

Assim como podemos ter certeza sobre qualquer coisa a respeito dessas espécies? Elas foram descritas em 1929, quase um século atrás, e ninguém se importou com elas desde então. E eu aposto que o mesmo ocorre em outros grupos menos fofos e atraentes, então enquanto descrevemos centenas ou milhares de espécies novas todo ano, outras centenas e milhares são deixadas para trás, esquecidas em vidros empoeirados de museus de zoologia pelo mundo.

Eu só espero que isso mude algum dia.

Obrigado por ler.

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Referências:

Baptista, V., & Leal-Zanchet, A. 2005. Nova espécie de Geoplana Stimpson (Platyhelminthes, Tricladida, Terricola) do sul do Brasil Revista Brasileira de Zoologia, 22 (4), 875-882 DOI: 10.1590/S0101-81752005000400011

Du Bois-Reymond Marcus, E. 1951. On South American Geoplanids. Boletim da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, Série Zoologia, 16, 217-256.

Froehlich, E. M. 1955. Sobre Espécies Brasileiras do Gênero Geoplana. Boletim da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, Série Zoologia, 19, 289-339.

Graff, L. v. 1896. Über die Morphologie des Geschlechtsapparates der Landplanarien. Verhandlungen der Deutschen Zoologischen Gesellschaft, 73-95.

Marcus, E. 1951. Turbellaria Brasileiros. Boletim da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, Série Zoologia, 16, 5-215.

Mora, C., Tittensor, D., Adl, S., Simpson, A., & Worm, B. 2011. How Many Species Are There on Earth and in the Ocean? PLoS Biology, 9 (8) DOI: 10.1371/journal.pbio.1001127

Ogren, R. E. & Kawakatsu, M. 1990. Index to the species of the family Geoplanidae (Turbellaria, Tricladida, Terricola) Part I: Geoplaninae. Bulletin of Fuji Women’s College, 28, 79-166.

Rohland, N., Reich, D., Mallick, S., Meyer, M., Green, R., Georgiadis, N., Roca, A., & Hofreiter, M. 2010. Genomic DNA Sequences from Mastodon and Woolly Mammoth Reveal Deep Speciation of Forest and Savanna Elephants PLoS Biology, 8 (12) DOI: 10.1371/journal.pbio.1000564

Schirch, P. F. 1929. Sobre as planarias terrestres do Brasil. Boletim do Museu Nacional, 5, 27-38.

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Arquivado em Ecologia, Sistemática

Os furos na Ideia do Triceratops velho

Por Carlos Augusto Chamarelli

Você deve se lembrar de algum tempo atrás, havia saído nas notícias em todo lugar que o “Triceratops nunca existiu”. Como poderia um dinossauro tão consolidado na cultura popular simplesmente não ter existido? Na realidade, isso é balela, até mesmo o próprio Jack Horner o disse. O que este paleontólogo de Montana quis dizer é que ele nada mais era que uma forma jovem, e que o estágio adulto era na verdade representado por outro dinossauro ceratopsiano (dinossauros com chifres e escudos) conhecido como Torosaurus, cujo escudo podia chegar até dois metros e meio de comprimento. A ideia é que conforme o Triceratops crescia, seu escudo se tornava maior e, para diminuir o peso desse enfeite, furos apareceriam, como observados em muitos outros ceratopsianos. Visto as semelhanças entre os dois animais, e sua coincidência de locais onde são achados, Horner concluiu que os dois deveriam ser o mesmo.

Visto aqui numa reconstrução extremamente precisa e realista.

Visto aqui numa reconstrução extremamente precisa e realista. “Triceratops”, por Kate Rohde. Extraído de kwgallery.com

O que devia ser noticiado era “Torosaurus nunca existiu”: Em nomenclatura zoológica, um princípio básico é que quando uma espécie recebe dois nomes diferentes, o nome mais antigo publicado corretamente, chamado de sinônimo sênior, tem preferência e deve ser usado para nomear a espécie, excluindo o sinônimo júnior. E já que o Triceratops, nomeado em 1889, foi descrito há muito mais tempo que o Torosaurus, 1891, Triceratops é o sinônimo sênior e, portanto, o nome oficial. Mas naturalmente a mídia percebeu que a maioria das pessoas não sabe o que é um Torosaurus, então embaralharam tudo com uma pintada de sensacionalismo para dar mais ibope, o que é muito surpreendente.

Deixando problemas nomenclaturais de lado, existem alguns pontos nessa teoria que ainda me fazem pensar que não podemos declarar com certeza a inexistência de um ou outro dinossauro. Dentre eles, um ponto menos conhecido da teoria de Horner, embora tenha sido divulgado um artigo sobre isso, é que antes de se tornar um Torosaurus, o Triceratops se tornaria outra coisa primeiro. Essa outra coisa seria o Nedoceratops (anteriormente Diceratops).

Quando acharem um com apenas um chifre na cabeça ele será conhecido como Uniceratops. Provavelmente.

Quando acharem um com apenas um chifre na cabeça ele será conhecido como Uniceratops. Provavelmente. Crânio do Nedoceratops. Foto por Andrew A. Farke, 2011. Extraído de wikipedia.org

O Nedoceratops hatcheri tem uma longa história de debates sobre sua validez como uma espécie separada ou um sinônimo para o Triceratops, alguns argumentam que as aberturas no crânio seriam causadas por patologias que degenerariam o osso, por exemplo. Para Horner, estas indicariam o início da transformação no Torosaurus, mas é por aí que as coisas ficam estranhas: como exatamente estas aberturas se formariam do nada?

Horner demonstra através de análises de raio-x que o escudo do Triceratops não é inteiramente sólido, e é de fato mais fino onde seriam os orifícios do Torosaurus, então à primeira vista seria perfeitamente plausível que o Torosaurus fosse um Triceratops velho, mas mesmo os ossos dos dinossauros sendo notavelmente plásticos e permitirem muitas transformações conforme cresciam, o retrocesso da estrutura óssea a ponto de se tornar tão fina até formar aberturas – perfeitamente arredondadas – é algo um tanto difícil de admitir mesmo com a mente aberta.

Haja pescoço para suportar esse crânio.

Haja pescoço para suportar esse crânio. Crânios do holótipo do Torosaurus latus. Desenho por Marsh, 1893. Extraído de wikipedia.org

Observando outros ceratopsianos, vemos que não é assim que ocorre: vamos dar uma olhada mais de perto no pequeno Protoceratops, um pequeno ceratopsiano da Ásia descoberto na Mongólia em 1923. Os achados de Protoceratops são compostos de indivíduos de vários estágios de crescimento, em especial ninhos inteiros com ovos preservados foram encontrados, o que nos permite ter uma boa ideia do crescimento desses animais desde recém-nascidos até adultos.

"Digam e-X-tinto"

“Digam e-X-tinto”. Sequência de crescimento do Protoceratops. Foto por Harry Nguyen, 2008.

Como você pode observar na imagem, o escudo apresenta orifícios mesmo em indivíduos muito jovens. O mesmo é observado em outras espécies de ceratopsianos, mas nenhuma é tão completa quando a do Protoceratops. Partindo deste princípio, se o Torosaurus era de fato um Triceratops em fase adulta, o orifício no escudo deveria estar presente em indivíduos jovens, mas isso não acontece, como observado no único crânio descoberto de um Triceratops bebê.

Eu não consigo falar nada sobre um Triceratops bebê a menos que seja que deviam ser muito fofos.

Eu não consigo falar nada sobre um Triceratops bebê exceto que deviam ser muito fofos. Réplica do crânio de um Triceratops filhote. Foto por Brokensphere, 2009.

Desconheço qual a idade estimada deste indivíduo em particular, mas julgando pelo seu tamanho e características, ele poderia muito bem ser um recém nascido. Como é possível observar, o escudo, ainda muito pequeno, é desprovido de orifícios naturais: o pequeno buraco visto no lado esquerdo foi causado pelo desgaste durante a fossilização, como observado nas margens do escudo, mas não há nenhum presente no lado direito, e nem nenhum indivíduo num estágio de maturação posterior. O que quero dizer é que se fosse verdade que o Torosaurus era um Triceratops adulto, os orifícios deveriam estar presentes desde as formas mais jovens como no Protoceratops, não importa o quão pequeno fosse comparado ao de outros ceratopsianos.

A menos que tivesse só uma fenestra de um lado.

A menos que tivesse só uma fenestra de um lado. Detalhe do escudo do Triceratops filhote, com a marcação onde seriam as fenestras.

Mas eu dou crédito a Horner por apresentar evidência sólida de que o escudo do Triceratops era “esponjoso”, uma característica de indivíduos jovens, o que significa que sim, o Triceratops que conhecemos provavelmente não representa indivíduos adultos. Ainda sim, é um pouco difícil afirmar que o Torosaurus era sua forma adulta. Há algumas alternativas que poderiam explicar o que seria um Triceratops adulto. A primeira é um tanto mais especulativa, e se baseia na existência de um dinossauro mais semelhante ao Triceratops, mas muito maior, conhecido como Eotriceratops. Descrito em 2007, seus achados foram encontrados na formação Horseshoe Canyon de Alberta, e alguns achados indicam restos em Hell Creek, Montana, onde o Triceratops é normalmente encontrado.

Triceratops gigante é o melhor Triceratops. Imagem por Conty.

Triceratops gigante é o melhor Triceratops. Eotriceratops (com o crânio achado até agora) e Triceratops comparados. Imagem por Conty. Extraído de wikipedia.org

Ainda existem debates sobre seu tamanho real, mas mesmo assim é possível afirmar de que era maior que o Triceratops; no entanto, é estimado ter vivido alguns milhões de anos antes dele. Se as estimativas da existência do Eotriceratops puderem ser vistas como estimativas inexatas e existir uma margem de erro, há a possibilidade que este fosse um Triceratops adulto, mas ainda assim é difícil apontar algo concreto com o que sabemos até agora.

Outra possibilidade mais provável é que simplesmente ainda não encontramos indivíduos completamente adultos, o que, aliás, também é usado como argumento por Horner já que nunca foram achados Torosaurus jovens, mas isso é um falso silogismo. Eu poderia, por exemplo, argumentar que pterossauros davam a luz a filhotes vivos já que nunca foram encontrados fósseis de seus ovos. Exceto que, para a surpresa de todos, foram encontradas evidências destes, e eram ovos de casca mole; o que há de mais nisso? Ovos de casca mole são encontrados em espécies que não cuidam de seus filhotes, o que implica que a ideia do pterossauro cuidando de seus filhotes como um pássaro em seu ninho é altamente improvável.

Mas nada que desminta que carregassem humanos a vulcões. Lu Junchang, Instituto de Geologia, Pequim.

Mas nada que desminta que carregassem humanos até vulcões. Pterossauro fêmea preservado junto com seu ovvo. Foto por Lu Junchang, Instituto de Geologia, Pequim. Extraído de CBC.

Em outras palavras, pode ser que nenhum Torosaurus jovem ou Triceratops adulto fora até agora encontrado simplesmente por que paleontólogos dependem de sorte e paciência, mas um dia talvez sejam recompensados com tal achado. Afinal encontramos coisas como o Tiktaalik, o elo perdido entre os peixes e os tetrápodes primitivos, então porque não?

O último furo na teoria de Horner é a especiação de ceratopsianos. Isto é, o processo evolutivo pelo qual as espécies vivas se formam. Horner apresenta uma série de crescimento do casuar, Casuarius casuarius, demonstrando como as formas jovens são diferentes quando comparadas às adultas já que as características destas só são desenvolvidas muito depois, comparado ao que acontece nos mamíferos, e como o mesmo poderia ser aplicado aos dinossauros que poderiam ter formas jovens confundidas como espécies separadas

Nada de errado aqui.

Nada de errado aqui. Sequência de crescimento do Casuarius casuarius, extraída da palestra de Horner.

No entanto, é preciso lembrar que, no caso do casuar, existe outra espécie; o casuar-anão (Casuarius benetti), que se o nome é qualquer pista, é uma espécie menor de casuar nativa de Papua-Nova Guiné e ilhas próximas. Sua área se sobrepõe com uma população de casuares maiores na Nova Guiné, e o crânio dos indivíduos adultos em particular é caracterizado pela falta de uma crista pronunciada como a de seus parentes da Austrália, e poderiam ser posicionados nesta mesma série de crescimento como um indivíduo jovem se não soubéssemos que são espécies diferentes, ou ainda como indivíduos fêmeas se considerarmos que o casuar da Austrália não possui diferenças no formato da crista entre os sexos, mas indivíduos sem crista sendo achados juntos poderia causar um pouco de confusão.

Ops.

Ops. Crânio do Casuarius benetti. Foto por Bird Skull Collection. Extraído de skullsite.com

Agora imagine um lugar com muitas espécies semelhantes, tal como a savana africana e sua imensa variedade de antílopes. Muitas podem apresentar características semelhantes umas às outras, mas todas são únicas de seu próprio jeito, mesmo com esqueletos virtualmente idênticos. Então naturalmente se um paleontólogo alienígena no futuro escavasse fósseis de antílope, eles também poderiam pensar que o pequeno dik-dik é um bebê de gazela, que também seria a forma jovem do pala-pala, já que eles apenas possuem seus ossos com que trabalhar.

Talvez o motivo pelo qual o Torosaurus seja tão semelhante ao Triceratops seja porque estes são parentes próximos, vivendo nas mesmas áreas, mas não necessariamente a mesma espécie. De fato, a outra espécie de Triceratops conhecida, T. prorsus, possui um escudo mais alongado e com nódulos menos pronunciados nas bordas comparado ao T. horridus, que é o que estamos mais acostumados a ver. Ainda talvez o Torosaurus seja de fato o Triceratops, mas não o que conhecemos, mas uma subespécie diferente, mas para se ter certeza é preciso mais achados fósseis que possam dar evidências.

No fim, a ideia de Horner é interessante, mas incoerente com o que observamos. Alguns dizem que o que ele está fazendo é um tipo de zombação construtiva, fazendo afirmações agravantes para incentivar os outros paleontólogos a mostrarem seus trabalhos, o que aparentemente funcionou visto que desde fora publicada sua hipótese, vários outros trabalhos acerca do Triceratops foram feitos. Mas o mais importante é saber que ele continua firme e forme, e muito bem vivo, mesmo que apenas como um nome, para uma magnífica criatura que povoou a Terra há 65 milhões de anos.

Mais uma vez, espero que tenham gostado desse artigo; como de costume, dúvidas ou comentários eu farei o possível para responder. Até a próxima, paleontólogos do espaço!

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Referências e material adicional:

Scannella, J., & Horner, J. 2011. ‘Nedoceratops’: An Example of a Transitional Morphology PLoS ONE, 6 (12) DOI: 10.1371/journal.pone.0028705

TEDxVancouver – Jack Horner – The Shape-Shifting Skulls of Dinosaurs . 2009. Disponível online em: <http://www.youtube.com/watch?v=xYbMXzBwpIo&gt;. Acesso em 5 de dezembro de 2011.

Wikipedia. Triceratops. Disponível online em: <en.wikipedia.org/wiki/Triceratops>. Acesso em 5 de dezembro de 2011.

Wikipedia. Eotriceratops. Disponível online em:  <en.wikipedia.org/wiki/Eotriceratops>. Acesso em 5 de dezembro de 2011.

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