Arquivo do mês: dezembro 2012

Retallack sofre da síndrome de Williamson? A controvérsia da Ediacara terrestre

por Piter Kehoma Boll

Neste mês, um artigo publicado na Nature afirma que a famosa biota de Ediacara, um conjunto de fósseis do período Ediacarano (cerca de 635 a 542 milhões de anos atrás) da era Neoproterozóica, não é composta de criaturas marinhas, mas sim de líquens terrestres. Quem fez esta afirmação? Gregory Retallack, um geólogo da Universidade de Oregon.

Retallak trabalha nesta hipótese desde os anos 1990 e as principais evidências apresentadas por ele são relacionadas a aspectos geológicos, como a cor vermelha da rocha, que de acordo com ele teria origem terrestre. Outra afirmação é de que, se essas criaturas fossem animais de corpo mole, elas não teriam sido tão bem preservadas, sem compactação, já que alguns fósseis possuem características tridimensionais.

Bem, eu não sou geólogo e não tenho conhecimento suficiente para discutir do ponto de vista geológico, nem sou um especialista na biota de Ediacara, mas como biólogo eu acho que posso compartilhar alguns pensamentos.

Primeiro, pelo que parece, as ideias de Retallack não são aceitas pela maioria dos paleontólogos. No início, a visão inovadora da biota de Ediacara como terrestre era interessante, mas os argumentos para suportá-la não são suficientes e ainda há explicações mais simples e mais prováveis para os aspectos incomuns das rochas ediacaranas. Contudo isto não impediu Retallack de seguir com sua ideia e outros paleontólogos estão ficando cansados de revisar seus artigos.

Este comportamento lhe parece familiar? Ele de certa forma me lembra o de Williamson, de quem falei um tempo atrás, como você pode ler aqui.

Assim como Williamson insiste em sua ideia de hibridogênese apesar de todos os fatos apontarem em outras direções, da mesma forma Retallack insiste em sua hipótese de líquens terrestres.

Dickinsonia teria sido um líquen terrestre de acordo com Retallack. Foto pelo usuário Verisimilus da Wikipedia. Extraído de en.wikipedia.org

Dickinsonia teria sido um líquen terrestre de acordo com Retallack. Foto pelo usuário Verisimilus da Wikipedia. Extraído de en.wikipedia.org

Retallack afirma que fósseis como Dickinsonia e Charnia, apesar do seu plano corporal bilateralmente simétrico, eram líquens. Alguém conhece líquens tão simétricos? E para sustentar essa hipótese, ele simplesmente joga qualquer tipo de explicação “fúngica” para todos os fósseis, considerando os mais radialmente simétricos como colônias de bactérias e os mais semelhantes a animais como simples corpos de frutificação de fungos. E para explicar coisas como os fósseis de rastros, ele fala sobre lesmas terrestres (lesmas terrestres durante o Proterozoico? Sério?) ou mixomicetos.

Mas então pode-se pensar: ele possui qualquer referência para sustentar suas ideias? E a resposta é: com certeza, seus PRÓPRIOS trabalhos anteriores. Não há outros paleontólogos afirmando o mesmo além dele próprio. Isso se parece exatamente com o que eu chamo de síndrome de Williamson.

Tenho certeza que encontraremos algumas pessoas aceitando sua ideia, mais provavelmente leigos, e eles muito provavelmente usarão o argumento clássico de que “todas as grandes descobertas científicas começaram sendo rejeitadas pela maior parte da comunidade científica”. E eu direi isso de novo: Sim, muitas teorias foram rejeitadas inicialmente e depois provou-se estarem certas, mas você não pode se esquecer de que muito mais teorias foram rejeitadas e depois provou-se estarem erradas. E uma vez que você prova que algo é errado ou pelo menos muito, muito improvável, você deve pensar em outra explicação possível e mais provável e não seguir insistindo num conto de fadas.

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Referências:

Cobb, M. 2012. The enigmatic Ediacaran biota just got more enigmatic. Or did it? Why Evolution Is True. Disponível online em <http://whyevolutionistrue.wordpress.com/2012/12/20/the-enigmatic-ediacaran-biota-just-got-more-enigmatic-or-did-it/ >

Retallack, G. 2012. Ediacaran life on land. Nature. DOI: 10.1038/nature11777

Retallack, G. 2007. Growth, decay and burial compaction of Dickinsonia, an iconic Ediacaran fossil. Alcheringa: An Australasian Journal of Palaeontology, 31 (3), 215-240 DOI: 10.1080/03115510701484705

Switek, B. 2012. Controversial claim puts life on land 65 million years early. Nature. DOI:10.1038/nature.2012.12017

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Arquivado em Ecologia, Evolução, Paleontologia

Sexta Selvagem: Barata-americana

por Piter Kehoma Boll

Celebrando o fim do mundo, não haveria criatura mais adequada para ser apresentada no SS que a barata-americana, Periplaneta americana, tão famosa como um sobrevivente provável (ou possível) após um cataclismo global e, é claro, como uma das pragas domésticas mais conspícuas.

Apesar do seu nome, esta espécie não é nativa dos Estados Unidos ou de qualquer país das Américas, mas foi introduzida da África e atualmente é comum no mundo todo, especialmente em climas tropicais. Ela prefere lugares escuros e úmidos, como canos, esgotos, porões etc. Apesar de serem mais comuns em restaurantes, mercados, padarias, elas podem às vezes ser encontradas dentro de residências, geralmente vindo do esgoto pelo encanamento à noite.

Barata-americana (Periplaneta americana). Foto do usuário Termiteman da Wikimedia. Extraida de commons.wikimedia.org

Barata-americana (Periplaneta americana). Foto do usuário Termiteman da Wikimedia. Extraida de commons.wikimedia.org

O que a faz tão fácil de se adaptar a muitos ambientes é sua dieta generalista e oportunista. Baratas-americanas podem se alimentar de quase qualquer coisa, de todos os tipos de comida humana até papel, cabelo, tecido e até mesmo sapatos.

Visto que esta espécie se move de locais onde resíduos humanos são depositados para áreas que guardam alimentos, ela pode se tornar um problema de saúde pública, espalhando mais de 20 espécies de organismos patogênicos, incluindo bactérias, vírus, fungos, protozoários e vermes. Contudo, de outra perspectiva, seu papel ecológico como detritívoro pode estar ajudando esgotos humanos e outros meios de condução de resíduos a permanecerem funcionais ao consumir detritos e prevenir que eles fiquem obstruídos.

Diversos métodos são conhecidos para reduzir infestações por baratas, incluindo inseticidas ou controle biológico através de vespas parasitoides que põem ovos dentro das ootecas (os casulos de ovos) das baratas. A redução de áreas com umidade dentro e ao redor de prédios também pode prevenir infestações ao remover locais que são atrativos para estas pragas.

Há muitas divergências a respeito da longevidade das baratas-americanas, mas parece que elas podem viver mais de mil dias desde a eclosão e podem sobreviver mais de um mês sem água e comida.

Considerando tais aspectos, é lógico assumir que a barata-americana facilmente sobreviveria a uma catástrofe mundial e continuaria muito bem, talvez até tirando vantagem do súbito aumento de alimento disponível a partir dos cadáveres por todos os lados.

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Referências:

Barbara, K. A. 2011. American Cockroach, Periplaneta americana (Linnaeus) (Insecta: Blattodea: Blattidae). University of Florida, IFAS Extension, 5 p.

Jones, S. C. 2008. American Cockroach. The Ohio State University, 3 p.

Vianna, E. E. S.; Berne, M. E. A. & Ribeiro, P. B. 2001. Desenvolvimento e longevidade de Periplaneta americana Linneu, 1758 (Blattodea: Blattidae). Revista Brasileira de Agrociências, 7 (2), 111-115

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