Arquivo da categoria: Sexta Selvagem

Sexta Selvagem: Aperta-ruão

por Piter Kehoma Boll

Um parente da famosa pimenta-preta da Índia que é usada como tempero no mundo todo, a espécie de hoje, o aperta-ruão Piper aduncum, vem da América do Sul, tendo também outros nomes populares no Brasil, como mático, falso-jaborandi, tapa-buraco e pimenta-de-macaco.

Crescendo como uma pequena árvore ou arbusto, o aperta-ruão é disseminado pelo continente, sendo encontrado tanto na floresta Atlântica quanto na floresta Amazônica. Com um odor apimentado como as outras pimentas, ele pode ser usado como substituto a elas na preparação de comida, mas seus principais usos são medicinais.

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Detalhe de um ramo de Piper aduncum mostrando as inflorescências. Foto de João Medeiros.*

Ele é classicamente usado por populações locais como um antisséptico aplicado diretamente em feridas abertas e também como infusão ou pasta para tratar desordens gastrointestinais e problemas dos órgãos genitais. Estudos em laboratório usando extratos da planta concluíram que ela tem propriedades moluscidas e antibacterianas, assim tendo potencial de ser usado tanto como antisséptico quanto como pesticida contra moluscos.

Fora da América do Sul, o aperta-ruão se tornou uma espécie invasora problemática em várias ilhas do Pacífico, tal como Nova Guiné e Fiji. Na Papua-Nova Guiné, ela se tornou tão comum que foi incorporada na cultura dos povos locais, os quais a usam como fonte de madeira e como medicamento e pesticida.

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Referências:

Maia, J., Zohhbi, M., Andrade, E., Santos, A., da Silva, M., Luz, A., & Bastos, C. (1998). Constituents of the essential oil ofPiper aduncum L. growing wild in the Amazon region Flavour and Fragrance Journal, 13 (4), 269-272 DOI: 10.1002/(SICI)1099-1026(1998070)13:43.0.CO;2-A

Orjala, J., Wright, A., Behrends, H., Folkers, G., Sticher, O., Rüegger, H., & Rali, T. (1994). Cytotoxic and Antibacterial Dihydrochalcones from Piper aduncum Journal of Natural Products, 57 (1), 18-26 DOI: 10.1021/np50103a003

Potzernheim, M., Bizzo, H., Silva, J., & Vieira, R. (2012). Chemical characterization of essential oil constituents of four populations of Piper aduncum L. from Distrito Federal, Brazil Biochemical Systematics and Ecology, 42, 25-31 DOI: 10.1016/j.bse.2011.12.025

Siges, T., Hartemink, A., Hebinck, P., & Allen, B. (2005). The Invasive Shrub Piper aduncum and Rural Livelihoods in the Finschhafen Area of Papua New Guinea Human Ecology, 33 (6), 875-893 DOI: 10.1007/s10745-005-8214-7

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Sexta Selvagem: Míldio-da-Alface

por Piter Kehoma Boll (Read this post in English)

Semana passada eu apresentei um sério patógeno de plantas, o bolor-cinzento, que ataca muitas plantas cultivadas e possui um papel tanto bom quanto ruim em videiras. Mas uma planta que nunca está feliz com uma infecção pelo bolor-cinzento é certamente a alface. E neste caso nosso vegetal suculento tem um inimigo que o torna suscetível ao bolor, e eu vou apresentá-lo hoje.

Chamado Bremia lactucae, este organismo é um oomiceto, assim pertencendo a um grupo de organismos que era antigamente classificado como sendo fungos, mas que atualmente se sabe que são mais proximamente relacionados às algas marrons e douradas. Esta espécie ataca pés de alface e plantas proximamente relacionadas, causando uma doença chamada míldio-da-alface.

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Uma folha de alface com míldio. Foto de Gerald Holmes.*

O míldio-da-alface é a doença mais importante afetando alfaces no mundo todo. A doença em si não é o problema principal, apesar de diminuir a qualidade das plantas. O maior problema é que ela torna o vegetal mais vulnerável a outras infecções, tal como as do bolor-cinzento, e também aumenta o risco de contaminação por patógenos humanos, como os parasitas intestinais.

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Um ramo de míldio-da-alface sob o microscópio. Foto de Bruce Watt.*

As formas típicas de controlar a disseminação do míldio-da-alface são o uso de fungicidas e o desenvolvimento de alfaces resistentes ao míldio por hibridização com variedades selvagens e naturalmente resistentes. Contudo, como de costume, o míldio-da-alface eventualmente se adapta a isso, levando a linhagens resistentes a fungicidas, bem como a linhagens capazes de neutralizar a resistência das linhagens de alface. É mais uma corrida armamentista evolutiva.

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Referências:

Beharav, A., Ochoa, O., & Michelmore, R. (2013). Resistance in natural populations of three wild Lactuca species from Israel to highly virulent Californian isolates of Bremia lactucae Genetic Resources and Crop Evolution, 61 (3), 603-609 DOI: 10.1007/s10722-013-0062-5

Parra, L., Maisonneuve, B., Lebeda, A., Schut, J., Christopoulou, M., Jeuken, M., McHale, L., Truco, M., Crute, I., & Michelmore, R. (2016). Rationalization of genes for resistance to Bremia lactucae in lettuce Euphytica, 210 (3), 309-326 DOI: 10.1007/s10681-016-1687-1

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Sexta Selvagem: Bolor-Cinzento

por Piter Kehoma Boll

Na Sexta Selvagem de hoje mostraremos como a beleza é só uma questão de perspectiva. Sendo um fungo ascomiceto conhecido comumente como bolor-cinzento, a espécie de hoje geralmente é encontrada crescendo em vegetais em decomposição, especialmente frutas como o morango na foto abaixo:

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Bolor-cinzento crescendo num morango. A maioria das pessoas não consideraria isso como uma imagem bonita. Foto do usuário Rasbak do Wikimedia.*

O bolor-cinzento tem uma nomenclatura biológica controversa, assim como muitos outros fungos. O nome mais comum é Botrytis cinerea, usado para seu estágio assexual (anamorfo), que é o mais comum. Seu estágio sexual (teleomorfo) é conhecido como Botryotina fuckeliana. Eu acho que esse problema, que era comum ao dar nome a fungos com estágio sexual de ocorrência rara ou desconhecida, já foi resolvido, mas como não sou um taxonomista de fungos, não posso falar muito sobre o assunto.

Mais do que somente ter um nome controverso, este fungo também tem uma interação controversa com humanos. Ele é uma praga notável em uvas e pode levar a dois diferentes tipos de infecção nelas. Uma delas é conhecida como “podridão cinzenta” e acontece em condições muito úmidas, levando à perda das uvas. A outra é chamada “podridão nobre” e é uma forma benéfica da infecção que acontece quando a condição úmida é seguida por uma seca, o que leva à produção de um vinho fino e doce devido à concentração de açúcares na uva.

Fora do mundo dos vinhos, contudo, o bolor-cinzento não é algo que você quer crescendo em suas plantações. Visto que ele ataca mais de 200 espécies, muitas delas sendo vegetais alimentícios importantes, há um grande interesse no desenvolvimento de estratégias para reduzir os dano que ele causa. E essas estratégias incluem o uso de pesticidas, óleos essenciais de plantas e mesmo outros organismos que podem parasitar o bolor-cinzento.

Mas não podemos negar que, se olharmos de perto, mesmo o bolor cinzento é belo:

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Uma linda florestinha de bolor-cinzento num morango. Foto de Macroscopic Solutions.**

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Referências:

Wikipedia. Botrytis cinerea. Available at <https://en.wikipedia.org/wiki/Botrytis_cinerea&gt;. Access on June 2, 2017.

WILLIAMSON, B., TUDZYNSKI, B., TUDZYNSKI, P., & VAN KAN, J. (2007). Botrytis cinerea: the cause of grey mould disease Molecular Plant Pathology, 8 (5), 561-580 DOI: 10.1111/j.1364-3703.2007.00417.x

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Sexta Selvagem: Antócero-do-campo

por Piter Kehoma Boll

Três semanas atrás a Sexta Selvagem trouxe um musgo, sendo aquela a terceira planta não-vascular apresentada. E antes de voltarmos às plantas vasculares, vamos dar uma olhada em outro camarada não-vascular da única divisão não-vascular que ainda não foi apresentada aqui, os antóceros.

A espécie que escolhi para começar a participação de antóceros é o antócero-do-campo, Anthoceros agrestis.

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Um pedaço de solo com o antócero-do-campo crescendo em cima. Foto do usuário BerndH do Wikimedia.*

Como outros antóceros, o antócero-do-campo tem uma fase gametófito dominante que aparece como uma planta achatada pequena crescendo bem perto do solo. O esporófito cresce sobre ele e tem a forma de um chifre vertical alongado, de onde o nome antócero (“chifre-flor”).

Encontrado na Europa e na América do Norte, o antócero-do-campo geralmente cresce em locais úmidos e está geralmente cercado de musgos. Seu gametófito tem algumas cavidades preenchidas de mucilagem que são o local favorito para espécies de cianobactérias do gênero Nostoc crescerem. Essa associação é o que faz os antóceros adquirirem seu tom ligeiramente azulado.

O antócero-do-campo tem o menor genoma de todas as plantas não-vasculares estudadas até o presente e por isso ele tem sido cultivado para servir como um interessante organismo-modelo.

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Referências:

EOL – Encyclopedia of life. Field Hornwort. Disponível em <http://eol.org/pages/399515/overview&gt;. Acesso em 18 de maio de 2017.

Szövényi, P., Frangedakis, E., Ricca, M., Quandt, D., Wicke, S., & Langdale, J. (2015). Establishment of Anthoceros agrestis as a model species for studying the biology of hornworts BMC Plant Biology, 15 (1) DOI: 10.1186/s12870-015-0481-x

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Sexta Selvagem: Sepíola-Beija-Flor

por Piter Kehoma Boll

Se você estiver cavando através da areia do fundo das claras águas tropicais em torno da Indonésia e das Filipinas, você pode acabar encontrando uma criaturinha multicolorida, a sepíola-beija-flor, Euprymna berryi, também conhecida como sepíola de Berry.

Euprymna_berryi

Um belo espécime fotografado no Timor Leste. Foto de Nick Hobgood.*

Medindo cerca de 3 cm de macho ou 5 cm se fêmea, a sepíola-beija-flor é aparentada às sépias verdadeiras e mais distantemente às lulas. Seu corpo possui uma pele translúcida marcada por muitos cromatóforos, e para o olho humano o animal parece ter um padrão de cor formado por uma mistura de pontos pretos, azul-elétricos e verdes ou roxos.

Durante o dia, a sepíola-beija-flor permanece a maior parte do seu tempo enterrada na areia, saindo à noite para capturar pequenos crustáceos, os quais caça usando um órgão bioluminescente em sua cavidade branquial.

Em algumas áreas em torno de sua distribuição, a sepíola-beija-flor é capturada e vendida em pequenas peixarias, mas como os dados sobre sua distribuição e dinâmica populacional são muito pouco conhecidos, não há como dizer se ela por acaso é uma espécie vulnerável ou em perigo. Como resultado, ela está listada como deficiente em dados na Lista Vermelha da IUCN.

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Referências:

Barratt, I., & Allcock, L. (2012). Euprymna berryi The IUCN Red List of Threatened Species DOI: 10.2305/IUCN.UK.2012-1.RLTS.T162599A925343.en

Wikipedia. Euprymna berryi. Available at <https://en.wikipedia.org/wiki/Euprymna_berryi&gt;. Access on March 8, 2017.

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Sexta Selvagem: Falo-impudico

por Piter Kehoma Boll

Hoje as coisas vão se tornar meio pornográficas de novo. Algum tempo atrás eu apresentei uma planta cujas flores lembram uma vulva humana, a clitória-azul, e agora é hora de olharmos para algo do outro sexo. E o que seria melhor do que um pênis sem vergonha? Essa é basicamente a tradução do nome desse cogumelo, Phallus impudicus, que em português pode ser chamado de falo-impudico, assim mantendo o mesmo significado, mas de forma mais elegante.

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Orgulhoso e sem vergonha. Foto do usuário do flickr Björn S…*

Encontrado através da Europa e em partes da América do Norte em florestas decíduas, o falo impudico é facilmente reconhecível por seu formato fálico e ainda mais pelo seu cheiro horrível que lembra carniça. Esse odor atrai insetos, especialmente moscas, que levam os esporos para longe. Esse é um método diferente do usado pela maioria dos fungos, que simplesmente liberam os esporos no ar. Algumas pessoas podem confundir o falo-impudico com as morelas (gênero Morchella), mas os dois são completamente diferentes, pertencendo a diferentes filos.

Apesar do cheiro ruim, o falo-impudico é comestível, especialmente no início de seu desenvolvimento, quando ele se parece com um ovo. Devido ao seu formato fálico, ele também é visto como um afrodisíaco em algumas culturas, como é comum com formas de vida em formato de genitália.

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O corpo de frutificação imaturo do Phallus impudicus é a forma mais comumente consumida. Foto de Danny Seteven S.*

O falo-impudico parece ter algumas propriedades anticoagulantes e pode ser usado por pacientes suscetíveis a trombose nas veias, como pacientes tratando câncer de mama.

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Referências:

Kuznecov, G., Jegina, K., Kuznecovs, S., & Kuznecovs, I. (2007). P151 Phallus impudicus in thromboprophylaxis in breast cancer patients undergoing chemotherapy and hormonal treatment The Breast, 16 DOI: 10.1016/s0960-9776(07)70211-4

SMITH, K. (2009). On the Diptera associated with the Stinkhorn (Phallus impudicus Pers.) with notes on other insects and invertebrates found on this fungus. Proceedings of the Royal Entomological Society of London. Series A, General Entomology, 31 (4-6), 49-55 DOI: 10.1111/j.1365-3032.1956.tb00206.x

Wikipedia. Phallus impudicus. Available at <https://en.wikipedia.org/wiki/Phallus_impudicus&gt;. Access on March 7, 2017.

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Sexta Selvagem: Musgo-da-terra-espalhado

por Piter Kehoma Boll

Se você ainda acha que musgos não são interessantes, talvez mude de ideia depois de conhecer o musgo-da-terra-espalhado, Physcomitrella patens.

Encontrado em regiões temperadas do mundo, exceto na América do Sul, mas mais comum na América do Norte e na Eurásia, o musgo-da-terra-espalhado cresce perto de corpos d’água, sendo uma das primeiras espécies a colonizar o solo exposto em torno de poças d’água. Apesar de amplamente distribuído, não é uma espécie comum.

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O musgo-da-terra-espalhado crescendo na lama. Foto de Hermann Schachner.

Desde o começo dos anos 1970, o musgo-da-terra-espalhado vem sendo usado como organismo modelo, especialmente em relação a manipulação de genes. Diferente do que ocorre em plantas vasculares, a fase dominante em musgos é o gametófito, um organismo haploide, o que significa que ele tem apenas uma cópia de cada cromossomo nas células. Essa é uma condição ideal para o estudo da expressão de genes, já que a ativação e desativação de um gene não é mascarada por um segundo em outra cópia do cromossomo na mesma célula.

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Physcomitrella patens crescendo no laboratório. Créditos ao laboratório de Ralf Reski.*

Ao controlar a expressão gênica no musgo-da-terra-espalhado, pesquisadores podem traçar o papel de cada um deles no desenvolvimento da planta. Comparar esses dados com o que é conhecido de plantas com flores pode levar a um melhor entendimento de como o reino das plantas evoluiu.

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Referências:

Cove, D. (2005). The Moss Physcomitrella patens Annual Review of Genetics, 39 (1), 339-358 DOI: 10.1146/annurev.genet.39.073003.110214

Schaefer, D. (2001). The Moss Physcomitrella patens, Now and Then PLANT PHYSIOLOGY, 127 (4), 1430-1438 DOI: 10.1104/pp.127.4.1430

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