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Sexta Selvagem: Milípede-Português

por Piter Kehoma Boll

Milípedes, também chamados de piolhos-de-cobra, gongolôs ou embuás, compreendem a classe Diplopoda e são artrópodes muito fofos na minha opinião. Esta classe inclui espécies incríveis, como o animal com o maior número de pernas no mundo. Muitas espécies são, no entanto, pouco estudadas. Contudo uma que é muito bem conhecida é o milípede-português Ommatoiulus moreleti.

Como seu nome comum sugere, o milípede-português é nativo de Portugal, mais precisamente do sul de Portugal e de regiões próximas na Espanha, vivendo no solo de florestas de pinho e carvalho. Seu corpo, medindo cerca de 4 cm quando adulto, possui o formato cilíndrico e alongado típico visto na maioria dos milípedes e é muito escuro, quase preto, com pernas de uma cor mais clara, geralmente esbranquiçadas, mas às vezes arroxeadas.

Um milípede-português em Portugal. Foto de Romulo Arrais.*

Apesar de seu tamanho relativamente pequeno, o milípede-português leva mais de um ano para atingir a maturidade e cresce por cerca de três anos. O período de acasalamento é geralmente durante o outono e, após ter seus ovos fertilizados, a fêmea põe de 60 a 80 deles em uma câmara de cerca de 2 cm de profundidade no solo. Quando os ovos eclodem, o primeiro estágio é um animal pequeno, pupoide e sem patas que permanece dentro de uma membrana até sofrer uma muda e se tornar uma larva de seis pernas. Durante o primeiro ano, o juvenil faz a muda cerca de oito vezes e o número de pernas aumenta a cada novo estágio. Lá pelo estágio 10, eles estão sexualmente maduros, mas continuam a fazer a muda e ganhar mais pernas até atingirem cerca de 90 pernas no 14º estágio. Os machos apresentam uma estratégia reprodutiva interessante chamada de periodomorfismo, em que indivíduos maduros sofrem uma muda e se tornam “castrados”, com órgãos sexuais reduzidos, tornando-se sexualmente maduros de novo na próxima muda, apenas para voltarem à forma castrada na seguinte e assim sucessivamente.

O milípede-português ficou famoso depois de sua introdução acidental no sudeste da Austrália, aparentemente nos anos 1950. Ele logo se tornou uma espécie muito abundante e, como consequência, um incômodo. Como a maioria dos milípedes, o milípede-português é principalmente detritívoro, alimentando-se de matéria vegetal morta, tal como madeira podre e folhas mortas, de forma que sua introdução não é tanto assim uma catástrofe ecológica, apesar de ele poder ter alguns impactos negativos por competir com espécies nativas de milípedes.

Um milípede-português na Austrália. Foto do usuário corunastylis do iNaturalist.**

O principal problema causado pelo milípede-português na Austrália afeta especialmente humanos. Eles são atraídos por fontes de luz fraca, como as emitidas por casas à noite, e, como resultado, acabam invadindo residências, às vezes centenas deles ao mesmo tempo. Quando ameaçado, o milípede-português emite uma secreção amarela de cheiro forte que pode irritar os olhos e, em contato com as roupas, as deixa permanentemente manchadas. Além disso, o milípede-português às vezes pode se alimentar de algumas plantas cultivadas, especialmente frutas.

Em Portugal, as populações do milípede-português são controladas por predadores nativos, como o ouriço-europeu Erinaceus europaeus e o besouro Ocypus olens. Livre de seus inimigos naturais, o milípede se espalhou rapidamente pelo sudeste da Austrália. Contudo, cerca de 30 anos depois, sua população na Austrália começou a diminuir. Aparentemente, alguns nematódeos parasitas que infectam milípedes nativos se adaptaram para parasitar esta espécie invasora também, ajudando a conter seu tamanho populacional. Alguns outros predadores nativos australianos também foram observados se alimentando do milípede-português, incluindo a planária-azul, Caenoplana coerulea.

Além da Austrália, o milípede-português também foi introduzido em várias ilhas atlânticas, como as ilhas da Macaronésia, Bermuda e o Reino Unido, bem como na África do Sul. Contudo ele não parece ser um estorvo tão grande nesses lugares.

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Mais milípedes:

Sexta Selvagem: Milípede-Pernudíssimo (em 12 de fevereiro de 2016)

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Referências:

Baker GH (1985) Predators of Ommatoiulus moreletii (Lucas) (Diplopoda: Iulidae) in Portugal and Australia. Australian Journal of Entomology 24(4): 247–252. doi: 10.1111/j.1440-6055.1985.tb00237.x

Baker GH (1978) The post-embryonic development and life history of the millipede, Ommatoiulus moreletii (Diplopoda: Iulidae), introduced in south-eastern Australia. Journal of Zoology 186: 209–228. doi: 10.1111/j.1469-7998.1978.tb03366.x

Gregory SJ, Owen C, Jones G, Williams E (2018) Ommatoiulus moreleti (Lucas) and Cylindroiulus pyrenaicus (Brölemann) new to the UK (Diplopoda, Julida: Julidae) and a new host for Rickia laboulbenioides (Laboulsbeniales). Bulletin of the British Myriapod & Isopod Group 30: 48–60.

McKillup SC, Allen PG, Skewes MA (1988) The natural decline of an introduced species following its initial increase in abundance: an explanation for Ommatoiulus moreletii in Australia. Oecologia 77:339–342. doi: 10.1007/BF00378039

Terrace TE, Baker GH (1994) The blue land planarian, Caenoplana coeruleaMoseley (Tricladida: Geoplanidae), a predator of Ommatoiulus moreleti (Lucas) (Diplopoda: Julidae) in southern Australia. Australian Journal of Entomology 33(4): 371–372.

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*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição Não Comercial Sem Derivações 4.0 Internacional.

**Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição Não Comercial 4.0 Internacional

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Em vez de produtos químicos tóxicos, use plantas ajudantes para se livrar de pragas agrícolas

por Piter Kehoma Boll

Encontrar maneiras eficientes de lidar com pragas agrícolas em plantações é um trabalho desafiador. Atualmente, como todos sabemos, a principal estratégia para o controle de tais pragas é o uso de pesticidas químicos. Contudo, esta abordagem apenas serve aos interesses daqueles buscando lucro e não o bem-estar, visto que todos sabemos que tais pesticidas aumentam o risco de diversos problemas de saúde naqueles que consomem os produtos. Mais que isso, pesticidas químicos não apenas matam a praga-alvo, mas muitas outras formas de vida, causando um efeito devastador nos ecossistemas.

A lagarta-listrada-do-repolho (Evergesis rimosalis) é uma praga comum em plantas do gênero Brassica (couve, repolho, mostarda) no leste dos Estados Unidos. Foto do usuário margardimaria do iNaturalist.*

Felizmente, tem havido um interesse crescente em encontrar maneiras alternativas e mais saudáveis de lidar com o problema. Uma maneira é a produção de organismos geneticamente modificados (GMOs) que são naturalmente resistentes às pragas. Há, no entanto, dois problemas principais com esta abordagem. A primeira é que a população em geral tem um medo irracional de GMOs, aparentemente acreditando que eles são mais perigosos que os pesticidas químicos, o que é completamente absurdo. O segundo problema com GMOs é que a tecnologia para criá-los é dominada pelas mesmas companhias que produzem a maioria dos pesticidas e, como todas as grandes companhias, apenas buscam o lucro e não dão a mínima para as pessoas ou o meio ambiente.

Uma terceira estratégia é o uso de inimigos naturais das pragas para controlá-las em fazendas orgânicas. Apesar de muitos inimigos naturais serem ótimos em seu trabalho, eles também podem causar impactos negativos por interferirem nos ecossistemas do entorno. A maioria das pragas de plantações não são nativas das áreas onde são pragas, isto é, elas são espécies invasoras e, de forma a controlá-las eficientemente, um predador de sua área nativa precisa ser introduzido também, e este predador pode acabar se tornando uma ameaça para outras espécie que escolhe como alimento.

Coleomegilla maculata é uma joaninha predadora comum no leste dos Estados Unidos. Elas são ótimas controlando pragas agrícolas localmente, mas não devem ser deliberadamente introduzidas em outros lugares. Foto de Riley Walsh.*

Felizmente, algumas boas estratégias foram recentemente desenolvidas. Uma delas inclui o uso de plantas adicionais nos campos que mudam a maneira como pragas se comportam sem serem uma ameaça para áreas do entorno. Estas plantas adicionais compreendem dois tipos: cultivares-armadilhas e plantas-insetários.

O trigo-sarraceno Fagopyrum esculentum vem sendo usado como planta-insetário. Foto do usuário jimkarlstrom do iNaturalist.*

Um cultivar-armadilha, como o nome sugere, é um cultivar adicional que não se intenciona explorar comercialmente, mas que serve como uma armadilha para as pragas. Em vez de atacarem o cultivar principal (o cultivar de interesse), as pragas são atraídas pelo cultivar-armadilha, reduzindo em densidade no cultivar de interesse. Este sistema é mais eficiente se o cultivar-armadilha for similar ao cultivar de interesse, tal como outra planta do mesmo gênero ou outra variedade da mesma espécie, porque ele precisa ser tão atrativo para a praga quanto o cultivar de interesse, ou talvez até mais atrativo.

Plantas-insetários, por outro lado, têm a intenção de atrair outros insetos para a plantação, especialmente insetos predadores que predam a praga agrícola. Plantas-insetários devem produzir flores em abundância, assim atraindo várias espécies de insetos, o que aumenta o interesse de predadores na área. Contudo, quando usadas sozinhas, as plantas-insetários só fornecem predadores para controlar pragas em plantas cultivadas que estejam perto das plantas-insetários e, como estas costumam ser plantadas ao redor da plantação, não protegem as plantas perto do centro da plantação.

Em um estudo recente, Shrestha et al. (veja referências) decidiram combinar cultivares-armadilhas e plantas-insetários junto com cultivares de interesse em uma estratégia que chamaram de “tríade botânica”. O cultivar de interesse foi repolho orgânico (Brassica oleracea var. capitata) plantado no leste dos Estados Unidos; os cultivares-armadilhas foram outros três cultivares do gênero Brassica: mostarda-marrom (Brassica juncea) e dois tipos de couve (Brassica oleracea var. acephala e Brassica oleracea var. italica); e as plantas-insetários foram o trigo-sarraceno (Fagopyrum esculentum) e a flor-de-mel (Lobularia maritima).

Couve (Brassica oleracea var. acephala). Foto de David Andreas Tønnessen.*

Como resultado, o número de herbívoros (isto é, pragas agrícolas) foi maior em cultivares-armadilhas do que no cultivar de interesse. Os cultivares-armadilhas foram, portanto, mais atrativos que o cultivar de interesse para as pragas. A presença de plantas-insetários aumentou o número de insetos predadores e parasitoides, como joaninhas e vespas parasitoides, nos cultivares-armadilhas em comparação com tratamentos sem plantas-insetários. O número de pragas parasitadas também aumentou na presença de plantas-insetários.

Organização da lavoura

No geral, o “trabalho em equipe” de cultivares-armadilhas e plantas-insetários reduziu a influência de pragas agrícolas em cultivares de interesse. Os cultivares-armadilhas atraíram as pragas para uma área próxima das plantas-insetários, permitindo que os predadores as alcançassem.

Maneiras eficientes de cultivar organicamente são possíveis. Só precisamos focar em ecossistemas saudáveis e não no dinheiro. Se trabalharmos juntos, podemos derrotar as “Seis grandes” corporações que dominam a produção de alimento no mundo. Elas são as verdadeiras pragas.

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Referência:

Shrestha B, Finke DL, Piñero JC (2019) The ‘Botanical Triad’: The Presence of Insectary Plants Enhances Natural Enemy Abundance on Trap Crop Plants in an Organic Cabbage Agro-Ecosystem. Insects 10(6): 181. doi: 10.3390/insects10060181

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*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição Não Comercial 4.0 Internacional

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Tartarugas-verdes confundem resíduos plásticos com lulas mortas, os comem, e morrem

por Piter Kehoma Boll

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Poluição por plástico é um tópico popular recentemente e não é raro encontrar figuras de animais que morreram devido à ingestão de plástico ou outras complicações, como asfixia, causadas por pedaços de plástico. Contudo a causa da ingestão de plástico pela maioria das espécies ainda é desconhecida.

Albatroz com o estômago cheio de peças plásticas.

A tartaruga-de-couro, Dermochelys coriacea, é frequentemente mencionada como uma espécie que sofre pela ingestão de plástico devido a sua dieta ser composta primariamente por águas-vivas, com as quais sacolas plásticas flutuantes podem ser confundidas. Contudo outra tartaruga-marinha de ampla distribuição, a tartaruga-verde, Chelonia mydas, também é uma vítima comum da ingestão de plástico e quantidades tão pequenas quanto 1 g são suficientes para matar espécimes jovens bloqueando seus tratos digestivos. A dieta de tartarugas-verdes jovens e adultas é composta principalmente por ervas-marinhas e algas, de forma que a ingestão de plástico deve ser o resultado de outra causa e não sua similaridade com águas-vivas.

Uma sacola plástica em decomposição no oceano se parece com uma água-viva. Foto do usuário Seegraswise do Wikimedia.*

Apesar de serem quase estritamente herbívoras, tartarugas-verdes ingerem matéria animal quando são muito jovens e podem eventualmente consumir animais como adultas também, provavelmente como uma estratégia para sobreviver quando sua fonte de alimento principal é escassa. A ingestão de matéria animal geralmente acontece pela ingestão de animais mortos e um item animal morto comumente consumido são lulas mortas.

Uma tartaruga-verde rodeada de ervas-marinhas, sua principal fonte de alimento. Foto do usuário Danjgi do Wikimedia.**

Um estudo recente investigou a relação entre o comportamento necrofágico e o consumo de plástico na tartaruga-verde e descobriu que a quantidade de plástico ingerida por indivíduos se alimentando de lulas mortas é muito maior que a ingerida por indivíduos que não apresentam um comportamento necrofágico. No Brasil, a ingestão de plástico é responsável por cerca de 10% das mortes de tartarugas-verdes, mas este número pode chegar a 67% entre tartarugas-verdes que se alimentam de carcaças de lulas.

A ingestão de animais mortos costumava ser uma maneira eficiente de tartarugas-verdes adquirirem grandes porções de proteína. Contudo o fato de, atualmente, a maioria do material flutuante no oceano ser plástico e não animais mortos transformou uma estratégia bem-sucedida numa armadilha mortal. Se os humanos não começarem a controlar a produção de lixo plástico, haverá apenas dois resultados possíveis para as tartarugas-verdes em face a esta nova pressão seletiva: adaptação ou extinção.

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Referências:

Andrades R, Santos RA, Martins AS, Teles D, Santos RG (2019) Scavenging as a pathway for plastic ingestion by marine animals. Environmental Pollution 248: 159–165. doi: 10.1016/j.envpol.2019.02.010

Mrosovsky N, Ryan GD, James MC (2009) Leatherback turtles: the menace of plastic. Marine Pollution Bulletin 58(2): 287–289. doi: 10.1016/j.marpolbul.2008.10.018

Santos RG, Andrades R, Boldrini MA, Martins AS (2015) Debris ingestion by juvenile marine turtles: an underestimated problem. Marine Pollution Bulletin 93(1–2): 37–43. doi: 10.1016/j.marpolbul.2015.02.022

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Antidepressivos no esgoto estão desequilibrando teias alimentares

por Piter Kehoma Boll

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Esgoto é uma das principais causas de poluição da água em escala global e isso inclui esgoto doméstico. Com o aumento do uso de medicamentos de muitos tipos para tratar uma variedade de problemas de saúde, essas substâncias acabam no esgoto doméstico e, mesmo em locais com tratamento de esgoto, tais drogas não são sempre completamente removidas.

As drogas mais comumente detectadas em ambientes aquáticos incluem antidepressivos. Apesar de ocorrerem em concentrações muito baixas, seus efeitos em organismos são pouco conhecidos.

Um estudo recente investigou como a presença de dois antidepressivos, citalopram (um inibidor seletivo de recaptação de serotonina) e tramadol (um inibidor de recaptação de serotonina e norepinefrina) afetam a atividade predatória de ninfas de libélula da espécie Aeshna cyanea. Os insetos foram expostos a concentrações de cerca de 1 micrograma por litro das substâncias, uma concentração similar à encontrada naturalmente em ambientes afetados por esgotos. Adicionalmente, eles usaram efluentes de estações de tratamento de esgoto que incluíam uma mistura de várias´ drogas em concentrações reais.

Uma ninfa de Aeshna cyanea. Foto de André Karwath.*

Os resultados indicam que ninfas de libélula aumentam a quantidade de tempo que passam procurando alimento na presença dos dois antidepressivos e passam mais tempo manipulando presas, mas sua taxa de alimentação diminuiu, isto é, elas comeram menos que ninfas do grupo controle, isto é, em água sem antidepressivos. Por outro lado, ninfas expostas a efluentes de estações de tratamento de esgoto comeram mais que ninfas do grupo controle. O motivo exato para o efeito oposto causado pelo esgoto normal é desconhecido, mas pode estar relacionado ao efeito combinado de várias drogas.

Apesar de os efeitos não parecerem tão problemáticos a princípio, um aumento ou uma diminuição na taxa de alimentação dos predadores pode desequilibrar a população da presa ao fazê-la aumentar ou diminuir e eventualmente atingir um ponto que leve a um colapso no ecossistema.

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Referência:

Bláha M, Grabicova K, Shaliutina O, Kubec J, Randák T, Zlabek V, Buřič M, Veselý L (2019) Foraging behaviour of top predators mediated by pollution of psychoactive pharmaceuticals and effects on ecosystem stability. Science of The Total Environment 662: 655–661.

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Sexta Selvagem: Samambaia-Preta

por Piter Kehoma Boll

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Você pode ter visto partes da espécie de hoje ao menos uma vez na vida, já que ela é uma planta muito popular em arranjos de flores.

Um buquê de flores com folhas de Rumohra adiantiformis.

Rumohra adiantiformis é como ela é conhecida por botânicos, e nomes comuns incluem samambaia-preta, samambaia-de-sete-semanas e samambaia-de-ferro. Esta espécie de samambaia é amplamente distribuída  na Australásia, no sul da África e nos Neotrópicos, bem como em várias ilhas do Oceano Pacífico.

Vivendo em áreas de floresta, especialmente onde não há muita sombra, a samambaia-preta possui uma biologia que não é muito diferente daquela de outras samambaias. Ela geralmente cresce no solo, apesar de poder eventualmente ocorrer em rochas ou em árvores. O que torna esta samambaia especial é que suas frondes maduras são um tanto duras e, após serem cortadas, continuam a ter uma aparência verde e viva por um longo tempo, geralmente várias semanas.  Essa incrível resistência em murchar a faz uma espécie ideal para ser usada em arranjos de flores.

Samambaia-preta crescendo na África do Sul. Foto do usuário JMK do Wikimedia.*

Atualmente, a maioria da produção de samambaia-preta para uso comercial ocorre no estado da Flórida, EUA, onde ela é cultivada em viveiros irrigados e sombreados. Outros grandes produtores são a África do Sul e o Brasil, especialmente o sul do Brasil, mas nestes dois países a planta é explorada por extrativismo, isto é, é colhida na natureza e não cultivada. Apesar de a extração da samambaia-preta ser uma atividade de ocorrência ampla tanto na África do Sul quanto no sul do Brasil e ser uma fonte importante de renda para muitas famílias, ela é ilegal de acordo com leis nacionais ou regionais. Contudo, ao menos no sul do Brasil, onde a samambaia-preta ocorre nas maiores densidades registradas no mundo, a principal razão para suas populações estarem diminuindo não parece ser a extração, mas sim a sucessão florestal natural. À medida que as florestas envelhecem e se tornam mais escuras, elas se fornam inadequadas para o crescimento da samambaia-preta.

É necessário, é claro, estabelecer limites para sua colheita. Caso contrário, a crescente demanda no mercado florista pode acabar causando efeitos preocupantes em sua ocorrência. A melhor alternativa continua sendo cultivar a samambaia, já que isso protege populações selvagens e permite a colheia de frondes de alta qualidade e uma recuperação mais rápida depois da desfolhação.

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Referências:

Geldenhuys CJ, van der Merwe CJ (1988) Population structure and growth of the fern Rumohra adiantiformis in relation to frond harvesting in the southern Cape forests. South African Journal of Botany 54(4): 351–362.

Milton SJ (1987) Growth of Seven-weeks Fern (Rumohra adiantiformis) in the Southern Cape Forests: Implications for Management. South African Forestry Journal 143: 1–4.

Souza GC, Cubo R, Guimarães L, Elisabetsky E (2006) An ethnobiological assessment of Rumohra adiantiformis (samambaia-preta) extractivism in Southern Brazil. Biodiversity and Conservation 15: 2737–2746. doi: 10.1007/s10531-005-0309-3

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Altas temperaturas afetam o julgamento de mandarins e dos humanos que os estudam

por Piter Kehoma Boll

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O mandarim, Taeniopygia guttata, é uma ave australiana que é frequentemente usada como modelo de estudos comportamentais focados na vocalização.

Mandarim (Taeniopygia guttata). Foto de Jim Bendon.*

Recentemente, uma equipe de pesquisadores da Austrália descobriu um novo tipo de chamado nesta espécie e o chamou de “chamado de incubação”. Esta vocalização particular foi identificada como ocorrendo durante os últimos cinco dias de incubação quando uma das aves, o macho ou a fêmea, estava sozinha com os ovos, e somente quando a temperatura estava acima de 26°C. Isso levantou a hipótese de que esse chamado é usado pelos pais para comunicar aos embriões que a temperatura ambiente está alta e que esta informação seria usada pelos filhotes para adaptarem seu comportamento e seu metabolismo a temperaturas mais altas.

Um estudo experimental foi conduzido onde os ovos foram mantidos em incubadoras sob uma temperatura constante e expostos (teste) ou não (controle) a chamados de incubação gravados. O resultado indicou que os filhotes que foram expostos aos chamados cresceram mais rápido em altas temperaturas que aqueles que não foram expostos ao chamado. A diferença média em massa dos filhotes entre as diferentes temperaturas foi de cerca de 2 g apenas, apesar de a diferença em massa entre dois filhotes aleatoriamente selecionados poder ser de até 6 g. Adicionalmente, o valor de R² das análises, que diz quanto da variação é explicada pela variável medida, foi de apenas 0.1, ou seja, a temperatura explicou apenas 10% das diferenças de crescimento entre as diferentes temperaturas para ambos os tratamentos.

Filhotes no ninho.

Um dos aspectos mais intrigantes, no entanto, foi o fato de o chamado de incubação ser produzido em temperaturas tão baixas quanto 26°C, o que não é particularmente quente no ambiente natural do mandarim. Assim, outra equipe conduziu novos estudos para entender melhor como e quando o “chamado de incubação” é produzido. Eles decidiram renomear o chamado de “chamado-v” porque seu formato é de um V invertido em espectrogramas. Eles descobriram que o chamado-v está relacionado ao arquejo, quando as aves respiram rapidamente com o bico aberto para ajudar a reduzir a temperatura corporal, e é possivelmente um efeito colateral do arquejo e não um chamado deliberadamente direcionado. Ele também não é produzido somente nos últimos cinco dias de incubação, mas durante a incubação toda e durante o crescimento dos filhotes, e algumas aves são mais propensas a v-chamar que outras. Os resultados sugerem que o chamado-v dificilmente evoluiu como um chamado de incubação e é mais provavelmente um efeito colateral de arquejar. Há, no entanto, a possibilidade de que os embriões usem essa informação para modular seu crescimento, apesar de mais estudos serem necessários.

Outros estudos recentes com mandarins indicam que temperaturas elevadas podem possuir efeitos negativos no sucesso reprodutivo das aves. Temperaturas perto de 40°C reduzem a qualidade do esperma em mandarins machos e reduzem a habilidade de fêmeas discriminarem entre cantos produzidos por machos da mesma espécie e machos de espécies diferentes e distantemente relacionadas. A combinação destes dois efeitos pode levar a uma severa redução na reprodução ao reduzir os eventos de acasalamento e reduzir a habilidade do esperma de fertilizar os ovos.

Uma modulação fisiológica em embriões para lidar com os efeitos negativos das temperaturas elevadas, como sugerido pelo uso de chamados-v, certamente seria benéfico. Talvez seja um comportamento ainda sob seleção? Vamos ver o que futuros estudos nos dizem.

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Referências:

Coomes CM, Danner RM, Derryberry EP (2019) Elevated temperatures reduce discrimination between conspecific and heterospecific sexual signals. Animal Behavior 147: 9–15. https://doi.org/10.1016/j.anbehav.2018.10.024

Hurley LL, McDiarmid CS, Friesen CR, Griffih SC, Rowe M (2018) Experimental heatwaves negatively impact sperm quality in the zebra finch. Proceedings of the Royal Society B: Biological Sciences 285(1871): 20172547. https://doi.org/10.1098/rspb.2017.2547

Mariette MM, Buchanan KL (2016) Prenatal acoustic communication programs offspring for high posthatching temperatures in a songbird. Science 353(6301): 812–814. https://doi.org/10.1126/science.aaf7049

McDiarmid CS, Naguib M, Griffith SC (2018) Calling in the heat: the zebra finch “incubation call” depends on heat but not reproductive stage. Behavioral Ecology 29(6): 1245–1254. https://doi.org/10.1093/beheco/ary123

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*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 2.0 Genérica.

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Pense nos vermes, não só nas baleias, ou: como uma planária salvou um ecossistema

por Piter Kehoma Boll

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Devido à massiva interferência de práticas humanas em habitats naturais durante as últimas décadas, a restauração de ecossistemas se tornou uma tendência para tentar salvar o que ainda é salvável. Infelizmente, o esforço de ecologistas e outros profissionais por si só não é suficiente para alcançar isso, e uma seção maior da sociedade precisa se engajar em ajudar a atingir estes objetivos. Para conseguir isso, é comum apelar à beleza e à fofura de espécies ameaçadas, que geralmente incluem mamíferos e aves, pois estes chamam a atenção do público mais facilmente. Contudo a maioria das espécies ameaçadas são invertebrados e outros seres menos carismáticos, e eles são frequentemente ignorados mesmo pelos biólogos.

Felizmente as coisas são capazes de mudar em relação a isso. Recentemente, a restauração do primeiro ecossistema direcionada a salvar um invertebrado foi bem-sucedida, e eu estou aqui para falar sobre isso.

O invertebrado em questão é uma planária de água doce chamada Dendrocoelum italicum. Ela foi descoberta em 1936 em uma caverna no norte da Itália chamada Bus del Budrio. Dentro da caverna, há uma pequena lagoa de água doce, com cerca de 5 × 5 m ou pouco mais, causada por uma cachoeira vindo de um pequeno córrego que chega por um corredor estreito elevado. A espécie aparentemente é encontrada somente nessa lagoa e em mais nenhum outro lugar.

Não há fotos disponíveis de Dendrocoelum italicum, mas ela deve ser parecida com a espécie Dendrocoelum lacteum vista aqui, mas D. italicum não possui olhos. Foto de Eduard Solà.*

Durante aos anos 1980, um cano foi instalado para desviar a água do córrego para uma fazenda nas proximidades. A cachoeira deixou de existir e a lagoa secou permanentemente. A planária sobreviveu em um riachinho bem estreito que se formou dentro da caverna e em algumas poças isoladas resultantes de gotejamento de água. A condição crítica da população foi descoberta em 2016 por um grupo de pesquisadores da Universidade de Milão. Eles informaram os administradores da caverna sobre a situação e, juntos, o time começou a conscientizar os cidadãos, que se beneficiavam de um reservatório formado pela água desviada, sobre a situação da caverna, o que levou o fazendeiro responsável pelo desvio da água a concordar em remover a estrutura artificial.

Imagem do interior da caverna. Foto de Livio Mola, extraída de
https://www.naturamediterraneo.com/forum/topic.asp?TOPIC_ID=57050

A remoção aconteceu em 3 de dezembro de 2016 depois que todas as planárias ocorrentes no riachinho foram coletadas e armazenadas em tanques plásticos dentro da caverna. Quando a cachoeira foi restaurada, ela rapidamente começou a preencher a antiga lagoa de novo e, um dia depois, as planárias foram liberadas dentro da lagoa.

O ecossistema foi monitorado durante os dois anos seguintes até janeiro de 2018. O número de planárias variou grandemente durante o levantamento, mas não foi significativamente maior após a restauração do que era antes. Contudo, houve um aumento significativo na população de uma espécie de bivalve, Pisidium personatum, e um pequeno aumento na população de um crustáceo do gênero Niphargus. Adicionalmente, anelídeos da família Haplotaxidae, que estavam ausentes na caverna, apareceram após a restauração. Assim, fica claro que o ecossistema se beneficiou com o reaparecimento da lagoa.

Graças aos esforços desses pesquisadores, a planária Dendrocoelum italicum agora tem mais chances de evitar a extinção. Contudo, este não é um caso isolado. Há muitas espécies de planárias de caverna pelo mundo inteiro vivendo em condições similares, geralmente restritas a apenas uma pequena lagoa dentro de uma única caverna. Muitas delas ocorrem, ou ocorriam, na Itália, mas a ajuda chegou muito tarde para elas. Por exemplo, uma espécie próxima, Dendrocoelum beauchampi, foi descoberta em 1950 em uma caverna no noroeste da Itália chamada Grotta di Cavassola, mas um levantamento recente não encontrou planárias na caverna, que parece ter sofrido grande alteração devido a atividades humanas. De forma similar, a espécie Dendrocoelum benazzi foi descoberta em 1971 na Itália central em uma caverna chamada Grotta di Stiffe, mas hoje em dia, com a caverna aberta a turistas e com sua água poluída, as planárias desapareceram. É bem provável que tanto D. beauchampi quanto D. benazzi estejam extintos. A situação é a mesma para outras espécies italianas.

Fora da Itália, uma espécie descrita vivendo em um ambiente pequeno similar é a planária de caverna brasileira Girardia multidiverticulata, que é conhecida de apenas uma pequena lagoa de 10 m² dentro de uma caverna chamada Buraco do Bicho no Bioma Cerrado.

Girardia multidiverticulata é uma espécie de planária restrita a uma pequena lagoa de 10 m² dentro de uma caverna do Cerrado brasileiro. Créditos a Souza et al. (2015).**

O caso de D. italicum demonstra que é possível salvar populações endêmicas pequenas de habitats ameaçados, mas precisamos da ajuda do público. Esperamos que outros ecossistemas tenham um final feliz similar.

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Referêmcias:

Manenti R, Barzaghi B, Lana E, Stocchino GA, Manconi R, & Lunghi E 2018. The stenoendemic cave-dwelling planarians (Platyhelminthes, Tricladida) of the Italian Alps and Apennines: conservation issues. Journal for Nature Conservation.

Manenti R, Barzaghi B, Tonni G, Ficetola GF, & Melotto A 2018. Even worms matter: cave habitat restoration for a planarian species increased environmental suitability but not abundance. Oryx: 1–6.

Souza ST, Morais ALN, Cordeiro LM, & Leal-Zanchet AM 2015. The first troglobitic species of freshwater flatworm of the suborder Continenticola (Platyhelminthes) from South America. Zookeys 470: 1–16.

Vialli PM 1937. Una nuova specie di Dendrocoelum delle Grotte Bresciane. Bollettino di zoologia 8: 179–187.

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