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Pense nos vermes, não só nas baleias, ou: como uma planária salvou um ecossistema

por Piter Kehoma Boll

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Devido à massiva interferência de práticas humanas em habitats naturais durante as últimas décadas, a restauração de ecossistemas se tornou uma tendência para tentar salvar o que ainda é salvável. Infelizmente, o esforço de ecologistas e outros profissionais por si só não é suficiente para alcançar isso, e uma seção maior da sociedade precisa se engajar em ajudar a atingir estes objetivos. Para conseguir isso, é comum apelar à beleza e à fofura de espécies ameaçadas, que geralmente incluem mamíferos e aves, pois estes chamam a atenção do público mais facilmente. Contudo a maioria das espécies ameaçadas são invertebrados e outros seres menos carismáticos, e eles são frequentemente ignorados mesmo pelos biólogos.

Felizmente as coisas são capazes de mudar em relação a isso. Recentemente, a restauração do primeiro ecossistema direcionada a salvar um invertebrado foi bem-sucedida, e eu estou aqui para falar sobre isso.

O invertebrado em questão é uma planária de água doce chamada Dendrocoelum italicum. Ela foi descoberta em 1936 em uma caverna no norte da Itália chamada Bus del Budrio. Dentro da caverna, há uma pequena lagoa de água doce, com cerca de 5 × 5 m ou pouco mais, causada por uma cachoeira vindo de um pequeno córrego que chega por um corredor estreito elevado. A espécie aparentemente é encontrada somente nessa lagoa e em mais nenhum outro lugar.

Não há fotos disponíveis de Dendrocoelum italicum, mas ela deve ser parecida com a espécie Dendrocoelum lacteum vista aqui, mas D. italicum não possui olhos. Foto de Eduard Solà.*

Durante aos anos 1980, um cano foi instalado para desviar a água do córrego para uma fazenda nas proximidades. A cachoeira deixou de existir e a lagoa secou permanentemente. A planária sobreviveu em um riachinho bem estreito que se formou dentro da caverna e em algumas poças isoladas resultantes de gotejamento de água. A condição crítica da população foi descoberta em 2016 por um grupo de pesquisadores da Universidade de Milão. Eles informaram os administradores da caverna sobre a situação e, juntos, o time começou a conscientizar os cidadãos, que se beneficiavam de um reservatório formado pela água desviada, sobre a situação da caverna, o que levou o fazendeiro responsável pelo desvio da água a concordar em remover a estrutura artificial.

Imagem do interior da caverna. Foto de Livio Mola, extraída de
https://www.naturamediterraneo.com/forum/topic.asp?TOPIC_ID=57050

A remoção aconteceu em 3 de dezembro de 2016 depois que todas as planárias ocorrentes no riachinho foram coletadas e armazenadas em tanques plásticos dentro da caverna. Quando a cachoeira foi restaurada, ela rapidamente começou a preencher a antiga lagoa de novo e, um dia depois, as planárias foram liberadas dentro da lagoa.

O ecossistema foi monitorado durante os dois anos seguintes até janeiro de 2018. O número de planárias variou grandemente durante o levantamento, mas não foi significativamente maior após a restauração do que era antes. Contudo, houve um aumento significativo na população de uma espécie de bivalve, Pisidium personatum, e um pequeno aumento na população de um crustáceo do gênero Niphargus. Adicionalmente, anelídeos da família Haplotaxidae, que estavam ausentes na caverna, apareceram após a restauração. Assim, fica claro que o ecossistema se beneficiou com o reaparecimento da lagoa.

Graças aos esforços desses pesquisadores, a planária Dendrocoelum italicum agora tem mais chances de evitar a extinção. Contudo, este não é um caso isolado. Há muitas espécies de planárias de caverna pelo mundo inteiro vivendo em condições similares, geralmente restritas a apenas uma pequena lagoa dentro de uma única caverna. Muitas delas ocorrem, ou ocorriam, na Itália, mas a ajuda chegou muito tarde para elas. Por exemplo, uma espécie próxima, Dendrocoelum beauchampi, foi descoberta em 1950 em uma caverna no noroeste da Itália chamada Grotta di Cavassola, mas um levantamento recente não encontrou planárias na caverna, que parece ter sofrido grande alteração devido a atividades humanas. De forma similar, a espécie Dendrocoelum benazzi foi descoberta em 1971 na Itália central em uma caverna chamada Grotta di Stiffe, mas hoje em dia, com a caverna aberta a turistas e com sua água poluída, as planárias desapareceram. É bem provável que tanto D. beauchampi quanto D. benazzi estejam extintos. A situação é a mesma para outras espécies italianas.

Fora da Itália, uma espécie descrita vivendo em um ambiente pequeno similar é a planária de caverna brasileira Girardia multidiverticulata, que é conhecida de apenas uma pequena lagoa de 10 m² dentro de uma caverna chamada Buraco do Bicho no Bioma Cerrado.

Girardia multidiverticulata é uma espécie de planária restrita a uma pequena lagoa de 10 m² dentro de uma caverna do Cerrado brasileiro. Créditos a Souza et al. (2015).**

O caso de D. italicum demonstra que é possível salvar populações endêmicas pequenas de habitats ameaçados, mas precisamos da ajuda do público. Esperamos que outros ecossistemas tenham um final feliz similar.

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Referêmcias:

Manenti R, Barzaghi B, Lana E, Stocchino GA, Manconi R, & Lunghi E 2018. The stenoendemic cave-dwelling planarians (Platyhelminthes, Tricladida) of the Italian Alps and Apennines: conservation issues. Journal for Nature Conservation.

Manenti R, Barzaghi B, Tonni G, Ficetola GF, & Melotto A 2018. Even worms matter: cave habitat restoration for a planarian species increased environmental suitability but not abundance. Oryx: 1–6.

Souza ST, Morais ALN, Cordeiro LM, & Leal-Zanchet AM 2015. The first troglobitic species of freshwater flatworm of the suborder Continenticola (Platyhelminthes) from South America. Zookeys 470: 1–16.

Vialli PM 1937. Una nuova specie di Dendrocoelum delle Grotte Bresciane. Bollettino di zoologia 8: 179–187.

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*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 3.0 Não Adaptada.

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Sexta Selvagem: Peripato-de-Rowell

por Piter Kehoma Boll

Onicóforos formam um grupo intrigante de animais que são o grupo-irmão dos artrópodes e também o único filo animal com apenas espécies terrestres, apesar de espécies aquáticas serem conhecidas de registros fósseis.

Hoje decidi trazer uma espécie de onicóforo para ser nosso camarada da sexta. Cientificamente conhecido como Euperipatoides rowelli, decidi dar a ele o nome comum de peripato-de-Rowell.

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Um espécie do peripato-de-Rowell em laboratório. Foto de Alan Couch.*

O peripato-de-Rowell é encontrado no sudeste da Austrália habitando florestas temperadas úmidas. Eles são animais pequenos, com cerca de 5 cm de comprimento e vivem em madeira em decomposição, morando em rachaduras e se alimentando de invertebrados pequenos como cupins e grilos.

Os troncos caídos são geralmente habitados por grupos de vários indivíduos que vivem em um tipo de relação social e são compostos de fêmeas, machos e jovens, as fêmeas sendo maiores e ocorrendo em maior número que os machos. Uma espécie de organização social também parece ocorrer, com uma fêmea sendo dominante e seguida em dominância pelas outras fêmeas, com machos e jovens ocupando a base da pirâmide. A captura de presas geralmente ocorre em grupo e após a presa ser abatida, a fêmea dominante comerá primeiro e somente após estar saciada ela permitirá que as outras fêmeas comam. Machos e jovens comem os restos deixados pelas fêmeas.

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Bem-vindo ao nosso tronco! Foto de Andras Keszei.**

Troncos novos são colonizados por machos errantes. Estes liberam feromônios que atraem mais machos e posteriormente fêmeas. Assim, troncos recém-colonizados possuem uma agregação com mais machos, mas o número de fêmeas mais tarde ultrapassa o de machos. Foi sugerido que essa agregação inicial de machos os ajuda a atrair fêmeas devido ao aumento da concentração de feromônios.

Durante a reprodução, o macho deposita espermatóforos na pele da fêmea. Com a ajuda das células sanguíneas da fêmea, a parede corporal abaixo do espermatóforo é rompida e o esperma é liberado na cavidade corporal da fêmea, onde nada até o trato reprodutivo feminino.

Devido à sua abundância no sudeste da Austrália, o peripato-de-Rowell é uma espécie fácil de se obter e está aos poucos se tornando mais um organismo-modelo interessante.

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Referências:

Barclay S, Ash JE, Rowell DM (2000) Environmental factors influencing the presence and abundance of a log-dwelling invertebrate, Euperipatoides rowelli(Onychophora: Peripatopsidae)Journal of Zoology 250: 425–436.

Barclay S, Rowell DM, Ash Je (2000) Pheromonally mediated colonization patterns in the velvet worm Euperipatoides rowelli (Onychophora)Journal of Zoology 250: 437–446.

Reinhardt J, Rowell DM (2006) Social behavior in an Australian velvet worm, Euperipatoides rowelli(Onychophora: Peripatopsidae)Journal of Zoology 250: 1–7.

Sunnucks P, Curach NC, Young A, French J, Cameron R, Briscoe DA, Tait NN (2000) Reproductive biology of the onychophoran Euperipatoides rowelliJournal of Zoology 250: 447–460.

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Sexta Selvagem: Verme-listrado-de-verde

por Piter Kehoma Boll

Os parasitas são muito especiosos, e frequentemente eu sinto que não estou dando espaço suficiente para eles aqui, especialmente quando eu lhes trago um platelminto, que é provavelmente o grupo com o maior número de espécies parasitas. Então vamos falar de um deles hoje finalmente.

O pimeiro platelminto parasita que eu apresentarei a vocês é Leucochloridium paradoxum, o verme-listrado-de-verde. Ele é um membro do grupo Trematoda e, como todos os trematódeos, possui um ciclo de vida complexo.

Os adultos do verme-listrado-de-verde vivem no intestino de vários pássaros da América do Norte e da Europa. Os ovos que eles põem chegam ao ambiente através das fezes das aves e são eventualmente ingeridos por caracóis do gênero Succinea.

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Um indivíduo adulto de Leucochloridium paradoxum (esquerda), um hospedeiro intermediário infectado, um caracol do gênero Succinea (centro) e os esporocistos ao longo dos õgrãos internos do caracol (direita). Imagens não em escala. Extraído de http://medbiol.ru/medbiol/dog/0011a975.htm

Adultos de Leucochloridium paradoxum são muito similares aos adultos de outras espécies do gênero Leucochloridium. A principal diferença é vista nos estágios larvais. Dentro do corpo do caracol, os ovos eclodem no primeiro estágio larval, o miracídio, que dentro do sistema digestivo do caracol se desenvolve no próximo estágio, o esporocisto.

O esporocisto tem a forma de um saco longo e inchado que é marcado de listras verdes (de onde o nome). Ele é preenchido de cercárias, que são o próximo estágio larval. O esporocisto então migra em direção aos tentáculos dos olhos do caracol, invadindo-os e tornando-os uma estrutura inchada, colorida e pulsante que se assemelha a uma lagarta. Nesse estágio da infecção, o pobre caracol provavelmente está cego e não consegue evitar a luz como normalmente faz. Como resultado, ele fica exposto a aves que o confundem com uma suculenta lagarta e o comem com avidez.

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Um pobre caracol da espécie Succinea putris com um verme-listrado-de-verde em seu tentáculo ocular esquerdo. Só há um destino terrível para essa criatura. Foto de Thomas Hahmann.*

Quando o caracol é comido, o esporocisto arrebenta e várias cercárias são liberadas. No intestino da ave, elas se desenvolvem em adultos e recomeçam o pesadelo.

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Referências:

Rząd, I.; Hofsoe, R.; Panicz, R.; Nowakowski, J. K. (2014) Morphological and molecular characterization of adult worms of Leucochloridium paradoxumCarus, 1835 and L. perturbatum Pojmańska, 1969 (Digenea: Leucochloridiidae) from the great tit, Parus major L., 1758 and similarity with the sporocyst stages. Journal of Helminthology 88(4): 506-510. DOI: 10.1017/S0022149X13000291

Wikipedia. Leucochloridium paradoxum. Disponível em < https://en.wikipedia.org/wiki/Leucochloridium_paradoxum >. Accesso em 8 de março de 2018.

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Sexta Selvagem: Verme-Bobbit

por Piter Kehoma Boll

A espécie da Sexta Selvagem de hoje provavelmente se parece com uma criatura vinda diretamente do inferno para os pobres animais marinhos que são suas presas. Bem, ela parece bem assustadora até para humanos! Seu nome é Eunice aphroditois, um nome até que belo. Popularmente é conhecida como verme-Bobbit e se parece com um pesadelo multicolorido.

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Porção anterior de um verme-Bobbit saindo da areia. Foto de Jenny Huang.*

O verme-Bobbit é um verme poliqueto e é um dos maiores anelídeos conhecidos, com vários registros de indivíduos chegando a 1 m de comprimento e mesmo um registro de um espécime com quase 3 metros. Ele é encontrado em águas quentes do mundo todo, nos oceanos Atlântico, Índico e Pacífico.

Sendo um predador de emboscada, o verme-Bobbit se enterra no fundo do oceano, entre os sedimentos, e espera que uma refeição deliciosa nade sobre ele. Uma vez que a presa é detectada, o verme-Bobbit se projeta para a frente e a captura com seus dentes afiados.

O nome “Bobbit worm” foi cunhado e 1996 e se refere a Lorena Bobbitt, que se tornou publicamente conhecida em 1993 depois de cortar o pênis de seu marido com uma faca enquanto ele estava adormecido. O nome parece ser inspirado nas mandíbulas em forma de tesoura do verme e não tem nada a ver com as fêmeas cortando o pênis dos machos. De fato, esses vermes liberam os gametas na água, de forma que sequer há uma cópula.

Apesar de sua popularidade, sendo mesmo criado como “animal de estimação” às vezes, pouco se sabe sobre a ecologia do verme-Bobbit. Se você por acaso tem um em seu aquário, faça alguma pesquisa e a publique!

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Referências:

Uchida, H.; Tanase, H.; Kubota, S. (2009) An extraordinarily large specimen of the polychaete worm Eunice aphroditois (Pallas) (Order Eunicea) from Shirahama, Wakayama, central Japan. Kuroshio Biosphere 5: 9-5.

Wikipedia. Eunice aphroditois. Disponível em < https://en.wikipedia.org/wiki/Eunice_aphroditois >. Acesso em 31 de janeiro de 2017.

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Sabe de nada, humano! Um genoma de planária desafia nosso entendimento de como a vida funciona

por Piter Kehoma Boll

Finalmente temos uma sequência consideravelmente completa de um genoma de planária, mais precisamente da planária Schmidtea mediterranea, a qual é um importante organismo-modelo para o estudo de células-tronco e regeneração.

Caso você não saiba, planárias possuem uma admirável capacidade de regeneração, de forma que até mesmo pedacinhos pequenos são capazes de se regenerar em um organismo completo. Elas são como um Wolverine da vida real, só que mais legais! Essa incrível habilidade é possível graças à presença de um grupo de células-tronco chamadas neoblastos que podem se diferenciar em qualquer tipo celular encontrado no corpo da planária. De fato, todas as células diferenciadas em planárias são incapazes de sofrer mitose, de forma que os neoblastos são responsáveis por constantemente repor células em todos os tecidos. Mas não estamos aqui para explicar os detalhes da regeneração de planárias. Estamos aqui para falar sobre o genoma de Schmidtea mediterranea!

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Olhe pra esses olhinhos vesgos dizendo “eu vou destruir tudo que vocês acham que sabem, humanos!”. Foto de Alejandro Sánchez Alvarado.*

Um genoma consideravelmente completo de S. mediterranea foi recentemente publicado e sua análise revela algumas características impressionantes.

Para começar, 61,7% do genoma de S. mediterranea é formado de elementos repetidos. Elementos repetidos são basicamente sequências de DNA que ocorrem em múltiplas cópias através do genoma de um organismo. Pensa-se que eles tenham origem em DNA de vírus que foi incorporado ao DNA do hospedeiro. Em humanos, cerca de 46% do genoma é composto de elementos repetidos. A maior parte dos elementos repetidos de S. mediterranea pertence a famílias não identificadas de retroelementos, assim sugerindo que eles são de famílias novas ainda não descritas. Essas repetições são muito longas, tendo mais de 30 mil pares de bases, algo não conhecido em outros animais. O único outro grupo de elementos repetidos com um tamanho similar é encontrado em plantas e conhecido como OGRE (Origin G-Rich Repeated Elements, algo como “elementos repetidos de origem ricos em G”). A longa repetição encontrada em Schmidtea foi então chamada de Burro (Big, unknown repeat rivaling Ogre, ou seja “repetição grande e desconhecida rivalizando com Ogre).

Mas certamente a coisa mais surpreendente sobre o genoma de S. mediterranea é a falta de muitos genes conservados que são encontrados na maioria dos eucariontes e que se pensava serem essenciais para as células funcionarem apropriadamente.

Schmidtea mediterranea não possui alguns genes responsáveis pelo reparo de quebras de cadeias duplas (DSBs, double-stranded breaks) no DNA, o que as tornaria muito suscetíveis a várias mutações e sensíveis a qualquer coisa que induza DSBs. Contudo, planárias são conhecidas por terem uma resistência extraordinária a radiação gama que induz DSBs. Elas possuem outros mecanismos de reparo ou nosso entendimento atual sobre o processo é falho?

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Vários genes “essenciais” e sua presença (em verde) ou ausência (em vermelho) em vários animais. Schmidtea mediterranea não possui nenhum deles. Imagem extraída de Grohme et al. (2018).*

Outro gene importante que não foi encontrado em S. mediterranea é o gene da Ácido Graxo Sintase (FASN, fatty acid synthase), que é essencial para um organismo sintetizar novos ácidos graxos. Planárias, portanto, dependeriam de lipídios adquiridos da dieta. Este gene também está ausente em platelmintos parasitas e a princípio se pensava ser uma adaptação ao parasitismo, mas como ele está ausente também em espécies de vida livre, esse não parece ser o caso. Seria uma sinapomorfia de platelmintos, isto é, um caractere que identifica esse clado de animais?

Isso não é o bastante pra pequena Schmidtea, no entanto. Mais do que isso, essa adorável planária parece não ter os genes MAD1 e MAD2, que são encontrados em virtualmente todos os eucariontes. Esses genes são responsáveis pelo Ponto de Controle da Assembleia do Fuso (SAC, Spindle Assembly Checkpoint), um passo importante durante a divisão celular que previne que as duas cópias de um cromossomo se separem antes que todos estejam conectados ao aparato do fuso. Isso garante que os cromossomos sejam distribuídos igualmente em ambas as células-filhas. Erros neste processo levam a aneuploidia (o número errado de cromossomos em cada célula-filha), que é a causa de algumas desordens genéticas como a síndrome de Down em humanos. Planárias não têm problema em distribuir seus cromossomos apropriadamente, então o que está acontecendo? Elas desenvolveram um novo modo de prevenir o caos celular ou, de novo, nosso atual entendimento sobre esse processo é falho?

Vamos esperar pelos próximos capítulos.

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Referência:

Grohme, M. A.; Schloissnig, S.; Rozanski, A.; Pippel, M.; Young, G. R.; Winkler, S.; Brandl, H.; Henry, I.; Dahl, A.; Powell, S.; Hiller, M.; Myers, E.; Rink, J. C. (2018). “The genome of Schmidtea mediterranea and the evolution of core cellular mechanisms”. Nature. doi:10.1038/nature25473

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Xenoturbella, um grupo crescente de esquisitões

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por Piter Kehoma Boll

Vocês podem nunca ter ouvido falar da Xenoturbella, e eu não os culpo por isso. Apesar de ser uma característica fascinante da evolução, pouco é conhecido sobre ela e sua mágica tem sido escondida de muitos de nós.

A primeira Xenoturbella foi descrita em 1949 e chamada Xenoturbella bocki. Nesse tempo, ela era considerada um platelminto estranho, de onde seu nome, do grego xenos, estranho + turbella, de Turbellaria, os platelmintos de vida livre. Xenoturbella bocki é um animal marinho medindo até 3 cm de comprimento e se parecendo com um verme dobrado, porque seu corpo possui uma série de dobras correndo longitudinalmente que o fazem ter um formato de W em seção transversal.

Encontrada nas águas frias em torno do norte da Europa, seu corpo carece de um sistema nervoso centralizado, tendo apenas uma rede de neurônios dentro da epiderme. Também não há órgãos reprodutores ou qualquer coisa parecida com um rim ou outro órgão além de uma boca e um intestino e algumas estruturas na superfície.

Por décadas, X. bocki era a única espécie de Xenoturbella conhecida por nós. Uma segunda espécie foi descrita em 1999 como X. westbladi, mas análises moleculares revelaram que ela era a mesma espécie que X. bocki, então continuávamos tendo apenas uma espécie.  Graças a estudos moleculares, também descobrimos que Xenoturbella não é um platelminto de forma alguma, mas pertence a um grupo de animais bilaterais muito primitivos, estando proximamente relacionada a outro grupo de ex-platelmintos, os acelomorfos. Juntos, Xenoturbella e os acelomorfos (um bom nome para uma banda de rock, não é?), formam um grupo chamado Xenacoelomorpha.

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Xenoturbella churro, “cabeça” para a direita. Foto de Greg Rouse.*

Formando seu próprio filo (ou talvez classe se for agrupada em um filo único com os acelomorfos) chamado Xenoturbellida, X. bocki recentemente descobriu que não está sozinha no mundo. Em 2016, quatro novas espécies foram descritas das águas do Oceano Pacífico próximo às costas do México e dos EUA, sendo chamadas Xenoturbella monstrosaX. churroX. profundaX. hollandorum. Considerando-se o pequeno tamanho de X. bocki, algumas dessas eram monstros, especialmente X. monstrosa, que atinge 20 cm de comprimento!

Quatro novas espécies foi um achado e tanto. O filo subitamente era cinco vezes maior que antes. Sendo alguém particularmente interessado em grupos obscuros de animais, especialmente daqueles que outrora foram membros do adorável filo Platyhelminthes, eu fiquei muito animado com essa descoberta, mas não estava esperando o que aconteceria depois disso.

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Foto do único espécime conhecido de Xenoturbella japonica até agora. “Cabeça” para a esquerda. Créditos a Nakano et al. (2017).*

Em dezembro de 2017, mais uma espécie foi encontrada, dessa vez do outro lado do pacífico, perto do Japão. Chamada de Xenoturbella japonica, o quinto membro do gênero Xenoturbella é muito bem-vindo. A nova espécie foi baseada em dois espécimes, um espécime adulto “fêmea” (eles são hermafroditas? Não acho que podemos ter certeza ainda…) e um espécime jovem. Outra coisa empolgante é que o jovem pode na verdade ser ainda outra espécie! Mas precisamos de mais material para confirmar.

Você pode ler o artigo descrevendo Xenoturbella japonica aqui.

Veja também: Acoelomorpha, uma dor de cabeça filogenética.

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Referências:

Nakano, H.; MIyazawa, H.; Maeno, A.; Shiroishi, T.; Kakui, K.; Koyanagi, R.; Kanda, M.; Satoh, N.; Omori, A.; Kohtsuka, H. (2017) A new species of Xenoturbella from the western Pacific Ocean and the evolution of XenoturbellaBMC Evolutionary Biology17: 245. https://doi.org/10.1186/s12862-017-1080-2

Rouse, G.W.; Wilson N.G.; Carvajal, J.I.; Vrijenhoek, R.C. (2016) New deep-sea species of Xenoturbella and the position of Xenacoelomorpha. Nature, 530:94–7. doi:10.1038/nature16545.

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Sexta Selvagem: Catênula-da-lentilha-d’água

por Piter Kehoma Boll

Hoje temos mais um platelminto em nosso time. E ele é parte de um dos grupos mais bizarros de platelmintos, os chamados Catenulida. Nosso camarada se chama Catenula lemnae, que eu adaptei como “catênula-da-lentilha-d’água”.

A catênula-da-lentilha-d’água é um animal muito pequeno, medindo cerca de 0.1 mm de largura e cerca de 2 ou 3 vezes esse tamanho em comprimento. Ela é encontrada no mundo todo em lagos e poças de água doce e é provavelmente um complexo de espécies, mas estudos mais detalhados são necessários para tornar isso claro. Como outros catenulidos, ela vive perto do substrato, sendo considerada um animal bentônico, e se alimenta de outros organismos menores, como pequenos invertebrados e algas. Ela é geralmente uma espécie dominante na comunidade de microanimais bentônicos, tal como os microturbelários, nos lugares em que é encontrada.

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Uma cadeia de vários indivíduos (zooides) de Catenula lemnae conectados. Foto de Christopher Laumer.*

A palavra catenula, significando “pequena cadeia” em Latim, faz referência a esses animais por causa da sua peculiar forma de reprodução vegetativa. Os organismos frequentemente se dividem transversalmente perto da extremidade posterior, dando origem a novos organismos que são geneticamente idênticos ao original. Contudo os novos animais muitas vezes ficam conectados um ao outro por um bom tempo antes de se dividirem, e enquanto essa reprodução assexuada continua, ela eventualmente os transforma numa cadeia de indivíduos conectados (chamados zooides). Essa cadeia nada elegantemente usando seus cílios como se fosse um único indivíduo.

Estudos mais recentes que mencionam a catênula-da-lentilha-d’água são simplesmente levantamentos de composições de espécies de uma determinada área ou estudos filogenéticos amplos em catenulidos ou platelmintos em geral. Pouco é conhecido sobre a ecologia, o comportamento a e estrutura populacional desta espécie, infelizmente.

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Referências:

Braccini, J. A. L.; Leal-Zanchet, A. M. (2013)  Turbellarian assemblages in freshwater lagoons in southern Brazil. Invertebrate Biology132(4): 305–314. https://dx.doi.org/10.1111/ivb.12032

Marcus, E. (1945) Sôbre Catenulida brasileiros. Boletim da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, série Zoologia, 10: 3–113.

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