Arquivo da categoria: Zoologia

Virando padrasto para transar: o incomum cuidado aloparental em uma abelhinha-carpinteira

por Piter Kehoma Boll

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Mês passado, fiz alguns comentários sobre cuidado aloparental, isto é, o ato de tomar conta de uma prole que não é sua.

Na maioria das vezes, quando cuidado parental existe numa espécie, ele é realizado somente pela mãe. Quando há um ajudante, ele geralmente é o pai entre vertebrados, ou irmãos entre artrópodes, especialmente entre insetos sociais como abelhas e formigas. Machos tomando conta da prole em insetos sociais é algo improvável de acontecer na maioria das espécies porque o macho geralmente morre logo depois de acasalar.

Contudo uma situação incomum foi recentemente descoberta em Ceratina nigrolabiata, uma espécie de abelha-carpinteira-pequena da região do Mediterrâneo. Nesta espécie, a fêmea é poliândrica, isto é, ela acasala com vários machos, de forma que nem toda a sua prole tem o mesmo pai.

Esta não é a parte incomum, no entanto. O estranho é que machos desta espécie não morrem após acasalarem e ajudam a fêmea a tomar conta da prole. Enquanto a fêmea deixa o ninho para procurar alimento, o macho fica e toma conta dos ovos e das larvas, protegendo-os de inimigos naturais, como formigas. No entanto, como dito acima, as fêmeas desta espécie acasalam com muitos machos, e estudos genéticos revelaram que o macho guardando o ninho é o pai de somente cerca de 10% da prole.

Cuidado parental na abelhinha-carpinteira Ceratina nigrolabiata:
(A) A fêmea chega ao ninho. Um macho está voando por perto, procurando uma “solteirona”
(B) A fêmea cumprimenta seu macho ajudante
(C) Ninho seccionado mostrando três células com larvas/ovos e alimento e uma quarta célula sendo construída; a fêmea está à esquerda e o macho à direita
Créditos a Mikát et al. (2019) (Veja referências)

Então por que machos de Ceratina nigrolabiata cuidam dos filhos de outro macho? O que a equipe estudando este sistema descobriu é que quanto mais tempo o macho toma conta de um ninho, maior é a quantidade da prole que o tem como pai. Em outras palavras, parece que ajudar uma fêmea aumenta as chances de um macho copular com aquela fêmea, assim aumentando o número de descendentes que ele possui. Não obstante, os machos raramente ficavam por muito tempo no mesmo ninho, geralmente se movendo para outro ninho a cada semana mais ou menos, o que não aumenta a quantidade de sua própria prole no ninho.

A equipe também experimentalmente removeu fêmeas dos ninhos para observar como os machos se comportariam na ausência de uma fêmea. O que eles descobriram é que os machos geralmente abandonam o ninho quando isso acontece, não estando nem aí para os pobres bebês. Portanto, é provável que o cuidado aloparental dos machos seja na verdade um sub-produto de guardar a fêmea, isto é, o macho está lá para assegurar que terá acesso à fêmea quando ela estiver disposta a acasalar. Ele não se importa de verdade com os filhotes.

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Referência:

Mikát M, Janošik L, Černá K, Matuošková E, Hadrava J, Bureš V, Straka J (2019) Polyandrous bee provides extended offspring care biparentally as an alternative to monandry based eusociality. PNAS 116(13): 6238-6243. doi: 10.1073/pnas.1810092116

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Arquivado em Comportamento, Entomologia, Zoologia

Peixes-Bruxas: Outra Dor de Cabeça Filogenética

por Piter Kehoma Boll

Anos atrás, fiz uma postagem sobre os problemáticos Acoelomorpha e sua posição controversa entre animais bilaterais. Agora vou falar sobre outra dor de cabeça: peixes-bruxas.

Os peixes-bruxas são cordados primitivos que compõem a classe Myxini. Eles são animais marinhos que vivem no fundo do mar e se alimentam principalmente de vermes poliquetos que puxam para fora do substrato. Contudo eles também são carniceiros e possuem um comportamento peculiar no qual perfuram o corpo de peixes mortos e entram nele, comendo o animal morto de dentro para fora.

Espécime do peixe-bruxa-do-Pacífico Eptatretus stoutii. Foto de Jeanette Bham.*

Morfologicamente, peixes-bruxas são caracterizados pela presença de um crânio cartilaginoso, como vertebrados, mas não possuem uma coluna vertebral, mantendo a notocorda, a estrutura dorsal de material parecido com cartilagem, durante a vida toda. Devido a esta falta de vértebras, os peixes-bruxas eram classificados fora dos vertebrados, mas unidos a eles pela presença do crânio. Assim, Myxini era visto como o grupo irmão de Vertebrata e os dois juntos formavam o clado Craniata.

Entre os vertebrados, a maioria dos grupos atuais possui uma mandíbula que evoluiu de arcos branquiais modificados, compondo o clado Gnathostomata. Os únicos animais com uma coluna vertebral que não possuem mandíbulas são as lampreias (Petromyzontiformes) e, apesar de esta falta de mandíbulas ser compartilhada com peixes-bruxas, ela não é geralmente vista como uma sinapomorfia unindo estes grupos. Em peixes-bruxas, a boca sem mandíbula possui placas laterais de queratina com estruturas em forma de dente que agem mais ou menos como as mandíbulas verdadeiras de Gnathostomata, mas trabalhando a partir dos lados e não de cima e de baixo. Em lampreias, por outro lado, a boca é circular e possui estruturas de queratina em forma de dente arranjadas circularmente.

Organização geral da cabeça de peixes-bruxas, lampreias e vertebrados de mandíbula, com atenção especial às bocas. Extraído de Oisi et al. (2012).

Há muitas características morfológicas que unem lampreias a vertebrados e as separam de peixes-bruxas, a principal sendo a já mencionada coluna vertebral. Similarmente, lampreias e vertebrados de mandíbula possuem nadadeiras dorsais enquanto peixes-bruxas não as possuem. Lampreias também possuem olhos com lentes em comum com vertebrados de mandíbula, enquanto lampreias possuem ocelos simples sem lentes ou mesmo músculos associados.

Alguns dos traços compartilhados entre peixes-bruxas e lampreias, assim como a falta de mandíbulas, são geralmente vistos como um estado primitivo que mudou em vertebrados de mandíbula, ou claramente evoluíram de forma independente. Por exemplo, tanto peixes-bruxas quanto lampreias possuem apenas uma narina, enquanto vertebrados de mandíbula possuem duas, mas isto provavelmente é uma característica primitiva. Peixes-bruxas e lampreias adultos também possuem uma só gônada, mas ela aparece em peixes-bruxas pela atrofia da gônada esquerda, de forma que somente a direita se desenvolve, enquanto em lampreias as gônadas esquerda e direita se fundem em um órgão único.

Espécimes da lampreia-de-riacho-menor, Lampetra aepyptera. Foto de Jerry Reynolds.*

Portanto, morfologicamente, parece lógico considerar peixes-bruxas como grupo irmão de vertebrados, que inclui lampreias e vertebrados de mandíbula. Também é importante mencionar que há mais grupos de vertebrados sem mandíbula que estão atualmente extintos, como a classe Osteostraci, um dos vários grupos fósseis tradicionalmente chamados de ostracodermos. Apesar de também não possuírem uma mandíbula, estes vertebrados possuíam nadadeiras pares como vertebrados de mandíbula. Assim, a organização filogenética destes principais grupos com base na morfologia seria como mostrada na figura abaixo:

A hipótise dos craniados, onde peixes-bruxas são grupo irmão de vertebrados.

Contudo, nas últimas décadas, o uso de filogenia molecular desafiou esta visão ao agrupar peixes-bruxas e lampreias em um clado monofilético que é grupo irmão dos vertebrados de mandíbula. Mas como isso poderia ser possível? Tal relação implicaria que o estado primitivo dos peixes-bruxas é o resultado de perdas secundárias.

A hipótese dos ciclostomados. Peixes-bruxas são grupo irmão de lampreias.

Evidências de fósseis poderiam ajudar a esclarecer este assunto, mas a maioria dos fósseis que foram associados a peixes-bruxas não possuem caracteres morfológicos preservados que sejam bons o bastante para determinar sua correta posição filogenética. Recentemente, no entanto, um fóssil bem preservado de um peixe-bruxa do Cretáceo ajudou a elucidar parte da filogenia dos peixes-bruxas. A divergência entre lampreias e peixes-bruxas, considerando conhecimento prévio, era geralmente posicionada perto do início do período Cambriano, logo após o começo da divergência da maioria dos filos animais, mas com dados do novo fóssil, é empurrada para um ponto mais recente no tempo, pelo começo do Siluriano, mais de 130 milhões de anos depois. Este novo fóssil, chamado de Tethymyxine tapirostrum, claramente não possui esqueleto ou nadadeiras dorsais como vistos em lampreias e vertebrados de mandíbula, mas possui várias características compartilhadas com peixes-bruxas modernos.

Pelo menos duas sinapomorfias podem ser encontradas unindo peixes-bruxas e lampreias e separando-as de vertebrados de mandíbula. A primeira são os dentes, que nestes dois grupos são compostos de placas de queratina. O segundo é a organização dos miômeros, a série de músculos arranjados ao longo do corpo de cordados de forma um tanto segmentada, que tanto em peixes-bruxas quanto em lampreias começam bem ao redor dos olhos.

Considerando as evidências de dados moleculares, o novo fóssil que torna provável que peixes-bruxas e lampreias divergiram mais recentemente se são um grupo monofilético, e as prováveis sinapomorfias verdadeiras unindo estes dois grupo de vertebrados sem mandíbula, parece que peixes-bruxas e lampreias são de fato grupos irmãos, formando um clado chamado Cyclostomata e grupo irmão dos vertebrados de mandíbula, Gnathostomata. Se este é mesmo o caso, então as características aparentemente mais primitivas de peixes-bruxas são de fato o resultado de perdas secundárias e seu ancestral provavelmente possuía uma aparência mais vertebrada, com uma coluna vertebral, nadadeiras dorsais e olhos com lentes.

Mas vamos continuar de olho. As coisas podem mudar de novo no futuro conforme novos dados se tornam disponíveis.

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Referências:

Miyashita T, Coates MI, Farrar R, Larson P, Manning PL, Wogelius RA, Edwards NP, Anné J, Bergmann U, Palmer AR, Currie PJ (2019) Hagfish from the Cretaceous Tethys Sea and a reconciliation of the morphological–molecular conflict in early vertebrate phylogeny. PNAS 116(6): 2146–2151. doi: 10.1073/pnas.1814794116

Oisi Y, Ota KG, Kuraku S, Fujimoto S, Kuratani S (2012) Craniofacial development of hagfishes and the evolution of vertebrates. Nature 493: 175–180. doi: 10.1038/nature11794

Wikipedia. Cyclostomata. Disponível em <
https://en.wikipedia.org/wiki/Cyclostomata >. Acesso em 25 de março de 2019.

Wikipedia. Hagfish. Disponível em <
https://en.wikipedia.org/wiki/Hagfish >. Acesso em 25 de março de 2019.

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*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição Não Comercial 4.0 Internacional

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Arquivado em Evolução, Paleontologia, Sistemática, Zoologia

Tartarugas-verdes confundem resíduos plásticos com lulas mortas, os comem, e morrem

por Piter Kehoma Boll

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Poluição por plástico é um tópico popular recentemente e não é raro encontrar figuras de animais que morreram devido à ingestão de plástico ou outras complicações, como asfixia, causadas por pedaços de plástico. Contudo a causa da ingestão de plástico pela maioria das espécies ainda é desconhecida.

Albatroz com o estômago cheio de peças plásticas.

A tartaruga-de-couro, Dermochelys coriacea, é frequentemente mencionada como uma espécie que sofre pela ingestão de plástico devido a sua dieta ser composta primariamente por águas-vivas, com as quais sacolas plásticas flutuantes podem ser confundidas. Contudo outra tartaruga-marinha de ampla distribuição, a tartaruga-verde, Chelonia mydas, também é uma vítima comum da ingestão de plástico e quantidades tão pequenas quanto 1 g são suficientes para matar espécimes jovens bloqueando seus tratos digestivos. A dieta de tartarugas-verdes jovens e adultas é composta principalmente por ervas-marinhas e algas, de forma que a ingestão de plástico deve ser o resultado de outra causa e não sua similaridade com águas-vivas.

Uma sacola plástica em decomposição no oceano se parece com uma água-viva. Foto do usuário Seegraswise do Wikimedia.*

Apesar de serem quase estritamente herbívoras, tartarugas-verdes ingerem matéria animal quando são muito jovens e podem eventualmente consumir animais como adultas também, provavelmente como uma estratégia para sobreviver quando sua fonte de alimento principal é escassa. A ingestão de matéria animal geralmente acontece pela ingestão de animais mortos e um item animal morto comumente consumido são lulas mortas.

Uma tartaruga-verde rodeada de ervas-marinhas, sua principal fonte de alimento. Foto do usuário Danjgi do Wikimedia.**

Um estudo recente investigou a relação entre o comportamento necrofágico e o consumo de plástico na tartaruga-verde e descobriu que a quantidade de plástico ingerida por indivíduos se alimentando de lulas mortas é muito maior que a ingerida por indivíduos que não apresentam um comportamento necrofágico. No Brasil, a ingestão de plástico é responsável por cerca de 10% das mortes de tartarugas-verdes, mas este número pode chegar a 67% entre tartarugas-verdes que se alimentam de carcaças de lulas.

A ingestão de animais mortos costumava ser uma maneira eficiente de tartarugas-verdes adquirirem grandes porções de proteína. Contudo o fato de, atualmente, a maioria do material flutuante no oceano ser plástico e não animais mortos transformou uma estratégia bem-sucedida numa armadilha mortal. Se os humanos não começarem a controlar a produção de lixo plástico, haverá apenas dois resultados possíveis para as tartarugas-verdes em face a esta nova pressão seletiva: adaptação ou extinção.

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Referências:

Andrades R, Santos RA, Martins AS, Teles D, Santos RG (2019) Scavenging as a pathway for plastic ingestion by marine animals. Environmental Pollution 248: 159–165. doi: 10.1016/j.envpol.2019.02.010

Mrosovsky N, Ryan GD, James MC (2009) Leatherback turtles: the menace of plastic. Marine Pollution Bulletin 58(2): 287–289. doi: 10.1016/j.marpolbul.2008.10.018

Santos RG, Andrades R, Boldrini MA, Martins AS (2015) Debris ingestion by juvenile marine turtles: an underestimated problem. Marine Pollution Bulletin 93(1–2): 37–43. doi: 10.1016/j.marpolbul.2015.02.022

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*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 3.0 Não Adaptada.

**Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 4.0 Internacional.

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Sexta Selvagem: Centopeia-Gigante-de-Galápagos

por Piter Kehoma Boll

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As Ilhas Galápagos são famosas por seus animais, como os jabutis, tentilhões e iguanas. Contudo a ilha também abriga uma variedade de invertebrados e hoje eu vou falar sobre um deles.

A centopeia-gigante-de-Galápagos, Scolopendra galapagoensis, é muito similar a outra famosa espécie de centopeia, a centopeia-gigante-Amazônica, Scolopendra gigantea. Apesar do nome, a centopeia-gigante-de-Galápagos não é restrita às Ilhas Galápagos, mas também pode ser encontrada em áreas próximas no Peru e no Equador, apesar de estas populações terem sido originalmente consideradas uma subespécie de S. gigantea, que é encontrada pela Venezuela, pela Colômbia e pelo Caribe.

Scolopendra galapagoensis na Ilha Fernandina, Ilhas Galápagos. Foto de Libby Megna.*

O corpo da centopeia-gigante-de-Galápagos varia de marrom a preto e as numerosas patas variam de laranja a marrom-escuro ou preto. Ela pode atingir até 30 cm de comprimento, sendo, portanto, tão grande quanto sua prima S. gigantea. A principal diferença é o número de segmentos peludos em suas antenas.

Um predador como a maioria das centopeias, a centopeia-gigante-de-Galápagos se alimenta de uma variedade de outros animais pequenos, principalmente invertebrados, apesar de também poder se alimentar de pequenos vertebrados tal como roedores recém-nascidos, os quais subjuga usando sua peçonha poderosa.

Quando ameaçada, a centopeia-gigante-de-Galápagos assume uma posição de defesa na qual ergue o último par de patas, chamado de patas finais, e alguns dos últimos pares de patas ambulatórias, exibindo-as para o agressor de uma forma que lembra a exibição de advertência de algumas aranhas, tal como aranhas-armadeiras e caranguejeiras.

Centopeia-gigante-de-Galápagos em posição de advertência. Créditos de Kronmüller & Lewis (2015).**

Recentemente, a centopeia-gigante-de-Galápagos se tornou um animal popular entre aqueles que gostam de animais de estimação incomuns tal como aranhas e centopeias, de forma que você pode encontrar muita informação e vídeos sobre a espécie produzidos por pessoas que as têm em casa em seus aquários.

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Referências:

Clark DB (1979) A centipede preying on a nestling rice rat (Oryzomys bauri). Journal of Mammalogy 60(3): 654.

Kronmüller C, Lewis JGE (2015) On the function of the ultimate legs of some Scolopendridae (Chilopoda, Scolopendromorpha). Zookeys 510: 269–278.
doi: 10.3897/zookeys.510.8674

Shelley RM, Kiser SB (2000) Neotype designation and a diagnostic account for the centipede, Scolopendra gigantea L. 1758, with an account of S. galapagoensis Bollman 1889 (Chilopoda Scolopendromorpha Scolopendridae). Tropical Zoology 13(1): 159–170. doi: 10.1080/03946975.2000.10531129

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Sexta Selvagem: Concha-lâmpada-comum

por Piter Kehoma Boll

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É hora de trazer o primeiro braquiópode para a Sexta Selvagem. Infelizmente essa é uma tarefa árdua porque, assim como outros grupos famosos por fósseis como foraminíferos e diatomáceas, há muito pouco conhecimento disponível sobre braquiópodes viventes.

A espécie que escolhi, Terebratalia transversa, é em inglês muitas vezes chamada de lampshell (concha-lâmpada), apesar de esse nome poder ser usado para outras espécies proximamente relacionadas. Assim, decidi chamá-la de concha-lâmpada-comum.

A concha-lâmpada-comum pode ser encontrada em águas da zona entre-marés e sublitoral da costa do Pacífico da América do Norte, do Alasca até Baja California. O estágio larval, como em todos os braquiópodes, nada da água, mas os indivíduos adultos são presos ao substrato, geralmente na parte inferior ou vertical de rochas, e ficam presos pelo resto de suas vidas. Se por alguma razão eles se soltam, são incapazes de se prender novamente e morrem logo depois.

Um espécime de Terebratalia transversa preso a uma rocha entre ouriços-do-mar. Foto do usuário kljinstika do iNaturalist.*

O adulto da concha-lâmpada-comum possui uma concha bivalve medindo cerca de 5 cm de comprimento, apesar de alguns espécimes chegarem a 9 cm. A valva superior ou dorsal da concha, chamada valva do pedículo, porta o pedículo pelo qual o animal se prende ao susbtato. O pedículo é basicamente composto de tecido conectivo cercado por epitélio e não pode ser contraído, apesar de poder ser torcido ou movido de outra forma pelo uso de músculos conectados à extremidade proximal na valva. Na concha-lâmpada-comum, o pedículo é muito curto, o que restringe os movimentos e a habilidade de reorientar o corpo de acordo com a corrente d’água. A valva inferior ou ventral, chamada de valva braquial, contém o lofóforo, uma coroa de tentáculos em forma de U usada para filtrar partículas da água. Os dois lados do lofóforo são chamados de braços ou “brachia”, de onde o filo Brachiopoda recebe seu nome.

Uma concha-lâmpada-comum desprendida com suas valvas parcialmente abertas. O lofóforo é visto como duas estruturas lembrando anéis. Foto de Joe Tyburczy.**

A forma geral da concha-lâmpada-comum é bem variável. A concha pode ser mais longa ou mais circular, com sulcos mais ou menos marcados, de forma que a morfologia não é muito útil em identificá-la.

Conchas-lâmpadas-comuns adultas se reproduzem durante o inverno, geralmente de dezembro a fevereiro, liberando gametas na água, onde eles se encontram e originam um zigoto. O estágio larval que se desenvolve depois da fertilização nada na água, mas após cerca de 6 dias a larva se assenta no substrato e direciona seu pequeno pedículo em direção a ele, eventualmente se prendendo e começando a crescer até atingir o estágio adulto, o que leva alguns anos, com um crescimento de cerca de 6 mm por ano.

Apesar de ser uma das espécies mais “populares” de braquiópodes, pouco se sabe ainda sobre a ecologia e o comportamento da concha-lâmpada-comum. Precisamos que mais pessoas as estudem!

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Referências:

Dyer, A. (2002) Terebratalia transversa (Sowerby, 1846): Common Lampshell. Invertebrates of the Salish Sea.Disponível em < https://inverts.wallawalla.edu/Brachiopoda/Class%20Articulata/Order%20Telotremata/Terebratalia_transversa_Page.html >. Acesso em 29de dezembro de 2018.

Eshleman, W. P., & Wilkens, J. L. (1979). Brachiopod orientation to current direction and substrate position (Terebratalia transversa). Canadian Journal of Zoology, 57(10), 2079–2082. doi:10.1139/z79-274

Paine, R. (1969) Growth and size distribution of the Brachiopod Terebratalia transversa Sowerby. Pacific Science, 23: 337–343.

Stricker, S. A.; Reed, C. G. (1985) Development of the pedicle in the articulate brachiopod Terebratalia transversa (Brachiopoda, Terebratulida). Zoomorphology 105: 253–264.

Thayer, C. W. (1977) Growth and mortality of a living articulate brachiopod, with implications for the interpretation of survivorship curves. Paleobiology 3(1): 98–109.

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Sexta Selvagem: Verme-amendoim-comum

por Piter Kehoma Boll

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Hoje nosso camarada é um animal marinho peculiar que também é um alimento comum na China e no Vietnã. Chamado Sipunculus nudus, ou verme-amendoim-comum, ele é um membro do clado Sipuncula, geralmente chamados de vermes-amendoins.

Um espécime morto de Sipunculus nudus encontrado na costa mediterrânea da França. Foto de Benoit Nabholz.*

Como outros vermes-amendoins, o verme-amendoim-comum tem uma anatomia consideravelmente simples. Seu corpo consiste de basicamente duas partes, um tronco em forma de saco e uma probóscide, também chamada de introverto. O introverto é uma estrutura retrátil e, quando o animal não está se alimentando, é puxado para dentro do tronco por um grupo de músculos. Na extremidade do introverto, quando evertido, há uma série de tentáculos que levam a comida, composta de detritos, para dentro do intestino.

O verme-amendoim-comum é comumente encontrado enterrado no substrato de águas entremarés pelo mundo todo com a boca direcionada para cima. Eles podem chegar a cerca de 20 cm de comprimento quando o introverto é evertido, com cerca de 1/4 do comprimento composto pelo tronco.

Como mencionado acima, o verme-amendoim-comum é usado como alimento na China, especialmente nas regiões ao sul, e no Vietnã. Apesar de a espécie parecer fácil de ser criada em cativeiro, atualmente a maioria, se não toda, a colheita acontece na natureza, o que pode levar à superexploração e eventualmente a uma séria redução das populações.

Um balde cheio de vermes-amendoins para a venda na China. Foto do usuário Vmenkov do Wikimedia.**

Análises moleculares revelaram que, ao contrário do que se considera atualmente, Sipunculus nudus não é uma espécie cosmopolita na verdade. Há pelo menos quatro linhagens claramente distintas que certamente correspondem a quatro espécies distintas. Dessas, apenas uma é encontrada em águas em torno da Europa, das quais a espécie foi originalmente descrita. As outras três linhagens correspondem àquelas encontradas na China e no Vietnã (e a usada como alimento), a costa atlântica das Américas (do Brasil aos EUA) e a costa pacífica das américas (no Panamá). Vamos esperar que esse problema taxonômico seja resolvido logo.

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Referências:

Du, X., Chen, Z., Deng, Y., Wang, Q. (2009) Comparative analysis of genetic diversity and population structure of Sipunculus nudus as revealed by mitochondrial COI sequences. Biochemical Genetics 47: 884. doi: 10.1007/s10528-009-9291-x

Kawauchi, G. Y., Giribet, G. (2013) Sipunculus nudus Linnaeus, 1766 (Sipuncula): cosmopolitan or a group of pseudo-cryptic species? An integrated molecular and morphological approach. Marine Ecology 35(4): 478–491. doi: 10.1111/maec.12104

Trueman, E. R., & Foster-Smith, R. L. (2009). The mechanism of burrowing of Sipunculus nudus. Journal of Zoology, 179(3), 373–386. doi:10.1111/j.1469-7998.1976.tb02301.x

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Sexta Selvagem: Aduela-do-Salmão

por Piter Kehoma Boll

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Todos conhecem salmões, especialmente o salmão-do-Atlântico, Salmo salar, e muitos de nós amam comer essa espécie de peixe também. Mas eu não estou aqui para falar do salmão-do-Atlântico em si, mas para falar sobre um de seus companheiros e antagonistas mais próximos, a aduela-do-salmão.

Cientificamente conhecida como Gyrodactylus salaris, a aduela-do-salmão é um platelminto do clado Monogenea, um grupo de ectoparasitas que infectam principalmente peixes. Como seu nome sugere, a aduela do salmão infecta salmões, tal como o salmão-do-Atlântico e espécies proximamente relacionadas, como a truta-arco-íris Onchorrhynchus mykiss.

Várias aduelas-do-salmão em um hospedeiro. Foto de Tora Bardal. Extraído de
https://www.drivaregionen.no/no/Gyrodactylus-salaris/

A aduela-do-salmão foi descrita pela primeira vez em 1952 em salmões de uma população báltica que eram mantidos em um laboratório sueco. Medindo cerca de 0.05 mm de comprimento, a aduela-do-salmão se prende à pele do peixe e é pequena demais para ser vista a olho nu. Ela se prende usando um órgão especializado cheio de minúsculos ganchos, chamado haptor, localizado na extremidade posterior do corpo. Quando se alimenta, a aduela-do-salmão prende a boca na superfície do peixe usando glândulas em sua cabeça e everte a faringe através da boca, liberando enzimas digestivas no peixe, dissolvendo sua pele, que é então ingerida. Os ferimentos causados pela alimentação do parasita podem levar a infecções secundárias que afetam seriamente a saúde do salmão.

Micrografia de microscopia eletrônica de varredura de cinco espécimes de Gyrodactylus salaris. Créditos a Jannicke Wiik Nielsen. Extraído de https://www.vetinst.no/nyheter/kan-gyrodactylus-salaris-utryddes-i-drammensregionen

Diferente da maioria dos platelmintos parasitas, os monogêneos como a aduela-do-salmão possuem apenas um hospedeiro. Durante a reprodução, os adultos hermafroditas liberam uma larva ciliada chamada oncomiracídio que infecta novos peixes. Uma só aduela pode originar uma população inteira porque é capaz de se autofertilizar.

Durante os anos 1970, uma infecção massiva pela aduela-do-salmão aconteceu na Noruega após a introdução de linhagens infectadas de salmão. Isso levou a uma diminuição catastrófica de populações do salmão no país, afetando muitos rios. Devido a essa ameaça evidente a uma espécie tão importante comercialmente, várias técnicas vem sendo desenvolvidas para controlar e matar o parasita. Os primeiros métodos desenvolvidos incluem o uso de pesticidas em rios, mas estes acabavam tendo um efeito negativo em muitas espécies, incluindo os próprios salmões. Atualmente, métodos novos e menos agressivos vêm sendo usados.

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Referências:

Jansen, P. A., & Bakke, T. A. (1991). Temperature-dependent reproduction and survival of Gyrodactylus salaris Malmberg, 1957 (Platyhelminthes: Monogenea) on Atlantic salmon (Salmo salar L.). Parasitology, 102(01), 105. doi:10.1017/s0031182000060406

Johnsen, B. O., & Jenser, A. J. (1991). The Gyrodactylus story in Norway. Aquaculture, 98(1-3), 289–302. doi:10.1016/0044-8486(91)90393-l

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