Arquivo da categoria: Entomologia

Em vez de produtos químicos tóxicos, use plantas ajudantes para se livrar de pragas agrícolas

por Piter Kehoma Boll

Encontrar maneiras eficientes de lidar com pragas agrícolas em plantações é um trabalho desafiador. Atualmente, como todos sabemos, a principal estratégia para o controle de tais pragas é o uso de pesticidas químicos. Contudo, esta abordagem apenas serve aos interesses daqueles buscando lucro e não o bem-estar, visto que todos sabemos que tais pesticidas aumentam o risco de diversos problemas de saúde naqueles que consomem os produtos. Mais que isso, pesticidas químicos não apenas matam a praga-alvo, mas muitas outras formas de vida, causando um efeito devastador nos ecossistemas.

A lagarta-listrada-do-repolho (Evergesis rimosalis) é uma praga comum em plantas do gênero Brassica (couve, repolho, mostarda) no leste dos Estados Unidos. Foto do usuário margardimaria do iNaturalist.*

Felizmente, tem havido um interesse crescente em encontrar maneiras alternativas e mais saudáveis de lidar com o problema. Uma maneira é a produção de organismos geneticamente modificados (GMOs) que são naturalmente resistentes às pragas. Há, no entanto, dois problemas principais com esta abordagem. A primeira é que a população em geral tem um medo irracional de GMOs, aparentemente acreditando que eles são mais perigosos que os pesticidas químicos, o que é completamente absurdo. O segundo problema com GMOs é que a tecnologia para criá-los é dominada pelas mesmas companhias que produzem a maioria dos pesticidas e, como todas as grandes companhias, apenas buscam o lucro e não dão a mínima para as pessoas ou o meio ambiente.

Uma terceira estratégia é o uso de inimigos naturais das pragas para controlá-las em fazendas orgânicas. Apesar de muitos inimigos naturais serem ótimos em seu trabalho, eles também podem causar impactos negativos por interferirem nos ecossistemas do entorno. A maioria das pragas de plantações não são nativas das áreas onde são pragas, isto é, elas são espécies invasoras e, de forma a controlá-las eficientemente, um predador de sua área nativa precisa ser introduzido também, e este predador pode acabar se tornando uma ameaça para outras espécie que escolhe como alimento.

Coleomegilla maculata é uma joaninha predadora comum no leste dos Estados Unidos. Elas são ótimas controlando pragas agrícolas localmente, mas não devem ser deliberadamente introduzidas em outros lugares. Foto de Riley Walsh.*

Felizmente, algumas boas estratégias foram recentemente desenolvidas. Uma delas inclui o uso de plantas adicionais nos campos que mudam a maneira como pragas se comportam sem serem uma ameaça para áreas do entorno. Estas plantas adicionais compreendem dois tipos: cultivares-armadilhas e plantas-insetários.

O trigo-sarraceno Fagopyrum esculentum vem sendo usado como planta-insetário. Foto do usuário jimkarlstrom do iNaturalist.*

Um cultivar-armadilha, como o nome sugere, é um cultivar adicional que não se intenciona explorar comercialmente, mas que serve como uma armadilha para as pragas. Em vez de atacarem o cultivar principal (o cultivar de interesse), as pragas são atraídas pelo cultivar-armadilha, reduzindo em densidade no cultivar de interesse. Este sistema é mais eficiente se o cultivar-armadilha for similar ao cultivar de interesse, tal como outra planta do mesmo gênero ou outra variedade da mesma espécie, porque ele precisa ser tão atrativo para a praga quanto o cultivar de interesse, ou talvez até mais atrativo.

Plantas-insetários, por outro lado, têm a intenção de atrair outros insetos para a plantação, especialmente insetos predadores que predam a praga agrícola. Plantas-insetários devem produzir flores em abundância, assim atraindo várias espécies de insetos, o que aumenta o interesse de predadores na área. Contudo, quando usadas sozinhas, as plantas-insetários só fornecem predadores para controlar pragas em plantas cultivadas que estejam perto das plantas-insetários e, como estas costumam ser plantadas ao redor da plantação, não protegem as plantas perto do centro da plantação.

Em um estudo recente, Shrestha et al. (veja referências) decidiram combinar cultivares-armadilhas e plantas-insetários junto com cultivares de interesse em uma estratégia que chamaram de “tríade botânica”. O cultivar de interesse foi repolho orgânico (Brassica oleracea var. capitata) plantado no leste dos Estados Unidos; os cultivares-armadilhas foram outros três cultivares do gênero Brassica: mostarda-marrom (Brassica juncea) e dois tipos de couve (Brassica oleracea var. acephala e Brassica oleracea var. italica); e as plantas-insetários foram o trigo-sarraceno (Fagopyrum esculentum) e a flor-de-mel (Lobularia maritima).

Couve (Brassica oleracea var. acephala). Foto de David Andreas Tønnessen.*

Como resultado, o número de herbívoros (isto é, pragas agrícolas) foi maior em cultivares-armadilhas do que no cultivar de interesse. Os cultivares-armadilhas foram, portanto, mais atrativos que o cultivar de interesse para as pragas. A presença de plantas-insetários aumentou o número de insetos predadores e parasitoides, como joaninhas e vespas parasitoides, nos cultivares-armadilhas em comparação com tratamentos sem plantas-insetários. O número de pragas parasitadas também aumentou na presença de plantas-insetários.

Organização da lavoura

No geral, o “trabalho em equipe” de cultivares-armadilhas e plantas-insetários reduziu a influência de pragas agrícolas em cultivares de interesse. Os cultivares-armadilhas atraíram as pragas para uma área próxima das plantas-insetários, permitindo que os predadores as alcançassem.

Maneiras eficientes de cultivar organicamente são possíveis. Só precisamos focar em ecossistemas saudáveis e não no dinheiro. Se trabalharmos juntos, podemos derrotar as “Seis grandes” corporações que dominam a produção de alimento no mundo. Elas são as verdadeiras pragas.

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Referência:

Shrestha B, Finke DL, Piñero JC (2019) The ‘Botanical Triad’: The Presence of Insectary Plants Enhances Natural Enemy Abundance on Trap Crop Plants in an Organic Cabbage Agro-Ecosystem. Insects 10(6): 181. doi: 10.3390/insects10060181

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Sexta Selvagem: Mariposa-Luna

por Piter Kehoma Boll

Faz muito tempo desde a última vez que apresentei um lepidóptero aqui, então hoje decidi voltar a este incrível grupo de insetos. A espécie que escolhi para hoje é bem popular, talvez a mariposa mais popular no mundo. Seu nome é Actias luna, comumente conhecida como mariposa-luna.

Mariposa-luna adulta nos Estados Unidos. Foto de Any Reago & Chrissy McClarren.*

A mariposa-luna é nativa do Canadá e dos Estados Unidos. É uma mariposa bem grande, com uma envergadura de cerca de 8 a 12 cm, apesar de alguns indivíduos poderem chegar a 18 cm. Suas asas, cobertas de escamas como de costume em lepidópteros, têm uma cor verde-clara. As asas anteriores possuem uma borda anterior marrom que se conecta a duas manchas ocelares (uma em cada asa) por um pedúnculo. As asas posteriores também possuem uma mancha ocelar cada, mas não são conectadas por um pedúnculo à borda. Nas asas posteriores há também uma longa cauda que é característica do gênero Actias e lembra um pouco a cauda similar (mas mais curta) de algumas borboletas, como as da família Papilionidae. Machos e fêmeas são muito parecidos e podem geralmente ser distinguidos pelo tamanho do abdome, que é muito mais grosso em fêmeas.

Em climas mais frios, como no Canadá, a mariposa-luna possui uma geração por ano, mas populações do sul, em locais onde o clima é mais quente, podem ter até três. As fêmeas põem ovos em plantas que servem de alimento à larva. Há várias espécies de árvores identificadas como alimento, incluindo bétulas, nogueiras, pecãs e caquizeiros. As larvas se alimentando de uma árvore nunca, ou muito raramente, chegam a um número que possa causar dano significativo à planta.

Larva de terceiro ínstar. Foto do usuário Kugamazog~commonswiki do Wikimedia.**

Os ovos são marrons e são depositados em aglomerados irregulares na parte inferior das folhas. Eles geralmente eclodem de uma a duas semanas depois de serem postos e originam larvas pequenas e verdes. As larvas são verdes em todos os estágios (ou ínstares) e passam por cinco deles durante um período de cerca de 7 semanas. O quinto e último ínstar então desce da árvore em que vive para atingir o solo. Lá, a larva começa a tecer um casulo de seda e, após concluí-lo, se transforma numa pupa. Em regiões mais quentes, a pupa leva cerca de duas semanas para se tornar um adulto, mas em regiões mais frias ela entra em diapausa durante o inverno, levando cerca de nove meses para completar o ciclo.

Uma larva de quinto ínstar construindo um casulo. Créditos a Virginia State Parks staff.*

Quando as fêmeas se tornam adultas, procuram por uma árvore adequada da espécie preferida (geralmente a mesma espécie em que nasceram) e emitem feromônios para atrair os machos. Os adultos não possuem peças bucais e, portanto, não comem, vivendo apenas o suficiente para acasalar e pôr ovos. As belas e lindas caudas das asas posteriores, mais que apenas lindas, parecem diminuir a habilidade de morcegos predadores detectarem a mariposa usando ecolocalização.

Pupa ao lado de um casulo vazio. Foto do usuário Kugamazog~commonswiki do Wikimedia.**

A mariposa-luna é um dos insetos mais populares da América do Norte. De fato, ela foi o primeiro inseto do continente a ser descrito, sendo chamada Phalaena plumata caudata por James Petiver em 1700. Quando Linnaeus começou a nomenclatura binomial de animais em 1758, ele a renomeou Phalaena luna como referência à deusa romana da Lua.

Belo espécime no Canadá. Foto de Alexis Tinker-Tsavalas.***

Apesar de não ser considerada uma espécie vulnerável no momento, a mariposa-luna sofre algumas ameaças causadas por interferência humana, como perda de habitat e dano causado por espécies invasoras. Felizmente, devido à sua popularidade, ela provavelmente terá apoio considerável do público para sua conservação quando a hora chegar.

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Referências:

Lindroth RL (1989) Chemical ecology of the luna moth: Effects of host plant on detoxification enzyme activity. Journal of Chemical Ecology 15(7): 2019–2029.

Millar JG, Haynes KF, Dossey AT, McElfresh JS, Allison JD (2016) Sex Attractant Pheromone of the Luna Moth, Actias luna (Linnaeus). Journal of Chemical Ecology 42(9): 869–876.

Wikipedia. Luna moth. Disponível em < https://en.wikipedia.org/wiki/Luna_moth>. Acesso em 11 de julho de 2019.

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Sexta Selvagem: Vespa-da-Figueira-Lacerdinha

por Piter Kehoma Boll

Durante as últimas três semanas, apresentei uma figueira, a figueira-lacerdinha, uma lacerdinha que a parasita, a lacerdinha-da-figueira, e um ácaro que parasita a lacerdinha, o ácaro-da-lacerdinha-da-figueira. Todavia eu ainda não escrevi sobre uma das criaturas mais interessantes que interage com uma figueira: seu polinizador.

No caso da figueira-lacerdinha, seu polinizador é a vespa-de-figueira Eupristina verticillata, que decidi chamar de Vespa-da-Figueira-Lacerdinha. Como todas as vespas-de-figueira, esta espécie é muito pequena e completamente adaptada para viver com figos. Elas não podem sobreviver sem a espécie exata de figueira com que interagem, e a figueira em questão não pode sobreviver sem a espécie exata de vespa. Como isso funciona?

Vamos começar nossa história com uma fêmea adulta de vespa-da-figueira-lacerdinha. As fêmeas são pretas e muito pequenas, medindo cerca de 1 a 1,2 mm de comprimento somente. Esta fêmea está voando por aí procurando um figo jovem que servirá como seu ninho e sua sepultura.

Assim é uma fêmea de vespa-da-figueira-lacerdinha. Foto de Forest & Kim Starr.*

Um figo, caso você não saiba, não é um fruto verdadeiro no sentido botânico. Ele é na verdade um tipo especial de inflorescência chamado sicônio que é basicamente um saco preenchido de flores. As paredes internas de um figo contêm muitas flores masculinas e femininas minúsculas e a única maneira de chegar a elas é através de um pequeno furo na ponta do figo. E este furo só está aberto durante os estágios iniciais do desenvolvimento do figo.

Figos da figueira-lacerdinha no seu primeiro estágio de desenvolvimento. Você pode ver o furo marcado por uma “aréola” mais escura ao redor. Este é o lugar por onde uma vespa fêmea entra no figo. Créditos ao usuário do Wikimedia Vinayaraj.**

Quando a fêmea de vespa-da-figueira-lacerdinha está voando por aí, está procurando por um figo que esteja neste exato estágio de desenvolvimento. Uma vez que ela o encontre, ela se arrasta para dentro do figo através daquele furinho. Ela geralmente perde as asas enquanto faz isso porque a passagem é estreita demais. Ela até mesmo precisa usar suas mandíbulas especialmente adaptadas para a ajudarem a passar. Uma vez dentro do figo, ela procura pelas flores femininas que estão na base no figo, longe da entrada. As flores masculinas, localizadas logo na entrada, ainda não estão maduras. Contudo as vespas fêmeas chegam com pólen que pegaram em outro lugar (você vai aprender isso daqui a pouco). Quando ela chega nas flores femininas, introduz seu ovopositor (a longa estrutura no final do abdome que é usada para pôr os ovos) dentro da flor feminina e põe um ovo dentro do ovário da flor. Seu ovopositor precisa ter o tamanho exato para alcançar o ovário e pôr o ovo. Se ele é curto demais, ela não é capaz de completar sua tarefa. E enquanto ela se move de flor em flor para pôr os ovos, acaba as polinizando. Depois de terminar, a vespa morre ainda dentro do figo.

Os ovários que receberam um ovo começam a crescer e formar uma galha (um “tumor de planta”) por influência do inseto e servem como abrigo e alimento para as larvas que eclodem dos ovos. Uma larva cresce, empupa e se torna adulta dentro de uma só galha. Quando as vespas finalmente chegam ao estágio adulto, deixam a galha na qual nasceram. Isso acontece quando o figo atinge seu estágio maduro.

Os machos são os primeiros a emergir. Eles são ainda menores que as fêmeas e possuem uma cor entre o amarelo e o marrom-claro. Eles roem seu caminho através da galha e, uma vez fora dela (mas ainda dentro do figo), começam desesperadamente a procurar vespas fêmeas para inseminar. Eles fazem isso arrebentando outras galhas e, quando uma fêmea é encontrada presa dentro, a inseminam. Depois disso, os machos cavam um buraco através do figo para o lado de fora e morrem logo depois, nunca vivenciando o mundo externo.

Uma vespa-da-figueira-lacerdinha macho (à direita) comparado com uma fêmea. Foto de Forest & Kim Starr.*

As vespas fêmeas então deixam as galhas e se movem em direção ao buraco aberto pelo macho. Enquanto fazem isso, elas se movem por cima das flores masculinas, agora maduras, e ficam cobertas de pólen. Depois de deixar o figo, elas procuram outro figo que esteja no primeiro estágio de desenvolvimento, recomeçando o ciclo.

Quando uma fêmea deixa um figo maduro, ela precisa encontrar um figo imaturo logo em seguida porque estará morta em um par de dias. Em outras palavras, a única forma de isso funcionar é se houver figos no estágio certo durante o ano todo, e é isso que acontece. Diferente da maioria das espécies de plantas, que produzem flores em uma época específica do ano, figueiras estão sempre floridas. Bem, não exatamente. Uma figueira individual produz figos em um período específico do ano. Todos os figos daquela árvore amadurecem ao mesmo tempo, ou seja, uma figueira tem uma sincronia de maturação de flores intraindividual. Contudo, outras árvores da mesma espécie possuem momentos diferentes para produzir flores, ou seja, há uma assincronia de maturação de flores interindividual. Isso garante que a vespa sempre encontrará um figo que seja adequado para seu estágio de maturação quando há figueiras suficientes em volta e também garante que a figueira não será fertilizada pela próprio pólen.

Como eu mencionei ao apresentar a figueira-lacerdinha, esta árvore só consegue produzir frutos viáveis quando a vespa está presente, de forma que populações introduzidas fora da área nativa só se reproduzirão se as vespas também forem introduzidas. Contudo, a vespa será incapaz de sobreviver se não houver figueiras o bastante para fornecer figos o ano todo. É uma relação delicada entre um inseto minúsculo, frágil e de vida curta e uma árvore enorme, resistente e de vida longa. E eles precisam um do outro para sobreviver.

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Referências:

Cook J, Rasplus J-Y (2003) Mutualists with attitude: coevolving fig wasps and figs. TRENDS in Ecology and Evolution 18(5): 241–248.

Kjellberg F, Jousselin E, Hossaert-McKey M, Rasplus J-Y (2005) Biology, Ecology, and Evolution of Fig-pollinating Wasps (Chalcidoidea, Agaonidae). In Raman A, Schaefer CW, Withers TM (Eds.) Biology, ecology and evolution of gall-inducing arthropods. v.2. New Hampshire, Science, p.539-572.

McPherson JR (2005) A Recent Expansion of its Queensland Range by Eupristina verticillata, Waterston (Hymenoptera, Agaonidae, Agaoninae), the Pollinator of Ficus microcarpa l.f. (Moraceae). Proceedings of the Linnean Society of New South Wales: 126: 197–201.

Weiblen DG (2002) How to be a fig wasp. Annual Review of Entomology 47: 299–330.

Wiebes JT (1992) Agaonidae (Hymenoptera, Chalcidoidea) and Ficus(Moraceae): fig waps and their figs, VIII (Eupristina s.l.). Proceedings of the Koninklijke Nederlandse Akademie van Wetenschappen 95(1): 109–125.

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Tospovirus e lacerdinhas: uma aliança que aterroriza as plantas

por Piter Kehoma Boll

Recentemente apresentei uma lacerdinha na seção Sexta Selvagem, no caso uma lacerdinha que infecta principalmente figueiras. Este grupo de insetos, que compreendem a ordem Thysanoptera, é pouco conhecido pelo público geral, mas é certamente conhecido por jardineiros e fazendeiros, já que eles podem causar sérios incômodos a muitos tipos de plantas.

Poderíamos imaginar as lacerdinhas como sendo um tipo de mosquito das plantas. Elas furam a superfície de plantas e sugam os sucos assim como mosquitos fazem com vertebrados. E todos sabemos que uma picada de mosquito pode levar a muito mais que uma pequena perda de sangue e uma irritação local na pele. Muitos parasitas usam mosquitos como vetores para viajar de hospedeiro para hospedeiro, incluindo protistas como Plasmodium falciparum, que causa malária, e muitos tipos de vírus, como os do gênero Flavivirus, que causam febre amarela, dengue e zika.

Algo similar acontece na associação de lacerdinhas com plantas. Um gênero especial de vírus, chamado Tospovirus, infecta espécies de plantas e usa lacerdinhas como um vetor. Dentro dos corpos das lacerdinhas, os vírus se reproduzem após infectar as célula epiteliais do intestino e, de lá, viajam pelo sangue até as glândulas salivares e, quando uma lacerdinha perfura uma planta, o vírus é injetado nela. O ciclo é basicamente o mesmo usado por Flavivirus em mosquitos e carrapatos para infectar vertebrados. Não é incrível como um vírus como o Tospovirus pode infectar tanto um animal quanto uma planta? Mas qual exatamente é a doença causada por estes vírus?

Folha de manjericão infectada pelo vírus-do-vira-cabeça-do-tomateiro. Foto de Scot Nelson.**

Um dos Tospovirus mais comuns é o chamado vírus-do-vira-cabeça-do-tomateiro (TSWV, sigla do nome em inglês, Tomato spotted wilt virus), que é considerado um dos vírus de plantas economicamente mais devastadores no mundo. Ele pode infectar muitos tipos de plantas, como tomate, tabaco, pimentão, amendoim e manjericão. Os sintomas variam de planta para planta, mas geralmente incluem crescimento deficiente, frutos mal desenvolvidos, frequentemente com manchas anelares na superfície, e necrose das folhas. Ele é transmitido para plantas por lacerdinhas do gênero Frankliniella, especialmente a lacerdinha-das-flores-ocidental Frankliniella occidentalis. Apesar de o vírus geralmente precisar de várias horas para ser capaz de reinfectar uma planta após infectar uma lacerdinha, em condições ideais o tempo pode ser tão curto quanto cinco minutos.

A lacerdinha-das-flores-ocidental Frankliniella occidentalis. Foto de Dave Kirkeby.*

Mas por que uma lacerdinha se alimentaria de uma planta obviamente doente, toda feia e cheia de manchas? Elas certamente prefeririam uma planta mais saudável, mas isso preveniria o vírus de se espalhar. Como resultado, o vírus desenvolveu várias estratégias para atrair as lacerdinhas. O TSWV é capaz de aumentar a quantidade de aminoácidos livres em plantas infectadas, e estes são nutrientes essenciais para a produção de ovos em lacerdinhas. Como consequência, plantas infectadas se tornam mais nutritivas e atraem mais lacerdinhas. Alimentando-se de plantas infectadas, as lacerdinhas certamente ficarão infectadas e ao mesmo tempo ingerirão mais nutrientes que lacerdinhas não infectadas. Assim, uma lacerdinha doente na verdade tem um fitness aumentado e geralmente põe mais ovos. As plantas certamente ficariam apavoradas se fossem capazes de ter emoções.

O vírus-da-necrose-de-nervura-da-soja (SVNV, do inglês soybean vein necrosis virus) é outro Tospovirus de importância econômica. Como seu nome sugere, ele ataca principalmente a soja, e seu principal vetor é a lacerdinha-da-soja Neohydatothrips variabilis. Lacerdinhas-da-soja infectadas produzem significativamente mais filhotes que as não infectadas, mas indivíduos altamente infectados produzem menos ovos viáveis. Como as lacerdinhas resolvem esse problema? É simples! Uma vez que estejam infectadas, elas param de se alimentar de plantas infectadas e preferem as não-infectadas, o que aumenta seu sucesso reprodutivo por evitar que se tornem altamente infectadas e ao mesmo tempo espalham o vírus adiante para plantas não infectadas. Um pesadelo para as plantas mais uma vez.

Lacerdinha-da-soja Hydatothrips variabilis. Foto de Even Dankowicz.***

Um estudo recente investigou a relação entre outro par Tospovirus-lacerdinha, desta vez do vírus-da-mancha-amarela-da-íris (IYSV, do inglês iris yellow spot virus) que comumente ataca o alho e a cebola, e seu principal vetor, a lacerdinha-da-cebola, Thrips tabaci. Lacerdinhas infectadas não apresentam uma fecundidade diária maior, mas tem uma longevidade maior, permitindo que ponham mais ovos simplesmente por viverem mais tempo.

Lesão do IYSV em folha de cebola. Extraído de https://vegetableguide.usu.edu/diseases/onion/iris-yellow-spot-virus

Mas o efeito do Tospovirus em lacerdinhas pode ir além. Por exemplo, apesar de plantas infectadas pelo TSWV liberarem aminoácidos que atraem e aumentam a fecundidade de lacerdinhas, a infecção ainda parece ter alguns efeitos deletérios no inseto. Machos infectados de Frankliniella occidentalis aumentam o consumo de fluidos vegetais e aumentam a transmissão do vírus. Fêmeas, por outro lado, parecem precisar de nutrientes que não podem ser encontrados em plantas. Como resultado, elas aumentam o consumo de ovos do ácaro-rajado Tetranychus urticae, com o qual frequentemente coexistem. Apesar de primariamente herbívoras como a maioria das lacerdinhas, a lacerdinha-das-flores-ocidental eventualmente se alimenta de ovos de ácaros, e estarem infectadas pelo TSWV faz as fêmeas se tornarem mais ávidas por comerem ovos. Isto certamente não é uma estratégia do próprio vírus como as outras, visto que a fêmea que se alimenta de ovos de ácaro não contribui para o sucesso reprodutivo do vírus. Todavia, este é um fenômeno interessante que nos mostra como as interações na teia trófica podem ser dinâmicas, mudando, por exemplo, devido ao efeito colateral não intencional de um vírus tentando sobreviver.

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Referências:

Keough S, Han J, Shuman T, Wise K, Nachappa P (2016) Effects of Soybean Vein Necrosis Virus on Life History and Host Preference of Its Vector, Neohydatothrips variabilis , and Evaluation of Vector Status of Frankliniella tritici and Frankliniella fusca. Journal of Economic Entomology 109(5): 1979–1987. doi: 10.1093/jee/tow145

Leach A, Fuchs M, Harding R, Nault BA (2019) Iris Yellow Spot Virus Prolongs the Adult Lifespan of Its Primary Vector, Onion Thrips (Thrips tabaci) (Thysanoptera: Thripidae). Journal of Insect Science 19(3): 8. doi: 10.1093/jisesa/iez041

Shrestha A, Srinivasan R, Riley DG, Culbreath AK (2012) Direct and indirect effects of a thrips‐transmitted Tospovirus on the preference and fitness of its vector, Frankliniella fusca. Entomologia Experimentalis et Applicata 145(3): 260–271. doi: 10.1111/eea.12011

Stafford-Banks CA, Yang LH, McMunn MS, Ullman DE (2014) Virus infection alters the predatory behavior of an omnivorous vector. Oikos 123(11): 1384–1390. doi: 10.1111/oik.01148

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Sexta Selvagem: Lacerdinha-da-Figueira

por Piter Kehoma Boll

Semana passada eu apresentei a magnífica figueira-lacerdinha Ficus microcarpa. Hoje, trago um insetinho que a ama, mas não é amado de volta, a lacerdinha-da-figueira, Gynaikothrips ficorum.

Como seu nome sugere, a lacerdinha-da-figueira é uma lacerdinha, isto é, um inseto da ordem Thysanoptera, também conhecidos como tripes. Adultos desta espécie medem cerca de 3 mm de comprimento e possuem um corpo preto e alongado e dois pares de asas finas que se dobram sobre o dorso quando em repouso. Suas partes bucais,, como típico em lacerdinhas, são assimétricas, com uma mandíbula direita reduzida e uma mandíbula esquerda desenvolvida que é usada para cortar a superfície de plantas para sugar seus fluidos. Ela é, portanto, uma praga de plantas.

Lacerdinha-da-figueira adulta em Hong Kong. Foto do usuário wklegend do iNaturalist.*

A lacerdinha-da-figueira prefere se alimentar dos fluidos de figueiras, tal como a figueira-lacerdinha apresentada semana passada, mas também de outras espécies, como a figueira-cubana Ficus retusa. Ambas as figueiras, assim como a lacerdinha em si, são nativas do sudeste da Ásia. Outras plantas hospedeiras menos comuns incluem árvores cítricas e orquídeas. As lacerdinhas preferem se alimentar de folhas jovens e tenras e causam pontos escuros, geralmente arroxeados ou avermelhados, na superfície da folha. É comum que a folha se enrole e fique dura, eventualmente morrendo prematuramente. Apesar de a maioria das infestações não causar dano sério ao desenvolvimento da planta, o enrolamento das folhas pode reduzir o seu valor ornamental.

Folhas enroladas e feias causadas pela infestação da lacerdinha na Nova Zelândia. Foto de Stephen Thorpe.*

A reprodução da lacerdinha-da-figueira é basicamente constante, de forma que várias gerações ocorrem ao longo de um ano. Os adultos tomam vantagem das folhas enroladas produzidas pelo seu comportamento alimentar e as usam como proteção para depositar os ovos. Os estágios imaturos, após a eclosão, permanecem dentro do abrigo fornecido pela folha enrolada. Eles são transparentes nos primeiros dois ínstares e depois se tornam amarelo-claros. Somente o último estágio, o adulto, é preto.

Quando você are a folha, pode encontrar uma família inteira. Aqui pode-se ver ovos (grãozinhos brancos) e vários espécimes imaturos em diferentes estágios. Foto de James Bailey.*

Visto que a lacerdinha-da-figueira torna as plantas ornamentais feias, humanos estão sempre tentando encontrar maneiras de matá-la, especialmente usando pesticidas ou, às vezes, predadores naturais da lacerdinha. Mas o insetinho sempre pode revidar. Quando as lacerdinhas caem acidentalmente no corpo das pessoas, tendem a picar, mais provavelmente por acidente, mas isso pode acabar causando uma coceira séria e incômoda. Esse é o preço por mexer com quem está quieto.

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Referências:

Denmark HA, Fasulo TR, Funderburk JE (2005) Cuban laurel thrips, Gynaikothrips ficorum (Marchal) (Insecta: Thysanoptera: Phlaeothripidae). DPI Entomology Circular 59

Paine TD (1992) Cuban Laurel Thrips (Thysanoptera: Phlaeothripidae) Biology in Southern California: Seasonal Abundance, Temperature Dependent Development, Leaf Suitability, and Predation.Annals of the Entomological Society of America 85(2): 164–172. doi: 10.1093/aesa/85.2.164

Piu G, Ceccio S, Garau MG, Melis S, Palomba A, Pautasso M, Pittau F, Ballero M (1992) Itchy dermatitis from Gynaikothrips ficorum March in a family group. Allergy 47(4): 441–442. doi: 10.1111/j.1398-9995.1992.tb02087.x

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Sexta Selvagem: Piolho-da-Farinha-Comum

por Piter Kehoma Boll

Não importa onde você viva no mundo, se você já deixou farinha ou grãos armazenados por muito tempo, deve ter encontrado algum tipo de inseto que apareceu na comida, alimentando-se dela. Há muitas espécies de inseto que existem como pragas de cozinha, incluindo mariposas, besouros, e nosso camarada de hoje, o piolho-da-farinha-comum Liposcelis bostrychophila.

O piolho-da-farinha-comum, também conhecido como psocídeo doméstico, é um membro da ordem de insetos Psocoptera, que inclui a maioria das espécies conhecidas como piolhos, tal como piolhos-da-cortiça, piolhos-dos-livros e os piolhos parasitas comuns de mamíferos e aves. O piolho-da-farinha-comum é um inseto muito pequeno, medindo somente cerca de 1 mm de comprimento como adulto, e não possui asas. Provavelmente de origem tropical, ele foi identificado pela primeira vez a partir de espécimes coletados sob cascas de árvore em Moçambique, mas, durante o século XX, passou a se espalhar rapidamente ao redor do mundo.

Piolho-da-farinha-comum em farinha de trigo integral velha. Foto do usuário sea-kangaroo do iNaturalist.*

Em seu habitat natural, que provavelmente são florestas tropicais, o piolho-da-farinha-comum não é muito comum. Contudo, uma vez que ele acabou dentro de residências humanas, encontrou o lugar perfeito para proliferar. Comida armazenada, especialmente grãos, são como o paraíso alimentar para eles. Com alimento sendo transportado de um país para o outro, o piolho-da-farinha-comum conquistou o planeta todo em poucas décadas. E eles não são associados apenas a comida armazenada, mas com quase qualquer tipo de matéria vegetal, incluindo palha usada em colchões e às vezes em divisórias internas. Apesar de se alimentar destes materiais, o piolho-da-farinha-comum não causa danos sérios a eles e o principal problema é que sua população tende a crescer enormemente, fazendo-o se tornar bem incômodo só por estar ali.

A reprodução do piolho-da-farinha-comum ocorre quase exclusivamente por partenogênese, em que as fêmeas são capazes de gerar prole de ovos não-fertilizados. Machos são muito raros e foram registrados pela primeira vez apenas recentemente. Esta é provavelmente uma das razões de esta espécie ser tão bem-sucedida invadindo novos ambientes, visto que uma única fêmea pode originar uma população inteira. Há casos registrados de casas tão densamente infectadas que as paredes estavam completamente cobertas de piolhos-da-farinha.

Vários métodos vem sendo tentados para conter o avanço desta pequena criatura, mas a maioria é malsucedida. Eles parecem ser bem resistentes tanto a pesticidas químicos quanto a fungos entomopatogênicos, isto é, fungos que infectam insetos. Sua cutícula possui uma composição química peculiar, diferente da encontrada em outros insetos, que previne esporos de fungos de germinarem.

Podemos concluir que o piolho-da-farinha-comum é uma espécie que veio para ficar, não importa o que tentemos fazer para nos livrar dela.

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Referências:

Lord JC, Howard RW (2004) A Proposed Role for the Cuticular Fatty Amides of Liposcelis bostrychophila (Psocoptera: Liposcelidae) in Preventing Adhesion of Entomopathogenic Fungi with Dry-conidia. Mycopathologia 158(2): 211–2117. doi: 10.1023/B:MYCO.0000041837.29478.78

Turner BD (1994) Liposcelis bostrychophila (Psocoptera: Liposcelididae), a stored food pest in the UK. International Journal of Pest Management, 40(2), 179–190. doi: 10.1080/0967087940937187

Yang Q, Kučerová Z, Perlman SJ, Opit GP, Mockford EL, Behar A, Robinson WE, Steijskal V, Li Z, Shao R (2015) Morphological and molecular characterization of a sexually reproducing colony of the booklouse Liposcelis bostrychophila (Psocodea: Liposcelididae) found in Arizona. Scientific Reports5: 110429. doi: 10.1038/srep10429

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*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição Não Comercial Sem Derivações 4.0 Internacional.

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Sexta Selvagem: Mosca-Serra-do-Nabo

por Piter Kehoma Boll

Depois dos besouros, que formam a ordem Coleoptera, o segundo grupo mais diverso de insetos é a ordem Lepidoptera, que inclui borboletas e mariposas. Contudo a ordem Hymenoptera tem o potencial de eventualmente ultrapassar Lepidoptera e se tornar mais próxima dos besouros porque muitas espécies novas estão sendo constantemente descritas.

Os himenópteros mais conhecidos são as abelhas, formigas e vespas, mas uma enorme parte de sua diversidade é formada pelas chamadas moscas-serra. Uma destas espécies é comumente conhecida como mosca-serra-do-nabo e cientificamente conhecida como Athalia rosae.

Mosca-serra-do-nabo nos Países Baixos. Foto de Herman Berteler.*

A mosca-serra-do-nabo é encontrada ao longo da Região Paleártica, do oeste da Europa até o Japão, e seu nome comum vêm do fato de suas larvas se alimentarem de plantas da família Brassicaceae, que inclui o nabo, bem como o repolho, entre outros. As larvas são consideravelmente grandes e se parecem com lagartas, tendo uma cor dorsal cinza-escura, quase preta, e são mais claras perto das pernas. Quando elas estão prestes a se tornarem pupas, elas se enterram no solo, constroem um casulo e permanecem ali até se tornarem adultos.

Uma larva na Dinamarca. Foto de Donald Hobern.**

Os adultos medem cerca de 6 a 8 mm de comprimento, as fêmeas sendo maiores que os machos. O corpo e as pernas possuem uma cor amarela a laranja, mais escura na superfície dorsal do tórax, que também possui duas grandes manchas pretas. A cabeça e as antenas são pretas.

Um adulto na Alemanha. Foto de Martin Grimm.*

Himenópteros no geral são caracterizados por uma determinação sexual única na qual fêmeas são diploides, isto é, possuem dois conjuntos de cromossomos, e machos são haploide, tendo somente um conjunto. Acasalamentos conduzidos em laboratório com a mosca-serra-do-nabo, contudo, foram capazes de produzir combinações anômalas, incluindo machos diploides e machos e fêmeas triploides. Aparentemente isto é possível devido ao sexo ser determinado por um alelo em um cromossomo, de forma que machos são sempre homozigotos e fêmeas sempre heterozigotas, mas isso precisa ser explicado em outra postagem. O fato é que o estudo deste peculiar sistema nesta espécie está ajudando a entender como a determinação do sexo evoluiu em himenópteros.

Um adulto na Rússia. Foto de Roman Providuhin.*

Uma última coisa interessante a mencionar sobre a mosca-serra-do-nabo é que ela é capaz de contornar os mecanismos de defesa das plantas das quais sua larva se alimenta. Plantas na família Brassicaceae produzem um grupo de compostos chamados glucosinolatos que dão a elas seu odor e amargor característicos, como na mostarda e no rábano-de-cavalo. Estes compostos são usados por plantas como uma defesa contra pragas que se alimentam delas. Contudo a mosca-serra-do-nabo é resistente a estes compostos e consegue sequestrá-los e armazená-los em sua hemolinfa, isto é, o “sangue”, em concentrações muito maiores que as encontradas nas plantas. Quando atacadas por predadores como formigas, as larvas liberam gotas de hemolinfa em uma forma de sangramento defensivo e podem parar o ataque.

A mosca-serra-do-nabo pode ser um incômodo para humanos e suas plantações, mas é certamente um animal fascinante.

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Referências:

Müller C, Agerbirk N, Olsen CE, Boevé JL, Schaffner U, Brakefield PM (2001) Sequestration of host plant glucosinolates in the defensive hemolymph of the sawfly Athala rosae. Journal of Chemical Ecology 27(12): 2505–2516. doi: 10.1023/A:1013631616141

Müller C, Boevé JL, Brakefield PM (2002) Host plant derived feeding deterrence towards ants in the turnip sawfly Athalia rosae. In: Nielsen J.K., Kjær C., Schoonhoven L.M. (eds) Proceedings of the 11th International Symposium on Insect-Plant Relationships. Series Entomologica, vol 57. Springer, Dordrecht. doi: 10.1007/978-94-017-2776-1_18

Naito T, Suzuki H (1991) Sex determination in the sawfly, Athalia rosae ruficornis (Hymenoptera): occurrence of triploid males. Journal of Heredity 82(2): 101–104. 10.1093/oxfordjournals.jhered.a111042

Oishi K, Sawa M, Hatakeyama M, Kageyama Y (1993) Genetics and biology of the sawfly, Athalia rosae (Hymenoptera). Genetica 88(2–3): 119–127. doi: 10.1007/BF02424468

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