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A comunidade de planárias terrestres da FLONA-SFP e como elas conseguem conviver

por Piter Kehoma Boll

(Em primeiro lugar, eu gostaria que fosse o Bolsonaro, aquele pedaço de câncer em forma de diarreia, que estivesse morrendo queimado no lugar da Floresta Amazônica.)

(Agora vamos à postagem em si:)

A Floresta Nacional de São Francisco de Paula (FLONA-SFP) é uma unidade de conservação para uso sustentável no sul do Brasil. Ela era originalmente coberta de floresta de araucária, mas atualmente é composta de um mosaico de floresta nativa e plantações de árvores dos gêneros Araucaria, Pinus e Eucalyptus. Esta área de proteção é uma das principais áreas de estudo do Instituto de Pesquisas de Planárias da Unisinos, onde conduzi minhas pesquisas de iniciação científica, mestrado e doutorado.

Após estudarmos a comunidade de planárias terrestres da FLONA-SFP por muitos anos, concluímos que ela inclui um número consideravelmente alto de espécies. Dê uma olhada em algumas delas e como são legais:

Obama ladislavii, a planária-folha-de-Ladislau. Foto de Piter Kehoma Boll.*
Obama anthropophila, a planária-folha-urbana-marrom. Foto de Piter Kehoma Boll.*
Obama josefi, a planária-foolha-de-Josef. Foto de Piter Kehoma Boll.*
Obama ficki, a planária-folha-de-Fick. Foto de Piter Kehoma Boll.
Obama maculipunctata, a planária-folha-manchada-e-pintada. Foto de Piter Kehoma Boll.*
Cratera ochra, a planária-cratera-ocre. Foto de Piter Kehoma Boll.*
Luteostriata arturi, a planária-amarela-listrada-de-Artur. Créditos ao Instituto de Pesquisas de Planárias, Unisinos.**
Luteostriata ceciliae, a planária-amarela-listrada-de-Cecília. Foto de Piter Kehoma Boll.*
Luteostriata pseudoceciliae, a falsa-planária-amarela-listrada-de-Cecília. Créditos ao Instituto de Pesquisas de Planárias, Unisinos.**
Luteostriata ernesti, a planária-amarela-listrada-de-Ernst. Foto de Piter Kehoma Boll.*
Luteostriata graffi, a planária-amarela-listrada-de-Graff. Foto de Piter Kehoma Boll.*
Supramontana irritata, a planária-amarelada-irritada. Foto de Piter Kehoma Boll.*
Pasipha backesi, a planária-brilhante-de-Backes. Foto de Piter Kehoma Boll.*
Pasipha brevilineata, a planária-brilhante-de-linha-curta. Foto de Piter Kehoma Boll.*
Matuxia tymbyra, a planária-tupi-enterrada. Foto de Piter Kehoma Boll.*
Choeradoplana iheringi, a planária-de-pescoço-inchado-de-Ihering. Foto de Piter Kehoma Boll.*
Choeradoplana benyai, a planária-de-pescoço-inchado-de-Benya. Foto de Piter Kehoma Boll.*
Choeradoplana minima, a planária-de-pescoço-inchado-menor. Foto de Piter Kehoma Boll.*
Cephaloflexa araucariana, a planária-de-cabeça-virada-das-araucárias. Foto de Piter Kehoma Boll.*
Paraba franciscana, a planária-colorida-franciscana. Foto de Piter Kehoma Boll.*
Paraba rubidolineata, a planária-colorida-de-linha-vermelha. Créditos ao Instituto de Pesquisas de Planárias, Unisinos.**
Imbira guaiana, a planária-tira-de-casca-caingangue. Foto de Piter Kehoma Boll.*

As planárias terrestres vivem na serapilheira do solo de florestas e predam outros invertebrados. As 22 espécies mostradas acima são aquelas encontradas na FLONA-SFP que estão formalmente descritas, mas há ainda algumas esperando uma descrição. Poderíamos dizer que há pelo menos 30 espécies diferentes coexistindo nessa unidade de conservação.

Como todas elas conseguem persistir juntas? Não existe nenhum tipo de competição por alimento? Pensando nisso, eu conduzi minha pesquisa de mestrado investigando a dieta dessas e de outras planárias terrestres. Meus resultados sugerem que, apesar de algumas espécies compartilharem muitos itens alimentares, a maioria possui um alimento preferido ou um item alimentar exclusivo que poderia ser considerado o que Reynoldson e Pierce (1979) chamaram de “refúgio alimentar”.

Aqui está o que conhecemos sobre as espécies da FLONA-SFP até agora:

  • Obama ficki se alimenta de lesmas e caracóis e parece preferir lesmas grandes;
  • Obama ladislavii se alimenta de lesmas e caracóis e parece preferir caracóis;
  • Obama maculipunctata se alimenta de lesmas e caracóis com preferência desconhecida;
  • Obama anthropophila se alimenta de lesmas, caracóis e outras planárias terrestres, especialmente do gênero Luteostriata, e prefere as últimas;
  • Obama josefi aparentemente se alimenta apenas de outras planárias terrestres;
  • Todas as espécies de Luteostriata se alimentam exclusivamente de tatuzinhos-de-jardim;
  • Espécies de Choeradoplana aparentemente se alimentam de tatuzinhos-de-jardim e de opiliões;
  • Cephaloflexa araucariana aparentemente se alimenta de opiliões;
Obama ladislavii capturando uma lesma. Foto de Piter Kehoma Boll.*

A dieta das outras espécies é ainda completamente desconhecida, mas, baseado em outras espécies dos mesmos gêneros, é provável que espécies de Pasipha se alimentem de milípedes, espécies de Paraba se alimentem de lesmas e planárias, e Imbira guaiana se alimente de minhocas.

Luteostriata ernesti perto de alguns tatuzinhos-de-jardim suculentos. Foto de Piter Kehoma Boll.*

Há um grande número de diferentes grupos de invertebrados que compartilham a serapilheira com as planárias terrestres. Apesar da anatomia aparentemente simples destes platelmintos, eles são capazes de se adaptarem para se alimentarem de diferentes tipos de presas e possuem adaptações musculares e faríngeas para isso. Uma tentativa de relacionar adaptações anatômicas à dieta de planárias terrestres foi parte da minha pesquisa de doutorado. Assim que for publicada, farei uma postagem a respeito. Há alguns resultados interessantes!

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Mais sobre planárias terrestres:

Sexta Selvagem: Planária-amarela-listrada-abundante

Sexta Selvagem: Planária-de-Ladislau

A Planaria elegans de Darwin: escondida, extinta ou mal identificada?

Obama invade a Europa: “Yes, we can!”

A fabulosa aventura taxonômica do gênero Geoplana

Planárias cabeça-de-martelo: outrora uma bagunça, agora uma bagunça ainda maior

A planária-da-Nova-Guiné visita a França: uma ameaça

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Referências:

Boll PK & Leal-Zanchet AM 2015. Predation on invasive land gastropods by a Neotropical land planarian. J. Nat. Hist. 49: 983–994.

Boll PK & Leal-Zanchet AM 2016. Preference for different prey allows the coexistence of several land planarians in areas of the Atlantic Forest. Zoology 119: 162–168.

Leal-Zanchet AM & Carbayo F 2000. Fauna de Planárias Terrestres (Platyhelminthes, Tricladida, Terricola) da Floresta Nacional de São Francisco de Paula, RS, Brasil: uma análise preliminar. Acta Biologica Leopoldensia 22: 19–25.

Oliveira SM, Boll PK, Baptista V dos A, & Leal-Zanchet AM 2014. Effects of pine invasion on land planarian communities in an area covered by Araucaria moist forest. Zool. Stud. 53: 19.

Reynoldson TB & Piearce B 1979. Predation on snails by three species of triclad and its bearing on the distribution of Planaria torva in Britain. Journal of Zoology 189: 459–484.

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*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 4.0 Internacional.

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A solidão me fez fêmea: mais sobre o dilema do hermafrodita

por Piter Kehoma Boll

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Um tempo atrás eu escrevi sobre os conflitos de organismos hermafroditas quando fazem sexo, isto é, como ambos podem ser o macho e a fêmea ao mesmo tempo, mas isso geralmente não é de interesse deles, especialmente se fazer o papel de fêmea te força a ganhar esperma de baixa qualidade para seus ovos.

Duas lesmas-bananas prontas para copular. Foto de Andy Goryachev.

Mas sexo é geralmente muito mais complexo, e como ele ocorre geralmente é moldado por condições ambientais, especialmente pela presença de competidores. Em espécies dioicas, machos geralmente competem pelas fêmeas, mas existe um comportamento similar aplicado a hermafroditas?

De acordo com a teoria de alocação sexual, organismos hermafroditas têm que escolher quanto eles investem nas funções de macho e fẽmea. Se você produz mais ovos, assim preferindo o lado feminino, acaba produzindo menos esperma e vice versa. Então o que os hermafroditas deveriam fazer?

Às vezes há competição. Foto do usuário Miekemuis do Wikimedia.*

Uma forma de tentar tirar o melhor da situação é alocando recursos para o papel de fêmea ou de macho de acordo com o que te der mais vantagens no cenário atual. Isso seria determinado principalmente pelo número, ou a densidade, de indivíduos na população.

Quando há muitos indivíduos, há muito esperma, e ser capaz de fertilizar os ovos se torna mais difícil. Assim, hermafroditas aumentariam o investimento na função masculina para terem maiores chances contra o esperma dos outros. Em outras palavras, é melhor ser um macho quando há muitos caras em torno de você.

Por outro lado, quando econtrar um parceiro se torna raro, há pouca competição de esperma, então focar em ser fêmea se torna mais vantajoso. Afinal, o pouco esperma que você produz vai ser suficiente para fertilizar os ovos dos outros poucos indivíduos que estão por aí.

A maioria dos estudos procurando por evidências da teoria de alocação sexual encontraram resultados conflitantes. Em muitos organismos, apenas uma das funções sexuais muda de acordo com a densidade populacional, com o número de ovos ou de esperma ficando o mesmo e às vezes ambas as funções aumentam ao mesmo tempo, indo contra a ideia do trade-off que a teoria de alocação sexual prevê.

O problema pode ser simplesmente causado pela forma de olhar as coisas. A maioria dos estudos se focou apenas na produção de gametas, mas sexo é muito mais que isso. Uma parte importante que é negligenciada é o comportamento sexual. De forma a testar se o investimento comportamental pode apresentar diferenças de alocação sexual, um estudo recente comparou o investimento do poliqueto hermafrodita Ophryotrocha diadema em um comportamento relacionado a fêmeas e outro relacionado a machos. De acordo com a hipótese, uma densidade baixa de organismos aumentaria o cuidado parental, um comportamento relacionado a fêmeas, enquanto uma alta densidade de organismos aumentaria a motilidade para encontrar um parceiro, um comportamento relacionado a machos.

Dois indivíduos de Ophryotrocha diadema. As marcas amarelas no de cima são ovos. Foto de Virginia Boutias. Extraído de http://leec.univ-paris13.fr/new/animals_en.html

E a hipótese do estudo estava correta! Vermes mantidos em pares, isto é, com poucas oportunidades de acasalar devido à baixa densidade de indivíduos, se moviam menos, mas tomaram mais conta dos ovos. Por outro lado, vermes mantidos em groups, isto é, com maiores oportunidades de acasalar, se moveram mais e não cuidaram tanto dos ovos.

Mais do que ser uma bela evidência da teoria de alocação sexual, este estudo destaca a necessidade de olhar além da produção de gametas para determinar alocação sexual não apenas em hermafroditas, mas em todos os organismos.

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Referência:

Picchi L & Lorenzi MC 2019. Gender-related behaviors: evidence for a trade-off between sexual functions in a hermaphrodite. Behav Ecol. doi: 10.1093/beheco/arz014

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Sexta Selvagem: Verme-amendoim-comum

por Piter Kehoma Boll

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Hoje nosso camarada é um animal marinho peculiar que também é um alimento comum na China e no Vietnã. Chamado Sipunculus nudus, ou verme-amendoim-comum, ele é um membro do clado Sipuncula, geralmente chamados de vermes-amendoins.

Um espécime morto de Sipunculus nudus encontrado na costa mediterrânea da França. Foto de Benoit Nabholz.*

Como outros vermes-amendoins, o verme-amendoim-comum tem uma anatomia consideravelmente simples. Seu corpo consiste de basicamente duas partes, um tronco em forma de saco e uma probóscide, também chamada de introverto. O introverto é uma estrutura retrátil e, quando o animal não está se alimentando, é puxado para dentro do tronco por um grupo de músculos. Na extremidade do introverto, quando evertido, há uma série de tentáculos que levam a comida, composta de detritos, para dentro do intestino.

O verme-amendoim-comum é comumente encontrado enterrado no substrato de águas entremarés pelo mundo todo com a boca direcionada para cima. Eles podem chegar a cerca de 20 cm de comprimento quando o introverto é evertido, com cerca de 1/4 do comprimento composto pelo tronco.

Como mencionado acima, o verme-amendoim-comum é usado como alimento na China, especialmente nas regiões ao sul, e no Vietnã. Apesar de a espécie parecer fácil de ser criada em cativeiro, atualmente a maioria, se não toda, a colheita acontece na natureza, o que pode levar à superexploração e eventualmente a uma séria redução das populações.

Um balde cheio de vermes-amendoins para a venda na China. Foto do usuário Vmenkov do Wikimedia.**

Análises moleculares revelaram que, ao contrário do que se considera atualmente, Sipunculus nudus não é uma espécie cosmopolita na verdade. Há pelo menos quatro linhagens claramente distintas que certamente correspondem a quatro espécies distintas. Dessas, apenas uma é encontrada em águas em torno da Europa, das quais a espécie foi originalmente descrita. As outras três linhagens correspondem àquelas encontradas na China e no Vietnã (e a usada como alimento), a costa atlântica das Américas (do Brasil aos EUA) e a costa pacífica das américas (no Panamá). Vamos esperar que esse problema taxonômico seja resolvido logo.

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Referências:

Du, X., Chen, Z., Deng, Y., Wang, Q. (2009) Comparative analysis of genetic diversity and population structure of Sipunculus nudus as revealed by mitochondrial COI sequences. Biochemical Genetics 47: 884. doi: 10.1007/s10528-009-9291-x

Kawauchi, G. Y., Giribet, G. (2013) Sipunculus nudus Linnaeus, 1766 (Sipuncula): cosmopolitan or a group of pseudo-cryptic species? An integrated molecular and morphological approach. Marine Ecology 35(4): 478–491. doi: 10.1111/maec.12104

Trueman, E. R., & Foster-Smith, R. L. (2009). The mechanism of burrowing of Sipunculus nudus. Journal of Zoology, 179(3), 373–386. doi:10.1111/j.1469-7998.1976.tb02301.x

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Pense nos vermes, não só nas baleias, ou: como uma planária salvou um ecossistema

por Piter Kehoma Boll

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Devido à massiva interferência de práticas humanas em habitats naturais durante as últimas décadas, a restauração de ecossistemas se tornou uma tendência para tentar salvar o que ainda é salvável. Infelizmente, o esforço de ecologistas e outros profissionais por si só não é suficiente para alcançar isso, e uma seção maior da sociedade precisa se engajar em ajudar a atingir estes objetivos. Para conseguir isso, é comum apelar à beleza e à fofura de espécies ameaçadas, que geralmente incluem mamíferos e aves, pois estes chamam a atenção do público mais facilmente. Contudo a maioria das espécies ameaçadas são invertebrados e outros seres menos carismáticos, e eles são frequentemente ignorados mesmo pelos biólogos.

Felizmente as coisas são capazes de mudar em relação a isso. Recentemente, a restauração do primeiro ecossistema direcionada a salvar um invertebrado foi bem-sucedida, e eu estou aqui para falar sobre isso.

O invertebrado em questão é uma planária de água doce chamada Dendrocoelum italicum. Ela foi descoberta em 1936 em uma caverna no norte da Itália chamada Bus del Budrio. Dentro da caverna, há uma pequena lagoa de água doce, com cerca de 5 × 5 m ou pouco mais, causada por uma cachoeira vindo de um pequeno córrego que chega por um corredor estreito elevado. A espécie aparentemente é encontrada somente nessa lagoa e em mais nenhum outro lugar.

Não há fotos disponíveis de Dendrocoelum italicum, mas ela deve ser parecida com a espécie Dendrocoelum lacteum vista aqui, mas D. italicum não possui olhos. Foto de Eduard Solà.*

Durante aos anos 1980, um cano foi instalado para desviar a água do córrego para uma fazenda nas proximidades. A cachoeira deixou de existir e a lagoa secou permanentemente. A planária sobreviveu em um riachinho bem estreito que se formou dentro da caverna e em algumas poças isoladas resultantes de gotejamento de água. A condição crítica da população foi descoberta em 2016 por um grupo de pesquisadores da Universidade de Milão. Eles informaram os administradores da caverna sobre a situação e, juntos, o time começou a conscientizar os cidadãos, que se beneficiavam de um reservatório formado pela água desviada, sobre a situação da caverna, o que levou o fazendeiro responsável pelo desvio da água a concordar em remover a estrutura artificial.

Imagem do interior da caverna. Foto de Livio Mola, extraída de
https://www.naturamediterraneo.com/forum/topic.asp?TOPIC_ID=57050

A remoção aconteceu em 3 de dezembro de 2016 depois que todas as planárias ocorrentes no riachinho foram coletadas e armazenadas em tanques plásticos dentro da caverna. Quando a cachoeira foi restaurada, ela rapidamente começou a preencher a antiga lagoa de novo e, um dia depois, as planárias foram liberadas dentro da lagoa.

O ecossistema foi monitorado durante os dois anos seguintes até janeiro de 2018. O número de planárias variou grandemente durante o levantamento, mas não foi significativamente maior após a restauração do que era antes. Contudo, houve um aumento significativo na população de uma espécie de bivalve, Pisidium personatum, e um pequeno aumento na população de um crustáceo do gênero Niphargus. Adicionalmente, anelídeos da família Haplotaxidae, que estavam ausentes na caverna, apareceram após a restauração. Assim, fica claro que o ecossistema se beneficiou com o reaparecimento da lagoa.

Graças aos esforços desses pesquisadores, a planária Dendrocoelum italicum agora tem mais chances de evitar a extinção. Contudo, este não é um caso isolado. Há muitas espécies de planárias de caverna pelo mundo inteiro vivendo em condições similares, geralmente restritas a apenas uma pequena lagoa dentro de uma única caverna. Muitas delas ocorrem, ou ocorriam, na Itália, mas a ajuda chegou muito tarde para elas. Por exemplo, uma espécie próxima, Dendrocoelum beauchampi, foi descoberta em 1950 em uma caverna no noroeste da Itália chamada Grotta di Cavassola, mas um levantamento recente não encontrou planárias na caverna, que parece ter sofrido grande alteração devido a atividades humanas. De forma similar, a espécie Dendrocoelum benazzi foi descoberta em 1971 na Itália central em uma caverna chamada Grotta di Stiffe, mas hoje em dia, com a caverna aberta a turistas e com sua água poluída, as planárias desapareceram. É bem provável que tanto D. beauchampi quanto D. benazzi estejam extintos. A situação é a mesma para outras espécies italianas.

Fora da Itália, uma espécie descrita vivendo em um ambiente pequeno similar é a planária de caverna brasileira Girardia multidiverticulata, que é conhecida de apenas uma pequena lagoa de 10 m² dentro de uma caverna chamada Buraco do Bicho no Bioma Cerrado.

Girardia multidiverticulata é uma espécie de planária restrita a uma pequena lagoa de 10 m² dentro de uma caverna do Cerrado brasileiro. Créditos a Souza et al. (2015).**

O caso de D. italicum demonstra que é possível salvar populações endêmicas pequenas de habitats ameaçados, mas precisamos da ajuda do público. Esperamos que outros ecossistemas tenham um final feliz similar.

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Referêmcias:

Manenti R, Barzaghi B, Lana E, Stocchino GA, Manconi R, & Lunghi E 2018. The stenoendemic cave-dwelling planarians (Platyhelminthes, Tricladida) of the Italian Alps and Apennines: conservation issues. Journal for Nature Conservation.

Manenti R, Barzaghi B, Tonni G, Ficetola GF, & Melotto A 2018. Even worms matter: cave habitat restoration for a planarian species increased environmental suitability but not abundance. Oryx: 1–6.

Souza ST, Morais ALN, Cordeiro LM, & Leal-Zanchet AM 2015. The first troglobitic species of freshwater flatworm of the suborder Continenticola (Platyhelminthes) from South America. Zookeys 470: 1–16.

Vialli PM 1937. Una nuova specie di Dendrocoelum delle Grotte Bresciane. Bollettino di zoologia 8: 179–187.

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Sexta Selvagem: Peripato-de-Rowell

por Piter Kehoma Boll

Onicóforos formam um grupo intrigante de animais que são o grupo-irmão dos artrópodes e também o único filo animal com apenas espécies terrestres, apesar de espécies aquáticas serem conhecidas de registros fósseis.

Hoje decidi trazer uma espécie de onicóforo para ser nosso camarada da sexta. Cientificamente conhecido como Euperipatoides rowelli, decidi dar a ele o nome comum de peripato-de-Rowell.

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Um espécie do peripato-de-Rowell em laboratório. Foto de Alan Couch.*

O peripato-de-Rowell é encontrado no sudeste da Austrália habitando florestas temperadas úmidas. Eles são animais pequenos, com cerca de 5 cm de comprimento e vivem em madeira em decomposição, morando em rachaduras e se alimentando de invertebrados pequenos como cupins e grilos.

Os troncos caídos são geralmente habitados por grupos de vários indivíduos que vivem em um tipo de relação social e são compostos de fêmeas, machos e jovens, as fêmeas sendo maiores e ocorrendo em maior número que os machos. Uma espécie de organização social também parece ocorrer, com uma fêmea sendo dominante e seguida em dominância pelas outras fêmeas, com machos e jovens ocupando a base da pirâmide. A captura de presas geralmente ocorre em grupo e após a presa ser abatida, a fêmea dominante comerá primeiro e somente após estar saciada ela permitirá que as outras fêmeas comam. Machos e jovens comem os restos deixados pelas fêmeas.

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Bem-vindo ao nosso tronco! Foto de Andras Keszei.**

Troncos novos são colonizados por machos errantes. Estes liberam feromônios que atraem mais machos e posteriormente fêmeas. Assim, troncos recém-colonizados possuem uma agregação com mais machos, mas o número de fêmeas mais tarde ultrapassa o de machos. Foi sugerido que essa agregação inicial de machos os ajuda a atrair fêmeas devido ao aumento da concentração de feromônios.

Durante a reprodução, o macho deposita espermatóforos na pele da fêmea. Com a ajuda das células sanguíneas da fêmea, a parede corporal abaixo do espermatóforo é rompida e o esperma é liberado na cavidade corporal da fêmea, onde nada até o trato reprodutivo feminino.

Devido à sua abundância no sudeste da Austrália, o peripato-de-Rowell é uma espécie fácil de se obter e está aos poucos se tornando mais um organismo-modelo interessante.

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Referências:

Barclay S, Ash JE, Rowell DM (2000) Environmental factors influencing the presence and abundance of a log-dwelling invertebrate, Euperipatoides rowelli(Onychophora: Peripatopsidae)Journal of Zoology 250: 425–436.

Barclay S, Rowell DM, Ash Je (2000) Pheromonally mediated colonization patterns in the velvet worm Euperipatoides rowelli (Onychophora)Journal of Zoology 250: 437–446.

Reinhardt J, Rowell DM (2006) Social behavior in an Australian velvet worm, Euperipatoides rowelli(Onychophora: Peripatopsidae)Journal of Zoology 250: 1–7.

Sunnucks P, Curach NC, Young A, French J, Cameron R, Briscoe DA, Tait NN (2000) Reproductive biology of the onychophoran Euperipatoides rowelliJournal of Zoology 250: 447–460.

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Sexta Selvagem: Verme-listrado-de-verde

por Piter Kehoma Boll

Os parasitas são muito especiosos, e frequentemente eu sinto que não estou dando espaço suficiente para eles aqui, especialmente quando eu lhes trago um platelminto, que é provavelmente o grupo com o maior número de espécies parasitas. Então vamos falar de um deles hoje finalmente.

O pimeiro platelminto parasita que eu apresentarei a vocês é Leucochloridium paradoxum, o verme-listrado-de-verde. Ele é um membro do grupo Trematoda e, como todos os trematódeos, possui um ciclo de vida complexo.

Os adultos do verme-listrado-de-verde vivem no intestino de vários pássaros da América do Norte e da Europa. Os ovos que eles põem chegam ao ambiente através das fezes das aves e são eventualmente ingeridos por caracóis do gênero Succinea.

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Um indivíduo adulto de Leucochloridium paradoxum (esquerda), um hospedeiro intermediário infectado, um caracol do gênero Succinea (centro) e os esporocistos ao longo dos õgrãos internos do caracol (direita). Imagens não em escala. Extraído de http://medbiol.ru/medbiol/dog/0011a975.htm

Adultos de Leucochloridium paradoxum são muito similares aos adultos de outras espécies do gênero Leucochloridium. A principal diferença é vista nos estágios larvais. Dentro do corpo do caracol, os ovos eclodem no primeiro estágio larval, o miracídio, que dentro do sistema digestivo do caracol se desenvolve no próximo estágio, o esporocisto.

O esporocisto tem a forma de um saco longo e inchado que é marcado de listras verdes (de onde o nome). Ele é preenchido de cercárias, que são o próximo estágio larval. O esporocisto então migra em direção aos tentáculos dos olhos do caracol, invadindo-os e tornando-os uma estrutura inchada, colorida e pulsante que se assemelha a uma lagarta. Nesse estágio da infecção, o pobre caracol provavelmente está cego e não consegue evitar a luz como normalmente faz. Como resultado, ele fica exposto a aves que o confundem com uma suculenta lagarta e o comem com avidez.

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Um pobre caracol da espécie Succinea putris com um verme-listrado-de-verde em seu tentáculo ocular esquerdo. Só há um destino terrível para essa criatura. Foto de Thomas Hahmann.*

Quando o caracol é comido, o esporocisto arrebenta e várias cercárias são liberadas. No intestino da ave, elas se desenvolvem em adultos e recomeçam o pesadelo.

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Referências:

Rząd, I.; Hofsoe, R.; Panicz, R.; Nowakowski, J. K. (2014) Morphological and molecular characterization of adult worms of Leucochloridium paradoxumCarus, 1835 and L. perturbatum Pojmańska, 1969 (Digenea: Leucochloridiidae) from the great tit, Parus major L., 1758 and similarity with the sporocyst stages. Journal of Helminthology 88(4): 506-510. DOI: 10.1017/S0022149X13000291

Wikipedia. Leucochloridium paradoxum. Disponível em < https://en.wikipedia.org/wiki/Leucochloridium_paradoxum >. Accesso em 8 de março de 2018.

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Sexta Selvagem: Verme-Bobbit

por Piter Kehoma Boll

A espécie da Sexta Selvagem de hoje provavelmente se parece com uma criatura vinda diretamente do inferno para os pobres animais marinhos que são suas presas. Bem, ela parece bem assustadora até para humanos! Seu nome é Eunice aphroditois, um nome até que belo. Popularmente é conhecida como verme-Bobbit e se parece com um pesadelo multicolorido.

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Porção anterior de um verme-Bobbit saindo da areia. Foto de Jenny Huang.*

O verme-Bobbit é um verme poliqueto e é um dos maiores anelídeos conhecidos, com vários registros de indivíduos chegando a 1 m de comprimento e mesmo um registro de um espécime com quase 3 metros. Ele é encontrado em águas quentes do mundo todo, nos oceanos Atlântico, Índico e Pacífico.

Sendo um predador de emboscada, o verme-Bobbit se enterra no fundo do oceano, entre os sedimentos, e espera que uma refeição deliciosa nade sobre ele. Uma vez que a presa é detectada, o verme-Bobbit se projeta para a frente e a captura com seus dentes afiados.

O nome “Bobbit worm” foi cunhado e 1996 e se refere a Lorena Bobbitt, que se tornou publicamente conhecida em 1993 depois de cortar o pênis de seu marido com uma faca enquanto ele estava adormecido. O nome parece ser inspirado nas mandíbulas em forma de tesoura do verme e não tem nada a ver com as fêmeas cortando o pênis dos machos. De fato, esses vermes liberam os gametas na água, de forma que sequer há uma cópula.

Apesar de sua popularidade, sendo mesmo criado como “animal de estimação” às vezes, pouco se sabe sobre a ecologia do verme-Bobbit. Se você por acaso tem um em seu aquário, faça alguma pesquisa e a publique!

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Referências:

Uchida, H.; Tanase, H.; Kubota, S. (2009) An extraordinarily large specimen of the polychaete worm Eunice aphroditois (Pallas) (Order Eunicea) from Shirahama, Wakayama, central Japan. Kuroshio Biosphere 5: 9-5.

Wikipedia. Eunice aphroditois. Disponível em < https://en.wikipedia.org/wiki/Eunice_aphroditois >. Acesso em 31 de janeiro de 2017.

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