Arquivo do mês: fevereiro 2012

Uma Lenda de 120 Anos

por Rafael Nascimento

Animais de estimação de grande longevidade, que podem acompanhar seus donos por anos, sempre foram uma atração, como se pode observar pela popularidade das tartarugas, assim como psitacídeos, por serem vívidos e interativos. Os animais tendem a viver mais tempo em cativeiro, não sendo expostos aos perigos da “vida selvagem”. Alguns, no entanto, excedem o esperado e tornam-se personagens bem curiosos. Um destes personagens foi uma cacatua que viveu mais de cem anos na Austrália, entre os séculos XVIII e XX.

Chamado Cocky Bennet, uma cacatua-de-crista-amarela (Cacatua galerita) macho, ele se destacou não apenas pela idade que atingiu, mas também pelas suas características físicas incomuns. Nascido em 1796 (de acordo com o tabloide semanal The Queenslander, de Brisbane), próximo a Sydney, foi retirado de seu ninho em um eucalipto por um fazendeiro local. Com o passar os anos, ele começou a perder as penas, ficando com a aparência de uma galinha depenada com pele enrugada. Além disso, sua mandíbula tinha a ponta extraordinariamente longa, de modo que podia apenas comer alimentos amassados. Tais anormalidades são típicas da doença de bico e pena psitacínea, causada por um circovirídeo, que também diminui a imunidade do animal contra os efeitos de outros vírus e bactérias.

Cocky Bennet com 115 anos de idade em sua gaiola, 1911. Foto do arquivo da State Library of Victoria, Austrália.

Cocky Bennet com 115 anos de idade em sua gaiola, 1911. Foto do arquivo da State Library of Victoria, Austrália.

A ave passou seus primeiros 78 anos viajando o mundo com o Capitão Ellis, seu dono. Após a morte do capitão, ele foi herdado pelos Sr. e Sra. Bowden. Com a morte do Sr. Bowden em 1889, sua esposa então se casaria com Charles Bennet. O casal então se mudou para o Tom Ugly’s Point, Blakehurst, em 1891, onde o Sr. Bennet se tornou o titular do Sea Breeze Hotel.

Popular, Cocky viveu no hotel na maior parte dos seus últimos 25 anos. Era bastante falante, com seu repertório incluindo frases como “one feather more and I’ll fly” (“uma pena mais e eu voarei”) e “one at a time, gentlemen, please” (“um por vez, cavalheiros, por favor”), quando molestado por outras aves. Cocky era mais falante e com um linguajar mais ousado quando recebia um “gole de cerveja forte”. Recebia os visitantes se movendo ativamente no topo de sua gaiola na varanda frontal do hotel.

Cocky Bennet com 118 anos de idade, 1914. Foto do arquivo das Sutherland Shire Libraries, Austrália, usada com permissão.

Cocky Bennet com 118 anos de idade, 1914. Foto do arquivo das Sutherland Shire Libraries, Austrália, usada com permissão.

Apesar de ser afetado pela doença, faleceu apenas em maio de 1916, tornando-se o psitacídeo de vida mais longa registrado na Austrália. Já que não existem fontes indicando em que mês Cocky foi tirado de seu ninho, não é possível determinar se ele já tinha 120 ou ainda 119 anos. As cacatuas-de-crista-amarela, em Sydney, procriam de agosto a janeiro e os ovos eclodem após 25 dias. Então, supondo que ele não era um recém nascido (já que possivelmente não sobreviveria se retirado do ninho assim que tivesse saído do ovo), o fazendeiro provavelmente o pegou entre o final de setembro e o final de fevereiro. Na época, sua idade foi estabelecida por ornitólogos contando os anéis de crescimento de seu bico, concluindo que tinha 120 anos de idade, com margem de erro de um ano. A longevidade média da espécie é de 70 anos.

Cocky Bennet, 1914. Foto do arquivo das Sutherland Shire Libraries, Austrália, usada com permissão.

Cocky Bennet, 1914. Foto do arquivo das Sutherland Shire Libraries, Austrália, usada com permissão.

Após sua morte, o Sydney Morning Herald publicou (em 1916) a seguinte nota:

“Uma Cacatua Respeitável

“Cocky Bennet”, uma cacatua-de-crista-amarela australiana, morreu na sexta-feira em seu 120º ano em Canterbury. Esta idade é um recorde de longevidade para um papagaio australiano levando-se em conta os registros oficiais. Por muitos anos a ave estava sob custódia da Sra. Sarah Bennet, a titular do Sea Breeze Hotel, no Tom Ugly’s Point. Quando se mudou de lá, cerca de 12 meses atrás, ela transferiu o papagaio ao seu sobrinho, Sr. Murdoch Alexander Wagschall, no Woopack Hotel, Canterbury. A velha ave estava totalmente sem penas durante seus últimos 20 anos, mas manteve sua “pose” até o dia antes de sua morte. “Cocky Bennet” foi um grande viajante, dito ter feito sete viagens ao redor do mundo. O Sr. Wagschall providenciou que os restos mortais deste papagaio histórico fossem preservados por um taxidermista.”

De acordo com W. A. Easterling (The Sydney Morning Herald de 9 de julho de 1984), um sobrinho distante do Sr. Bennet, a ave foi empalhada e montada pela firma Tost and Rohu e colocada numa redoma de vidro. Permaneceu no hotel até o final da década de 1920 ou começo da de 1930, quando sua avó, a Sra. P. Wagschall (da qual o marido operou o antigo Woolpack Hotel em Canterbury), deixou o ramo da hotelaria. Então passado para sua mãe, os restos de Cocky ficaram pendurados em sua sala de jantar por mais de 40 anos, onde foi uma visão corriqueira aos membros da família, mas os visitantes ficavam nervosos com o aspecto “maligno” da relíquia. Sua esposa chegou a comentar que ela estava indecisa em casar-se com ele caso ele herdasse o velho horror. Após a venda da casa de sua família, sua irmã levou os restos de Cocky para a Kogarah Historical Society em seu museu no Carss Cottage no Carss Bush Park, junto aos documentos que possuíam.

Easterling também comentou que a biblioteca de Sutherland Council fez em maio de 1973 uma exposição sobre a ave, e os pesquisadores trouxeram muito mais informações históricas do que era conhecido pela sua parte da família. O assunto também foi tratado na Column 8 (Herald, 12 de maio de 1973), quando um espécime impostor foi exibido no Sea Breeze Hotel, dito ter sido adquirido de um museu privado em Kurnell e posto a mostra como os supostos restos de Cocky.

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Referências:

Centre for Fortean Zoology Australia. 2011. From the archives: A Venerable Cockatoo (1916). Disponível on-line em: <www.cfzaustralia.com/2011/09/from-archives-venerable-cockatoo-1916.html>. Acessado em 13 de fevereiro de  2012.

Grellis, A. 2008. Blakehurst: Cocky Bennet. Dictionary of Sydney. Disponível on-line em: <www.dictionaryofsydney.org/entry/blakehurst>. Acessado em 14 de fevereiro de  2012.

Kable, F. J. & Easterling, W. A. 1984. Fate of the real Cocky Bennet. The Sydney Morning Herald, Sydney, Australia, July 9, 1984: 8.
Kwek, G. 2011. Sydney’s old crock of a cockie was a legend at 120. The Sidney Morning Herald. Disponível on-line em: <www.smh.com.au/environment/animals/sydneys-old-crock-of-a-cockie-was-a-legend-at-120-20110831-1jkz2.html>. Acessado em 13 de fevereiro de  2012.
Meinhardt, J. 2011. The Birds. Oh Snap! Disponível on-line em: <jocelot.blogspot.com/2011/04/birds.html>. Acessado em 13 de fevereiro de  2012.
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Arquivado em Ornitologia

A beleza escondida em um campo

por Piter Kehoma Boll

Há algum tempo, eu fui com meus pais até a casa de minha tia na cidade vizinha, Estância Velha, e meus pais decidiram ir à casa de meu tio, do outro lado da rua, para pescar em sua propriedade. Eu fui com eles, mas como estava quente demais para ficar quieto no sol com uma vara de pescar, eu decidi dar uma volta pelo campo para encontrar coisas interessantes para fotografar.

Quando alguém olha para um campo, à primeira vista ele parece ser um amontoado sem fim de grama e nada mais, mas se você olhar mais de perto, você pode encontrar uma diversidade incrível de plantas com flores vivendo lá.

Aqui apresentarei as belas flores que encontrei lá depois de somente cerca de uma hora explorando o campo.

Sida rhombifolia L.

Sida rhombifolia L.

Ludwigia tomentosa (Cambess.) H.Hara

Ludwigia tomentosa (Cambess.) H.Hara

Ludwigia peploides  (Kunth) P.H.Raven

Ludwigia peploides (Kunth) P.H.Raven

Elephantopus mollis Kunth

Elephantopus mollis Kunth

Tibouchina cf gracilis (Bonpl.) Cogn.

Tibouchina cf gracilis (Bonpl.) Cogn.

Tibouchina herbacea (DC.) Cogn.

Tibouchina herbacea (DC.) Cogn.

Leandra regnelli (Triana) Cogn.

Leandra regnelli (Triana) Cogn.

Solanum cf. atropurpureum L.

Solanum cf. atropurpureum L.

Commelina erecta L.

Commelina erecta L.

Tripogandra diuretica (Mart.) Handlos

Tripogandra diuretica (Mart.) Handlos

Begonia cucullata Will.

Begonia cucullata Will.

Desmodium incanum DC.

Desmodium incanum DC.

Asclepias curassavica L.

Asclepias curassavica L.

Sisyrinchium micranthum Cav.

Sisyrinchium micranthum Cav.

Richardia brasiliensis Gomes

Richardia brasiliensis Gomes

Eclipta prostrata (L.) L.

Eclipta prostrata (L.) L.

E há algumas que não fui capaz de identificar. Se alguém souber o nome destas plantas e puder me ajudar com a identificação, eu ficaria muito grato. E por favor, caso eu tenha identificado erroneamente alguma espécie, não hesitem em me informar. A seguir as que esperam identificação.

Atualização (13/02/2016): Meu amigo Dióber Lucas identificou as espécies abaixo. Muito obrigado, Dióber!

Asteraceae?

Cuphea carthagensensis (Jacq.) J. F. Macbr.

Asteraceae (Ageratum?, Vernonia?)

Ageratum conyzoides L.

Liliaceae?

Liliaceae?

Fabaceae

Desmodium adscendens (Sw.) DC.

Lamiaceae?

Hygrophila costata Sinning

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Arquivado em Botânica, Ecologia

Por que todo mundo ri de Williamson, o “melhor amigo” de Lynn Margulis

por Piter Kehoma Boll

O que você pensaria se alguém chegasse em você e dissesse que o seu caracol de estimação acidentalmente engravidou e você é o pai? Ou você foi ao médico e ele lhe disse “parabéns, você está grávida e o pai é um ouriço-do-mar”. Com certeza você sentiria orgulho, não é?

Bem, se você pensa que isso é um absurdo ridículo, você está certo! Mas adivinhe, há um cientista sênior (isto é, muito velho) alegando que tal coisa acontece na natureza o tempo todo! E qual é o seu nome? Donald I. Williamson.

Donald I. Williamson. Encontrei essa foto (a única), num blog polonês  (biokompost.wordpress.com). Infelizmente eu não falo polonês... ainda.

Donald I. Williamson. Encontrei essa foto (a única), num blog polonês (biokompost.wordpress.com). Infelizmente eu não falo polonês… ainda.

Nascido em 1922, ele é um planctologista e carcinologista britânico, já aposentado, é claro. Mas pelo menos desde 1987 vem publicando uma série de artigos estranhos afirmando que híbridos entre diferentes filos de animais aconteceram muitas vezes durante a história do reino animal.

Tudo começou, como já mencionado, em 1987, em seu artigo “Incongruous Larvae and the Origin of some Invertebrate Life-Histories” (Larvas Incongruentes e a Origem da História de Vida de alguns Invertebrados), onde ele considera as enormes diferenças entre adultos e larvas em muitos animais, primeiramente considerando echinodermos em especial. Sua ideia “revolucionária” é que larvas e adultos evoluíram separadamente em diferentes linhagens de animais e mais tarde se tornaram uma espécie única por hibridização. Ele alega isso incialmente com a citação de trabalhos que sugerem a possibilidade de transferência horizontal de genes entre organismos distantemente relacionados, principalmente causada por vírus levando uma quantidade pequena do DNA do hospedeiro de um organismo para o outro. Assim ele aparentemente pensou “Se é possível levar um gene de um animal para outro, por que isso não poderia acontecer com o genoma inteiro?”.

Equinodermos, suas primeiras vítimas, são considerados como tendo hibridizado com hemicordados, assim explicando porque a larva dos dois grupos é tão similar. Ao final, ele admite que não fez qualquer pesquisa em relação a todos ou a maioria dos trabalhos recentes sobre desenvolvendo e filogenia dos grupos alvos.

Uma estrela do mar (Echinoderma) e um balanoglosso (Hemichordata). Certamente um casal adorável. Fotos por Mike Murphy e Philcha, da Wikipedia.

Uma estrela-do-mar (Echinoderma) e um balanoglosso (Hemichordata). Certamente um casal adorável. Fotos por Mike Murphy e Philcha, da Wikipedia.

Aqui é interessante citar um trabalho por Švácha (1992) estudando os discos imaginais em larvas de insetos holometábolos (aqueles com estágios de larva, pupa e adulto). Discos imaginais são regiões de células aparentemente não diferenciadas em larvas de insetos e inicialmente consideradas como a fonte da maioria das características dos adultos não encontradas em larvas, bem como responsáveis pela substituição dos órgãos das larvas por novos em adultos, como as antenas da larva sendo substituídas por novas durante a transição de um estágio para outro. Švácha percebeu, no entanto, que isso na verdade não acontece e que discos imaginais somente ajudam a desenvolver estruturas larvais, mas não as substituem por novas. Ou seja, a forma adulta dos insetos não vem de um segundo “embrião” escondido dentro da larva.

É claro que Williamson ignorou esse artigo e muitos outros e em 2001 trouxe outro argumento para se sustentar: uma falácia.

Você pode ou não saber, mas a teoria endossimbionte sugere que organelas intracelulares, como mitocôndrias e cloroplastos, se originaram de bactérias associadas a células eucarióticas. Pode-se então supor que a função de organelas intracelulares existiu antes das próprias organelas, assim para Williamson foi completamente lógico assumir que as características de larvas existiram antes dos animais terem larva.

Como se ele estivesse num estado frenétco, Williamson começou a descarregar toneladas de hibridizações “perfeitamente possíveis” entre grupos animais. Para citar algumas:

  • Larvas de turbelários vieram de rotíferos
  • Larvas de equinodermos vieram de hemicordados
  • Larvas de tunicados vieram de Appendiculata (um grupo antigo que compreendia artrópodes, anelídeos, rotíferos e outros)
Um policladido (Turbellaria) e um 'animal-roda' (Rotífera). Outro casal adorável. Fotos por Dr. James P. McVey do NOAA Sea Grant Program; e Absolutecaliber, da Wikipedia.

Um policladido (Turbellaria) e um ‘animal-roda’ (Rotifera). Outro casal adorável. Fotos por Dr. James P. McVey do NOAA Sea Grant Program; e Absolutecaliber, da Wikipedia.

E para deixar ainda mais bizarro, ele sugeriu que a blástula dos embriões animais veio de uma hibridização com Volvocales, um grupo de algas verdes!

De acordo com Williamson (2001), a blástula de embriões de animais veio de uma hibridização com uma alga do grupo Volvocales (esquerda). Fotos pela Agência de Proteção Ambiental, Governo Federal dos EUA; e Pearson Scott Foresman, da Pearson Company.

De acordo com Williamson (2001), a blástula de embriões de animais veio de uma hibridização com uma alga do grupo Volvocales (esquerda). Fotos pela Agência de Proteção Ambiental, Governo Federal dos EUA; e Pearson Scott Foresman, da Pearson Company.

E como você também pode ver ao ler seu trabalho, a maioria de suas referências são seus próprios trabalhos anteriores, obviamente indicando uma falta de interesse em qualquer estudo REAL tentando entender a origem de diferenças entre larvas e adultos. Também vale a pena notar que Williamson possuía uma fobia incomum pelos nomes das classes de equinodermos, visto que a terminação -oidea era incômoda demais para ele para ser vista em algo que não fosse uma superfamília.

Em 2006, Minelli et al. apresentaram uma revisão interessante de pesquisas considerando o desenvolvimento de artrópodes de formas larvais para adultos, onde uma das explicações possíveis para a drástica mudança ocorrente em larvas de insetos holometábolos não é nada mais completo que uma forma de “neotenia”, isto é, quando estágios iniciais de desenvolvimento duram mais tempo no ciclo de vida de um organismo. Neste caso, a coisa provável que ocorre é que a larva de insetos holometábolos são algo como embriões bem desenvolvidos e móveis; nada tão estranho, certo? E adivinhe? Em toda a revisão não há uma única menão a Williamson, e nós todos podemos imaginar por quê…

No mesmo ano, Williamson ataca novamente com outro papel, desta vez afirmando que a explosão cambriana ocorreu devido ao grande número de hibridizações com transferência larval e, como em todos os seus trabalhos anteriores, usa o argumento de que “a seleção natural não pode explicar tais divergências entre adultos e larvas”. Nós tabém podemos perceber que ele ignora completamente todas as publicações recentes relacionadas a filogenética e genômica e, ao menos ao que parece para mim, ignore qualquer coisa relacionada a teorias evolutivas que não seja “A Origem das Espécies” de Darwin e os trabalhos de Lynn Margulis (por quem ele parece ter alguns sentimentos passionais desesperados).

E então novamente, em 2009, ele aparece com outro artigo, este publicado na PNAS, entitulado “Caterpillars evolved from onychophorans by hybridogenesis” (Lagartas evoluíram de onicóforos por hibridogênese), onde ele persiste em suas ideias absurdas, afirmando que lagartas surgiram de uma mariposa fêmea sendo acidentalmente fertilizada por um onicóforo macho, e ele continua ignorando qualquer coisa relacionada a dados moleculares, atacando as ideias de Darwin e Haeckel mais uma vez e citando somente trabalhos que, pelo seu ponto de vista limitado, poderiam suportar de alguma forma suas ideias incongruentes. Todos os artigos publicados durante estes mais de 20 anos em que ele passou afirmando a mesma bobagem, como um pastor fanático numa igreja, foram deixados de lado.

"Com licença,senhorita, mas você acabou de ser fecundada pelo meu sêmen." Os dois pais originais de uma lagarta, de acordo com Williamson, teriam sido um onicóforo e uma mariposa. Fotos por Thomas Stromberg e Jonathon Combes.

“Com licença,senhorita, mas você acabou de ser fecundada pelo meu sêmen.” Os dois pais originais de uma lagarta, de acordo com Williamson, teriam sido um onicóforo e uma mariposa. Fotos por Thomas Stromberg e Jonathon Combes.

Enfim, este trabalho ganhou uma repercussão maior que os anteriores e muitos cientistas manifestaram sua indignação por ele, de forma que por dois meses o artigo foi suspendido de publicação impressa, até que finalmente apareceu impresso na edição de novembro daquele ano (2009).

Agora, falando sério, como é possível que uma ideia tão ridícula foi aceita para publicação neste século, depois de todos os pesquisadores sérios preocupados com a filogenia e ontogenia de animais?

Bom, foi possível por uma razão: Lynn Margulis. Foi ela quem aprovou o artigo, através de uma rota de submissão que permitia a membros da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos gerenciar a revisão do manuscrito de um colega. Mas por que Lynn Margulis apoiaria tal ideia de um velho “cientista” aposentado e fora de si? Eu diria que é porque ela estava bem fora de si também.

Lynn Margulis. Foto por Javier Pedreira.

Lynn Margulis. Foto por Javier Pedreira.

Se você conhece Lynn Margulis, você também sabe que ela já foi uma bióloga brilhante com ideias desafiadoras, ajudando a tornar a teoria endossimbionte conhecida e eventualmente aceita para explicar a origem de cloroplastos e mitocôndrias. Mas em seus últimos anos (ela faleceu em 22 de Novembro de 2011) ela começou a atacar ideias bem suportadas em ciência de uma forma meio irracional, como afirmando que AIDS não é causada pelo HIV.

Quando este último trabalho de Williamson foi liberado para impressão, o mesmo número trouxe um desafio pelo zoólogo Gonzalo Giribet e um artigo por Hart & Grosberg rejeitando as ideias de Williamson baseados em todos os dados moleculares já disponíveis que claramente indicam que insetos holometábolos não possuem genes onicóforos de forma alguma para explicar tanta besteira.

Aparentemente Williamson preparou uma breve resposta, mas ela não foi liberada para publicação.

Assim, após ler isso, penso que qualquer um pode entender por que ninguém pode levá-lo a sério. Ou você pode de alguma forma acreditar que possa ficar grávida de uma água-viva enquanto está nadando no mar?

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Referências:

Abbott, A., Brumfiel, G., Dolgin, E., Hand, E., Sanderson, K., Van Noorden, R., & Wadman, M. 2009. Whatever happened to …? Nature DOI:10.1038/news.2009.1162

Giribet, G. 2009. On velvet worms and caterpillars: Science, fiction, or science fiction? Proceedings of the National Academy of Sciences, 106 (47), e131 DOI:10.1073\pnas.0910279106

Hart, M., & Grosberg, R. 2009. Caterpillars did not evolve from onychophorans by hybridogenesis Proceedings of the National Academy of Sciences, 106 (47), 19906-19909 DOI: 10.1073/pnas.0910229106

Minelli, A., Brena, C., Deflorian, G., Maruzzo, D., & Fusco, G. 2006. From embryo to adult—beyond the conventional periodization of arthropod development Development Genes and Evolution, 216 (7-8), 373-383 DOI:10.1007/s00427-006-0075-6

Švácha, P. 1992. What Are and What Are Not imaginal Discs: Reevaluation of Some Basic Concepts (Insecta, Holometabola) Developmental Biology, 154, 101-117

Williamson, D. 1987. Incongruous larvae and the origin of some invertebrate life-histories Progress In Oceanography, 19 (2), 87-116 DOI: 10.1016/0079-6611(87)90005-X

Williamson, D. 2001. Larval transfer and the origins of larvae Zoological Journal of the Linnean Society, 131 (1), 111-122 DOI: 10.1006/zjls.2000.0252

Williamson, D. 2006. Hybridization in the evolution of animal form and life-cycle Zoological Journal of the Linnean Society, 148 (4), 585-602 DOI:10.1111/j.1096-3642.2006.00236.x

Williamson, D. 2009. Caterpillars evolved from onychophorans by hybridogenesis Proceedings of the National Academy of Sciences DOI:10.1073/pnas.0908357106

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