Arquivo da categoria: Zoologia

Sexta Selvagem: Aduela-do-Salmão

por Piter Kehoma Boll

Read it in English

Todos conhecem salmões, especialmente o salmão-do-Atlântico, Salmo salar, e muitos de nós amam comer essa espécie de peixe também. Mas eu não estou aqui para falar do salmão-do-Atlântico em si, mas para falar sobre um de seus companheiros e antagonistas mais próximos, a aduela-do-salmão.

Cientificamente conhecida como Gyrodactylus salaris, a aduela-do-salmão é um platelminto do clado Monogenea, um grupo de ectoparasitas que infectam principalmente peixes. Como seu nome sugere, a aduela do salmão infecta salmões, tal como o salmão-do-Atlântico e espécies proximamente relacionadas, como a truta-arco-íris Onchorrhynchus mykiss.

Várias aduelas-do-salmão em um hospedeiro. Foto de Tora Bardal. Extraído de
https://www.drivaregionen.no/no/Gyrodactylus-salaris/

A aduela-do-salmão foi descrita pela primeira vez em 1952 em salmões de uma população báltica que eram mantidos em um laboratório sueco. Medindo cerca de 0.05 mm de comprimento, a aduela-do-salmão se prende à pele do peixe e é pequena demais para ser vista a olho nu. Ela se prende usando um órgão especializado cheio de minúsculos ganchos, chamado haptor, localizado na extremidade posterior do corpo. Quando se alimenta, a aduela-do-salmão prende a boca na superfície do peixe usando glândulas em sua cabeça e everte a faringe através da boca, liberando enzimas digestivas no peixe, dissolvendo sua pele, que é então ingerida. Os ferimentos causados pela alimentação do parasita podem levar a infecções secundárias que afetam seriamente a saúde do salmão.

Micrografia de microscopia eletrônica de varredura de cinco espécimes de Gyrodactylus salaris. Créditos a Jannicke Wiik Nielsen. Extraído de https://www.vetinst.no/nyheter/kan-gyrodactylus-salaris-utryddes-i-drammensregionen

Diferente da maioria dos platelmintos parasitas, os monogêneos como a aduela-do-salmão possuem apenas um hospedeiro. Durante a reprodução, os adultos hermafroditas liberam uma larva ciliada chamada oncomiracídio que infecta novos peixes. Uma só aduela pode originar uma população inteira porque é capaz de se autofertilizar.

Durante os anos 1970, uma infecção massiva pela aduela-do-salmão aconteceu na Noruega após a introdução de linhagens infectadas de salmão. Isso levou a uma diminuição catastrófica de populações do salmão no país, afetando muitos rios. Devido a essa ameaça evidente a uma espécie tão importante comercialmente, várias técnicas vem sendo desenvolvidas para controlar e matar o parasita. Os primeiros métodos desenvolvidos incluem o uso de pesticidas em rios, mas estes acabavam tendo um efeito negativo em muitas espécies, incluindo os próprios salmões. Atualmente, métodos novos e menos agressivos vêm sendo usados.

– – –

Curta nossa página no Facebook!

Siga-me (@piterkeo) no Twitter!

– – –

Referências:

Jansen, P. A., & Bakke, T. A. (1991). Temperature-dependent reproduction and survival of Gyrodactylus salaris Malmberg, 1957 (Platyhelminthes: Monogenea) on Atlantic salmon (Salmo salar L.). Parasitology, 102(01), 105. doi:10.1017/s0031182000060406

Johnsen, B. O., & Jenser, A. J. (1991). The Gyrodactylus story in Norway. Aquaculture, 98(1-3), 289–302. doi:10.1016/0044-8486(91)90393-l

Meinilä, M., Kuusela, J., Ziętara, M. S., & Lumme, J. (2004). Initial steps of speciation by geographic isolation and host switch in salmonid pathogen Gyrodactylus salaris (Monogenea: Gyrodactylidae). International Journal for Parasitology, 34(4), 515–526. doi:10.1016/j.ijpara.2003.12.002

Wikipedia. Gyrodactylus salaris. Disponível em < https://en.wikipedia.org/wiki/Gyrodactylus_salaris >. Access em 26 de dezembro de 2018.

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Parasitas, platelmintos, Sexta Selvagem, Zoologia

A história da Sistemática: O sistema de Brisson

por Piter Kehoma Boll

Anteriormente vimos que Linnaeus classificou os animais em 6 classes: Mammalia, Aves, Amphibia, Pisces, Insecta e Vermes e manteve esse sistema em edições futuras do Systema Naturae. Ao mesmo tempo que Linnaeus publicava sua décima edição do Systema Naturae, que é o primeiro trabalho a usar nomenclatura binomial para animais, Brisson, um zoólogo francês, estava criando seu próprio sistema de classificação.

Brisson decidiu classificar os animais em 9 classes: Quadrupeda, Cetacea, Aves, Reptilia, Pisces cartilaginosi, Pisces proprie dicti, Insecta, Crustacea e Vermes. Ele descreve as características dos animais em cada classe em sua obra “Regnum animale in classes IX. Distributum sive synopsis methodica”.

Classe 1. Quadrupeda: corpo peludo, ao menos em algumas áreas, e quatro patas.

Classe 2. Cetacea: corpo nu e alongado, nadadeiras carnosas, cauda horizontal achatada.

Classe 3. Aves: corpo coberto de penas, bico córneo, duas asas, duas patas.

Classe 4. Reptilia: ou corpo nu e quatro patas, ou corpo escamoso com quatro ou sem patas, e respirando por pulmões.

Classe 5. Pisces cartilaginei: nadadeiras cartilaginosas e respirando através de aberturas para brânquias nuas.

Classe 6. Pisces proprie dicti: nadadeiras formadas de pequenos ossos e respirando por brânquias cobertas por uma cobertura móvel e parcialmente ossificada.

Classe 7. Crustacea: cabeça equipada com antenas e oito ou mais patas.

Classe 8. Insecta: antes da última metamorfose, com vários estigmas ou órgãos respiratórios; depois da última metamorfose, cabeça com antenas e seis patas.

Classe 9. Vermes: o corpo, ou ao menos parte dele, retrátil, sem antenas, pés ou estigmas.

No mesmo trabalho, ele descreve em detalhes as duas primeiras classes. A classe Aves é descrita em um trabalho separado, “Ornithologia, sive, synopsis methodica sistens avium divisionem in ordines, sectiones, genera, species, ipsarumque varietates”, mas as classes restantes nunca foram apresentadas, então vou ter que lidar só com essas três.

Classe 1. Quadrupeda

Esta classe é composta por todos os mamíferos conhecidos na época, exceto as baleias, que estavam na classe seguinte, Cetacea. Brisson dividiu os quadrúpedes em 18 ordens, mas não deu nomes a elas, apenas descrevendo-as baseado no número de dentes e no tipo de unha. Linnaeus usou a dentição como a característica principal para a classificação dos mamíferos, mas usou critérios diferentes.

Classe 2. Cetacea

Esta classe era composta pelos cetáceos e era dividida em 4 ordens, cada uma com só um gênero. As ordens eram baseadas na (aparente) distribuição dos dentes.

Na imagem a seguir você pode ver a classificação de Quadrupeda e Cetacea e sua comparação com o sistema de 1767 de Linnaeus.

Comparação dos sistemas de Linnaeus e Brisson para mamíferos. Astericos indicam gêneros que ainda são válidos hoje e foram criados pelos respectivos autores. Um † indica um gênero que não é mais válido.

Algumas curiosidades quando comparamos os mamíferos nos dois sistemas:

1. O gênero Trichechus de Linnaeus incluía peixes-boi e morsas. Brisson classificou as morsas num gênero separado, Odobenus, mas incluiu os peixes-boi no gênero Phoca, junto com as focas e os leões-marinhos!

2. Linnaeus incluiu doninhas e lontras no gênero Mustela e civetas no gênero Viverra. Brisson, por outro lado, pôs civetas no gênero Mustela, junto com as doninhas, e pôs as lontras num gênero separado, Lutra.

3. Enquanto Linnaeus pôs hienas com cães no gênero Canis e texugos com os ursos no gênero Ursus, Brisson tinha gêneros separados para hienas e texugos, chamados Hyaena e Meles.

4. Brisson pôs camundongos e ratos no gênero Mus, arganazes no gênero Glis e roedores sul-americanos de rabo curto, como cobaias e pacas, no gênero Cuniculus. Linnaeus tinha todos em Mus.

5. Brisson separou girafas no seu próprio gênero, Giraffa, enquanto Linnaeus as classificou no gênero Cervus junto com os veados.

Classe 3. Aves

A classificação de Brisson das aves era muito diferente da de Linnaeus. Havia muito mais ordens e gêneros. De fato, alguns gêneros usados por Linnaeus em 1767 foram criados por Brisson. Veja abaixo como é complexa a relação de um sistema para o outro:

Comparação da classificação de aves de Linnaeus e Brisson. Veja a enorme diferença entre os dois sistemas. Asteriscos indicam gêneros que ainda são válidos hoje e foram criados pelos respectivos autores. Um † indica que o gênero não é mais válido.

Infelizmente, Brisson nunca publicou sua classificação dos outros animais, então precisamos seguir para os próximos autores nas postagens seguintes.

– – –

Referências:

Brisson M-J (1762). Regnum animale in classes IX. Distributum, sive, Synopsis methodica. Lugduni Batavorum apud Theodorum, Haak. 316 pp.

Brisson M-J (1763a). Ornithologia, sive, synopsis methodica sistens avium divisionem in ordines, sectiones, genera, species, ipsarumque varietates. Apud Theodorum Haak, Lugduni Batavorum : 534 pp.

Brisson M-J (1763b). Ornithologia, sive, Synopsis methodica sistens avium divisionem in ordines, sectiones, genera, species, ipsarumque varietates. Apud Theodorum Haak, Lugduni Batavorum : 542 pp.

Deixe um comentário

Arquivado em Sistemática, Taxonomia, Zoologia

A história da Sistemática: Systema Naturae de 1758 a 1767–1770

por Piter Kehoma Boll

Read it in English

Em uma série de postagens anteriores, eu detalhei a classificação dos seres vivos por Linnaeus na sua obra Systema Naturae com apresentada na décima edição, publicada e 1758. Aqui, vou apresentar a classificação de forma resumida e mostrar mudanças que aconteceram entre a 10ª edição e a 13ª edição publicada em duas porta, uma 9 anos depois, em 1767, tratando dos animais, e uma 12 anos depois, em 1770, tratando das plantas.

Animais

Linnaeus classificou os animais em 6 classes: Mammalia, Aves, Amphibia, Pisces, Insecta e Vermes.

1. Mammalia incluía mamíferos e em 1758 eram classificados em 8 ordens: Primates, Bruta, Ferae, Bestiae, Glires, Pecora, Belluae, Cete (veja detalhes aqui).

A classificação dos mamíferos de Linnaeus em 1758 e 1767.

Em 1767, a ordem Bestiae não existe mais. Tatus (Dasypus) foram transferidos para Bruta, porcos (sus) para Belluae e os restantes para Ferae. Adicionalmente, rinocerontes (Rhinoceros) foram transferidos de Glires para Belluae e uma espécie de morcego foi transferida do gênero Vespertilio em Primates para um novo gênero, Noctilio, em Glires.

2. Aves incluía aves e em 1758 elas eram classificadas em 6 ordens: Accipitrae, Picae, Anseres, Grallae, Gallinae, Passeres (veja detalhes aqui).

Classificação dos aves de Linnaeus em 1758 e 1767.

Em 1767, cinco novos gêneros surgiram em Picae: Buphaga, os pica-bois, Trogon, os surucuás, Oriolus, os oriolos (anteriormente no gênero Coracias), Bucco, os rapazinhos, e Todus, os todinhos. Um novo gênero aparece em Anseres, Plotus, as biguatingas. A ordem Grallae recebe o novo gênero Palamedea, as seriemas e os tachãs, Parra, as jaçanãs, e Cancroma, a garça-bico-de-barco. A ordem Gallinae é aumentada com o novo gênero Didus, o dodô (que foi anteriormente um membro do gênero Struthio na ordem Grallae), e Numida, a galinha-de-Angola (anteriormente no gênero Phasianus). E, finalmente, a ordem Passeres recebeu os novos gêneros Pipra para os uirapurus (antes em Parus), Ampelis, os picoteiros e as cotingas (antes no gênero Lanius na ordem Accipitrae), Tanagra, os tangarás (antes em Fringilla), e Muscicapa, os papa-moscas (antes nos gêneros Corvus e Motacilla).

Também é interessante notar uma mudança no nome da ordem Accipitrae para Accipitres, e o gênero Jynx é aqui escrito Yunx.

3. Amphibia incluía répteis, anfíbios e alguns peixes e tinha 3 ordens: Reptiles, Serpentes e Nantes (veja detalhes aqui).

Classificação dos Anfíbios de Linnaeus em 1758 e 1767.

As ordens Reptiles e Serpentes se mantiveram as mesmas. A ordem Nantes, que em 1758 incluía principalmente peixes cartilaginosos, em 1767 incluía muitos gêneros que eram anteriormente classificados na classe Pisces, especialmente na ordem Branchiostegi (veja abaixo).

4. Pisces incluía a maioria dos peixes e tinha 5 ordens: Apodes, Jugulares, Thoracici, Abdominales e Branchiostegi (veja detalhes aqui).

Classificação dos peixes de Linnaeus em 1758 e 1767.

O gênero Ophidion foi transferido da ordem Jugulares para Apodes e aparece grafado como Ophidium. A ordem Thoracici recebeu o gênero adicional Cepola (suspensórios) e a ordem Abdominales foi aumentada com o gênero Amia (a amia), Teuthis e Elops (a ubarana), bem como o gênero Mormyrus, antes parte da ordem Branchiostegi que deixou de existir.

5. Insecta incluía artrópodes e tinha 7 ordens: Coleoptera, Hemiptera, Lepidoptera, Neuroptera, Hymenoptera, Diptera, Aptera (veja detalhes aqui).

Classificação dos insetos de Linnaeus em 1758 e 1767.

A ordem Coleoptera recebeu os novos gêneros Lucanus (vacalouras, antes em Scarabaeus), Byrrhus (besouros-pílula), Gyrinus (besouros-giradores, Bruchus (gorgulhos-da-ervilha), Ptinus (besouros-aranhas), Hispa, Lampyris (vagalumes). Os gêneros Blatta e Gryllus foram transferidos para Hemiptera e os louva-a-deuses foram removidos de Gryllus e receberam seu próprio gênero, Mantis. Além disso, as jequitiranaboias foram removidas do gênero Cicada e transferidas para Fulgora. Na ordem Neuroptera, as formigas-leão foram removidas do gênero Hemerobius e transferidas para o novo gênero Myrmeleon. Na ordem Hymenoptera, as vespas-cuco foram transferidas do gênero Sphex para o novo gênero Chrysis.

6. Vermes incluía vários vermes, moluscos, equinodermos, cnidários e a feiticeira. Havia 5 ordens: Intestina, Mollusca, Testacea, Lithophyta e Zoophyta (veja detalhes aqui).

Classificação dos vermes de Linnaeus em 1758 e 1767.

De 1758 a 1767, o gênero Furia, de uma espécie fictícia, foi transferido de Intestina para Zoophyta, e o gênero Teredo (turus) foi transferido de Intestina para Testacea. Um novo gênero Sipunculus, foi adicionado a Intestina para incluir os vermes-amendoim. Na ordem Mollusca, encontramos agora os novos gêneros Ascidia (ascídias), Aplysia (lebres-do-mar), Terebella (alguns poliquetos antes em Nereis) e Clio (algumas lesmas marinhas). O gênero Priapus, contendo as anêmonas-do-mar, é agora chamado Actinia. A ordem Testacea recebeu os novos gêneros Mactra (amêijoas, antes em Cardium) e Sabella (verme-leque, antes em Serpula). A ordem Lithophyta recebeu o novo gênero Cellepora (para briozoários). Na ordem Zoophyta, encontramos o novo gênero Flustra (para briozoários antes em Eschara), Vorticella (para ciliados antes em Hydra) e Chaos (para amebas, antes em Volvox). Um gênero adicional é visto em Zoophyta: Spongia (esponjas), transferido de Algae, lá no reino das plantas.

Plantas

O sistema de classificação das plantas era muito mais complicado que o dos animais. Havia plantas com flores regulares classificadas de acordo com o número de órgãos sexuais masculinos e femininos, respectivamente (como você pode ler em detalhes nas partes 1, 2, 3 e 4 das plantas no Systema Naturae). Pouco mudou exceto por alguns gêneros, como você pode ver na tabela abaixo.

Classificação de Linnaeus das plantas com flores hermafroditas regulares em 1758 e 1770. Veja a imagem em maior resolução aqui.

O mesmo é verdade para espécies nas classes Didynamia e Tetradyamia, que possuem flores com estames de diferentes tamanhos. Pouco mudou em sua classificação.

Classificação de Linnaeus das plantas com flores que possuem estames de dois tamanhos diferentes em 1758 e 1770.

Em relação às três classes caracterizadas por flores com estames aglomerados, podemos ver duas novas ordens na classe Monadelphia.

Classificação de Linnaeus das plantas com estames aglomerados em 1758 e 1770.

Na classe Syngenesia, podemos notar que a ordem Polygamia Superflua deixou de existir, com a maior parte das espécies transferida para Polygamia Aequalis, e uma nova ordem, Polygamia Segregata, está agora presente. Na classe Gynandria, uma nova ordem, Dodecandria, foi criada. Veja estas duas classes com mais detalhes aqui.

Classificação de Linnaeus das plantas com estames fundidos uns aos outros ou aos carpelos em 1758 e 1770.

Nas três classes de plantas com órgãos masculinos e femininos ocorrendo em flores separadas, acho que a novidade mais interessante é que o gênero Chara, que em 1758 foi classificado como um gênero de algas, está agora entre as plantas com flores na classe Monoecia, ordem Monandria.

Classificação de Linnaeus das plantas com órgãos masculinos e femininos em flores diferentes em 1758 e 1770.

Finalmente, entre as criptógamas, as “plantas sem flores”, pouco mudou exceto pela transferência de Chara para as plantas com flores e Spongia para o reino animal.

Classificação de Linnaeus das criptógamas em 1758 e 1770.

Enquanto Linnaeus continuou a desenvolver seu próprio sistema, outras classificações foram sendo propostas. Começaremos a olhar para elas nos próximos capítulos.

– – –

Referências:

Linnaeus, C. (1758) Systema Naturae per regna tria Naturae…

Linnaeus, C; (1967) Systema Naturae per regna tria Naturae….

Linnaeus, C. (1770) Systema Naturae per regna tria Naturae…

1 comentário

Arquivado em Botânica, Sistemática, Taxonomia, Zoologia

Ter poucas fêmeas transforma jabutis machos em estupradores

por Piter Kehoma Boll

A guerra entre os sexos e os infindáveis conflitos que resultam disso são um tema comum em pesquisa comportamental e evolutiva e já  foi discutida aqui várias vezes.

Como sabemos bem, até mesmo por exemplos de nossa própria espécie, os machos raramente são bons pais, estando mais interessados em produzir tantos descendentes quanto possível com pouco esforço. As fêmeas, por outro lado, devido ao seu grande investimento em ovos (e geralmente outros recursos para a prole) são mais seletivas e não aceitam qualquer macho para acasalar.

Uma das soluções mais comuns para machos resolverem este conflito sexual é por copulação forçada, ou estupro como é chamado quando acontece com a nossa espécie. Às vezes essa copulação forçada é extrema, com machos deixando as fêmeas muito machucadas para fazê-las se renderem. Uma destas espécies violentas é o jabuti-de-Hermann, Testudo hermanni, um jabuti encontrado pelas áreas mediterrâneas da Europa.

800px-small_male_on_big_female

“Vou te dar um trato, sua safada!”. Esta foto de um macho jovem tentando montar numa fêmea adulta pode parecer engraçada, mas o sexo não é divertido para jabutis fêmeas. Foto do usuário Palauenco5 do Wikimedia.*

Copulação forçada é muito mais comum em espécies em que os machos são maiores e mais fortes que as fêmeas. Este não é o caso com jabutis, mas os machos de jabuti-de-Hermann encontraram uma forma de lidar com isso. Eles perseguem as fêmeas, às vezes por horas, empurrando-as, mordendo-as, às vezes ao ponto de fazê-las sangrarem, e eventualmente as pobres fêmeas se entregam. Também é comum que os machos “estimulem” a cloaca da fêmea com suas caudas pontudas, o que resulta numa cloaca inchada e às vezes em ferimentos sérios que deixam as fêmeas com cicatrizes e deformidades horríveis. Sim, não é uma face bonita da natureza.

800px-astuccio_corneo3

A cauda de um macho. Photo do usuário Bizarria do Wikimedia.**

Um estudo recente com duas populações de jabuti-de-Hermann na Macedônia revelou que a agressividade dos machos está relacionada com a disponibilidade de fêmeas. O grupo de pesquisadores estudou uma população em que a razão fêmea:macho era perto de 1:1 e outra com um número extremamente maior de machos ao ponto de haver uma fêmea para cada 17,5 machos.

Os resultados indicaram que na população mais balanceada a cópula forçada era menos comum e geralmente apenas fêmeas adultas apresentavam ferimentos causados por machos, enquanto que na população com mais machos a falta de fêmeas levou os machos a enlouquecerem ao ponto de forçar a cópula até com fêmeas imaturas. A situação como um todo é claramente maladaptativa, á que as fêmeas acabam feridas e os machos exaustos e nenhuma prole é gerada.

Eu só consigo ver duas saídas possíveis para uma população assim: ou fêmeas mais resistentes serão selecionadas ou a população vai se tornar extinta depois que todas as fêmeas morrerem por violência masculina.

Como podemos ver, conflito sexual é um desses efeitos colaterais deletérios que a seleção natural criou. Afinal ninguém é perfeito, nem mesmo as leis fundamentais da vida.

– – –

Você também pode curtir:

Libélulas machos não são tão violentas quanto se pensava

Conflito de gênero: Quem é o homem na relação?

Fêmeas malvadonas não são populares entre louva-a-deuses

– – –

Curta nossa página no Facebook!

– – –

Referência:

Golubović, A.; Arsovski, D.; Tomović, L.; Bonnet, X. (2018) Is sexual brutality maladaptive under high population density? Biological Journal of the Linnean Society 124(3): 394–402. https://doi.org/10.1093/biolinnean/bly057

– – –

*Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 4.0 Internacional.

**Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 3.0 Não Adaptada.

Deixe um comentário

Arquivado em Comportamento, Evolução, Zoologia

Sexta Selvagem: Verme-listrado-de-verde

por Piter Kehoma Boll

Os parasitas são muito especiosos, e frequentemente eu sinto que não estou dando espaço suficiente para eles aqui, especialmente quando eu lhes trago um platelminto, que é provavelmente o grupo com o maior número de espécies parasitas. Então vamos falar de um deles hoje finalmente.

O pimeiro platelminto parasita que eu apresentarei a vocês é Leucochloridium paradoxum, o verme-listrado-de-verde. Ele é um membro do grupo Trematoda e, como todos os trematódeos, possui um ciclo de vida complexo.

Os adultos do verme-listrado-de-verde vivem no intestino de vários pássaros da América do Norte e da Europa. Os ovos que eles põem chegam ao ambiente através das fezes das aves e são eventualmente ingeridos por caracóis do gênero Succinea.

145

Um indivíduo adulto de Leucochloridium paradoxum (esquerda), um hospedeiro intermediário infectado, um caracol do gênero Succinea (centro) e os esporocistos ao longo dos õgrãos internos do caracol (direita). Imagens não em escala. Extraído de http://medbiol.ru/medbiol/dog/0011a975.htm

Adultos de Leucochloridium paradoxum são muito similares aos adultos de outras espécies do gênero Leucochloridium. A principal diferença é vista nos estágios larvais. Dentro do corpo do caracol, os ovos eclodem no primeiro estágio larval, o miracídio, que dentro do sistema digestivo do caracol se desenvolve no próximo estágio, o esporocisto.

O esporocisto tem a forma de um saco longo e inchado que é marcado de listras verdes (de onde o nome). Ele é preenchido de cercárias, que são o próximo estágio larval. O esporocisto então migra em direção aos tentáculos dos olhos do caracol, invadindo-os e tornando-os uma estrutura inchada, colorida e pulsante que se assemelha a uma lagarta. Nesse estágio da infecção, o pobre caracol provavelmente está cego e não consegue evitar a luz como normalmente faz. Como resultado, ele fica exposto a aves que o confundem com uma suculenta lagarta e o comem com avidez.

683px-succinea_mit_leucocholoridium

Um pobre caracol da espécie Succinea putris com um verme-listrado-de-verde em seu tentáculo ocular esquerdo. Só há um destino terrível para essa criatura. Foto de Thomas Hahmann.*

Quando o caracol é comido, o esporocisto arrebenta e várias cercárias são liberadas. No intestino da ave, elas se desenvolvem em adultos e recomeçam o pesadelo.

– – –

Curta nossa página no Facebook!

– – –

Referências:

Rząd, I.; Hofsoe, R.; Panicz, R.; Nowakowski, J. K. (2014) Morphological and molecular characterization of adult worms of Leucochloridium paradoxumCarus, 1835 and L. perturbatum Pojmańska, 1969 (Digenea: Leucochloridiidae) from the great tit, Parus major L., 1758 and similarity with the sporocyst stages. Journal of Helminthology 88(4): 506-510. DOI: 10.1017/S0022149X13000291

Wikipedia. Leucochloridium paradoxum. Disponível em < https://en.wikipedia.org/wiki/Leucochloridium_paradoxum >. Accesso em 8 de março de 2018.

– – –

*Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 3.0 Não Adaptada.

1 comentário

Arquivado em Parasitas, platelmintos, Sexta Selvagem, vermes, Zoologia

Sexta Selvagem: Polvo-azul-anelado-maior

por Piter Kehoma Boll

Águas tropicais estão sempre transbordando de diversidade, portanto é difícil ficar longe delas. A Sexta Selvagem de hoje traz mais uma criatura das águas oceânicas tropicais, mais precisamente das águas indo-pacíficas. Sendo encontrado do Sri Lanka até as Filipinas, o Japão e a Austrália, nosso camarada de hoje é chamado Hapalochlaena lunulata e popularmente conhecido como o polvo-azul-anelado-maior.

Esse polvo adorável é muito pequeno, medindo apenas 10 cm, incluindo os braços. Ele, no entanto, chama a atenção facilmente porque seu corpo de cor esbranquiçada a amarelo-escura é coberto por cerca de 60 anéis que apresentam uma bela cor azul-elétrica com um contorno preto. Como na maioria dos polvos, a cor pode mudar de acordo com as necessidades do animal de forma a torná-lo mais ou menos visível.

Um espécime do polvo-azul-anelado-maior na Indonésia. Foto de Jens Petersen.*

Esse adorável padrão de coloração, que pode parecer atraente para nós, humanos, é, no entanto, um sinal de advertência. O polvo-azul-anelado-maior é uma criatura peçonhenta e pode até mesmo matar um ser humano caso se sinta ameaçado. Como outros polvos, ele é um predador e se alimenta principalmente de crustáceos e bivalves e os imobiliza om uma toxina antes do consumo. Essa, porém, é uma toxina fraca. O perigo real está em seu comportamento defensivo.

Quando ameaçado, o polvo-azul-anelado-maior geralmente começa com uma sinalização de alerta onde dispara seus anéis em cores fortes. Se isso não for o suficiente para fazer a criatura que o ameaça recuar, ele ataca e morde seu molestador. A mordida geralmente é indolor, mas mortal. O veneno injetado não é nada mais nada menos que a infame tetrodotoxina, a mesma coisa que faz o baiacu um alimento perigoso. Como você talvez saiba, a tetrodotoxina é uma neurotoxina potente que mata entre alguns minutos a algumas horas ao bloquear o potencial de ação nas células, levando à paralisia e morte por asfixia. No polvo-azul-anelado-maior, a tetrodotoxina é produzida por bactérias que vivem em suas glândulas salivares.

800px-blue-ringed_octopus_281428061429929

Um polvo-azul-anelado-maior nadando. Foto de Elias Levy.**

Um estudo analisando o comportamento sexual do polvo-azul-anelado-maior demonstrou que o acasalamento ocorre em encontros tanto de machos com fêmeas quanto de machos com machos. O ritual de acasalamento dos polvos consiste no macho inserindo o hectocótilo, um braço especializado para entregar esperma, no manto da fêmea. Em casais macho-macho, um dos machos sempre punha seu hectocótilo no manto do outro macho e não houve tentativas do macho receptivo de evitar o ato. A única diferença entre machos copulando com fêmeas ou com outros machos é que eles apenas entregavam o esperma para fêmeas e nunca para machos. O que podemos concluir disso? Teriam os polvos encontrado uma forma eficiente de serem bissexuais para se divertirem com outros machos e ainda manterem o esperma para dá-lo a fêmeas?

A diversidade da vida sempre nos fascina!

– – –

Curta nossa página no Facebook!

– – –

Referências:

Cheng, M. W.; Caldwell, R. L. (2000) Sex identification and mating in the blue-ringed octopus, Hapalochlaena lunulataAnimal Behavior 60: 27-33. DOI: 10.1006/anbe.2000.1447

Mäthger, L. M.; Bell, G. R. R.; Kuzirian, A. M.; Allen, J. J.; Hanlon, R. T. (2012) How does the blue-ringed octopus (Hapalochlaena lunulata) flash its blue rings? Journal of Experimental Biology 215: 3752-3757. DOI: 10.1242/jeb.076869

– – –

*Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 3.0 Não Adaptada.

**Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição 2.0 Genérica.

Deixe um comentário

Arquivado em moluscos, Sexta Selvagem, Zoologia

Xenoturbella, um grupo crescente de esquisitões

Read it in English

por Piter Kehoma Boll

Vocês podem nunca ter ouvido falar da Xenoturbella, e eu não os culpo por isso. Apesar de ser uma característica fascinante da evolução, pouco é conhecido sobre ela e sua mágica tem sido escondida de muitos de nós.

A primeira Xenoturbella foi descrita em 1949 e chamada Xenoturbella bocki. Nesse tempo, ela era considerada um platelminto estranho, de onde seu nome, do grego xenos, estranho + turbella, de Turbellaria, os platelmintos de vida livre. Xenoturbella bocki é um animal marinho medindo até 3 cm de comprimento e se parecendo com um verme dobrado, porque seu corpo possui uma série de dobras correndo longitudinalmente que o fazem ter um formato de W em seção transversal.

Encontrada nas águas frias em torno do norte da Europa, seu corpo carece de um sistema nervoso centralizado, tendo apenas uma rede de neurônios dentro da epiderme. Também não há órgãos reprodutores ou qualquer coisa parecida com um rim ou outro órgão além de uma boca e um intestino e algumas estruturas na superfície.

Por décadas, X. bocki era a única espécie de Xenoturbella conhecida por nós. Uma segunda espécie foi descrita em 1999 como X. westbladi, mas análises moleculares revelaram que ela era a mesma espécie que X. bocki, então continuávamos tendo apenas uma espécie.  Graças a estudos moleculares, também descobrimos que Xenoturbella não é um platelminto de forma alguma, mas pertence a um grupo de animais bilaterais muito primitivos, estando proximamente relacionada a outro grupo de ex-platelmintos, os acelomorfos. Juntos, Xenoturbella e os acelomorfos (um bom nome para uma banda de rock, não é?), formam um grupo chamado Xenacoelomorpha.

xenoturbella_churro_rouse

Xenoturbella churro, “cabeça” para a direita. Foto de Greg Rouse.*

Formando seu próprio filo (ou talvez classe se for agrupada em um filo único com os acelomorfos) chamado Xenoturbellida, X. bocki recentemente descobriu que não está sozinha no mundo. Em 2016, quatro novas espécies foram descritas das águas do Oceano Pacífico próximo às costas do México e dos EUA, sendo chamadas Xenoturbella monstrosaX. churroX. profundaX. hollandorum. Considerando-se o pequeno tamanho de X. bocki, algumas dessas eram monstros, especialmente X. monstrosa, que atinge 20 cm de comprimento!

Quatro novas espécies foi um achado e tanto. O filo subitamente era cinco vezes maior que antes. Sendo alguém particularmente interessado em grupos obscuros de animais, especialmente daqueles que outrora foram membros do adorável filo Platyhelminthes, eu fiquei muito animado com essa descoberta, mas não estava esperando o que aconteceria depois disso.

xenoturbella_japonica

Foto do único espécime conhecido de Xenoturbella japonica até agora. “Cabeça” para a esquerda. Créditos a Nakano et al. (2017).*

Em dezembro de 2017, mais uma espécie foi encontrada, dessa vez do outro lado do pacífico, perto do Japão. Chamada de Xenoturbella japonica, o quinto membro do gênero Xenoturbella é muito bem-vindo. A nova espécie foi baseada em dois espécimes, um espécime adulto “fêmea” (eles são hermafroditas? Não acho que podemos ter certeza ainda…) e um espécime jovem. Outra coisa empolgante é que o jovem pode na verdade ser ainda outra espécie! Mas precisamos de mais material para confirmar.

Você pode ler o artigo descrevendo Xenoturbella japonica aqui.

Veja também: Acoelomorpha, uma dor de cabeça filogenética.

– – –

Curta nossa página no Facebook!

– – –

Referências:

Nakano, H.; MIyazawa, H.; Maeno, A.; Shiroishi, T.; Kakui, K.; Koyanagi, R.; Kanda, M.; Satoh, N.; Omori, A.; Kohtsuka, H. (2017) A new species of Xenoturbella from the western Pacific Ocean and the evolution of XenoturbellaBMC Evolutionary Biology17: 245. https://doi.org/10.1186/s12862-017-1080-2

Rouse, G.W.; Wilson N.G.; Carvajal, J.I.; Vrijenhoek, R.C. (2016) New deep-sea species of Xenoturbella and the position of Xenacoelomorpha. Nature, 530:94–7. doi:10.1038/nature16545.

– – –

*Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 4.0 Internacional.

Deixe um comentário

Arquivado em Sistemática, Taxonomia, vermes, Zoologia