Arquivo do autor:Piter Keo

Sobre Piter Keo

PhD in Biology working with ecology, behavior and taxonomy of land planarians. I love biology, astronomy, languages and mythology, among other things.

Sexta Selvagem: Paraquedinha-da-Amazônia

por Piter Kehoma Boll

Os fungos mais populares certamente são os cogumelos de chapéu, muitos dos quais são grandes, carnosos e deliciosos, ou às vezes mortalmente venenosos. Mas também há cogumelos de chapéu que não são tão conspícuos e às vezes nem são percebidos pela maioria das pessoas por causa de seu aspecto pequeno e frágil.

Se você estiver andando pelas florestas da América do Sul, especialmente a Floresta Amazônica e a Mata Atlântica, e prestar atenção suficiente à serapilheira, pode eventualmente ver um pequeno cogumelo fingindo ser uma folha morta com seu chapéu roxo-amarronzado cheio de manchas amareladas irregulares. Seu nome é Marasmius amazonicus e, apesar de não possuir um nome comum, acho que paraquedinha-da-Amazônia seria uma escolha razoável.

Um paraquedinha “petipoá” crescendo na Floresta Amazônica em Mato Grosso, Brasil. Foto de Rich Hoyer.*

O paraquedinha-da-Amazônia pertence ao gênero Marasmius, cujas espécies são frequentemente chamadas de parachute (paraquedas) em inglês devido ao píleo (chapéu) apresentando dobras causadas pelas lamelas abaixo dele. Se você o olha por baixo, pode ver que as lamelas são finas e separadas, deixando o píleo visível entre elas.

Uma bela foto do mesmo espécime acima. Foto de RichHoyer.*

A palavra Marasmius vem do grego μαρασμός (marasmos), significando definhamento. O nome é adequado para estes cogumelos por causa de seu comportamento peculiar. Enquanto os corpos de frutificação da maioria dos cogumelos aparecem num momento específico e duram por um tempo determinado antes de se deteriorarem, os corpos de frutificação de Marasmius podem secar se os níveis de umidade caem demais e depois revivem quando a umidade volta. Sua aparência delicada, com os chapéus finos e pedúnculos ainda mais finos, às vezes parecendo mais um fio endurecido de cabelo, tornam esse processo mais fácil.

Sendo uma espécie decompositora como a maioria das espécies de Marasmius, o paraquedinha-da-Amazônia é encontrado crescendo em matéria vegetal morta, incluindo ramos e folhas em decomposição. Apesar de seus corpos de frutificação poderem secar e reviver durante condições secas, eles só conseguem crescer em ambientes que possuem níveis altos de umidade na maior parte do tempo. Assim, apesar de poderem crescer em folhas mortas, só conseguem fazer isso depois que as folhas se tornam mais fragmentadas e compactadas contra o chão da floresta de forma a reterem mais umidade.

Outro espécime do Mato Grosso. Foto de Sousanne Sourell.**

A ecologia do paraquedinha-da-Amazônia é basicamente desconhecida até o momento, appesar de muito poder ser inferido por comparação com outras espécies de Marasmius. Ele é um cogumelo venenoso? Provavelmente não, mas provavelmente também não é comestível.

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Referências:

Oliveira JJS, Puccinelli C, Capelari M, Baseia IG (2008) Neotypification of Marasmius amazonicus. Mycotaxon 106:227–232.

Wikipedia. Marasmius. Available at <https://en.wikipedia.org/wiki/Marasmius>. Access on 21 May 2020.

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*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 4.0 Internacional.

**Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 3.0 Não Adaptada.

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Arquivado em Fungos, Sexta Selvagem

Sexta Selvagem: Cigarra-Tinidora

por Piter Kehoma Boll

Há mais de 3 mil espécies de cigarra no mundo e elas são frequentemente associadas com o verão, quando se tornam adultas e seus cantos são ouvidos vindo das árvores. Hoje vou focar numa espécie australiana, Psaltoda claripennis, conhecida como em inglês como “clanger cicada”, nome que adaptei como “cigarra-tinidora”.

A cigarra-tinidora é encontrada no leste da Austrália e é comum em Brisbane e arredores, onde é facilmente vista em galhos de árvores, às vezes em grupos. Elas possuem um dorso amarronzado com alguns segmentos escuros, às vezes pretos, no abdome. O lado ventral é pálido, exceto pelo abdome, o qual é marrom, e as pernas, que são amarelas. Os olhos são vermelho-claros a vermelho-amarronzados e as asas são transparentes com nervuras verdes. Os machos medem cerca de 30 mm de comprimento e as fêmeas são ligeiramente menores, com cerca de 25 mm.

Macho (esquerda) e fêmea (direita) de cigarra-tinidora em Brisbane, Austrália. Extraído de brisbaneinsects.com.

Não consegui encontrar muita informação sobre sua história natural. Esta espécie na verdade era só mais uma entre muitas espécies de cigarra até alguns anos atrás quando uma descoberta interessante foi feita.

As asas de cigarras são estruturas lindas e geralmente são muito limpas. De fato, muitas espécies de insetos encontram formas de manter suas asas limpas mesmo em ambientes muito contaminados e uma das razões para isso é que asas de insetos são extremamente hidrofóbicas, isto é, elas repelem água da mesma forma que muitas folhas de plantas. Visto que a água tem dificuldade de se prender às asas, microrganismos associados à água também não conseguem chegar a elas.

Mas as asas da cigarra-tinidora são mais do que só hidrofóbicas. Estudos mostraram que cada célula de bactérias gram-negativas que acaba tocando a superfície da asa se deforma e morre. O mesmo não acontece com bactérias gram-positivas, no entanto. À medida que os estudos progrediram, os pesquisadores passaram a entender o arranjo estrutural das asas. A superfície delas é formada por pilares muito pequenos, com apenas 30 nm de altura, e distantes 170 nm um do outro. Quando uma bactéria gram-negativa cai nos pilares, suas membranas moles começam a escorregar para o espaço entre eles e se esticam o suficiente para romper. A pobre célula acaba como uma massa disforme e morta. Bactérias gram-positivas possuem paredes celulares mais rígidas e são resistentes ao esticamento, mas um tratamento com micro-ondas reduziu a rigidez e permitiu que elas também fossem mortas.

Nanoestrura da asa da cigarra-tinidora e representação de como uma bactéria morre ao tocá-la. Créditos a Pogodin et al. (2013).

Mais pesquisas sobre esta estrutura podem levar ao desenvolvimento de novos materiais que permanecem estéreis mesmo após contato com um patógeno.

Mais uma vez a diversidade de formas de vida nos trouxe maneiras de melhorar a sociedade. Quantas outras coisas úteis estão escondidas nas florestas e nos campos? Preservar os ecossistemas é o melhor para todos os habitantes deste planeta.

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Referências:

Xue F, Liu J, Guo L, Zhang L, Li Q (2015) Theoretical study on the bactericidal nature of nanopatterned surfaces. Journal of Theoretical Biology 385:1–7. https://doi.org/10.1016/j.jtbi.2015.08.011

Hasan J, Webb HK, Truong VK et al. (2013) Selective bactericidal activity of nanopatterned superhydrophobic cicada Psaltoda claripennis wing surfaces. Applied Microbiology and Biotechnologt 97:9257–9262. https://doi.org/10.1007/s00253-012-4628-5

Pogodin S, Hasan J, Baulin VA et.al. (2013) Biophysical Model of Bacterial Cell Interactions with Nanopatterned Cicada Wing Surfaces. Biophysical Journal 104(4): 835–840. https://doi.org/10.1016/j.bpj.2012.12.046

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Arquivado em Bactérias, Entomologia, Sexta Selvagem

Sexta Selvagem: Capim-Africano

por Piter Kehoma Boll

As gramíneas compreendem uma das famílias mas bem-sucedidas de plantas com flores e são as personagens principais em campos, os quais podem cobrir enormes áreas da superfície da Terra. Nem todas as espécies cobrem grandes áreas, no entanto, ao menos não em seus habitats nativos. Um exemplo é Pennisetum macrourum, o “capim africano”.

Nativo da África do Sul e de países vizinhos, o capim-africano é uma espécie perene que cresce em solos que passam por inundação periódica. Assim, ele geralmente cresce perto de corpos d’água ou em áreas que formam lagoas temporárias durante a estação chuvosa.

Uma touceira de capim-africano no Parque Nacional Kruger na África do Sul com um cudo-maior (Tragelaphus strepsiceros strepsiceros) ao fundo. Foto de Johnny Wilson.*

Atingindo até 2 m de altura, o capim-africano forma touceiras densas e não se espalha uniformemente através do substrato. Ele produz a inflorescência típica do gênero Pennisetum, uma panícula estreita e densa com espiguetas intercaladas com cerdas, dando um aspecto felpudo. A panícula fresca é verde-clara a branca mas se torna marrom-clara quando madura.

Panícula vista de perto. Foto de Douglas Euston-Brown.*

Enquanto a maioria das gramíneas morre durante a época seca, o capim-africano persiste através do ano, sendo uma fonte importante de alimento para animais pastadores selvagens, e também é oferecido como alimento ao gado domesticado. Ele não é uma gramínea muito saborosa e nutritiva, no entanto, e a maioria dos animais evita comê-lo se há outras gramíneas disponíveis.

Uma touceira em Stellenbosch, África do Sul. Foto de Dave Richardson.*

Apesar de sua importância para espécies nativas, o capim-africano ganhou status de vilão em outros lugares. A espécie foi introduzida na Nova Zelândia e na Austrália e se tornou uma praga incômoda. Espalhando-se rapidamente pelo ambiente, o capim-africano elimina gramíneas nativas por competição e não é visto como um alimento de boa qualidade pelos animais de lá tampouco. Apesar disso, não fui capaz de encontrar qualquer trabalho recente se referindo a esta situação, incluindo o status do capim nos países mencionados acima e formas de controlá-lo.

Panículas cobertas de teia-de-aranha e orvalho na Nova Zelândia. Foto do usuário ben_banks do iNaturalist.*

Parece que ainda há muito a ser estudado sobre esta gramínea africana tanto em seus habitats nativos quanto em locais em que foi introduzida.

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Referências:

Brewer J, Loveless AR (1977) Ergot of Pennisetum macrourum in South Africa. Kirkia 10(2):589–600.

Harradine AR (1980) The biology of African feather grass (Pennisetum macrourum Trin.) in Tasmania, I. Seedling establishment. Weed Research 20(3):165–168. DOI: 10.1111/j.1365-3180.1980.tb00063.x

Shem M, Mtengeti EJ, Luaga M, Ichinohe T, Fujihara T (2003) Feeding value of wild Napier grass (Pennisetum macrourum) for cattle supplemented with protein and/or energy rich supplements. Animal Feed Science and Technology 108:15–24. DOI: 10.1016/S0377-8401(03)00167-6

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Arquivado em Botânica, Sexta Selvagem

Novas Espécies: Abril de 2020

por Piter Kehoma Boll

Aqui está uma lista de espécies descritas este mês. Ela certamente não inclui todas as espécies descritas. Você pode ver a lista de periódicos científicos usados para o levantamento de novas espécies aqui.

Bactérias

Rhodococcus oryzae é uma nova actinobactéria isolada do solo da rizosfera de arroz. Créditos a Li et al. (2020).*

Arqueias

Phycophthorum isakeiti é um novo parasita de diatomáceas. Créditos a Hassett (2020).*

SARs

Poa magellensis é uma nova gramínea da Itália. Créditos a Conti et al. (2020).*

Plantas

Amoebozoários

Flores de Hanceola suffruticosa, uma nova lamiácea da China e do Vietnã. Créditos a Chen et al. (2020).*

Fungos

Sarcodon coactus é um novo cogumelo da China. Créditos a Mu et al. (2020).*

Poríferos

Cnidários

Rotíferos

Platelmintos

Moluscos

Anelídeos

Quinorrincos

Nematódeos

Tardígrados

Onicóforos

Aracnídeos

Miriápodes

Trachyjulus magnus é um novo piolho-de-cobra da Tailândia. Créditos a Likhitrakarn et al. (2020).*

Crustáceos

Jujiroa inexpectata é um novo besouro de caverna da China. Créditos a Fang et al. (2020).*

Hexápodes

Stamnodes fergusoni é uma nova mariposa geometrídeo dos EUA. Créditos a Matson & Wagner (2020).*
Cabeça de Telothyria alexanderi, uma nova mosca da Costa Rica. Créditos a Fleming et al. (2020).*

Equinodermos

Ágnatos

Eptatretus wandoensis é um novo peixe-bruxa da Coreia. Créitos a Song & Kim (2020).*

Actinopterígios

Leptobrachella suiyangensis é uma nova rã da China. Créditos a Luo et al. (2020).*

Anfíbios

Iguana melanoderma é uma nova iguana nas Pequenas Antilhas. Créditos a Breuil et al. (2020).*

Répteis

Trimeresurus salazar, é uma nova cobra da Índia. Créditos a Mirza et al. (2020).*

Mamíferos

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*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição 4.0 Internacional.

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Arquivado em Sistemática, Taxonomia

Sexta Selvagem: Anjo-do-Mar-Comum

por Piter Kehoma Boll

Semana passada apresentei um belo caramujo marinho, a borboleta-do-mar-comum, com seus longos parapódios como asas que lhes permitem nadar. As borboletas-do-mar pertencem a um grupo de gastrópodes marinhos conhecidos como Pteropoda devido a este pé modificado em nadadeiras. Há dois grupos principais de pterópodes, Thecosomata, que possuem concha, e Gymnosomata, que não possuem concha. Enquanto os com concha são chamados de borboletas-do-mar, os sem concha são chamados de anjos-do-mar ou borboletas-do-mar-nuas.

O anjo-do-mar mais popular é Clione limacina, o anjo-do-mar-comum. Seu corpo é em grande parte transparente e, como todos os pterópodes, possui dois parapódios que se parecem com asas e que, junto com o corpo alongado e sem concha, o fazem parecer de fato um anjo. Apesar dessa aparência angelical, o anjo-do-mar-comum é uma criatura terrível.

Apesar da aparência serena, encontrar este belo gastrópode pode ser uma experiência assustadora. Foto de Kevin Raskoff, Hidden Ocean 2005 Expedition: NOAA Office of Ocean Exploration.

Sendo um predador, o anjo-do-mar-comum é especializado em comer a borboleta-do-mar-comum. Ambas as espécies compartilham o mesmo ambiente em águas árticas e sua associação é conhecida há séculos. A forma como o anjo-do-mar-comum captura e come a borboleta-do-mar-comum é impressionante e meio assustadora.

Um espécime, que foi trazido até a praia, em uma mão humana para comparação. Foto do usuário nbenson do iNaturalist.*

Quando um anjo-do-mar detecta uma borboleta-do-mar por perto, ele começa uma perseguição e everte seis cones bucais adesivos da boca, formando uma estrutura em forma de cesto. Essa estrutura é usada para capturar a borboleta-do-mar e, uma vez que o pobre caramujo está preso, o anjo-do-mar gira a concha da borboleta-do-mar até a abertura estar direcionada para a boca do predador.

Depois disso, o terror começa. A pobre borboleta-do-mar já se encolheu toda na concha a essa hora, mas o anjo-do-mar usa um grupo de ganchos quitinosos na boca para perfurar o corpo da borboleta-do-mar e, com ajuda da rádula, puxa o corpo inteiro da presa de dentro da concha, comendo-a toda de uma vez. É provavelmente uma morte horrível para a pobre borboleta-do-mar. Após terminar de engolir a borboleta-do-mar, o anjo-do-mar-comum pode ir atrás da próxima em cerca de dois minutos.

Desenho de um anjo-do-mar-comum se alimentando de uma borboleta do mar comum. BC = cones bucais, HK = ganchos quitinosos, S = a concha da borboleta-do-mar. Extraído de Lalli (1970).

Enquanto o ciclo de vida da borboleta-do-mar-comum é curto, durando só um ano, o do anjo-do-mar-comum é muito mais longo. Como resultado, não há borboletas-do-mar adultas para servirem de alimento para o anjo-do-mar-comum do final do outono até o começo da primavera. Por muito tempo se pensou que o anjo-do-mar-comum passaria esse tempo todo sem comer, e de fato se descobriu que ele pode sobreviver longos períodos de inanição. Contudo análises do conteúdo estomacal do anjo-do-mar-comum revelaram a presença de anfípodes e eventualmente copépodes calanoides, sugerindo que ele possa contar com algumas fontes alternativas de comida em casos de extrema necessidade. Seu alimento principal, contudo, é a borboleta-do-mar-comum sem dúvidas. Eles começam a se alimentar delas quando ainda são larvas, sempre capturando e ingerindo borboletas-do-mar que possuem um tamanho similar ao deles.

Será que o anjo-do-mar-comum conseguirá sobreviver com estas outras presas se as populações da borboleta-do-mar-comum diminuírem com as mudanças climáticas? Acho improvável, e espero que não precisemos chegar ao ponto em que isso se torne uma opção.

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Referências:

Böer M, Graeve M, Kattner G (2006) Exceptional long-term starvation ability and sites of lipid storage of the Arctic pteropod Clione limacina. Polar Biology 30:571–580. doi: 10.1007/s00300-006-0214-6

Conover RJ, Lalli CM (1972) Feeding and growth in Clione limacina (Phipps), a pteropod mollusc. Journal of Experimental Marine Biology and Ecology 9(3):279–302. doi: 10.1016/0022-0981(72)90038-X

Kallevik IHF (2013) Alternative prey choice in the pteropod Clione limacina (Gastropoda) studied by DNA-based methods. Master thesis in Biology, The Arctic University of Norway.

Lalli CM (1970) Structure and function of the buccal apparatus of Clione limacina (Phipps) with a review of feeding in gymnosomatous pteropods. Journal of Experimental Marine Biology and Ecology 4(2):101–118. doi: 10.1016/0022-0981(70)90018-3

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*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição Não Comercial 4.0 Internacional

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Sexta Sevagem: Borboleta-do-Mar-Comum

por Piter Kehoma Boll

As pessoas amam nomear criaturas marinhas fazendo analogias com coisas encontradas em terra. A espécie de hoje é mais uma desse tipo, sendo a mais bem conhecida espécie das chamadas borboletas-do-mar e, portanto, conhecida como a borboleta-do-mar-comum. Ela não tem nada a ver com borboletas, no entanto, e seu nome científico, Limacina helicina, a descreve melhor.

A borboleta-do-mar-comum é um molusco, mais precisamente um gastrópode e, como tem concha, é um “caramujo”. Ela não se arrasta pelo fundo como a maioria dos caramujos, no entanto. Com uma concha espiral medindo somente 10 mm de diâmetro em média, ela vive na coluna d’água e às vezes é descrita como uma espécie planctônica. Ela pode nadar por conta própria, no entanto, porque seu pé carnoso é transformado em duas expansões chamadas parapódios que agem como duas grandes nadadeiras. Sua concha é transparente e as partes moles são principalmente roxas, apesar de os parapódios serem quase transparentes também.

A borboleta-do-mar-comum é mesmo uma criatura linda, não é? Foto de Russ Hopcroft, University of Alaska, Fairbanks.

O habitat da borboleta-do-mar-comum inclui as águas frias da região ártica, incluindo o Oceano Ártico e áreas vizinhas dos oceanos Pacífico e Atlântico. No Pacífico, ela pode ocorrer para o sul até o Japão e regiões mais ao norte dos Estados Unidos. Espécimes maiores tendem a habitar águas mais profundas, até 150 m de profundidade, enquanto os menores vivem mais perto da superfície, até uma profundidade de 50 m. Até bem recentemente, pensava-se que a borboleta-do-mar-comum também habitasse águas antárticas, mas estudos moleculares revelaram que as populações em torno da Antártica pertencem a outra espécie, Limacina antarctica.

Veja como elas conseguem bater suas asas com velocidade,

A dieta da borboleta-do-mar-comum inclui várias criaturas planctônicas menores, especialmente crustáceos pequenos, como náuplios (larvas) de copépodes, bem como dinoflagelados, ciliados e diatomáceas. Juvenis da própria espécie também são comuns, às vezes compondo o segundo item mais comum da dieta. Para capturar a comida, elas produzem uma teia esférica de muco que flutua acima delas na água. Esta teia captura outros organismos na coluna d’água e depois é sugada e comida pela borboleta-do-mar junto com as criaturas capturadas. Esta teia é muito difícil de ser observada durante o dia por causa da refração difusa, mas aparece claramente à noite. Quando perturbada por luz, no entanto, a borboleta-do-mar-comum tende a engolir sua teia rapidamente e afundar para escapar do perigo.

Uma borboleta-do-mar-comum com sua teia de muco esférica vista como uma concentração coval de partículas mais finas logo acima dela. Extraído de Gilmer & Harbinson (1986).

A fina concha da borboleta-do-mar-comum é constituída de aragonita, a qual é altamente solúvel e sensível a mudanças na temperatura e na acidificação da água. Estudos demonstraram que o esperado aumento da acidificação dos oceanos pelas mudanças climáticas induzidas por humanos provavelmente terá um impacto negativo em populações da borboleta-do-mar-comum e espécies relacionadas. Isso é particularmente preocupante em relação à borboleta-do-mar-comum porque ela é uma espécie-chave nos ecossistemas árticos, sendo uma fonte de alimento importante para muitos animais marinhos, como peixes, baleias, aves e até outros moluscos.

Esse caramujinho não vai se dar por vencido tão facilmente, no entanto. Estudos mostraram que o periostraco (a camada externa orgânica da concha) pode impedir que a aragonita se dissolva e que um trauma físico que quebre o periostraco, permitindo contato direto da aragonita com a água, é necessário para causar a dissolução. E mesmo quando isso acontece, a borboleta-do-mar-comum pode compensar construindo novas camadas de aragonita na superfície interna da concha e consegue extrair aragonita da água para esse propósito mesmo quando os níveis na água estão muito baixos.

A borboleta-do-mar-comum é pequena mas também é durona.

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Referências:

Corneau S, Alliouane S, Gattuso JP (2012) Effects of ocean acidification on overwintering juvenile Arctic pteropods Limacina helicina. Marine Ecology Progress Series 456:279–284. doi: 10.3354/meps09696

Comeau S, Jeffree R, Teyssié JL, Gattuso JP (2010) Response of the Arctic pteropod Limacina helicina to projected future environmental conditions. PLoS One 5(6):e11362. doi: 10.1371/journal.pone.0011362

Gilmer RW, Harbinson GR (1986) Morphology and field behavior of pteropod molluscs: feeding methods in the families Cavoliniidae, Limacinidae and Peraclididae (Gastropoda: Thecosomata). Marine Biology 91:47–57. doi: 10.1007/BF00397570

Gilmer RW, Harbinson GR (1991) Diet of Limacina helicina (Gastropoda: Thecosomata) in Arctic waters in midsummer. Marine Ecology Progress Series 77:125–134.

Lischka S, Büdenbender J, Boxhammer T, Riebesell U (2011) Impact of ocean acidification and elevated temperatures on early juveniles of the polar shelled pteropod Limacina helicina: mortality, shell degradation, and shell growth.  Biogeosciences 8:919–932. doi: 10.5194/bg-8-919-2011

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De dor de cabeça a enxaqueca: Xenacoelomorpha é um clado bilateral basal ou um grupo de deuterostômios bizarros?

por Piter Kehoma Boll

Sete anos atrás eu discuti a posição filogenética de Acoelomorpha e seus parentes próximos, Xenoturbella, que juntos formam o clado Xenacoelomorpha. Sendo animais bilaterais muito simples que não possuem quase nenhuma das principais estruturas comuns à maioria dos outros bilaterais, sua posição filogenética exata é geralmente considerada basal dentro de Bilateria, mas a ideia de que são deuterostômios foi levantada depois que alguns estudos moleculares os agruparam dentro do clado Ambulacraria, que inclui equinodermos e hemicordados.

Pertencer aos deuterostômios significaria que Xenacoelomorpha sofreu uma gigantesca simplificação de sua anatomia. Lá em 2013, quando escrevi o outro artigo, isso estava causando bastante controvérsia, mas, pouco depois, novos estudos moleculares confirmaram a posição basal de Xenacoelomorpha e ficou meio que bem aceito que eles eram, de fato, o clado mais basal de Bilateria.

Uma versão simplificada da árvore da vida animal mostrando a posição incerta de Xenacoelomorpha. A posição de Placozoa e Ctenophora também não é muito clara.*

Mas uma vez problemático, sempre problemático.

Em 2019, um novo estudo que tentou antecipar os erros sistemáticos durante estudos de filogenia molecular, tal como atração de ramos longos, concluiu que a posição basal de Xenacoelomorpha é um artefato e que, quando se tenta minimizar os erros, sua posição como grupo irmão de Ambulacraria se torna clara. Contudo a árvore deles também sugere que Deuterostomia não seja monofilético, já que os cordados aparecem como grupo irmão de Protostomia e Xenacoelomorpha+Ambulacraria é o grupo mais basal, isto é, o grupo irmão do resto dos Bilateria. Contudo a ideia de Deuterostomia não ser monofilético é bem inesperada.

Como mencionei no meu último post, o principal problema em Xenacoelomorpha aparecer dentro de Deuterostomia tem a ver com sua supersimplificação. Eles não têm quase nada que um bilateral típico tem. O que os teria forçado a se tornarem tão simples?

Xenoturbella japonica, um xenacelomorfo. Créitos a Nakano et al. (2017).*

Outro estudo recente sugere que, no caso de Xenoturbella ao menos, isso pode ser o resultado de seus hábitos de se enterrar num substrato macio. Eles comparam Xenoturbella a nudibrânquios, entre os quais algumas espécies possuem estilos de vida similares. Um desses nudibrânquios, Xenocratena, foi na verdade descoberto mais ou menos na mesma época que Xenoturbella vivendo no mesmo ambiente que ela. Eles possuem uma anatomia pedomórfica (mais simplificadas, “de bebê”) em comparação a outros nudibrânquios. Contudo ela não é de forma alguma tão simples quanto a de Xenoturbella.

O nudibrânquio cavador Xenocratena suecica. Créditos a Martynov et al. (2020).*

Por outro lado, há outro gênero de nudibrânquios que é de fato supersimplificado, Pseudovermis, e ele vive enterrado em substrato macio também. Análises moleculares revelaram que Pseudovermis não é proximamente relacionado a Xenocratena, mas a Cumanotus, outro nudibrânquio que se enterra, o que sugere que esta simplificação ocorreu duas vezes entre os nudibrânquios.

Relações filogenéticas entre nudibrânqios. Veja Pseudovermis and Cumanotus a 2 horas e Xenocratena a 7 horas. Créditos a Martynov et al. (2020).*

Isso não é evidência de que Xenoturbella é um deuterostômio simplificado, mas e um bom argumento. Mas e quanto às simplificações em Acoelomorpha? Penso que se Xenoturbella não fosse proximamente relacionada a Acoelomorpha, eu estaria mais disposto a aceitar essa hipótese. Meu coração tende para a hipótese de Xenacoelomorpha basal, no entanto. Contudo, como qualquer cientista, aceitarei Xenacoelomorpha como deuterostômios se forem apresentadas evidências suficientes.

Xenoturbella é sempre o problema principal nesta equação. O sistema nervoso de Acoelomorpha, por exemplo, apesar de simplificado, tem meio que o padrão básico encontrado em todos os bilaterais e poderia ter evoluído do anel oral de um ancestral similar a um cnidário de acordo com algumas hipóteses. En Xenoturbella, no entanto, o sistema nervoso é muito mais estranho, sendo formando por uma rede difusa simples de neurônios abaixo da pele. Acho que abordar a organização do sistema nervoso em todos esses grupos é um bom tópico para outra postagem.

Se há uma coisa, na minha opinião, que faz a posição de Xenacoelomorpha dentro Deuterostomia ser algo convincente é o fato de muitas características de Deuterostomia parecerem ser mais primitivas dentro de Bilateria quando comparadas àquelas de Protostomia, de forma que a posição de Xenacoelomorpha entre os Deuterostomia é mais plausível que sua posição dentro de Protostomia (apesar de isso nem mesmo ser mais considerado uma possibilidade). Tendemos a pensar que deuterostômios são mais “derivados” simplesmente porque humanos são deuterostômios. Mas esta discussão também e assunto para outra postagem.

O que você acha? Você é time basal ou time deuterostômio?

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Referências:

Cannon JT, Vellutini BC, Smith J, Ronquist F, Jonfelius U, Hejnol A (2016) Xenacoelomorpha is the sister group to Nephrozoa. Nature 530: 89–93. doi: 10.1038/nature16520

Jondelius U, Raikova OI, Martinez P (2019) Xenacoelomorpha, a Key Group to Understand Bilaterian Evolution: Morphological and Molecular Perspectives. In: Pontarotti P (ed) Evolution, Origin of Life, Concepts and Methods. Cham: Springer International Publishing, . pp. 287–315. doi: 10.1007/978-3-030-30363-1_14

Martynov A, Lundin K, Picton B, Fletcher K, Malmberg K, Korshunova T (2020) Multiple paedomorphic lineages of soft-substrate burrowing invertebrates: parallels in the origin of Xenocratena and Xenoturbella. PLoS ONE 15(1): e0227173. doi: 10.1371/journal.pone.0227173

Philippe H, Poustka AJ, Chiodin M, et al. (2019) Mitigating Anticipated Effects of Systematic Errors Supports Sister-Group Relationship between Xenacoelomorpha and Ambulacraria. Current Biology 29(11):1818–1826. doi: 10.1016/j.cub.2019.04.009

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