Arquivo da categoria: Entomologia

Sexta Selvagem: Mosca-Serra-do-Nabo

por Piter Kehoma Boll

Depois dos besouros, que formam a ordem Coleoptera, o segundo grupo mais diverso de insetos é a ordem Lepidoptera, que inclui borboletas e mariposas. Contudo a ordem Hymenoptera tem o potencial de eventualmente ultrapassar Lepidoptera e se tornar mais próxima dos besouros porque muitas espécies novas estão sendo constantemente descritas.

Os himenópteros mais conhecidos são as abelhas, formigas e vespas, mas uma enorme parte de sua diversidade é formada pelas chamadas moscas-serra. Uma destas espécies é comumente conhecida como mosca-serra-do-nabo e cientificamente conhecida como Athalia rosae.

Mosca-serra-do-nabo nos Países Baixos. Foto de Herman Berteler.*

A mosca-serra-do-nabo é encontrada ao longo da Região Paleártica, do oeste da Europa até o Japão, e seu nome comum vêm do fato de suas larvas se alimentarem de plantas da família Brassicaceae, que inclui o nabo, bem como o repolho, entre outros. As larvas são consideravelmente grandes e se parecem com lagartas, tendo uma cor dorsal cinza-escura, quase preta, e são mais claras perto das pernas. Quando elas estão prestes a se tornarem pupas, elas se enterram no solo, constroem um casulo e permanecem ali até se tornarem adultos.

Uma larva na Dinamarca. Foto de Donald Hobern.**

Os adultos medem cerca de 6 a 8 mm de comprimento, as fêmeas sendo maiores que os machos. O corpo e as pernas possuem uma cor amarela a laranja, mais escura na superfície dorsal do tórax, que também possui duas grandes manchas pretas. A cabeça e as antenas são pretas.

Um adulto na Alemanha. Foto de Martin Grimm.*

Himenópteros no geral são caracterizados por uma determinação sexual única na qual fêmeas são diploides, isto é, possuem dois conjuntos de cromossomos, e machos são haploide, tendo somente um conjunto. Acasalamentos conduzidos em laboratório com a mosca-serra-do-nabo, contudo, foram capazes de produzir combinações anômalas, incluindo machos diploides e machos e fêmeas triploides. Aparentemente isto é possível devido ao sexo ser determinado por um alelo em um cromossomo, de forma que machos são sempre homozigotos e fêmeas sempre heterozigotas, mas isso precisa ser explicado em outra postagem. O fato é que o estudo deste peculiar sistema nesta espécie está ajudando a entender como a determinação do sexo evoluiu em himenópteros.

Um adulto na Rússia. Foto de Roman Providuhin.*

Uma última coisa interessante a mencionar sobre a mosca-serra-do-nabo é que ela é capaz de contornar os mecanismos de defesa das plantas das quais sua larva se alimenta. Plantas na família Brassicaceae produzem um grupo de compostos chamados glucosinolatos que dão a elas seu odor e amargor característicos, como na mostarda e no rábano-de-cavalo. Estes compostos são usados por plantas como uma defesa contra pragas que se alimentam delas. Contudo a mosca-serra-do-nabo é resistente a estes compostos e consegue sequestrá-los e armazená-los em sua hemolinfa, isto é, o “sangue”, em concentrações muito maiores que as encontradas nas plantas. Quando atacadas por predadores como formigas, as larvas liberam gotas de hemolinfa em uma forma de sangramento defensivo e podem parar o ataque.

A mosca-serra-do-nabo pode ser um incômodo para humanos e suas plantações, mas é certamente um animal fascinante.

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Referências:

Müller C, Agerbirk N, Olsen CE, Boevé JL, Schaffner U, Brakefield PM (2001) Sequestration of host plant glucosinolates in the defensive hemolymph of the sawfly Athala rosae. Journal of Chemical Ecology 27(12): 2505–2516. doi: 10.1023/A:1013631616141

Müller C, Boevé JL, Brakefield PM (2002) Host plant derived feeding deterrence towards ants in the turnip sawfly Athalia rosae. In: Nielsen J.K., Kjær C., Schoonhoven L.M. (eds) Proceedings of the 11th International Symposium on Insect-Plant Relationships. Series Entomologica, vol 57. Springer, Dordrecht. doi: 10.1007/978-94-017-2776-1_18

Naito T, Suzuki H (1991) Sex determination in the sawfly, Athalia rosae ruficornis (Hymenoptera): occurrence of triploid males. Journal of Heredity 82(2): 101–104. 10.1093/oxfordjournals.jhered.a111042

Oishi K, Sawa M, Hatakeyama M, Kageyama Y (1993) Genetics and biology of the sawfly, Athalia rosae (Hymenoptera). Genetica 88(2–3): 119–127. doi: 10.1007/BF02424468

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Sexta Selvagem: Maria-Fedida

por Piter Kehoma Boll

Hemípteros constituem a quinta ordem mais numerosa de insetos com cerca de 80 mil espécies atualmente conhecidas. Entre elas, uma que é amplamente disseminada ao redor do mundo e que você pode ter visto por aí é a maria-fedida Nezara viridula, também conhecida como fede-fede, fede-fede-verde e provavelmente muitos outros nomes. O nome fede-fede aplicado a esta espécie e outras próximas se refere ao fato de que elas secretam uma substância defensiva com um cheiro forte de seu tórax quando ameaçadas.

Nezara viridula em Taiwan. Foto de Jaycee Snow.*

Esta espécie geralmente é verde quando adulta e pode ser reconhecida por uma linha de três pequenos pontos brancos na borda anterior do escutelo, a placa triangular entre as asas. Também há um pequeno ponto preto em cada um dos cantos anteriores do escutelo, alinhados com a linha de pontos brancos. Em alguns espécimes, a parte anterior da cabeça e a borda anterior do tórax podem ter uma cor diferente, geralmente branco, amarelo ou laranja, e às vezes o corpo inteiro possui uma borda branca. Durante o inverno, a cor verde geralmente desaparece e é substituída por um tom marrom.

Variedade com a borda esbranquiçada na Grécia. Foto de Anna Chapman.

Outra forma muito mais rara possui um corpo completamente laranja ou vermelho, o qual contrasta grandemente com o verde típico. Os três pequenos pontos brancos, e especialmente os pretos, ainda estão presentes, tornando fácil reconhecer estas variações como pertencendo à mesma espécie.

Variedade amarela na Argentina. Foto de Gonzalo Roget.**

A maria-fedida é originalmente de algum lugar na África oriental, provavelmente pelos arredores da Etiópia, mas atualmente é encontrada em áreas tropicais e subtropicais de todos os continentes. Com um aparelho bucal picador-sugador como todos os membros da ordem Hemiptera, ela se alimenta de mais de 30 famílias de plantas, perfurando sua superfície, injetando enzimas digestivas e depois sugando o produto parcialmente digerido. Algumas de suas plantas favoritas incluem legumes como o feijão e a soja, tornando-as pragas importantes destas plantações. Eles preferem sugar em partes mais tenras da planta, como nos brotos em crescimento ou frutos em desenvolvimento e, portanto, são comumente encontradas perto destes.

Duas marias-fedidas copulando na França. Uma tem o padrão inteiramente verde e a outra o padrão com borda branca. Foto de Bernard Dupont.***

Em áreas tropicais, a maria-fedida pode se reproduzir ao longo do ano todo, mas em zonas temperadas seu período reprodutivo é restrito aos meses mais quentes do ano. Em tais áreas, os adultos começam a acasalar e procurar alimento assim que as temperaturas sobem, às vezes viajando até 1 km por dia em busca de alimento e local para depositar os ovos.

Nezara viridula em sua forma marrom de inverno na França. A estrutura branca na cabeça, perto do olho direito, é um ovo da mosca parasitoide Trichopoda pennipes. Foto de Didier Descouens.***

O comportamento sexual da maria-fedida é bastante complexo. Os machos liberam feromônios que atraem tanto machos quanto fêmeas, aparentemente como uma maneira de aumentar as oportunidades de acasalamento. Como resultado, vários indivíduos podem ser encontrados aglomerados e prontos para copular. O comportamento de corte inclui uma série de sons estridulantes produzidos tanto pelos machos quanto pelas fêmeas e uma sequência específica de canções masculinas e femininas alternadas parece ser necessária para que a cópula ocorra.

Ovos depositados por uma maria-fedida fêmea na Nova Zelândia. Foto de Robert Briggs.****

Os ovos da maria-fedida são amarelados e a fêmea os põe em aglomerados poligonais, arranjados em fileiras regulares, e os cola uns aos outros. O tempo até a eclosão depende da temperatura do ambiente e pode levar 5 dias ou menos no verão e até 3 semanas em meses mais frios.

Ninfas de primeiro ínstar ainda ao redor dos restos dos ovos na Alemanha. Foto do usuário Slimguy do Wikimedia.****

As ninfas de primeiro ínstar eclodidas são marrom-escuras e permanecem perto umas das outras próximo às cascas dos ovos. Após fazerem a muda e se tornarem o segundo ínstar, que é preto, as ninfas passam a se dispersar. Os terceiro e quarto ínstares são marrom-escuros a pretos e possuem uma série de pontos brancos no abdome. É somente durante o quinto e último ínstar da ninfa que a cor verde do adulto começa a aparecer.

Ninfa de terceiro ínstar em Gran Canaria. Foto de Juan Emilio.***

A maria-fedida possui vários inimigos naturais, incluindo aranhas e formigas predadoras, bem como moscas parasitoides, que se alimentam dos adultos, e vespas parasitoides que se alimentam dos ovos. As espécies parasitoides são conhecidas por usarem os feromônios liberados por fede-fedes adultos para localizá-los no ambiente.

Ninfa de quinto ínstar na Nova Zelândia. Foto de Uwe Schneehagen.**

Com o aumento da temperatura causado pelas mudanças climáticas, a maria-fedida pode se espalhar para novas partes do mundo e eventualmente se tornar uma praga muito mais séria.

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Referências e leitura complementar:

Čokl A, Virant-Doberlet M, McDowell A (1999) Vibrational directionality in the southern green stink bug, Nezara viridula (L.), is mediated by female song. Animal Behavior 58(6): 1277–1283. doi: 10.1006/anbe.1999.1272

Čokl A, Zorović M, Žunić A, Virant-Doberlet M (2005) Tuning of host plants with vibratory songs of Nezara viridula L (Heteroptera: Pentatomidae). Journal of Experimental Biology 208: 1481–1488. doi: 10.1242/jeb.01557

Colazza S, Salerno G, Wajnberg E (1999) Volatile and Contact Chemicals Released by Nezara viridula (Heteroptera:Pentatomidae) Have a Kairomonal Effect on the Egg Parasitoid Trissolcus basalis (Hymenoptera: Scelionidae). Biological Control 16(3): 310–317. doi: 10.1006/bcon.1999.0763

Mattiacci L, Vinson SB, Williams HJ, Aldrich JR, Bin F (1993) A long-range attractant kairomone for egg parasitoid Trissolcus basalis, isolated from defensive secretion of its host, Nezara viridula. Journal of Chemical Ecology 19(6): 1167–1181. doi: 10.1007/BF00987378

Musolin DL, Numata H (2003) Photoperiodic and temperature control of diapause induction and colour change in the southern green stink bug Nezara viridula. Physiological Entomology 28(2): 65–74. doi: 10.1046/j.1365-3032.2003.00307.x

Todd JW (1989) Ecology and behavior of Nezara viridula. Annual Review of Entomology 34: 272–292. doi: 10.1146/annurev.en.34.010189.001421

Tougou D, Musolin DL, Fujisaki K (2009) Some like it hot! Rapid climate change promotes changes in distribution ranges of Nezara viridula and Nezara antennata in Japan. Entomologia Experimentalis et Applicata 130(3): 249–258. doi: 10.1111/j.1570-7458.2008.00818.x

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*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição Não Comercial e Compartilhamento Igual 4.0 Internacional.

**Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição Não Comercial 4.0 Internacional

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Mais uma espécie se junta ao Clube das Matadoras de Marido

por Piter Kehoma Boll

Read it in English

Canibalismo sexual é o ato de comer um parceiro sexual logo antes, durante ou logo depois da cópula. Apesar de ser um comportamento consideravelmente raro, sua ocorrência é muito popular entre o público em geral.

Quando canibalismo sexual ocorre, geralmente consiste na fêmea comendo o macho. Dois casos populares são os dos louva-a-deuses e das aranhas, especialmente a viúva-negra. Este fenômeno, ao menos entre viúvas-negras, é muito mais raro do que a maioria das pessoas pensa.

Louva-a-deus-fêmea comento um macho saboroso. Foto de Oliver Koemmerling.*

Apesar de às vezes o canibalismo sexual ocorrer porque um dos parceiros confunde o outro com comida, em muitas espécies é uma estratégia selecionada evolutivamente para assegurar que a fêmea coma o suficiente para a prole se desenvolver adequadamente. Pode parecer horrível do ponto de vista humano, especialmente se pensarmos da perspectiva do macho, mas temos que lembrar que passar os genes para a próxima geração é o principal propósito da maioria dos organismos e, se o macho é bem-sucedido em fertilizar os ovos da fêmea, sua vida serviu seu propósito e ele pode morrer feliz.

Canibalismo sexual é, claro, quase exclusivamente observado entre predadores, o que é um tanto óbvio. E, como eu disse acima, ele é comumente realizado pela fêmea. Um grupo que é famoso por suas espécies com fêmeas empoderadas é a ordem de insetos Hymenoptera, que inclui abelhas, formigas, vespas, moscas-serra, entre outros. Visto que muitos himenópteros apresentam algum grau de socialidade, na qual sociedades são compostas quase exclusivamente por fêmeas, e os machos são gerados apenas para a reprodução, é curioso que canibalismo sexual nunca tenha sido registrado neste grupo… até agora.

Um estudo recentemente publicado examinou o comportamento de acasalamento de uma pequena vespa parasitoide, Gonatopus chilensis. Esta espécie pertence à família Dryinidae, da qual todas as espécies põem os ovos em insetos da subordem Auchenorrhyncha, que inclui cigarras, cigarrinhas, jequitiranaboias, entre outros. As larvas, após eclodirem do ovo, se alimentam do hospedeiro. Fêmeas adultas de vespas driinídeas também são predadores vorazes e se alimentam das mesmas espécies das quais se alimentaram como larvas.

Macho de Gonatopus chilensis (esquerda) inseminando uma fêmea (a), e fêmea comendo um macho (b e c). Extraído de Vira & Espinosa (2019).*

Após a cópula, fêmeas de G. chilensis foram frequentemente observadas tentando capturar os machos da mesmo forma como capturam as presas. Contudo apenas em uma ocasião a fêmea foi bem-sucedida e capturar o macho e comeu seu gáster (a porção grande e arredondada que forma a maior parte do abdome em vespas). Como apenas um evento de canibalismo foi observado, ele pode ser um fenômeno raro nesta espécie, mas como várias tentativas de capturar o macho foram vistas, parece que comer o macho é uma ideia interessante para as fêmeas.

Este é o primeiro caso conhecido de canibalismo sexual em himenópteros e, portanto, um registro importante que aumentou o número de grupos nos quais se sabe que este comportamento ocorre.

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Referência:

Virla EG, Espinosa MS (2019) Observations on the mating behavior of a dryinid and first record of sexual cannibalism in the hymenoptera. Acta Ethologica. doi: 10.1007/s10211-019-00315-9

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*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 3.0 Não Adaptada.

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Sexta Selvagem: Mosquinha-do-Banheiro

por Piter Kehoma Boll

Não importa onde você viva, você provavelmente já viu, ao menos uma vez na vida, estes insetinhos que amam paredes de banheiros. Eles pertencem à espécie Clogmia albipunctata, popularmente conhecida como mosquinha-do-banheiro, mosquinha-do-ralo, entre outros nomes.

Mosquinha-do-banheiro em Curitiba, Brasil. Foto de Evandro Maia.*

A mosquinha-do-banheiro é encontrada pelo mundo todo, sendo mais comum em áreas tropicais, mas também é frequente em zonas temperadas. Elas estão frequentemente associadas a humanos e são encontradas em banheiros e, menos menos comumente, em cozinhas. Em áreas mais quentes, elas também podem ser vistas na na natureza, especialmente perto de pequenas poças d’água com bastante matéria orgânica, como água parada em buracos de árvores mortas.

Mosquinha-do-banheiro em Matara, Sri Lanka. Foto do usuário rvp do iNaturalist.*

É muito fácil reconhecer a mosquinha-do-banheiro. Elas são cinzas e pequenas, com um comprimento de cerca de 5 mm, e possuem duas asas relativamente grandes que faz com que lembrem uma figura invertida de um coração. O corpo e as asas são cobertos por espessos pelos acinzentados que as fazem parecer mariposas. Elas são, no entanto, parte da ordem Diptera e, portanto, proximamente relacionadas a mosquitos e moscas. Ao se olhar uma delas de perto, é possível notar alguns pontos brancos bem pequenos nas asas. As antenas são longas e cada segmento possui uma coroa separada de pelos.

As larvas da mosquinha-do-banheiro são aquáticas e se alimentam de matéria orgânica em decomposição. Elas encontram o hábitat ideal nos ralos de banheiros, nos quais há matéria orgânica e umidade suficientes e uma boa proteção contra predadores, bem como uma boa estabilidade em temperatura. A larva passa por quatro ínstares durante um período de cerca de 18 dias e então se transforma numa pupa, a qual leva cerca de 5 dias para se tornar um adulto. Os adultos não comem e sua principal função é a reprodução. O ciclo de vida completo leva cerca de um mês.

Ciclo de vida da mosquinha-do-banheiro. Créditos a Jiménez-Guri et al. (2014).**

A mosquinha-do-banheiro é inofensiva na maioria das vezes e pode até ser útil ao reduzir o acúmulo de matéria orgânica que poderia entupir sistemas de drenagem. Há alguns registros de miíase urinária, isto é, parasitismo por larvas de mosca no trato urinário, causada por esta espécie, mas são casos associados a ambientes com condições sanitárias ruins e péssima higiene pessoal. A principal preocupação com esta espécie ocorre em hospitais, já que sua presença em banheiros de hospital a faz ser um possível vetor de bactérias patogênicas levadas do sistema de drenagem para os pacientes.

Durante os últimos anos, a mosquinha-do-banheiro vem sendo estudada como um modelo de desenvolvimento embrionário e expressão de genes, especialmente para estudos comparativos com um modelo bem conhecido, a mosquinha-da-banana, Drosophila melanogaster.

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Referências:

El-Dib NA, Wahab WMAE, Hamdy DA, Ali MI (2017) Case Report of Human Urinary Myiasis Caused by Clogmia albipunctata (Diptera: Psychodidae) with Morphological Description of Larva and Pupa. Journal of Arthropod-Borne Diseases 11(4): 533–538.

Faulde M, Spiesberger M (2012) Hospital infestations by the moth fly, Clogmia albipunctata (Diptera: Psychodinae), in Germany. Journal of Hospital Infection 81(2): 134–136. doi: 10.1016/j.jhin.2012.04.006

Faulde M, Spiesberger M (2013) Role of the moth fly Clogmia albipunctata(Diptera: Psychodinae) as a mechanical vector of bacterial pathogens in German hospitals. Journal of Hospital Infection 83(1): 51–60. doi: 10.1016/j.jhin.2012.09.019

Jiménez-Guri E, Wolton KR, Gavilán B, Jaeger J (2014) A staging schefor the development of the moth midge Clogmia albipunctata. PLoS One 9(1): e84422. doi: 10.1371/journal.pone.0084422

Oboňa J, Ježek J (2012) Range expansion of the invasive moth midge Clogmia albipunctata (Williston, 1893) in Slovakia (Diptera: Psychodidae). Folia faunistica Slovaca 17(4): 387–391.

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Pegos no flagra: Sexo de insetos preservado em âmbar

por Piter Kehoma Boll

Um artigo publicado recentemente descreve uma nova espécie de inseto da ordem Zoraptera a partir de dois espécimes encontrados em âmbar do Cretáceo médio do norte de Myanmar.

O casal preservado. ELes não deixaram descendentes, mas foram eternizados na ciência. Créditos a Chen & Su (2019).*

Mas a coisa mais impressionante sobre esta nova espécie pré-histórica, chamada Zorotypus pusillus, é o fato de que o fóssil contém um macho e uma fêmea que aparentemente morreram enquanto estavam acasalando. Isso é concluído porque os dois indivíduos estão muito próximos um do outro e o macho possui uma estrutura alongada saindo do seu abdome, o que provavelmente é o edeago ou órgão intromitente, um órgão similar a um pênis encontrado na maioria dos zorápteros e usado para levar o esperma até o interior da fêmea.

Um detalhe da extremidade posterior do macho mostrando o edeago ou órgão intromitente. Uma reconstrução anatômica é mostrada à direita. Cŕeditos a Chen & Su (2019).*

A ordem Zoraptera contém um número muito pequeno de espécies, atualmente 44 vivas e 14 fósseis. Eles são muito pequenos, vivem em grupos e se parecem com minúsculos cupins, apesar de não serem proximamente relacionados a estes. A maioria das espécies atuais acasala com o macho introduzindo o edeago na fêmea para entregar o esperma, mas pelo menos uma espécie, Zorotypus impolitus, não copula. Nesta espécie, o macho deposita espermatóforos microscópicos no abdome da fêmea.

A descoberta do comportamento de acasalamento preservado nesta espécie do Cretáceo indica que o comportamento de acasalamento visto na maioria das espécies vivas já era usado por espécies vivendo 99 milhões de anos atrás. A origem dos zorápteros ainda não é bem conhecida, mas este e outros fósseis indicam que eles existem pelo menos desde o começo do Cretáceo.

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Referência:

Chen X, Su G (2019) A new species of Zorotypus (Insecta, Zoraptera, Zorotypidae) and the earliest known suspicious mating behavior of Zorapterans from the mid-cretaceous amber of northern Myanmar. Journal of Zoological Systematics and Evolutionary Research. doi: 10.1111/jzs.12283

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Virando padrasto para transar: o incomum cuidado aloparental em uma abelhinha-carpinteira

por Piter Kehoma Boll

Read it in English

Mês passado, fiz alguns comentários sobre cuidado aloparental, isto é, o ato de tomar conta de uma prole que não é sua.

Na maioria das vezes, quando cuidado parental existe numa espécie, ele é realizado somente pela mãe. Quando há um ajudante, ele geralmente é o pai entre vertebrados, ou irmãos entre artrópodes, especialmente entre insetos sociais como abelhas e formigas. Machos tomando conta da prole em insetos sociais é algo improvável de acontecer na maioria das espécies porque o macho geralmente morre logo depois de acasalar.

Contudo uma situação incomum foi recentemente descoberta em Ceratina nigrolabiata, uma espécie de abelha-carpinteira-pequena da região do Mediterrâneo. Nesta espécie, a fêmea é poliândrica, isto é, ela acasala com vários machos, de forma que nem toda a sua prole tem o mesmo pai.

Esta não é a parte incomum, no entanto. O estranho é que machos desta espécie não morrem após acasalarem e ajudam a fêmea a tomar conta da prole. Enquanto a fêmea deixa o ninho para procurar alimento, o macho fica e toma conta dos ovos e das larvas, protegendo-os de inimigos naturais, como formigas. No entanto, como dito acima, as fêmeas desta espécie acasalam com muitos machos, e estudos genéticos revelaram que o macho guardando o ninho é o pai de somente cerca de 10% da prole.

Cuidado parental na abelhinha-carpinteira Ceratina nigrolabiata:
(A) A fêmea chega ao ninho. Um macho está voando por perto, procurando uma “solteirona”
(B) A fêmea cumprimenta seu macho ajudante
(C) Ninho seccionado mostrando três células com larvas/ovos e alimento e uma quarta célula sendo construída; a fêmea está à esquerda e o macho à direita
Créditos a Mikát et al. (2019) (Veja referências)

Então por que machos de Ceratina nigrolabiata cuidam dos filhos de outro macho? O que a equipe estudando este sistema descobriu é que quanto mais tempo o macho toma conta de um ninho, maior é a quantidade da prole que o tem como pai. Em outras palavras, parece que ajudar uma fêmea aumenta as chances de um macho copular com aquela fêmea, assim aumentando o número de descendentes que ele possui. Não obstante, os machos raramente ficavam por muito tempo no mesmo ninho, geralmente se movendo para outro ninho a cada semana mais ou menos, o que não aumenta a quantidade de sua própria prole no ninho.

A equipe também experimentalmente removeu fêmeas dos ninhos para observar como os machos se comportariam na ausência de uma fêmea. O que eles descobriram é que os machos geralmente abandonam o ninho quando isso acontece, não estando nem aí para os pobres bebês. Portanto, é provável que o cuidado aloparental dos machos seja na verdade um sub-produto de guardar a fêmea, isto é, o macho está lá para assegurar que terá acesso à fêmea quando ela estiver disposta a acasalar. Ele não se importa de verdade com os filhotes.

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Referência:

Mikát M, Janošik L, Černá K, Matuošková E, Hadrava J, Bureš V, Straka J (2019) Polyandrous bee provides extended offspring care biparentally as an alternative to monandry based eusociality. PNAS 116(13): 6238-6243. doi: 10.1073/pnas.1810092116

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Ame ao filho do teu próximo: por que alguns animais cuidam dos filhotes de outros?

por Piter Kehoma Boll

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Cuidado parental, aqui definido como qualquer comportamento em que um animal toma conta de seus filhotes, é uma prática difundida no reino animal, tendo evoluído repetidamente em muitos táxons. Não é difícil notar, considerando a seleção natural, por que o cuidado parental é um traço adaptativo. Ele aumenta a chance de a prole sobreviver e assim carregar os genes para a próxima geração.

Uma ave alimentando seus bebês. Foto de JJ Harrison.*

Por outro lado, o comportamento relacionado a este e conhecido como cuidado aloparental não é tão fácil de explicar em todas as situações em que ocorre.

Enquanto cuidado parental significa cuidar da sua própria prole, cuidado aloparental significa cuidar da prole de outro indivíduo. Se você gasta tempo e recursos tomando conta de um animal que não é seu descendente direto, você deve ter uma boa razão para fazê-lo, uma razão que de alguma forma te beneficie. Ou você pode apenas ser muito burro.

A maioria dos animais rejeita ou mesmo mata a prole de outros indivíduos da mesma espécie. Um clássico exemplo é um leão macho que mata os filhotes que ele sabe não serem seus. Ele faz isso porque ele não vê vantagem em deixar a prole de outro macho sobreviver.

Um exemplo extremo de cuidado com jovens que não são sua prole direta é encontrado em insetos sociais como abelhas e formigas. Formigas operárias geralmente não reproduzem, mas criam suas irmãs como se fossem suas próprias filhas. Nesse caso, é mais vantajoso fazer irmãos do que fazer filhos por causa do peculiar sistema de reprodução dos himenópteros. Não entrarei em detalhes, mas, basicamente, formigas compartilham 100% do DNA de seu pai e 50% do DNA de sua mãe, de forma que duas formigas irmãs possuem 75% dos genes em comum, enquanto a relação entre uma formiga fêmea e uma prole fêmea é de apenas 50%.

Abelhas ajudam a mãe a criar suas irmãs. Foto do usuário Waugsberg do Wikimedia.*

No entanto cuidado aloparental é encontrado em muitos outros animais, especialmente em mamíferos. Apesar de não terem 75% de similaridade entre irmãos como em formigas, muitos mamíferos e outros animais ajudam suas mães e/ou seus pais a criarem seus irmãos. Isso possui vantagens menos diretas, mas elas ainda estão lá. Afinal, seus irmãos (se eles são da mesma mãe E do mesmo pai) compartilham 50% do seu DNA, a mesma quantidade que você compartilha com seus filhos. Mas cuidado aloparental também pode acontecer com parentes mais distantemente relacionados, como netos ou meios-irmãos, que compartilham somente 25% do DNA com você. Isso não é um problema, no entanto, porque se você não é capaz de ter seus próprios filhos naquele momento, é melhor ajudar a criar aqueles jovens que compartilham algum DNA com você do que não fazer nada, porque 25% dos seus genes ainda é melhor que nada.

Um artigo recentemente publicado reporta a primeira observação de cuidado aloparental em campo no peixe ciclídeo Neolamprologus savoryi. A equipe observeu um peixe macho ajudando a tomar conta dos ovos de outro macho que se descobriu ser seu pai, apesar de a mãe dos ovos não ser sua mãe. O macho ajudante era pequeno e provavelmente sexualmente imaturo, de forma que, como dito acima, ajudar seus meios-irmãos, que possuem 25% de seus genes, a sobreviver é melhor do que não fazer nada.

Um macho imaturo de Neolamprologus savoryi tomando conta dos ovos de seu pais e sua madrasta. Créditos a Josi et al. (2019).

Uma coisa realmente difícil de explicar é por que alguns animais aceitam tomar conta da prole de indivíduos não aparentados, no qual não há uma vantagem adaptativa clara. Uma situação como essa foi descoberta recentemente ocorrendo na lacrainha-comum Forficula auricularia. Fêmeas que tiveram seus ovos substituídos pelos de uma fêmea não relacionada tomaram conta deles como se eles fossem seus próprios. Nenhuma vantagem de qualquer tipo pode ser extraída deste comportamento, de forma que a explicação mais provável é simplesmente a falta de pressão adaptativa para rejeitar ovos não relacionados. É provável que, em condições naturais, uma fêmea de lacrainha nunca encontre ovos de outra fêmea. Desta forma, nunca houve um cenário no qual a capacidade de reconhecer os próprios ovos (e diferenciá-los de outros) pudesse evoluir. A seleção natural precisa de oportunidades para agir.

Forficula auricularia com uma massa de ovos. Foto de Tom Oates.*

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Referências:

Josi D, Taborsky M, Frommen JG (2019) First field evidence of alloparental egg care in cooperatively breeding fish. Ethology 125(3): 164–169. doi: 10.1111/eth.12838

Royle NJ, Moore AJ (2019) Nature and Nurture in Parental Care. In: Genes and Behaviour, pp. 131–156. John Wiley & Sons, Ltd. doi: 10.1002/9781119313663.ch7

Van Meyel S, Devers S, Meunier J (2019) Love them all: mothers provide care to foreign eggs in the European earwig Forficula auriculariaBehavioral Ecology. doi:10.1093/beheco/arz012

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*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 3.0 Não Adaptada.

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