Arquivo do mês: outubro 2017

Sexta Selvagem: Centelha-do-mar

por Piter Kehoma Boll

Se você vive perto do mar ou o visita com frequência, você pode às vezes ter visto as ondas brilharem enquanto quebram na praia à noite. Esse belo fenômeno é causado pela presença de microrganismos bioluminescentes, o mais famoso dos quais é o integrante da Sexta Selvagem de hoje. Cientificamente conhecida como Noctiluca scintillans, ela pode também ser chamada de centelha-do-mar.

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Ondas brilhando azuis em Atami, Japão. Foto de Kanon Serizawa.*

A centelha-do-mar é um dinoflagelado e é comum pelo mundo todo. Ela é um flagelado heterótrofo e se alimenta de muitos outros organismos pequenos, tal como bactérias, diatomáceas, outros dinoflagelados e até mesmo de ovos de copépodes e peixes. Tendo apenas um pequeno tentáculo e um flagelo rudimentar, a centelha-do-mar é incapaz de nadar, tornando-a um predador bem incomum. Estudos sugeriram que ela se alimenta ao esbarrar na presa durante o fluxo da água ou ao subir e descer na coluna d’água devido a diferenças de densidade. Ela também pode produzir um fio de muco preso ao tentáculo que enovela a presa e a traz para seu fim terrível.

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Uma Noctiluca scintillans isolada. Foto de Maria Antónia Sampayo, Instituto de Oceanografia, Faculdade Ciências da Universidade de Lisboa.**

Em águas temperadas, a centelha-do-mar é exclusivamente um predador, mas em águas tropicais ela pode conter algumas algas ingeridas que continuaram vivas e as usa em uma associação simbiótica para receber nutrientes da fotossíntese. Diatomáceas do gênero Thalassiosira parecem estar entre suas favoritas.

A característica mais marcante da centelha-do-mar, no entanto, é sua bioluminescência, de onde ela recebe seus nomes. A luz que ela emite é produzida por uma reação química entre um composto chamado luciferina e uma enzima, chamada luciferase, que a oxida, causando a emissão de luz. O fenômeno é claramente visível no mar durante florações do dinoflagelado, o que geralmente acontece logo depois de uma floração de seu alimento.

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Referências:

Kiørbe, T.; Titelman, J. (1998) Feeding, prey selection and prey encounter mechanisms in the heterotrophic dinoflagellate Noctiluca scintillansJournal of Plankton Research 20(8): 1615–1636.

Quevedo, M.; Gonzalez-Quiros, R.; Anadon, R. (1999) Evidence of heavy predation by Noctiluca scintillans on Acartia clausi (Copepoda) eggs of the central Cantabrian coast (NW Spain). Oceanologica Acta 22(1): 127–131.

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Sexta-Selvagem: Rádula-chata

por Piter Kehoma Boll

Vez após vez, se queremos entender todas as nuances da vida na Terra, temos que olhar para as coisas pequenas que vivem perto do chão ou na casca das árvores. E uma dessas pequenas criaturas é a rádula-chata, Radula complanata.

Crescendo em rochas ou árvores, a rádula-chata é bem comum no hemisfério norte, especialmente na América do Norte e na Eurásia, e pertence a um grupo diverso mas escondido de hepáticas.

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Radula complanata crescendo no tronco de um freixo (Fraxinus excelsior) na Inglaterra. Créditos a BioImages – the Virtual Fieldguide (UK).*

Na Europa, a rádula-chata ocorre em florestas densas, onde encontra abrigo da exposição direta ao sol. Nas florestas, ela mostra uma clara preferência para crescer em árvores e arbustos de folhas largas, como o salgueiro-de-cabra Salix caprea e seus híbridos. Ela geralmente cresce amigavelmente com outras hepáticas epífitas na mesma árvore, apesar de não muito aglomeradas.

Apesar de ser geralmente inofensiva, a rádula-chata pode causar irritação na pele (mais precisamente, dermatite de contato) quando manipulada, o que parece estar relacionado com a presença de certos alcaloides, como bibenzis, em seus tecidos.

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Referências:

Asakawa, Y.; Kusube, E.; Takemoto, T.; Suire, C. (1978) New Bibenzyls from Radula complanataPhytochemistry, 17: 2115–2117. https://dx.doi.org/10.1016/S0031-9422(00)89292-4

Heylen, O.; Hermy, M. (2008) Age structure and Ecological Characteristics of Some Epiphytic Liverworts (Frullania Dilatata, Metzgeria Furcata and Radula Complanata). The Bryologist, 111(1): 84-97. https://doi.org/10.1639/0007-2745(2008)111[84:ASAECO]2.0.CO;2

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Sexta Selvagem: Lepidodermela-escamosa

por Piter Kehoma Boll

Do mais longo animal visto semana passada, hoje veremos um dos mais curtos. Medindo apenas 190 µm de comprimento, nossa camarada é chamada de Lepidodermella squamata, que eu transformei num nome “comum” como lepidodermela-escamosa.

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Um espécie de Lepidodermella squamata. Foto de Giuseppe Vago.*

A lepidodermela-escamosa pertence ao filo Gastrotricha, comumente conhecidos em inglês como hairybacks, traduzido como “costas-peludas”, que são todos microscópicos e distribuídos pelo mundo todo em ambientes aquáticos. Encontrada em ambientes de água doce do mundo todo, a lepidodermela-escamosa tem o tronco coberto de escamas, de onde o nome. Ela se alimenta de outros organismos pequenos, como algas, bactérias e leveduras, além de detritos.

Um dos aspectos mais interessantes da biologia da lepidodermela-escamosa é sua reprodução. Apesar de ser hermafrodita, esta espécie geralmente só produz quatro ovos durante a vida e esses se desenvolvem sem fertilização. Isso significa que a reprodução é partenogenética. Contudo, estranhamente, os indivíduos se tornam sexualmente maduros depois de porem os quatro ovos, produzindo esperma e às vezes pondo ovos adicionais, mas a maioria desses nunca eclode e, quando eclodem, produzem prole que raramente se torna adulta. A reprodução sexuada, portanto, seria teoricamente possível, mas nunca foi observada e não há formas conhecidas pelo qual o esperma poderia ser transferido de um indivíduo para o outro.

Esse desenvolvimento sexual tardio pode então não ser nada além de um vestígio do passado sexual. Talvez em futuras gerações esses traços desapareçam e não sobrará nada além da reprodução partenogenética.

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Referências:

Hummon, M. R. (1984) Reproduction and sexual development in a freshwater gastrotrich 1. Oogenesis of parthenogenetic eggs (Gastrotricha). Zoomorphology 104(1): 33–41. https://dx.doi.org/10.1007/BF00312169

Hummon, M. R. (1986) Reproduction and sexual development in a freshwater gastrotrich 4. Life history traits and the possibility of sexual reproduction. Transactions of the American Microscopical Society 105(1): 97–109. https://dx.doi.org/10.2307/3226382

Wikipedia. Lepidodermella squamata. Disponível em <https://en.wikipedia.org/wiki/Lepidodermella_squamata&gt;. Acesso em 3 de setembro de 2017.

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Uma rã extinta que continua viva

por Piter Kehoma Boll

Híbridos, como você deve saber, são organismos que surgem do cruzamento de dois indivíduos de espécies diferentes. Uma mula, por exemplo, é um híbrido bem conhecido entre um cavalo e um jumento. Híbridos geralmente são estéreis, apesar de nem todos, e alguns possuem uma forma bem peculiar de continuar a existir ao usar um processo chamado de hibridogênese.

Híbridos que dependem de hibridogênese funcionam da seguinte maneira: há duas espécies originais, vamos chamá-las de A e B. Quando elas copulam uma com a outra, elas produzem uma prole híbrida, AB, que tem metade dos genes de um dos pais e metade do outro. Em híbridos “normais”, tais criaturas são completamente estéreis, incapazes de produzir gametas viáveis, ou podem dar origem a novas espécies híbridas ao produzir gametas misturados. Contudo, neste tipo peculiar de híbridos, chamados cléptons, as coisas funcionam de forma diferente.

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Pelophylax kl. hispanicus, o portador de um tesouro. Foto de Andreas Thomsen.*

Quando cléptons estão produzindo gametas, eles nunca recombinam os genomas dos dois pais, mas excluem o genoma de um deles e produzem gametas que possuem o genoma do outro pai. Por exemplo, o híbrido AB produz apenas gametas A, enquanto o genoma B é excluído. Isso significa que se AB cruza com um parceiro da espécie A, a prole será formada de indivíduos A puros. Se cruza com B, a prole conterá apenas novos híbridos AB.

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A rã comestível Pelophylax kl. esculentus é um clépton formado pelo cruzamento de P. lessonae e P. ridibundus. O clépton só produz gametas de P. ridibundus, eliminando o genoma de P. lessonae durante a meiose. (Foto do usuário Darekk2 do Wikimedia).**

Essa forma de reprodução é muito comum em rãs do gênero Pelophylax, como o exemplo visto na imagem acima. Outro ponto interessante sobre cléptons é que eles geralmente são incapazes de cruzar com outro clépton. Eles dependem de uma das espécies parentais para se reproduzirem, portanto “parasitando”-as.

Um artigo recentemente publicado sobre rãs Pelophylax reporta um caso peculiar no qual uma das espécies parentais está extinta. O clépton, conhecido como Pelophylax kl. hispanicus, é o resultado de P. bergeri cruzando com uma espécie agora extinta de Pelophylax. O caso é que os gametas que P. kl. hispanicus produz são da espécie extinta, mas eles só podem fertilizar gametas de P. bergeri. Em outras palavras, poderíamos dizer que a espécie extinta ainda está viva dentro do clépton, dependendo de P. bergeri para passar para a geração seguinte.

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Pelophylax kl. hispanicus é um clépton que mantém vivo o genoma de uma espécie extinta. Imagem extraída de Dubey & Dufresnes (2017).**

Os autores sugerem que talvez pudéssemos encontrar uma maneira de trazer a espécie extinta de volta, separada de P. bergeri. Apesar de o resultado de cruzar dois P. kl. hispanicus seja uma prole estéril, eles pensam que tentativas contínuas podem acabar revelando uma eventual prole fértil. Vale a pena tentar? Talvez. Mas de qualquer forma, este é mais um aspecto fascinante da natureza, não concorda?

Quantas outras espécies extintas podem estar vivendo de forma similar, presas dentro de um híbrido?

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Referências:

Wikipedia. Hybridogenesis in water frogs. Disponível em <https://en.wikipedia.org/wiki/Hybridogenesis_in_water_frogs&gt;. Acesso em 12 de outubro de 2017.

Dubey, S.; Dufresnes, C. (2017) An extinct vertebrate preserved by its living hybridogenetic descendant. Scientific Reports 7: 12768. https://dx.doi.org/10.1038/s41598-017-12942-y

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Sexta Selvagem: Verme-Cordão-de-Bota

por Piter Kehoma Boll

Há muito tempo eu apresentei alguns dos extremos do mundo animal, incluindo o maior, o mais fofo e o mais pernudo. Agora é hora de apresentar outro extremo: o mais longo. E este animal é tão longo que parece impossível. Seu nome: Lineus longissimus, popularmente conhecido como verme-cordão-de-bota. Seu comprimento: até 55 metros.

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Um verme-cordão-de-bota emaranhado. Foto de Bruno C. Vellutini.*

O verme-cordão-de-bota é um membro do filo Nemertea, comumente conhecidos como nemertíneos ou, em inglês, ribbon worms, algo como vermes-fita-de-laço. Encontrado ao longo da costa do Oceano Atlântico na Europa, o verme-cordão-de-bota passa a maior parte do tempo contraído, formando o que parece um amontoado de fios de lã emaranhados que não tem mais do que 30 cm de um lado ao outro. Apesar de haver registros de vermes medindo mais de 50 m, a maioria é muito menor, com 30 m já sendo um tamanho bem grande. Sua largura é de cerca de 0.5 cm, de forma que ele é quase literalmente um cordão marrom comprido.

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Lineus longissimus fotografado na Noruega. Foto de Guido Schmitz.**

Como todos os nemertíneos, o verme-cordão-de-bota é um predador e caça sua presa entre as rochas de praias arenosas, atordoando-as com sua longa probóscide venenosa e  então engolindo-os inteiros. Macio e frágil, o verme-cordão-de-bota não tem como se proteger de predadores usando uma defesa física, mas é conhecido por ter uma série de toxinas diferentes na epiderme, incluindo algumas similares ao veneno mortal do baiacu, a tetrodotoxina (TTX), que é produzida por bactérias vivendo no muco que envolve o corpo do verme.

Agora, antes de partir, dê uma olhada nesse vídeo de um verme-cordão-de-bota engolindo um poliqueto:

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Referências:

Cantell, C.-E. (1976) Complementary description of the morphology of Lineus longissimus (Gunnerus, 1770) with some remarks on the cutis layer in heteronemertines. Zoologica Scripta 5:117–120. https://dx.doi.org/10.1111/j.1463-6409.1976.tb00688.x

Carroll, S.; McEvoy, E. G.; Gibson, R. (2003) The production of tetrodotoxin-like substances by nemertean worms in conjunction with bacteria. Journal of Experimental Marine Biology and Ecology 288: 51–63. https://dx.doi.org/10.1016/S0022-0981(02)00595-6

Gittenberger, A.; Schipper, C. (2008) Long live Linnaeus, Lineus longissimus (Gunnerus, 1770) (Vermes: Nemertea: Anopla: Heteronemertea: Lineidae), the longest animal worldwide and its relatives occurring in The Netherlands. Zoologische Mededelingen. Leiden 82: 59–63.

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