Arquivo da categoria: protistas

Sexta Selvagem: Corda-de-defunto

por Piter Kehoma Boll

Disseminada em águas temperadas do norte dos oceanos Atlântico e Pacífico, a espécie da Sexta Selvagem é uma alga marrom cujo nome científico, Chorda filum, significando “corda fio”, é uma boa forma de descrever sua aparência. Suas frondes são longas e sem ramificações, medindo cerca de 5 mm de diâmetro e atingindo até 8 m de comprimento, de forma que realmente parece uma longa corda, o que levou a nomes comuns como corda-de-defunto, laço-do-mar, tripa-de-gato, alga-laço-de-bota, tranças-de-sereia e linha-de-pesca-de-sereia.

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Um grupo de cordas-de-defunto crescendo juntas. Créditos a Biopix: JC Shou.

Essa alga geralmente é encontrada em áreas abrigadas, como em lagoas, enseadas, pequenas baías, fiordes ou mesmo estuários de rios, sendo muito tolerante a águas com baixa salinidade, mas evitando praias abertas, expostas. Ela cresce presa ao substrato por um pequeno disco, estando geralmente presa a substratos muito instáveis, como pedregulhos soltos ou mesmo outras algas, e raramente é encontrada em rochas estáveis. Como resultado, durante eventos em que as águas se tornam agitadas, como durante tempestades, ela pode ser facilmente transportada para outras localidades.

Várias espécies vivem nas frondes da corda-de-defunto, incluindo muitas algas e caramujos marinhos. Outros invertebrados, como anfípodes, parecem não gostar muito dela.

Estudos mostraram que a corda-de-defunto é rica em antioxidantes, compostos que ajudam a reduzir o processo de envelhecimento e diminuem os riscos de doenças como o câncer. Apesar de comestível, a corda-de-defunto não é amplamente usada como fonte de alimento. Talvez possamos mudar isso, contanto que tal ação seja conduzida de maneira sustentável.

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Referências:

Pereira, L. (2016) Edible Seaweeds of the World, CRC Press, London, 463 pp.

South, G. R.; Burrows, E. M. (1967) Studies on marine algae of the British Isles. 5. Chorda filum (L.) StackhBritish Phycological Bulletin3(2): 379-402.

Yan, X.; Nagata, T.; Fan, X. (1998) Antioxidative activities in some common seaweedsPlant Foods for Human Nutrition 52: 253-262.

 

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Sexta Selvagem: Miniacina-rosa

por Piter Kehoma Boll

É hora do próximo foraminífero, o que sempre é uma hora problemática, mas eu dei um jeito de encontrar um cara adequado para esta sexta. Chamado Miniacina miniacea na comunidade científica, ele obviamente não possui um nome comum, então decidi chamá-lo de miniacina-rosa.

Diferentemente dos foraminíferos apresentados anteriormente, a miniacina-rosa é uma espécie séssil e colonial. Ela geralmente cresce presa a outras formas de vida, especialmente algas e corais. Devido á sua natureza colonial, somada ao tamanho já maior que o normal de foraminíferos quando comparados a outros organismos unicelulares, a miniacina-rosa é facilmente visível ao olho nu e pode ser vista como uma série de pequenos organismos ramificados com uma cor rosa intensa. Ela é particularmente comum no Mar Mediterrâneo, apesar de ser encontrada em outros locais também.

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Várias colônias rosadas de miniacina-rosa crescendo no Mar Mediterrâneo. Foto de Stefano Guerrieri.

Devido a seu hábito de viver na superfície de outros organismos sésseis, a miniacina-rosa compete com muitos outros organismos que se comportam de maneira similar. Como resultado, sua abundância tende a aumentar em águas mais profundas, onde muitos destes organismos encontram condições inadequadas demais para viver. Em algumas áreas, a abundância da miniacina-rosa pode ser alta o bastante para criar uma “areia rosa” a partir das conchas de espécimes mortos.

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Referências:

Di Camillo, C.; Bo, M.; Lavorato, A.; Morigi, C.; Reinach, M. S.; Puce, S.; Bavestrello, G. (2008) Foraminifers epibiontic on Eudendrium (Cnidaria: Hydrozoa) from the Mediterranean Sea. Journal of the Marine Biological Association of the United Kingdom88(3): 485–489. https://doi.org/10.1017/S0025315408001045

Milliman, J. D.(1976) Miniacina miniacea: modern foraminiferal sands on the Outer Moroccan shelf. Sedimentology23: 415–419. https://doi.org/10.1111/j.1365-3091.1976.tb00059.x

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Sexta Selvagem: Centelha-do-mar

por Piter Kehoma Boll

Se você vive perto do mar ou o visita com frequência, você pode às vezes ter visto as ondas brilharem enquanto quebram na praia à noite. Esse belo fenômeno é causado pela presença de microrganismos bioluminescentes, o mais famoso dos quais é o integrante da Sexta Selvagem de hoje. Cientificamente conhecida como Noctiluca scintillans, ela pode também ser chamada de centelha-do-mar.

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Ondas brilhando azuis em Atami, Japão. Foto de Kanon Serizawa.*

A centelha-do-mar é um dinoflagelado e é comum pelo mundo todo. Ela é um flagelado heterótrofo e se alimenta de muitos outros organismos pequenos, tal como bactérias, diatomáceas, outros dinoflagelados e até mesmo de ovos de copépodes e peixes. Tendo apenas um pequeno tentáculo e um flagelo rudimentar, a centelha-do-mar é incapaz de nadar, tornando-a um predador bem incomum. Estudos sugeriram que ela se alimenta ao esbarrar na presa durante o fluxo da água ou ao subir e descer na coluna d’água devido a diferenças de densidade. Ela também pode produzir um fio de muco preso ao tentáculo que enovela a presa e a traz para seu fim terrível.

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Uma Noctiluca scintillans isolada. Foto de Maria Antónia Sampayo, Instituto de Oceanografia, Faculdade Ciências da Universidade de Lisboa.**

Em águas temperadas, a centelha-do-mar é exclusivamente um predador, mas em águas tropicais ela pode conter algumas algas ingeridas que continuaram vivas e as usa em uma associação simbiótica para receber nutrientes da fotossíntese. Diatomáceas do gênero Thalassiosira parecem estar entre suas favoritas.

A característica mais marcante da centelha-do-mar, no entanto, é sua bioluminescência, de onde ela recebe seus nomes. A luz que ela emite é produzida por uma reação química entre um composto chamado luciferina e uma enzima, chamada luciferase, que a oxida, causando a emissão de luz. O fenômeno é claramente visível no mar durante florações do dinoflagelado, o que geralmente acontece logo depois de uma floração de seu alimento.

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Referências:

Kiørbe, T.; Titelman, J. (1998) Feeding, prey selection and prey encounter mechanisms in the heterotrophic dinoflagellate Noctiluca scintillansJournal of Plankton Research 20(8): 1615–1636.

Quevedo, M.; Gonzalez-Quiros, R.; Anadon, R. (1999) Evidence of heavy predation by Noctiluca scintillans on Acartia clausi (Copepoda) eggs of the central Cantabrian coast (NW Spain). Oceanologica Acta 22(1): 127–131.

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*Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição Não Comercial Sem Derivações 2.0 Genérica.

**Creative Commons License
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Sexta Selvagem: Diatomácea-navio-lira

por Piter Kehoma Boll

É hora da nossa próxima diatomácea e, assim como com o radiolário da semana passada, é uma tarefa difícil encontrar boas imagens e boas informações de qualquer espécie para apresentar aqui.

Hoje vou apresentar uma espécie do gênero mais diverso (eu acho, ou ao menos um dos mais diversos) de diatomáceas, Navicula, um nome que significa “naviozinho” em latim devido ao formato das células. Há mais de 1200 espécies no gênero, e uma delas é chamada Navicula lyra, que eu decidi chamar de diatomácea-navio-lira. Também a encontrei com o nome Lyrella lyra, sendo a espécie-tipo de um gênero Lyrella (lirazinha) que foi separado de Navicula. Eu não sei qual é a forma oficial hoje em dia, mas parece que Lyrella às vezes é algo como um subgênero de Navicula, apesar de algumas vezes os dois gêneros não estarem nem na mesma família!

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Navicula lyra, um naviozinho-lira. Foto de Patrice Duros.*

Enfim, a diatomácea-navio-lira é uma espécie planctônica que é encontrada em oceanos do mundo, estando presente em listas de espécies de todos os lugares. Ela mede cerca de 100 µm ou menos, um tamanho típico para uma diatomácea.

Como com outras diatomáceas nos gêneros NaviculaLyrella, a diatomácea-navio-lira possui diferentes variedades, que poderão eventualmente se revelarem espécies distintas, eu acho. Veja, por exemplo, a variedade constricta mostrada abaixo. Ela parece consideravelmente diferente da imagem acima, a qual aprece ser da variedade-tipo.

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Lyrella lyra var. constricta. Extraído de Siqueiros-Beltrones et al. (2017)

Apesar de ser uma espécie amplamente disseminada, pouco parece ser conhecido da história natural da diatomácea-navio-lira. Você não está interessado em estudar a ecologia desses pequeninos barcos de vidro?

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Referências:

Nevrova, E.; Witkowski, A.; Kulikovskiy, M.; Lange-Bertalot, H.; Kociolek, J. P. (2013) A revision of the diatom genus Lyrella Karayeva (Bacillariophyta: Lyrellaceae) from the Black Sea, with descriptions of five new species. Phytotaxa 83(1): 1–38.

Siqueiros-Beltrones, D. A.; Argumedo-Hernández, U.; López-Fuerte, F. O. (2017) New records and combinations of Lyrella (Bacillariophyceae: Lyrellales) from a protected coastal lagoon of the northwestern Mexican Pacific. Revista Mexicana de Biodiversidad 88(1): 1–20.

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Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição Não Comercial Sem Derivações 2.0 Genérica.

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Sexta Selvagem: Radiolário-esponja-de-espinhos-torcidos

por Piter Kehoma Boll

É hora do nosso próximo radiolário. Como de costume, é difícil encontrar boas informações de qualquer espécie. (Se você trabalha com radiolários e tem boas fontes disponíveis e espécies legais para sugerir, por favor, nos contate!)

É difícil encontrar imagens de radiolários vivos, especialmente aqueles identificados a nível específico, mas um que encontrei pode ser visto abaixo e é chamado Spongosphaera streptacantha, ou o radiolário-esponja-de-espinhos-torcidos, como eu decidi chamá-los.

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Uma bela foto de uma Spongosphaera streptacantha viva. Extraído de Galerie de l’Observatoire Océanologique de Villefranche-sur-Mer.

O radiolário-esponja-de-espinhos-torcidos é encontrado em águas quentes dos oceanos Atlântico e Pacífico (talvez do Índico também?) e, como pode-se ver, pode ter um diâmetro de mais de 1 mm se contarmos os espinhos mais longos. Como com a maioria dos radiolários, a célula desta espécie tem duas conchas concêntricas e um conjunto de espinhos que ocorrem num número de 6 a 15.

O alimento do radiolário-esponja-de-espinhos-torcidos consiste de organismos menores, como bactérias e algas, que ele captura com seus longos pseudópodes em forma de bastão chamados actinópodes.

Como com a maioria dos radiolários, o radiolário-esponja-de-espinhos-torcidos é pouco estudado em relação à sua ecologia. Esperemos que mais pessoas se interessem em estudar este fascinante grupo de organismos.

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Referências:

Kurihara, T.; Matsuoka, A. (2004) Shell structure and morphological variation in Spongosphaera streptacanthaHaeckel (Spumellaria, Radiolaria). Science Reports of Niigata University (Geology), 19: 35–48. http://hdl.handle.net/10191/2141

Matsuoka, A. (2007) Living radiolarian feeding mechanisms: new light on past marine ecosystems. Swiss Journal of Geosciences, 100: 273-279. https://dx.doi.org/10.1007/s00015-007-1228-y

Radiolaria.org: Spongosphaera streptacantha. Disponível em: < http://www.radiolaria.org/species.htm?sp_id=90 >. Acesso em 8 de agosto de 2017.

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Sexta Selvagem: Mixomiceto-celular-rosa

por Piter Kehoma Boll

Protistas sempre foram organismos problemáticos, e a espécie da Sexta Selvagem de hoje é uma das mais problemáticas. Conhecida cientificamente como Acrasis rosea, ela não tem um nome comum, como vocês já devem ter adivinhado, mas vou chamá-la de mixomiceto-celular-rosa, a tradução de um termo em inglês que encontrei em uma publicação.

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Células (nem tão) isoladas de Acrasis rosea. Foto de Shirley Chio.*

O mixomiceto-celular-rosa é um organismo unicelular com um formato ameboide. Ele se alimenta de uma variedade de bactérias e leveduras e é comumente encontrado em matéria vegetal em decomposição. Quando o suprimento de alimento é completamente consumido e as células começam a passar fome, elas se juntam e formam uma colônia que age como um único organismo que se move como um plasmódio similar aos mixomicetos. Por essa razão, elas foram originalmente chamadas de mixomicetos celulares e consideradas relacionadas a outros organismos que mostram um comportamento similar, como os do gênero Dictyostelium.

Este plasmódio se move através da formação de “pseudópodes”. Eventualmente as células começam a formar uma pilha, se elevando no ar, e produzem corpos de frutificação na forma de cadeias ramificadas de esporos. Há uma ligeira divisão de tarefas entre o talo e os esporos, mas ambos os grupos de células são viáveis para produzir a nova geração.

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As cadeias de esporos são visíveis nesta imagem do mixomiceto-celular-rosa durante sua fase de plasmódio. Foto de Shirley Chio.*

Todo o processo é similar ao que é visto em espécies de Dictyostelium, mas a divisão de tarefas e a morfologia do plasmódio e dos corpos de frutificação são um pouco mais complexas. Contudo, com o avanço da filogenia molecular, toda a classificação de mixomicetos e mixomicetos celulares caiu por terra.

Enquanto Acrasis revelou ser um excavado, sendo mais proximamente relacionado a organismos como as euglenas e os flagelados parasitas, Dictyostelim é proximamente relacionado aos mixomicetos verdadeiros, como o limo-de-muitas-cabeças já apresentado aqui.

Mas os excavados ainda são um grupo problemático entre os protistas, e assim a real posição do mixomiceto-celular-rosa pode ainda não estar estabelecida.

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Referências:

Bonner, J. T. (2003) Evolution of development in the cellular slime molds. Evolution and Development 5(3): 305–313. http://dx.doi.org/10.1046/j.1525-142X.2003.03037.x

Olive, L. S.; Dutta, S. K.; Stoianovitch, C. (1961) Variation in the cellular slime mold Acrasis rosea*. Journal of Protozoology 8(4): 467–472. https://dx.doi.org/10.1111/j.1550-7408.1961.tb01243.x

Page, F. C. (1978) Acrasis rosea and the possible relationship between Acrasida and Schizopyrenida. Archiv für Protistenkunde 120(1–2): 169–181. https://doi.org/10.1016/S0003-9365(78)80020-7

Weitzman, I. (1962) Studies on the nutrition of Acrasis roseaMycologia 54(1): 113–115.

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Sexta Selvagem: Ameba-Gigante

por Piter Kehoma Boll

O adjetivo “gigante” pode ser bem relativo. Em relação a microrganismos, mesmo algo com poucos milímetros pode ser considerado um gigante, e esse é o caso com a ameba-gigante Chaos carolinense (às vezes erroneamente grafado como Chaos carolinensis).

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Uma bagunça caótica como toda boa ameba. Foto de Tsukii Yuuji.

Medindo até 5 mm de comprimento, a ameba-gigante é um organismo de água doce que é facilmente visto a olho nu e, visto que também é facilmente cultivado no laboratório, se tornou amplamente usado em estudos de laboratório.

Assim como acontece com as amebas em geral, a ameba-gigante tem uma célula irregular com vários pseudópodes que podem se contrair e expandir. A célula tem centenas de núcleos, como é comum com espécies do gênero Chaos, sendo esta a principal diferença entre elas e o gênero Amoeba, que é proximamente relacionado.

A dieta da ameba-gigante é variável e inclui bactérias, algas, protozoários e até alguns animais pequenos. No laboratório, elas geralmente são alimentadas com ciliados do gênero Paramecium.

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Um espécie de Chaos carolinense se alimentando de vários indivíduos de Paramecium. Foto de Carolina Biological Supply Company.*

A ameba-gigante não seria um belo ser unicelular de estimação?

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Referências:

Tan, O. L. L.; Almsherqi, Z. A. M.; Deng, Y. (2005) A simple mass culture of the amoeba Chaos carolinense: revisit. Protistology, 4(2): 185–190.

Wikipedia. Chaos (genus). Disponível e <https://en.wikipedia.org/wiki/Chaos_(genus) >. Acesso em 20 de junho de 2017.

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