Arquivo da categoria: Peixes

Sua mãe ama você mais quando ela ama seu pai… se você é um peixe

por Piter Kehoma Boll

Seleção sexual é um tema frequente de minhas postagens aqui, mas elas costumam ser focadas em como fêmeas e machos se comportam um em relação ao outro. Contudo há um terceiro elemento que resulta de suas interações: os filhos.

Fêmeas tendem a selecionar os melhores machos para serem o pai de seus filhos porque estão interessadas em ter uma prole saudável e forte com melhores chances de sobreviver. Mas o que acontece quando uma fêmea não tem escolha a não ser acasalar com um macho de baixa qualidade? Ela cuidará dos filhotes da mesma forma?

Um estudo recente conduzido com o ciclídeo ponta-vermelha-de-Honduras, Amatitlania siquia, investigou essa questão. Esse peixe é nativo da América Central e, como geralmente acontece com ciclídeos, uma fêmea e um macho se unem e tomam conta juntos dos ovos e dos filhotes.

Um casal de Amatitlania siquia. Foto extraída de nvcweb.nl

Os pesquisadores puseram uma fêmea em um aquário de lados transparentes onde ela era capaz de analisar visualmente dois machos, um numa câmara à esquerda e outro numa câmara à direita. Um dos machos era maior que o outro, ambos sendo maiores que a fêmea. Após 48 horas, a fêmea foi posta aleatoriamente com o macho maior ou o macho menor para acasalarem.

Os resultados indicam que fêmeas produzem um número similar de ovos e tomam conta deles de forma similar quando acasalam com machos maiores ou menores. Contudo, depois que os ovos eclodem e as larvas se desenvolvem em pequenos juvenis, as fêmeas passam mais tempo cuidando deles caso o pai seja o peixe maior.

Elas não parecem muito animadas em perder tempo com crianças de baixa qualidade. Afinal, elas pode encontrar aquele belo peixe grande novamente no futuro.

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Referências:

Robart AR, Sinervo B (2019) Females increase parental care, but not fecundity, when mated to high-quality males in a biparental fish. Animal Behavior 148: 9–18. https://doi.org/10.1016/j.anbehav.2018.11.012

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Arquivado em Comportamento, Evolução, Peixes

Ventre Divertido: Bebês tubarões nadam dentro da mãe

by Piter Kehoma Boll

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A maioria das fêmeas de mamíferos se caracteriza por carregar os embriões no útero. À medida que o embrião cresce e se desenvolve, o espaço dentro do útero fica apertado, o que torna sua habilidade de se mover bastante limitada. Além disso, embriões de mamíferos são presos ao útero pela placenta, de forma que se mexer demais pode ser perigoso.

As coisas são diferentes em tubarões, que também tendem a carregar seus embriões no útero. Sem placenta, os embriões de tubarão podem se mover livremente dentro do útero, e algumas observações recentes revelaram que eles se movem bastante.

Um espécime de Nebrius ferrugineus na Grande Barreira de Corais. Foto de Anne Hoggett.*

Usando um dispositivo de ultrassom adaptado para ser usado embaixo d’água, um grupo de cientistas japoneses descobriu que os embriões do tubarão-lixa-enferrujado Nebrius ferrugineus são muito ativos dentro do útero. Tubarões fêmeas na verdade possuem dois úteros, os quais são conectados por uma passagem estreita logo acima do colo (a “saída” do útero). Os embriões foram observados nadando constantemente de um útero para o outro e em uma ocasião um deles até pôs a cabeça através do colo para “dar uma espiadinha” nas coisas fora da mamãe.

Imagens de ultrassom e ilustrações esquemáticas de um embrião de tubarão nadando de um útero para o outro. Imagem do artigo original.

A razão para uma vida tão ativa dentro do útero ainda não está bem clara, mas uma hipótese é a de que os embriões nadam procurando por ovos e embriões menores para comer. Pode soar horrível, mas bebês tubarões comendo seus irmãos dentro do útero parece ser uma ocorrência comum.

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Referência:

Tomita T, Murakumo K, Ueda K, Ashida H, Furuyama R (2018) Locomotion is not a privilege after birth: Ultrasound images of viviparous shark embryos swimming from one uterus to the other. Ethology. https://doi.org/10.1111/eth.12828

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*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição 4.0 Internacional.

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Centenas de peixes-leões foram soltos no Atlântico por pena

por Piter Kehoma Boll

O peixe-leão-vermelho, Pterois volitans, é um peixe de coral belo e venenoso que é nativo da região indo-pacífica. Devido à sua grande beleza, é um peixe muito popular em aquários no mundo todo.

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Um peixe-leão-vermelho em seu habitat natural e nativo na Indonésia. Foto de Alexander Vasenin.*

Desde os anos 1980, o peixe-leão-vermelho passou a ser encontrado nas águas do oceano Atlântico em torno da Flórida. Como ele chegou lá? Certamente os humanos tiveram algo a ver com isso, mas a forma exata ainda é desconhecida. Originalmente uma população pequena, a espécie rapidamente se espalhou no começo do século XXI e em 2010 tinha colonizado o Caribe e o Golfo do México.

Alguns estudos originais sobre a diversidade genética da população do Atlântico estimaram que o número mínimo de espécimes introduzidos era em torno de 10. Se isso fosse verdade, a população estabelecida poderia ser o resultado de um acidente, como, por exemplo, os peixes de um único aquário que acidentalmente acabaram no mar.

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Um peixe-leão-vermelho fotografado em Curaçao, Caribe. Foto de Laszlo Ilyes.**

Um estudo publicado recentemente (veja referência), contudo, reestimou este número usando novos modelos e dados adicionais. As conclusões são de que o número de peixes que colonizaram o Atlântico era muito maior, em torno de 272 indivíduos. Uma introdução tão grande dificilmente ocorreria por acidente. Introduções por peixes sendo transportados da região indo-pacífica na água de lastro de navios é improvável, pois eles dificilmente sobreviveriam ao transporte. A resposta mais provável é que esses peixes foram introduzidos por várias pequenas solturas que aconteceram em Miami. Como e por quê? Bem, muitas pessoas gostam de ter peixes em belos aquários em casa, e quando elas se cansam de cuidar dos animais ou não podem mais continuar sustentando-os, elas decidem simplesmente largá-los no oceano por pena, porque a alternativa seria matá-los.

Agora você vê quais são as consequências de pensar assim? Você se preocupa demais com um único exemplar, não possui conhecimento ecológico e simplesmente decide largá-los na natureza. Anos depois, eles acabaram com ecossistemas inteiros e causaram um desastre de grande escala. É isso que humanos fazem. Como dizem, de boas intenções o inferno está cheio.

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Referências:

Selwyn JD, Johnson JE, Downey-Wall AM, Bynum AM, Hamner RM, Hogan JD, Bird CE. (2017Simulations indicate that scores of lionfish (Pterois volitans) colonized the Atlantic OceanPeerJ 5:e3996 https://doi.org/10.7717/peerj.3996

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*Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 3.0 Não Adaptada.

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Sexta Selvagem: Peixe-lua

por Piter Kehoma Boll

Vamos nadar até o mundo dos peixes mais uma vez. E hoje vamos conhecer o mais pesado dos peixes ósseos, o peixe-lua!

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O peixe-lua se parece com um pedaço gigante de cogumelo, não acha? Foto de Per-Ola Norman.

Cientificamente conhecido como Mola mola, o peixe-lua é encontrado em águas tropicais e temperadas dos  oceanos do mundo todo e possui uma aparência bem estranha. E essa não é a única coisa estranha sobre ele. Mais do que ser o peixe ósseo mais pesado no mundo, pesado até mil quilos, ele se alimenta quase exclusivamente de águas-vivas, comendo uma quantidade enorme delas para se tornar tão grande. Além disso, o peixe-lua fêmea é conhecido por produzir até 300 milhões de ovos de uma vez, mais do que qualquer outro vertebrado!

A estranha protuberância na sua parte traseira não é uma nadadeira caudal. Na verdade, peixes-lua não têm cauda nenhuma. Essa estrutura, chamada de clavus, é formada por projeções das nadadeiras dorsal e anal.

Apesar do tamanho gigantesco, peixes-lua não são uma ameaça direta a humanos. As pessoas podem nadar entre eles sem problemas. As formas mais comuns de acidentes com estes peixes são causadas quando barcos colidem com eles ou quando um peixe-lua pula para fora da água e acaba dentro de um barco. Imagine um peixe de meia tonelada aterrissando sobre sua cabeça!

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Referências:

McGrouther, Mark (2011).”Ocean Sunfish, Mola mola“. Australian Museum Online.Disponível em <http://australianmuseum.net.au/ocean-sunfish-mola-mola&gt;. Acesso em 8 de dezembro de 2016.

Wikipedia. Ocean sunfish. Disponível em <https://en.wikipedia.org/wiki/Ocean_sunfish&gt;. Acesso em 8 de dezembro de 2016.

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Sexta Selvagem: Glúgea-de-solha

por Piter Kehoma Boll

Ao procurar por linguados você pode eventualmente encontrar um com algum crescimento grotesco no corpo, como o na foto abaixo:

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Um xenoma causado por Glugea stephani em um linguado Limanda limanda. Foto de Hans Hillewaert.*

Esse tipo de tumor é chamado de xenoma e, em linguados, é causado por um fungo microscópico e parasítico chamado Glugea stephani, ou a glúgea-de-solha.

A glúgea-de-solha é parte de um grupo de fungos chamado Microscoporidia que até recentemente eram classificados como protistas. Eles são unicelulares e parasitam outros organismos, especialmente crustáceos e peixes.

Uma vez dentro de um linguado, a glúgea-de-solha entra numa célula intestinal e começa a se desenvolver. Elas podem induzir a célula hospedeira a aumentar de tamanho e podem originar xenomas, que são o estágio mais extremo no desenvolvimento da doença. A proliferação e o estágio ativo da glúgea são livres no citoplasma da célula hospedeira, mas elas podem se converter em uma forma similar a um esporo, chamada esporoblasto, que se mantém dentro de um vacúolo.

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Imagem de microscopia eletrônica de uma célula intestinal de uma solha-de-inverno (Pseudopleuronectes americanus) infectada por glúgea-de-solha (Glugea stephani). O S indica esporoblastos dentro de um vacúolo (SV) e o P são os organismos proliferando dentro do citoplasma (H) do hospedeiro. Imagem extraída de Takvorian & Cali (1983).

Felizmente a maioria das infecções são amenas e não comprometem a saúde do peixe, pelo menos não muito…

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Referências:

Takvorian, P. M.; Cali, A. (1983). Appendages associated with Glugea stephani, a microscporidian found in flounder. Journal of Protozoology, 30(2): 251-256.

Wikipedia. Xenoma. Available at: . Access on September 17, 2016.

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Sexta Selvagem: Solha-de-inverno

por Piter Kehoma Boll

Você consegue ver os dois peixes na foto abaixo?

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Camuflagem perfeita. Duas solhas-de-inverno, Pseudopleuronectes americanus. Foto de Brent Wilson.*

Pertencendo à espécie Pseudopleuronectes americanus, popularmente conhecida como solha-de-inverno, ela é uma espécie de linguado nativa na costa do Atlântico Norte do Canadá e dos Estados Unidos. Ela pode chegar a 70 cm de comprimento e 3,6 kg, apesar de ser menor na maior parte das áreas.

Como com outros linhados, a solha-de-inverno é assimétrica. Ela vive no substrato, deitada em um de seus lados (neste caso, do lado esquerdo) e seu olho esquerdo migrou para o lado direito, de forma que os dois apontam para cima.

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Condenada a deitar-se do lado esquerdo.

Vivendo em águas muito frias, a solha-de-inverno sofre o risco de congelar durante o inverno. Como resultado disso, seu sangue possui um conjunto de proteínas que possuem a habilidade de reduzir o ponto de congelamento da água, permitindo que permaneça líquida abaixo de 0°C.

A solha-de-inverno é um importante peixe comercial nos EUA e considera-se que possui uma carne deliciosa. Ela sofreu com a sobrepesca nas décadas passadas e algumas populações foram quase extintas. Apesar de ter havido uma grande redução na pressão de pesca ultimamente, muitas populações estão se recuperando muito lentamente devido a outros fatores, tal como degradação de habitat e baixa variabilidade genética. Além disso, ainda há áreas em que a sobrepesca possa ainda estar acontecendo.

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Referências:

Duman, J. G.; DeVries, A. L. (1976) Isolation, characterization, and physical properties of protein antifreezes from the winter flounder, Pseudopleuronectes americanusComparative Biochemistry and Physiology Part B: Comparative Biochemistry, 54(3): 375-380.

Wikipedia. Winter flounder. Disponível em: < https://en.wikipedia.org/wiki/Winter_flounder >. Acesso em 17 de setembro de 2016.

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*Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição Não Comercial e Compartilhamento Igual 2.0 Genérica.

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Sexta Selvagem: Sambuari

por Piter Kehoma Boll

Vamos mergulhar nas águas marinhas tropicais preenchidas com recifes de corais na costa atlântica da América para conhecer o bonitão da Sexta Selvagem de hoje: o sambuari (Anisotremus virginicus), também chamado de salema ou roncador-listado-americano, entre outros nomes.

Encontrado desde a Flórida até o sudeste brasileiro, o sambuari é um belo peixe de recife, popular em aquários públicos. Em seu ambiente natural, ele ocorre em profundidades variando de 2 a 20 metros e pode atingir 40 cm de comprimento e pesar 930 gramas, apesar de a maioria dos indivíduos possuírem cerca de 25 centímetros.

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Um sambuari de um cardume no México. Crédditos a Simões et al. (2014)

O alimento do sambuari consiste principalmente de invertebrados, tal como moluscos, equinodermos, anelídeos e crustáceos que ele captura à noite. Espécimes jovens geralmente se alimentam de parasitas dos corpos de peixes maiores. Os adultos também podem se alimentar de epibiontes crescendo em tartarugas marinhas, tal como a tartaruga-de-pente (Eretmochelys imbricata), apesar de que isso não parece constituir um hábito muito comum.

Apesar de às vezes ser consumido como alimento por humanos, o sambuari pode estar contaminado com ciguatoxinas, um grupo de toxinas que causam ciguatera, um tipo de intoxicação alimentar.

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Referências:

Froese, R. Anisotremus virginicus. In.: Froese, R.; Pauly, D. (Eds.) FishBase. Available at: <http://www.fishbase.org/summary/1124 >.  Access on February 27, 2016.

Sazima, C.; Grossman, A.; Sazima, I. 2010. Turtle cleaners: reef fishes foraging on epibionts of sea turtles in the tropical Southwestern Atlantic, with a summary of this association type. Neotropical Ichthyology, 8(1). Doi: 10.1590/S1679-62252010005000003

Simões, N.; Zarco Perello, S.; Moreno Mendoza, R. 2014. Checklist of fishes from Madagascar Reef, Campeche Bank, México. Biodiversity Data Journal 2: e1100. Doi: 10.3897/BDJ.2.e1100

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