Arquivo da categoria: Sexta Selvagem

Sexta Selvagem: Camarão-Semente-da-Cara

por Piter Kehoma Boll

É hora de falar sobre um ostrácodo, ou camarão-semente, de novo e, como de praxe, é um momento difícil devido à pouca informação facilmente acessível sobre qualquer espécie do grupo. Mas há, de fato, uma que é consideravelmente bem estudada. Sendo um dos ostrácodos mais comuns na América do Norte e na Eurásia, seu nome científico é Cypridopsis vidua, para o qual cunhei o nome comum “camarão-semente-da-cara”.

O camarão-semente-da-cara é um crustáceo de água doce com a aparência típica de um ostrácodo, se parecendo com um minúsculo bivalve medindo cerca de 0.5 mm de comprimento. Suas valvas possuem um padrão claro e escuro bem distinto.

Um camarão-semente-da-cara com a concha fechada. Créditos a Markus Lindholm, Anders Hobæk/Norsk institutt for vassforsking.*

Uma espécie relativamente móvel, o camarão-semente-da-cara vive no fundo de corpos d’água, sobre o sedimento, e é comum em áreas densamente vegetadas por caras (algas do gênero Chara). Esta associação com caras dá ao camarão-semente-da-cara tanto proteção contra predadores, em sua maioria peixes, quanto uma boa fonte de alimento.

O principal alimento do camarão-semente-da-cara são algas microscópicas que crescem no talo das caras. Enquanto forrageia, o camarão-semente-da-cara nada de um talo de cara para outro usando seu primeiro par de antenas e se agarra aos talos usando o segundo par de antenas e o primeiro par de pernas torácicas. Uma vez realocado, ele começa a raspar algas microscópicas com suas mandíbulas.

O corpo do camarão-semente-da-cara como visto quando uma das valvas (a esquerda neste caso) é removida. Créditos a Paulo Corgosinho.**

O camarão-semente-da-cara é mais uma dessas espécies em que machos não existem, nem mesmo em pequenas quantidades. Durante os meses quentes do verão, as fêmea produzem os chamados ovos súbitos, que se desenvolvem imediatamente em novas fêmeas. Contudo, quando o inverno se aproxima, elas produzem outro tipo de ovo, os chamados ovos de diapausa, que permanecem dormentes no substrato durante o inverno. Os animais adultos todos morrem durante esta estação e, quando a primavera chega, uma nova população surge dos ovos que eclodem. Como nem todos os ovos eclodem na primavera, alguns podem ficar no substrato por anos antes de eclodirem, o que geralmente aumenta a diversidade genética a cada ano, já que ela não depende apenas das filhas da geração passada.

Mas como surge diversidade genética se não há machos e, como resultado, as filhas são sempre clones das mães? Este mistério ainda não está totalmente resolvido. Recombinação genética durante a partenogênese, pela troca de alelos entre cromossomos, não parece ser muito comum. É possível que diferentes populações sejam geneticamente diferentes e que elas colonizem novos ambientes com frequência, se misturando entre si. Visto que machos são conhecidos em espécies proximamente relacionadas, ainda é possível que, algum dia, encontremos alguns machos do camarão-semente-da-cara escondidos por aí. Também é possível que, de alguma forma, os machos todos tenham se tornado extintos no passado recente, como na última glaciação, por exemplo. Se for o caso, só o tempo dirá qual é o destino do camarão-semente-da-cara.

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Mais Ostrácodos:

Sexta Selvagem: Camarão-Semente-Vênus-de-Dente-Afiado (em 22 de junho de 2018)

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Referências:

Cywinska A, Hebert PDN (2002) Origins of clonal diversity in the hypervariable asexual ostracode Cypridopsis vidua. Journal of Evolutionary Biology 15: 134–145. doi: 10.1046/j.1420-9101.2002.00362.x

Roca JR, Baltanas A, Uiblein F (1993) Adaptive responses in Cypridopsis vidua (Crustacea: Ostracoda) to food and shelter offered by a macrophyte (Chara fragilis). Hydrobiologia 262: 121–131.

Uiblein F, Roca JP, Danielpool DL (1994) Experimental observations on the behavior of the ostracode Cypridopsis vidua. Internationale Vereinigung für Theoretische und Angewandte Limnologie: Verhandlungen 25: 2418–2420.

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Sexta Selvagem: Mariposa-Luna

por Piter Kehoma Boll

Faz muito tempo desde a última vez que apresentei um lepidóptero aqui, então hoje decidi voltar a este incrível grupo de insetos. A espécie que escolhi para hoje é bem popular, talvez a mariposa mais popular no mundo. Seu nome é Actias luna, comumente conhecida como mariposa-luna.

Mariposa-luna adulta nos Estados Unidos. Foto de Any Reago & Chrissy McClarren.*

A mariposa-luna é nativa do Canadá e dos Estados Unidos. É uma mariposa bem grande, com uma envergadura de cerca de 8 a 12 cm, apesar de alguns indivíduos poderem chegar a 18 cm. Suas asas, cobertas de escamas como de costume em lepidópteros, têm uma cor verde-clara. As asas anteriores possuem uma borda anterior marrom que se conecta a duas manchas ocelares (uma em cada asa) por um pedúnculo. As asas posteriores também possuem uma mancha ocelar cada, mas não são conectadas por um pedúnculo à borda. Nas asas posteriores há também uma longa cauda que é característica do gênero Actias e lembra um pouco a cauda similar (mas mais curta) de algumas borboletas, como as da família Papilionidae. Machos e fêmeas são muito parecidos e podem geralmente ser distinguidos pelo tamanho do abdome, que é muito mais grosso em fêmeas.

Em climas mais frios, como no Canadá, a mariposa-luna possui uma geração por ano, mas populações do sul, em locais onde o clima é mais quente, podem ter até três. As fêmeas põem ovos em plantas que servem de alimento à larva. Há várias espécies de árvores identificadas como alimento, incluindo bétulas, nogueiras, pecãs e caquizeiros. As larvas se alimentando de uma árvore nunca, ou muito raramente, chegam a um número que possa causar dano significativo à planta.

Larva de terceiro ínstar. Foto do usuário Kugamazog~commonswiki do Wikimedia.**

Os ovos são marrons e são depositados em aglomerados irregulares na parte inferior das folhas. Eles geralmente eclodem de uma a duas semanas depois de serem postos e originam larvas pequenas e verdes. As larvas são verdes em todos os estágios (ou ínstares) e passam por cinco deles durante um período de cerca de 7 semanas. O quinto e último ínstar então desce da árvore em que vive para atingir o solo. Lá, a larva começa a tecer um casulo de seda e, após concluí-lo, se transforma numa pupa. Em regiões mais quentes, a pupa leva cerca de duas semanas para se tornar um adulto, mas em regiões mais frias ela entra em diapausa durante o inverno, levando cerca de nove meses para completar o ciclo.

Uma larva de quinto ínstar construindo um casulo. Créditos a Virginia State Parks staff.*

Quando as fêmeas se tornam adultas, procuram por uma árvore adequada da espécie preferida (geralmente a mesma espécie em que nasceram) e emitem feromônios para atrair os machos. Os adultos não possuem peças bucais e, portanto, não comem, vivendo apenas o suficiente para acasalar e pôr ovos. As belas e lindas caudas das asas posteriores, mais que apenas lindas, parecem diminuir a habilidade de morcegos predadores detectarem a mariposa usando ecolocalização.

Pupa ao lado de um casulo vazio. Foto do usuário Kugamazog~commonswiki do Wikimedia.**

A mariposa-luna é um dos insetos mais populares da América do Norte. De fato, ela foi o primeiro inseto do continente a ser descrito, sendo chamada Phalaena plumata caudata por James Petiver em 1700. Quando Linnaeus começou a nomenclatura binomial de animais em 1758, ele a renomeou Phalaena luna como referência à deusa romana da Lua.

Belo espécime no Canadá. Foto de Alexis Tinker-Tsavalas.***

Apesar de não ser considerada uma espécie vulnerável no momento, a mariposa-luna sofre algumas ameaças causadas por interferência humana, como perda de habitat e dano causado por espécies invasoras. Felizmente, devido à sua popularidade, ela provavelmente terá apoio considerável do público para sua conservação quando a hora chegar.

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Referências:

Lindroth RL (1989) Chemical ecology of the luna moth: Effects of host plant on detoxification enzyme activity. Journal of Chemical Ecology 15(7): 2019–2029.

Millar JG, Haynes KF, Dossey AT, McElfresh JS, Allison JD (2016) Sex Attractant Pheromone of the Luna Moth, Actias luna (Linnaeus). Journal of Chemical Ecology 42(9): 869–876.

Wikipedia. Luna moth. Disponível em < https://en.wikipedia.org/wiki/Luna_moth>. Acesso em 11 de julho de 2019.

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Sexta Selvagem: Vespa-da-Figueira-Lacerdinha

por Piter Kehoma Boll

Durante as últimas três semanas, apresentei uma figueira, a figueira-lacerdinha, uma lacerdinha que a parasita, a lacerdinha-da-figueira, e um ácaro que parasita a lacerdinha, o ácaro-da-lacerdinha-da-figueira. Todavia eu ainda não escrevi sobre uma das criaturas mais interessantes que interage com uma figueira: seu polinizador.

No caso da figueira-lacerdinha, seu polinizador é a vespa-de-figueira Eupristina verticillata, que decidi chamar de Vespa-da-Figueira-Lacerdinha. Como todas as vespas-de-figueira, esta espécie é muito pequena e completamente adaptada para viver com figos. Elas não podem sobreviver sem a espécie exata de figueira com que interagem, e a figueira em questão não pode sobreviver sem a espécie exata de vespa. Como isso funciona?

Vamos começar nossa história com uma fêmea adulta de vespa-da-figueira-lacerdinha. As fêmeas são pretas e muito pequenas, medindo cerca de 1 a 1,2 mm de comprimento somente. Esta fêmea está voando por aí procurando um figo jovem que servirá como seu ninho e sua sepultura.

Assim é uma fêmea de vespa-da-figueira-lacerdinha. Foto de Forest & Kim Starr.*

Um figo, caso você não saiba, não é um fruto verdadeiro no sentido botânico. Ele é na verdade um tipo especial de inflorescência chamado sicônio que é basicamente um saco preenchido de flores. As paredes internas de um figo contêm muitas flores masculinas e femininas minúsculas e a única maneira de chegar a elas é através de um pequeno furo na ponta do figo. E este furo só está aberto durante os estágios iniciais do desenvolvimento do figo.

Figos da figueira-lacerdinha no seu primeiro estágio de desenvolvimento. Você pode ver o furo marcado por uma “aréola” mais escura ao redor. Este é o lugar por onde uma vespa fêmea entra no figo. Créditos ao usuário do Wikimedia Vinayaraj.**

Quando a fêmea de vespa-da-figueira-lacerdinha está voando por aí, está procurando por um figo que esteja neste exato estágio de desenvolvimento. Uma vez que ela o encontre, ela se arrasta para dentro do figo através daquele furinho. Ela geralmente perde as asas enquanto faz isso porque a passagem é estreita demais. Ela até mesmo precisa usar suas mandíbulas especialmente adaptadas para a ajudarem a passar. Uma vez dentro do figo, ela procura pelas flores femininas que estão na base no figo, longe da entrada. As flores masculinas, localizadas logo na entrada, ainda não estão maduras. Contudo as vespas fêmeas chegam com pólen que pegaram em outro lugar (você vai aprender isso daqui a pouco). Quando ela chega nas flores femininas, introduz seu ovopositor (a longa estrutura no final do abdome que é usada para pôr os ovos) dentro da flor feminina e põe um ovo dentro do ovário da flor. Seu ovopositor precisa ter o tamanho exato para alcançar o ovário e pôr o ovo. Se ele é curto demais, ela não é capaz de completar sua tarefa. E enquanto ela se move de flor em flor para pôr os ovos, acaba as polinizando. Depois de terminar, a vespa morre ainda dentro do figo.

Os ovários que receberam um ovo começam a crescer e formar uma galha (um “tumor de planta”) por influência do inseto e servem como abrigo e alimento para as larvas que eclodem dos ovos. Uma larva cresce, empupa e se torna adulta dentro de uma só galha. Quando as vespas finalmente chegam ao estágio adulto, deixam a galha na qual nasceram. Isso acontece quando o figo atinge seu estágio maduro.

Os machos são os primeiros a emergir. Eles são ainda menores que as fêmeas e possuem uma cor entre o amarelo e o marrom-claro. Eles roem seu caminho através da galha e, uma vez fora dela (mas ainda dentro do figo), começam desesperadamente a procurar vespas fêmeas para inseminar. Eles fazem isso arrebentando outras galhas e, quando uma fêmea é encontrada presa dentro, a inseminam. Depois disso, os machos cavam um buraco através do figo para o lado de fora e morrem logo depois, nunca vivenciando o mundo externo.

Uma vespa-da-figueira-lacerdinha macho (à direita) comparado com uma fêmea. Foto de Forest & Kim Starr.*

As vespas fêmeas então deixam as galhas e se movem em direção ao buraco aberto pelo macho. Enquanto fazem isso, elas se movem por cima das flores masculinas, agora maduras, e ficam cobertas de pólen. Depois de deixar o figo, elas procuram outro figo que esteja no primeiro estágio de desenvolvimento, recomeçando o ciclo.

Quando uma fêmea deixa um figo maduro, ela precisa encontrar um figo imaturo logo em seguida porque estará morta em um par de dias. Em outras palavras, a única forma de isso funcionar é se houver figos no estágio certo durante o ano todo, e é isso que acontece. Diferente da maioria das espécies de plantas, que produzem flores em uma época específica do ano, figueiras estão sempre floridas. Bem, não exatamente. Uma figueira individual produz figos em um período específico do ano. Todos os figos daquela árvore amadurecem ao mesmo tempo, ou seja, uma figueira tem uma sincronia de maturação de flores intraindividual. Contudo, outras árvores da mesma espécie possuem momentos diferentes para produzir flores, ou seja, há uma assincronia de maturação de flores interindividual. Isso garante que a vespa sempre encontrará um figo que seja adequado para seu estágio de maturação quando há figueiras suficientes em volta e também garante que a figueira não será fertilizada pela próprio pólen.

Como eu mencionei ao apresentar a figueira-lacerdinha, esta árvore só consegue produzir frutos viáveis quando a vespa está presente, de forma que populações introduzidas fora da área nativa só se reproduzirão se as vespas também forem introduzidas. Contudo, a vespa será incapaz de sobreviver se não houver figueiras o bastante para fornecer figos o ano todo. É uma relação delicada entre um inseto minúsculo, frágil e de vida curta e uma árvore enorme, resistente e de vida longa. E eles precisam um do outro para sobreviver.

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Referências:

Cook J, Rasplus J-Y (2003) Mutualists with attitude: coevolving fig wasps and figs. TRENDS in Ecology and Evolution 18(5): 241–248.

Kjellberg F, Jousselin E, Hossaert-McKey M, Rasplus J-Y (2005) Biology, Ecology, and Evolution of Fig-pollinating Wasps (Chalcidoidea, Agaonidae). In Raman A, Schaefer CW, Withers TM (Eds.) Biology, ecology and evolution of gall-inducing arthropods. v.2. New Hampshire, Science, p.539-572.

McPherson JR (2005) A Recent Expansion of its Queensland Range by Eupristina verticillata, Waterston (Hymenoptera, Agaonidae, Agaoninae), the Pollinator of Ficus microcarpa l.f. (Moraceae). Proceedings of the Linnean Society of New South Wales: 126: 197–201.

Weiblen DG (2002) How to be a fig wasp. Annual Review of Entomology 47: 299–330.

Wiebes JT (1992) Agaonidae (Hymenoptera, Chalcidoidea) and Ficus(Moraceae): fig waps and their figs, VIII (Eupristina s.l.). Proceedings of the Koninklijke Nederlandse Akademie van Wetenschappen 95(1): 109–125.

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Sexta Selvagem: Ácaro-da-lacerdinha-da-figueira

por Piter Kehoma Boll

Semana passada, apresentei a lacerdinha-da-figueira, que se alimenta de várias figueira, incluindo a figueira-lacerdinha e a figueira-cubana. Hoje, continuaremos subindo pela cadeia alimentar e falaremos sobre um ácaro que é parasita da lacerdinha-da-figueira. Chamado Adactylidium gynaikothripsi, decidi dar a ele o nome comum de “ácaro-da-lacerdinha-da-figueira”.

O ácaro-da-lacerdinha-da-figueira foi descrito apenas em 2011 a partir de populações da lacerdinha-da-figueira na Grécia. Este é o quarto ácaro do gênero Adactylidium que se sabe que parasita a lacerdinha-da-figueira, os outros três sendo Adactylidium ficorum (“ácaro-da-figueira-lacerdinha”), A. brasiliensis (“ácaro-da-lacerdinha-brasileiro”) and A. fletchmani (“ácaro-da-lacerdinha-de-Fletchman”). Como você deve imaginar, para parasitar um inseto tão pequeno como a lacerdinha-da-figueira, estes ácaros precisam ser ainda menores, medindo cerca de 0,1 mm de comprimento.

Fêmea adulta do ácaro-da-lacerdinha-da-figueira. Extraído de Antonatos et al. (2011).

O ciclo de vida do ácaro-da-lacerdinha-da-figueira, que é basicamente o mesmo para todas as espécies de Adactylidium, é bem bizarro. Fêmeas adultas se alimentam dos ovos da lacerdinha-da-figueira. Elas começam sua vida adulta vagando sobre folhas de figueira procurando um ovo de lacerdinha adequado para atacarem. Uma vez que o acham, elas furam a casca do ovo com suas quelíceras e se prendem a eles como carrapatos, começando a comer. Elas se alimentam de um só ovo ao longo de toda a vida. Se elas não são capazes de encontrar um ovo, podem também se prender a uma lacerdinha adulta como último recurso, caso contrário morrerão em poucas horas.

Assim que a fêmea começa a comer, um pequeno grupo de ovos, geralmente entre 5 e 10, começa a se desenvolver dentro dela. Os ovos crescem durante as primeiras 48 horas após a fêmea se prender ao ovo, fazendo-a dobrar de tamanho e se tornando algo como um saco de ovos esférico. Os ovos eclodem por essa época e as larvas ficam dentro da mãe. Estas larvas não possuem peças bucais, portanto se acredita que absorvam nutrientes da mãe diretamente pela superfície corporal. Cerca de 24 horas mais tarde, as larvas se transformam em ninfas, que permanecem inativas dentro da pele descartada de larva. Elas também não possuem nenhuma peça bucal.

Fêmeas de ácaro-da-lacerdinha-da-figueira presas a ovos da lacerdinha-da-figueira. Extraído de Antonatos et al. (2011).*

Outras 24 se passam e as ninfas se transformam em ácaros adultos. Elas ainda estão dentro da mãe quando isso acontece. Os adultos são compostos sempre de um único macho e várias fêmeas. Este macho então começa a copular com as próprias irmãs, ainda dentro do abdome da mãe, e, quando a cópula termina, eles começam a rasgar o corpo da mãe em pedaços para se libertarem, matando-a no processo. Uma vez fora do corpo, o macho morre em poucos minutos, nunca comendo nada além do corpo da própria mãe. As fêmeas, por outro lado, começam a procurar por ovos de lacerdinha para se alimentarem, apenas para serem mortas pelos próprios filhos menos de 4 dias depois.

Este ciclo de vida inteiro pode parecer insano de nossa perspectiva humana, mas a natureza nunca esteve interessada em seguir nosso código moral.

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Referências:

Antonatos SA, Kapaxidi EV, Papadoulis, GT (2011) Adactylidium gynaikothripsi n. sp. (Acari: Acarophenacidae) associated with Gynaikothrips ficorum (Marshal) (Thysanoptera: Phlaeothripidae) from Greece. International Journal of Acarology, 37(sup1), 18–26. doi: 10.1080/01647954.2010.531763

Elbadry, EA, Tawfik, MSF (1966) Life Cycle of the Mite Adactylidium sp. (Acarina: Pyemotidae), a Predator of Thrips Eggs in the United Arab Republic. Annals of the Entomological Society of America, 59(3), 458–461. doi:10.1093/aesa/59.3.458

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Sexta Selvagem: Lacerdinha-da-Figueira

por Piter Kehoma Boll

Semana passada eu apresentei a magnífica figueira-lacerdinha Ficus microcarpa. Hoje, trago um insetinho que a ama, mas não é amado de volta, a lacerdinha-da-figueira, Gynaikothrips ficorum.

Como seu nome sugere, a lacerdinha-da-figueira é uma lacerdinha, isto é, um inseto da ordem Thysanoptera, também conhecidos como tripes. Adultos desta espécie medem cerca de 3 mm de comprimento e possuem um corpo preto e alongado e dois pares de asas finas que se dobram sobre o dorso quando em repouso. Suas partes bucais,, como típico em lacerdinhas, são assimétricas, com uma mandíbula direita reduzida e uma mandíbula esquerda desenvolvida que é usada para cortar a superfície de plantas para sugar seus fluidos. Ela é, portanto, uma praga de plantas.

Lacerdinha-da-figueira adulta em Hong Kong. Foto do usuário wklegend do iNaturalist.*

A lacerdinha-da-figueira prefere se alimentar dos fluidos de figueiras, tal como a figueira-lacerdinha apresentada semana passada, mas também de outras espécies, como a figueira-cubana Ficus retusa. Ambas as figueiras, assim como a lacerdinha em si, são nativas do sudeste da Ásia. Outras plantas hospedeiras menos comuns incluem árvores cítricas e orquídeas. As lacerdinhas preferem se alimentar de folhas jovens e tenras e causam pontos escuros, geralmente arroxeados ou avermelhados, na superfície da folha. É comum que a folha se enrole e fique dura, eventualmente morrendo prematuramente. Apesar de a maioria das infestações não causar dano sério ao desenvolvimento da planta, o enrolamento das folhas pode reduzir o seu valor ornamental.

Folhas enroladas e feias causadas pela infestação da lacerdinha na Nova Zelândia. Foto de Stephen Thorpe.*

A reprodução da lacerdinha-da-figueira é basicamente constante, de forma que várias gerações ocorrem ao longo de um ano. Os adultos tomam vantagem das folhas enroladas produzidas pelo seu comportamento alimentar e as usam como proteção para depositar os ovos. Os estágios imaturos, após a eclosão, permanecem dentro do abrigo fornecido pela folha enrolada. Eles são transparentes nos primeiros dois ínstares e depois se tornam amarelo-claros. Somente o último estágio, o adulto, é preto.

Quando você are a folha, pode encontrar uma família inteira. Aqui pode-se ver ovos (grãozinhos brancos) e vários espécimes imaturos em diferentes estágios. Foto de James Bailey.*

Visto que a lacerdinha-da-figueira torna as plantas ornamentais feias, humanos estão sempre tentando encontrar maneiras de matá-la, especialmente usando pesticidas ou, às vezes, predadores naturais da lacerdinha. Mas o insetinho sempre pode revidar. Quando as lacerdinhas caem acidentalmente no corpo das pessoas, tendem a picar, mais provavelmente por acidente, mas isso pode acabar causando uma coceira séria e incômoda. Esse é o preço por mexer com quem está quieto.

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Referências:

Denmark HA, Fasulo TR, Funderburk JE (2005) Cuban laurel thrips, Gynaikothrips ficorum (Marchal) (Insecta: Thysanoptera: Phlaeothripidae). DPI Entomology Circular 59

Paine TD (1992) Cuban Laurel Thrips (Thysanoptera: Phlaeothripidae) Biology in Southern California: Seasonal Abundance, Temperature Dependent Development, Leaf Suitability, and Predation.Annals of the Entomological Society of America 85(2): 164–172. doi: 10.1093/aesa/85.2.164

Piu G, Ceccio S, Garau MG, Melis S, Palomba A, Pautasso M, Pittau F, Ballero M (1992) Itchy dermatitis from Gynaikothrips ficorum March in a family group. Allergy 47(4): 441–442. doi: 10.1111/j.1398-9995.1992.tb02087.x

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Sexta Selvagem: Figueira-Lacerdinha

por Piter Kehoma Boll

Com a postagem de hoje, pretendo começar uma série de três Sextas Selvagens que estão conectadas. Afinal, isso é o que a vida é, não é? Organismos interagindo.

Então para começar, vamos falar hoje sobre uma magnífica árvore, a figueira Ficus microcarpa, comumente conhecida como figueira-lacerdinha, baniano-malaio, gajumaru e muitos outros nomes. Ela ocorre nativamente da China até a Austrália, incluindo todo o sudeste da Ásia e várias ilhas do Pacífico no caminho. Contudo, ela pode ser encontrada em muitos outros países hoje porque se tornou uma planta ornamental um tanto popular.

Uma figueira-lacerdinha no Jardim Botânico de Maui Nui, Havaí. Foto de Forest & Kim Starr.*

Em seu hábitat natural, a figueira-lacerdinha atinge 30 metros de altura ou mais, com uma copa que se espalha por mais de 70 metros e um tronco com mais de 8 metros de espessura. A maioria das árvores são menores, no entanto, e nunca atingem tamanhos tão impressionantes em climas temperados. Sua casca possui uma cor cinza-clara e as folhas são lisas, inteiras e oblanceoladas, com 5 a 6 cm de comprimento. Os figos são consideravelmente pequenos, de onde o nome microcarpa (com frutos pequenos). É comum que espécimes grandes produzam raízes aéreas, que crescem dos galhos e tocam o solo, formando um sistema intrincado e belo.

Um espécime com várias raízes aéreas. Foto de Forest & Kim Starr.*

Como é típico entre figueiras, a figueira-lacerdinha é polinizada por uma vespa-do-figo, neste caso da espécie Eupristina verticillata. Fora de sua área nativa, a árvore só consegue produzir sementes viáveis na presença da vespa, de forma que o inseto precisa ser introduzido junto com ela. Seus frutos são muito atrativos para aves, que espalham as sementes em suas fezes. Após passarem pelo trato digestivo da ave e atingirem o ambiente externo de novo, as sementes atraem formigas que as espalham ainda mais. Sendo bem versátil em relação ao substrato em que germina, a figueira-lacerdinha pode crescer sobre muitas superfícies, frequentemente brotando através de frestas em muros e calçadas e os quebrando enquanto cresce.

Folhas e fruto. Foto de Forest & Kim Starr.*

A figueira-lacerdinha é usada na medicina tradicional chinesa para tratar uma variedade de condições, incluindo dor, febre, gripe, malária, bronquite e reumatismo. Estudos em laboratório isolaram compostos anticâncer, antioxidantes e antibacterianos da casca, das folhas, das raízes aéreas e dos frutos, bem como compostos antifúngicos do látex. A árvore tem, portanto, o potencial de ser usada para o desenvolvimento de muitos medicamentos.

Uma muda crescendo num muro. Foto de Forest & Kim Starr.*

Devido ao seu tamanho impressionante e o intrincado labirinto formado pela rede de raízes aéreas, a figueira-lacerdinha possui um papel importante para muitos grupos religiosos em sua região nativa, sendo frequentemente considerada a casa de espíritos, sejam eles bons ou maus, e sua presença costuma marcar locais de adoração. Independente destas crenças, no entanto, esta magnífica árvore merece toda a admiração que recebe.

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Referências:

Ao C, Li A, Elzaawely AA, Xuan TD, Tawata S (2008) Evaluation of antioxidant and antibacterial activities of Ficus microcarpa L. fil. extract. Food Control 19(10): 940–948. doi: 10.1016/j.foodcont.2007.09.007

Chiang YM, Chang JY, Kuo CC, Chang CY, Kuo YH (2005) Cytotoxic triterpenes from the aerial roots of Ficus microcarpa. Phytochemistry 66(4): 495–501. doi:10.1016/j.phytochem.2004.12.026

Kaufmann S, McKey DB, Hossaert-McKey M, Horvitz CC (1991) Adaptations for a two-phase seed dispersal system involving vertebrates and ants in a hemiepiphytic fig (Ficus microcarpa: Moraceae). American Journal of Botany 78(7): 971–977. doi: 10.1002/j.1537-2197.1991.tb14501.

Taira T, Ohdomari A, Nakama N, Shimoji M, Ishihara M (2005) Characterization and Antifungal Activity of Gazyumaru (Ficus microcarpa) Latex Chitinases: Both the Chitin-Binding and the Antifungal Activities of Class I Chitinase Are Reinforced with Increasing Ionic Strength. Bioscience, Biotechnology and Biochemistry 69(4): 811–819. doi: 10.1271/bbb.69.811

Wikipedia. Ficus microcarpa. Disponível em < https://en.wikipedia.org/wiki/Ficus_microcarpa >. Acesso em 8 de junho de 2019.

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Sexta Selvagem: Piolho-da-Farinha-Comum

por Piter Kehoma Boll

Não importa onde você viva no mundo, se você já deixou farinha ou grãos armazenados por muito tempo, deve ter encontrado algum tipo de inseto que apareceu na comida, alimentando-se dela. Há muitas espécies de inseto que existem como pragas de cozinha, incluindo mariposas, besouros, e nosso camarada de hoje, o piolho-da-farinha-comum Liposcelis bostrychophila.

O piolho-da-farinha-comum, também conhecido como psocídeo doméstico, é um membro da ordem de insetos Psocoptera, que inclui a maioria das espécies conhecidas como piolhos, tal como piolhos-da-cortiça, piolhos-dos-livros e os piolhos parasitas comuns de mamíferos e aves. O piolho-da-farinha-comum é um inseto muito pequeno, medindo somente cerca de 1 mm de comprimento como adulto, e não possui asas. Provavelmente de origem tropical, ele foi identificado pela primeira vez a partir de espécimes coletados sob cascas de árvore em Moçambique, mas, durante o século XX, passou a se espalhar rapidamente ao redor do mundo.

Piolho-da-farinha-comum em farinha de trigo integral velha. Foto do usuário sea-kangaroo do iNaturalist.*

Em seu habitat natural, que provavelmente são florestas tropicais, o piolho-da-farinha-comum não é muito comum. Contudo, uma vez que ele acabou dentro de residências humanas, encontrou o lugar perfeito para proliferar. Comida armazenada, especialmente grãos, são como o paraíso alimentar para eles. Com alimento sendo transportado de um país para o outro, o piolho-da-farinha-comum conquistou o planeta todo em poucas décadas. E eles não são associados apenas a comida armazenada, mas com quase qualquer tipo de matéria vegetal, incluindo palha usada em colchões e às vezes em divisórias internas. Apesar de se alimentar destes materiais, o piolho-da-farinha-comum não causa danos sérios a eles e o principal problema é que sua população tende a crescer enormemente, fazendo-o se tornar bem incômodo só por estar ali.

A reprodução do piolho-da-farinha-comum ocorre quase exclusivamente por partenogênese, em que as fêmeas são capazes de gerar prole de ovos não-fertilizados. Machos são muito raros e foram registrados pela primeira vez apenas recentemente. Esta é provavelmente uma das razões de esta espécie ser tão bem-sucedida invadindo novos ambientes, visto que uma única fêmea pode originar uma população inteira. Há casos registrados de casas tão densamente infectadas que as paredes estavam completamente cobertas de piolhos-da-farinha.

Vários métodos vem sendo tentados para conter o avanço desta pequena criatura, mas a maioria é malsucedida. Eles parecem ser bem resistentes tanto a pesticidas químicos quanto a fungos entomopatogênicos, isto é, fungos que infectam insetos. Sua cutícula possui uma composição química peculiar, diferente da encontrada em outros insetos, que previne esporos de fungos de germinarem.

Podemos concluir que o piolho-da-farinha-comum é uma espécie que veio para ficar, não importa o que tentemos fazer para nos livrar dela.

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Referências:

Lord JC, Howard RW (2004) A Proposed Role for the Cuticular Fatty Amides of Liposcelis bostrychophila (Psocoptera: Liposcelidae) in Preventing Adhesion of Entomopathogenic Fungi with Dry-conidia. Mycopathologia 158(2): 211–2117. doi: 10.1023/B:MYCO.0000041837.29478.78

Turner BD (1994) Liposcelis bostrychophila (Psocoptera: Liposcelididae), a stored food pest in the UK. International Journal of Pest Management, 40(2), 179–190. doi: 10.1080/0967087940937187

Yang Q, Kučerová Z, Perlman SJ, Opit GP, Mockford EL, Behar A, Robinson WE, Steijskal V, Li Z, Shao R (2015) Morphological and molecular characterization of a sexually reproducing colony of the booklouse Liposcelis bostrychophila (Psocodea: Liposcelididae) found in Arizona. Scientific Reports5: 110429. doi: 10.1038/srep10429

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*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição Não Comercial Sem Derivações 4.0 Internacional.

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