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Sexta Selvagem: Camarão-Semente-da-Cara

por Piter Kehoma Boll

É hora de falar sobre um ostrácodo, ou camarão-semente, de novo e, como de praxe, é um momento difícil devido à pouca informação facilmente acessível sobre qualquer espécie do grupo. Mas há, de fato, uma que é consideravelmente bem estudada. Sendo um dos ostrácodos mais comuns na América do Norte e na Eurásia, seu nome científico é Cypridopsis vidua, para o qual cunhei o nome comum “camarão-semente-da-cara”.

O camarão-semente-da-cara é um crustáceo de água doce com a aparência típica de um ostrácodo, se parecendo com um minúsculo bivalve medindo cerca de 0.5 mm de comprimento. Suas valvas possuem um padrão claro e escuro bem distinto.

Um camarão-semente-da-cara com a concha fechada. Créditos a Markus Lindholm, Anders Hobæk/Norsk institutt for vassforsking.*

Uma espécie relativamente móvel, o camarão-semente-da-cara vive no fundo de corpos d’água, sobre o sedimento, e é comum em áreas densamente vegetadas por caras (algas do gênero Chara). Esta associação com caras dá ao camarão-semente-da-cara tanto proteção contra predadores, em sua maioria peixes, quanto uma boa fonte de alimento.

O principal alimento do camarão-semente-da-cara são algas microscópicas que crescem no talo das caras. Enquanto forrageia, o camarão-semente-da-cara nada de um talo de cara para outro usando seu primeiro par de antenas e se agarra aos talos usando o segundo par de antenas e o primeiro par de pernas torácicas. Uma vez realocado, ele começa a raspar algas microscópicas com suas mandíbulas.

O corpo do camarão-semente-da-cara como visto quando uma das valvas (a esquerda neste caso) é removida. Créditos a Paulo Corgosinho.**

O camarão-semente-da-cara é mais uma dessas espécies em que machos não existem, nem mesmo em pequenas quantidades. Durante os meses quentes do verão, as fêmea produzem os chamados ovos súbitos, que se desenvolvem imediatamente em novas fêmeas. Contudo, quando o inverno se aproxima, elas produzem outro tipo de ovo, os chamados ovos de diapausa, que permanecem dormentes no substrato durante o inverno. Os animais adultos todos morrem durante esta estação e, quando a primavera chega, uma nova população surge dos ovos que eclodem. Como nem todos os ovos eclodem na primavera, alguns podem ficar no substrato por anos antes de eclodirem, o que geralmente aumenta a diversidade genética a cada ano, já que ela não depende apenas das filhas da geração passada.

Mas como surge diversidade genética se não há machos e, como resultado, as filhas são sempre clones das mães? Este mistério ainda não está totalmente resolvido. Recombinação genética durante a partenogênese, pela troca de alelos entre cromossomos, não parece ser muito comum. É possível que diferentes populações sejam geneticamente diferentes e que elas colonizem novos ambientes com frequência, se misturando entre si. Visto que machos são conhecidos em espécies proximamente relacionadas, ainda é possível que, algum dia, encontremos alguns machos do camarão-semente-da-cara escondidos por aí. Também é possível que, de alguma forma, os machos todos tenham se tornado extintos no passado recente, como na última glaciação, por exemplo. Se for o caso, só o tempo dirá qual é o destino do camarão-semente-da-cara.

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Mais Ostrácodos:

Sexta Selvagem: Camarão-Semente-Vênus-de-Dente-Afiado (em 22 de junho de 2018)

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Referências:

Cywinska A, Hebert PDN (2002) Origins of clonal diversity in the hypervariable asexual ostracode Cypridopsis vidua. Journal of Evolutionary Biology 15: 134–145. doi: 10.1046/j.1420-9101.2002.00362.x

Roca JR, Baltanas A, Uiblein F (1993) Adaptive responses in Cypridopsis vidua (Crustacea: Ostracoda) to food and shelter offered by a macrophyte (Chara fragilis). Hydrobiologia 262: 121–131.

Uiblein F, Roca JP, Danielpool DL (1994) Experimental observations on the behavior of the ostracode Cypridopsis vidua. Internationale Vereinigung für Theoretische und Angewandte Limnologie: Verhandlungen 25: 2418–2420.

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*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição 3.0 Não Adaptada.

**Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 4.0 Internacional.

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Sexta Selvagem: Mariposa-Luna

por Piter Kehoma Boll

Faz muito tempo desde a última vez que apresentei um lepidóptero aqui, então hoje decidi voltar a este incrível grupo de insetos. A espécie que escolhi para hoje é bem popular, talvez a mariposa mais popular no mundo. Seu nome é Actias luna, comumente conhecida como mariposa-luna.

Mariposa-luna adulta nos Estados Unidos. Foto de Any Reago & Chrissy McClarren.*

A mariposa-luna é nativa do Canadá e dos Estados Unidos. É uma mariposa bem grande, com uma envergadura de cerca de 8 a 12 cm, apesar de alguns indivíduos poderem chegar a 18 cm. Suas asas, cobertas de escamas como de costume em lepidópteros, têm uma cor verde-clara. As asas anteriores possuem uma borda anterior marrom que se conecta a duas manchas ocelares (uma em cada asa) por um pedúnculo. As asas posteriores também possuem uma mancha ocelar cada, mas não são conectadas por um pedúnculo à borda. Nas asas posteriores há também uma longa cauda que é característica do gênero Actias e lembra um pouco a cauda similar (mas mais curta) de algumas borboletas, como as da família Papilionidae. Machos e fêmeas são muito parecidos e podem geralmente ser distinguidos pelo tamanho do abdome, que é muito mais grosso em fêmeas.

Em climas mais frios, como no Canadá, a mariposa-luna possui uma geração por ano, mas populações do sul, em locais onde o clima é mais quente, podem ter até três. As fêmeas põem ovos em plantas que servem de alimento à larva. Há várias espécies de árvores identificadas como alimento, incluindo bétulas, nogueiras, pecãs e caquizeiros. As larvas se alimentando de uma árvore nunca, ou muito raramente, chegam a um número que possa causar dano significativo à planta.

Larva de terceiro ínstar. Foto do usuário Kugamazog~commonswiki do Wikimedia.**

Os ovos são marrons e são depositados em aglomerados irregulares na parte inferior das folhas. Eles geralmente eclodem de uma a duas semanas depois de serem postos e originam larvas pequenas e verdes. As larvas são verdes em todos os estágios (ou ínstares) e passam por cinco deles durante um período de cerca de 7 semanas. O quinto e último ínstar então desce da árvore em que vive para atingir o solo. Lá, a larva começa a tecer um casulo de seda e, após concluí-lo, se transforma numa pupa. Em regiões mais quentes, a pupa leva cerca de duas semanas para se tornar um adulto, mas em regiões mais frias ela entra em diapausa durante o inverno, levando cerca de nove meses para completar o ciclo.

Uma larva de quinto ínstar construindo um casulo. Créditos a Virginia State Parks staff.*

Quando as fêmeas se tornam adultas, procuram por uma árvore adequada da espécie preferida (geralmente a mesma espécie em que nasceram) e emitem feromônios para atrair os machos. Os adultos não possuem peças bucais e, portanto, não comem, vivendo apenas o suficiente para acasalar e pôr ovos. As belas e lindas caudas das asas posteriores, mais que apenas lindas, parecem diminuir a habilidade de morcegos predadores detectarem a mariposa usando ecolocalização.

Pupa ao lado de um casulo vazio. Foto do usuário Kugamazog~commonswiki do Wikimedia.**

A mariposa-luna é um dos insetos mais populares da América do Norte. De fato, ela foi o primeiro inseto do continente a ser descrito, sendo chamada Phalaena plumata caudata por James Petiver em 1700. Quando Linnaeus começou a nomenclatura binomial de animais em 1758, ele a renomeou Phalaena luna como referência à deusa romana da Lua.

Belo espécime no Canadá. Foto de Alexis Tinker-Tsavalas.***

Apesar de não ser considerada uma espécie vulnerável no momento, a mariposa-luna sofre algumas ameaças causadas por interferência humana, como perda de habitat e dano causado por espécies invasoras. Felizmente, devido à sua popularidade, ela provavelmente terá apoio considerável do público para sua conservação quando a hora chegar.

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Referências:

Lindroth RL (1989) Chemical ecology of the luna moth: Effects of host plant on detoxification enzyme activity. Journal of Chemical Ecology 15(7): 2019–2029.

Millar JG, Haynes KF, Dossey AT, McElfresh JS, Allison JD (2016) Sex Attractant Pheromone of the Luna Moth, Actias luna (Linnaeus). Journal of Chemical Ecology 42(9): 869–876.

Wikipedia. Luna moth. Disponível em < https://en.wikipedia.org/wiki/Luna_moth>. Acesso em 11 de julho de 2019.

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*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição 2.0 Genérica.

**Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 2.0 Genérica.

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Uma perereca camaleônica

por Piter Kehoma Boll

Quando pensamos em animais mudando de cor para se adaptarem à cor de fundo, prontamente pensamos em camaleões, ou talvez em alguns trocadores de cores extremamente rápidos, incluindo cefalópodes como polvos e sépias. Contudo muitos outros animais possuem esta habilidade.

Um exemplo são as pererecas da família Rhacophoridae, especialmente do gênero Rhacophorus.

Recentemente, o fenômeno foi registrado pela primeira vez para a espécie Rhacophorus smaragdinus no nordeste da Índia. O animal era de um verde vívido quando encontrado, mas, assim que os pesquisadores o manipularam, ele mudou para um marrom fosco em questão de segundos, apenas para lentamente voltar ao verde depois de ser deixado em paz.

Uma fêmea de Rhacophorus smaragdinus se torna marrom ao ser manipulada e começa lentamente a se tornar verde novamente quando deixada em paz. Créditos a CK et al. (2019).*

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Referência:

CK D, Payra A, Tripathy B, Chandra K (2019) Observation on rapid physiological color change in Giant tree frog Rhacophorus smaragdinus (Blyth, 1852) from Namdapha Tiger Reserve, Arunachal Pradesh, India. Herpetozoa 32: 95–99. doi: 10.3897/herpetozoa.32.e36023

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Arquivado em anfíbios, Comportamento, Zoologia

Virando padrasto para transar: o incomum cuidado aloparental em uma abelhinha-carpinteira

por Piter Kehoma Boll

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Mês passado, fiz alguns comentários sobre cuidado aloparental, isto é, o ato de tomar conta de uma prole que não é sua.

Na maioria das vezes, quando cuidado parental existe numa espécie, ele é realizado somente pela mãe. Quando há um ajudante, ele geralmente é o pai entre vertebrados, ou irmãos entre artrópodes, especialmente entre insetos sociais como abelhas e formigas. Machos tomando conta da prole em insetos sociais é algo improvável de acontecer na maioria das espécies porque o macho geralmente morre logo depois de acasalar.

Contudo uma situação incomum foi recentemente descoberta em Ceratina nigrolabiata, uma espécie de abelha-carpinteira-pequena da região do Mediterrâneo. Nesta espécie, a fêmea é poliândrica, isto é, ela acasala com vários machos, de forma que nem toda a sua prole tem o mesmo pai.

Esta não é a parte incomum, no entanto. O estranho é que machos desta espécie não morrem após acasalarem e ajudam a fêmea a tomar conta da prole. Enquanto a fêmea deixa o ninho para procurar alimento, o macho fica e toma conta dos ovos e das larvas, protegendo-os de inimigos naturais, como formigas. No entanto, como dito acima, as fêmeas desta espécie acasalam com muitos machos, e estudos genéticos revelaram que o macho guardando o ninho é o pai de somente cerca de 10% da prole.

Cuidado parental na abelhinha-carpinteira Ceratina nigrolabiata:
(A) A fêmea chega ao ninho. Um macho está voando por perto, procurando uma “solteirona”
(B) A fêmea cumprimenta seu macho ajudante
(C) Ninho seccionado mostrando três células com larvas/ovos e alimento e uma quarta célula sendo construída; a fêmea está à esquerda e o macho à direita
Créditos a Mikát et al. (2019) (Veja referências)

Então por que machos de Ceratina nigrolabiata cuidam dos filhos de outro macho? O que a equipe estudando este sistema descobriu é que quanto mais tempo o macho toma conta de um ninho, maior é a quantidade da prole que o tem como pai. Em outras palavras, parece que ajudar uma fêmea aumenta as chances de um macho copular com aquela fêmea, assim aumentando o número de descendentes que ele possui. Não obstante, os machos raramente ficavam por muito tempo no mesmo ninho, geralmente se movendo para outro ninho a cada semana mais ou menos, o que não aumenta a quantidade de sua própria prole no ninho.

A equipe também experimentalmente removeu fêmeas dos ninhos para observar como os machos se comportariam na ausência de uma fêmea. O que eles descobriram é que os machos geralmente abandonam o ninho quando isso acontece, não estando nem aí para os pobres bebês. Portanto, é provável que o cuidado aloparental dos machos seja na verdade um sub-produto de guardar a fêmea, isto é, o macho está lá para assegurar que terá acesso à fêmea quando ela estiver disposta a acasalar. Ele não se importa de verdade com os filhotes.

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Referência:

Mikát M, Janošik L, Černá K, Matuošková E, Hadrava J, Bureš V, Straka J (2019) Polyandrous bee provides extended offspring care biparentally as an alternative to monandry based eusociality. PNAS 116(13): 6238-6243. doi: 10.1073/pnas.1810092116

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Arquivado em Comportamento, Entomologia, Zoologia

Peixes-Bruxas: Outra Dor de Cabeça Filogenética

por Piter Kehoma Boll

Anos atrás, fiz uma postagem sobre os problemáticos Acoelomorpha e sua posição controversa entre animais bilaterais. Agora vou falar sobre outra dor de cabeça: peixes-bruxas.

Os peixes-bruxas são cordados primitivos que compõem a classe Myxini. Eles são animais marinhos que vivem no fundo do mar e se alimentam principalmente de vermes poliquetos que puxam para fora do substrato. Contudo eles também são carniceiros e possuem um comportamento peculiar no qual perfuram o corpo de peixes mortos e entram nele, comendo o animal morto de dentro para fora.

Espécime do peixe-bruxa-do-Pacífico Eptatretus stoutii. Foto de Jeanette Bham.*

Morfologicamente, peixes-bruxas são caracterizados pela presença de um crânio cartilaginoso, como vertebrados, mas não possuem uma coluna vertebral, mantendo a notocorda, a estrutura dorsal de material parecido com cartilagem, durante a vida toda. Devido a esta falta de vértebras, os peixes-bruxas eram classificados fora dos vertebrados, mas unidos a eles pela presença do crânio. Assim, Myxini era visto como o grupo irmão de Vertebrata e os dois juntos formavam o clado Craniata.

Entre os vertebrados, a maioria dos grupos atuais possui uma mandíbula que evoluiu de arcos branquiais modificados, compondo o clado Gnathostomata. Os únicos animais com uma coluna vertebral que não possuem mandíbulas são as lampreias (Petromyzontiformes) e, apesar de esta falta de mandíbulas ser compartilhada com peixes-bruxas, ela não é geralmente vista como uma sinapomorfia unindo estes grupos. Em peixes-bruxas, a boca sem mandíbula possui placas laterais de queratina com estruturas em forma de dente que agem mais ou menos como as mandíbulas verdadeiras de Gnathostomata, mas trabalhando a partir dos lados e não de cima e de baixo. Em lampreias, por outro lado, a boca é circular e possui estruturas de queratina em forma de dente arranjadas circularmente.

Organização geral da cabeça de peixes-bruxas, lampreias e vertebrados de mandíbula, com atenção especial às bocas. Extraído de Oisi et al. (2012).

Há muitas características morfológicas que unem lampreias a vertebrados e as separam de peixes-bruxas, a principal sendo a já mencionada coluna vertebral. Similarmente, lampreias e vertebrados de mandíbula possuem nadadeiras dorsais enquanto peixes-bruxas não as possuem. Lampreias também possuem olhos com lentes em comum com vertebrados de mandíbula, enquanto lampreias possuem ocelos simples sem lentes ou mesmo músculos associados.

Alguns dos traços compartilhados entre peixes-bruxas e lampreias, assim como a falta de mandíbulas, são geralmente vistos como um estado primitivo que mudou em vertebrados de mandíbula, ou claramente evoluíram de forma independente. Por exemplo, tanto peixes-bruxas quanto lampreias possuem apenas uma narina, enquanto vertebrados de mandíbula possuem duas, mas isto provavelmente é uma característica primitiva. Peixes-bruxas e lampreias adultos também possuem uma só gônada, mas ela aparece em peixes-bruxas pela atrofia da gônada esquerda, de forma que somente a direita se desenvolve, enquanto em lampreias as gônadas esquerda e direita se fundem em um órgão único.

Espécimes da lampreia-de-riacho-menor, Lampetra aepyptera. Foto de Jerry Reynolds.*

Portanto, morfologicamente, parece lógico considerar peixes-bruxas como grupo irmão de vertebrados, que inclui lampreias e vertebrados de mandíbula. Também é importante mencionar que há mais grupos de vertebrados sem mandíbula que estão atualmente extintos, como a classe Osteostraci, um dos vários grupos fósseis tradicionalmente chamados de ostracodermos. Apesar de também não possuírem uma mandíbula, estes vertebrados possuíam nadadeiras pares como vertebrados de mandíbula. Assim, a organização filogenética destes principais grupos com base na morfologia seria como mostrada na figura abaixo:

A hipótise dos craniados, onde peixes-bruxas são grupo irmão de vertebrados.

Contudo, nas últimas décadas, o uso de filogenia molecular desafiou esta visão ao agrupar peixes-bruxas e lampreias em um clado monofilético que é grupo irmão dos vertebrados de mandíbula. Mas como isso poderia ser possível? Tal relação implicaria que o estado primitivo dos peixes-bruxas é o resultado de perdas secundárias.

A hipótese dos ciclostomados. Peixes-bruxas são grupo irmão de lampreias.

Evidências de fósseis poderiam ajudar a esclarecer este assunto, mas a maioria dos fósseis que foram associados a peixes-bruxas não possuem caracteres morfológicos preservados que sejam bons o bastante para determinar sua correta posição filogenética. Recentemente, no entanto, um fóssil bem preservado de um peixe-bruxa do Cretáceo ajudou a elucidar parte da filogenia dos peixes-bruxas. A divergência entre lampreias e peixes-bruxas, considerando conhecimento prévio, era geralmente posicionada perto do início do período Cambriano, logo após o começo da divergência da maioria dos filos animais, mas com dados do novo fóssil, é empurrada para um ponto mais recente no tempo, pelo começo do Siluriano, mais de 130 milhões de anos depois. Este novo fóssil, chamado de Tethymyxine tapirostrum, claramente não possui esqueleto ou nadadeiras dorsais como vistos em lampreias e vertebrados de mandíbula, mas possui várias características compartilhadas com peixes-bruxas modernos.

Pelo menos duas sinapomorfias podem ser encontradas unindo peixes-bruxas e lampreias e separando-as de vertebrados de mandíbula. A primeira são os dentes, que nestes dois grupos são compostos de placas de queratina. O segundo é a organização dos miômeros, a série de músculos arranjados ao longo do corpo de cordados de forma um tanto segmentada, que tanto em peixes-bruxas quanto em lampreias começam bem ao redor dos olhos.

Considerando as evidências de dados moleculares, o novo fóssil que torna provável que peixes-bruxas e lampreias divergiram mais recentemente se são um grupo monofilético, e as prováveis sinapomorfias verdadeiras unindo estes dois grupo de vertebrados sem mandíbula, parece que peixes-bruxas e lampreias são de fato grupos irmãos, formando um clado chamado Cyclostomata e grupo irmão dos vertebrados de mandíbula, Gnathostomata. Se este é mesmo o caso, então as características aparentemente mais primitivas de peixes-bruxas são de fato o resultado de perdas secundárias e seu ancestral provavelmente possuía uma aparência mais vertebrada, com uma coluna vertebral, nadadeiras dorsais e olhos com lentes.

Mas vamos continuar de olho. As coisas podem mudar de novo no futuro conforme novos dados se tornam disponíveis.

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Referências:

Miyashita T, Coates MI, Farrar R, Larson P, Manning PL, Wogelius RA, Edwards NP, Anné J, Bergmann U, Palmer AR, Currie PJ (2019) Hagfish from the Cretaceous Tethys Sea and a reconciliation of the morphological–molecular conflict in early vertebrate phylogeny. PNAS 116(6): 2146–2151. doi: 10.1073/pnas.1814794116

Oisi Y, Ota KG, Kuraku S, Fujimoto S, Kuratani S (2012) Craniofacial development of hagfishes and the evolution of vertebrates. Nature 493: 175–180. doi: 10.1038/nature11794

Wikipedia. Cyclostomata. Disponível em <
https://en.wikipedia.org/wiki/Cyclostomata >. Acesso em 25 de março de 2019.

Wikipedia. Hagfish. Disponível em <
https://en.wikipedia.org/wiki/Hagfish >. Acesso em 25 de março de 2019.

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Arquivado em Evolução, Paleontologia, Sistemática, Zoologia

Tartarugas-verdes confundem resíduos plásticos com lulas mortas, os comem, e morrem

por Piter Kehoma Boll

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Poluição por plástico é um tópico popular recentemente e não é raro encontrar figuras de animais que morreram devido à ingestão de plástico ou outras complicações, como asfixia, causadas por pedaços de plástico. Contudo a causa da ingestão de plástico pela maioria das espécies ainda é desconhecida.

Albatroz com o estômago cheio de peças plásticas.

A tartaruga-de-couro, Dermochelys coriacea, é frequentemente mencionada como uma espécie que sofre pela ingestão de plástico devido a sua dieta ser composta primariamente por águas-vivas, com as quais sacolas plásticas flutuantes podem ser confundidas. Contudo outra tartaruga-marinha de ampla distribuição, a tartaruga-verde, Chelonia mydas, também é uma vítima comum da ingestão de plástico e quantidades tão pequenas quanto 1 g são suficientes para matar espécimes jovens bloqueando seus tratos digestivos. A dieta de tartarugas-verdes jovens e adultas é composta principalmente por ervas-marinhas e algas, de forma que a ingestão de plástico deve ser o resultado de outra causa e não sua similaridade com águas-vivas.

Uma sacola plástica em decomposição no oceano se parece com uma água-viva. Foto do usuário Seegraswise do Wikimedia.*

Apesar de serem quase estritamente herbívoras, tartarugas-verdes ingerem matéria animal quando são muito jovens e podem eventualmente consumir animais como adultas também, provavelmente como uma estratégia para sobreviver quando sua fonte de alimento principal é escassa. A ingestão de matéria animal geralmente acontece pela ingestão de animais mortos e um item animal morto comumente consumido são lulas mortas.

Uma tartaruga-verde rodeada de ervas-marinhas, sua principal fonte de alimento. Foto do usuário Danjgi do Wikimedia.**

Um estudo recente investigou a relação entre o comportamento necrofágico e o consumo de plástico na tartaruga-verde e descobriu que a quantidade de plástico ingerida por indivíduos se alimentando de lulas mortas é muito maior que a ingerida por indivíduos que não apresentam um comportamento necrofágico. No Brasil, a ingestão de plástico é responsável por cerca de 10% das mortes de tartarugas-verdes, mas este número pode chegar a 67% entre tartarugas-verdes que se alimentam de carcaças de lulas.

A ingestão de animais mortos costumava ser uma maneira eficiente de tartarugas-verdes adquirirem grandes porções de proteína. Contudo o fato de, atualmente, a maioria do material flutuante no oceano ser plástico e não animais mortos transformou uma estratégia bem-sucedida numa armadilha mortal. Se os humanos não começarem a controlar a produção de lixo plástico, haverá apenas dois resultados possíveis para as tartarugas-verdes em face a esta nova pressão seletiva: adaptação ou extinção.

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Referências:

Andrades R, Santos RA, Martins AS, Teles D, Santos RG (2019) Scavenging as a pathway for plastic ingestion by marine animals. Environmental Pollution 248: 159–165. doi: 10.1016/j.envpol.2019.02.010

Mrosovsky N, Ryan GD, James MC (2009) Leatherback turtles: the menace of plastic. Marine Pollution Bulletin 58(2): 287–289. doi: 10.1016/j.marpolbul.2008.10.018

Santos RG, Andrades R, Boldrini MA, Martins AS (2015) Debris ingestion by juvenile marine turtles: an underestimated problem. Marine Pollution Bulletin 93(1–2): 37–43. doi: 10.1016/j.marpolbul.2015.02.022

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Sexta Selvagem: Centopeia-Gigante-de-Galápagos

por Piter Kehoma Boll

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As Ilhas Galápagos são famosas por seus animais, como os jabutis, tentilhões e iguanas. Contudo a ilha também abriga uma variedade de invertebrados e hoje eu vou falar sobre um deles.

A centopeia-gigante-de-Galápagos, Scolopendra galapagoensis, é muito similar a outra famosa espécie de centopeia, a centopeia-gigante-Amazônica, Scolopendra gigantea. Apesar do nome, a centopeia-gigante-de-Galápagos não é restrita às Ilhas Galápagos, mas também pode ser encontrada em áreas próximas no Peru e no Equador, apesar de estas populações terem sido originalmente consideradas uma subespécie de S. gigantea, que é encontrada pela Venezuela, pela Colômbia e pelo Caribe.

Scolopendra galapagoensis na Ilha Fernandina, Ilhas Galápagos. Foto de Libby Megna.*

O corpo da centopeia-gigante-de-Galápagos varia de marrom a preto e as numerosas patas variam de laranja a marrom-escuro ou preto. Ela pode atingir até 30 cm de comprimento, sendo, portanto, tão grande quanto sua prima S. gigantea. A principal diferença é o número de segmentos peludos em suas antenas.

Um predador como a maioria das centopeias, a centopeia-gigante-de-Galápagos se alimenta de uma variedade de outros animais pequenos, principalmente invertebrados, apesar de também poder se alimentar de pequenos vertebrados tal como roedores recém-nascidos, os quais subjuga usando sua peçonha poderosa.

Quando ameaçada, a centopeia-gigante-de-Galápagos assume uma posição de defesa na qual ergue o último par de patas, chamado de patas finais, e alguns dos últimos pares de patas ambulatórias, exibindo-as para o agressor de uma forma que lembra a exibição de advertência de algumas aranhas, tal como aranhas-armadeiras e caranguejeiras.

Centopeia-gigante-de-Galápagos em posição de advertência. Créditos de Kronmüller & Lewis (2015).**

Recentemente, a centopeia-gigante-de-Galápagos se tornou um animal popular entre aqueles que gostam de animais de estimação incomuns tal como aranhas e centopeias, de forma que você pode encontrar muita informação e vídeos sobre a espécie produzidos por pessoas que as têm em casa em seus aquários.

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Referências:

Clark DB (1979) A centipede preying on a nestling rice rat (Oryzomys bauri). Journal of Mammalogy 60(3): 654.

Kronmüller C, Lewis JGE (2015) On the function of the ultimate legs of some Scolopendridae (Chilopoda, Scolopendromorpha). Zookeys 510: 269–278.
doi: 10.3897/zookeys.510.8674

Shelley RM, Kiser SB (2000) Neotype designation and a diagnostic account for the centipede, Scolopendra gigantea L. 1758, with an account of S. galapagoensis Bollman 1889 (Chilopoda Scolopendromorpha Scolopendridae). Tropical Zoology 13(1): 159–170. doi: 10.1080/03946975.2000.10531129

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