Arquivo da categoria: Aranhas

Meio macho, meio fêmea: os incríveis animais ginandromorfos

por Piter Kehoma Boll

Em espécies dioicas, isto é, aquelas em que machos e fêmeas são organismos separados, o dimorfismo sexual é muito comum. É geralmente possível dizer se um indivíduo é macho ou fêmea apenas por características externas, como o padrão de cor, o tamanho ou a proporção de diferentes partes do corpo.

800px-male_and_female_superb_fairy_wren

Macho (esquerda) e fêmea (direita) de Malurus cyaneus. Um caso de forte dimorfismo sexual. Foto do usuário Benjamint444 do Wikimedia.*

Vertebrados e artrópodes são certamente os dois filos em que o dimorfismo sexual é melhor conhecido e encontrado muito frequentemente. Veja, por exemplo, as aves acima e as aranhas abaixo.

521px-male_and_female_a-_appensa

Uma fêmea (esquerda) e um macho (direita) da aranha Argiope apensa. A diferença em tamanho é mais do que evidente. Foto do usuário Sanba38 do Wikimedia.*

Os mecanismos que levam ao dimorfismo sexual são geralmente os mesmos que levam a diferenças no sexo em si. Em mamíferos, aves e artrópodes, é geralmente devido a diferenças nos cromossomos. Em outros grupos, como crocodilos e serpentes, ele pode ser simplesmente resultado da temperatura de incubação. Não é incomum encontrar desvios desta dicotomia “ideal” com organismos mostrando combinações cromossômicas incomuns ou outras características que originam formas intermediárias, tais como indivíduos hermafroditas ou andróginos. Temos muito disso na nossa própria espécie!

Há, contudo, uma mistura de macho e fêmea muito mais intrigante e impressionante que geralmente é encontrada em artrópodes. Conhecida como ginandromorfismo, este fenômeno cria espécimes com caracteres masculinos e femininos misturados formando um mosaico no qual uma parte do corpo é macho e outra é fêmea. E essa distribuição é geralmente bilateral, com um lado do corpo sendo macho e o outro sendo fêmea.

800px-zwitterhauhechelblaeuling

Ginandromorfo da azul-comum (Polyommatus icarus). Macho do lado esquerdo e fêmea do lado direito. Foto de Burkhard Hinnersmann.*

800px-heteropteryx_dilatata_0034b_l-d

Ginandromorfo do bicho-pau-da-Malásia (Heteropteryx dilatata). Macho no lado esquerdo e fêmea no lado direito. Foto do usuário Acrocynus do Wikimedia.*

Um artigo recente de Labora & Pérez-Miles (2017) descreve o primeiro registro de ginandromorfismo em uma aranha migalomorpha (i.e., uma caranguejeira). Como as imagens não são distribuídas numa licença aberta ou de criação comum, não posso publicá-las aqui, mas você pode ler o artigo de graça graças ao nosso mais amado deus, SciHub.

As causas do ginandromorfismo não são sempre claras, mas a maioria das vezes ele parece ser resultado de deficiências cromossômicas na mitose durante os primeiros estágios de desenvolvimento embrionário. Assim, é mais comum de ocorrer em indivíduos que eram originalmente heterogaméticos, i.e., eles tinham dois cromossomos sexuais diferentes em seu zigoto.

gynandromorph

Um cardeal ginandromorfo (Cardinalis cardinalis). Foto de Gary Storts.**

O ginadromorfismo não deve ser confundido com quimerismo, um fenômeno similar no qual um indivíduo é o resultado da fusão de dois embriões diferentes.

Agora me diga, a natureza não é fascinante em cada detalhe?

– – –

Referências e leitura complementar:

Jones, S. R.; Philips Jr., S. A. (1985) Gynandromorphism in the ant Pheidole dentata Mayr (Hymenoptera: Formicidae). Proceedings of the Entomological Society of Washington, 87(3): 583–586.

Laborda, A.; Pérez-Miles, F. (2017) The first case of gynandry in Mygalomorphae: Pterinochilus murinus, morphology and comments on sexual behavior.  Journal of Arachnology, 45(2): 235–237. https://doi.org/10.1636/JoA-S-049.1

Labruna, M. B.; Homem, V. S. F.; Heinemman, M. B.; Ferreira Neto, J. S. (2000) A case of gynandromorphism in Amblyomma oblongoguttatum (Acari: Ixodidae). Journal of Medical Entomology, 37(5): 777–779.

Olmstead, A. W.; LeBlanc, G. A. (2007) The environmental-endocrine basis of gynandromorphism (intersex) in a crustacean. International Journal of Biological Sciences 3(2): 77–84.

– – –

*Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 3.0 Não Adaptada.

**Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição Sem Derivações 2.0 Genérica.

Deixe um comentário

Arquivado em Aranhas, Entomologia

Sexta Selvagem: Aranha-da-acácia-de-Kipling

por Piter Kehoma Boll

Aranhas são famosas por serem criaturas horríveis, predadores atrozes com veneno terrível e teias sinistras. Mas isso não é bem verdade quando você começa a conhecê-las melhor, mas, de qualquer forma, elas costumavam ser consideradas um grupo de animais composto unicamente de predadores.

Isso não é mais verdade. Em 2008, descobriu-se que uma pequena aranha-saltadora é predominantemente vegetariana! Seu nome é Bagheera kiplingi, ou a aranha-da-acácia-de-Kipling, e ela é a espécie da Sexta Selvagem de hoje.

Um macho de Bagheera kiplingi se alimentando de um corpo beltiano. Foto de M. Milton extraída de Meehan et al. (2009).

Um macho de Bagheera kiplingi se alimentando de um corpo beltiano. Foto de M. Milton extraída de Meehan et al. (2009).

A aranha-da-acácia-de-Kipling é enncontrada na América Central, em México, Costa Rica e Guatemala. É uma aranha-saltadora (família Salticidae), a família mais diversa de aranhas.

Vivendo em pés de acácia, a aranha-da-acácia-de-Kipling se alimenta principalmente de corpos beltianos, pequenas estruturas na ponta dos folíolos de acácia que são ricos em proteínas, açúcares e gorduras. Os corpos beltianos são uma fonte de alimento para espécies de forma do gênero Pseudomyrmex que vivem em uma relação mutualística com as acácias, protegendo as árvores de herbívoros.

Nossa aranha provavelmente se tornou uma oportunista ao explorar um recurso que não foi designado para ela. E mais do que isso, às vezes a aranha pode atacar e comer as formigas, especialmente suas larvas, tornando-se assim uma espécie de distúrbio incômodo à relação mutualística entre formiga e árvore.

Contudo, apesar do fato de que ela também se alimenta de larvas de formiga, a Bagheera kiplingi tem os corpos beltianos como principal fonte de alimento. Ironicamente, o nome Bagheera vem do personagem Bagheera de Rudyard Kipling, o qual é uma panteraa negra. O epíteto específico, kiplingi, homenageia o próprio Rudyard Kipling.

– – –

Referências:

Meehan, C. J.; Olson, E. J,; Reudink, M. W.; Kyser, T. K.; Curry, R. L. 2009. Herbivory in a spider through exploitation of an ant-plant mutualism. Currenty Biology, 19(19):R892-R893. DOI: 10.1016/j.cub.2009.08.049

Wikipedia. Bagheera kiplingi. Disponível em: <https://en.wikipedia.org/wiki/Bagheera_kiplingi&gt;. Acesso em 02 de fevereiro de 2016.

Deixe um comentário

Arquivado em Aranhas, Conservação, Sexta Selvagem