Arquivo da categoria: Parasitas

Devemos salvar ou nos livrar de parasitas?

por Piter Kehoma Boll

Parasitas são um tipo especial de organismos que vivem sobre ou dentro de outras formas de vida, lentamente se alimentando delas, mas geralmente não as matando, apenas reduzindo sua condição física em algum grau. Essa é uma forma muito mais discreta de sobreviver do que matar ou arrancar pedaços inteiros com uma mordida, como predadores (tanto carnívoros quanto herbívoros) fazem. Todavia, diferente destas criaturas, parasitas costumam ser visto como desagradáveis e nojentos. Ainda assim, o parasitismo é a forma mais comum de conseguir alimento na natureza.

Quando apresentei o carrapato-de-rinoceronte numa Sexta Selvagem recente, mencionei o dilema causado por isso. Como o carrapato-de-rinoceronte é um parasita de rinocerontes, e rinocerontes estão ameaçados de extinção, uma prática comum para melhorar o sucesso reprodutivo destes mamíferos é remover seus carrapatos, mas isso pode acabar levando o carrapato-de-rinoceronte à extinção também.

Isso de fato já aconteceu com outros parasitas, como o piolho Coleocephalum californici, que era um parasita exclusivo do condor-da-Califórnia, Gymnogyps californianus. Para salvar o condor, uma prática comum entre veterinários trabalhando com os conservacionistas era tirar os piolhos das aves e, como resultado, este piolho está agora extinto. O prejuízo que o piolho causava ao condor era tão pouco, no entanto, que sua extinção não era nem um pouco necessária, sendo nada mais que um caso de negligência e falta de empatia com uma espécie pequena e não-carismática.

O piolho-do-condor-da-Califórnia Coleocephalum californici se tornou extinto durante uma campanha mal manejada para salvar o condor-da-Califórnia Gymnogyps californianus. Imagem extraída de https://www.hcn.org/blogs/goat/the-power-and-plight-of-the-parasite

O piolho Rallicola (Aptericola) pilgrimi também desapareceu para sempre durante as campanhas de conservação para salvar seu hospedeiro, o kiwi-manchado-pequeno, Apteryx owenii, em outro trabalho falho.

Os esforços para salvar o kiwi-manchado-pequeno, Apteryx owenii, da extinção levou à extinção de seu piolho. Foto de Judi Lapsley Miller.*
A agora extinta Rallicola (Aptericola) pilgrimi. Créditos ao Museu da Nova Zelândia.**

Outro grupo de parasitas que está enfrentando a extinção são as pulgas. A espécie Xenopsylla nesiotes era endêmica da Ilha do Natal junto com seu hospedeiro, o rato-da-Ilha-do-Natal, Rattus macleari. A introdução do rato-preto, Rattus rattus, na ilha levou a um rápido declínio na população do rato-da-Ilha-do-Natal, que se tornou extinto no começo do século XX e, é claro, a pulga se extinguiu com ele. A pulga Acanthopsylla saphes provavelmente se tornou extinta também. Ela era parasita do quol-oriental, Dasyurus viverrinus, na Austrália continental. O quol-oriental hoje só é encontrado na Tasmânia, pois a população da Austrália continental se tornou extinta em meados do século XX. Contudo a pulga nunca foi encontrada em populações da Tasmânia, então provavelmente ela desapareceu na Austrália continental junto com a população local do hospedeiro.

A pulga-do-bobo-pequeno Ceratophyllus (Emmareus) fionnus. Foto de Olha Schedrina, Natural History Museum.*

Mas as coisas vêm mudando ultimamente e felizmente a visão sobre os parasitas está melhorando. Uma avaliação recente foi feita numa população de outra pulga, a pulga-do-bobo-pequeno, Ceratophyllus (Emmareus) fionnus. Esta pulga tem como hospedeiro específico o bobo-pequeno, Puffinus puffinus. Apesar de o bobo-pequeno estar longe de ser uma espécie ameaçada e ter muitas colônias ao longo da costa do Atlântico Norte, a pulga é endêmica da Ilha de Rùm, uma pequena ilha ao oeste da costa da Escócia. Devido à pequena população do hospedeiro nesta ilha, a pulga foi avaliada como vulnerável. Se a população do bobo-pequeno na ilha estivesse estável, as coisas estariam bem, mas, como você já deve imaginar, as coisas não estão bem. Assim como aconteceu na Ilha do Natal, o rato-preto também foi introduzido na Ilha de Rùm e se tornou um predador do bobo-pequeno, atacando seus ninhos.

O bobo-pequeno, Puffinus puffinus, é o único hospedeiro da pulga-do-bobo-pequeno. Foto de Martin Reith.**

Algumas ideias foram sugeridas para proteger a pulga da extinção. Uma delas é erradicar o rato-preto da ilha ou ao menos manejar sua população perto da colônia de bobos-pequenos. Outra proposta é translocar algumas pulgas para outra ilha para criar populações adicionais em outras colônias de bobos-pequenos.

Mas por que se dar ao trabalho de proteger parasitas? Bem, há razões o bastante. Primeiro, eles compreendem uma enorme parcela da biodiversidade do planeta e sua perda teria forte impacto sobre qualquer ecossistema. Segundo, eles são uma parte essencial da história evolutiva de seus hospedeiros e são, portanto, promotores de diversidade por seleção natural. Remover os parasitas de um hospedeiro eventualmente reduziria sua variabilidade genética e o deixaria mais vulnerável a novos parasitas. Devido à sua coevolução com o hospedeiro, parasitas também são uma fonte valiosa de informação sobre a ecologia e a história evolutiva do hospedeiro, ajudando-nos a conhecer a dinâmica de suas populações. Podemos até encontrar maneiras de lidar com nossos próprios parasitas ao estudar os parasitas de outras espécies, e parasitas são certamente algo que os humanos conseguiram coletar em grande número enquanto se espalhavam pelo globo.

Os parasitas podem ser incômodos, mas são necessários. Pode parecer que eles enfraquecem o hospedeiro a princípio, mas, a longo prazo, o que não te mata te fortalece.

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Referências:

Kirst ML (2012) The power and plight of the parasite. High Country News. Available at < https://www.hcn.org/blogs/goat/the-power-and-plight-of-the-parasite >. Access on 3 November 2019.

Kwak ML (2018) Australia’s vanishing fleas (Insecta: Siphonaptera): a case study in methods for the assessment and conservation of threatened flea species. Journal of Insect Conservation 22(3–4): 545–550. doi: 10.1007/s10841-018-0083-7

Kwak ML, Heath ACG, Palma RL (2019) Saving the Manx Shearwater Flea Ceratophyllus (Emmareus) fionnus (Insecta: Siphonaptera): The Road to Developing a Recovery Plan for a Threatened Ectoparasite. Acta Parasitologica. doi: 10.2478/s11686-019-00119-8

Rózsa L, Vas Z (2015) Co-extinct and critically co-endangered species of parasitic lice, and conservation-induced extinction: should lice be reintroduced to their hosts? Oryx 49(1): 107–110. doi: 10.1017/S0030605313000628

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*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição 4.0 Internacional.

**Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 3.0 Não Adaptada.

***Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição Não Comercial Sem Derivações 4.0 Internacional.

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Sexta Selvagem: Vespa-da-Galha-do-Eucalipto

por Piter Kehoma Boll

Galhas são crescimentos anormais comuns em tecidos de plantas, sendo similares às verrugas dos animais, e podem ser causadas por diferentes parasitas, incluindo vírus, bactérias, fungos, artrópodes e às vezes até mesmo outras plantas. Às vezes galhas podem ser inofensivas, mas elas geralmente conseguem afetar o desempenho da planta num grau que a prejudica.

Em várias espécies de eucalipto, incluindo o eucalipto-vermelho apresentado aqui semana passada, um agente comum que causa galhas é Ophelimus maskelli, conhecida como a vespa-da-galha-do-eucalipto. Como seu nome sugere, esta espécie é uma vespa, mais precisamente uma vespa calcídea, portanto relacionado a várias vespas parasitoides e às vespas-das-figueiras.

Uma fêmea adulta da vespa-da-galha-do-eucalipto. Extraído de https://bicep.net.au/pests/ophelimus-maskelli/

A vespa-da-galha-do-eucalipto é muito pequena, medindo, quando adulta, somente cerca de 1 mm de comprimento e tendo um corpo preto. Após acasalar, a fêmea procura por folhas de eucalipto imaturas que tenham de 15 a 90 dias de idade e estejam na parte baixa da copa porque as folhas são maiores lá. Uma fêmea põe cerca de 100 ovos e prefere a área perto do pecíolo da folha. Assim que os ovos são postos, uma reação nos tecidos da folha leva à formação das galhas, com uma larva crescendo dentro de cada uma. Em árvores com grandes infestações, uma folha inteira pode ser coberta e pode haver até 36 galhas por cm². A larva empupa dentro da galha e a deixa ao atingir o estágio adulto.

Uma folha de eucalipto com infestação pesada, tendo inúmeros galhas. Créditos a NHML Community Science Program.*

Depois da emergência dos adultos, as folhas, especialmente as altamente infestadas, começam a secar e morrem, enfraquecendo a árvore. Como resultado, a vespa-da-galha-do-eucalipto é considerada uma séria praga do eucalipto e pode ter efeitos devastadores em plantações destas árvores.

A vespa-da-galha-do-eucalipto é nativa da Austrália, já que a maioria das espécies de eucalipto vem de lá, mas foi acidentalmente introduzida em vários outros países junto com as árvores, especialmente nas últimas décadas. As galhas são facilmente identificadas como erupções meio ovais bem pequenas, não muito altas, visíveis tanto pelo lado de cima quanto pelo lado de baixo da folha. Depois que o adulto emerge, há um buraco visível na galha e o tecido ao redor dele começa a secar.

Vários métodos para reduzir as infecções são usados, incluindo pesticidas e controle biológico, especialmente de outras vespas calcídeas como a parasitoide Closterocerus chamaeleon. Considerando que esta praga é um incômodo relativamente novo em escala global, métodos eficientes de controle ainda estão em desenvolvimento.

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Mais himenópteros:

Sexta Selvagem: Tocandira (em 27 de maio de 2016)

Sexta Selvagem: Jataí (em 12 de agosto de 2016)

Sexta Selvagem: Mosca-Serra-do-Nabo (em 17 de maio de 2019)

Sexta Selvagem: Vespa-da-Figueira-Lacerdinha (em 5 de julho de 2019)

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Referências:

Branco M, Boavida C, Durand N, Franco JC, Mendel Z (2009) Presence of the Eucalyptus gall wasp Ophelimus maskelli and its parasitoid Closterocerus chamaeleon in Portugal: First record, geographic distribution and host preference. Phytoparasitica 37(1): 51–54. doi: 10.1007/s12600-008-0010-7

Burks RA, Mottern JL, Waterworth R, Paine TD (2015) First report of the Eucalyptus gall wasp, Ophelimus maskelli (Hymenoptera: Eulophidae), an invasive pest on Eucalyptus, from the Western Hemisphere. Zootaxa 3926(3): 448–450. doi: 10.11646/zootaxa.3926.3.10

Dhahri S, Ben Jamaa ML, Lo Verde G (2010) First record of Leptocybe invasa and Ophelimus maskelli eucalyptus gall wasps in Tunisia. Tunisian Journal of Plant Protection 5: 231–236.

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Sexta Selvagem: Carrapato-de-Rinoceronte

por Piter Kehoma Boll

Parasitas existem existem em todo lugar e, apesar de muitos de nós verem-nos como criaturas odiosas, mais da metade de todas as formas de vida conhecidas vivem como parasitas pelo menos em parte da vida. E provavelmente há muitos parasitas ainda desconhecidos por aí. Hoje vou falar sobre um deles, que é encontrado em grandes porções da África.

Seu nome é Dermacentor rhinocerinus, conhecido como o carrapato-de-rinoceronte. Como seu nome sugere, ele é um carrapato, portanto um ácaro parasita, e seu estágio adulto vive na pele dos rinocerontes-brancos (Ceratotherium simum) e dos criticamente ameaçados rinocerontes-negros (Diceros bicornis).

Um carrapato-de-rinoceronte macho preso à pele de um rinoceronte na África do Sul. Créditos ao usuário bgwright do iNaturalist.*

Machos e fêmeas do carrapato-de-rinoceronte são consideravelmente diferentes. Em machos, o corpo possui um fundo preto com muitas manchas laranjas grandes. Em fêmeas, por outro lado, o abdome é principalmente preto com somente duas grandes manchas laranjas e a placa no tórax é laranja com duas pequenas manchas pretas. Machos e fêmea acasalam na superfície dos rinocerontes. Após o acasalamento, a fêmea começa a aumentar de tamanho enquanto os ovos se desenvolvem dentro dela e então cai ao chão, pondo os ovos lá.

Um carrapato-de-rinoceronte fêmea esperando pacientemente que um rinoceronte passe por perto. Foto de Martin Weigand.*

As larvas, assim que eclodem, passam a procurar por outro hospedeiro, geralmente um mamífero de pequeno porte como roedores e musaranhos-elefantes. Elas se alimentam desse hospedeiro menor até atingirem o estágio adulto, quando então caem ao chão e sobem na vegetação ao redor, esperando que um rinoceronte passe por ali e então se agarrando a ele.

Esforços de conservação para preservar a biodiversidade são focados principalmente em vertebrados, especialmente aves e mamíferos. Rinocerontes, que são hospedeiros essenciais para o carrapato-de-rinoceronte sobreviver, são frequentemente parte de programas de conservação e, de maneira a aumentar seu sucesso reprodutivo, a prática de remover parasitas de sua pele é comum. Isso é, no entanto, ruim para os carrapatos-de-rinoceronte. Se seu hospedeiro está ameaçado, eles certamente estão ameaçados também, e removê-los piora ainda mais sua condição. Os parasitas são menos importantes para o planeta? Eles não merecem viver como qualquer outra forma de vida? Não podemos nos esquecer de que a natureza precisa de mais do que só aquilo que consideramos bonito.

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Mais ácaros e carrapatos:

Sexta Selvagem: Ácaro-de-Veludo-Vermelho-Gigante (em 22 de junho de 2016)

Sexta Selvagem: Ácaro-da-Lacerdinha-da-Figueira (em 28 de junho de 2019)

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Referências:

Horak IG, Fourie LJ, Braack LEO (2005) Small mammals as hosts of immature ixodid ticks. Onderstepoort Journal of Veterinary Research 72:255–261.

Horak IG, Cohen M (2001) Hosts of the immature stages of the rhinoceros tick, Dermacentor rhinocerinus (Acari, Ixodidae). Onderstepoort Journal of Veterinary Research 68:75–77.

Keirans JE (1993) Dermacentor rhinocerinus (Denny 1843) (Acari: Ixodida: Ixodidae): redescription of the male, female and nymph and first description of the larva. Onderstepoort Journal of Veterinary Research 60:59–68.

Mihalca AD, Gherman CM, Cozma V (2011) Coendangered hard ticks: threatened or threatening? Parasites & Vectors 4:71. doi: 10.1186/1756-3305-4-71

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Sexta Selvagem: Aduela-do-Salmão

por Piter Kehoma Boll

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Todos conhecem salmões, especialmente o salmão-do-Atlântico, Salmo salar, e muitos de nós amam comer essa espécie de peixe também. Mas eu não estou aqui para falar do salmão-do-Atlântico em si, mas para falar sobre um de seus companheiros e antagonistas mais próximos, a aduela-do-salmão.

Cientificamente conhecida como Gyrodactylus salaris, a aduela-do-salmão é um platelminto do clado Monogenea, um grupo de ectoparasitas que infectam principalmente peixes. Como seu nome sugere, a aduela do salmão infecta salmões, tal como o salmão-do-Atlântico e espécies proximamente relacionadas, como a truta-arco-íris Onchorrhynchus mykiss.

Várias aduelas-do-salmão em um hospedeiro. Foto de Tora Bardal. Extraído de
https://www.drivaregionen.no/no/Gyrodactylus-salaris/

A aduela-do-salmão foi descrita pela primeira vez em 1952 em salmões de uma população báltica que eram mantidos em um laboratório sueco. Medindo cerca de 0.05 mm de comprimento, a aduela-do-salmão se prende à pele do peixe e é pequena demais para ser vista a olho nu. Ela se prende usando um órgão especializado cheio de minúsculos ganchos, chamado haptor, localizado na extremidade posterior do corpo. Quando se alimenta, a aduela-do-salmão prende a boca na superfície do peixe usando glândulas em sua cabeça e everte a faringe através da boca, liberando enzimas digestivas no peixe, dissolvendo sua pele, que é então ingerida. Os ferimentos causados pela alimentação do parasita podem levar a infecções secundárias que afetam seriamente a saúde do salmão.

Micrografia de microscopia eletrônica de varredura de cinco espécimes de Gyrodactylus salaris. Créditos a Jannicke Wiik Nielsen. Extraído de https://www.vetinst.no/nyheter/kan-gyrodactylus-salaris-utryddes-i-drammensregionen

Diferente da maioria dos platelmintos parasitas, os monogêneos como a aduela-do-salmão possuem apenas um hospedeiro. Durante a reprodução, os adultos hermafroditas liberam uma larva ciliada chamada oncomiracídio que infecta novos peixes. Uma só aduela pode originar uma população inteira porque é capaz de se autofertilizar.

Durante os anos 1970, uma infecção massiva pela aduela-do-salmão aconteceu na Noruega após a introdução de linhagens infectadas de salmão. Isso levou a uma diminuição catastrófica de populações do salmão no país, afetando muitos rios. Devido a essa ameaça evidente a uma espécie tão importante comercialmente, várias técnicas vem sendo desenvolvidas para controlar e matar o parasita. Os primeiros métodos desenvolvidos incluem o uso de pesticidas em rios, mas estes acabavam tendo um efeito negativo em muitas espécies, incluindo os próprios salmões. Atualmente, métodos novos e menos agressivos vêm sendo usados.

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Referências:

Jansen, P. A., & Bakke, T. A. (1991). Temperature-dependent reproduction and survival of Gyrodactylus salaris Malmberg, 1957 (Platyhelminthes: Monogenea) on Atlantic salmon (Salmo salar L.). Parasitology, 102(01), 105. doi:10.1017/s0031182000060406

Johnsen, B. O., & Jenser, A. J. (1991). The Gyrodactylus story in Norway. Aquaculture, 98(1-3), 289–302. doi:10.1016/0044-8486(91)90393-l

Meinilä, M., Kuusela, J., Ziętara, M. S., & Lumme, J. (2004). Initial steps of speciation by geographic isolation and host switch in salmonid pathogen Gyrodactylus salaris (Monogenea: Gyrodactylidae). International Journal for Parasitology, 34(4), 515–526. doi:10.1016/j.ijpara.2003.12.002

Wikipedia. Gyrodactylus salaris. Disponível em < https://en.wikipedia.org/wiki/Gyrodactylus_salaris >. Access em 26 de dezembro de 2018.

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Sexta Selvagem: Verme-listrado-de-verde

por Piter Kehoma Boll

Os parasitas são muito especiosos, e frequentemente eu sinto que não estou dando espaço suficiente para eles aqui, especialmente quando eu lhes trago um platelminto, que é provavelmente o grupo com o maior número de espécies parasitas. Então vamos falar de um deles hoje finalmente.

O pimeiro platelminto parasita que eu apresentarei a vocês é Leucochloridium paradoxum, o verme-listrado-de-verde. Ele é um membro do grupo Trematoda e, como todos os trematódeos, possui um ciclo de vida complexo.

Os adultos do verme-listrado-de-verde vivem no intestino de vários pássaros da América do Norte e da Europa. Os ovos que eles põem chegam ao ambiente através das fezes das aves e são eventualmente ingeridos por caracóis do gênero Succinea.

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Um indivíduo adulto de Leucochloridium paradoxum (esquerda), um hospedeiro intermediário infectado, um caracol do gênero Succinea (centro) e os esporocistos ao longo dos õgrãos internos do caracol (direita). Imagens não em escala. Extraído de http://medbiol.ru/medbiol/dog/0011a975.htm

Adultos de Leucochloridium paradoxum são muito similares aos adultos de outras espécies do gênero Leucochloridium. A principal diferença é vista nos estágios larvais. Dentro do corpo do caracol, os ovos eclodem no primeiro estágio larval, o miracídio, que dentro do sistema digestivo do caracol se desenvolve no próximo estágio, o esporocisto.

O esporocisto tem a forma de um saco longo e inchado que é marcado de listras verdes (de onde o nome). Ele é preenchido de cercárias, que são o próximo estágio larval. O esporocisto então migra em direção aos tentáculos dos olhos do caracol, invadindo-os e tornando-os uma estrutura inchada, colorida e pulsante que se assemelha a uma lagarta. Nesse estágio da infecção, o pobre caracol provavelmente está cego e não consegue evitar a luz como normalmente faz. Como resultado, ele fica exposto a aves que o confundem com uma suculenta lagarta e o comem com avidez.

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Um pobre caracol da espécie Succinea putris com um verme-listrado-de-verde em seu tentáculo ocular esquerdo. Só há um destino terrível para essa criatura. Foto de Thomas Hahmann.*

Quando o caracol é comido, o esporocisto arrebenta e várias cercárias são liberadas. No intestino da ave, elas se desenvolvem em adultos e recomeçam o pesadelo.

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Referências:

Rząd, I.; Hofsoe, R.; Panicz, R.; Nowakowski, J. K. (2014) Morphological and molecular characterization of adult worms of Leucochloridium paradoxumCarus, 1835 and L. perturbatum Pojmańska, 1969 (Digenea: Leucochloridiidae) from the great tit, Parus major L., 1758 and similarity with the sporocyst stages. Journal of Helminthology 88(4): 506-510. DOI: 10.1017/S0022149X13000291

Wikipedia. Leucochloridium paradoxum. Disponível em < https://en.wikipedia.org/wiki/Leucochloridium_paradoxum >. Accesso em 8 de março de 2018.

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Sexta Selvagem: H. pylori

por Piter Kehoma Boll

Já apresentei três espécies de bactéria aqui, todas de vida livre ou amiguinhas. Mas todos sabemos que muitas bactérias podem ser um verdadeiro incômodo para nós, humanos, então é hora de mostrar algumas dessas, certo?

Eu decidi começar com uma que eu pensei estar vivendo dentro de mim algum tempo atrás (mas no fim não estava), e esta é a temperamental Helicobacter pylori, que como sempre não tem nome comum, mas ela é comumente chamada de H. pylori pelos médicos, então vou chamá-la assim.

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Micrografia eletrônica de um espécie de H. pylori mostrando os flagelos.

O lugar mais comum para se encontrar a H. pylori é dentro do estômago. Estima-se que mais da metade da população humana tenha essa bactéria vivendo em seu trato gastrointestinal, mas na maioria das vezes isso não afeta sua vida em nada. No entanto algumas vezes as coisas podem ficar feias.

H. pylori é uma bactéria de 3 µm de comprimento com o formato de um bastão retorcido, de onde o nome Helicobacteri, significando “bastão hélice”. Ela também tem um conjunto de quatro a seis flagelos em uma de suas extremidades, o que a faz uma bactéria muito móvel. Pensa-se que o formato torcido, junto com os flagelos, é útil para a H. pylori penetrar o revestimento de muco do estômago. Ela faz isso para escapar do ambiente extremamente ácido no estômago, sempre penetrando em direção a um lugar menos ácido, eventualmente chegando ao epitélio do estômago e às vezes até vivendo dentro das células epiteliais.

De maneira a evitar ainda mais os ácidos, a H. pylori produz grandes quantidades de urease, uma enzima que digere a ureia no estômago, produzindo amônia, a qual é tóxica para humanos. A presença de H. pylori no estômago pode levar a inflamação como uma resposta imune do hospedeiro, o que aumenta as chances das membranas mucosas do estômago e do duodeno serem prejudicadas pelos fortes ácidos, levando a gastrite e eventualmente úlceras.

A associação entre humanos e H. pylori parece ser bem velha, possivelmente tão velha quanto a espécie humana em si, pois suas origens foram traçadas até a África Oriental, o berço do Homo sapiens. Esta bactéria é, portanto, um velho amigo e rival e provavelmente continuará conosco por muitos e muitos anos no futuro.

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Referências:

Linz, B.; Balloux, F.; Moodley, Y. et al. (2007) An African origin for the intimate association between humans and Helicobacter pyloriNature 445: 915–918. https://dx.doi.org/10.1038/nature0556

Wikipedia. Helicobacter pylori. Disponível em < https://en.wikipedia.org/wiki/Helicobacter_pylori >. Acesso em 5 de agsto de 2017.

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Sexta Selvagem: Acroqueta-operculada

por Piter Kehoma Boll

Semana passada apresentei uma alga vermelha, o musgo-irlandês. Hoje estou trazendo outra alga, desta vez uma verde, mas essa não é uma alga verde comum, mas sim uma parasita do musgo-irlandês! Então vamos falar sobre Acrochaete operculata, ou a acroqueta-operculada, como eu decidi chamá-la em português, visto que obviamente não haveria um nome comum para uma alga que parasita outra alga.

Descoberta e nomeada em 1988, a acroqueta-operculada é um parasita exclusivo de Chondrus crispus. A infecção ocorre quando zoósporos flagelados do parasita se depositam na parede celular externa do musgo-irlandês, onde começam seu desenvolvimento e digerem a parede celular, penetrando os tecidos do hospedeiro. Em esporófitos do musgo-irlandês, a acroqueta-operculada digere a matriz intercelular e se espalha pela fronde, enquanto em gametófitos as infecções permanecem localizadas, formando pápulas. Os danos causados pela alga verde levam a infecções secundárias por outros organismos, especialmente bactérias, e as frondes infectadas acabam se despedaçando, completamente degradadas.

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Uma fronde do hospedeiro (Chondrus crispus) à esquerda e a parasita Acrochaete operculata que infecta seus tecidos à direita. Foto extraída de chemgeo.uni-jena.de

Como mencionado semana passada, os esporófitos e os gametófitos do musgo-irlandês possuem diferentes formas do polissacarídeo carragenina e essa parece ser a razão por que o parasita infecta ambos diferentemente. Os esporófitos possuem lambda-carragenina, a qual parece aumentar a virulência do parasita, enquanto a kappa-carragenina do gametófito parece limitar a dispersão da alga verde.

Desde sua descoberta, a acroqueta-operculada e sua interação com o musgo-irlandês foram estudadas tanto como uma forma de reduzir os danos em cultivos da alga vermelha quanto como um modelo para entender a relação de plantas e seus patógenos.

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Referências:

Bouarab, K.; Potin, P.; Weinberger, F.; Correa, J.; Kloareg, B. (2001) The Chondrus crispus-Acrochaete operculata host-pathogen association, a novel model in glycobiology and applied phycopathology. Journal of Applied Phycology 13(2): 185-193.

Correa, J. A.; McLachlan, J. L. (1993) Endophytic algae of Chondrus crispus (Rhodophyta). V. Fine structure of the infection by Acrochaete operculata (Chlorophyta). European Journal of Phycology 29(1): 33–47. http://dx.doi.org/10.1080/09670269400650461

Correa, J. A.; Nielsen, R.; Grund, D. W. (1988) Endophytic algae of Chondrus crispus (Rhodophyta). II. Acrochaete heteroclada sp. nov., A. operculata sp. nov., and Phaeophila dendroides (Chlorophyta). Journal of Phycology 24: 528–539. http://dx.doi.org/10.1111/j.1529-8817.1988.tb04258.x

 

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