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Sexta Selvagem: Míldio-da-Alface

por Piter Kehoma Boll (Read this post in English)

Semana passada eu apresentei um sério patógeno de plantas, o bolor-cinzento, que ataca muitas plantas cultivadas e possui um papel tanto bom quanto ruim em videiras. Mas uma planta que nunca está feliz com uma infecção pelo bolor-cinzento é certamente a alface. E neste caso nosso vegetal suculento tem um inimigo que o torna suscetível ao bolor, e eu vou apresentá-lo hoje.

Chamado Bremia lactucae, este organismo é um oomiceto, assim pertencendo a um grupo de organismos que era antigamente classificado como sendo fungos, mas que atualmente se sabe que são mais proximamente relacionados às algas marrons e douradas. Esta espécie ataca pés de alface e plantas proximamente relacionadas, causando uma doença chamada míldio-da-alface.

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Uma folha de alface com míldio. Foto de Gerald Holmes.*

O míldio-da-alface é a doença mais importante afetando alfaces no mundo todo. A doença em si não é o problema principal, apesar de diminuir a qualidade das plantas. O maior problema é que ela torna o vegetal mais vulnerável a outras infecções, tal como as do bolor-cinzento, e também aumenta o risco de contaminação por patógenos humanos, como os parasitas intestinais.

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Um ramo de míldio-da-alface sob o microscópio. Foto de Bruce Watt.*

As formas típicas de controlar a disseminação do míldio-da-alface são o uso de fungicidas e o desenvolvimento de alfaces resistentes ao míldio por hibridização com variedades selvagens e naturalmente resistentes. Contudo, como de costume, o míldio-da-alface eventualmente se adapta a isso, levando a linhagens resistentes a fungicidas, bem como a linhagens capazes de neutralizar a resistência das linhagens de alface. É mais uma corrida armamentista evolutiva.

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Referências:

Beharav, A., Ochoa, O., & Michelmore, R. (2013). Resistance in natural populations of three wild Lactuca species from Israel to highly virulent Californian isolates of Bremia lactucae Genetic Resources and Crop Evolution, 61 (3), 603-609 DOI: 10.1007/s10722-013-0062-5

Parra, L., Maisonneuve, B., Lebeda, A., Schut, J., Christopoulou, M., Jeuken, M., McHale, L., Truco, M., Crute, I., & Michelmore, R. (2016). Rationalization of genes for resistance to Bremia lactucae in lettuce Euphytica, 210 (3), 309-326 DOI: 10.1007/s10681-016-1687-1

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Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição Não Comercial 3.0 Não Adaptada.

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Sexta Selvagem: Dinóbrio-divergente

por Piter Kehoma Boll

Vamos voltar a mais uma vez aos problemáticos e negligenciados protistas. Desta vez trarei a vocês outra alga pequena, mas bonita, mais precisamente uma alga dourada. Seu nome é Dinobryon divergens e como de praxe não há nome comum, então inventei um simplesmente traduzindo o nome científico, de forma que a chamarei de dinóbrio-divergente.

O dinóbrio-divergente é parte da classe Chrysophyceae, comumente conhecidas como algas douradas. Medindo certa de 50 µm de comprimento, ele vive em lagos temperados ao redor do mundo e forma colônias compostas de cerca de 6 a 50 células ovoides que são rodeadas por uma concha (lórica) de celulose com forma de vaso, como visto na imagem abaixo.

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Uma colônia ramificada de Dinobryon divergens. As células são claramente visíveis dentro da lórica. Foto de Frank Fox.*

Durante a formação da colônia, uma célula original se divide e uma das células-filhas desliza para a abertura da lórica e começa a construir uma nova. Ela começa criando a base da lórica, que tem um formato de funil e fica presa à parede interna da lórica original. Com divisões subsequentes, a colônia começa a crescer num formato de árvore. E a parte mais interessante é que as células têm dois flagelos e os usam para nadar, puxando a colônia inteira através da água.

Como com outras algas douradas, o dinóbrio-divergente produz uma estrutura silicosa interna que é globosa, oca e tem uma única abertura com o exterior. Essa estrutura é chamada de estatósporo ou estomatocisto e permite que a célula entre num estado de repouso (cisto). O estatósporo é uma estrutura importante para ajudar a distinguir diferentes espécies de algas douradas.

O dinóbrio-divergente é um organismo mixotrófico, significando que se alimenta por fotossíntese e também pela ingestão de alimento, especialmente bactérias. É um carinha interessante, não acha?

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Referências:

Franke, W., & Herth, W. (1973). Cell and lorica fine structure of the chrysomonad alga, Dinobryon sertularia Ehr. (Chrysophyceae) Archiv für Mikrobiologie, 91 (4), 323-344 DOI: 10.1007/BF00425052

Herth, W. (1979). Behaviour of the chrysoflagellate alga, Dinobryon divergens, during lorica formation Protoplasma, 100 (3-4), 345-351 DOI: 10.1007/BF01279321

Karim, A., & Round, F. (1967). Microfibrils in the lorica of the freshwater alga Dinobryon New Phytologist, 66 (3), 409-412 DOI: 10.1111/j.1469-8137.1967.tb06020.x

Sandgren, C. (1981). Characteristics of sexual and asexual resting cyst (statospore) formation in Dinobryon cylindricum Imhof (Chrysophyta) Journal of Phycology, 17 (2), 199-210 DOI: 10.1111/j.1529-8817.1981.tb00840.x

Sheath, R., Hellebust, J., & Sawa, T. (1975). The statospore of Dinobryon divergens Imhof: Formation and germination in a subarctic lake Journal of Phycology, 11 (2), 131-138 DOI: 10.1111/j.1529-8817.1975.tb02760.x

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Sexta Selvagem: Kelp-Gigante

por Piter Kehoma Boll

Esta semana ficaremos no mar e conheceremos uma das algas mais impressionantes, o kelp-gigante, Macrocystis pyrifera. Ele é chamado de gigante por uma boa razão, já que pode crescer até 50 metros em comprimento e formar verdadeiras florestas no mar. Sendo capaz de crescer 60 cm em um único dia, ele tem o crescimento linear mais rápido de qualquer organismo na Terra.

O kelp-gigante é uma alga marrom, assim não é relacionado (ao menos não proximamente) a algas verdes ou vermelhas, mas é um parente das minúsculas diatomáceas que cobrem o oceano. Ele cresce em águas frias ao longo do costa do Pacífico nas Américas e próximo à costa de países próximos à Antártida, tal como Chile, Argentina, África do Sul, Austrália e Nova Zelândia.

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É mesmo uma bela alga, não é? Foto da California Academy of Sciences.*

Este incrível organismo é composto por um talo que se ramifica na base e então continua como um pedúnculo único e muito longo do qual lâminas se desenvolvem a intervalos regulares de apenas um lado. Na base de cada lâmina, há uma bexiga de gás que ajuda o organismo inteiro a se manter mais ou menos em posição vertical.

As enormes florestas de kelp nos oceanos são um ecossistema importante e muitas espécies dependem delas para sobreviver, incluindo outras algas. Humanos também usam o kelp gigante tanto como uma fonte direta de alimento quanto como uma fonte de suplementos alimentares, uma vez que a alga é rica em muitos minerais, especialmente iodo e potássio, bem como muitas vitaminas.

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As florestas de kelp sustentam uma enorme diversidade de formas de vida nos oceanos. Foto de Stef Maruch.**

Nas últimas décadas, as populações de kelp estão diminuindo rapidamente. Isso provavelmente é  causado pelas mudanças climáticas, já que essa alga não consegue se desenvolver em temperaturas acima de 21ºC. O kelp-gigante é, portanto, só mais uma vítima do aquecimento global. E se ele se extinguir, um ecossistema inteiro desaparecerá com ele.

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Referências:

Foster, M. (1975). Algal succession in a Macrocystis pyrifera forest Marine Biology, 32 (4), 313-329 DOI: 10.1007/BF00388989

Wikipedia. Macrocystis pyrifera. Disponível em <https://en.wikipedia.org/wiki/Macrocystis_pyrifera&gt;. Acesso em 19 de janeiro de 2007.

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