O percevejo na aranha e a aranha a fiar

por Piter Kehoma Boll

Se você acha aranhas assustadoras, hoje vai aprender que elas também se assustam. Mas o que poderia assustar uma aranha? Bem, um percevejo da teia!

Geralmente pensandos em teias de aranha como um ganho evolutivo bem-sucedido deste grupo de aracnídeos e uma forma bem eficiente de capturar presas sem ter que persegui-las. Teias são grudentas, resistentes, e somente aranhas podem se mover livremente por elas. O problema é que isso não é verdade.

Um percevejo-assassino-pernudo (Emesaya sp.) se alimentando de uma aranha após invadir a teia da aranha nos Ghats Ocidentais, Índia. Foto de Vipin Baliga.*

Um grupo de insetos que conquistou o mundo das aranhas são os assim chamados percevejos-assassinos-pernudos, que compreendem a subfamília Emesinae de percevejos-assassinos (família Reduviidae). Como o nome implica, os percevejos-assassinos são um grupo de percevejos (subordem Heteroptera) que são assassinos experientes de outras criaturas.

Durante sua evolução, os percevejos-assassinos-pernudos parecem ter aquirido um gosto especial por aranhas e pelo mundo todo eles são frequentemente associados a estes predadores de oito patas. Em muitos casos, como no visto na imagem acima, o percevejo preda as aranhas, tendo desenvolvido a habilidade de se mover através das teias. Eles geralmente produzem vibrações na teia que atraem as aranhas. Essas, achando que capturaram uma presa, são atraídas para a morte nas pernas e na probóscide do terrível inseto.

Alguns percevejos-assassinos-pernudos encontraram, no entanto, outra forma de incomodar aranhas: roubando sua comida. Neste último cenário, os percevejos geralmente esperam perto ou sobre a teia da aranha e, quando um inseto é capturado, eles o roubam da aranha arrancando-o da teia. Este tipo de comportamento é chamado cleptoparasitismo, que significa “parasitismo por roubo”.

Mas como as aranhas podem evitar este pesadelo de inseto?

Até recentemente, acreditava-se que as aranhas estavam seguras em cavernas. Apesar de percevejos emesíneos ocorrerem em cavernas, sua associação com aranhas parecia mais fraca ou inexistente lá. Mas novos achados revelaram que eles perseguem nossas amigas aracnídeas até os abismos mais profundos da Terra.

O primeiro percevejo-assassino-pernudo de caverna conhecido como predador de aranhas é Bagauda cavernicola, da Índia. Seus hábitos de comer aranhas são conhecidos desde as primeiras décadas do século XX.

A segunda espécie, Phasmatocoris labyrinthicus, foi encontrada quase um século mais tarde, em 2013, no Arizona, EUA. Mais do que apenas se alimentar de aranhas, como as da espécie Eidmanella pallida que vive na mesma caverna, P. labyrinthicus parece ter desenvolvido a habilidade de manipular teias de aranha abandonadas e as usa para capturar presas para seu próprio consumo. Somente um caso de tal comportamento foi registrado e a espécie precisa de estudos adicionais.

Phasmatocoris labyrinthicus se alimentando de uma aranha Eidmanella pallida nas Cavernas Kartchner, Arizona, EUA. Foto extraída de Bape, 2013.

Agora, apenas 3 anos mais tarde, há novas evidências de mais percevejos-assassinos-pernudos molestando aranhas em cavernas. E desta vez as observações foram feitas em Minas Gerais, Brasil. Um indivíduo da espécie Emesa mourei foi visto na teia de uma aranha-marrom (Loxosceles similis) enquanto a aranha estava na borda da teia. Outro espécime de E. mourei foi visto se alimentando de uma mosca perto da teia de um folcídeo (aranha-pernuda). A mosca e as pernas do percevejo possuíam vestígios de seda, indicando que o percevejo roubou a mosca da aranha. Outra espécie de percevejo, Phasmatocoris sp., foi observado na teia de uma aranha-pernuda Mesabolivar aff. tandilicus. Se esta espécie de Phasmatocoris manipula teias de aranha da mesma forma como P. labyrinthicus parece fazer ainda precisa ser investigado.

Ninfa de Emesa mourei se alimentando de uma mosca que aparentemente roubou de uma aranha folcídea na Lapa Arco da Lapa, Minas Gerais, Brasil. Foto de Leonardo P. A. Resende, extraída de Resende et al. (2006).

Com três registros diferentes e bem distantes de percevejos-assassinos-pernudos associados a aranhas em cavernas, é evidente que os pobres aracnídeos não podem se livrar destes insetos mesmo se correrem para as entranhas da Terra.

– – –

Referências:

PAPE, R. (2013). Description and Ecology of A New Cavernicolous, Arachnophilous Thread-legged Bug (Hemiptera: Reduviidae: Emesini) from Kartchner Caverns, Cochise County, Arizona Zootaxa, 3670 (2) DOI: 10.11646/zootaxa.3670.2.2

Resende, L., Zepon, T., Bichuette, M., Pape, R., & Gil-Santana, H. (2016). Associations between Emesinae heteropterans and spiders in limestone caves of Minas Gerais, southeastern Brazil Neotropical Biology and Conservation, 11 (3) DOI: 10.4013/nbc.2016.113.01

Wignall, A., & Taylor, P. (2010). Predatory behaviour of an araneophagic assassin bug Journal of Ethology, 28 (3), 437-445 DOI: 10.1007/s10164-009-0202-8

Wygodzinsky, P. W. 1966. A monograph of the Emesinae (Reduviidae, Hemiptera). Bulletin of the American Museum of Natural History, 133:1-614.

– – –

*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição Não Comercial Sem Derivações 2.0 Genérica.

Deixe um comentário

Arquivado em Aracnídeos, Aranhas, Comportamento, Conservação, Entomologia, Zoologia

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s