Arquivo da categoria: Sexta Selvagem

Sexta Selvagem: Mosca-Serra-do-Nabo

por Piter Kehoma Boll

Depois dos besouros, que formam a ordem Coleoptera, o segundo grupo mais diverso de insetos é a ordem Lepidoptera, que inclui borboletas e mariposas. Contudo a ordem Hymenoptera tem o potencial de eventualmente ultrapassar Lepidoptera e se tornar mais próxima dos besouros porque muitas espécies novas estão sendo constantemente descritas.

Os himenópteros mais conhecidos são as abelhas, formigas e vespas, mas uma enorme parte de sua diversidade é formada pelas chamadas moscas-serra. Uma destas espécies é comumente conhecida como mosca-serra-do-nabo e cientificamente conhecida como Athalia rosae.

Mosca-serra-do-nabo nos Países Baixos. Foto de Herman Berteler.*

A mosca-serra-do-nabo é encontrada ao longo da Região Paleártica, do oeste da Europa até o Japão, e seu nome comum vêm do fato de suas larvas se alimentarem de plantas da família Brassicaceae, que inclui o nabo, bem como o repolho, entre outros. As larvas são consideravelmente grandes e se parecem com lagartas, tendo uma cor dorsal cinza-escura, quase preta, e são mais claras perto das pernas. Quando elas estão prestes a se tornarem pupas, elas se enterram no solo, constroem um casulo e permanecem ali até se tornarem adultos.

Uma larva na Dinamarca. Foto de Donald Hobern.**

Os adultos medem cerca de 6 a 8 mm de comprimento, as fêmeas sendo maiores que os machos. O corpo e as pernas possuem uma cor amarela a laranja, mais escura na superfície dorsal do tórax, que também possui duas grandes manchas pretas. A cabeça e as antenas são pretas.

Um adulto na Alemanha. Foto de Martin Grimm.*

Himenópteros no geral são caracterizados por uma determinação sexual única na qual fêmeas são diploides, isto é, possuem dois conjuntos de cromossomos, e machos são haploide, tendo somente um conjunto. Acasalamentos conduzidos em laboratório com a mosca-serra-do-nabo, contudo, foram capazes de produzir combinações anômalas, incluindo machos diploides e machos e fêmeas triploides. Aparentemente isto é possível devido ao sexo ser determinado por um alelo em um cromossomo, de forma que machos são sempre homozigotos e fêmeas sempre heterozigotas, mas isso precisa ser explicado em outra postagem. O fato é que o estudo deste peculiar sistema nesta espécie está ajudando a entender como a determinação do sexo evoluiu em himenópteros.

Um adulto na Rússia. Foto de Roman Providuhin.*

Uma última coisa interessante a mencionar sobre a mosca-serra-do-nabo é que ela é capaz de contornar os mecanismos de defesa das plantas das quais sua larva se alimenta. Plantas na família Brassicaceae produzem um grupo de compostos chamados glucosinolatos que dão a elas seu odor e amargor característicos, como na mostarda e no rábano-de-cavalo. Estes compostos são usados por plantas como uma defesa contra pragas que se alimentam delas. Contudo a mosca-serra-do-nabo é resistente a estes compostos e consegue sequestrá-los e armazená-los em sua hemolinfa, isto é, o “sangue”, em concentrações muito maiores que as encontradas nas plantas. Quando atacadas por predadores como formigas, as larvas liberam gotas de hemolinfa em uma forma de sangramento defensivo e podem parar o ataque.

A mosca-serra-do-nabo pode ser um incômodo para humanos e suas plantações, mas é certamente um animal fascinante.

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Referências:

Müller C, Agerbirk N, Olsen CE, Boevé JL, Schaffner U, Brakefield PM (2001) Sequestration of host plant glucosinolates in the defensive hemolymph of the sawfly Athala rosae. Journal of Chemical Ecology 27(12): 2505–2516. doi: 10.1023/A:1013631616141

Müller C, Boevé JL, Brakefield PM (2002) Host plant derived feeding deterrence towards ants in the turnip sawfly Athalia rosae. In: Nielsen J.K., Kjær C., Schoonhoven L.M. (eds) Proceedings of the 11th International Symposium on Insect-Plant Relationships. Series Entomologica, vol 57. Springer, Dordrecht. doi: 10.1007/978-94-017-2776-1_18

Naito T, Suzuki H (1991) Sex determination in the sawfly, Athalia rosae ruficornis (Hymenoptera): occurrence of triploid males. Journal of Heredity 82(2): 101–104. 10.1093/oxfordjournals.jhered.a111042

Oishi K, Sawa M, Hatakeyama M, Kageyama Y (1993) Genetics and biology of the sawfly, Athalia rosae (Hymenoptera). Genetica 88(2–3): 119–127. doi: 10.1007/BF02424468

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Sexta Selvagem: Maria-Fedida

por Piter Kehoma Boll

Hemípteros constituem a quinta ordem mais numerosa de insetos com cerca de 80 mil espécies atualmente conhecidas. Entre elas, uma que é amplamente disseminada ao redor do mundo e que você pode ter visto por aí é a maria-fedida Nezara viridula, também conhecida como fede-fede, fede-fede-verde e provavelmente muitos outros nomes. O nome fede-fede aplicado a esta espécie e outras próximas se refere ao fato de que elas secretam uma substância defensiva com um cheiro forte de seu tórax quando ameaçadas.

Nezara viridula em Taiwan. Foto de Jaycee Snow.*

Esta espécie geralmente é verde quando adulta e pode ser reconhecida por uma linha de três pequenos pontos brancos na borda anterior do escutelo, a placa triangular entre as asas. Também há um pequeno ponto preto em cada um dos cantos anteriores do escutelo, alinhados com a linha de pontos brancos. Em alguns espécimes, a parte anterior da cabeça e a borda anterior do tórax podem ter uma cor diferente, geralmente branco, amarelo ou laranja, e às vezes o corpo inteiro possui uma borda branca. Durante o inverno, a cor verde geralmente desaparece e é substituída por um tom marrom.

Variedade com a borda esbranquiçada na Grécia. Foto de Anna Chapman.

Outra forma muito mais rara possui um corpo completamente laranja ou vermelho, o qual contrasta grandemente com o verde típico. Os três pequenos pontos brancos, e especialmente os pretos, ainda estão presentes, tornando fácil reconhecer estas variações como pertencendo à mesma espécie.

Variedade amarela na Argentina. Foto de Gonzalo Roget.**

A maria-fedida é originalmente de algum lugar na África oriental, provavelmente pelos arredores da Etiópia, mas atualmente é encontrada em áreas tropicais e subtropicais de todos os continentes. Com um aparelho bucal picador-sugador como todos os membros da ordem Hemiptera, ela se alimenta de mais de 30 famílias de plantas, perfurando sua superfície, injetando enzimas digestivas e depois sugando o produto parcialmente digerido. Algumas de suas plantas favoritas incluem legumes como o feijão e a soja, tornando-as pragas importantes destas plantações. Eles preferem sugar em partes mais tenras da planta, como nos brotos em crescimento ou frutos em desenvolvimento e, portanto, são comumente encontradas perto destes.

Duas marias-fedidas copulando na França. Uma tem o padrão inteiramente verde e a outra o padrão com borda branca. Foto de Bernard Dupont.***

Em áreas tropicais, a maria-fedida pode se reproduzir ao longo do ano todo, mas em zonas temperadas seu período reprodutivo é restrito aos meses mais quentes do ano. Em tais áreas, os adultos começam a acasalar e procurar alimento assim que as temperaturas sobem, às vezes viajando até 1 km por dia em busca de alimento e local para depositar os ovos.

Nezara viridula em sua forma marrom de inverno na França. A estrutura branca na cabeça, perto do olho direito, é um ovo da mosca parasitoide Trichopoda pennipes. Foto de Didier Descouens.***

O comportamento sexual da maria-fedida é bastante complexo. Os machos liberam feromônios que atraem tanto machos quanto fêmeas, aparentemente como uma maneira de aumentar as oportunidades de acasalamento. Como resultado, vários indivíduos podem ser encontrados aglomerados e prontos para copular. O comportamento de corte inclui uma série de sons estridulantes produzidos tanto pelos machos quanto pelas fêmeas e uma sequência específica de canções masculinas e femininas alternadas parece ser necessária para que a cópula ocorra.

Ovos depositados por uma maria-fedida fêmea na Nova Zelândia. Foto de Robert Briggs.****

Os ovos da maria-fedida são amarelados e a fêmea os põe em aglomerados poligonais, arranjados em fileiras regulares, e os cola uns aos outros. O tempo até a eclosão depende da temperatura do ambiente e pode levar 5 dias ou menos no verão e até 3 semanas em meses mais frios.

Ninfas de primeiro ínstar ainda ao redor dos restos dos ovos na Alemanha. Foto do usuário Slimguy do Wikimedia.****

As ninfas de primeiro ínstar eclodidas são marrom-escuras e permanecem perto umas das outras próximo às cascas dos ovos. Após fazerem a muda e se tornarem o segundo ínstar, que é preto, as ninfas passam a se dispersar. Os terceiro e quarto ínstares são marrom-escuros a pretos e possuem uma série de pontos brancos no abdome. É somente durante o quinto e último ínstar da ninfa que a cor verde do adulto começa a aparecer.

Ninfa de terceiro ínstar em Gran Canaria. Foto de Juan Emilio.***

A maria-fedida possui vários inimigos naturais, incluindo aranhas e formigas predadoras, bem como moscas parasitoides, que se alimentam dos adultos, e vespas parasitoides que se alimentam dos ovos. As espécies parasitoides são conhecidas por usarem os feromônios liberados por fede-fedes adultos para localizá-los no ambiente.

Ninfa de quinto ínstar na Nova Zelândia. Foto de Uwe Schneehagen.**

Com o aumento da temperatura causado pelas mudanças climáticas, a maria-fedida pode se espalhar para novas partes do mundo e eventualmente se tornar uma praga muito mais séria.

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Referências e leitura complementar:

Čokl A, Virant-Doberlet M, McDowell A (1999) Vibrational directionality in the southern green stink bug, Nezara viridula (L.), is mediated by female song. Animal Behavior 58(6): 1277–1283. doi: 10.1006/anbe.1999.1272

Čokl A, Zorović M, Žunić A, Virant-Doberlet M (2005) Tuning of host plants with vibratory songs of Nezara viridula L (Heteroptera: Pentatomidae). Journal of Experimental Biology 208: 1481–1488. doi: 10.1242/jeb.01557

Colazza S, Salerno G, Wajnberg E (1999) Volatile and Contact Chemicals Released by Nezara viridula (Heteroptera:Pentatomidae) Have a Kairomonal Effect on the Egg Parasitoid Trissolcus basalis (Hymenoptera: Scelionidae). Biological Control 16(3): 310–317. doi: 10.1006/bcon.1999.0763

Mattiacci L, Vinson SB, Williams HJ, Aldrich JR, Bin F (1993) A long-range attractant kairomone for egg parasitoid Trissolcus basalis, isolated from defensive secretion of its host, Nezara viridula. Journal of Chemical Ecology 19(6): 1167–1181. doi: 10.1007/BF00987378

Musolin DL, Numata H (2003) Photoperiodic and temperature control of diapause induction and colour change in the southern green stink bug Nezara viridula. Physiological Entomology 28(2): 65–74. doi: 10.1046/j.1365-3032.2003.00307.x

Todd JW (1989) Ecology and behavior of Nezara viridula. Annual Review of Entomology 34: 272–292. doi: 10.1146/annurev.en.34.010189.001421

Tougou D, Musolin DL, Fujisaki K (2009) Some like it hot! Rapid climate change promotes changes in distribution ranges of Nezara viridula and Nezara antennata in Japan. Entomologia Experimentalis et Applicata 130(3): 249–258. doi: 10.1111/j.1570-7458.2008.00818.x

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Sexta Selvagem: Lapa-Ornada

por Piter Kehoma Boll

Gastrópodes são a classe de animais mais rica em espécies na Terra depois dos insetos, mas faz muito tempo desde que apresentei o último. Então hoje vou trazer um da costa da Nova Zelândia, a lapa-ornada Cellana ornata.

Duas lapas-ornadas na costa de Northland, Nova Zelândia. Foto do usuário pedromalpha do iNaturalist.*

Seu corpo em forma de cone, como na maioria das lapas, possui um padrão característico que pode ser usado para reconhecê-la. Há uma série de cristas elevadas correndo do centro escuro em direção às margens da concha. Geralmente há onze delas e elas possuem um tom alaranjado, às vezes muito intenso, quase vermelho ou marrom, e às vezes bem fraco, quase branco. A região entre as cristas é mais escura, geralmente preta, e possui uma fileira de nódulos correndo paralela às cristas, às vezes com uma fileira de nódulos adicionais menores de cada lado. O padrão pode ser obscurecido por organismos crescendo na concha, especialmente algas e cracas.

Uma lapa-ornada coberta de cracas. Foto do usuário pedromalpha do iNaturalist.*

Como de costume entre lapas, a lapa-ornada vive na zona entremarés na superfície de rochas. Ela se alimenta de algas crescendo no substrato, raspando-as da rocha usando sua rádula, a língua dentada dos gastrópodes. Quando as ondas estão batendo nas rochas ou a rocha é exposta ao sol e está secando, a lapa-ornada baixa a concha contra o substrato e se mantém firmemente presa usando seu pé poderoso. Somente quando as condições são ideais, isto é, quando a rocha esta está molhada e sem ondas fortes, é que a lapa-ornada se desloca.

Um belo espécime da lapa-ornada na Ilha Stweart. Foto do usuário naturewatchwidow do iNaturalist.**

A lapa-ornada vive cerca de dois anos e sua reprodução acontece durante o verão, por volta de fevereiro, o que significa que cada indivíduo reproduz no máximo duas vezes antes de morrer. Condições ambientais provavelmente afetam a longevidade, porque espécimes vivendo em rochas menos expostas possuem um metabolismo mais elevado que aqueles habitando um substrato que está constantemente sujeito à dessecação e que os força a ficaram inativos por longos períodos.

Comparada a outras espécies proximamente relacionadas, a lapa-ornada possui uma vida curta e poucos eventos reprodutivos. Mesmo assim, ela ainda é uma espécie comum pela Nova Zelândia, tendo desenvolvido uma fecundidade elevada que a permite proliferar.

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Referências:

Dunmore RA, Schiel DR (2000) Reproduction of the intertidal limpet Cellana ornata in southern New Zealand. New Zealand Journal of Marine and Freshwater Research 34(4): 653–660. doi: 10.1080/00288330.2000.9516966

Smith SL (1975) Physiological ecology of the limpet Cellana ornata (Dillwyn). New Zealand Journal of Marine and Freshwater Research 9(3): 395–402. doi: 10.1080/00288330.1975.9515575

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Sexta Selvagem: Fungo-do-Conhaque

por Piter Kehoma Boll

Se você mora perto ou já visitou uma destilaria, pode ter percebido manchas pretas cobrindo as paredes externas. À primeira vista elas podem parecer fuligem, mas se você olhar perto o bastante notará que na verdade são uma forma de vida.

Este fenômeno foi observado pela primeira vez em 1872 na cidade de Cognac, França e relatado por Antonin Baudoin, o diretor da Associação Francesa de Destiladores. Durante os anos seguintes, a coisa foi identificada como um fungo que atualmente é chamado de Baudoinia compniacensis e comumente conhecido como o fungo-do-uísque ou o fungo-da-porção-dos-anjos, mas eu decidi chamá-lo de fungo-do-conhaque e explicarei por que daqui a pouco.

Baudoinia compniacensis crescendo nas paredes perto de sua localidade-tipo em Cognac, França. Foto de Yann Gwilhoù.*

A razão para esse fungo crescer em torno de destilarias é porque é capaz de metabolizar etanol como uma fonte de carbono, isto é, como comida, e se prolifera com o vapor de etanol liberado de fábricas como essas. Ele é, no entanto, sensível a concentrações altas deste álcool e assim raramente cresce dentro dos prédios, preferindo as superfícies externas ou estruturas próximas, incluindo ramos de árvores.

Até agora, o fungo-do-uísque nunca foi encontrado em hábitats naturais, longe de emissões de etanol geradas por atividades humanas. Na natureza, ele provavelmente cresce perto de emissões naturais de etanol, como frutas apodrecidas, mas como estas emissões são muito menos concentradas que as geradas por humanos, ele certamente não consegue crescer tanto quanto consegue próximo a destilarias. Podemos dizer que esta espécie se tornou muito bem-sucedida após humanos passarem a produzir bebidas alcoólicas em grande escala.

Por muitos anos, todos os fungos crescendo em torno de destilarias no mundo eram considerados como pertencendo à mesma espécie, Baudoinia compniacensis. Contudo estudos moleculares recentes usando populações de diferentes partes do mundo revelaram que elas pertencem a diferentes espécies, e cada espécie parece restrita a uma certa localidade geográfica. A espécie Baudoinia compniacensis foi encontrada apenas na França. As populações na escócia formam uma espécie separada, Baudoinia caledoniensis, e o mesmo se aplica a populações nas Américas (Baudoinia panamericana), no Caribe (B. antilliensis) e no Extremo Oriente (B. orientalis). Assim, o nome fungo-do-uísque não parece adequado e serviria melhor para Baudoinia caledoniensis.

Imagens de culturas de diferentes espécies de Baudoinia. A figura F mostra o fungo-do-conhaque Baudoinia compniacensis sob o microscópio. Créditos a Scott et al. (2016).*

De qualquer forma, da próxima vez que você vir uma destilaria coberta por um mofo preto, lembre-se de que se trata de uma espécie que floresceu por nossa causa se nosso amor por álcool.

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Referências:

Scott JA, Ewaze JO, Summerbell RC, Arocha-Rosete Y, Maharaj A, Guardiola Y, Saleh M, Wong B, Mogale M, O’Hara MJ, Untereiner WA (2016) Multilocus DNA sequencing of the whiskey fungus reveals a continental-scale speciation pattern. Persoonia 37: 13–20. doi: 10.3767/003158516X689576

Scott JA, Summerbell RC (2016) Biology of the Whiskey Fungus. In: Li D-W (Ed.) Biology of Microfungi, Springer, pp. 413–428. doi: 10.1007/978-3-319-29137-6_16

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Sexta Selvagem: Tamarutaca-Pavão

por Piter Kehoma Boll

Invertebrados possuem uma probabilidade muito menor de se tornarem populares do que vertebrados, mas de vez em quando há uma exceção, e uma delas certamente é Odontodactylus scyllarus, a tamarutaca-pavão.

Tamarutaca-pavão na Baía Guinjata, Moçambique. Foto de Peter Southwood.*

Encontrada na região indo-pacífica, da costa oeste da África até Guam, a tamarutaca-pavão é uma espécie grande e colorida da ordem de crustáceos Stomatopoda, popularmente conhecidos como tamarutacas. Medindo até 18 cm de comprimento, seu corpo é em grande parte verde com algumas manchas pretas grandes com um contorno branco no cefalotórax. As patas são laranja-avermelhadas e a região em torno dos olhos possui um tom azul-claro. Devido a esta bela aparência, a tamarutaca-pavão se tornou um animal popular para ser criado em aquários.

Vista frontal de uma tamarutaca-pavão no Mar de Andaman, Tailândia. Pode-se ver os apêndices em forma de clava usados para quebrar a concha das presas. Foto de Silke Barton.**

Tamarutacas são predadores e a tamarutaca-pavão não é exceção. Ela se alimenta principalmente de moluscos de concha, como gastrópodes e bivalves, e crustáceos. Para quebrar a forte carapaça de presa, ela a acerta com um poderoso golpe usando seu segundo par de apêndices torácicos em forma de clava. Este forte ataque, causado por um complexo mecanismo no apêndice, é tão forte que quebra facilmente a concha da presa. Em aquários, isso pode ser problemático, já que às vezes elas quebram a parede do aquário. Mais do que apenas acertar a presa com uma força incrível, o ataque da tamarutaca gera uma súbita região de baixa pressão entre a concha e o apêndice quando o apêndice se retrai rapidamente. Este fenômeno, chamado de cavitação, gera uma bolha de gás que rapidamente colapsa e gera grandes quantidades de energia na forma de calor, luz e som e cria um segundo impacto na presa.

Tamarutaca-pavão fêmea carregando ovos na Indonésia. Também é possível ver os olhos com dois hemisférios separados por uma faixa de omatídios maiores arranjados em seis linhas. Foto de Terence Zahner.***

A tamarutaca-pavão também possui um magnífico sistema visual. Seus olhos compostos são divididos em um hemisfério superior e um inferior separados por uma faixa de seis linhas de omatídios (os pequenos olhos que formam o olho composto) aumentados. Estas três regiões do olho são usadas para detectar diferentes comprimentos de onda, incluindo luz ultravioleta, e incluem até mesmo células especiais que convertem luz não-polarizada em luz polarizada, permitindo que a tamarutaca detecte luz de diferentes formas a partir de diferentes partes do olho. Este complexo sistema vem sendo estudado para o desenvolvimento de dispositivos ópticos para armazenar e ler informação.

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Reference:

Jen Y-J, Lakhtakia A, Yu C-W, Lin C-F, Lin M-J, Wang S-H, Lai JR (2011) Biologically inspired achromatic waveplates for visible light. Nature Communications 2: 363. doi: 10.1038/ncomms1358

Kleinlogel S, Marshall NJ (2009) Ultraviolet polarisation sensitivity in the stomatopod crustacean Odontodactylus scyllarus. Journal of Comparative Physiology A 195(12): 1153–1162. doi: 10.1007/s00359-009-0491-y

Land MF, Marshall JN, Brownless D, Cronin TW (1990) The eye-movements of the mantis shrimp Odontodactylus scyllarus (Crustacea: Stompatopoda). Journal of Comparative Physiology A 167(2): 155–166. doi: 10.1007/BF00188107

Marshall J, Cronin TW, Shashar N, Land M (1999) Behavioural evidence for polarisation vision in stomatopods reveals a potential channel for communication. Current Biology 9(14): 755–758. doi: 10.1016/S0960-9822(99)80336-4

Patek SN, Caldwell RL (2005) Extreme impact and cavitation forces of a biological hammer: strike forces of the peacock mantis shrimp Odontodactylus scyllarus. The Journal of Experimental Biology 208: 3655–3664. doi: 10.1242/jeb.01831

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Sexta Selvagem: Nori-Tenro

por Piter Kehoma Boll

Se você gosta de comida japonesa, já deve ter comido sushi com certeza e, portanto, ingeriu a famosa alga da culinária japonesa conhecida como nori que é usada para enrolar o arroz, certo? Bem, isso não quer dizer necessariamente que você tenha comido a espécie que apresentarei hoje e logo você saberá por quê.


Folhas secas de nori como usadas na culinária japonesa. Foto de Yuichi Kosio.*

Durante a maior parte da história do Japão, a principal espécie de nori usada como alimento era o nori-tenro, que é cientificamente conhecido como Pyropia tenera (anteriormente conhecido como Porphyra tenera) e conhecido no Japão como 浅草海苔 (asakusa nori). Esta espécie é uma alga vermelha e é proximamente relacionada a outras espécies comestíveis usadas em outras partes do mundo.

O ciclo de vida do nori-tenro inclui duas gerações diferentes como visto em todas as plantas. Uma geração, o gametófito, é composta de células haploides, isto é, com apenas uma cópia de cada cromossomo. O estágio de gametófito é o maior e mais comumente usado como alimento. Ele produz tanto gametas masculinos quanto femininos e usa a corrente da água para guiar os gametas masculinos, que são incapazes de nadar, até os gametas femininos. Por muito tempo, este era o único estágio de vida conhecido para o nori. Os gametófitos eram colhidos na natureza, onde cresciam sobre o substrato disponível, especialmente madeira. Somente durante o século 20 ficou claro que o esporófito, o outro estágio de vida, é menor e precisa de conchas de moluscos como substrato para crescer. De fato o esporófito já era conhecido, mas era confundido com um organismo diferente classificado em um gênero chamado Conchocelis. Assim, o esporófito ainda é comumente conhecido como o estágio Conchocelis.

Depois que o ciclo de vida completo destas algas se tornou conhecido, não demorou muito para as pessoas desenvolverem métodos de cultivo que aumentaram grandemente a produção de nori. Duas linhagens de nori logo se tornaram os principais cultivares no Japão por volta do começo dos anos 1960: Pyropia tenera var. tamatsuensis e Pyropia yezoensis f. narawaensis. A última, como você pode ver, pertence a uma espécie diferente de nori, o nori-de-Ezo, conhecido no Japão como 荒び海苔 (susabi nori).

Apesar de o nori-tenro ser considerado de melhor qualidade e melhor sabor, ele não é tão tolerante às fortes ondas e aos fortes ventos quanto o nori-de-Ezo. Como resultado, o nori-de-Ezo se tornou o cultivar favorito e se espalhou rapidamente, de forma que esta é a principal espécie usada hoje em dia na culinária japonesa. O aumento do cultivo do nori-de-Ezo tirou espaço do nori-tenro original de tal forma que atualmente o nori-tenro é uma espécie muito rara, tão rara que é considerada uma espécie ameaçada pelo governo japonês desde 1997.

A distinção entre espécies de Pyropia em populações selvagens é geralmente difícil porque existe pouca variação morfológica entre elas. Estudos moleculares recentes com nori crescendo ao longo do Japão mostraram que o nori-tenro não é tão raro quanto se pensava anteriormente, mas isso não o torna imune à extinção. Como o nori-tenro é considerado mais macio e mais saboroso que o nori-de-Ezo, tem havido algumas tentativas de aumentar o interesse comercial nele, o que poderia preveni-lo de se tornar extinto num futuro próximo.

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Referências:

Hwang MS, Kim S-O, Ha D-S, Lee JU, Lee S-R (2013) Complete sequence and genetic features of the mitochondrial genome of Pyropia tenera (Rhodophyta). Plant Biotechnology Reports 7(4): 435–443. doi: 10.1007/s11816-013-0281-4

Iwasaki H (1961) The life-cycle of Porphyra tenera in Vitro. Biological Bulletin 121(1): 173–187. doi: 10.2307/1539469

Niwa K, Iida S, Kato A, Kawai H, Kikuchi N, Kobiyama A, Aruga Y (2009) Genetic diversity and ingrogression in two cultivated species (Porphyra yezoensis and Porphyra tenera) and closely related wild species of Porphyra(Bangiales, Rhodophyta). Journal of Phycology 45(2): 493–502. doi: 10.1111/j.1529-8817.2009.00661.x

Niwa K, Kikuchi N, Aruga Y (2005) Morphological and molecular analysis of the endangered species Porphyra tenera (Bangiales, Rhodophyta). Journal of Phycology 41(2): 294–304. doi: 10.1111/j.1529-8817.2005.04039.x

ウィキペディア (Wikipedia em Japonês)。アサクサオリ。Disponível em <
https://ja.wikipedia.org/wiki/%E3%82%A2%E3%82%B5%E3%82%AF%E3%82%B5%E3%83%8E%E3%83%AA >. Acesso em 25 de março de 2019.

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Sexta Selvagem: Mosquinha-do-Banheiro

por Piter Kehoma Boll

Não importa onde você viva, você provavelmente já viu, ao menos uma vez na vida, estes insetinhos que amam paredes de banheiros. Eles pertencem à espécie Clogmia albipunctata, popularmente conhecida como mosquinha-do-banheiro, mosquinha-do-ralo, entre outros nomes.

Mosquinha-do-banheiro em Curitiba, Brasil. Foto de Evandro Maia.*

A mosquinha-do-banheiro é encontrada pelo mundo todo, sendo mais comum em áreas tropicais, mas também é frequente em zonas temperadas. Elas estão frequentemente associadas a humanos e são encontradas em banheiros e, menos menos comumente, em cozinhas. Em áreas mais quentes, elas também podem ser vistas na na natureza, especialmente perto de pequenas poças d’água com bastante matéria orgânica, como água parada em buracos de árvores mortas.

Mosquinha-do-banheiro em Matara, Sri Lanka. Foto do usuário rvp do iNaturalist.*

É muito fácil reconhecer a mosquinha-do-banheiro. Elas são cinzas e pequenas, com um comprimento de cerca de 5 mm, e possuem duas asas relativamente grandes que faz com que lembrem uma figura invertida de um coração. O corpo e as asas são cobertos por espessos pelos acinzentados que as fazem parecer mariposas. Elas são, no entanto, parte da ordem Diptera e, portanto, proximamente relacionadas a mosquitos e moscas. Ao se olhar uma delas de perto, é possível notar alguns pontos brancos bem pequenos nas asas. As antenas são longas e cada segmento possui uma coroa separada de pelos.

As larvas da mosquinha-do-banheiro são aquáticas e se alimentam de matéria orgânica em decomposição. Elas encontram o hábitat ideal nos ralos de banheiros, nos quais há matéria orgânica e umidade suficientes e uma boa proteção contra predadores, bem como uma boa estabilidade em temperatura. A larva passa por quatro ínstares durante um período de cerca de 18 dias e então se transforma numa pupa, a qual leva cerca de 5 dias para se tornar um adulto. Os adultos não comem e sua principal função é a reprodução. O ciclo de vida completo leva cerca de um mês.

Ciclo de vida da mosquinha-do-banheiro. Créditos a Jiménez-Guri et al. (2014).**

A mosquinha-do-banheiro é inofensiva na maioria das vezes e pode até ser útil ao reduzir o acúmulo de matéria orgânica que poderia entupir sistemas de drenagem. Há alguns registros de miíase urinária, isto é, parasitismo por larvas de mosca no trato urinário, causada por esta espécie, mas são casos associados a ambientes com condições sanitárias ruins e péssima higiene pessoal. A principal preocupação com esta espécie ocorre em hospitais, já que sua presença em banheiros de hospital a faz ser um possível vetor de bactérias patogênicas levadas do sistema de drenagem para os pacientes.

Durante os últimos anos, a mosquinha-do-banheiro vem sendo estudada como um modelo de desenvolvimento embrionário e expressão de genes, especialmente para estudos comparativos com um modelo bem conhecido, a mosquinha-da-banana, Drosophila melanogaster.

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Referências:

El-Dib NA, Wahab WMAE, Hamdy DA, Ali MI (2017) Case Report of Human Urinary Myiasis Caused by Clogmia albipunctata (Diptera: Psychodidae) with Morphological Description of Larva and Pupa. Journal of Arthropod-Borne Diseases 11(4): 533–538.

Faulde M, Spiesberger M (2012) Hospital infestations by the moth fly, Clogmia albipunctata (Diptera: Psychodinae), in Germany. Journal of Hospital Infection 81(2): 134–136. doi: 10.1016/j.jhin.2012.04.006

Faulde M, Spiesberger M (2013) Role of the moth fly Clogmia albipunctata(Diptera: Psychodinae) as a mechanical vector of bacterial pathogens in German hospitals. Journal of Hospital Infection 83(1): 51–60. doi: 10.1016/j.jhin.2012.09.019

Jiménez-Guri E, Wolton KR, Gavilán B, Jaeger J (2014) A staging schefor the development of the moth midge Clogmia albipunctata. PLoS One 9(1): e84422. doi: 10.1371/journal.pone.0084422

Oboňa J, Ježek J (2012) Range expansion of the invasive moth midge Clogmia albipunctata (Williston, 1893) in Slovakia (Diptera: Psychodidae). Folia faunistica Slovaca 17(4): 387–391.

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*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição Não Comercial 4.0 Internacional

**Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição 4.0 Internacional.

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Arquivado em Entomologia, Sexta Selvagem