Arquivo da categoria: Conservação

Tartarugas-verdes confundem resíduos plásticos com lulas mortas, os comem, e morrem

por Piter Kehoma Boll

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Poluição por plástico é um tópico popular recentemente e não é raro encontrar figuras de animais que morreram devido à ingestão de plástico ou outras complicações, como asfixia, causadas por pedaços de plástico. Contudo a causa da ingestão de plástico pela maioria das espécies ainda é desconhecida.

Albatroz com o estômago cheio de peças plásticas.

A tartaruga-de-couro, Dermochelys coriacea, é frequentemente mencionada como uma espécie que sofre pela ingestão de plástico devido a sua dieta ser composta primariamente por águas-vivas, com as quais sacolas plásticas flutuantes podem ser confundidas. Contudo outra tartaruga-marinha de ampla distribuição, a tartaruga-verde, Chelonia mydas, também é uma vítima comum da ingestão de plástico e quantidades tão pequenas quanto 1 g são suficientes para matar espécimes jovens bloqueando seus tratos digestivos. A dieta de tartarugas-verdes jovens e adultas é composta principalmente por ervas-marinhas e algas, de forma que a ingestão de plástico deve ser o resultado de outra causa e não sua similaridade com águas-vivas.

Uma sacola plástica em decomposição no oceano se parece com uma água-viva. Foto do usuário Seegraswise do Wikimedia.*

Apesar de serem quase estritamente herbívoras, tartarugas-verdes ingerem matéria animal quando são muito jovens e podem eventualmente consumir animais como adultas também, provavelmente como uma estratégia para sobreviver quando sua fonte de alimento principal é escassa. A ingestão de matéria animal geralmente acontece pela ingestão de animais mortos e um item animal morto comumente consumido são lulas mortas.

Uma tartaruga-verde rodeada de ervas-marinhas, sua principal fonte de alimento. Foto do usuário Danjgi do Wikimedia.**

Um estudo recente investigou a relação entre o comportamento necrofágico e o consumo de plástico na tartaruga-verde e descobriu que a quantidade de plástico ingerida por indivíduos se alimentando de lulas mortas é muito maior que a ingerida por indivíduos que não apresentam um comportamento necrofágico. No Brasil, a ingestão de plástico é responsável por cerca de 10% das mortes de tartarugas-verdes, mas este número pode chegar a 67% entre tartarugas-verdes que se alimentam de carcaças de lulas.

A ingestão de animais mortos costumava ser uma maneira eficiente de tartarugas-verdes adquirirem grandes porções de proteína. Contudo o fato de, atualmente, a maioria do material flutuante no oceano ser plástico e não animais mortos transformou uma estratégia bem-sucedida numa armadilha mortal. Se os humanos não começarem a controlar a produção de lixo plástico, haverá apenas dois resultados possíveis para as tartarugas-verdes em face a esta nova pressão seletiva: adaptação ou extinção.

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Referências:

Andrades R, Santos RA, Martins AS, Teles D, Santos RG (2019) Scavenging as a pathway for plastic ingestion by marine animals. Environmental Pollution 248: 159–165. doi: 10.1016/j.envpol.2019.02.010

Mrosovsky N, Ryan GD, James MC (2009) Leatherback turtles: the menace of plastic. Marine Pollution Bulletin 58(2): 287–289. doi: 10.1016/j.marpolbul.2008.10.018

Santos RG, Andrades R, Boldrini MA, Martins AS (2015) Debris ingestion by juvenile marine turtles: an underestimated problem. Marine Pollution Bulletin 93(1–2): 37–43. doi: 10.1016/j.marpolbul.2015.02.022

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*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 3.0 Não Adaptada.

**Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 4.0 Internacional.

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Antidepressivos no esgoto estão desequilibrando teias alimentares

por Piter Kehoma Boll

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Esgoto é uma das principais causas de poluição da água em escala global e isso inclui esgoto doméstico. Com o aumento do uso de medicamentos de muitos tipos para tratar uma variedade de problemas de saúde, essas substâncias acabam no esgoto doméstico e, mesmo em locais com tratamento de esgoto, tais drogas não são sempre completamente removidas.

As drogas mais comumente detectadas em ambientes aquáticos incluem antidepressivos. Apesar de ocorrerem em concentrações muito baixas, seus efeitos em organismos são pouco conhecidos.

Um estudo recente investigou como a presença de dois antidepressivos, citalopram (um inibidor seletivo de recaptação de serotonina) e tramadol (um inibidor de recaptação de serotonina e norepinefrina) afetam a atividade predatória de ninfas de libélula da espécie Aeshna cyanea. Os insetos foram expostos a concentrações de cerca de 1 micrograma por litro das substâncias, uma concentração similar à encontrada naturalmente em ambientes afetados por esgotos. Adicionalmente, eles usaram efluentes de estações de tratamento de esgoto que incluíam uma mistura de várias´ drogas em concentrações reais.

Uma ninfa de Aeshna cyanea. Foto de André Karwath.*

Os resultados indicam que ninfas de libélula aumentam a quantidade de tempo que passam procurando alimento na presença dos dois antidepressivos e passam mais tempo manipulando presas, mas sua taxa de alimentação diminuiu, isto é, elas comeram menos que ninfas do grupo controle, isto é, em água sem antidepressivos. Por outro lado, ninfas expostas a efluentes de estações de tratamento de esgoto comeram mais que ninfas do grupo controle. O motivo exato para o efeito oposto causado pelo esgoto normal é desconhecido, mas pode estar relacionado ao efeito combinado de várias drogas.

Apesar de os efeitos não parecerem tão problemáticos a princípio, um aumento ou uma diminuição na taxa de alimentação dos predadores pode desequilibrar a população da presa ao fazê-la aumentar ou diminuir e eventualmente atingir um ponto que leve a um colapso no ecossistema.

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Referência:

Bláha M, Grabicova K, Shaliutina O, Kubec J, Randák T, Zlabek V, Buřič M, Veselý L (2019) Foraging behaviour of top predators mediated by pollution of psychoactive pharmaceuticals and effects on ecosystem stability. Science of The Total Environment 662: 655–661.

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*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 2.5 Genérica.

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Sexta Selvagem: Samambaia-Preta

por Piter Kehoma Boll

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Você pode ter visto partes da espécie de hoje ao menos uma vez na vida, já que ela é uma planta muito popular em arranjos de flores.

Um buquê de flores com folhas de Rumohra adiantiformis.

Rumohra adiantiformis é como ela é conhecida por botânicos, e nomes comuns incluem samambaia-preta, samambaia-de-sete-semanas e samambaia-de-ferro. Esta espécie de samambaia é amplamente distribuída  na Australásia, no sul da África e nos Neotrópicos, bem como em várias ilhas do Oceano Pacífico.

Vivendo em áreas de floresta, especialmente onde não há muita sombra, a samambaia-preta possui uma biologia que não é muito diferente daquela de outras samambaias. Ela geralmente cresce no solo, apesar de poder eventualmente ocorrer em rochas ou em árvores. O que torna esta samambaia especial é que suas frondes maduras são um tanto duras e, após serem cortadas, continuam a ter uma aparência verde e viva por um longo tempo, geralmente várias semanas.  Essa incrível resistência em murchar a faz uma espécie ideal para ser usada em arranjos de flores.

Samambaia-preta crescendo na África do Sul. Foto do usuário JMK do Wikimedia.*

Atualmente, a maioria da produção de samambaia-preta para uso comercial ocorre no estado da Flórida, EUA, onde ela é cultivada em viveiros irrigados e sombreados. Outros grandes produtores são a África do Sul e o Brasil, especialmente o sul do Brasil, mas nestes dois países a planta é explorada por extrativismo, isto é, é colhida na natureza e não cultivada. Apesar de a extração da samambaia-preta ser uma atividade de ocorrência ampla tanto na África do Sul quanto no sul do Brasil e ser uma fonte importante de renda para muitas famílias, ela é ilegal de acordo com leis nacionais ou regionais. Contudo, ao menos no sul do Brasil, onde a samambaia-preta ocorre nas maiores densidades registradas no mundo, a principal razão para suas populações estarem diminuindo não parece ser a extração, mas sim a sucessão florestal natural. À medida que as florestas envelhecem e se tornam mais escuras, elas se fornam inadequadas para o crescimento da samambaia-preta.

É necessário, é claro, estabelecer limites para sua colheita. Caso contrário, a crescente demanda no mercado florista pode acabar causando efeitos preocupantes em sua ocorrência. A melhor alternativa continua sendo cultivar a samambaia, já que isso protege populações selvagens e permite a colheia de frondes de alta qualidade e uma recuperação mais rápida depois da desfolhação.

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Referências:

Geldenhuys CJ, van der Merwe CJ (1988) Population structure and growth of the fern Rumohra adiantiformis in relation to frond harvesting in the southern Cape forests. South African Journal of Botany 54(4): 351–362.

Milton SJ (1987) Growth of Seven-weeks Fern (Rumohra adiantiformis) in the Southern Cape Forests: Implications for Management. South African Forestry Journal 143: 1–4.

Souza GC, Cubo R, Guimarães L, Elisabetsky E (2006) An ethnobiological assessment of Rumohra adiantiformis (samambaia-preta) extractivism in Southern Brazil. Biodiversity and Conservation 15: 2737–2746. doi: 10.1007/s10531-005-0309-3

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Altas temperaturas afetam o julgamento de mandarins e dos humanos que os estudam

por Piter Kehoma Boll

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O mandarim, Taeniopygia guttata, é uma ave australiana que é frequentemente usada como modelo de estudos comportamentais focados na vocalização.

Mandarim (Taeniopygia guttata). Foto de Jim Bendon.*

Recentemente, uma equipe de pesquisadores da Austrália descobriu um novo tipo de chamado nesta espécie e o chamou de “chamado de incubação”. Esta vocalização particular foi identificada como ocorrendo durante os últimos cinco dias de incubação quando uma das aves, o macho ou a fêmea, estava sozinha com os ovos, e somente quando a temperatura estava acima de 26°C. Isso levantou a hipótese de que esse chamado é usado pelos pais para comunicar aos embriões que a temperatura ambiente está alta e que esta informação seria usada pelos filhotes para adaptarem seu comportamento e seu metabolismo a temperaturas mais altas.

Um estudo experimental foi conduzido onde os ovos foram mantidos em incubadoras sob uma temperatura constante e expostos (teste) ou não (controle) a chamados de incubação gravados. O resultado indicou que os filhotes que foram expostos aos chamados cresceram mais rápido em altas temperaturas que aqueles que não foram expostos ao chamado. A diferença média em massa dos filhotes entre as diferentes temperaturas foi de cerca de 2 g apenas, apesar de a diferença em massa entre dois filhotes aleatoriamente selecionados poder ser de até 6 g. Adicionalmente, o valor de R² das análises, que diz quanto da variação é explicada pela variável medida, foi de apenas 0.1, ou seja, a temperatura explicou apenas 10% das diferenças de crescimento entre as diferentes temperaturas para ambos os tratamentos.

Filhotes no ninho.

Um dos aspectos mais intrigantes, no entanto, foi o fato de o chamado de incubação ser produzido em temperaturas tão baixas quanto 26°C, o que não é particularmente quente no ambiente natural do mandarim. Assim, outra equipe conduziu novos estudos para entender melhor como e quando o “chamado de incubação” é produzido. Eles decidiram renomear o chamado de “chamado-v” porque seu formato é de um V invertido em espectrogramas. Eles descobriram que o chamado-v está relacionado ao arquejo, quando as aves respiram rapidamente com o bico aberto para ajudar a reduzir a temperatura corporal, e é possivelmente um efeito colateral do arquejo e não um chamado deliberadamente direcionado. Ele também não é produzido somente nos últimos cinco dias de incubação, mas durante a incubação toda e durante o crescimento dos filhotes, e algumas aves são mais propensas a v-chamar que outras. Os resultados sugerem que o chamado-v dificilmente evoluiu como um chamado de incubação e é mais provavelmente um efeito colateral de arquejar. Há, no entanto, a possibilidade de que os embriões usem essa informação para modular seu crescimento, apesar de mais estudos serem necessários.

Outros estudos recentes com mandarins indicam que temperaturas elevadas podem possuir efeitos negativos no sucesso reprodutivo das aves. Temperaturas perto de 40°C reduzem a qualidade do esperma em mandarins machos e reduzem a habilidade de fêmeas discriminarem entre cantos produzidos por machos da mesma espécie e machos de espécies diferentes e distantemente relacionadas. A combinação destes dois efeitos pode levar a uma severa redução na reprodução ao reduzir os eventos de acasalamento e reduzir a habilidade do esperma de fertilizar os ovos.

Uma modulação fisiológica em embriões para lidar com os efeitos negativos das temperaturas elevadas, como sugerido pelo uso de chamados-v, certamente seria benéfico. Talvez seja um comportamento ainda sob seleção? Vamos ver o que futuros estudos nos dizem.

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Referências:

Coomes CM, Danner RM, Derryberry EP (2019) Elevated temperatures reduce discrimination between conspecific and heterospecific sexual signals. Animal Behavior 147: 9–15. https://doi.org/10.1016/j.anbehav.2018.10.024

Hurley LL, McDiarmid CS, Friesen CR, Griffih SC, Rowe M (2018) Experimental heatwaves negatively impact sperm quality in the zebra finch. Proceedings of the Royal Society B: Biological Sciences 285(1871): 20172547. https://doi.org/10.1098/rspb.2017.2547

Mariette MM, Buchanan KL (2016) Prenatal acoustic communication programs offspring for high posthatching temperatures in a songbird. Science 353(6301): 812–814. https://doi.org/10.1126/science.aaf7049

McDiarmid CS, Naguib M, Griffith SC (2018) Calling in the heat: the zebra finch “incubation call” depends on heat but not reproductive stage. Behavioral Ecology 29(6): 1245–1254. https://doi.org/10.1093/beheco/ary123

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*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 2.0 Genérica.

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Pense nos vermes, não só nas baleias, ou: como uma planária salvou um ecossistema

por Piter Kehoma Boll

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Devido à massiva interferência de práticas humanas em habitats naturais durante as últimas décadas, a restauração de ecossistemas se tornou uma tendência para tentar salvar o que ainda é salvável. Infelizmente, o esforço de ecologistas e outros profissionais por si só não é suficiente para alcançar isso, e uma seção maior da sociedade precisa se engajar em ajudar a atingir estes objetivos. Para conseguir isso, é comum apelar à beleza e à fofura de espécies ameaçadas, que geralmente incluem mamíferos e aves, pois estes chamam a atenção do público mais facilmente. Contudo a maioria das espécies ameaçadas são invertebrados e outros seres menos carismáticos, e eles são frequentemente ignorados mesmo pelos biólogos.

Felizmente as coisas são capazes de mudar em relação a isso. Recentemente, a restauração do primeiro ecossistema direcionada a salvar um invertebrado foi bem-sucedida, e eu estou aqui para falar sobre isso.

O invertebrado em questão é uma planária de água doce chamada Dendrocoelum italicum. Ela foi descoberta em 1936 em uma caverna no norte da Itália chamada Bus del Budrio. Dentro da caverna, há uma pequena lagoa de água doce, com cerca de 5 × 5 m ou pouco mais, causada por uma cachoeira vindo de um pequeno córrego que chega por um corredor estreito elevado. A espécie aparentemente é encontrada somente nessa lagoa e em mais nenhum outro lugar.

Não há fotos disponíveis de Dendrocoelum italicum, mas ela deve ser parecida com a espécie Dendrocoelum lacteum vista aqui, mas D. italicum não possui olhos. Foto de Eduard Solà.*

Durante aos anos 1980, um cano foi instalado para desviar a água do córrego para uma fazenda nas proximidades. A cachoeira deixou de existir e a lagoa secou permanentemente. A planária sobreviveu em um riachinho bem estreito que se formou dentro da caverna e em algumas poças isoladas resultantes de gotejamento de água. A condição crítica da população foi descoberta em 2016 por um grupo de pesquisadores da Universidade de Milão. Eles informaram os administradores da caverna sobre a situação e, juntos, o time começou a conscientizar os cidadãos, que se beneficiavam de um reservatório formado pela água desviada, sobre a situação da caverna, o que levou o fazendeiro responsável pelo desvio da água a concordar em remover a estrutura artificial.

Imagem do interior da caverna. Foto de Livio Mola, extraída de
https://www.naturamediterraneo.com/forum/topic.asp?TOPIC_ID=57050

A remoção aconteceu em 3 de dezembro de 2016 depois que todas as planárias ocorrentes no riachinho foram coletadas e armazenadas em tanques plásticos dentro da caverna. Quando a cachoeira foi restaurada, ela rapidamente começou a preencher a antiga lagoa de novo e, um dia depois, as planárias foram liberadas dentro da lagoa.

O ecossistema foi monitorado durante os dois anos seguintes até janeiro de 2018. O número de planárias variou grandemente durante o levantamento, mas não foi significativamente maior após a restauração do que era antes. Contudo, houve um aumento significativo na população de uma espécie de bivalve, Pisidium personatum, e um pequeno aumento na população de um crustáceo do gênero Niphargus. Adicionalmente, anelídeos da família Haplotaxidae, que estavam ausentes na caverna, apareceram após a restauração. Assim, fica claro que o ecossistema se beneficiou com o reaparecimento da lagoa.

Graças aos esforços desses pesquisadores, a planária Dendrocoelum italicum agora tem mais chances de evitar a extinção. Contudo, este não é um caso isolado. Há muitas espécies de planárias de caverna pelo mundo inteiro vivendo em condições similares, geralmente restritas a apenas uma pequena lagoa dentro de uma única caverna. Muitas delas ocorrem, ou ocorriam, na Itália, mas a ajuda chegou muito tarde para elas. Por exemplo, uma espécie próxima, Dendrocoelum beauchampi, foi descoberta em 1950 em uma caverna no noroeste da Itália chamada Grotta di Cavassola, mas um levantamento recente não encontrou planárias na caverna, que parece ter sofrido grande alteração devido a atividades humanas. De forma similar, a espécie Dendrocoelum benazzi foi descoberta em 1971 na Itália central em uma caverna chamada Grotta di Stiffe, mas hoje em dia, com a caverna aberta a turistas e com sua água poluída, as planárias desapareceram. É bem provável que tanto D. beauchampi quanto D. benazzi estejam extintos. A situação é a mesma para outras espécies italianas.

Fora da Itália, uma espécie descrita vivendo em um ambiente pequeno similar é a planária de caverna brasileira Girardia multidiverticulata, que é conhecida de apenas uma pequena lagoa de 10 m² dentro de uma caverna chamada Buraco do Bicho no Bioma Cerrado.

Girardia multidiverticulata é uma espécie de planária restrita a uma pequena lagoa de 10 m² dentro de uma caverna do Cerrado brasileiro. Créditos a Souza et al. (2015).**

O caso de D. italicum demonstra que é possível salvar populações endêmicas pequenas de habitats ameaçados, mas precisamos da ajuda do público. Esperamos que outros ecossistemas tenham um final feliz similar.

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Referêmcias:

Manenti R, Barzaghi B, Lana E, Stocchino GA, Manconi R, & Lunghi E 2018. The stenoendemic cave-dwelling planarians (Platyhelminthes, Tricladida) of the Italian Alps and Apennines: conservation issues. Journal for Nature Conservation.

Manenti R, Barzaghi B, Tonni G, Ficetola GF, & Melotto A 2018. Even worms matter: cave habitat restoration for a planarian species increased environmental suitability but not abundance. Oryx: 1–6.

Souza ST, Morais ALN, Cordeiro LM, & Leal-Zanchet AM 2015. The first troglobitic species of freshwater flatworm of the suborder Continenticola (Platyhelminthes) from South America. Zookeys 470: 1–16.

Vialli PM 1937. Una nuova specie di Dendrocoelum delle Grotte Bresciane. Bollettino di zoologia 8: 179–187.

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*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 3.0 Não Adaptada.

**Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição 4.0 Internacional.

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Centenas de peixes-leões foram soltos no Atlântico por pena

por Piter Kehoma Boll

O peixe-leão-vermelho, Pterois volitans, é um peixe de coral belo e venenoso que é nativo da região indo-pacífica. Devido à sua grande beleza, é um peixe muito popular em aquários no mundo todo.

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Um peixe-leão-vermelho em seu habitat natural e nativo na Indonésia. Foto de Alexander Vasenin.*

Desde os anos 1980, o peixe-leão-vermelho passou a ser encontrado nas águas do oceano Atlântico em torno da Flórida. Como ele chegou lá? Certamente os humanos tiveram algo a ver com isso, mas a forma exata ainda é desconhecida. Originalmente uma população pequena, a espécie rapidamente se espalhou no começo do século XXI e em 2010 tinha colonizado o Caribe e o Golfo do México.

Alguns estudos originais sobre a diversidade genética da população do Atlântico estimaram que o número mínimo de espécimes introduzidos era em torno de 10. Se isso fosse verdade, a população estabelecida poderia ser o resultado de um acidente, como, por exemplo, os peixes de um único aquário que acidentalmente acabaram no mar.

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Um peixe-leão-vermelho fotografado em Curaçao, Caribe. Foto de Laszlo Ilyes.**

Um estudo publicado recentemente (veja referência), contudo, reestimou este número usando novos modelos e dados adicionais. As conclusões são de que o número de peixes que colonizaram o Atlântico era muito maior, em torno de 272 indivíduos. Uma introdução tão grande dificilmente ocorreria por acidente. Introduções por peixes sendo transportados da região indo-pacífica na água de lastro de navios é improvável, pois eles dificilmente sobreviveriam ao transporte. A resposta mais provável é que esses peixes foram introduzidos por várias pequenas solturas que aconteceram em Miami. Como e por quê? Bem, muitas pessoas gostam de ter peixes em belos aquários em casa, e quando elas se cansam de cuidar dos animais ou não podem mais continuar sustentando-os, elas decidem simplesmente largá-los no oceano por pena, porque a alternativa seria matá-los.

Agora você vê quais são as consequências de pensar assim? Você se preocupa demais com um único exemplar, não possui conhecimento ecológico e simplesmente decide largá-los na natureza. Anos depois, eles acabaram com ecossistemas inteiros e causaram um desastre de grande escala. É isso que humanos fazem. Como dizem, de boas intenções o inferno está cheio.

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Referências:

Selwyn JD, Johnson JE, Downey-Wall AM, Bynum AM, Hamner RM, Hogan JD, Bird CE. (2017Simulations indicate that scores of lionfish (Pterois volitans) colonized the Atlantic OceanPeerJ 5:e3996 https://doi.org/10.7717/peerj.3996

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Eles só se importam se você for fofo: como o carisma prejudica a biodiversidade

por Piter Kehoma Boll

Qual das duas espécies mostradas abaixo é mais carismática?

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Tangara chilensis (Tangará-do-paraíso). Foto do usuário do flickr ucumari.*

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Apocrypta guineensis (uma vespa-do-figo). Foto do usuário JMK do Wikimedia.**

Você provavelmente escolheria a primeira. E se eu perguntasse qual merece mais atenção e esforços para ser preservada, você provavelmente escolheria a ave também, ou ao menos a maioria das pessoas escolheria. Mas qual é o problema com isso? É isso que vou mostrar.

Como todos sabemos, a proteção da diversidade biológica é um assunto importante do mundo atual. Felizmente, há campanhas crescentes promovendo a preservação da biodiversidade, mas infelizmente elas são quase sempre direcionadas a um pequeno subconjunto de espécies. Você pode encontrar organizações buscando proteger tartarugas marinhas, tigres, águias ou pandas-gigantes, mas você consegue pensar em alguma querendo proteger besouros? A maioria dos programas de preservação visa criaturas grandes e carismáticas, como mamíferos, aves e plantas com flores, enquanto organismos menores e não tão fofos seguem negligenciados. E isso não é só verdade em ambientes que incluem pessoas não-biólogas, mas em todos os campos de pesquisa. E mais do que apenas levando a uma proteção de ecossistemas tendenciosa, esta preferência leva a milhares de espécies mal estudadas que poderiam trazer revoluções biotecnológicas para a humanidade.

Num estudo interessante publicado recentemente na Scientific Reports da Nature (veja referência abaixo), Troudet et al. analisaram a tendência taxonômica em dados de biodiversidade ao comparar a ocorrência de dados em vários grupos taxonômicos à diversidade desses grupos. Os resultados são impressionantes, apesar de não muito surpreendentes. Os grupos mais carismáticos, como aves, são, pode-se dizer, superestudados, com um excesso de registros, enquanto outros, como insetos, são altamente subestudados. Enquanto aves apresentam um total de 200 milhões de ocorrências acima do registro ideal, insetos tem cerca de 200 milhões abaixo do número ideal. E a situação não parece estar melhorando muito ao longo dos anos.

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A tendência é interessante e clara. A linha vertical indica o número “ideal” de ocorrências de cada grupo. Uma barra verde indica um excesso de ocorrências, enquanto uma barra vermelha indica uma falta de ocorrências. Aves e insetos estão em extremos opostos, mas certamente o desvio dos insetos é bem pior. Figura extraída de Troudet et al. (2017).***

Além disso, o estudo conclui que a principal razão para tal disparidade é simplesmente a preferência da sociedade, ou seja, os grupos mais estudados são os mais amados pelas pessoas em geral. O assunto é realmente um simples caso de carisma e tem pouco a ver com razões científicas ou de viabilidade.

A única maneira de mudar este cenário é se encontrarmos uma maneira de aumentar a percepção e o interesse do público geral sobre grupos menos carismáticos. Temos que torná-los interessantes para o público leigo de forma a receber seu apoio e aumentar o número de biólogos futuros que escolherão trabalhar com essas criaturas negligenciadas, mas muito importantes.

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Leia também:

Encontrados e depois perdidos: o lado não tão iluminado da taxonomia

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Referência:

Troudet, J.; Grandcolas, P.; Blin, A,; Vignes-Lebbe, R.; Legendre, F. (2017) Taxonomic bias in biodiversity data and societal preferences. Scientific Report 7: 9132. https://dx.doi.org/10.1038/s41598-017-09084-6

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