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Sexta Selvagem: Picão-preto

por Piter Kehoma Boll

E se a cura para o câncer tem morado no seu jardim todo esse tempo e você tem tentado se livrar dela como uma erva-daninha incômoda?

Não posso afirmar para vocês que a resposta está na espécie da Sexta Selvagem de hoje, mas ela certamente tem um bom potencial. Seu nome é Bidens pilosa, comumente conhecida como picão-preto, amor-de-burro, amor-seco ou carrapicho-de-agulha.

Não extravante, mas discreta. Essa é Bidens pilosa. Foto de Wibowo Djatmiko.*

Não extravante, mas discreta. Essa é Bidens pilosa. Foto de Wibowo Djatmiko.*

Nativo das Américas, onde cresce em campos abertos e clareiras de florestas, o picão-preto é agora encontrado no mundo todo, da Eurásia e da África até a Austrália e as ilhas do Pacífico. De primeira ele não chama muita atenção enquanto cresce entre outras ervas-daninhas. Ele pode chegar a 1.8 m de altura e tem flores pequenas e discretas reunidas num capítulo no estilo de uma margarida, com um punhado de flores brancas contornando um pequeno disco de flores amarelas.

O problema com esse camarada acontece quando você tem que passar entre eles depois que as flores se tornaram frutos.

A terrivelmente malvada infrutescência do picão-preto. Foto de Wibowo Djatmiko.*

A terrivelmente malvada infrutescência do picão-preto. Foto de Wibowo Djatmiko.*

Os frutos do picão-preto são pequenos bastões rígidos e secos com cerca de 2–4 pequenas arestas densamente serrilhadas na extremidade. Eles são arranjados em infrutescências esféricas e estão sempre ávidos para se prender em qualquer animal que esteja passando. As pequenas arestas se agarram ao pelo ou a roupas e os frutos são facilmente dispersados para outras áreas. É um exemplo clássico de zoocoria, isto é, dispersão de sementes por animais. Se você vive numa área onde essa planta é comum, você muito provavelmente já teve a experiencia de encontrar as roupas cheias dessas sementes pinicantes, especialmente depois de brincar, trabalhar ou simplesmente caminhar por um campo ou terreno baldio.

Mas o picão-preto é muito mais que uma erva-daninha sem graça e irritante. Na África subsaariana, ele é uma das plantas mais amplamente consumidas como alimento. Suas folhas são comestíveis quando cozidas, mas possuem um gosto forte e desagradável.

Além disso, o picão-preto é usado em medicina tradicional sul-americana e vários estudos demonstraram que ele é de fato um remédio poderoso. Extratos da planta apresentaram várias propriedades medicinais, incluindo:

  • Atividade antibacteriana e antifúngica
  • Atividade antimalárica
  • Atividade anti-herpes simplex
  • Habilidade de reduzir células tumorais e leucêmicas
  • Efeitos imunossupressores e anti-inflamatórios

Se isso não fosse o bastante, o picão-preto tem a habilidade de bioacumular cádmio em seus tecidos, de forma que pode ser usado para despoluir solos contaminados com cádmio.

Da próxima vez que você encontrar suas roupas cheias de picão-preto, lembre-se de que ele é mais, muito mais, do que simplesmente uma erva-daninha chata.

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Referências:

Brandão, M., Krettli, A., Soares, L., Nery, C., & Marinuzzi, H. (1997). Antimalarial activity of extracts and fractions from Bidens pilosa and other Bidens species (Asteraceae) correlated with the presence of acetylene and flavonoid compounds Journal of Ethnopharmacology, 57 (2), 131-138 DOI: 10.1016/S0378-8741(97)00060-3

Chang, J., Chiang, L., Chen, C., Liu, L., Wang, K., & Lin, C. (2001). Antileukemic Activity of Bidens pilosa L. var. minor (Blume) Sherff and Houttuynia cordata Thunb. The American Journal of Chinese Medicine, 29 (02), 303-312 DOI: 10.1142/S0192415X01000320

Chiang, L., Chang, J., Chen, C., Ng, L., & Lin, C. (2003). Anti-Herpes Simplex Virus Activity of Bidens pilosa and Houttuynia cordata The American Journal of Chinese Medicine, 31 (03), 355-362 DOI: 10.1142/S0192415X03001090

Deba, F., Xuan, T., Yasuda, M., & Tawata, S. (2008). Chemical composition and antioxidant, antibacterial and antifungal activities of the essential oils from Bidens pilosa Linn. var. Radiata Food Control, 19 (4), 346-352 DOI: 10.1016/j.foodcont.2007.04.011

Kviecinski, M., Felipe, K., Schoenfelder, T., de Lemos Wiese, L., Rossi, M., Gonçalez, E., Felicio, J., Filho, D., & Pedrosa, R. (2008). Study of the antitumor potential of Bidens pilosa (Asteraceae) used in Brazilian folk medicine Journal of Ethnopharmacology, 117 (1), 69-75 DOI: 10.1016/j.jep.2008.01.017

Oliveira, F., Andrade-Neto, V., Krettli, A., & Brandão, M. (2004). New evidences of antimalarial activity of Bidens pilosa roots extract correlated with polyacetylene and flavonoids Journal of Ethnopharmacology, 93 (1), 39-42 DOI: 10.1016/j.jep.2004.03.026

Pereira, R., Ibrahim, T., Lucchetti, L., da Silva, A., & de Moraes, V. (1999). Immunosuppressive and anti-inflammatory effects of methanolic extract and the polyacetylene isolated from Bidens pilosa L. Immunopharmacology, 43 (1), 31-37 DOI: 10.1016/S0162-3109(99)00039-9

Sun, Y., Zhou, Q., Wang, L., & Liu, W. (2009). Cadmium tolerance and accumulation characteristics of Bidens pilosa L. as a potential Cd-hyperaccumulator Journal of Hazardous Materials, 161 (2-3), 808-814 DOI: 10.1016/j.jhazmat.2008.04.030

Wikipedia. Bidens pilosa. Disponível em < https://en.wikipedia.org/wiki/Bidens_pilosa >.Acesso em 31 de julho de 2016.

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*Creative Commons License
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Sexta Selvagem: Euglena Vermelha

por Piter Kehoma Boll

Não seja tão idiota quanto o faraó egípcio no mito das pragas do Egito. Se acontecer de você encontrar um lago com água vermelha, como na imagem abaixo, certamente não é sangue. É simplesmente… uma alga tóxica!

Às vezes pode-se encontrar águas de um algo de cor vermelha. Foto extraída de naturamediterraneo.com/forum/, postada pelo usuário Carlmor.

Às vezes pode-se encontrar águas de um algo de cor vermelha. Foto extraída de naturamediterraneo.com/forum/, postada pelo usuário Carlmor.

A criatura responsável por esta coloração é nossa espécie do Sexta Selvagem de hoje: Euglena sanguinea, ou a euglena vermelha, um protista miscroscópico de água doce com uma distribuição cosmopolita. Estes organismos unicelulares possuem uma cor vermelha devido à presença de astaxantina, um pigmento também encontrado em alguns peixes, como salmão, e em crustáceos, como camarões e lagostas. Algumas aves também podem ter esse pigmento em suas penas. Em euglenas vermelhas, a astaxantina age como uma proteção contra radiação ultravioleta, de forma que quanto maior a incidência de radiaçãao UV, mais vermelhas as algas se tornam.

Uma fração de uma população de euglenas vermelhas sob o microscópio. Foto extraída de naturamediterranea.com/forum/, postada pelo usuário Carlmor.

Uma fração de uma população de euglenas vermelhas sob o microscópio. Foto extraída de naturamediterranea.com/forum/, postada pelo usuário Carlmor.

Quanto as condições são adequadas, geralmente devido a altas temperaturas e grandes quantidades de nutrientes, a euglena vermelha pode se tornar superpopulosa e cobrir toda a superfície de corpos d’água, fazendo-os parecerem vermelhos. A poluição da água, especialmente de esgoto doméstico, é uma das principais causas de aumento de nutrientes em corpos d’água e assim uma causa direta de florações de algas.

A euglena vermelha é conhecida por produzir euglenoficina, uma potente ictiotoxina, isto é, um composto que é tóxico para os peixes. Como resultado, florações de euglenas vermelhas podem levar a uma alta mortalidade de peixes, fazendo-as um organismo de grande importância para criadores de peixes.

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Referências:

Gerber, S.; Häder, D-P. 2006. Effects of enhanced UV-B radiation on the red coloured freshwater flagellate Euglena sanguineaFEMS Microbiology Ecology, 13(3): 177-184. DOI: 10.1111/j.1574-6941.1994.tb00064.x

Wikipedia. Euglena sanguinea. Available at <https://en.wikipedia.org/wiki/Euglena_sanguinea&gt;. Access on  January 07, 2016.

Zimba, P. V.; Rowan, M.; Triemer, R. 2004. Identification of euglenoid algae that produce ichthyotoxin(s). Journal of Fish Diseases, 27: 115-117.

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