Arquivo do mês: novembro 2014

Como pronunciar nomes científicos?

por Piter Kehoma Boll

Depois de anos no meio acadêmico, não há como não perceber que muitos ainda possuem dificuldade na pronúncia de nomes científicos mesmo entre os biólogos e outros profissionais constantemente em contato com estes termos. Assim, decidi fazer esse (não tão) breve resumo de como pronunciá-los.

Nomes científicos são palavras em latim científico, também chamado de latim contemporâneo, ou novo latim, e sua pronúncia varia de acordo com a língua oficial do local onde é usado, ou seja, sua pronúncia é adaptada a um background da língua falada pelos utilizadores dos termos. Assim, cada país possui sua forma própria de pronúncia. Aqui, vou apresentar a pronúncia de acordo com falantes de português brasileiro. Portanto, se você inserir nomes científicos na sua fala em português brasileiro, recomenda-se que a pronúncia siga os parâmetros apresentados a seguir:

Vogais

A – como em casa. Pode ser pronunciado mais fechado se antecede uma consoante nasal. Exemplos: Ara (gênero de araras), Anas (gênero de marrecos), Chara (gênero de algas)

E – como em pedra ou Pedro. A pronúncia pode ser tanto aberta quanto fechada. Exemplos: Hedera (gênero das heras), Aves (clado que inclui as aves), Emys (gênero de tartarugas)

I – como em livro. Exemplos: Helix (gênero de caracóis), Ilex (gênero da erva-mate), viridis (verde)

O – como em poço ou posso. A pronúncia pode ser tanto aberta quanto fechada. Exemplos: Homo (gênero do ser humano), Volvox (gênero de algas verdes), Bos (gênero da vaca)

U – como em cru. Exemplos: Lupus (lobo), Cucumis (gênero do pepino e do melão), Upupa (gênero da poupa)

Y – da mesma forma que I. Exemplos: Lynx (gênero do lince), Cyanocorax (gênero da gralha-azul), Myrtus (gênero da murta)

AE – da mesma forma que E. Exemplos: Aegla (gênero de caranguejos de água-doce), Poaceae (gramíneas), Taenia (gênero das solitárias)

OE – da mesma forma que E. Exemplos: Coelacanthus (gênero extinto de celacantos), Oecomys (gênero de roedores), Poecilia (gênero dos lebistes)

Consoantes

B – como em boca. Exemplos: Bryum (gênero de musgos), Bacillus (gênero de bactérias), ruber (vermelho)

C – 1. Antes de E, I, Y, AE, OE, como em cebola. Exemplos: Caecilia (gênero de cobras-cegas), Cynodon (gênero de gramíneas), Cebus (gênero do macaco-prego)

  1. em outras situações, como em cabelo. Exemplos: Canis (cão), Oryctolagus (gênero do coelho), Codium (gênero de algas)

D – como em dedo. Pode ser africado, como em dia, quando precede I ou Y. Exemplo: Draco (dragão), Dicksonia (gênero do xaxim), Adephaga (subordem de besouros)

F – como em faca. Exemplos: Fagus (faia), Fragaria (gênero do morango), Porifera (filo das esponjas)

G – 1. Antes de E, I, Y, AE, OE, como em gelo. Exemplos: Geophagus (gênero de acarás), Lagerstroemia (gênero da extremosa), Agaeocera (gênero de besouros)

  1. Em outras situações, como em galo. Exemplos: Gallus (galo), amygdalus (amêndoa), Grus (grou)

H – mudo, como em hora. Exemplos: Hovenia (gênero da uva-do-japão), Bauhinia (gênero da pata-de-vaca), Haptophyta (filo de algas)

J – como em janela. Exemplos: japonicus (japonês), Juglans (gênero da nogueira), Jana (gênero de mariposas)

K – como C em cabelo. Exemplos: Akodon (gênero de roedores), Kinetoplastida (grupo de protistas), Kentrosaurus (gênero de dinossauros)

L – como em lar. No final de uma sílaba pode ser vocalizado, como em mal. Exemplos: Limax (lesma), Allophylus (gênero do chal-chal), albus (branco)

M – como em mar. No final da sílaba pode apenas tornar a vogal anterior nasal. Exemplos: Animalia (animais), Mycobacterium (gênero de bactérias), Chrysanthemum (crisântemo)

N – como em nada. No final da sílaba pode apenas tornar a vogal anterior nasal. Exemplos: Nematoda (filo de vermes), Lantana (gênero de plantas ornamentais), Sphingidae (família de mariposas)

P – como em paz. Exemplos: Primates (primatas), Apteryx (gênero da ave kiwi), Peumus (gênero do boldo)

Q – como C em cabelo. Exemplos: Qaisracetus (gênero extinto de cetáceos), Qadria (gênero de cigarrinhas)

R – 1. No início das sílabas ou quando duplo, como em carro. Exemplos: Rallus (saracura), Conringia (gênero de plantas), Sarracenia (gênero de plantas carnívoras);

  1. No final de uma sílaba, como em carta, podendo se adaptar à pronúncia que a pessoa usa. Exemplos: Ursus (urso), Spermophilus (gênero de roedores), ater (negro);
  2. Em outras situações, como em caro. Exemplos: Iris (íris), Poriphera (filo das esponjas), Cryptodira (subordem de tartarugas).

S – 1. Entre vogais, especialmente após uma sílaba tônica, como em asa. Exemplos: Rosa (rosa), asinus (asno), Musa (gênero da bananeira)

  1. No final da sílaba, como em cesta, podendo se adaptar à pronúncia que a pessoa usa. Exemplos: Aster (gênero de plantas ornamentais), Lepisma (gênero das traças-de-livros), Prunus (gênero da ameixeira)
  2. Em outras situações, como como em salada. Exemplos: Sus (porco), Gossypium (gênero do algodão), Psyche (gênero de mariposas)

T – 1. Quando seguido de i+vogal (exceto quando no início de palavras ou se precedido por S, T ou X), como S em salada. Exemplos: adventitius (adventício), Actias (gênero de mariposas), nuptialis (nupcial)

  1. Em outros casos, como em tela. Pode ser africado, como em tipo, quando seguido de I ou Y. Exemplos: Tenebrio (gênero de besouros), Astia (gênero de aranhas-saltadoras), Tridacna (gênero de mexilhões gigantes)

V – como em vela. Exemplos: Vulpes (raposa), Arvicola (gênero de roedores), Vertebrata (vertebrados)

W – como no inglês way ou como V em vela. Exemplos: Wolbachia (gênero de bactérias endossimbiontes), Williamsonia (gênero de plantas extintas), Washingtonia (gênero de palmeiras)

X – como em axial. No início das palavras ou caso a origem etimológica justifique, pode ser pronunciado como em xícara. Exemplos: Xerapoa (gênero de planárias terrestres), Oxybelis (gênero de cobras arborícolas), Astyanax (gênero de lambaris)

Y – como no inglês yolk. Exemplos: Yapiguara (gênero de besouros), Coyolesia (gênero de besouro), Yucca (iúca)

Z – como em zebra. Exemplos: Metazoa (metazoários), Zingiber (gengibre), zebra (zebra)

Dígrafos

CC (antes de E, I, Y, AE, OE) – como X em axial, ou como S em salada. Exemplos: Coccinella (gênero de joaninhas), Occidozyga (gênero de rãs), Accedomoera (gênero de rãs)

CH – como C em cabelo, exceto em casos em que a etimologia justifique outra pronúncia, quando pode ou não manter a pronúncia da palavra original. Exemplos: Chiroptera (morcega), Carcharodon (gênero do tubarão-branco), chilensis (chileno)

GH – sempre como G em galo. Exemplos: Ghelna (gênero de aranhas-saltadoras), Ghatophryne (gênero de sapos), Lightiella (gênero de crustáceos)

GU (+vogal) – 1. Antes de A e O, como em água. Exemplos: Guarianthe (gênero de orquídeas), Aguarunichthys (gênero de bagres)

  1. Antes de E, I, Y, AE, OE, como em águia. Exemplos: Guimarotodon (gênero de mamífero primitivo extinto), Guibemantis (gênero de pererecas)

PH – como F em faca. Exemplos: Phoca (foca), Bryophyta (divisão dos musgos), Spathiphyllum (gênero do lírio-da-paz)

QU (+vogal) – 1. Antes de A, O, U, como em quadro. Exemplos: aquaticus (aquático), Equus (cavalo), aquosus (aquoso)

  1. Antes de E, I, Y, AE, OE, como em queda ou como em equino. Exemplos: Quercus (gênero do carvalho), Aquila (águia), Quaestus (gênero de besouros)

RH – como RR em carro. Exemplos: Rhea (gênero da ema), Arrhenia (gênero de cogumelos), Rhodophyta (algas vermelhas)

SC (antes de E, I, Y, AE, OE) – como C em cebola. Exemplos: Sciurus (esquilo), Oniscidea (subordem dos tatuzinhos-de-jardim), Ascidia (gênero de seringas-do-mar)

SH – como X em xícara. Exemplos: Shigella (gênero de bactérias), Leishmania (gênero de protozoários), Shumardia (gênero de trilobitas)

TH – como T em tela ou tipo (antes de I). Exemplos: Theristicus (gênero da curicaca), Arthropoda (artrópodes), Thunbergia (tumbérgia)

XC (antes de E, I, Y, AE, OE) – como X em axial, ou como C em cebola. Exemplos: excelsus (elevado), Excoecaria (gênero de plantas)

ZH – como Z em zebra, ou como J em janela. Exemplos: Zhadia (gênero de crustáceos), Azhdarchidae (família de pterossauros), Zhongjiana (gênero de répteis extintos)

Tonicidade

Ouço muito as pessoas falando no meio acadêmico, os professores especialmente, que em latim todas as palavras são proparoxítonas.

MENTIRA!!!! As regras são mais complexas do que isso, sem falar que isso não teria lógica. Palavras com uma ou duas sílabas não conseguem ser proparoxítonas!

Vejamos, então, como saber qual é a sílaba tônica de uma palavra em latim:

  1. Se a palavra possuir só uma sílaba, ela obviamente é oxítona: Sus, Mus, Mei
  2. Se ela possuir duas sílabas, obrigatoriamente é paroxítona: Rosa, Felis, Aeschna, Limax
  3. Se ela possuir três ou mais sílabas, ela pode ser paroxítona ou proparoxítona. O que define isso é a penúltima sílaba. Se ela for longa, ela puxa a tonicidade para si, forçando a palavra a ser paroxítona. Se ela for curta, a palavra é proparoxítona.

O que torna uma sílaba longa?

Uma das coisas é ela ter duas ou mais consoantes entre a penúltima e a última vogal. Isso inclui consoantes duplicadas, como TT, CC, PP… ou duas consoantes distintas, como RT, ST, PS… mas não os dígrafos com H (CH, PH, TH, SH, GH…), que são considerados consoantes simples.

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O segundo ponto que torna uma sílaba longa é a vogal dela ser longa. Todos os ditongos (AI, OI, EU, OU…), bem como os dígrafos AE e OE, são considerados longos.

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Uma vogal simples em latim clássico também podia ser longa, isto é, pronunciada com o dobro de duração de uma vogal curta. No latim científico, em português, essa distinção não é feita, já que o português não distingue vogais longas e curtas. No entanto, se a penúltima vogal é historicamente longa, ela obriga a palavra a ser pronunciada como paroxítona, da mesma forma que os ditongos mostrados acima. O problema é que o latim não diferencia vogais longas e curtas na escrita, então como saber se uma vogal simples é longa ou curta? Bem, só decorando cada caso. Mas posso dar umas dicas: Algumas terminações, como –anus/a/um, –inus/a/um, –aris/e, –alis/e, –ivus/a/um, –osus/a/um e –atus/a/um sempre são pronunciadas como paroxítonas.

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Nos demais casos, isto é, se houver menos de duas consoantes entre as duas últimas vogais e a penúltima vogal for curta, só nesses casos a palavra é pronunciada como proparoxítona. Como no caso anterior, a única forma de saber se a penúltima vogal é curta é decorando. Existem, no entanto, também algumas terminações que sempre vão indicar que a palavra é paroxítona, entre as quais se encontram –icus/a/um, –idus/a/um, –ius/a/um, –eus/a/um e –ulus/a/um.

 proparoxitonas

Caso os nomes dos gêneros sejam derivados de nomes próprios, a pronúncia pode seguir a da palavra na língua original, mas também pode ser adaptada à pronúncia brasileira do latim se preferível.

Alguns exemplos:

Washingtonia, Eisenia, Qianzhousaurus

E essas são basicamente as dicas para pronunciar nomes científicos. Espero que ajudem!

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