Libélulas machos não são tão violentas quanto se pensava

por Piter Kehoma Boll

Machos e fêmeas são definidos por seus gametas. Machos possuem gametas minúsculos, geralmente móveis, enquanto fêmeas possuem gametas muito grandes que geralmente não se movem. Isso significa que fêmeas produzem menos gametas, mas investem muitos recursos em cada um, isto é, os gametas femininos são caros. Por outro lado, os gametas masculinos são muito baratos, pequenos e produzidos em grandes quantidades. Como resultado dessas diferenças, machos e fêmeas têm diferentes interesses durante o sexo.

Como fêmeas produzem gametas mais caros e menos numerosos, elas tendem a ser muito seletivas sobre quem elas deixam fertilizá-los. Mas machos se beneficiam de fertilizar cada gameta feminino que encontram no caminho. Em outras palavras, as fêmeas querem qualidade e os machos querem quantidade. Essa diferença de interesses é chamada conflito sexual e é uma poderosa força evolutiva.

Uma adaptação evolutiva que tem sido vista como resultado de conflito sexual é o sistema de acasalamento em odonatos (libélulas e donzelinhas). Durante o sexo, uma libélula macho agarra o pescoço da fêmea usando um aparato de agarramento no final de seu abdome. A fêmea é então induzida a conectar a ponta do seu abdome aos segundo e terceiro segmentos do abdome do macho, onde o esperma está armazenado. O casal então voa junto em uma formação em forma de coração.

Duas libélulas da espécie Rhionaeschna multicolor copulando. O macho é o azul, que está agarrando o pescoço da fêmea e fazendo-a tocar a ponta do seu abdome aos segundo e terceiro segmentos abdominais do macho, onde o esperma está armazenado. Foto de Eugene Zelenko.

Duas libélulas da espécie Rhionaeschna multicolor copulando. O macho é o azul, que está agarrando o pescoço da fêmea e fazendo-a tocar a ponta do seu abdome aos segundo e terceiro segmentos abdominais do macho, onde o esperma está armazenado. Foto de Eugene Zelenko.

Pensava-se que o aparato de agarramento do macho forçasse uma fêmea relutante a copular com ele, sugerindo que o órgão evoluiu através de conflito sexual. O fato de que os machos geralmente agarram as fêmeas bem antes de elas aceitarem acasalar e continuam a segurá-las um bom tempo depois que a cópula terminou (prevenindo-a de acasalar com outros machos) parece ser uma boa evidência para essa teoria. Se isso é verdade, então a fêmea tentaria se livrar do macho, selecionando aparatos maiores e mais fortes em machos, já que esses seriam mais eficientes em segurar a fêmea e, como resultado, deixariam mais descendentes.

Em estudo publicado ano passado testou essa hipótese. Córdoba-Aguillar et al. (2015) avaliaram a alometria (o tamanho proporcional de uma estrutura em relação ao tamanho corporal) do aparato de agarramento dos machos em várias espécies de libélulas. Se machos forçassem as fêmeas a copular, uma relação hiperalométrica deveria ser esperada.

O que isso significa? Bem, vamos tentar explicar da forma mais simples. Quando você joga dados do tamanho de uma estrutura de acordo com o tamanho do corpo como um todo em um gráfico, usando valores que levem a uma relação linear, você pode ter diferentes resultados. A estrutura pode aumentar de tamanho da mesma forma que o corpo, em uma relação 1:1. Neste caso, a linha no gráfico é dita ter uma inclinação igual a 1 e há uma relação isométrica da estrutura para com o corpo. Se a inclinação é maior que um, isso significa que a estrutura cresce mais depressa que o corpo, tendo uma relação hiperalométrica. Se a inclinação é menor que um (mas maior que zero), a relação é hipoalométrica e a estrutura cresce mais devagar que o corpo.

allometryAs medidas dos aparatos de agarramento em libélulas em geral mostraram uma relação isométrica. Assim, de acordo com essa abordagem, a estrutura não evoluiu como uma “arma” para subjugar fêmeas. Mas que outras explicações podem existir então? Ela poderia ser uma ferramenta de cortejo, uma forma de o macho convencer a fêmea a copular com ele. Também poderia ser uma forma de evitar acasalamentos interespecíficos, já que o aparato de agarramento possui uma grande especificidade em formato para o pescoço de fêmeas da mesma espécie. Uma libélula macho não pode agarrar o pescoço de uma fêmea de outra espécie porque o aparato de agarramento simplesmente não encaixa no pescoço da fêmea.

Ambas as hipóteses alternativas para a evolução do aparato de agarramento são possíveis, mas mais estudos são necessários para testá-las.

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Referências:

Chapman, T., Arnqvist, G., Bangham, J., & Rowe, L. (2003). Sexual conflict Trends in Ecology & Evolution, 18 (1), 41-47 DOI: 10.1016/S0169-5347(02)00004-6

Córdoba-Aguilar, A., Vrech, D., Rivas, M., Nava-Bolaños, A., González-Tokman, D., & González-Soriano, E. (2014). Allometry of Male Grasping Apparatus in Odonates Does Not Suggest Physical Coercion of Females Journal of Insect Behavior, 28 (1), 15-25 DOI: 10.1007/s10905-014-9477-x

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