Arquivo do mês: agosto 2016

Sexta Selvagem: Zigena-de-seis-pontos

por Piter Kehoma Boll

Encontrada na Europa, a espécie da Sexta Selvagem de hoje é uma bela mariposa diurna com cores bonitas e compostos tóxicos. Cientificamente conhecida como Zugaena filipendulae, seu nome comum é zigena-de-seis-pontos, referindo-se aos seis pontos vermelhos nas asas dianteiras. Estes pontos contrastam belamente com o fundo azul-escuro ou verde-metálico das asas, dando-lhe uma aparência mística, não acha?

Zygaena_filipendulae

As cores dizem “não sou comestível”. Foto de Vlad Proklov.*

Quando é lagarta, a zigena-de-seis-pontos se alimenta de plantas leguminosas, especialmente trevos, e tem uma aparência bem diferente, como é comum em lepidópteros. Ela é amarela a amarelo-esverdeada e tem duas linhas de pontos negros correndo ao longo do dorso.

Zygaena_filipendulae_larva

Uma lagarta amarela gordinha. Foto de Harald Süpfle.**

As plantas usadas como alimento pela lagarta contêm glucósidos cianogênicos, substâncias que são armazenadas individualmente e produzem cianeto de hidrogênio quando em contato uma com a outra. Isso é usado como um mecanismo de defesa pela planta, mas as lagartas ingerem e armazenam esses compostos para usarem em sua própria defesa. Também foi demonstrado que a lagarta é capaz de produzir esses glucósidos cianogênicos por si mesma, assim não dependendo somente da porção ingerida com o alimento. A maior parte dos compostos, no entanto, é perdida durante a metamorfose, de forma que os adultos são muito menos tóxicos que as lagartas.

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Referências:

Zagrobelny, M., Bak, S., Olsen, C., & Møller, B. (2007). Intimate roles for cyanogenic glucosides in the life cycle of Zygaena filipendulae (Lepidoptera, Zygaenidae) Insect Biochemistry and Molecular Biology, 37 (11), 1189-1197 DOI: 10.1016/j.ibmb.2007.07.008

Wikipedia. Six-spot burnet. Disponível em: < https://en.wikipedia.org/wiki/Six-spot_burnet >. Acesso em 1 de agosto de 2016.

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Novas espécies: 11 a 20 de agosto

por Piter Kehoma Boll

Aqui está uma lista de espécies descritas de 11 a 20 de agosto. Ela certamente não inclui todas as espécies descritas. A maior parte das informações vem dos jornais Mycokeys, Phytokeys, Zookeys, Phytotaxa, Zootaxa, International Journal of Systematic and Evolutionary Microbiology e Systematic and Applied Microbiology, além de revistas restritas a certos táxons.

Cratera_viridimaculata

Cratera viridimaculata Negrete & Brusa é uma nova espécie de planária terrestre descrita para a Argentina.

SARs

Plantas

Fungos

Platelmintos

Anelídeos

Moluscos

Aracnídeos

Crustáceos

Hexápodes

Peixes cartilaginosos

Peixes de nadadeiras rajadas

Lissanfíbios

Répteis

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Sexta Selvagem: Clitória-azul

por Piter Kehoma Boll

Na sexta-selvagem de hoje temos uma trepadeira com belas flores azuis que têm a forma de uma genitália feminina humana.

Sim, você leu direito. Seu nome científico é Clitoria ternata, o nome do gênero sendo uma referência direta ao clitóris de uma mulher devido ao formato das flores.

Clitoria_ternatea

Quase pornográfico. Foto de N. Aditya Madhav.*

Nativa da Ásia tropical, a clitória-azul foi introduzida no mundo todo em regiões tropicais. Suas sementes são comestíveis quando macias e as flores podem ser usadas para fazer uma bela infusão azul chamada “chá de clitória”. É uma planta usada na medicina aiurvédica para melhorar a saúde mental.

blue tea

Um belo chá azul para melhorar sua memória. Foto de Tanya May.*

De fato, alguns estudos demonstraram que ela pode mesmo ser benéfica para melhorar a memória, ao menos em ratos, e também possui propriedades anti-inflamatórias, analgésicas e antipiréticas, especialmente de extratos das raízes.Mais uma vez a medicina tradicional foi um bom guia para a pesquisa farmacológica.

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Referências:

Devi, B., Boominathan, R., & Mandal, S. (2003). Anti-inflammatory, analgesic and antipyretic properties of Clitoria ternatea root Fitoterapia, 74 (4), 345-349 DOI:10.1016/S0367-326X(03)00057-1

Taranalli, A., & Cheeramkuzhy, T. (2011). Influence of Clitoria Ternatea Extracts on Memory and Central Cholinergic Activity in Rats Pharmaceutical Biology, 38(1), 51-56 DOI: 10.1076/1388-0209(200001)3811-BFT051

Wikipedia. Clitoria ternatea. Available at: < https://en.wikipedia.org/wiki/Clitoria_ternatea >. Access on August 1, 2016.

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Sexta Selvagem: Jataí

por Piter Kehoma Boll

Certamente a abelha produtora de mel mais disseminada, adaptada e bem conhecida é a Apis melifera, comumente conhecida como abelha-doméstica ou abelha-do-mel por razões óbvias. Mas há muitas outras fazedoras de mel pelo mundo todo. Hoje vou apresentar a vocês a abelha nativa mais popular na América do Sul, Tetragonisca angustula, comumente conhecida como jataí no Brasil e yateí, angelita, mariola e muitos outros nomes nos países falantes de espanhol.

Jataís na entrada da colmeia. Foto de Bernard Dupont.*

Jataís na entrada da colmeia. Foto de Bernard Dupont.*

Encontrada do sul do México ao sul do Brasil e norte da Argentina, a jataí é uma abelha sem ferrão muito pequena que facilmente se adapta a áreas urbanas. Medindo cerca de 4–5 mm, elas constroem seus ninhos em cavidades naturais de árvores e às vezes em ninhos abandonados de formigas e cupins ou mesmo em paredes de construções humanas.

Por ser uma espécie nativa da região neotropical, e portanto um agente polinizador importante, e por não possuir um ferrão, sendo assim inofensiva a humanos e animais domésticos, a jataí é uma espécie atrativa para a domesticação. De fato, a jataí é a única espécie nativa sem ferrão com uma comunidade consideravelmente grande de apicultores mantendo colmeias. Como as colmeias são pequenas e inofensivas, elas também podem ser usadas como polinizadoras de algumas plantas, como morangos, dentro de estufas.

Uma jataí individual. Foto de George Shepherd.**

Uma jataí individual. Foto de George Shepherd.**

Considerado de alta qualidade, o mel produzido pelas jataís é mais caro que o das abelhas-domésticas comuns. Em alguns lugares o preço do mel de jataí pode custar até dez vezes o preço do mel comum. Assim como o mel e o própolis da abelha comum, o mel e o própolis da jataí têm atividade antibacteriana. Pessoas de comunidades em que o consumo do mel de jataí é uma prática comum acreditam que ele possua propriedades medicinais, mas na verdade não há evidência científica de que o mel de jataí seja diferente do mel comum em relação a esse aspecto.

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Referências:

Malagodi-Braga, K. S., Kleinert, A. M. P. (2004). Could Tetragonisca angustula Latreille (Apinae, Meliponinni) be effective as strawberry pollinator in greenhouses? Australian Journal of Agricultural Research, 55 (7), 771-774. DOI: 10.1071/AR03240

Miorin, P., Levy Junior, N., Custodio, A., Bretz, W., & Marcucci, M. (2003). Antibacterial activity of honey and propolis from Apis mellifera and Tetragonisca angustula against Staphylococcus aureus. Journal of Applied Microbiology, 95 (5), 913-920 DOI: 10.1046/j.1365-2672.2003.02050.x

Sawaya, A., Cunha, I., Marcucci, M., de Oliveira Rodrigues, R., & Eberlin, M. (2006). Brazilian Propolis of Tetragonisca angustula and Apis mellifera. Apidologie, 37 (3), 398-407 DOI: 10.1051/apido:2006011

Wikipedia. Tetragonisca angustula. Disponível em: < https://en.wikipedia.org/wiki/Tetragonisca_angustula >. Aceso em 1 de agosto de 2016.

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Novas espécies: 1 a 10 de agosto

por Piter Kehoma Boll

Aqui está uma lista de espécies descritas de 1 a 10 de agosto. Ela certamente não inclui todas as espécies descritas. A maior parte das informações vem dos jornais Mycokeys, Phytokeys, Zookeys, Phytotaxa, Zootaxa, International Journal of Systematic and Evolutionary Microbiology e Systematic and Applied Microbiology, além de revistas restritas a certos táxons.

SARs

Plantas

Fungos

Platelmintos

Anelídeos

Moluscos

Nematodeos

Aracnídeos

Crustáceos

Insetos

Equinodermos

Peixes cartilaginosos

Peixes de nadadeiras rajadas

Lissanfíbios

Répteis

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Sexta Selvagem: Picão-preto

por Piter Kehoma Boll

E se a cura para o câncer tem morado no seu jardim todo esse tempo e você tem tentado se livrar dela como uma erva-daninha incômoda?

Não posso afirmar para vocês que a resposta está na espécie da Sexta Selvagem de hoje, mas ela certamente tem um bom potencial. Seu nome é Bidens pilosa, comumente conhecida como picão-preto, amor-de-burro, amor-seco ou carrapicho-de-agulha.

Não extravante, mas discreta. Essa é Bidens pilosa. Foto de Wibowo Djatmiko.*

Não extravante, mas discreta. Essa é Bidens pilosa. Foto de Wibowo Djatmiko.*

Nativo das Américas, onde cresce em campos abertos e clareiras de florestas, o picão-preto é agora encontrado no mundo todo, da Eurásia e da África até a Austrália e as ilhas do Pacífico. De primeira ele não chama muita atenção enquanto cresce entre outras ervas-daninhas. Ele pode chegar a 1.8 m de altura e tem flores pequenas e discretas reunidas num capítulo no estilo de uma margarida, com um punhado de flores brancas contornando um pequeno disco de flores amarelas.

O problema com esse camarada acontece quando você tem que passar entre eles depois que as flores se tornaram frutos.

A terrivelmente malvada infrutescência do picão-preto. Foto de Wibowo Djatmiko.*

A terrivelmente malvada infrutescência do picão-preto. Foto de Wibowo Djatmiko.*

Os frutos do picão-preto são pequenos bastões rígidos e secos com cerca de 2–4 pequenas arestas densamente serrilhadas na extremidade. Eles são arranjados em infrutescências esféricas e estão sempre ávidos para se prender em qualquer animal que esteja passando. As pequenas arestas se agarram ao pelo ou a roupas e os frutos são facilmente dispersados para outras áreas. É um exemplo clássico de zoocoria, isto é, dispersão de sementes por animais. Se você vive numa área onde essa planta é comum, você muito provavelmente já teve a experiencia de encontrar as roupas cheias dessas sementes pinicantes, especialmente depois de brincar, trabalhar ou simplesmente caminhar por um campo ou terreno baldio.

Mas o picão-preto é muito mais que uma erva-daninha sem graça e irritante. Na África subsaariana, ele é uma das plantas mais amplamente consumidas como alimento. Suas folhas são comestíveis quando cozidas, mas possuem um gosto forte e desagradável.

Além disso, o picão-preto é usado em medicina tradicional sul-americana e vários estudos demonstraram que ele é de fato um remédio poderoso. Extratos da planta apresentaram várias propriedades medicinais, incluindo:

  • Atividade antibacteriana e antifúngica
  • Atividade antimalárica
  • Atividade anti-herpes simplex
  • Habilidade de reduzir células tumorais e leucêmicas
  • Efeitos imunossupressores e anti-inflamatórios

Se isso não fosse o bastante, o picão-preto tem a habilidade de bioacumular cádmio em seus tecidos, de forma que pode ser usado para despoluir solos contaminados com cádmio.

Da próxima vez que você encontrar suas roupas cheias de picão-preto, lembre-se de que ele é mais, muito mais, do que simplesmente uma erva-daninha chata.

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Referências:

Brandão, M., Krettli, A., Soares, L., Nery, C., & Marinuzzi, H. (1997). Antimalarial activity of extracts and fractions from Bidens pilosa and other Bidens species (Asteraceae) correlated with the presence of acetylene and flavonoid compounds Journal of Ethnopharmacology, 57 (2), 131-138 DOI: 10.1016/S0378-8741(97)00060-3

Chang, J., Chiang, L., Chen, C., Liu, L., Wang, K., & Lin, C. (2001). Antileukemic Activity of Bidens pilosa L. var. minor (Blume) Sherff and Houttuynia cordata Thunb. The American Journal of Chinese Medicine, 29 (02), 303-312 DOI: 10.1142/S0192415X01000320

Chiang, L., Chang, J., Chen, C., Ng, L., & Lin, C. (2003). Anti-Herpes Simplex Virus Activity of Bidens pilosa and Houttuynia cordata The American Journal of Chinese Medicine, 31 (03), 355-362 DOI: 10.1142/S0192415X03001090

Deba, F., Xuan, T., Yasuda, M., & Tawata, S. (2008). Chemical composition and antioxidant, antibacterial and antifungal activities of the essential oils from Bidens pilosa Linn. var. Radiata Food Control, 19 (4), 346-352 DOI: 10.1016/j.foodcont.2007.04.011

Kviecinski, M., Felipe, K., Schoenfelder, T., de Lemos Wiese, L., Rossi, M., Gonçalez, E., Felicio, J., Filho, D., & Pedrosa, R. (2008). Study of the antitumor potential of Bidens pilosa (Asteraceae) used in Brazilian folk medicine Journal of Ethnopharmacology, 117 (1), 69-75 DOI: 10.1016/j.jep.2008.01.017

Oliveira, F., Andrade-Neto, V., Krettli, A., & Brandão, M. (2004). New evidences of antimalarial activity of Bidens pilosa roots extract correlated with polyacetylene and flavonoids Journal of Ethnopharmacology, 93 (1), 39-42 DOI: 10.1016/j.jep.2004.03.026

Pereira, R., Ibrahim, T., Lucchetti, L., da Silva, A., & de Moraes, V. (1999). Immunosuppressive and anti-inflammatory effects of methanolic extract and the polyacetylene isolated from Bidens pilosa L. Immunopharmacology, 43 (1), 31-37 DOI: 10.1016/S0162-3109(99)00039-9

Sun, Y., Zhou, Q., Wang, L., & Liu, W. (2009). Cadmium tolerance and accumulation characteristics of Bidens pilosa L. as a potential Cd-hyperaccumulator Journal of Hazardous Materials, 161 (2-3), 808-814 DOI: 10.1016/j.jhazmat.2008.04.030

Wikipedia. Bidens pilosa. Disponível em < https://en.wikipedia.org/wiki/Bidens_pilosa >.Acesso em 31 de julho de 2016.

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Conflito de Gênero: Quem é o homem na relação?

por Piter Kehoma Boll

Todo mundo com algum conhecimento em evolução ouviu falar de conflito sexual, como machos e fêmeas têm diferentes interesses durante a reprodução, e seleção sexual, isto é, como um sexo pode influenciar a evolução do outro.

Organismos sexuais são quase sempre definidos pela presença de dois sexos: masculino e feminino. O sexo masculino é aquele que produz o menor gameta (célula sexual) e o sexo feminino é aquele que produz o maior gameta. O gameta masculino é geralmente produzido em grande quantidade, porque como é pequeno, é barato de fabricar. Por outro lado, o gameta feminino é produzido em pequena quantidade, porque seu grande tamanho o torna um gameta caro.

Uma imagem clássica de um gameta masculino (espermatozoide) chegando a um gameta feminino (ovócito) durante a fertilização. Veja a impressionante diferença em tamanho.

Uma imagem clássica de um gameta masculino (espermatozoide) chegando a um gameta feminino (ovócito) durante a fertilização. Veja a impressionante diferença em tamanho.

Como pode-se ver facilmente, a fêmea põe muito mais recursos na produção de um único descendente que um macho. Como resultado, as fêmeas costumam ser muito seletivas em relação a quem terá a honra de fertilizar seus ovos. Os machos precisam provar que são merecedores da paternidade, e a escolha da fêmea, através das gerações, aumenta características masculinas que elas julgam atraentes. Um exemplo clássico é o pavão.

O pavão é um dos exemplos mais famosos de como a seleção sexual pode guiar a evolução de espécies dioicas. Foto de Oliver Pohlmann.

O pavão é um dos exemplos mais famosos de como a seleção sexual pode guiar a evolução de espécies dioicas. Foto de Oliver Pohlmann.

Existem muitas exceções, é claro, a maioria delas guiadas pelo ambiente social das espécies ou devido a um ambiente natural incomum que possa aumentar o investimento masculino. Mas tudo isso se refere a espécies dioicas, isto é, espécies as quais machos e fêmeas são organismos separados. Mas o que acontece se você é parte de uma espécie hermafrodita, portanto sendo macho e fêmea ao mesmo tempo? Você simplesmente acasala com todo mundo? São todos versáteis todas as vezes que vão pra cama?

Bem, há uma grande diversidade nestes organismos, mas todos os princípios do conflito sexual ainda são válidos. Mesmo que você seja macho e fêmea ao mesmo tempo, você ainda tem o desejo de fertilizar tantos ovos quanto possível com seu esperma barato enquanto escolhe com cuidado quem é digno de fertilizar seus próprios ovos. O grande problema é que todos os outros querem o mesmo.

"Vamos lá, benzinho. Me deixa te fertilizar." "Você vai me deixar te fertilizar também?" Foto de Jangle1969, usuário do Wikimedia.*

“Vamos lá, benzinho. Me deixa te fertilizar.”
“Você vai me deixar te fertilizar também?”
Foto de Jangle1969, usuário do Wikimedia.*

Imagine que você é um hermafrodita com um punhado de ovos caros e um montão de esperma barato. Você está interessado em copular e sai para a caçada. Eventualmente você encontra outro indivíduo com as mesmas intenções. Vocês se olham nos olhos, se aproximam e começam a conversar. Vamos supor que você não achou o outro muito atraente para ser o pai dos seus filhos, mas você quer ser o pai dos filhos dele.

“Então, quais são suas preferências?” você pergunta.
“No momento eu quero ser o macho” responde o outro.

“Droga!”, você pensa. Vocês dois querem a mesma coisa. Vocês querem desempenhar o mesmo papel sexual, de forma que há um conflito de interesses ou, como é chamado, um “conflito de gênero”. Neste caso, em se tratando de comportamento sexual em biologia, a palavra gênero se refere ao papel que você desempenha no sexo. Quem vai ser o homem da relação?

Diante desse conflito, este dilema do hermafrodita, vocês dois precisam achar uma solução. Há quatro possíveis desfechos:

1. Você insiste em ser o macho e seu parceiro aceita fazer o papel de fêmea contra sua vontade. Você vence, o outro perde.
2. Seu parceiro insiste em ser o macho e você aceita fazer o papel de fêmea contra sua vontade. O outro vence, você perde.
3. Vocês dois insistem em ser o macho. O sexo não acontece e vocês dois vão para casa sem terem ido para a cama.
4. Vocês dois aceitam desempenhar os dois papéis. O sexo acontece e vocês entregam seu esperma com sucesso, mas são forçados a aceitar o esperma do outro cara também.

O pior para você é não ser capaz de entregar seu esperma, como queria. Assim 2 e 3 são os piores desfechos. 1 é o melhor desfecho para você, mas como você vai convencer seu parceiro a ser o perdedor? Assim, a melhor solução para todos é a 4. Nenhum dos dois está completamente feliz nem completamente frustrado.

As minhocas usam a posição 69 para trocar esperma. Foto de Beentree, usuário do Wikimedia.*

As minhocas usam a posição 69 para trocar esperma. Foto de Beentree, usuário do Wikimedia.*

Mas isso é o fim? Não necessariamente. O comportamento de acasalamento mais estável numa população é de fato aceitar fazer os dois papéis, mas as coisas podem continuar depois de você dar um beijo de despedida no seu companheiro. Agora você precisa lidar com seleção pós-copulatória.

Você fez sexo, entregou seu esperma, mas recebeu esperma em troca. Um esperma de baixa qualidade, em sua opinião. Você não vai deixá-lo fertilizar seus ovos, vai? Claro que não! Assim, tão logo seu parceiro sumiu de vista, você simplesmente cospe o esperma antes que ele atinja seus ovos! Ele nunca vai saber.

Um par de platelmintos, Macrostomum sp., acasalando. Veja como o branco, ao final, se curva sobre si mesmo e suga o esperma do outro cara para fora do poro feminino de forma a se livrar dele. Imagem extraída de Schärer et al. (2004) [veja referências].

Um par de platelmintos, Macrostomum sp., acasalando. Veja como o branco, ao final, se curva sobre si mesmo e suga o esperma do outro cara para fora do poro feminino de forma a se livrar dele. Imagem extraída de Schärer et al. (2004) [veja referências].

E assim você passou a perna no seu parceiro! Você aceitou receber o esperma dele em troca do seu próprio, mas depois você o descartou assim que seu parceiro foi embora. Você é demais! Certo? Mas… espera! E se ele fez o mesmo? E se o seu esperma também foi descartado?

Você não pode arriscar isso. Isso seria pior do que não ter copulado pra início de conversa, porque você teria desperdiçado energia e esperma por nada! Mas como garantir que o esperma permaneça onde deve estar?

Uma estratégia é incluir algumas cerdas rígidas em seus espermatozoides de forma que eles se prendam à parede interna da cavidade feminina e não possam ser removidos. Os espermatozoides funcionam como espinhos que entram facilmente mas são muito difíceis de serem puxados de volta. É isso que alguns platelmintos fazem.

Duas estratégias usadas por espécies de Macrostomum para forçar o parceiro a pegar seu esperma. (A) Uma espécie na qual dois indivíduos trocam esperma, mas depois tentam se livrar do esperma do parceiro, evoluíram espermatozoides com cerdas que os seguram na cavidade feminina. (B) Outras espécies evoluíram um comportamento mais agressivo, no qual eles injetam o esperma no parceiro usando um estilete (pênis) com uma ponta afiada capaz de perfurar o corpo. Neste caso não há necessidade de ter espermatozoides com cerdas.

Duas estratégias usadas por espécies de Macrostomum para forçar o parceiro a pegar seu esperma. (A) Uma espécie na qual dois indivíduos trocam esperma, mas depois tentam se livrar do esperma do parceiro, evoluíram espermatozoides com cerdas que os seguram na cavidade feminina. (B) Outras espécies evoluíram um comportamento mais agressivo, no qual eles injetam o esperma no parceiro usando um estilete (pênis) com uma ponta afiada capaz de perfurar o corpo. Neste caso não há necessidade de ter espermatozoides com cerdas. Imagem extraída de Schärer et al. (2011) [veja referências]

Outras espécies evoluíram uma abordagem mais agressiva. Elas armaram seus pênis com uma ponta afiada que perfura o corpo do parceiro, forçando-o a receber o esperma. O esperma é injetado nos tecidos do parceiro e nada em direção aos ovos.

Ambas as estratégias podem parecer soluções maravilhosas para o macho, mas lembre-se de que eles são hermafroditas, então tudo pode ser usado contra eles mesmos! E esse é o grande dilema do hermafrodita, ou o paradoxo final do hermafrodita. Eles estão constantemente tentando vencer a si mesmos.

A evolução não é incrível?

Veja também: Endosperma: o pivô do conflito sexual em angispermas.

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Referências e leitura complementar:

Anthes, N., Putz, A., & Michiels, N. (2006). Hermaphrodite sex role preferences: the role of partner body size, mating history and female fitness in the sea slug Chelidonura sandrana Behavioral Ecology and Sociobiology, 60 (3), 359-367 DOI: 10.1007/s00265-006-0173-5

Janicke, T., Marie-Orleach, L., De Mulder, K., Berezikov, E., Ladurner, P., Vizoso, D., & Schärer, L. (2013). SEX ALLOCATION ADJUSTMENT TO MATING GROUP SIZE IN A SIMULTANEOUS HERMAPHRODITE Evolution, 67 (11), 3233-3242 DOI: 10.1111/evo.12189

Leonard, J. (1990). The Hermaphrodite’s Dilemma Journal of Theoretical Biology, 147 (3), 361-371 DOI: 10.1016/S0022-5193(05)80493-X

Leonard, J., & Lukowiak, K. (1991). Sex and the simultaneous hermaphrodite: testing models of male-female conflict in a sea slug, Navanax intermis (Opisthobranchia) Animal Behaviour, 41 (2), 255-266 DOI: 10.1016/S0003-3472(05)80477-4

Marie-Orleach, L., Janicke, T., & Schärer, L. (2013). Effects of mating status on copulatory and postcopulatory behaviour in a simultaneous hermaphrodite Animal Behaviour, 85 (2), 453-461 DOI: 10.1016/j.anbehav.2012.12.007

Schärer, L., Joss, G., & Sandner, P. (2004). Mating behaviour of the marine turbellarian Macrostomum sp.: these worms suck Marine Biology, 145 (2) DOI: 10.1007/s00227-004-1314-x

Schärer, L., Littlewood, D., Waeschenbach, A., Yoshida, W., & Vizoso, D. (2011). Mating behavior and the evolution of sperm design Proceedings of the National Academy of Sciences, 108 (4), 1490-1495 DOI: 10.1073/pnas.1013892108

Schärer, L., Janicke, T., & Ramm, S. (2015). Sexual Conflict in Hermaphrodites Cold Spring Harbor Perspectives in Biology, 7 (1) DOI: 10.1101/cshperspect.a017673

Wethington, A., & Dillon, JR, R. (1996). Gender choice and gender conflict in a non-reciprocally mating simultaneous hermaphrodite, the freshwater snail,Physa Animal Behaviour, 51 (5), 1107-1118 DOI: 10.1006/anbe.1996.0112

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