Arquivo da categoria: Entomologia

Sexta Selvagem: Besouro-estalador-olhudo-oriental

por Piter Kehoma Boll

Durante as noites mais quentes do ano, na metade oriental dos Estados Unidos, você pode encontrar um besouro bonitão que estala quando é perturbado. Seu nome é Alaus oculatus, também conhecido como besouro-estalador-olhudo-oriental.

Besouro-estalador-olhudo-oriental na Carolina do Sul, EUA. Foto de Phillip Harpootlian.*

Esta espécie pertence à família Elateridae ou besouros-estaladores. Todas as espécies nesta família possuem um mecanismo interessante em seu tórax que as permite saltarem no ar com um estalo, de onde o nome besouro-estalador. Isso é usado para evitar predadores e também para ajudar o besouro a se endireitar caso caia de costas.

Veja-o estalando!

O besouro-estalador-olhudo-oriental mede cerca de 2.5 a 4.5 cm de comprimento e possui uma cor cinza-escura a preta com várias pequenas manchas brancas. O pronoto, a parte dorsal do segmento mais anterior do tórax, possui duas grandes manchas pretas com um contorno branco que se parecem com dois olhos. Estas manchas são na verdade mais que pretas, são superpretas. Isso significa que elas absorvem mais que 96% da luz em todos os ângulos.

Um espécime na Filadélfia, EUA. Foto de Eduardo Duenas.*

Como adulta, esta espécie é principalmente noturna, como a maioria dos besouros-estaladores, e se alimenta de néctar e outros sucos de plantas. Eles podem ser encontrados dentro de casas, sendo atraídos pela luz das lâmpadas à noite.

A voraz larva ou verme-arame do besouro-estalador-olhudo-oriental. Foto de M. J. Raupp.

Diferente dos hábitos vegetarianos dos adultos, as larvas do besouro-estalador-olhudo-oriental são predadores vorazes. Elas vivem em madeira em decomposição e se alimentam de larvas de outros besouros, especialmente da família Cerambycidae, os besouros-chifrudos. As larvas de todos os besouros-estaladores possuem um corpo achatado com segmentos bem marcados e são conhecidas como verme-arame. No besouro-estalador-olhudo-oriental, os segmentos abdominais da larva são amarelos, exceto pelo último, que possui um tom laranja. Os três segmentos torácicos possuem a mesma cor, o anterior sendo o mais largo e mais escuro. A cabeça é marrom-escura a preta. As pupas, por outro lado, possuem aquela aparência miserável da maioria das pupas de insetos, sendo esbranquiçadas e se parecendo com um adulto incompleto preso em cera.

Apesar de consideravelmente popular, o besouro-estalador-olhudo-oriental não é uma espécie bem conhecida. Há muito sobre sua ecologia que precisa ser investigado.

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Referências:

Casari SA (2002) Larvae of Alaus myopsA. oculatusChalcolepidius porcatusHemirhipus apicalis and generic larval characterization (Elateridae, Agrypninae, Hemirhipini). Iheringia, Série Zoologia 92(2): 93–110.

Wikipedia. Alaus oculatus. Available at < https://en.wikipedia.org/wiki/Alaus_oculatus >. Access on October 4, 2019.

Wong VL, Marek PE (2019) Super black eyespots of the eyed elater. PeerJ Preprints 7:e27746v1 https://doi.org/10.7287/peerj.preprints.27746v1

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Sexta Selvagem: Asa-de-Colher-Turca

por Piter Kehoma Boll

Continuando a tradição que apliquei nos dias da quinquagésima e da centésima Sexta Selvagem, hoje teremos duas novamente, de forma que você não precisa esperar mais uma semana pela ducentésima primeira.

Vamos sair do mar no noroeste da Europa para a terra no sudeste da Europa, mais precisamente na região mediterrânea entre os Bálcãs e a Turquia. Durante maio e junho, você pode encontrar esta espécie voando em prados e campos procurando por flores amarelas. Seu nome é Nemoptera sinuata, uma das espécies do gênero Nemoptera, conhecidas em inglês como spoonwings (asas-de-colher) ou thread-winged antlions (formigas-leões-de-asas-de-barbante). Para distingui-la de outras espécies, decidi chamá-la de asa-de-colher-turca.

Uma asa-de-colher-turca visitando as flores de Achillea coarctata na Bulgária. Foto de Paul Cools.*

Como todas as formigas-leões, a asa-de-colher-turca é um inseto da ordem Neuroptera. Os adultos possuem um par de grandes e ovais asas anteriores e um par de longas e finas asas posteriores, ambas possuindo um padrão de marcas pretas e brancas que fazem ser difícil localizá-los contra o fundo. Eles são exclusivamente diurnos e e voam muito lentamente usando apenas as asas anteriores. Quando encontram suas flores favoritas, eles se alimentam do pólen e mais nada, tendo as peças bucais adaptadas para essa dieta.

Após ser inseminada por um macho, a fêmea começa a pôr os ovos. Ela pousa numa flor ou inflorescência e põe um ovo a cada dois minutos, pondo até 14 em um dia e até 70 durante seus 20 dias de vida como adulta. Os ovos, que são brancos e esféricos, caem diretamente no chão.

Espécime adulto na Grécia. Foto de Kostas Zontanos.*

As larvas deixam os ovos após cerca de 19 dias e são cinzas com manchas pretas nos segmentos do tórax e do abdome. Elas possuem mandíbulas grandes e se enterram no solo a uma profundidade de cerca de 1 cm. Como outras formigas-leões, elas se alimentam de pequenos artrópodes que capturam de surpresa pulando para fora do solo, apesar de as espécies exatas comidas por elas permanecerem em grande parte um mistério. As larvas provavelmente viram pupas durante o inverno e se tornam adultos por volta de maio do ano seguinte, preenchendo os prados novamente para buscar por flores amarelas ao sol.

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Referências:

Krenn HW, Gereben-Krenn BA, Steinwender BM, Popov A (2008) Flower visiting Neuroptera: mouthparts and feeding behavior of Nemoptera sinuata (Nemopteridae). European Journal of Entomology 105: 267–277.

Popov A (2002) Autoecology and biology of Nemoptera sinuata Olivier (Neuroptera: Nemopteridae). Acta Zoologica Academiae Scientiarum Hungaricae 48(Suppl. 2): 293–299.

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Sexta Selvagem: Mosquito-de-Remo-Azul

por Piter Kehoma Boll

Uma doença tropical comum em áreas de floresta da América do Sul é a febre amarela. Afetando a maioria das espécies de primatas, a febre amarela é geralmente transmitida pelo famoso mosquito Aedes aegypti, que também transmite dengue e zika, todas doenças causadas por vírus do gênero Flavivirus.

Mas em áreas de floresta das Américas Central e do Sul, outras espécies de mosquito também podem transmitir a febre amarela a humanos e macacos. Uma destas espécies é Sabethes cyaneus, que eu decidi chamar de mosquito-de-remo-azul. Esta espécie ocorre do México até a Argentina e o Brasil e, diferente da maioria dos mosquitos, é diurna.

Uma fêmea prestes a ter um almoço sangrento em um humano no México. Foto de Carlos Alvarez N.*

Mesmo se você não acha mosquitos criaturas legais na maior parte do tempo, precisa admitir que o mosquito-de-remo-azul é um animal lindo. O corpo do adulto é escuro e possui um tom azul metálico no dorso e nas pernas, sendo ligeiramente mais verde no dorso e ligeiramente mais roxo nas pernas. Mais que isso, o segundo par de pernas possui um grande tufo de pelos que as faz parecerem um par de remos.

Mas qual é a função desses remos? A primeira sugestão é de que eles são sexualmente selecionados e provavelmente são importantes para cortejar a fêmea. Mas as fêmeas também possuem remos e, se seles fossem resultado de seleção sexual causada por fêmeas sobre machos, eles provavelmente seriam muito maiores em machos, o que não é o caso.

Outra fêmea se alimentando de um humano, dessa vez no Paraguai. Foto de Joaquin Movia.*

Os machos realizam, de fato, um ritual de corte complexo na frente das fêmeas usando suas pernas com remos. Quando as fêmeas estão preparadas para acasalar, elas pousam verticalmente num galho e esperam que machos venham e dancem na frente delas. A maioria dos machos é rejeitada pela fêmea e, quando ela finalmente escolhe um macho, ela vai copular apenas com ele. Machos, por outro lado, copulam com várias fêmeas. Isso aumenta ainda mais a ideia de que os remos precisam ter alguma importância na escolha das fêmeas.

Macho (esquerda) e fêmea (direita). Imagem extraída de South & Arnqvist (2008).

Não é o que se descobriu, no entanto. Quando os remos de um macho são reduzidos de tamanho ou removidos completamente, ele ainda tem as mesmas chances de conseguir uma fêmea que um macho intacto. Por outro lado, uma fêmea cujos remos foram removidos raramente atrai algum macho. Ela fica pousada no seu galho esperando e esperando e nenhum macho virá dançar para ela. O interesse que mosquitos-de-remo-azuis machos possuem por remos é tão forte que eles até mesmo abordam outros machos com remos grandes.

A razão pela qual esta espécie apresenta forte preferência por parte dos machos e fraca preferência por parte das fêmeas ainda é um mistério, mas é uma boa forma de nos lembrar de que nossas ideias sobre seleção sexual não são tão bem estabelecidas quanto pensamos.

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Referências:

Hancock RG, Foster WA, Lee WL (1990) Courtship behavior of the mosquito Sabethes cyaneus (Diptera: Culicidae). Journal of Insect Behavior 3(3): 401–416. doi: 10.1007/BF01052117

South SH, Arnqvist G (2008) Evidence of monandry in a mosquito (Sabethes cyaneus) with elaborate ornaments in both sexes. Journal of Insect Behavior 21: 451. doi: 10.1007/s10905-008-9137-0

South SH, Arnqvist G (2011) Male, but not female, preference for an ornament expressed in both sexes of the polygynous mosquito Sabethes cyaneus. Animal Behaviour 81(3): 645–651. doi: 10.1016/j.anbehav.2010.12.014

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Sexta Selvagem: Mariposa-Leopardo

por Piter Kehoma Boll

Eu cresci numa casa com um quintal grande cheio de árvores e outras plantas perto de vários pequenos fragmentos florestais. Como resultado disso, mariposas sempre foram visitantes muito comuns à noite, especialmente durante os meses mais quentes. Uma que sempre chamou minha atenção é uma mariposa com um belo padrão nas asas.

Esta é a bela mariposa que chamou minha atenção quando criança. Este espécime foi fotografado no estado do Rio Grande do Sul, Brasil, perto de onde cresci. Foto de Jhonatan Santos.*

Apenas recentemente descobri que seu nome é Pantherodes pardalaria, chamada apropriadamente de mariposa-leopardo. Suas asas possuem um fundo amarelo marcado com várias manchas cinza-metálicas com um contorno preto e um centro preto. Realmente lindo! Um padrão similar é encontrado em todas as espécies do gênero Pantherodes, sendo esta a característica que mais claramente define o gênero.

Mariposa-leopardo na Bolívia. Foto do usuário shirdipam do iNaturalist.*

A mariposa-leopardo ocorre do México até a Argentina e é muito comum no sul do Brasil. Ela pertence a uma das famílias mais diversas de mariposas, Geometridae, caracterizada pela lagarta, chamada mede-palmo, que caminha como se estivesse medindo o chão, de onde o nome Geometridae (a partir do gênero-tipo Geometra, “medidora da terra”).

Mariposa-leopardo no sul do México. Foto de Roberto Pacheco García.*

Não fui capaz de encontrar muita informação sobre a mariposa-leopardo, no entanto. Suas lagartas parecem se alimentar de urtigas (família Urticaceae). No México, as lagartas desta espécie eram historicamente ingeridas como alimento pelos astecas e consideradas um alimento de grande valor, e a prática pode ainda acontecer em alguns grupos humanos.

E isso é tudo que eu consegui. Apesar de ser linda e facilmente notada, a mariposa-leopardo é mais uma espécie pouco conhecida.

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Mais borboletas e mariposas:

Sexta Selvagem: Borboleta-88 (em 7 de setembro de 2012)

Sexta Selvagem: Pingos-de-prata (em 15 de abril de 2016)

Sexta Selvagem: Zigena-de-seis-pontos (em 26 de agosto de 2016)

Sexta Selvagem: Mariposa-luna (em 12 de julho de 2019)

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Referências:

Biezanko CM, Ruffinelli A, Link D (1974) Plantas y otras sustancias alimenticias de las orugas de los lepidopteros uruguayos. Revista do Centro de Ciências Rurais 4(2): 107–148.

Pitkin LM (2002) Neotropical ennomine moths: a review of the genera (Lepidoptera: Geometridae). Zoological Journal of the Linnean Society 135(2–3): 121–401. doi: 10.1046/j.1096-3642.2002.00012.x

Ramos-Elorduy J, Moreno JMP, Vázquez AI, Landero I, Oliva-Rivera H, Camacho VHM (2011) Edible Lepidoptera in Mexico: Geographic distribution, ethnicity, economic and nutritional importance for rural people. Journal of Ethnobiology and Ethnomedicine 7: 2. doi: 10.1186/1746-4269-7-2

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Sexta Selvagem: Besouro-Tartaruga-Manchado

por Piter Kehoma Boll

É finalmente hora de apresentar outro besouro e eu decidi seguir com um membro da família Chrysomelidae, uma das mais diversas e importantes no mundo. A espécie escolhida, Aspidimorpha miliaris, é comumente conhecida como o besouro-tartaruga-manchado.

Um besouro-tartaruga-manchado em Taiwan. Foto de 羅忠良.*

Nativo da região indo-malaia, o besouro-tartaruga-manchado ocorre da Índia até Taiwan, as Filipinas e a Indonésia. Ele mede 1,5 cm de comprimento e, como de praxe entre besouros-tartarugas, seus élitros (asas frontais enrijecidas) e seu pronoto (a placa dorsal mais anterior do tórax) são alargados e cobrem o corpo todo. Essas estruturas são transparentes e os élitros também possuem muitas manchas pretas. O corpo visto abaixo desta armadura transparente varia de branco a amarelo e laranja.

Um espécime laranja no Nepal. Foto de Sebastian Doak.*

O besouro-tartaruga-manchado chama atenção não só por suas cores lindas, mas também porque suas larvas se alimentam vorazmente de plantas do gênero Ipomoea e outros gêneros aparentados, o que inclui, entre outras plantas, a batata-doce. Por seu hábitat ser próximo do equador, o besouro-tartaruga-manchado é capaz de se reproduzir durante o ano inteiro, apesar de seu pico de abundância ser lá por junho.

Um grupo de larvas comendo uma folha de Ipomoea em Taiwan. Foto de 利承拔.*

Os ovos eclodem cerca de 10 dias após serem postos pela fêmea e as larvas passam por cinco ínstares durante um período de 18 a 22 dias, após os quais sofrem uma muda e se tornam uma pupa que, cerca de uma semana depois, vira um adulto. As larvas vivem em grupos e possuem um corpo pálido marcado por manchas pretas no lado dorsal da maioria dos segmentos. Também há algumas projeções espinhosas correndo ao longo das margens do corpo.

Um besouro-tartaruga-manchado em Cingapura. Foto de Soh Kam Yung.*

Devido ao status do besouro-tartaruga-manchado como praga em plantações de batata-doce, formas biológicas de controlá-lo vêm sendo estudadas e incluem o uso de extratos de folhas como pesticidas e vespas parasitoides como predadores dos ovos. Por outro lado, o próprio besouro poderia ser usado como um agente eficiente para controlar a dispersão de algumas espécies invasoras de Ipomoea.

É assim que a natureza age. Seu inimigo de um lado pode ser seu amigo do outro.

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Mais besouros:

Sexta Selvagem: Besouro-guitarrista (em 22 de fevereiro de 2013)

Sexta Selvagem: Besouro-castanho (em 6 de fevereiro de 2015)

Sexta Selvagem: Gorgulho-girafa (em 20 de maio de 2016)

Sexta Selvagem: Besouro-de-Hitler (em 17 de junho de 2016)

Sexta-Selvagem: Besouro-tigre-verde (em 8 de julho de 2016)

Sexta Selvagem: Besouro-de-casaco-marrom-e-ouro (em 2 de setembro de 2016)

Sexta Selvagem: Besouro-do-sol (em 28 de outubro de 2016)

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Referências:

Bhuiya BA, Miah MI, Ferdous E (2000) Biology of Cassidocida aspidomorphae Crawford (Hymenoptera: Tetracampidae), an egg parasitoid of tortoise beetles. Bangladesh Journal of Entomology 10(1/2): 23–30.

Bhuyan M, Mahanta JJ, Bhattacharyya PR (2008) Biocontrol potential of tortoise beetle (Aspidomorpha miliaris) (Coleoptera: Chrysomelidae) on Ipomoea carnea in Assam, India. Biocontrol Science and Technology 18(9): 941–947. doi: 10.1080/09583150802353705

Nakamura K, Abbas I (1987) Preliminary life table of the spotted tortoise beetle Aspidomorpha miliaris (Coleoptera: Chrysomelidae) in Sumatra. Researches on Population Ecology 29: 229–236.

Oudhia P (2000) Toxic effects of Parthenium leaf extracts on Aspidomorpha miliaris F. and Zonabris pustulata Thunb. Insect Environment 5(4): 168.

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Sexta Selvagem: Soldadinho-Chifrudo-da-Acácia

por Piter Kehoma Boll

Semana passada apresentei uma bela acácia australiana, a acácia-dourada, então hoje decidi apresentar uma pequena criatura que vive em seus ramos. Chamado Sextius virescens, este inseto é comumente conhecido como soldadinho-chifrudo-da-acácia (tradução do nome em inglês: wattle horned treehopper) ou simplesmente soldadinho-verde. Ele é membro da ordem Hemiptera e da família Membracidae, comumente conhecidos como soldadinhos, sendo proximamente relacionados a cigarras e cigarrinhas.

Um soldadinho-chifrudo-da-acácia sobre uma acácia-dourada em Brisbane, Austrália. Foto de Jenny Thyne.*

O corpo do soldadinho-chifrudo-da-acácia mede cerca de 1 cm de comprimento e é em sua maioria verde, mas as pernas são marrons. Também há duas projeções em forma de chifres no tórax que possuem uma cor de marrom a negro e outra extensão longa do tórax que fica deitada sobre o abdome. O soldadinho-chifrudo-da-acácia vive em grupos nos ramos de acácias e os indivíduos costumam se posicionar alinhados sobre os ramos.

Um soldadinho-chifrudo-da-acácia perto de Melbourne. Foto de Andrew Allen.**

Como todos os soldadinhos, o soldadinho-chifrudo-da-acácia se alimenta da seiva das plantas nas quais vive, sugando-a com suas peças bucais adaptadas. Eles excretam um líquido doce chamado melada que atrai formigas. Tais formigas geralmente se alimentam do néctar produzido pelos nectário extraflorais da acácia e defendem a planta contra herbívoros. Contudo os soldadinhos-chifrudos-da-acácia fazem as formigas dedicarem sua atenção a eles ao invés da planta. Deliciadas pela melada, as formigas param de defender a planta e passam a defender os soldadinhos, o que não é nem um pouco bom para a planta.

Formigas coletando melada de soldadinhos-chifrudos-da-acácia no leste da Austrália. Foto do usuário fruitbat do iNaturalist.*

Mas assim é a natureza. Uma criatura sempre tentando explorar as relações entre outras criaturas para tirar o melhor proveito para si.

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Referências:

Buckley R (1983) Interaction between ants and membracid bugs decreases growth and seed set of host plant bearing extrafloral nectaries. Oecologia 58: 132–136.

Museums Victoria Sciences Staff (2017) Sextius virescens Green Treehopper in Museums Victoria Collections. Disponível em <https://collections.museumvictoria.com.au/species/8561>. Acesso em 10 de agosto de 2019.

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*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição Não Comercial e Compartilhamento Igual 4.0 Internacional.

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Sexta Selvagem: Mosca-d’Água-Manchada

por Piter Kehoma Boll

É hora de apresentar uma nova ordem de insetos aqui e, mais uma vez, este é um táxon complicado. A ordem Trichoptera consiste de pequenos insetos parecidos com mariposas conhecidos como moscas-d’água ou frigâneas. Eles são proximamente relacionados a mariposas e borboletas (ordem Lepidoptera), sendo um grupo irmão destas. Tendo 10 vezes menos espécies que a ordem Lepidoptera, a ordem Trichoptera é menos comum e bem menos popular, de forma que é difícil encontrar espécies que são bem estudadas para apresentar aqui.

A espécie que escolhi é chamada Glyphotaelius pellucidus e conhecida popularmente como mosca-d’água-manchada. Ela vive na Europa central e boreal e possui o ciclo de vida típico de uma mosca-d’água.

Uma mosca-d’água-manchada na Alemanha. Foto do usuário Pjt56 do Wikimedia.*

A larva da mosca-d’água-manchada vive em águas paradas ou de correnteza fraca que são cobertas por árvores, especialmente amieiros, carvalhos e faias, em áreas de baixa altitude. Como de costume entre moscas-d’água, a larva da mosca-d’água-manchada constrói um abrigo de seda no qual vive e prende pedaços de detritos, especialmente fragmentos de folhas das árvores mencionadas acima, para fortalecê-lo. Nesta espécie, os fragmentos que são presos fazem o abrigo ser bem grande e característico. Dos lados do abrigo, a larva prende fragmentos pequenos e irregulares de folhas, enquanto que nos lados dorsal e ventral ela prende seções grandes e circulares que são muito maiores que o corpo da larva.

Uma larva dentro do abrigo na Alemanha. Foto do usuário fuerchtegott do iNaturalist.**

A larva vive vários meses, de outubro a abril, e se alimenta de fragmentos de folhas, o mesmo material com que constrói o abrigo. Em abril, a larva se transforma em pupa que, geralmente durante o verão (por volta de junho ou julho), se transforma num adulto. O adulto não é aquático como a larva e a pupa. Assim, a pupa nada para a superfície antes de se romper e liberar o adulto. Durante este momento, o adulto é muito vulnerável a predadores, especialmente peixes. É por isso que moscas-d’água artificiais são comumente usadas como iscas para pescar.

Mosca-d’água-manchada adulta no Reino Unido. Foto de Philip Mark Osso.**

Se o adulto consegue deixar a água vivo, ele ainda precisa passar um tempo esperando suas asas secarem, o que é outro momento muito vulnerável. A cor do adulto é marrom e as asas possuem um padrão manchado de marcas claras e escuras que o fazem parecer um fragmento de folha seca.

Massa de ovos numa folha no Reino Unido. Foto de Martin Cooper.***

Moscas-d’água adultas em geral raramente comem e isso não é diferente com a mosca-d’água-manchada. O único propósito dos adultos é acasalar e pôr ovos. Após o acasalamento, a fêmea põe uma massa de novos na superfície de folhas penduradas sobre um corpo d’água. Uma fêmea pode pôr até seis massas de ovos que diminuem em tamanho da primeira para a última, e então ela morre. Quando os ovos eclodem, as larvas caem na água e recomeçam o ciclo.

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Referências:

Crichton MI (1987) A study of egg masses of Glyphotaelius pellucidus (Retzius), (Trichoptera: Limnephilidae). In: Bournaud M., Tachet H. (eds) Proceedings of the Fifth International Symposium on Trichoptera. Series Entomologica, vol 39. Springer, Dordrecht. doi: 10.1007/978-94-009-4043-7_30

Gullefors B (2010) Seasonal decline in clutch size of the caddisfly Glyphotaelius pellucidus (Retzius) (Trichoptera: Limnephilidae). Denisia 29: 125–131.

Kiauta B, Lankhorst L (1969) The chromosomes of the caddis-fly, Glyphotaelius pellucidus (Retzius, 1783) (Trichoptera: Limnephilidae, Limnephilinae). Genetica 40: 1–6.

Otto C (1983) Behavioural and Physiological Adaptations to a Variable Habitat in Two Species of Case-Making Caddis Larvae Using Different Food. Oikos 41(2): 188–194. doi: 10.2307/3544262

Rowlands MLJ, Hansell MH (1987) Case design, construction and ontogeny of building in Glyphotaelius pellucidus caddisfly larvae. Journal of Zoology 211(2): 329–356. doi: 10.1111/j.1469-7998.1987.tb01538.x

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