Arquivo do mês: julho 2017

Sexta Selvagem: Arqueia-Quadrada-de-Walsby

por Piter Kehoma Boll

Depois de mais de cem Sextas Selvagens, há um grupo ainda sem representantes aqui: as arqueias. Mas isso vai mudar hoje com a apresentação de nossa primeira arqueia, e ela é sem dúvida uma espécie muito interessante.

Cientificamente conhecida como Haloquadratum walsbyi, ela é às vezes chamada de arqueia-quadrada-de-Walsby e, como o nome sugere, tem um formato quadrado incomum.

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Um desenho mostrando um conjunto de quatro células da arqueia-quadrada-de-Walsby.

Essa interessante arqueia foi descoberta em 1980 por Anthony Edward Walsby em lagos salinos da Península do Sinai. Posteriormente ela foi encontrada em vários outros lagos com altas concentrações de sal pelo mundo e foi cultivada em laboratório pela primeira vez em 2004, mas só em 2007 foi formalmente descrita e recebeu sua nomenclatura binomial.

As células quadradas da arqueia-quadrada-de-Walsby são muito finas, com cerca de 0.2 µm de espessura, e medem cerca de 2 µm de cada lado. Elas crescem bem lentamente, formando uma fina camada sobre uma superfície, tendo a maior camada já registrada medido 40 × 40 µm. Se as condições de crescimento não são ideias, as células deterioram em uma forma achatada irregularmente quadrada ou sem forma definida nenhuma.

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Fotografias de células de Haloquadratum walsbyi mostrando os vacúolos em forma de cristal. Imagem extraída de Burns et al. (2007).

Dentro das células, a arqueia-quadrada-de-Walsby possui pequenas vesículas de gás que se parecem com pequenos cristais. Elas ajudam a célula a permanecer na superfície da água muito salgada em que vivem. De forma a sobreviver, essa arqueia precisa de água com concentrações de sal de pelo menos 14%, mas as condições se tornam ideias somente acima de 23%.

Apesar de conhecermos coisas interessantes sobre essa espécie, ainda há muito para aprender. Quem sabe quais mistérios essa criaturinha quadrada está escondendo de nós?

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Referências:

Bolhuis, H.; Poele, E. M. t.; Rodriguez-Valera, F. (2004) Isolation and cultivation of Walsby’s square archaeonEnvironmental Microbiology 6(12): 1287–1291.

Burns, D. G.; Janssen, P. H.; Itoh, T.; Kamekura, M.; Li, Z.; Jensen, G.; Rodríguez-Valera, F.; Bolhuis, H.; Dyall-Smith, M. L. (2007) Haloquadratum walsbyi gen. nov., sp. nov., the square haloarchaeon of Walsby, isolated from saltern crystallizers in Australia and SpainInternational Journal of Systematic and Evolutionary Microbiology57: 387–392.

 

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Sexta Selvagem: Ameba-Gigante

por Piter Kehoma Boll

O adjetivo “gigante” pode ser bem relativo. Em relação a microrganismos, mesmo algo com poucos milímetros pode ser considerado um gigante, e esse é o caso com a ameba-gigante Chaos carolinense (às vezes erroneamente grafado como Chaos carolinensis).

chaos_carolinense

Uma bagunça caótica como toda boa ameba. Foto de Tsukii Yuuji.

Medindo até 5 mm de comprimento, a ameba-gigante é um organismo de água doce que é facilmente visto a olho nu e, visto que também é facilmente cultivado no laboratório, se tornou amplamente usado em estudos de laboratório.

Assim como acontece com as amebas em geral, a ameba-gigante tem uma célula irregular com vários pseudópodes que podem se contrair e expandir. A célula tem centenas de núcleos, como é comum com espécies do gênero Chaos, sendo esta a principal diferença entre elas e o gênero Amoeba, que é proximamente relacionado.

A dieta da ameba-gigante é variável e inclui bactérias, algas, protozoários e até alguns animais pequenos. No laboratório, elas geralmente são alimentadas com ciliados do gênero Paramecium.

Chaos (Pelomyxa) carolinensisChaos with paramecium prey

Um espécie de Chaos carolinense se alimentando de vários indivíduos de Paramecium. Foto de Carolina Biological Supply Company.*

A ameba-gigante não seria um belo ser unicelular de estimação?

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Referências:

Tan, O. L. L.; Almsherqi, Z. A. M.; Deng, Y. (2005) A simple mass culture of the amoeba Chaos carolinense: revisit. Protistology, 4(2): 185–190.

Wikipedia. Chaos (genus). Disponível e <https://en.wikipedia.org/wiki/Chaos_(genus) >. Acesso em 20 de junho de 2017.

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Sexta Selvagem: Dragão-azul

por Piter Kehoma Boll

A segunda espécie de hoje é um terrível mas lindo predador da caravela-portuguesa, o dragão-azul Glaucus atlanticus que é, na minha opinião, uma das mais belas criaturas marinhas.

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Não é uma criatura magnífica? Photo de Sylke Rohrlach.*

Também conhecido como glauco-azul ou lesma-marinha-azul, entre muitos outros nomes, o dragão-azul é uma pequena lesma marinha que mede até 3 cm de comprimento quando adulto. Esta espécie é pelágica, o que significa que vive no oceano aberto, nem perto do fundo nem perto da costa. Apesar de ser encontrado em todos os três oceanos, evidências genéticas indicam que as populações do Atlântico, do Pacífico e do Índico divergiram mais de um milhão de anos atrás.

O dragão-azul possui um saco preenchido de gás no estômago que o faz flutuar de cabeça para baixo na água, de forma que seu lado ventral fica para cima. A larga faixa bordeada de azul ao longo do corpo, como vista na imagem acima, é o pé da lesma. Seu lado dorsal, que fica virado para baixo, é completamente branco ou cinza-claro.

Sendo uma espécie carnívora, o dragão-azul se alimenta de várias espécies de cnidários, especialmente da caravela-portuguesa. Ele geralmente coleta os cnidócitos (as células urticantes) da presa e as põe no próprio corpo, de forma que ele se torna não urticante ou até mais do que sua presa. Se você encontrar um caído na praia, tenha cuidado.

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Referências:

Churchull, C. K. C.; Valdés, Á.; Foighil, D. Ó (2014) Afro-Eurasia and the Americas present barriers to gene flow for the cosmopolitan neustonic nudibranch Glaucus atlanticus. Marine Biology, 161(4): 899-910.

Wikipedia. Glaucus atlanticus. Disponível em < https://en.wikipedia.org/wiki/Glaucus_atlanticus >. Acesso em 18 de junho de 2017.

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Sexta Selvagem: Caravela-portuguesa

por Piter Kehoma Boll

Finalmente chegamos à centésima Sexta Selvagem! Para comemorar, vamos ter duas Sextas Selvagens hoje, como tivemos na quinquagésima. E para começar eu escolhi um cnidário que sempre chamou minha atenção.

Vivendo no Oceano Atlântico e conhecida popularmente como caravela-portuguesa, seu nome científico é Physalia physalis, ambas as palavras derivadas da palavra grega para bolha, physalis. E a caravela-portuguesa é, de fato, como uma bolha flutuante com algumas coisas penduradas, ou pelo menos se parece com isso.

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Uma caravela-portuguesa deitada na praia. Foto de Anna Hesser.*

A maioria das pessoas pode pensar que a caravela-portuguesa é uma água-viva pela sua aparência, mas ela é na verdade parte de outro grupo de cnidários, os sifonóforos. Seu corpo não é um único indivíduo, mas sim uma colônia de vários animais menores, chamados zooides, que são especializados em diferentes funções dentro da colônia e não podem viver separados. Eles são todos derivados de um mesmo embrião, assim sendo clones um do outro.

A porção superior da caravela-portuguesa tem um saco preenchido de gás, que é chamado de pneumatóforo, e é o organismo original derivado diretamente do embrião. Abaixo do pneumatóforo há vários tipos diferentes de organismos, tal como nectóforos para nadar, dactilozooides para defesa e captura de presas, gonozooides para reprodução e gastrozooides para alimentação. Os longos tentáculos, que atingem mais de 10 m de comprimento, são compostos de dactilozoides e presas presas através da água.

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Flutuando no mar. Foto de Regine Stiller.*

Como outros cnidários, a caravela-portuguesa possui células urticantes que ferroam e injetam veneno. Em humanos, o veneno geralmente causa dor e deixa marcas de chicotadas na pele onde os tentáculos tocaram. Às vezes complicações mais severas podem surgir e em casos raros podem levar à morte.

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Referências:

Stein, M. R.; Marraccini, J. V.; Rothschild, N. E.; Burnett, J. W. (1989) Fatal portuguese man-o’-war (Physalia physalis) envenomation. Annals of Emergency Medicine18(3): 312–315.

Wikipedia. Portuguese man o’ war. Available at <https://en.wikipedia.org/wiki/Portuguese_man_o%27_war&gt;. Access on June 16, 2017.

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