Arquivo do mês: março 2016

Sexta Selvagem: Tapiti

por Piter Kehoma Boll

O que seria melhor para celebrar a Páscoa que trazer um coelhinho para a Sexta Selvagem?

Conheça o tapiti (Sylvilagus brasiliensis), também conhecido como coelho-do-mato ou, no Brasil, muitas vezes simplesmente como lebre. É um coelho muito fofo encontrado do sudeste do México até o norte da Argentina e o sul do Brasil, sendo a espécie de coelho mais disseminada na América do Sul.

Fofo como qualquer coelho, o tapiti também é bem camuflado. Foto de Dick Culbert.

Fofo como qualquer coelho, o tapiti também é bem camuflado. Foto de Dick Culbert.

Medindo cerca de 30 cm de comprimento e tendo um dorso marrom com um salpicado preto, o tapiti pode se esconder facilmente em seu ambiente, o qual inclui florestas, cerrados e campos do nível do mar até 4.800 m de altitude. A aparência camuflada é provavelmente a razão de ser avistado tão raramente, mesmo sendo uma espécie muito comum. O fato de também ser ativo principalmente durante a alvorada e o ocaso também diminui as chances de ser visto propriamente. A IUCN o classifica como “Pouco Preocupante”.

Se você mora nas Américas Central e do Sul, tente prestar atenção enquanto caminha pelo mato. Talvez tenha a oportunidade de avistar algum.

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Referências:

Wikipedia. Tapeti. Disponível em: < https://en.wikipedia.org/wiki/Tapeti >. Accesso em 24 de março de 2016.

EOL – Encyclopedia of Life. Sylvilagus brasiliensis. Disponível em: < http://eol.org/pages/118008/ >. Accesso em 24 de Março de 2016.

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Arquivado em mamíferos, Sexta Selvagem

Flickr, um paraíso de fotografias de espécies desconhecidas

por Piter Kehoma Boll

Atualmente há cerca de 1,2 milhões de espécies descritas mundialmente e centenas de novas espécies são encontradas e descritas a cada mês. Algumas estimativas preveem que a Terra atualmente contém mais de 10 milhões de espécies, o que significa que ainda conhecemos muito pouco de nossa diversidade. As centenas de espécies descritas por mês podem parecer um enorme progresso, mas na verdade estamos correndo a um passo bem lento, principalmente devido à falta de taxonomistas, mas também por causa dos poucos recursos dedicados à pesquisa em biodiversidade.

A maioria das pessoas pode pensar que no mundo moderno uma espécie nova representa algum animal pequeno e misterioso encontrado nas profundezas de uma floresta tropical inexplorada. Bem, a maioria delas se encaixa nessa descrição, mas na verdade muitas espécies novas são encontradas vivendo entre humanos por décadas ou séculos.

Muitas delas, apesar de desconhecidas para especialistas no grupo, podem ser bem conhecidas pelos povos locais. Um exemplo disso é a anta-pretinha (Tapirus kabomani).

Mas muitas espécies desconhecidas para a ciência são frequentemente avistadas por entusiastas da natureza e fotógrafos da vida selvagem. Fascinados pela beleza das criaturas que encontram, eles tiram algumas fotos dos espécimes e os postam online. E quanto algum biólogo reconhece que é provavelmente uma espécie nova, fica empolgado e interessado em ajudar essa espécie a ser conhecida. Um lugar lotado de espécies novas é certamente o flickr. Aqui mostrarei algumas fotos de planárias terrestres, o grupo com o qual trabalho, que encontrei no website e que certamente, ou mais provavelmente, representam espécies novas.

Flatworm

Platyhelminthes, Tricladida, Terricola, Atlantic forest, northern littoral of Bahia, Brazil

(Platyhelminthes: Tricladida)

(Platyhelminthes: Tricladida)

Terrestrial flatworm (Geoplana sp)

Nemertean worm

Simona's 'Slug'

Sem título

Land Planarian

Unidentified Planarian: Loreto, Peru

Unidentified Planarian and Scorpion: Loreto, Peru

Large land flatworm

Land planarian Polycladus sp?

Ah como invejo as pessoas vivendo perto desses lugares! Se ao menos houvesse alguém lá capaz de estudar, descrever e publicar toda essa diversidade.

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Arquivado em Sistemática, Taxonomia

Sexta Selvagem: Quíton-de-linhas

por Piter Kehoma Boll

Vamos voltar aos nossos companheiros de corpo mole, os moluscos, e apresentar um dos mais bonitos deles, o quíton-de-linhas Tonicella lineata.

Como um quíton típico, ele possui uma concha composta de uma fila de oito placas sobrepostas circundadas por uma estrutura flexível, o manto. Tal anatomia permite que esses animais sejam flexíveis e possam mesmo se fechar numa bola, assim como um tatuzinho de jardim, quando desalojados.

Tonicella_lineata

Tonicella lineata, uma pequena joia do mar. Créditos a Kirt L. Onthank*

Ocorrendo em águas da linha da maré ou logo abaixo dessa no Pacífico Norte, ao longo da América do Norte, da Rússia e do Japão, o quíton-de-linhas é caracterizado por suas belas cores. As placas da concha são marcadas por uma série de linhas pretas, roxas ou azuis em um fundo vermelho ou marrom. O manto também é colorido, possuindo um fundo avermelhado geralmente marcado com manchas amarelas.

Apesar do corpo colorido, o quíton-de-linhas é uma criatura pequena, atingindo cerca de cinco centímetros de comprimento. Ele se alimenta principalmente de algas coralinas, ocorrendo próximo a elas. Seus principais predadores são as terríveis estrelas-do-mar, enquanto seus amigos mais próximos são os espinhentos mas amigáveis ouriços-do-mar, já que eles frequentemente ajudam o quíton a se proteger do sol ao permitir que se esconda embaixo deles.

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Referências:

Barnes, J. R. 1972. Ecology and reproductive biology of Tonicella lineata (Wood, 1815) (Mollusca-Polyplacophora). Tese de Doutorado.

Wikipedia. Tonicella lineata. Disponível em< https://en.wikipedia.org/wiki/Tonicella_lineata >. Acesso em 3 de março de 2016.

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* Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 3.0 Não Adaptada.

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Sexta Selvagem: Gambierdisco-tóxico

por Piter Kehoma Boll

Semana passada apresentei um peixe de recifes de coral, o sambuari, e mencionei que às vezes comê-lo pode levar a ciguatera, um tipo de intoxicação alimentar. Assim, hoje decidi apresentar um dos principais responsável pela ciguatera, o dinoflagelado Gambierdiscus toxicus, ou gambierdisco-tóxico.

Imagem de microscopia óptica de Gambierdiscus toxicus. Créditos a David Patteron e Bob Andersen.*

Imagem de microscopia óptica de Gambierdiscus toxicus. Créditos a David Patteron e Bob Andersen.*

Gambierdiscus toxicus foi descoberto em 1975 em material coletado em torno das Ilhas Gambbier, onde ciguatera ocorre com frequência, e descrito em 1979. Como a maioria dos dinoflagelados, é unicelular e coberto de placas rígidas formando uma estrutura chamada teca.

Vivendo na superfície de algas marinhas, especialmente algas marrons, o gambierdisco-tóxico é ingerido por peixes que se alimentam das algas. Suas toxinas pode assim bioacumular nos tecidos do peixe e ser transferidas para peixes maiores que se alimentam dos menores. Se tais peixes são comidos por humanos, isso pode causar ciguatera.

Os sintomas de ciguatera incluem náusea, vômito, diarreia, dores de cabeça, dores musculares, perda de sensação tátil, vertigem, alucinações, etc. Eles podem durar semanas ou vários anos, às vezes até duas decadas.

Entre as principais toxinas produzidas por Gambierdiscus toxicus estão ciguatoxinas e maitotoxina. Ciguatoxinas são poliéteres lipofílicos que agem reduzindo o limiar de abertura de canais de sódio em sinapses do sistema nervoso, o que causa despolarização, levando a paralisia. Por outro lado, a maitotoxina é uma molécula hidrofílica que ativa canais extracelulares de cálcio e pode causar lise celular e subsequente necrose. Não há antídoto conhecido ou tratamento efetivo contra a ciguatera.

Assim, nossa lição é: não se meta com dinoflagelados!

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Referências:

Adachi, R.; Fukuyo, Y. 1979. The thecal structure of a marine toxic dinoflagellate Gambierdiscus toxicus gen. et sp. nov. collected in a ciguatera-endemic area. Bulletin of the Japanese Society of Scientific Fisheries, 45(1): 67-71.

Bagnis, R.; Chanteau, S.; Chungue, E.; Hurtel, J. M.; Yasumoto, T.; Inoue, A. 1980. Origins of ciguatera fish poisoning: a new dinoflagellate, Gambierdiscus toxicus Adachi and Fukuyo, definetely involved as a causal agent. Toxicon, 18: 199-209.

Wikipedia. Ciguatera. Availabe at: <https://en.wikipedia.org/wiki/Ciguatera >. Access on February 29, 2016.

Wikipedia. Ciguatoxin. Available at: <https://en.wikipedia.org/wiki/Ciguatoxin&gt;. Access on February 29, 2016.

Wikipedia. Maitotoxin. Available at: <https://en.wikipedia.org/wiki/Maitotoxin >. Access on February 29, 2016.

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* Creative Commons License
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Sexta Selvagem: Sambuari

por Piter Kehoma Boll

Vamos mergulhar nas águas marinhas tropicais preenchidas com recifes de corais na costa atlântica da América para conhecer o bonitão da Sexta Selvagem de hoje: o sambuari (Anisotremus virginicus), também chamado de salema ou roncador-listado-americano, entre outros nomes.

Encontrado desde a Flórida até o sudeste brasileiro, o sambuari é um belo peixe de recife, popular em aquários públicos. Em seu ambiente natural, ele ocorre em profundidades variando de 2 a 20 metros e pode atingir 40 cm de comprimento e pesar 930 gramas, apesar de a maioria dos indivíduos possuírem cerca de 25 centímetros.

Anisotremus_virginicus

Um sambuari de um cardume no México. Crédditos a Simões et al. (2014)

O alimento do sambuari consiste principalmente de invertebrados, tal como moluscos, equinodermos, anelídeos e crustáceos que ele captura à noite. Espécimes jovens geralmente se alimentam de parasitas dos corpos de peixes maiores. Os adultos também podem se alimentar de epibiontes crescendo em tartarugas marinhas, tal como a tartaruga-de-pente (Eretmochelys imbricata), apesar de que isso não parece constituir um hábito muito comum.

Apesar de às vezes ser consumido como alimento por humanos, o sambuari pode estar contaminado com ciguatoxinas, um grupo de toxinas que causam ciguatera, um tipo de intoxicação alimentar.

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Referências:

Froese, R. Anisotremus virginicus. In.: Froese, R.; Pauly, D. (Eds.) FishBase. Available at: <http://www.fishbase.org/summary/1124 >.  Access on February 27, 2016.

Sazima, C.; Grossman, A.; Sazima, I. 2010. Turtle cleaners: reef fishes foraging on epibionts of sea turtles in the tropical Southwestern Atlantic, with a summary of this association type. Neotropical Ichthyology, 8(1). Doi: 10.1590/S1679-62252010005000003

Simões, N.; Zarco Perello, S.; Moreno Mendoza, R. 2014. Checklist of fishes from Madagascar Reef, Campeche Bank, México. Biodiversity Data Journal 2: e1100. Doi: 10.3897/BDJ.2.e1100

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