Arquivo da categoria: Sexta Selvagem

Sexta Selvagem: Fritilária-Imperial

por Piter Kehoma Boll

Vamos trazer uma alta dose de beleza para a Sexta Selvagem de hoje com uma espécie maravilhosa que pode às vezes ser encontrada em seu jardim.

Fritilária-imperial crescendo em seu ambiente natural no Curdistão. Foto do usuário A2raya07 do Wikimedia.*

Fritillaria imperialis, a fritilária-imperial ou coroa-imperial, é nativa das terras altas asiáticas entre a Turquia e os Himalaias, mas é cultivada a nível global, tendo uma série de cultivares artificialmente selecionados. A planta atinge uma altura de cerca de 1 m e possui uma série de folhas em forma de lança ao longo de seu caule, de forma similar ao que é encontrado em outras espécies da família do lírio, Liliaceae, a qual pertence. As flores aparecem em uma espiral perto do topo do caule e são viradas para baixo. Uma coroa de pequenas folhas fica acima das flores, daí o nome imperialis. As flores em forma de sino são geralmente laranjas na natureza, mas, em cultivares, variam entre vermelho e amarelo.

Um cultivar chamado ‘Rubra Maxima’. Foto de Hendry Heatly.**

A fritilária-imperial vem sendo usada em medicina tradicional por séculos por pessoas vivendo em sua área de distribuição nativa. Estudos recentes revelaram que a planta contém uma série de de alcaloides, principalmente alcaloides esteroides anticolinérgicos, que possuem o potencial de serem usados para o desenvolvimento de novos medicamentos para tratar várias condições.

Apesar de sua popularidade como planta ornamental, populações selvagens da fritilária-imperial estão ameaçadas em muitos países em que ela ocorre, especialmente devido a perda de habitat. De forma a auxiliar na preservação e na restauração de populações selvagens, algumas técnicas de laboratório vêm sendo desenvolvidas para gerar clones que poderiam ajudar a aumentar o tamanho populacional na natureza.

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Referências:

Akhtar MN, Rahman A, Choudhary MI, Sener B, Erdogan I, Tsuda Y (2003) New class of steroidal alkaloids from Fritillaria imperialisPhytochemistry 63: 115–122. doi: 10.1016/S0031-9422(02)00569-1

Gilani AH, Shaheen F, Christopoulos A, Mitchelson F (1997) Interaction of ebeinone, an alkaloid from Fritillaria imperialis, at two muscarinic acetylcholine receptor subtypes. Life Sciences 60 (8): 535–544. doi: 
10.1016/S0024-3205(96)00691-1

Kiani M, Mohammadi S, Babaei A, Sefidkon F, Naghavi MR, Ranjbar M, Razavi SA, Saeidi K, Jafari H, Asgardi D, Potter D (2017) Iran supports a great share of biodiversity and floristic endemism for Fritillaria spp. (Liliaceae): A review. Plant Diversity 39(5): 245–262. doi: 10.1016/j.pld.2017.09.002

Mohammadi-Dehcheshmeh M, Khalighi A, Naderi R, Sardari M, Ebrahimie E (2008) Petal: a reliable explant for direct bulblet regeneration of endangered wild populations of Fritillaria imperialis L. Acta Physiologiae Plantarum 30(3): 395–399. doi: 10.1007/s11738-007-0126-2

Wikipedia. Fritillaria imperialis. Disponível em < https://en.wikipedia.org/wiki/Fritillaria_imperialis >. Access em 11 de fevereiro de 2019.

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*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 3.0 Não Adaptada.

**Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 2.0 Genérica.

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Sexta Selvagem: Opilião-de-Escudo-Platense

por Piter Kehoma Boll

Sob troncos caídos e rochas na serapilheira de florestas e jardins em torno do Rio La Plata na Argentina e no Uruguai, você pode encontrar o camarada de hoje. Cientificamente conhecido como Discocyrtus prospicuus, é um opilião, um membro de um grupo de aracnídeos que lembram aranhas. Como de costume entre pequenos invertebrados escondidos, ele não possui um nome comum, de forma que cunhei o termo opilião-de-escudo-platense para me referir a ele.

Discocyrtus prospicuus em Buenos Aires, Argentina. Foto de Nicolas Olejnik.*

O opilião-de-escudo-platense pertence à família Gonyleptidae, que inclui opiliões com corpos impressionantemente armados e um prossoma (ou cefalotórax) com um formato triangular que lembra algum tipo de escudo. Ele possui uma cor marrom-avermelhada escura e duas poderosas patas traseiras armadas com vários espinhos.

O opilião-de-escudo-platense é encontrado em várias localidades da Argentina e do Uruguai, mas especialmente em áreas de floresta em torno do Rio La Plata e seus afluentes. Como de costume entre opiliões gonileptídeos, o opilião-de-escudo-platense depende de ambientes com um grau considerável de umidade.

Diferente da maioria dos aracnídeos, os opiliões geralmente são necrófagos onívoros, alimentando-se de matéria vegetal e animal morta, e o opilião-de-escudo-platense não é diferente. Em relações predador-presa, eles geralmente são a presa de outros animais, especialmente aranhas, como as aranhas-lobo que compartilham o mesmo hábitat. Quando está de frente para uma grande aranha que está prestes a caçá-lo, o opilião-de-escudo-platense pode usar uma série de mecanismos de defesa. Uma das formas mais simples de evitar ser comido é ficar imóvel ou se fingir de morto, um comportamento chamado tanatose. Quando está de frente para um opilião aparentemente morto, uma aranha-lobo geralmente o ignora completamente, como se ele nem mesmo estivesse lá. Quando isso não é suficiente para parar o ataque, o opilião pode usar estratégias adicionais como “mostrar a bunda” para a aranha ao levantar o abdome em direção ao predador e às vezes chutando a aranha com as patas traseiras. Outro mecanismo de defesa comum em opiliões é liberar compostos químicos com um odor forte e repulsivo, mas o opilião-de-escudo-platense não parece usá-lo frequentemente, ao menos não contra aranhas.

Pouco se sabe sobre a história natural do opilião-de-escudo-platense ou qualquer de seus parentes próximos. Como eu disse várias vezes antes, precisamos de mais pessoas estudando as pequenas criaturas que vivem ao nosso redor.

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Referências:

Costa LE, Guerrero EL (2011) Geographical distribution of Discocyrtus prospicuus (Arachnida: Opiliones: Gonyleptidae): Is there a pattern? Zootaxa 2043: 1–24.

Fernandes NS, Stanley E, Costa FG, Toscano-Gadea CA, Willemart RH (2017) Chemical sex recognition in the harvestman Discocyrtus prospicuus (Arachnida: Opiliones). Acta Ethologica 20(3): 215–221. doi: 10.1007/s10211-017-0264-5

Segalerba A, Toscano-Gadea CA (2016) Description of the Defensive Behaviour of Four Neotropical Harvestmen (Laniatores: Gonyleptidae) Against a Synchronic and Sympatric Wolf Spider (Araneae: Lycosidae). Arachnology 17(1): 52–58. doi:10.13156/arac.2006.17.1.52

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Sexta Selvagem: Diapasão-Clava

por Piter Kehoma Boll

Se você estiver andando na floresta um tempo depois de chuvas fortes, pode acabar vendo aglomerados de pequenas projeções amarelas em forma de dedos saindo da madeira sem casca de árvores mortas como carvalhos e outras madeiras duras. Estas pequenas estruturas são os corpos de frutificação de Calocera cornea, também conhecida como diapasão-clava.

Calocera cornea crescendo em madeira de carvalho em decomposição. Foto de Ashley Duval.*

O diapasão-clava pode a princípio se parecer com um fungo-clava, mas esses são parentes distantes. Ele na verdade pertence a um grupos chamado Dacrymycetes, que constitui um dos muitos grupos comumente conhecidos como fungos gelatinosos. Os corpos de frutificação em forma de dedo, chamados basidiocarpos, são muito variáveis em forma, apesar de geralmente não serem ramificados, e contêm vários basídios em forma de Y, cada um portando dois esporos.

Com uma distribuição a nível global, o diapasão-clava cresce em madeira em decomposição de várias árvores, tanto angiospermas quanto gimnospermas, mas é mais apreciador de madeiras duras como o carvalho, assim é mais comumente encontrado em florestas temperadas em lugares como a América do Norte e a Eurásia. As hifas nunca crescem muito fundo, sendo restritas às camadas mais superficiais da madeira, e são muito estreitas, cerca de 1 µm de diâmetro somente, e crescem paralelas ao eixo longo das células mortas da madeira.

Diapasão-clava crescendo junto com outros fungos decompositores de madeira. Foto de Christian Schwarz.*

Apesar de geralmente não ser uma espécie de importância econômica, algumas linhagens do diapasão-clava podem causar degradação considerável de objetos de madeira que não foram adequadamente tratados para evitar o crescimento de fungos.

Recentemente, o genoma de Calocera cornea foi sequenciado como parte de um projeto que está tentando determinar as origens da habilidade de basidiomicetos de decompor lignocelulose, o componente principal das paredes celulares de plantas lenhosas.

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Referências:

Kennedy LL (1972) Basidiocarp development in Calocera cornea. Canadian Journal of Botany 50(3): 413–417. doi: 10.1139/b72-060

McNabb RFR (1965) Taxonomic studies in the Dacrymycetaceae. II. Calocera (Fries) Fries. New Zealand Journal of Botany 3(1): 31–58. doi: 10.1080/0028825X.1965.10428712

MushroomExpert.Com. Calocera cornea. Available at < https://www.mushroomexpert.com/calocera_cornea.html >. Access on 10 February 2019.

Nagy LG, Riley R, Tritt A, Adam C, Daum C, Floudas D, Sun H, Yadav JS, Pangilinan J, Larsson KH, Matsuura K, Barry K, Labutti K, Kuo R, Ohm RA, Bhattacharya SS, Shirouzu T, Yoshinaga Y, Martin FM, Grigoriev IV, Hibbett DS (2016) Comparative Genomics of Early-Diverging Mushroom-Forming Fungi Provides Insights into the Origins of Lignocellulose Decay Capabilities. Molecular Biology and Evolution 33(4):959-70. doi: 10.1093/molbev/msv337

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Arquivado em Fungos, Sexta Selvagem

Sexta Selvagem: Centopeia-Gigante-de-Galápagos

por Piter Kehoma Boll

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As Ilhas Galápagos são famosas por seus animais, como os jabutis, tentilhões e iguanas. Contudo a ilha também abriga uma variedade de invertebrados e hoje eu vou falar sobre um deles.

A centopeia-gigante-de-Galápagos, Scolopendra galapagoensis, é muito similar a outra famosa espécie de centopeia, a centopeia-gigante-Amazônica, Scolopendra gigantea. Apesar do nome, a centopeia-gigante-de-Galápagos não é restrita às Ilhas Galápagos, mas também pode ser encontrada em áreas próximas no Peru e no Equador, apesar de estas populações terem sido originalmente consideradas uma subespécie de S. gigantea, que é encontrada pela Venezuela, pela Colômbia e pelo Caribe.

Scolopendra galapagoensis na Ilha Fernandina, Ilhas Galápagos. Foto de Libby Megna.*

O corpo da centopeia-gigante-de-Galápagos varia de marrom a preto e as numerosas patas variam de laranja a marrom-escuro ou preto. Ela pode atingir até 30 cm de comprimento, sendo, portanto, tão grande quanto sua prima S. gigantea. A principal diferença é o número de segmentos peludos em suas antenas.

Um predador como a maioria das centopeias, a centopeia-gigante-de-Galápagos se alimenta de uma variedade de outros animais pequenos, principalmente invertebrados, apesar de também poder se alimentar de pequenos vertebrados tal como roedores recém-nascidos, os quais subjuga usando sua peçonha poderosa.

Quando ameaçada, a centopeia-gigante-de-Galápagos assume uma posição de defesa na qual ergue o último par de patas, chamado de patas finais, e alguns dos últimos pares de patas ambulatórias, exibindo-as para o agressor de uma forma que lembra a exibição de advertência de algumas aranhas, tal como aranhas-armadeiras e caranguejeiras.

Centopeia-gigante-de-Galápagos em posição de advertência. Créditos de Kronmüller & Lewis (2015).**

Recentemente, a centopeia-gigante-de-Galápagos se tornou um animal popular entre aqueles que gostam de animais de estimação incomuns tal como aranhas e centopeias, de forma que você pode encontrar muita informação e vídeos sobre a espécie produzidos por pessoas que as têm em casa em seus aquários.

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Referências:

Clark DB (1979) A centipede preying on a nestling rice rat (Oryzomys bauri). Journal of Mammalogy 60(3): 654.

Kronmüller C, Lewis JGE (2015) On the function of the ultimate legs of some Scolopendridae (Chilopoda, Scolopendromorpha). Zookeys 510: 269–278.
doi: 10.3897/zookeys.510.8674

Shelley RM, Kiser SB (2000) Neotype designation and a diagnostic account for the centipede, Scolopendra gigantea L. 1758, with an account of S. galapagoensis Bollman 1889 (Chilopoda Scolopendromorpha Scolopendridae). Tropical Zoology 13(1): 159–170. doi: 10.1080/03946975.2000.10531129

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*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição Não Comercial 4.0 Internacional

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Sexta Selvagem: Samambaia-Preta

por Piter Kehoma Boll

Read it in English

Você pode ter visto partes da espécie de hoje ao menos uma vez na vida, já que ela é uma planta muito popular em arranjos de flores.

Um buquê de flores com folhas de Rumohra adiantiformis.

Rumohra adiantiformis é como ela é conhecida por botânicos, e nomes comuns incluem samambaia-preta, samambaia-de-sete-semanas e samambaia-de-ferro. Esta espécie de samambaia é amplamente distribuída  na Australásia, no sul da África e nos Neotrópicos, bem como em várias ilhas do Oceano Pacífico.

Vivendo em áreas de floresta, especialmente onde não há muita sombra, a samambaia-preta possui uma biologia que não é muito diferente daquela de outras samambaias. Ela geralmente cresce no solo, apesar de poder eventualmente ocorrer em rochas ou em árvores. O que torna esta samambaia especial é que suas frondes maduras são um tanto duras e, após serem cortadas, continuam a ter uma aparência verde e viva por um longo tempo, geralmente várias semanas.  Essa incrível resistência em murchar a faz uma espécie ideal para ser usada em arranjos de flores.

Samambaia-preta crescendo na África do Sul. Foto do usuário JMK do Wikimedia.*

Atualmente, a maioria da produção de samambaia-preta para uso comercial ocorre no estado da Flórida, EUA, onde ela é cultivada em viveiros irrigados e sombreados. Outros grandes produtores são a África do Sul e o Brasil, especialmente o sul do Brasil, mas nestes dois países a planta é explorada por extrativismo, isto é, é colhida na natureza e não cultivada. Apesar de a extração da samambaia-preta ser uma atividade de ocorrência ampla tanto na África do Sul quanto no sul do Brasil e ser uma fonte importante de renda para muitas famílias, ela é ilegal de acordo com leis nacionais ou regionais. Contudo, ao menos no sul do Brasil, onde a samambaia-preta ocorre nas maiores densidades registradas no mundo, a principal razão para suas populações estarem diminuindo não parece ser a extração, mas sim a sucessão florestal natural. À medida que as florestas envelhecem e se tornam mais escuras, elas se fornam inadequadas para o crescimento da samambaia-preta.

É necessário, é claro, estabelecer limites para sua colheita. Caso contrário, a crescente demanda no mercado florista pode acabar causando efeitos preocupantes em sua ocorrência. A melhor alternativa continua sendo cultivar a samambaia, já que isso protege populações selvagens e permite a colheia de frondes de alta qualidade e uma recuperação mais rápida depois da desfolhação.

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Referências:

Geldenhuys CJ, van der Merwe CJ (1988) Population structure and growth of the fern Rumohra adiantiformis in relation to frond harvesting in the southern Cape forests. South African Journal of Botany 54(4): 351–362.

Milton SJ (1987) Growth of Seven-weeks Fern (Rumohra adiantiformis) in the Southern Cape Forests: Implications for Management. South African Forestry Journal 143: 1–4.

Souza GC, Cubo R, Guimarães L, Elisabetsky E (2006) An ethnobiological assessment of Rumohra adiantiformis (samambaia-preta) extractivism in Southern Brazil. Biodiversity and Conservation 15: 2737–2746. doi: 10.1007/s10531-005-0309-3

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Sexta Selvagem: Concha-lâmpada-comum

por Piter Kehoma Boll

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É hora de trazer o primeiro braquiópode para a Sexta Selvagem. Infelizmente essa é uma tarefa árdua porque, assim como outros grupos famosos por fósseis como foraminíferos e diatomáceas, há muito pouco conhecimento disponível sobre braquiópodes viventes.

A espécie que escolhi, Terebratalia transversa, é em inglês muitas vezes chamada de lampshell (concha-lâmpada), apesar de esse nome poder ser usado para outras espécies proximamente relacionadas. Assim, decidi chamá-la de concha-lâmpada-comum.

A concha-lâmpada-comum pode ser encontrada em águas da zona entre-marés e sublitoral da costa do Pacífico da América do Norte, do Alasca até Baja California. O estágio larval, como em todos os braquiópodes, nada da água, mas os indivíduos adultos são presos ao substrato, geralmente na parte inferior ou vertical de rochas, e ficam presos pelo resto de suas vidas. Se por alguma razão eles se soltam, são incapazes de se prender novamente e morrem logo depois.

Um espécime de Terebratalia transversa preso a uma rocha entre ouriços-do-mar. Foto do usuário kljinstika do iNaturalist.*

O adulto da concha-lâmpada-comum possui uma concha bivalve medindo cerca de 5 cm de comprimento, apesar de alguns espécimes chegarem a 9 cm. A valva superior ou dorsal da concha, chamada valva do pedículo, porta o pedículo pelo qual o animal se prende ao susbtato. O pedículo é basicamente composto de tecido conectivo cercado por epitélio e não pode ser contraído, apesar de poder ser torcido ou movido de outra forma pelo uso de músculos conectados à extremidade proximal na valva. Na concha-lâmpada-comum, o pedículo é muito curto, o que restringe os movimentos e a habilidade de reorientar o corpo de acordo com a corrente d’água. A valva inferior ou ventral, chamada de valva braquial, contém o lofóforo, uma coroa de tentáculos em forma de U usada para filtrar partículas da água. Os dois lados do lofóforo são chamados de braços ou “brachia”, de onde o filo Brachiopoda recebe seu nome.

Uma concha-lâmpada-comum desprendida com suas valvas parcialmente abertas. O lofóforo é visto como duas estruturas lembrando anéis. Foto de Joe Tyburczy.**

A forma geral da concha-lâmpada-comum é bem variável. A concha pode ser mais longa ou mais circular, com sulcos mais ou menos marcados, de forma que a morfologia não é muito útil em identificá-la.

Conchas-lâmpadas-comuns adultas se reproduzem durante o inverno, geralmente de dezembro a fevereiro, liberando gametas na água, onde eles se encontram e originam um zigoto. O estágio larval que se desenvolve depois da fertilização nada na água, mas após cerca de 6 dias a larva se assenta no substrato e direciona seu pequeno pedículo em direção a ele, eventualmente se prendendo e começando a crescer até atingir o estágio adulto, o que leva alguns anos, com um crescimento de cerca de 6 mm por ano.

Apesar de ser uma das espécies mais “populares” de braquiópodes, pouco se sabe ainda sobre a ecologia e o comportamento da concha-lâmpada-comum. Precisamos que mais pessoas as estudem!

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Referências:

Dyer, A. (2002) Terebratalia transversa (Sowerby, 1846): Common Lampshell. Invertebrates of the Salish Sea.Disponível em < https://inverts.wallawalla.edu/Brachiopoda/Class%20Articulata/Order%20Telotremata/Terebratalia_transversa_Page.html >. Acesso em 29de dezembro de 2018.

Eshleman, W. P., & Wilkens, J. L. (1979). Brachiopod orientation to current direction and substrate position (Terebratalia transversa). Canadian Journal of Zoology, 57(10), 2079–2082. doi:10.1139/z79-274

Paine, R. (1969) Growth and size distribution of the Brachiopod Terebratalia transversa Sowerby. Pacific Science, 23: 337–343.

Stricker, S. A.; Reed, C. G. (1985) Development of the pedicle in the articulate brachiopod Terebratalia transversa (Brachiopoda, Terebratulida). Zoomorphology 105: 253–264.

Thayer, C. W. (1977) Growth and mortality of a living articulate brachiopod, with implications for the interpretation of survivorship curves. Paleobiology 3(1): 98–109.

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Sexta Selvagem: Bt

por Piter Kehoma Boll

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Com o atual aumento do número de alimentos geneticamente modificados e todas as controvérsias que os cercam, você provavelmente ouvir falar de coisas como milho Bt e algodão Bt. Mas você sabe o que Bt significa?

Bt se refere a Bacillus thuringiensis, e esse vai ser nosso camarada de hoje. Uma bactéria gram-positiva, o Bt é encontrado em muitos ambientes, incluindo o solo, a superfície de várias plantas e o intestino de várias espécies de lagartas. Pertencendo ao grânde e heterogêneo gênero Bacillus, o Bt é proximamente relacionado a, e às vezes considerado o mesmo que, Bacillus cereus, que pode causar infecção alimentar, e Bacillus anthracis, a espécie que causa antraz. A principal diferente entre estas três espécies está em seus plasmídeos (pequenos pedaços de DNA no citoplasma de uma bactéria), enquanto a composição de seu cromossomo é basicamente a mesma.

Colônias de Bacillus thuringiensis crescendo em ágar sangue de carneiro.

Como todas as espécies de Bacillus, o Bt pode esporular, isto é, se converter em uma forma adormecida chamada endósporo (às vezes erroneamente chamada de esporo) quando as condições ambientais não são favoráveis. Durante a esporulação, o Bt forma cristais de delta-endotoxinas, um inseticida proteico também chamado de proteínas cristal ou proteínas cry. Proteínas cry são codificadas por genes cry, localizados em plasmídeos e não no cromossomo da bactéria. Quando insetos e nematódeos ingerem esses cristais, eles são desnaturados no ambiente alcalino do intestino do animal e se tornam solúveis. Na fase solúvel, os cristais são digeridos e liberam suas toxinas, que paralizam o trato digestivo e fazem o animal morrer de fome. O número de diferentes proteínas cry no Bt é realmente grande, indicando uma pressão seletiva ainda desconhecida para o desenvolvimento de um mechanismo de defesa tão sofisticado.

Colônia de Bt com coloração Gram sob um aumento de 1000 X. Foto do usuário Dr. Sahay do Wikimedia.

Devido a esse forte efeito inseticida, os endósporos de Br e as proteínas cry têm sido usados para controlar insetos pragas pelo último século. O inseticida geralmente é aplicado como um spray e pode ser comprado sob diferentes nomes. Contudo, devido à seleção natural, as pragas acabam desenvolvendo resistência às toxinas e novas linhagens de Bt são constantemente produzidas para originar novas variedades do inseticida.

Desde os anos 1980, há estudos sobre a produção de organismos geneticamente modificados que incorporam genes do Bt responsáveis pela produção de proteínas cry. Atualmente, os vegetais geneticamente modificados mais amplamente cultivados que contêm genes Bt são o milho Bt e o algodão Bt. Os genes cry do Bt foram introduzidos no DNA destas espécies, permitindo que elas sintetizem proteínas cry. Quando um inseto come as folhas de tais plantas, ele ingere os cristais e morre como se tivesse ingerido os endósporos do Bt. E de fato é isso que acontece. A introdução do milho Bt, por exemplo, reduziu grandemente o ataque de várias pragas do milho, tal como a broca do milho.

Apesar de o uso de Alimentos Geneticamente Modificados (GMOs, da sigla em inglês) ainda ser visto como ruim por muitas pessoas, a maioria dos estudos mostra que eles são relativamente seguros comparados a muitas outras atividades de interferência humana. O milho Bt e o algodão Bt se mostraram seguros para organismos que não são alvo e para o ambiente como um todo. O principal problema com GMOs é o fato de a tecnologia para produzi-los se manter mas mãos de gigantes empresas lucradoras.

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Referências:

Helgason, E.; Økstand, O. A.; Caugant, D. A.; Johansen, H. A.; Fouet, A.; Mock, M.; Hegna, I.; Kolstø, A.-B. (2000) Bacillus anthracisBacillus cereus, and Bacillus thuringiensis — One species on the basis of genetic evidence. Applied and Environmental Microbiology, 66(6): 2627–2630. doi: 
10.1128/AEM.66.6.2627-2630.2000

Schnepf, E.; Crickmore, N.; Van Rie, J.; Lereclus, D.; Baum, J.; Feitelson, J.; Zeigler, D. R.; Dean, D. H. (1998) Bacillus thuringiensis and its pesticidal crystal proteinsMicrobiology and Molecular Biology Reviews, 62(3): 775–806.

Wikipedia. Bacillus thuringiensis. Disponível e < https://en.wikipedia.org/wiki/Bacillus_thuringiensis >. Acesso em 28 de dezembro de 2018.

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*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 3.0 Não Adaptada.

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