Arquivo do mês: janeiro 2015

Sexta Selvagem: “Caracol-onça-alaranjado”

por Piter Kehoma Boll

Semana passada apresentei uma planária terrestre que se alimenta de caracóis, Obama ladislavii, ou, como eu a chamei, a planária-de-Ladislau. Assim, hoje pensei que seria legal apresentar uma situação similar ocorrendo ao contrário: um caracol que se alimenta de planárias terrestres.

Então deixe-me introduzir este pequeno predador, o caracol Rectartemon depressus. Ele não é uma espécie amplamente conhecida e assim não possui nomes populares, mas por que não chamá-lo de “caracol-onça-alaranjado”? Espécies do gênero Euglandina, que também são caracóis predadores, são chamadas de “caracóis-lobo” em inglês por comparação com um predador comum na América do Norte. Como espécies de Rectartemon são comuns na América do Sul, nós poderíamos chamá-los perfeitamente de “caracóis-onça”, certo?

Rectartemon depressus prestes a capturar uma planária terrestre Obama marmorata. Foto extraída de Lemos et al., 2012

Rectartemon depressus prestes a capturar uma planária terrestre Obama marmorata. Foto extraída de Lemos et al., 2012

Encontrado em áreas de Mata Atlântica no Brasil, o caracol-onça-alaranjado possui um corpo que varia de amarelo a laranja e uma concha esbranquiçada. É listado como uma espécie vulnerável na Lista Vermelha do Brasil, mas não é mencionado na Lista Vermelha da IUCN.

Inicialmente conhecido como um predador de outros gastrópodes terrestres, o caracol-onça-alaranjado revelou um novo item de sua dieta recentemente. Durante tentativas de encontrar itens alimentares da dieta de algumas planárias terrestres do sul do Brasil, o caracol-onça-alaranjado foi oferecido como uma opção de alimento, mas enquanto as expectativas eram de que a planária comeria o caracol, o oposto aconteceu! Após entrar em contato com a planária terrestre, o caracol simplesmente a captura com sua rádula (a língua com dentes do caracol) e a suga muito rapidamente, como se estivesse comendo um macarrão!

O caracol-onça-alaranjado consome avidamente diversas planárias terrestres, tanto espécies nativas quanto exóticas. Isso faz dele um dos primeiros predadores conhecidos de planárias terrestres. Uma de suas presas é a planária-de-Ladislau, de forma que temos um caracol que come uma planária que come caracóis!

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Referências:

Lemos, V., Canello, R., & Leal-Zanchet, A. 2012. Carnivore mollusks as natural enemies of invasive land flatworms. Annals of Applied Biology, 161 (2), 127-131 DOI: 10.1111/j.1744-7348.2012.00556.x

Santos, S. B., Miyahira, I. C., Mansur, M. C. D. 2013. Freshwater and terrestrial molluscs in Brasil: current status of knowledge and conservation. Tentacle, 21, 40-42.

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A planária-da-Nova-Guiné visita a França – uma ameaça

por Piter Kehoma Boll

Desde que a vida existe, ela se espalha. Os organismos se movem (mesmo que somente como gametas ou esporos) e conquistam novos ambientes caso se adaptem. Se não fosse assim, a vida não seria encontrada por todo o planeta. Recentemente, porém, devido à dispersão humana, as espécies conseguem atingir locais bem longe de onde nasceram muito mais facilmente. Consideramos espécies vivendo fora de sua área nativa como sendo exóticas. E há várias delas. Será que existe algum lugar sem espécies exóticas hoje em dia?

No primeiro post deste blog, eu falei sobre como espécies exóticas não são sempre uma ameaça a ecossistemas nativos. Mas muitas são, de fato, perigosas à diversidade local. O ISSG (Invasive Species Specialist Group) lista o que são consideradas as 100 piores espécies invasoras. Estranhamente eles esquecem de mencionar a pior de todas elas, Homo sapiens.

Entre essas 100 espécies, uma bem famosa é o caracol-gigante-africano, Achatina fulica. Nativo da África Oriental, ele foi introduzido por todo o mundo e é uma grande praga em jardins e áreas agrícolas, e também pode ser um hospedeiro intermediário de diversos parasitas que infectam humanos.

O caracol-gigante-africano Achatina fulica. Foto de Eric Guinther*. Extraído de commons.wikimedia.org

O caracol-gigante-africano Achatina fulica. Foto de Eric Guinther*. Extraído de commons.wikimedia.org

Numa tentativa de controlar a população de Achatina fulica, algum “gênio” decidiu introduzir mais uma espécie exótica nas áreas onde A. fulica era uma praga: um predador de caracóis voraz e generalista.

Vamos lutar contra uma praga exótica com outra praga exótica!

Vamos lutar contra uma praga exótica com outra praga exótica!

Como resultado, o caracol predador Euglandina rosea, conhecido como “caracol-lobo-rosado” ou “caracol-canibal” em inglês, foi introduzido em áreas infestadas por A. fulica. Mas E. rosea é nativo da América do Norte, enquanto A. fulica é da África Oriental. De forma a ser efetivo, E. rosea precisava ser um predador generalista, se alimentando de qualquer tipo de caracol. E é isso que ele faz…

O caracol-lobo-rosado Euglandina rosea. Foto de Tim Ross. Extraído de commons.wikimedia.org

O caracol-lobo-rosado Euglandina rosea. Foto de Tim Ross. Extraído de commons.wikimedia.org

Euglandina rosea passou a predar A. fulica, mas… ops! Ele também atacou caracóis nativos e levou diversas espécies à extinção em ilhas do Pacífico. Ele se tornou uma praga ainda pior que o caracol-gigante-africano…

Não satisfeitas com o dano causado por este predador, as pessoas decidiram introduzir mais uma espécie para controlar A. fulica. E a escolha foi outro predador de caracóis voraz e generalista, a planária-da-Nova-Guiné Platydemus manokwari. Como o nome sugere, a planária-de-Nova-guiné é nativa da Nova Guiné, novamente um lugar diferente e, assim, para se alimentar o caracol-gigante-africano, ela precisaria se alimentar de qualquer tipo de caracol. Assim, ela se tornou uma praga tão perigosa quanto a anterior e levou diversas espécies de caracóis à extinção em ilhas do Pacífico.

Até recentemente se pensava que a infestação da planária-da-Nova-Guiné estava restrita à região Indo-Pacífica, não muito longe de casa. Contudo um artigo recente de Justine et al. (2014) registra sua presenta em uma estufa em Caen, no norte da França. Este registro expande significativamente sua ocorrência no mundo e indica que ela pode estar muito mais disseminada do que se pensava anteriormente. Infelizmente, as pessoas estão mais interessadas em preservar seus jardins do que preservar a biodiversidade. Assim estas pragas predadoras provavelmente continuarão sendo introduzidas como controle biológico, mesmo sendo ameaças a ecossistemas.

Bonjour tout le monde! Vim visitar Paris! A planária-da-Nova-Guiné Platydemus manokwari. Foto de Pierre Gros**, extraída de Justine et al., 2014 via commons.wikimedia.org

Bonjour tout le monde! Vim visitar Paris! A planária-da-Nova-Guiné Platydemus manokwari. Foto de Pierre Gros**, extraída de Justine et al., 2014 via commons.wikimedia.org

Felizmente, na França, P. manokwari parece restrista a estufas. Esperemos que ela não seja encontrada em mais nenhum outro lugar.

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Referências:

Albuquerque, F., Peso-Aguiar, M., & Assunção-Albuquerque, M. 2008. Distribution, feeding behavior and control strategies of the exotic land snail Achatina fulica (Gastropoda: Pulmonata) in the northeast of Brazil. Brazilian Journal of Biology, 68 (4), 837-842 DOI: 10.1590/S1519-69842008000400020

ISSG, Invasive Species Specialist Group. 100 of the World’s Worst Invasive Alien Species. Availabe at: < http://www.issg.org/database/species/search.asp?st=100ss >. Access on April 04, 2014.

Justine, J., Winsor, L., Gey, D., Gros, P., & Thévenot, J. 2014. The invasive New Guinea flatworm in France, the first record for Europe: time for action is now. PeerJ, 2DOI: 10.7717/peerj.297

Sugiura, S., Okochi, I., & Tamada, H. 2006. High Predation Pressure by an Introduced Flatworm on Land Snails on the Oceanic Ogasawara Islands. Biotropica, 38(5), 700-703 DOI: 10.1111/j.1744-7429.2006.00196.x

Sugiura, S., & Yamaura, Y. 2008. Potential impacts of the invasive flatworm Platydemus manokwari on arboreal snails. Biological Invasions, 11 (3), 737-742 DOI: 10.1007/s10530-008-9287-1

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Sexta Selvagem: “Planária-de-Ladislau”

ResearchBlogging.org por Piter Kehoma Boll

Hoje apresentarei a vocês outra planária terrestre, e uma que eu particularmente gosto. Seu nome binomial é Obama ladislavii (antigamente Geoplana ladislavii) e, como a maioria das planárias terrestres, ela não tem um nome popular, apesar de eu sugerir que seja “Obama-de-Ladislau” ou “Planária-de-Ladislau”. Agora quem é Ladislau?

Bem, primeiro vamos dar uma olhada em como esta espécie foi primeiramente descrita.

A planária-de-Ladislau foi descrita em 1899 pelo zoólogo Ludwig von Graff em sua famosa monografia, “Monografie der Turbellarien”. Graff a descreveu baseado em espécies enviados a ele do sul do Brasil pelo zoólogo Hermann von Ihering, bem como em outros espécies coletados pelo biólogo Fritz Müller.

Na época em que Ihering e Müller estavam coletando espécimes no Brasil, um botânico chamado Ladislau de Souza Mello Netto era o diretor do Museu Nacional do Rio de Janeiro. Na verdade foi ele quem contratou os dois como naturalistas viajantes, de forma que podemos dizer que ele foi o responsável por eles terem a possibilidade de coletar espécimes no Brasil.

Como resultado, quando estava descrevendo esta nova espécie de planária, Graff decidiu chamá-la de ladislavii em honra a Ladislau Netto. Ao menos é o que eu acho! Eu não encontrei nenhuma referência a isso, visto que Graff não explicou a etimologia do nome da descrição. Contudo a quem mais ladislavii poderia estar se referindo?

Agora que explicamos o nome, é hora de falar do verme propriamente dito.

A planária-de-Ladislau é encontrada no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina e é facilmente reconhecida por sua cor verde. Os maiores espécimes podem medir mais de 10 cm de comprimento e mais de 1cm de largura enquanto estão reptando, de forma que é uma planária consideravelmente grande para os padrões locais.

Obama ladislavii em toda sua verdejância. Foto por Piter K. Boll

Obama ladislavii em toda sua verdejância. Foto de Piter K. Boll*

A maioria das planárias terrestres são encontradas ou em ecossistemas bem preservados, por exemplo, no interior de florestas não perturbadas, ou em ecossistemas bem perturbados, como jardins e parques urbanos. Já a planária-de-Ladislau pode ser encontrada vivendo muito bem tanto em paraísos naturais no meio de uma floresta densa quanto em pequenos jardins ao lado de uma rua movimentada. Como isso é possível?

A história de vida de muitas espécies de planárias terrestres é completamente desconhecida, de maneira que nem mesmo sabemos o que elas comem. Elas são conhecidas como predadores importantes de outros invertebrados, mas isso não basta, já que ser um predador não significa que você coma qualquer coisa que se move, certo?

Até recentemente, sabíamos muito pouco sobre a planária-de-Ladislau, mas eu comecei a estuda-la junto com outras espécies nos últimos anos e assim agora temos ao menos uma ideia do que ela come, e a resposta é: Gastrópodes, isto é, lesmas e caracóis!

Geralmente encontramos gastrópodes em jardins, parques, plantações e qualquer lugar em que humanos plantam algo, então eles são uma refeição disponível para a planária-de-Ladislau. Ela se alimenta de muitas daquelas pragas incômodas que você pode encontrar no seu jardim, incluindo o caracol-de-jarim (Helix aspersa), o caracol-dourado (Bradybaena similaris) e a lesma-das-verduras (Deroceras laeve).

Obama ladislavii and one of its snacks, the snail Bradybaena similaris

Obama ladislavii e um dos seus petiscos, o caracol Bradybaena similaris. Foto de Piter K. Boll*

A planária-de-Ladislau pode seguir o rastro de muco deixado pelo gastrópode de maneira a encontrar e capturá-lo. A forma mais eficiente para a planária subjugar a presa é contornando-a com o corpo e usando força muscular, não muito diferente do que faz uma cobra constritora.

Levando em conta seu gosto por pragas, a planária-de-Ladislau parece ser um bom item a ter em seu jardim, certo? Sim, mas só se você morar no sul do Brasil. Exportá-la para outras áreas pode levar a resultados catastróficos.

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Referências:

Boll, P., & Leal-Zanchet, A. (2014). Predation on invasive land gastropods by a Neotropical land planarian Journal of Natural History, 1-12 DOI: 10.1080/00222933.2014.981312

Graff, L. v. 1899. Monographie der Turbellarien. II. Tricladida Terricola. Engelmann, Leipzig, 574 p.

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Fazendo cocô para evoluir: como as fezes nos permitiram existir

por Piter Kehoma Boll

Bilhões de anos atrás, quando as primeiras formas de vida surgiram na Terra, nosso planeta era bem diferente do que é hoje. O oxigênio, tão essencial para nossa sobrevivência, não estava presente na atmosfera.

Graças ao surgimento das primeiras bactérias fotossintetizantes, as chamadas cianobactérias ou algas azuis, nossa atmosfera passou a acumular oxigênio. Como você deve saber, a fotossíntese é um professo pelo qual plantas e outros organismos fotossintéticos convertem água e dióxido de carbono em oxigênio e compostos orgânicos.

O oxigênio é um elemento muito reativo, de forma que pode facilmente interagir com outros compostos e é ótimo para queimar matéria orgânica e liberar energia. Sem oxigênio, a vida heterotrófica, tal como os animais, não conseguiria usar grandes quantidades de energia e portanto não teria sido capaz de adquirir um grande tamanho.

Como você também deve saber, os animais muito provavelmente surgiram nos oceanos e só muito mais tarde conquistaram o ambiente terrestre. Contudo o oxigênio produzido pela fotossíntese se acumula principalmente na atmosfera e não nos oceanos. Hoje, somente 1% do oxigênio global se encontra nos oceanos, e era ainda pior nos primeiros milhões de anos de vida multicelular. Você sabe por quê?

Os animais mais primitivos vivos hoje são as esponjas, as quais são bem diferentes de ouros animais. Elas geralmente possuem um corpo oco com vários poros, os quais funcionam como pequenas bocas através das quais água contendo pequenos organismos planctônicos e outra matéria orgânica é puxada para dentro e depois eliminada por uma grande abertura no topo do corpo. Assim a principal coisa que as esponjas fazem é misturar a água e extrair uma pequena porção de matéria orgânica da coluna d’água. Suas fezes, quando voltam à água, não são muito diferentes em tamanho da matéria orgânica que elas ingeriram inicialmente.

Esponjas ingerem partículas orgânicas e eliminam partículas orgânicas. Elas não são muito eficientes em remover matéria orgânica da coluna d'água.

Esponjas ingerem partículas orgânicas e eliminam partículas orgânicas. Elas não são muito eficientes em remover matéria orgânica da coluna d’água.

Assim, em um mundo só de esponjas, a coluna d’água possivelmente estava sempre lotada de matéria orgânica dissolvida. Isso era um banquete para bactérias, questão sempre ávidas para decompor matéria orgânica e, ao fazer isso, consomem grandes quantidades de oxigênio. Portanto água com grandes quantidades de matéria orgânica aumenta a atividade bacteriana e deixa o ambiente anóxico, isto é, sem oxigênio. Como consequência, não havia oxigênio disponível para que os animais se tornassem grandes.

Apesar de não crescerem muito, os animais ainda estavam evoluindo, é claro, e eventualmente surgiram os animais bilaterais. Animais bilaterais possuem simetria bilaterial e, a característica mais importante para esta história, um intestino. Isso significa que eles ingerem comida, a digerem, processam e depois eliminam os restos como… cocô! No intestino, as fezes se tornam compactas e afundam muito mais rapidamente para o fundo do oceano, limpando a coluna d’água de matéria orgânica e drasticamente reduzindo a atividade bacteriana. Sem bactérias decompondo na coluna d’água, os níveis de oxigênio rapidamente começaram a aumentar, permitindo que os animais crescessem e coisas como peixes evoluíssem.

Animais bilaterais produzem fezes compactas que afundam, limpando a coluna d'água.

Animais bilaterais produzem fezes compactas que afundam, limpando a coluna d’água.

Se os animais nunca tivessem começado a fazer cocô, nós provavelmente nunca teríamos chegado a este mundo. Vida longa ao cocô!

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Referências:

Holland, H. D. 2006. The oxygenation of the atmosphere and oceans. Philosophical transactions of the Royal Society B, 370: 903-915.

Turner, J. T. 2002. Zooplankton fecal pellets, marine snow and sinking phytoplankton blooms. Aquatic Microbial Ecology, 27: 57-102.

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