Arquivo do mês: fevereiro 2019

Quarta de Quem: Anders Sparrman

por Piter Kehoma Boll

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Hoje comemoramos o aniversário de um dos apóstolos e conterrâneos de Linnaeus.

Anders Sparrman nasceu em 27 de fevereiro de 1748 em Tensta, Suécia, e era filho de um clérigo. Quando tinha somente nove anos de idade, ele foi matriculado na Universidade de Uppsala e começou a estudar medicina. Aos 14, ele se tornou um pupilo de Linnaeus, um dos excelentes.

Em 1765, com 17 anos, Sparrman foi à China como médico num navio. Nesta viagem, ele teve tempos difíceis tratando os membros da tripulação, muitos dos quais morreram da ainda pouco conhecida malária, e muitos também sofreram com a doença do verme-da-Guiné. Não obstante, ele também coletou muitas plantas e muitos animais nesta experiência problemática, os quais ele descreveu dois anos depois após retornar para a Suécia.

Retrato de Anders Sparrman, cerca de 1770.

Em janeiro de 1772, com 23 anos, ele se mudou para o Cabo da Boa Esperança, África do Sul, para trabalhar como tutor. Seu período lá foi curto, no entanto, porque em outubro daquele mesmo ano James Cook chegou em sua segunda viagem e Sparmann se juntou à tripulação como naturalista assistente de Johann e Georg Forster, que eram os naturalistas do navio.

Sparrman voltou ao Cabo da Boa Esperança em julho de 1775 e, praticando medicina, pôde financiar uma jornada para o interior do país. Ele foi guiado por Daniel Ferdinand Immelman, que anteriormente havia guiado o botânico Carl Peter Thunberg. Durante sua jornada, ele conheceu grupos dos povos Khoi e Xhosa e ficou muito interessado em sua cultura, descrevendo muitas de suas práticas em sua obra sobre suas viagens no Cabo e ao redor do mundo.

Em 1776, Sparrman voltou à Suécia e descobriu que havia sido premiado com um doutorado honorário. Exceto por uma expedição malsucedida para a África Ocidental em 1787, Sparrman passou a maior parte de sua vida na Suécia depois disso, o que, dado seu espírito aventureiro, provavelmente foi como tortura para ele. Ele se tornou membro da Real Academia Sueca de Ciências em 1777 e foi nomeado guardador das coleções de história natural da Academia em 1780.

Em 1781, Sparrman foi nomeado professor de história natural e farmacologia e, em 1790, assessor do Collegium Medicum. Apesar de publicar vários trabalhos científicos, a obra mais famosa de Sparrman continuou sendo seu relato sobre suas aventuras ao redor do mundo e na África do Sul.

Sparrman morreu em 8 de agosto de 1820 em Estocolmo, aos 72 anos.

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Referências:

Eagleton T (2010) Anders Sparrman—masterful tale of a scientific vagabond. The Lancet 376(9749): 1291–1292. doi: 
10.1016/S0140-6736(10)61901-0

Wikipedia. Anders Sparrman. Disponível em < https://en.wikipedia.org/wiki/Anders_Sparrman >. Acesso em 26 de fevereiro 2019.

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Tartarugas-verdes confundem resíduos plásticos com lulas mortas, os comem, e morrem

por Piter Kehoma Boll

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Poluição por plástico é um tópico popular recentemente e não é raro encontrar figuras de animais que morreram devido à ingestão de plástico ou outras complicações, como asfixia, causadas por pedaços de plástico. Contudo a causa da ingestão de plástico pela maioria das espécies ainda é desconhecida.

Albatroz com o estômago cheio de peças plásticas.

A tartaruga-de-couro, Dermochelys coriacea, é frequentemente mencionada como uma espécie que sofre pela ingestão de plástico devido a sua dieta ser composta primariamente por águas-vivas, com as quais sacolas plásticas flutuantes podem ser confundidas. Contudo outra tartaruga-marinha de ampla distribuição, a tartaruga-verde, Chelonia mydas, também é uma vítima comum da ingestão de plástico e quantidades tão pequenas quanto 1 g são suficientes para matar espécimes jovens bloqueando seus tratos digestivos. A dieta de tartarugas-verdes jovens e adultas é composta principalmente por ervas-marinhas e algas, de forma que a ingestão de plástico deve ser o resultado de outra causa e não sua similaridade com águas-vivas.

Uma sacola plástica em decomposição no oceano se parece com uma água-viva. Foto do usuário Seegraswise do Wikimedia.*

Apesar de serem quase estritamente herbívoras, tartarugas-verdes ingerem matéria animal quando são muito jovens e podem eventualmente consumir animais como adultas também, provavelmente como uma estratégia para sobreviver quando sua fonte de alimento principal é escassa. A ingestão de matéria animal geralmente acontece pela ingestão de animais mortos e um item animal morto comumente consumido são lulas mortas.

Uma tartaruga-verde rodeada de ervas-marinhas, sua principal fonte de alimento. Foto do usuário Danjgi do Wikimedia.**

Um estudo recente investigou a relação entre o comportamento necrofágico e o consumo de plástico na tartaruga-verde e descobriu que a quantidade de plástico ingerida por indivíduos se alimentando de lulas mortas é muito maior que a ingerida por indivíduos que não apresentam um comportamento necrofágico. No Brasil, a ingestão de plástico é responsável por cerca de 10% das mortes de tartarugas-verdes, mas este número pode chegar a 67% entre tartarugas-verdes que se alimentam de carcaças de lulas.

A ingestão de animais mortos costumava ser uma maneira eficiente de tartarugas-verdes adquirirem grandes porções de proteína. Contudo o fato de, atualmente, a maioria do material flutuante no oceano ser plástico e não animais mortos transformou uma estratégia bem-sucedida numa armadilha mortal. Se os humanos não começarem a controlar a produção de lixo plástico, haverá apenas dois resultados possíveis para as tartarugas-verdes em face a esta nova pressão seletiva: adaptação ou extinção.

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Referências:

Andrades R, Santos RA, Martins AS, Teles D, Santos RG (2019) Scavenging as a pathway for plastic ingestion by marine animals. Environmental Pollution 248: 159–165. doi: 10.1016/j.envpol.2019.02.010

Mrosovsky N, Ryan GD, James MC (2009) Leatherback turtles: the menace of plastic. Marine Pollution Bulletin 58(2): 287–289. doi: 10.1016/j.marpolbul.2008.10.018

Santos RG, Andrades R, Boldrini MA, Martins AS (2015) Debris ingestion by juvenile marine turtles: an underestimated problem. Marine Pollution Bulletin 93(1–2): 37–43. doi: 10.1016/j.marpolbul.2015.02.022

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*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 3.0 Não Adaptada.

**Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 4.0 Internacional.

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Sexta Selvagem: Centopeia-Gigante-de-Galápagos

por Piter Kehoma Boll

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As Ilhas Galápagos são famosas por seus animais, como os jabutis, tentilhões e iguanas. Contudo a ilha também abriga uma variedade de invertebrados e hoje eu vou falar sobre um deles.

A centopeia-gigante-de-Galápagos, Scolopendra galapagoensis, é muito similar a outra famosa espécie de centopeia, a centopeia-gigante-Amazônica, Scolopendra gigantea. Apesar do nome, a centopeia-gigante-de-Galápagos não é restrita às Ilhas Galápagos, mas também pode ser encontrada em áreas próximas no Peru e no Equador, apesar de estas populações terem sido originalmente consideradas uma subespécie de S. gigantea, que é encontrada pela Venezuela, pela Colômbia e pelo Caribe.

Scolopendra galapagoensis na Ilha Fernandina, Ilhas Galápagos. Foto de Libby Megna.*

O corpo da centopeia-gigante-de-Galápagos varia de marrom a preto e as numerosas patas variam de laranja a marrom-escuro ou preto. Ela pode atingir até 30 cm de comprimento, sendo, portanto, tão grande quanto sua prima S. gigantea. A principal diferença é o número de segmentos peludos em suas antenas.

Um predador como a maioria das centopeias, a centopeia-gigante-de-Galápagos se alimenta de uma variedade de outros animais pequenos, principalmente invertebrados, apesar de também poder se alimentar de pequenos vertebrados tal como roedores recém-nascidos, os quais subjuga usando sua peçonha poderosa.

Quando ameaçada, a centopeia-gigante-de-Galápagos assume uma posição de defesa na qual ergue o último par de patas, chamado de patas finais, e alguns dos últimos pares de patas ambulatórias, exibindo-as para o agressor de uma forma que lembra a exibição de advertência de algumas aranhas, tal como aranhas-armadeiras e caranguejeiras.

Centopeia-gigante-de-Galápagos em posição de advertência. Créditos de Kronmüller & Lewis (2015).**

Recentemente, a centopeia-gigante-de-Galápagos se tornou um animal popular entre aqueles que gostam de animais de estimação incomuns tal como aranhas e centopeias, de forma que você pode encontrar muita informação e vídeos sobre a espécie produzidos por pessoas que as têm em casa em seus aquários.

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Referências:

Clark DB (1979) A centipede preying on a nestling rice rat (Oryzomys bauri). Journal of Mammalogy 60(3): 654.

Kronmüller C, Lewis JGE (2015) On the function of the ultimate legs of some Scolopendridae (Chilopoda, Scolopendromorpha). Zookeys 510: 269–278.
doi: 10.3897/zookeys.510.8674

Shelley RM, Kiser SB (2000) Neotype designation and a diagnostic account for the centipede, Scolopendra gigantea L. 1758, with an account of S. galapagoensis Bollman 1889 (Chilopoda Scolopendromorpha Scolopendridae). Tropical Zoology 13(1): 159–170. doi: 10.1080/03946975.2000.10531129

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*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição Não Comercial 4.0 Internacional

**Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição 4.0 Internacional.

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Antidepressivos no esgoto estão desequilibrando teias alimentares

por Piter Kehoma Boll

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Esgoto é uma das principais causas de poluição da água em escala global e isso inclui esgoto doméstico. Com o aumento do uso de medicamentos de muitos tipos para tratar uma variedade de problemas de saúde, essas substâncias acabam no esgoto doméstico e, mesmo em locais com tratamento de esgoto, tais drogas não são sempre completamente removidas.

As drogas mais comumente detectadas em ambientes aquáticos incluem antidepressivos. Apesar de ocorrerem em concentrações muito baixas, seus efeitos em organismos são pouco conhecidos.

Um estudo recente investigou como a presença de dois antidepressivos, citalopram (um inibidor seletivo de recaptação de serotonina) e tramadol (um inibidor de recaptação de serotonina e norepinefrina) afetam a atividade predatória de ninfas de libélula da espécie Aeshna cyanea. Os insetos foram expostos a concentrações de cerca de 1 micrograma por litro das substâncias, uma concentração similar à encontrada naturalmente em ambientes afetados por esgotos. Adicionalmente, eles usaram efluentes de estações de tratamento de esgoto que incluíam uma mistura de várias´ drogas em concentrações reais.

Uma ninfa de Aeshna cyanea. Foto de André Karwath.*

Os resultados indicam que ninfas de libélula aumentam a quantidade de tempo que passam procurando alimento na presença dos dois antidepressivos e passam mais tempo manipulando presas, mas sua taxa de alimentação diminuiu, isto é, elas comeram menos que ninfas do grupo controle, isto é, em água sem antidepressivos. Por outro lado, ninfas expostas a efluentes de estações de tratamento de esgoto comeram mais que ninfas do grupo controle. O motivo exato para o efeito oposto causado pelo esgoto normal é desconhecido, mas pode estar relacionado ao efeito combinado de várias drogas.

Apesar de os efeitos não parecerem tão problemáticos a princípio, um aumento ou uma diminuição na taxa de alimentação dos predadores pode desequilibrar a população da presa ao fazê-la aumentar ou diminuir e eventualmente atingir um ponto que leve a um colapso no ecossistema.

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Referência:

Bláha M, Grabicova K, Shaliutina O, Kubec J, Randák T, Zlabek V, Buřič M, Veselý L (2019) Foraging behaviour of top predators mediated by pollution of psychoactive pharmaceuticals and effects on ecosystem stability. Science of The Total Environment 662: 655–661.

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*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 2.5 Genérica.

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Quarta de Quem: Carl Linnaeus Filho

por Piter Kehoma Boll

Carl Linnaeus é certamente um dos naturalistas mais famosos da história. Seu filho, no entanto, cujo aniversário comemoramos hoje, não é tão famoso e teve uma vida complicada e curta comparada a de seu pai.

Carl Linnaeus, o filho, nasceu em 20 de fevereiro de 1741 em Falun, Suécia. Ele recebeu o nome de seu pai e geralmente é conhecido como Linnaeus Filho. Seu pai sempre quis que ele seguisse seus passos como botânico e era tão ávido por isso que o matriculou na Universidade de Uppsala aos nove anos de idade. Os melhores alunos de Linnaeus, Pehr Löfling, Daniel Solander e Johan Peter Falk, foram selecionados para ensinar Linnaeus Filho.

Retrato de Carl Linnaeus Filho por Jonas Forsslund.

Linnaeus Filho não parecia tão interessado em seguir os passos do pai, no entanto, e não foi um bom aluno de forma alguma. Ele nunca recebeu um grau acadêmico, mas, devido a recomendações de seu pai, foi contratado como um demonstrador botânico no Jardim Botânico em Uppsala quando tinha só 18 anos. Linnaeus esperava que essa oportunidade faria o filho se interessar mais por botânica. Durante este tempo, Linnaeus Filho descreveu várias novas espécies de plantas.

Em 1962, quando Linnaeus se aposentou, ele teve a honra de escolher seu sucessor. Sua primeira escolha foi Daniel Solander, mas este recusou porque havia sido contratado no Museu Britânico em Londres. A segunda escolha de Linnaeus foi Linnaeus Filho, e assim ele entrou na Universidade de Uppsala como chefe de Medicina Prática mesmo sem ter o grau acadêmico necessário. Isso causou ressentimento entre seus colegas. E a situação se tornou pior em 1963 quando o Príncipe Gustav (depois Rei Gustav III) conferiu o grau de doutor por honra a Linnaeus Filho.

Em 1777, Linnaeus Filho foi promovido a professor. No mesmo ano, seu pai, que estava muito debilitado, decidiu que seu filho não herdaria seu grande herbário porque ele nunca se interessara por botânica. Depois da morte de Linnaeus, o pai, em 1778, o herbário permaneceu com sua esposa Sara Elisabeth. Isso mais tarde forçou Linnaeus Filho a escrever uma prestação de contas a sua mãe para receber acesso à coleção.

Em 1781, Linnaeus Filho embarcou numa viagem de dois anos para visitar a Inglaterra, a França, os Países Baixos e a Dinamarca. Em Londres, ele adquiriu icterícia e logo depois de voltar para casa ele sofreu de febre e teve um derrame, do qual morreu em 1º de novembro de 1783 aos 42 anos.

Linnaeus Filho não teve filhos. Como resultado, o nome Linnaeus, criado por seu avô, se extinguiu depois de apenas três gerações.

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Referências:

Naturhistoriska riksmuseet. Carl Linnaeus fil. Disponível em < http://www2.nrm.se/fbo/hist/linnefil/linfil.html.en >. Acesso em 19 de fevereiro de 2019.

Wikipedia. Carl Linnaeus the Younger. Disponível em < https://en.wikipedia.org/wiki/Carl_Linnaeus_the_Younger >. Acesso em 19 de fevereiro de 2019.

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Sexta Selvagem: Samambaia-Preta

por Piter Kehoma Boll

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Você pode ter visto partes da espécie de hoje ao menos uma vez na vida, já que ela é uma planta muito popular em arranjos de flores.

Um buquê de flores com folhas de Rumohra adiantiformis.

Rumohra adiantiformis é como ela é conhecida por botânicos, e nomes comuns incluem samambaia-preta, samambaia-de-sete-semanas e samambaia-de-ferro. Esta espécie de samambaia é amplamente distribuída  na Australásia, no sul da África e nos Neotrópicos, bem como em várias ilhas do Oceano Pacífico.

Vivendo em áreas de floresta, especialmente onde não há muita sombra, a samambaia-preta possui uma biologia que não é muito diferente daquela de outras samambaias. Ela geralmente cresce no solo, apesar de poder eventualmente ocorrer em rochas ou em árvores. O que torna esta samambaia especial é que suas frondes maduras são um tanto duras e, após serem cortadas, continuam a ter uma aparência verde e viva por um longo tempo, geralmente várias semanas.  Essa incrível resistência em murchar a faz uma espécie ideal para ser usada em arranjos de flores.

Samambaia-preta crescendo na África do Sul. Foto do usuário JMK do Wikimedia.*

Atualmente, a maioria da produção de samambaia-preta para uso comercial ocorre no estado da Flórida, EUA, onde ela é cultivada em viveiros irrigados e sombreados. Outros grandes produtores são a África do Sul e o Brasil, especialmente o sul do Brasil, mas nestes dois países a planta é explorada por extrativismo, isto é, é colhida na natureza e não cultivada. Apesar de a extração da samambaia-preta ser uma atividade de ocorrência ampla tanto na África do Sul quanto no sul do Brasil e ser uma fonte importante de renda para muitas famílias, ela é ilegal de acordo com leis nacionais ou regionais. Contudo, ao menos no sul do Brasil, onde a samambaia-preta ocorre nas maiores densidades registradas no mundo, a principal razão para suas populações estarem diminuindo não parece ser a extração, mas sim a sucessão florestal natural. À medida que as florestas envelhecem e se tornam mais escuras, elas se fornam inadequadas para o crescimento da samambaia-preta.

É necessário, é claro, estabelecer limites para sua colheita. Caso contrário, a crescente demanda no mercado florista pode acabar causando efeitos preocupantes em sua ocorrência. A melhor alternativa continua sendo cultivar a samambaia, já que isso protege populações selvagens e permite a colheia de frondes de alta qualidade e uma recuperação mais rápida depois da desfolhação.

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Referências:

Geldenhuys CJ, van der Merwe CJ (1988) Population structure and growth of the fern Rumohra adiantiformis in relation to frond harvesting in the southern Cape forests. South African Journal of Botany 54(4): 351–362.

Milton SJ (1987) Growth of Seven-weeks Fern (Rumohra adiantiformis) in the Southern Cape Forests: Implications for Management. South African Forestry Journal 143: 1–4.

Souza GC, Cubo R, Guimarães L, Elisabetsky E (2006) An ethnobiological assessment of Rumohra adiantiformis (samambaia-preta) extractivism in Southern Brazil. Biodiversity and Conservation 15: 2737–2746. doi: 10.1007/s10531-005-0309-3

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*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 3.0 Não Adaptada.

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Ame ao filho do teu próximo: por que alguns animais cuidam dos filhotes de outros?

por Piter Kehoma Boll

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Cuidado parental, aqui definido como qualquer comportamento em que um animal toma conta de seus filhotes, é uma prática difundida no reino animal, tendo evoluído repetidamente em muitos táxons. Não é difícil notar, considerando a seleção natural, por que o cuidado parental é um traço adaptativo. Ele aumenta a chance de a prole sobreviver e assim carregar os genes para a próxima geração.

Uma ave alimentando seus bebês. Foto de JJ Harrison.*

Por outro lado, o comportamento relacionado a este e conhecido como cuidado aloparental não é tão fácil de explicar em todas as situações em que ocorre.

Enquanto cuidado parental significa cuidar da sua própria prole, cuidado aloparental significa cuidar da prole de outro indivíduo. Se você gasta tempo e recursos tomando conta de um animal que não é seu descendente direto, você deve ter uma boa razão para fazê-lo, uma razão que de alguma forma te beneficie. Ou você pode apenas ser muito burro.

A maioria dos animais rejeita ou mesmo mata a prole de outros indivíduos da mesma espécie. Um clássico exemplo é um leão macho que mata os filhotes que ele sabe não serem seus. Ele faz isso porque ele não vê vantagem em deixar a prole de outro macho sobreviver.

Um exemplo extremo de cuidado com jovens que não são sua prole direta é encontrado em insetos sociais como abelhas e formigas. Formigas operárias geralmente não reproduzem, mas criam suas irmãs como se fossem suas próprias filhas. Nesse caso, é mais vantajoso fazer irmãos do que fazer filhos por causa do peculiar sistema de reprodução dos himenópteros. Não entrarei em detalhes, mas, basicamente, formigas compartilham 100% do DNA de seu pai e 50% do DNA de sua mãe, de forma que duas formigas irmãs possuem 75% dos genes em comum, enquanto a relação entre uma formiga fêmea e uma prole fêmea é de apenas 50%.

Abelhas ajudam a mãe a criar suas irmãs. Foto do usuário Waugsberg do Wikimedia.*

No entanto cuidado aloparental é encontrado em muitos outros animais, especialmente em mamíferos. Apesar de não terem 75% de similaridade entre irmãos como em formigas, muitos mamíferos e outros animais ajudam suas mães e/ou seus pais a criarem seus irmãos. Isso possui vantagens menos diretas, mas elas ainda estão lá. Afinal, seus irmãos (se eles são da mesma mãe E do mesmo pai) compartilham 50% do seu DNA, a mesma quantidade que você compartilha com seus filhos. Mas cuidado aloparental também pode acontecer com parentes mais distantemente relacionados, como netos ou meios-irmãos, que compartilham somente 25% do DNA com você. Isso não é um problema, no entanto, porque se você não é capaz de ter seus próprios filhos naquele momento, é melhor ajudar a criar aqueles jovens que compartilham algum DNA com você do que não fazer nada, porque 25% dos seus genes ainda é melhor que nada.

Um artigo recentemente publicado reporta a primeira observação de cuidado aloparental em campo no peixe ciclídeo Neolamprologus savoryi. A equipe observeu um peixe macho ajudando a tomar conta dos ovos de outro macho que se descobriu ser seu pai, apesar de a mãe dos ovos não ser sua mãe. O macho ajudante era pequeno e provavelmente sexualmente imaturo, de forma que, como dito acima, ajudar seus meios-irmãos, que possuem 25% de seus genes, a sobreviver é melhor do que não fazer nada.

Um macho imaturo de Neolamprologus savoryi tomando conta dos ovos de seu pais e sua madrasta. Créditos a Josi et al. (2019).

Uma coisa realmente difícil de explicar é por que alguns animais aceitam tomar conta da prole de indivíduos não aparentados, no qual não há uma vantagem adaptativa clara. Uma situação como essa foi descoberta recentemente ocorrendo na lacrainha-comum Forficula auricularia. Fêmeas que tiveram seus ovos substituídos pelos de uma fêmea não relacionada tomaram conta deles como se eles fossem seus próprios. Nenhuma vantagem de qualquer tipo pode ser extraída deste comportamento, de forma que a explicação mais provável é simplesmente a falta de pressão adaptativa para rejeitar ovos não relacionados. É provável que, em condições naturais, uma fêmea de lacrainha nunca encontre ovos de outra fêmea. Desta forma, nunca houve um cenário no qual a capacidade de reconhecer os próprios ovos (e diferenciá-los de outros) pudesse evoluir. A seleção natural precisa de oportunidades para agir.

Forficula auricularia com uma massa de ovos. Foto de Tom Oates.*

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Referências:

Josi D, Taborsky M, Frommen JG (2019) First field evidence of alloparental egg care in cooperatively breeding fish. Ethology 125(3): 164–169. doi: 10.1111/eth.12838

Royle NJ, Moore AJ (2019) Nature and Nurture in Parental Care. In: Genes and Behaviour, pp. 131–156. John Wiley & Sons, Ltd. doi: 10.1002/9781119313663.ch7

Van Meyel S, Devers S, Meunier J (2019) Love them all: mothers provide care to foreign eggs in the European earwig Forficula auriculariaBehavioral Ecology. doi:10.1093/beheco/arz012

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