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Sexta Selvagem: Anjo-do-Mar-Comum

por Piter Kehoma Boll

Semana passada apresentei um belo caramujo marinho, a borboleta-do-mar-comum, com seus longos parapódios como asas que lhes permitem nadar. As borboletas-do-mar pertencem a um grupo de gastrópodes marinhos conhecidos como Pteropoda devido a este pé modificado em nadadeiras. Há dois grupos principais de pterópodes, Thecosomata, que possuem concha, e Gymnosomata, que não possuem concha. Enquanto os com concha são chamados de borboletas-do-mar, os sem concha são chamados de anjos-do-mar ou borboletas-do-mar-nuas.

O anjo-do-mar mais popular é Clione limacina, o anjo-do-mar-comum. Seu corpo é em grande parte transparente e, como todos os pterópodes, possui dois parapódios que se parecem com asas e que, junto com o corpo alongado e sem concha, o fazem parecer de fato um anjo. Apesar dessa aparência angelical, o anjo-do-mar-comum é uma criatura terrível.

Apesar da aparência serena, encontrar este belo gastrópode pode ser uma experiência assustadora. Foto de Kevin Raskoff, Hidden Ocean 2005 Expedition: NOAA Office of Ocean Exploration.

Sendo um predador, o anjo-do-mar-comum é especializado em comer a borboleta-do-mar-comum. Ambas as espécies compartilham o mesmo ambiente em águas árticas e sua associação é conhecida há séculos. A forma como o anjo-do-mar-comum captura e come a borboleta-do-mar-comum é impressionante e meio assustadora.

Um espécime, que foi trazido até a praia, em uma mão humana para comparação. Foto do usuário nbenson do iNaturalist.*

Quando um anjo-do-mar detecta uma borboleta-do-mar por perto, ele começa uma perseguição e everte seis cones bucais adesivos da boca, formando uma estrutura em forma de cesto. Essa estrutura é usada para capturar a borboleta-do-mar e, uma vez que o pobre caramujo está preso, o anjo-do-mar gira a concha da borboleta-do-mar até a abertura estar direcionada para a boca do predador.

Depois disso, o terror começa. A pobre borboleta-do-mar já se encolheu toda na concha a essa hora, mas o anjo-do-mar usa um grupo de ganchos quitinosos na boca para perfurar o corpo da borboleta-do-mar e, com ajuda da rádula, puxa o corpo inteiro da presa de dentro da concha, comendo-a toda de uma vez. É provavelmente uma morte horrível para a pobre borboleta-do-mar. Após terminar de engolir a borboleta-do-mar, o anjo-do-mar-comum pode ir atrás da próxima em cerca de dois minutos.

Desenho de um anjo-do-mar-comum se alimentando de uma borboleta do mar comum. BC = cones bucais, HK = ganchos quitinosos, S = a concha da borboleta-do-mar. Extraído de Lalli (1970).

Enquanto o ciclo de vida da borboleta-do-mar-comum é curto, durando só um ano, o do anjo-do-mar-comum é muito mais longo. Como resultado, não há borboletas-do-mar adultas para servirem de alimento para o anjo-do-mar-comum do final do outono até o começo da primavera. Por muito tempo se pensou que o anjo-do-mar-comum passaria esse tempo todo sem comer, e de fato se descobriu que ele pode sobreviver longos períodos de inanição. Contudo análises do conteúdo estomacal do anjo-do-mar-comum revelaram a presença de anfípodes e eventualmente copépodes calanoides, sugerindo que ele possa contar com algumas fontes alternativas de comida em casos de extrema necessidade. Seu alimento principal, contudo, é a borboleta-do-mar-comum sem dúvidas. Eles começam a se alimentar delas quando ainda são larvas, sempre capturando e ingerindo borboletas-do-mar que possuem um tamanho similar ao deles.

Será que o anjo-do-mar-comum conseguirá sobreviver com estas outras presas se as populações da borboleta-do-mar-comum diminuírem com as mudanças climáticas? Acho improvável, e espero que não precisemos chegar ao ponto em que isso se torne uma opção.

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Referências:

Böer M, Graeve M, Kattner G (2006) Exceptional long-term starvation ability and sites of lipid storage of the Arctic pteropod Clione limacina. Polar Biology 30:571–580. doi: 10.1007/s00300-006-0214-6

Conover RJ, Lalli CM (1972) Feeding and growth in Clione limacina (Phipps), a pteropod mollusc. Journal of Experimental Marine Biology and Ecology 9(3):279–302. doi: 10.1016/0022-0981(72)90038-X

Kallevik IHF (2013) Alternative prey choice in the pteropod Clione limacina (Gastropoda) studied by DNA-based methods. Master thesis in Biology, The Arctic University of Norway.

Lalli CM (1970) Structure and function of the buccal apparatus of Clione limacina (Phipps) with a review of feeding in gymnosomatous pteropods. Journal of Experimental Marine Biology and Ecology 4(2):101–118. doi: 10.1016/0022-0981(70)90018-3

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Sexta Sevagem: Borboleta-do-Mar-Comum

por Piter Kehoma Boll

As pessoas amam nomear criaturas marinhas fazendo analogias com coisas encontradas em terra. A espécie de hoje é mais uma desse tipo, sendo a mais bem conhecida espécie das chamadas borboletas-do-mar e, portanto, conhecida como a borboleta-do-mar-comum. Ela não tem nada a ver com borboletas, no entanto, e seu nome científico, Limacina helicina, a descreve melhor.

A borboleta-do-mar-comum é um molusco, mais precisamente um gastrópode e, como tem concha, é um “caramujo”. Ela não se arrasta pelo fundo como a maioria dos caramujos, no entanto. Com uma concha espiral medindo somente 10 mm de diâmetro em média, ela vive na coluna d’água e às vezes é descrita como uma espécie planctônica. Ela pode nadar por conta própria, no entanto, porque seu pé carnoso é transformado em duas expansões chamadas parapódios que agem como duas grandes nadadeiras. Sua concha é transparente e as partes moles são principalmente roxas, apesar de os parapódios serem quase transparentes também.

A borboleta-do-mar-comum é mesmo uma criatura linda, não é? Foto de Russ Hopcroft, University of Alaska, Fairbanks.

O habitat da borboleta-do-mar-comum inclui as águas frias da região ártica, incluindo o Oceano Ártico e áreas vizinhas dos oceanos Pacífico e Atlântico. No Pacífico, ela pode ocorrer para o sul até o Japão e regiões mais ao norte dos Estados Unidos. Espécimes maiores tendem a habitar águas mais profundas, até 150 m de profundidade, enquanto os menores vivem mais perto da superfície, até uma profundidade de 50 m. Até bem recentemente, pensava-se que a borboleta-do-mar-comum também habitasse águas antárticas, mas estudos moleculares revelaram que as populações em torno da Antártica pertencem a outra espécie, Limacina antarctica.

Veja como elas conseguem bater suas asas com velocidade,

A dieta da borboleta-do-mar-comum inclui várias criaturas planctônicas menores, especialmente crustáceos pequenos, como náuplios (larvas) de copépodes, bem como dinoflagelados, ciliados e diatomáceas. Juvenis da própria espécie também são comuns, às vezes compondo o segundo item mais comum da dieta. Para capturar a comida, elas produzem uma teia esférica de muco que flutua acima delas na água. Esta teia captura outros organismos na coluna d’água e depois é sugada e comida pela borboleta-do-mar junto com as criaturas capturadas. Esta teia é muito difícil de ser observada durante o dia por causa da refração difusa, mas aparece claramente à noite. Quando perturbada por luz, no entanto, a borboleta-do-mar-comum tende a engolir sua teia rapidamente e afundar para escapar do perigo.

Uma borboleta-do-mar-comum com sua teia de muco esférica vista como uma concentração coval de partículas mais finas logo acima dela. Extraído de Gilmer & Harbinson (1986).

A fina concha da borboleta-do-mar-comum é constituída de aragonita, a qual é altamente solúvel e sensível a mudanças na temperatura e na acidificação da água. Estudos demonstraram que o esperado aumento da acidificação dos oceanos pelas mudanças climáticas induzidas por humanos provavelmente terá um impacto negativo em populações da borboleta-do-mar-comum e espécies relacionadas. Isso é particularmente preocupante em relação à borboleta-do-mar-comum porque ela é uma espécie-chave nos ecossistemas árticos, sendo uma fonte de alimento importante para muitos animais marinhos, como peixes, baleias, aves e até outros moluscos.

Esse caramujinho não vai se dar por vencido tão facilmente, no entanto. Estudos mostraram que o periostraco (a camada externa orgânica da concha) pode impedir que a aragonita se dissolva e que um trauma físico que quebre o periostraco, permitindo contato direto da aragonita com a água, é necessário para causar a dissolução. E mesmo quando isso acontece, a borboleta-do-mar-comum pode compensar construindo novas camadas de aragonita na superfície interna da concha e consegue extrair aragonita da água para esse propósito mesmo quando os níveis na água estão muito baixos.

A borboleta-do-mar-comum é pequena mas também é durona.

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Referências:

Corneau S, Alliouane S, Gattuso JP (2012) Effects of ocean acidification on overwintering juvenile Arctic pteropods Limacina helicina. Marine Ecology Progress Series 456:279–284. doi: 10.3354/meps09696

Comeau S, Jeffree R, Teyssié JL, Gattuso JP (2010) Response of the Arctic pteropod Limacina helicina to projected future environmental conditions. PLoS One 5(6):e11362. doi: 10.1371/journal.pone.0011362

Gilmer RW, Harbinson GR (1986) Morphology and field behavior of pteropod molluscs: feeding methods in the families Cavoliniidae, Limacinidae and Peraclididae (Gastropoda: Thecosomata). Marine Biology 91:47–57. doi: 10.1007/BF00397570

Gilmer RW, Harbinson GR (1991) Diet of Limacina helicina (Gastropoda: Thecosomata) in Arctic waters in midsummer. Marine Ecology Progress Series 77:125–134.

Lischka S, Büdenbender J, Boxhammer T, Riebesell U (2011) Impact of ocean acidification and elevated temperatures on early juveniles of the polar shelled pteropod Limacina helicina: mortality, shell degradation, and shell growth.  Biogeosciences 8:919–932. doi: 10.5194/bg-8-919-2011

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De dor de cabeça a enxaqueca: Xenacoelomorpha é um clado bilateral basal ou um grupo de deuterostômios bizarros?

por Piter Kehoma Boll

Sete anos atrás eu discuti a posição filogenética de Acoelomorpha e seus parentes próximos, Xenoturbella, que juntos formam o clado Xenacoelomorpha. Sendo animais bilaterais muito simples que não possuem quase nenhuma das principais estruturas comuns à maioria dos outros bilaterais, sua posição filogenética exata é geralmente considerada basal dentro de Bilateria, mas a ideia de que são deuterostômios foi levantada depois que alguns estudos moleculares os agruparam dentro do clado Ambulacraria, que inclui equinodermos e hemicordados.

Pertencer aos deuterostômios significaria que Xenacoelomorpha sofreu uma gigantesca simplificação de sua anatomia. Lá em 2013, quando escrevi o outro artigo, isso estava causando bastante controvérsia, mas, pouco depois, novos estudos moleculares confirmaram a posição basal de Xenacoelomorpha e ficou meio que bem aceito que eles eram, de fato, o clado mais basal de Bilateria.

Uma versão simplificada da árvore da vida animal mostrando a posição incerta de Xenacoelomorpha. A posição de Placozoa e Ctenophora também não é muito clara.*

Mas uma vez problemático, sempre problemático.

Em 2019, um novo estudo que tentou antecipar os erros sistemáticos durante estudos de filogenia molecular, tal como atração de ramos longos, concluiu que a posição basal de Xenacoelomorpha é um artefato e que, quando se tenta minimizar os erros, sua posição como grupo irmão de Ambulacraria se torna clara. Contudo a árvore deles também sugere que Deuterostomia não seja monofilético, já que os cordados aparecem como grupo irmão de Protostomia e Xenacoelomorpha+Ambulacraria é o grupo mais basal, isto é, o grupo irmão do resto dos Bilateria. Contudo a ideia de Deuterostomia não ser monofilético é bem inesperada.

Como mencionei no meu último post, o principal problema em Xenacoelomorpha aparecer dentro de Deuterostomia tem a ver com sua supersimplificação. Eles não têm quase nada que um bilateral típico tem. O que os teria forçado a se tornarem tão simples?

Xenoturbella japonica, um xenacelomorfo. Créitos a Nakano et al. (2017).*

Outro estudo recente sugere que, no caso de Xenoturbella ao menos, isso pode ser o resultado de seus hábitos de se enterrar num substrato macio. Eles comparam Xenoturbella a nudibrânquios, entre os quais algumas espécies possuem estilos de vida similares. Um desses nudibrânquios, Xenocratena, foi na verdade descoberto mais ou menos na mesma época que Xenoturbella vivendo no mesmo ambiente que ela. Eles possuem uma anatomia pedomórfica (mais simplificadas, “de bebê”) em comparação a outros nudibrânquios. Contudo ela não é de forma alguma tão simples quanto a de Xenoturbella.

O nudibrânquio cavador Xenocratena suecica. Créditos a Martynov et al. (2020).*

Por outro lado, há outro gênero de nudibrânquios que é de fato supersimplificado, Pseudovermis, e ele vive enterrado em substrato macio também. Análises moleculares revelaram que Pseudovermis não é proximamente relacionado a Xenocratena, mas a Cumanotus, outro nudibrânquio que se enterra, o que sugere que esta simplificação ocorreu duas vezes entre os nudibrânquios.

Relações filogenéticas entre nudibrânqios. Veja Pseudovermis and Cumanotus a 2 horas e Xenocratena a 7 horas. Créditos a Martynov et al. (2020).*

Isso não é evidência de que Xenoturbella é um deuterostômio simplificado, mas e um bom argumento. Mas e quanto às simplificações em Acoelomorpha? Penso que se Xenoturbella não fosse proximamente relacionada a Acoelomorpha, eu estaria mais disposto a aceitar essa hipótese. Meu coração tende para a hipótese de Xenacoelomorpha basal, no entanto. Contudo, como qualquer cientista, aceitarei Xenacoelomorpha como deuterostômios se forem apresentadas evidências suficientes.

Xenoturbella é sempre o problema principal nesta equação. O sistema nervoso de Acoelomorpha, por exemplo, apesar de simplificado, tem meio que o padrão básico encontrado em todos os bilaterais e poderia ter evoluído do anel oral de um ancestral similar a um cnidário de acordo com algumas hipóteses. En Xenoturbella, no entanto, o sistema nervoso é muito mais estranho, sendo formando por uma rede difusa simples de neurônios abaixo da pele. Acho que abordar a organização do sistema nervoso em todos esses grupos é um bom tópico para outra postagem.

Se há uma coisa, na minha opinião, que faz a posição de Xenacoelomorpha dentro Deuterostomia ser algo convincente é o fato de muitas características de Deuterostomia parecerem ser mais primitivas dentro de Bilateria quando comparadas àquelas de Protostomia, de forma que a posição de Xenacoelomorpha entre os Deuterostomia é mais plausível que sua posição dentro de Protostomia (apesar de isso nem mesmo ser mais considerado uma possibilidade). Tendemos a pensar que deuterostômios são mais “derivados” simplesmente porque humanos são deuterostômios. Mas esta discussão também e assunto para outra postagem.

O que você acha? Você é time basal ou time deuterostômio?

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Referências:

Cannon JT, Vellutini BC, Smith J, Ronquist F, Jonfelius U, Hejnol A (2016) Xenacoelomorpha is the sister group to Nephrozoa. Nature 530: 89–93. doi: 10.1038/nature16520

Jondelius U, Raikova OI, Martinez P (2019) Xenacoelomorpha, a Key Group to Understand Bilaterian Evolution: Morphological and Molecular Perspectives. In: Pontarotti P (ed) Evolution, Origin of Life, Concepts and Methods. Cham: Springer International Publishing, . pp. 287–315. doi: 10.1007/978-3-030-30363-1_14

Martynov A, Lundin K, Picton B, Fletcher K, Malmberg K, Korshunova T (2020) Multiple paedomorphic lineages of soft-substrate burrowing invertebrates: parallels in the origin of Xenocratena and Xenoturbella. PLoS ONE 15(1): e0227173. doi: 10.1371/journal.pone.0227173

Philippe H, Poustka AJ, Chiodin M, et al. (2019) Mitigating Anticipated Effects of Systematic Errors Supports Sister-Group Relationship between Xenacoelomorpha and Ambulacraria. Current Biology 29(11):1818–1826. doi: 10.1016/j.cub.2019.04.009

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Sexta Selvagem: Amêijoa-Asiática

Desde que os humanos apareceram na Terra e começaram a migrar, carregaram outras espécies com eles para novas localidades. Isto fez os humanos não serem a única espécie a se tornar invasora e, nos últimos séculos, com a movimentação humana pelo planeta se tornando mais e mais intensa, espécies invasoras se tornaram mais e mais comuns.

Entre os moluscos bivalves, duas espécies invasoras bem populares são o mexilhão-zebra e o mexilhão-dourado, mas eles não são os únicos. Há um bivalve pequeno que não é tão frequentemente um incômodo para atividades humanas, mas certamente é um problema para espécies nativas, a chamada amêijoa-asiática, Corbicula fluminea.

Uma amêijoa-asiática em Hong Kong. Foto de Tommy Hui.*

A amêijoa-asiática é nativa do leste da Ásia onde vive enterrada no sedimento de rios, preferindo sedimentos arenosos em águas ricas em oxigênio. Sua pequena concha bivalve mede até 5 cm, apesar de a maioria dos espécimes adultos ter cerca de 3 cm de comprimento. Elas possuem uma cor que varia do marrom ao dourado, às vezes combinados, mas as camadas de cor podem descamar, causando manchas brancas.

O alimento da amêijoa-asiática consiste principalmente de fitoplâncton que ela filtra do sedimento. Populações humanas do leste da Ásia, como os chineses e coreanos, frequentemente usam a amêijoa-asiática como fonte de alimento. Durante o século XX, quando muitas pessoas do leste da Ásia migraram para outros países, a amêijoa-asiática foi levada com eles para ser criada como alimento. Como resultado, o molusco foi introduzido em bacias hidrográficas das Américas do Norte e do Sul e passou a se dispersar rapidamente.

A amêijoa-asiática não é tão tolerante a mudanças ambientais quanto outros bivalves invasores, mas sua vantagem é sua reprodução rápida. Apesar de haver linhagens tanto hermafroditas quanto dioicas, as populações invasoras são todas hermafroditas. A fertilização ocorre dentro do corpo da amêijoa mãe e as larvas se desenvolvem dentro dela, sendo liberadas já como pequenos indivíduos com concha.

Os primeiros registros desta espécie na América do Norte são de áreas na costa oeste dos Estados Unidos nos anos 1920. Um século mais tarde, a espécie é encontrada pelo país todo, tendo atingido a costa leste em menos de quatro décadas, e indo ao norte até o Canadá e ao sul até o México e a América Central.

Amêijoa-asiática em Massachusetts, EUA. Foto do usuário jfflyfisher do iNaturalist.*

Na América do Sul, a espécie foi introduzida simultaneamente no rio La Plata entre a Argentina e o Uruguai e no rio Jacuí no sul do Brasil nos anos 1970. Atualmente, menos de 50 anos depois, ela é encontrada tão ao norte quanto a Colômbia e para o sul até a Patagônia. A espécie também foi introduzida na Europa, na África e na Austrália.

Conchas coletadas no rio La Plata, em Buenos Aires, Argentina. Foto de Diego Gutierrez Gregoric.*

O principal impacto causado pela invasão da amêijoa-asiática é que ela compete com bivalves nativos, frequentemente levando a extinções locais, o que é uma grande ameaça especialmente para espécies raras, as quais podem desaparecer em poucas décadas. Apesar de impactos em atividades humanas não serem tão comuns, há casos de grandes números de indivíduos entupindo canos e outras estruturas.

Uma concha na Colômbia. Foto do usuário gerardochs do iNaturalist.*

Visto que há registros fósseis de espécies do gênero Corbicula na América do Norte, uma hipótese foi levantada sugerindo que, em vez de uma invasão, a disseminação da amêijoa-asiática neste continente é na verdade uma recolonização seguinte à última glaciação e que estes indivíduos podem ser o resultado de pequenas populações que se mantiverem de alguma forma ocultas. No entanto é muito pouco provável que a espécie tenha permanecido escondida em populações muito pequenas por milhares de anos para subitamente começar a se espalhar como o diabo em poucas décadas. Os humanos é que carregam a culpa, como sempre.

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Referências:

Araujo R, Moreno D, Ramos MA (1993) The Asiatic clam Corbicula fluminea (Müller, 1774) (Bivalvia: Corbiculidae) in Europe. American Malacological Bulletin 10(1): 39–49.

Planeta Invertebrados. Corbícula. Available at < http://www.planetainvertebrados.com.br/index.asp?pagina=especies_ver&id_categoria=27&id_subcategoria=0&com=1&id=143 >. Access on 13 February 2020.

Sousa R, Antunes C, Guilhermino L (2008) Ecology of the invasive Asian clam Corbicula fluminea (Müller, 1774) in aquatic ecosystems: an overview. Annales de Limnologie 44(2): 85–94. doi: 10.1051/limn:2008017

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Sexta Selvagem: Nerita-Preta-Havaiana

por Piter Kehoma Boll

O mar é tão cheio de formas de vida diferentes que é difícil deixá-lo uma vez que estamos nele. Assim, continuaremos no mar esta semana, mas indo para o meio o Oceano Pacífico, mais precisamente para as ilhas do Havaí. Ali, na praia, podemos achar a espécie de hoje.

Um agregado de Nerita picea em Kauai. Foto de Phil Liff-Grief.*

Chamada Nerita picea, ela é um pequeno caramujo encontrado em praias rochosas pela maior parte do Havaí, geralmente em agregados. Ela é comumente chamada de nerita-preta-havaiana, mas os havaianos nativos a chamam de pipipi.

Conchas vazias da nerita-preta-havaiana. Foto de Donna Pomeroy.**

A nerita-preta-havaiana mede cerca de 1 cm de comprimento e sua concha é externamente preta com cristas espirais, às vezes com uma fina linha mais clara correndo entre elas, e frequentemente com um tom esbranquiçado na ponta da espiral. Suas cristas são relativamente pouco marcadas quando comparada com outras espécies de nerita. Internamente a concha é branca. As partes moles do corpo também são em sua maioria pretas e assim é o opérculo, a tampa que fecha a abertura da concha quando o caramujo se retrai. O pé, no entanto, é mais claro. Quando um animal vivo é pego, ele se retrai rapidamente para dentro da concha, cobrindo a abertura com o opérculo e deixando uma margem branca ao seu redor.

Um espécime vivo com as partes moles visíveis. Foto de  Isaac Lord.**

Como a maioria dos caramujos da zona entre-marés, a nerita-preta-havaiana é herbívora e come as algas crescendo nas rochas. Ela prefere viver na zona onde as ondas quebram ou ligeiramente acima desta, diferente de seu parente mais próximo, Nerita plicata, que vive na zona superior, evitando as ondas.

Devido à sua distribuição tropical, a nerita-preta-havaiana se reproduz continuamente ao longo do ano. Não existe dimorfismo sexual entre machos e fêmeas, o que é, eu acho, “a regra” para caramujos.

A nerita-preta-havaiana era tradicionalmente usada como alimento pelos nativos havaianos e suas conchas podem ser encontradas em grande número em sítios arqueológicos do arquipélago, que datam de mais de mil anos no passado. Conchas vazias da nerita-preta-havaiana também são comumente usadas por pequenos caranguejos eremitas do gênero Calcinus.

Caranguejos-eremitas Calcinus usando as conchas de neritas-pretas-havaianas mortas. Foto de CA Clark.***

Apesar de ser uma espécie comum no Havaí e ter uma importância histórica como alimento, pouco parece ser conhecido sobre a história de vida da nerita-preta-havaiana.

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Referências:

Dye T (1994) Apparent ages of marine shells: implications for archaeological dating in Hawai’i. Radiocarbon 36(1):51–57.

Frey MA (2010) The relative importance of geography and ecology in species diversification: evidence from a tropical marine intertidal snail (Nerita). Journal of Biogeography 37:1515–1528. doi: 10.1111/j.1365-2699.2010.02283.x

Pfeiffer CJ (1992) Intestinal Ultrastructure of Nerita picea (Mollusca: Gastropoda), an Intertidal Marine Snail of Hawaii. Acta Zoologic 73(1):39–47. doi: 10.1111/j.1463-6395.1992.tb00947.x 

Reese ES (1969) Behavioral adaptations of intertidal hermit crabs. American Zoologist 9(2):343–355. doi: 10.1093/icb/9.2.343

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*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição Não Comercial e Compartilhamento Igual 4.0 Internacional.

**Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição Não Comercial 4.0 Internacional

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Sexta Selvagem: Caramujo-Pião-Morango

por Piter Kehoma Boll

Olhe para essa coisa:

É tão lindamente vermelha como um morango que sinto minha boca salivar e um desejo de mordê-la. Mas em vez de uma fruta doce e suculenta como um morango, é uma concha salgada e dura da espécie Clanculus puniceus, que possui o nome comum apropriado de caramujo-pião-morango.

Esta espécie é encontrada no Oceano Índico ao longo da costa leste da África, do Mar Vermelho ao Cabo Agulhas, incluindo ilhas próximas como Madagascar e as Mascarenas. Ela pertence à família Trochidae, comumente chamados de concha-pião ou caramujo-pião porque a concha lembra o brinquedo com esse nome.

Caramujo-pião-morango na África do Sul. Foto do usuário jaheymans do iNaturalist.*

A concha do caramujo-pião-morango mede, no adulto, pelo menos 15 mm de diâmetro, atingindo até 23 mm, e possui uma linda cor vermelha, causada por uroporfirinas, que varia de vermelho-alaranjado a carmesim. A espiral da concha, quando vista de cima, possui uma linha formada por pontos pretos, causados por melanina, intercalados por dois ou três pontos brancos. Quando vista de baixo, há duas linhas adicionais com esse padrão que correm lado a lado perto da abertura da concha.

A concha vista de vários ângulos. Foto de H. Zell.**

Como de costume entre caramujos-piões, o caramujo-pião-morango vive nas zonas entre-marés e sublitoral e se alimenta de algas que raspa das rochas usando sua língua dentada (a rádula). Eles são dioicos, isto é, há indivíduos machos e fêmeas, como de costume entre caramujos marinhos, mas não existe dimorfismo sexual.

Devido à sua beleza, a concha do caramujo-pião-morango é altamente desejada por colecionadores de conchas. Contudo pouco se sabe sobre a história natural desta espécie em particular. Eu nem mesmo consegui encontrar uma fotografia na qual o caramujo em si é visível.

Esta foi a única fotografia que encontrei em que a parte mole do corpo de um caramujo do gênero Clanculus é visível. A espécie, de Taiwan, não foi identificada. Foto de Cheng Te Hsu.***

Se você trabalha com esta espécie ou pelo menos possui uma fotografia de um espécime vivo mostrando o caramujo dentro da concha, por favor, compartilhe! Precisamos de mais informação disponível sobre as maravilhosas criaturas que compartilham este planeta conosco.

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Mais caramujos marinhos:

Sexta Selvagem: Lapa-Ornada (em 3 de maio de 2019)

Sexta Selvagem: Cone-Tulipa (em 29 de dezembro de 2017)

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Referências:

Herbert DG (1993) Revision of the Trochinae, tribe Trochini (Gastropoda: Trochidae) of southern Africa. Annals of the Natal Museum 34(2): 239–308.

Wikipedia. Trochidae. Available at < https://en.wikipedia.org/wiki/Trochidae >. Access on 29 July 2019.

Williams ST, Ito S, Wakamatsu K, Goral T, Edwards NP, Wogelius RA, Henkel T, Oliveira LFC, Maia LF, Strekopytov S, Jeffries T, Speiser DI, Marsden JT (2016) Identification of Shell Colour Pigments in Marine Snails Clanculus pharaonius and Cmargaritarius (Trochoidea; Gastropoda). PLoS ONE 11(7): e0156664. doi: 10.1371/journal.pone.0156664

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Sexta Selvagem: Lapa-Ornada

por Piter Kehoma Boll

Gastrópodes são a classe de animais mais rica em espécies na Terra depois dos insetos, mas faz muito tempo desde que apresentei o último. Então hoje vou trazer um da costa da Nova Zelândia, a lapa-ornada Cellana ornata.

Duas lapas-ornadas na costa de Northland, Nova Zelândia. Foto do usuário pedromalpha do iNaturalist.*

Seu corpo em forma de cone, como na maioria das lapas, possui um padrão característico que pode ser usado para reconhecê-la. Há uma série de cristas elevadas correndo do centro escuro em direção às margens da concha. Geralmente há onze delas e elas possuem um tom alaranjado, às vezes muito intenso, quase vermelho ou marrom, e às vezes bem fraco, quase branco. A região entre as cristas é mais escura, geralmente preta, e possui uma fileira de nódulos correndo paralela às cristas, às vezes com uma fileira de nódulos adicionais menores de cada lado. O padrão pode ser obscurecido por organismos crescendo na concha, especialmente algas e cracas.

Uma lapa-ornada coberta de cracas. Foto do usuário pedromalpha do iNaturalist.*

Como de costume entre lapas, a lapa-ornada vive na zona entremarés na superfície de rochas. Ela se alimenta de algas crescendo no substrato, raspando-as da rocha usando sua rádula, a língua dentada dos gastrópodes. Quando as ondas estão batendo nas rochas ou a rocha é exposta ao sol e está secando, a lapa-ornada baixa a concha contra o substrato e se mantém firmemente presa usando seu pé poderoso. Somente quando as condições são ideais, isto é, quando a rocha esta está molhada e sem ondas fortes, é que a lapa-ornada se desloca.

Um belo espécime da lapa-ornada na Ilha Stweart. Foto do usuário naturewatchwidow do iNaturalist.**

A lapa-ornada vive cerca de dois anos e sua reprodução acontece durante o verão, por volta de fevereiro, o que significa que cada indivíduo reproduz no máximo duas vezes antes de morrer. Condições ambientais provavelmente afetam a longevidade, porque espécimes vivendo em rochas menos expostas possuem um metabolismo mais elevado que aqueles habitando um substrato que está constantemente sujeito à dessecação e que os força a ficaram inativos por longos períodos.

Comparada a outras espécies proximamente relacionadas, a lapa-ornada possui uma vida curta e poucos eventos reprodutivos. Mesmo assim, ela ainda é uma espécie comum pela Nova Zelândia, tendo desenvolvido uma fecundidade elevada que a permite proliferar.

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Referências:

Dunmore RA, Schiel DR (2000) Reproduction of the intertidal limpet Cellana ornata in southern New Zealand. New Zealand Journal of Marine and Freshwater Research 34(4): 653–660. doi: 10.1080/00288330.2000.9516966

Smith SL (1975) Physiological ecology of the limpet Cellana ornata (Dillwyn). New Zealand Journal of Marine and Freshwater Research 9(3): 395–402. doi: 10.1080/00288330.1975.9515575

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