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Sexta Selvagem: Soldadinho-Chifrudo-da-Acácia

por Piter Kehoma Boll

Semana passada apresentei uma bela acácia australiana, a acácia-dourada, então hoje decidi apresentar uma pequena criatura que vive em seus ramos. Chamado Sextius virescens, este inseto é comumente conhecido como soldadinho-chifrudo-da-acácia (tradução do nome em inglês: wattle horned treehopper) ou simplesmente soldadinho-verde. Ele é membro da ordem Hemiptera e da família Membracidae, comumente conhecidos como soldadinhos, sendo proximamente relacionados a cigarras e cigarrinhas.

Um soldadinho-chifrudo-da-acácia sobre uma acácia-dourada em Brisbane, Austrália. Foto de Jenny Thyne.*

O corpo do soldadinho-chifrudo-da-acácia mede cerca de 1 cm de comprimento e é em sua maioria verde, mas as pernas são marrons. Também há duas projeções em forma de chifres no tórax que possuem uma cor de marrom a negro e outra extensão longa do tórax que fica deitada sobre o abdome. O soldadinho-chifrudo-da-acácia vive em grupos nos ramos de acácias e os indivíduos costumam se posicionar alinhados sobre os ramos.

Um soldadinho-chifrudo-da-acácia perto de Melbourne. Foto de Andrew Allen.**

Como todos os soldadinhos, o soldadinho-chifrudo-da-acácia se alimenta da seiva das plantas nas quais vive, sugando-a com suas peças bucais adaptadas. Eles excretam um líquido doce chamado melada que atrai formigas. Tais formigas geralmente se alimentam do néctar produzido pelos nectário extraflorais da acácia e defendem a planta contra herbívoros. Contudo os soldadinhos-chifrudos-da-acácia fazem as formigas dedicarem sua atenção a eles ao invés da planta. Deliciadas pela melada, as formigas param de defender a planta e passam a defender os soldadinhos, o que não é nem um pouco bom para a planta.

Formigas coletando melada de soldadinhos-chifrudos-da-acácia no leste da Austrália. Foto do usuário fruitbat do iNaturalist.*

Mas assim é a natureza. Uma criatura sempre tentando explorar as relações entre outras criaturas para tirar o melhor proveito para si.

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Referências:

Buckley R (1983) Interaction between ants and membracid bugs decreases growth and seed set of host plant bearing extrafloral nectaries. Oecologia 58: 132–136.

Museums Victoria Sciences Staff (2017) Sextius virescens Green Treehopper in Museums Victoria Collections. Disponível em <https://collections.museumvictoria.com.au/species/8561>. Acesso em 10 de agosto de 2019.

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Sexta Selvagem: Acácia-Dourada

por Piter Kehoma Boll

Se você caminhar pelas florestas de eucalipto no leste da Austrália, poderá encontrar a espécie de hoje em seu ambiente natural. Seu nome é Acacia pycnantha, comumente conhecida como acácia-dourada e, como é óbvio pelos nomes científico e comum, é uma espécie de acácia.

Uma acácia dourada entre eucaliptos no sul da Austrália. Foto de David Muirhead.*

A acácia-dourada é uma árvore peculiar. Ela atinge uma altura de cerca de 8 metros, apesar de a maioria dos indivíduos chegar apenas a 6 m. Como é comum entre espécies australianas do gênero Acacia, a acácia-dourada não possui folhas verdadeiras. Em vez disso, possui pecíolos modificados, chamados filódios, que são alargados para se parecerem com e funcionarem como folhas. Os filódios possuem uma forma lanceolada e falcada, isto é, se parecem com uma folha típica que é ligeiramente curvada para um lado, como uma foice. O lado externo desta “foice” possui um nectário extrafloral, uma estrutura que produz néctar e atrai insetos e aves que se alimentam dele.

Filódios da acácia-dourada com o nectário extrafloral visível como uma pequena protuberância redonda. Foto do usuário Melburnian do Wikimedia.**

A planta produz botões de flor o ano inteiro, mas somente aqueles produzidos entre novembro e maio se desenvolverão adiante e abrirão entre julho e novembro do ano seguinte. As flores ocorrem em inflorescências e possuem uma cor amarela intensa e o aspecto felpudo típico de flores de acácias que é causado por estames muito longos.

Uma inflorescência com várias flores e seus estames muito longos. Foto de Patrick Kavanagh.***

Apesar da enorme quantidade de flores que uma árvore única produz, esta espécie é autoincompatível, significando que não pode fertilizar a si mesma e precisa que seu pólen seja levado para as flores de outro indivíduo da mesma espécie. Já se sabe que aves são polinizadores muito importantes da acácia-dourada e a árvore usa seus nectários extraflorais para auxiliar nisso. Quando uma ave visita a árvore, ela se alimenta do néctar dos nectários extraflorais e, no processo, esbarra contra as flores, ficando coberta de pólen. Quando as aves visitam a próxima árvore e colidem contra suas flores, parte do pólen da primeira planta passa para as flores da segunda.

A casca da acácia-dourada produz grandes quantidades de taninos, mais do que qualquer outra acácia australiana, o que levou a seu cultivo para este propósito. Quando estressado, o tronco exsuda uma goma (resina) que é similar à goma-arábica produzida por espécies africanas de acácia.

Goma exsudando do tronco da acácia-dourada. Foto de Patrick Kavanagh.***

A acácia-dourada foi introduzida em vários países, especialmente na Europa e na África, para propósitos ornamentais e econômicos. Na África do Sul, seu cultivo para a produção de tanino fez com que ela se espalhasse rapidamente pelos ecossistemas nativos, tornando-se invasora. E agora, como sempre, temos que lidar com as consequências de nossos atos irracionais e correr para resolver este problema.

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Referências:

Hoffmann JH, Impson FAC, Moran VC, Donnelly D (2002) Biological control of invasive golden wattle trees (Acacia pycnantha) by a gall wasp, Trichilogaster sp. (Hymenoptera: Pteromalidae), in South Africa. Biological Control 25(1): 64–73. 10.1016/S1049-9644(02)00039-7

Vanstone VA, Paton DC (1988) Extrafloral Nectaries and Pollination of Acacia pycnanthaBenth by Birds. Australian Journal of Botany 36(5): 519–531. doi: 10.1071/BT9880519

Wikipedia. Acacia pycnantha. Disponível em < https://en.wikipedia.org/wiki/Acacia_pycnantha >. Acesso em 9 de agosto de 2019.

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Sexta Selvagem: Mosca-d’Água-Manchada

por Piter Kehoma Boll

É hora de apresentar uma nova ordem de insetos aqui e, mais uma vez, este é um táxon complicado. A ordem Trichoptera consiste de pequenos insetos parecidos com mariposas conhecidos como moscas-d’água ou frigâneas. Eles são proximamente relacionados a mariposas e borboletas (ordem Lepidoptera), sendo um grupo irmão destas. Tendo 10 vezes menos espécies que a ordem Lepidoptera, a ordem Trichoptera é menos comum e bem menos popular, de forma que é difícil encontrar espécies que são bem estudadas para apresentar aqui.

A espécie que escolhi é chamada Glyphotaelius pellucidus e conhecida popularmente como mosca-d’água-manchada. Ela vive na Europa central e boreal e possui o ciclo de vida típico de uma mosca-d’água.

Uma mosca-d’água-manchada na Alemanha. Foto do usuário Pjt56 do Wikimedia.*

A larva da mosca-d’água-manchada vive em águas paradas ou de correnteza fraca que são cobertas por árvores, especialmente amieiros, carvalhos e faias, em áreas de baixa altitude. Como de costume entre moscas-d’água, a larva da mosca-d’água-manchada constrói um abrigo de seda no qual vive e prende pedaços de detritos, especialmente fragmentos de folhas das árvores mencionadas acima, para fortalecê-lo. Nesta espécie, os fragmentos que são presos fazem o abrigo ser bem grande e característico. Dos lados do abrigo, a larva prende fragmentos pequenos e irregulares de folhas, enquanto que nos lados dorsal e ventral ela prende seções grandes e circulares que são muito maiores que o corpo da larva.

Uma larva dentro do abrigo na Alemanha. Foto do usuário fuerchtegott do iNaturalist.**

A larva vive vários meses, de outubro a abril, e se alimenta de fragmentos de folhas, o mesmo material com que constrói o abrigo. Em abril, a larva se transforma em pupa que, geralmente durante o verão (por volta de junho ou julho), se transforma num adulto. O adulto não é aquático como a larva e a pupa. Assim, a pupa nada para a superfície antes de se romper e liberar o adulto. Durante este momento, o adulto é muito vulnerável a predadores, especialmente peixes. É por isso que moscas-d’água artificiais são comumente usadas como iscas para pescar.

Mosca-d’água-manchada adulta no Reino Unido. Foto de Philip Mark Osso.**

Se o adulto consegue deixar a água vivo, ele ainda precisa passar um tempo esperando suas asas secarem, o que é outro momento muito vulnerável. A cor do adulto é marrom e as asas possuem um padrão manchado de marcas claras e escuras que o fazem parecer um fragmento de folha seca.

Massa de ovos numa folha no Reino Unido. Foto de Martin Cooper.***

Moscas-d’água adultas em geral raramente comem e isso não é diferente com a mosca-d’água-manchada. O único propósito dos adultos é acasalar e pôr ovos. Após o acasalamento, a fêmea põe uma massa de novos na superfície de folhas penduradas sobre um corpo d’água. Uma fêmea pode pôr até seis massas de ovos que diminuem em tamanho da primeira para a última, e então ela morre. Quando os ovos eclodem, as larvas caem na água e recomeçam o ciclo.

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Referências:

Crichton MI (1987) A study of egg masses of Glyphotaelius pellucidus (Retzius), (Trichoptera: Limnephilidae). In: Bournaud M., Tachet H. (eds) Proceedings of the Fifth International Symposium on Trichoptera. Series Entomologica, vol 39. Springer, Dordrecht. doi: 10.1007/978-94-009-4043-7_30

Gullefors B (2010) Seasonal decline in clutch size of the caddisfly Glyphotaelius pellucidus (Retzius) (Trichoptera: Limnephilidae). Denisia 29: 125–131.

Kiauta B, Lankhorst L (1969) The chromosomes of the caddis-fly, Glyphotaelius pellucidus (Retzius, 1783) (Trichoptera: Limnephilidae, Limnephilinae). Genetica 40: 1–6.

Otto C (1983) Behavioural and Physiological Adaptations to a Variable Habitat in Two Species of Case-Making Caddis Larvae Using Different Food. Oikos 41(2): 188–194. doi: 10.2307/3544262

Rowlands MLJ, Hansell MH (1987) Case design, construction and ontogeny of building in Glyphotaelius pellucidus caddisfly larvae. Journal of Zoology 211(2): 329–356. doi: 10.1111/j.1469-7998.1987.tb01538.x

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Sexta Selvagem: Caramujo-Pião-Morango

por Piter Kehoma Boll

Olhe para essa coisa:

É tão lindamente vermelha como um morango que sinto minha boca salivar e um desejo de mordê-la. Mas em vez de uma fruta doce e suculenta como um morango, é uma concha salgada e dura da espécie Clanculus puniceus, que possui o nome comum apropriado de caramujo-pião-morango.

Esta espécie é encontrada no Oceano Índico ao longo da costa leste da África, do Mar Vermelho ao Cabo Agulhas, incluindo ilhas próximas como Madagascar e as Mascarenas. Ela pertence à família Trochidae, comumente chamados de concha-pião ou caramujo-pião porque a concha lembra o brinquedo com esse nome.

Caramujo-pião-morango na África do Sul. Foto do usuário jaheymans do iNaturalist.*

A concha do caramujo-pião-morango mede, no adulto, pelo menos 15 mm de diâmetro, atingindo até 23 mm, e possui uma linda cor vermelha, causada por uroporfirinas, que varia de vermelho-alaranjado a carmesim. A espiral da concha, quando vista de cima, possui uma linha formada por pontos pretos, causados por melanina, intercalados por dois ou três pontos brancos. Quando vista de baixo, há duas linhas adicionais com esse padrão que correm lado a lado perto da abertura da concha.

A concha vista de vários ângulos. Foto de H. Zell.**

Como de costume entre caramujos-piões, o caramujo-pião-morango vive nas zonas entre-marés e sublitoral e se alimenta de algas que raspa das rochas usando sua língua dentada (a rádula). Eles são dioicos, isto é, há indivíduos machos e fêmeas, como de costume entre caramujos marinhos, mas não existe dimorfismo sexual.

Devido à sua beleza, a concha do caramujo-pião-morango é altamente desejada por colecionadores de conchas. Contudo pouco se sabe sobre a história natural desta espécie em particular. Eu nem mesmo consegui encontrar uma fotografia na qual o caramujo em si é visível.

Esta foi a única fotografia que encontrei em que a parte mole do corpo de um caramujo do gênero Clanculus é visível. A espécie, de Taiwan, não foi identificada. Foto de Cheng Te Hsu.***

Se você trabalha com esta espécie ou pelo menos possui uma fotografia de um espécime vivo mostrando o caramujo dentro da concha, por favor, compartilhe! Precisamos de mais informação disponível sobre as maravilhosas criaturas que compartilham este planeta conosco.

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Mais caramujos marinhos:

Sexta Selvagem: Lapa-Ornada (em 3 de maio de 2019)

Sexta Selvagem: Cone-Tulipa (em 29 de dezembro de 2017)

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Referências:

Herbert DG (1993) Revision of the Trochinae, tribe Trochini (Gastropoda: Trochidae) of southern Africa. Annals of the Natal Museum 34(2): 239–308.

Wikipedia. Trochidae. Available at < https://en.wikipedia.org/wiki/Trochidae >. Access on 29 July 2019.

Williams ST, Ito S, Wakamatsu K, Goral T, Edwards NP, Wogelius RA, Henkel T, Oliveira LFC, Maia LF, Strekopytov S, Jeffries T, Speiser DI, Marsden JT (2016) Identification of Shell Colour Pigments in Marine Snails Clanculus pharaonius and Cmargaritarius (Trochoidea; Gastropoda). PLoS ONE 11(7): e0156664. doi: 10.1371/journal.pone.0156664

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Sexta Selvagem: Camarão-Semente-da-Cara

por Piter Kehoma Boll

É hora de falar sobre um ostrácodo, ou camarão-semente, de novo e, como de praxe, é um momento difícil devido à pouca informação facilmente acessível sobre qualquer espécie do grupo. Mas há, de fato, uma que é consideravelmente bem estudada. Sendo um dos ostrácodos mais comuns na América do Norte e na Eurásia, seu nome científico é Cypridopsis vidua, para o qual cunhei o nome comum “camarão-semente-da-cara”.

O camarão-semente-da-cara é um crustáceo de água doce com a aparência típica de um ostrácodo, se parecendo com um minúsculo bivalve medindo cerca de 0.5 mm de comprimento. Suas valvas possuem um padrão claro e escuro bem distinto.

Um camarão-semente-da-cara com a concha fechada. Créditos a Markus Lindholm, Anders Hobæk/Norsk institutt for vassforsking.*

Uma espécie relativamente móvel, o camarão-semente-da-cara vive no fundo de corpos d’água, sobre o sedimento, e é comum em áreas densamente vegetadas por caras (algas do gênero Chara). Esta associação com caras dá ao camarão-semente-da-cara tanto proteção contra predadores, em sua maioria peixes, quanto uma boa fonte de alimento.

O principal alimento do camarão-semente-da-cara são algas microscópicas que crescem no talo das caras. Enquanto forrageia, o camarão-semente-da-cara nada de um talo de cara para outro usando seu primeiro par de antenas e se agarra aos talos usando o segundo par de antenas e o primeiro par de pernas torácicas. Uma vez realocado, ele começa a raspar algas microscópicas com suas mandíbulas.

O corpo do camarão-semente-da-cara como visto quando uma das valvas (a esquerda neste caso) é removida. Créditos a Paulo Corgosinho.**

O camarão-semente-da-cara é mais uma dessas espécies em que machos não existem, nem mesmo em pequenas quantidades. Durante os meses quentes do verão, as fêmea produzem os chamados ovos súbitos, que se desenvolvem imediatamente em novas fêmeas. Contudo, quando o inverno se aproxima, elas produzem outro tipo de ovo, os chamados ovos de diapausa, que permanecem dormentes no substrato durante o inverno. Os animais adultos todos morrem durante esta estação e, quando a primavera chega, uma nova população surge dos ovos que eclodem. Como nem todos os ovos eclodem na primavera, alguns podem ficar no substrato por anos antes de eclodirem, o que geralmente aumenta a diversidade genética a cada ano, já que ela não depende apenas das filhas da geração passada.

Mas como surge diversidade genética se não há machos e, como resultado, as filhas são sempre clones das mães? Este mistério ainda não está totalmente resolvido. Recombinação genética durante a partenogênese, pela troca de alelos entre cromossomos, não parece ser muito comum. É possível que diferentes populações sejam geneticamente diferentes e que elas colonizem novos ambientes com frequência, se misturando entre si. Visto que machos são conhecidos em espécies proximamente relacionadas, ainda é possível que, algum dia, encontremos alguns machos do camarão-semente-da-cara escondidos por aí. Também é possível que, de alguma forma, os machos todos tenham se tornado extintos no passado recente, como na última glaciação, por exemplo. Se for o caso, só o tempo dirá qual é o destino do camarão-semente-da-cara.

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Mais Ostrácodos:

Sexta Selvagem: Camarão-Semente-Vênus-de-Dente-Afiado (em 22 de junho de 2018)

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Referências:

Cywinska A, Hebert PDN (2002) Origins of clonal diversity in the hypervariable asexual ostracode Cypridopsis vidua. Journal of Evolutionary Biology 15: 134–145. doi: 10.1046/j.1420-9101.2002.00362.x

Roca JR, Baltanas A, Uiblein F (1993) Adaptive responses in Cypridopsis vidua (Crustacea: Ostracoda) to food and shelter offered by a macrophyte (Chara fragilis). Hydrobiologia 262: 121–131.

Uiblein F, Roca JP, Danielpool DL (1994) Experimental observations on the behavior of the ostracode Cypridopsis vidua. Internationale Vereinigung für Theoretische und Angewandte Limnologie: Verhandlungen 25: 2418–2420.

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Sexta Selvagem: Mariposa-Luna

por Piter Kehoma Boll

Faz muito tempo desde a última vez que apresentei um lepidóptero aqui, então hoje decidi voltar a este incrível grupo de insetos. A espécie que escolhi para hoje é bem popular, talvez a mariposa mais popular no mundo. Seu nome é Actias luna, comumente conhecida como mariposa-luna.

Mariposa-luna adulta nos Estados Unidos. Foto de Any Reago & Chrissy McClarren.*

A mariposa-luna é nativa do Canadá e dos Estados Unidos. É uma mariposa bem grande, com uma envergadura de cerca de 8 a 12 cm, apesar de alguns indivíduos poderem chegar a 18 cm. Suas asas, cobertas de escamas como de costume em lepidópteros, têm uma cor verde-clara. As asas anteriores possuem uma borda anterior marrom que se conecta a duas manchas ocelares (uma em cada asa) por um pedúnculo. As asas posteriores também possuem uma mancha ocelar cada, mas não são conectadas por um pedúnculo à borda. Nas asas posteriores há também uma longa cauda que é característica do gênero Actias e lembra um pouco a cauda similar (mas mais curta) de algumas borboletas, como as da família Papilionidae. Machos e fêmeas são muito parecidos e podem geralmente ser distinguidos pelo tamanho do abdome, que é muito mais grosso em fêmeas.

Em climas mais frios, como no Canadá, a mariposa-luna possui uma geração por ano, mas populações do sul, em locais onde o clima é mais quente, podem ter até três. As fêmeas põem ovos em plantas que servem de alimento à larva. Há várias espécies de árvores identificadas como alimento, incluindo bétulas, nogueiras, pecãs e caquizeiros. As larvas se alimentando de uma árvore nunca, ou muito raramente, chegam a um número que possa causar dano significativo à planta.

Larva de terceiro ínstar. Foto do usuário Kugamazog~commonswiki do Wikimedia.**

Os ovos são marrons e são depositados em aglomerados irregulares na parte inferior das folhas. Eles geralmente eclodem de uma a duas semanas depois de serem postos e originam larvas pequenas e verdes. As larvas são verdes em todos os estágios (ou ínstares) e passam por cinco deles durante um período de cerca de 7 semanas. O quinto e último ínstar então desce da árvore em que vive para atingir o solo. Lá, a larva começa a tecer um casulo de seda e, após concluí-lo, se transforma numa pupa. Em regiões mais quentes, a pupa leva cerca de duas semanas para se tornar um adulto, mas em regiões mais frias ela entra em diapausa durante o inverno, levando cerca de nove meses para completar o ciclo.

Uma larva de quinto ínstar construindo um casulo. Créditos a Virginia State Parks staff.*

Quando as fêmeas se tornam adultas, procuram por uma árvore adequada da espécie preferida (geralmente a mesma espécie em que nasceram) e emitem feromônios para atrair os machos. Os adultos não possuem peças bucais e, portanto, não comem, vivendo apenas o suficiente para acasalar e pôr ovos. As belas e lindas caudas das asas posteriores, mais que apenas lindas, parecem diminuir a habilidade de morcegos predadores detectarem a mariposa usando ecolocalização.

Pupa ao lado de um casulo vazio. Foto do usuário Kugamazog~commonswiki do Wikimedia.**

A mariposa-luna é um dos insetos mais populares da América do Norte. De fato, ela foi o primeiro inseto do continente a ser descrito, sendo chamada Phalaena plumata caudata por James Petiver em 1700. Quando Linnaeus começou a nomenclatura binomial de animais em 1758, ele a renomeou Phalaena luna como referência à deusa romana da Lua.

Belo espécime no Canadá. Foto de Alexis Tinker-Tsavalas.***

Apesar de não ser considerada uma espécie vulnerável no momento, a mariposa-luna sofre algumas ameaças causadas por interferência humana, como perda de habitat e dano causado por espécies invasoras. Felizmente, devido à sua popularidade, ela provavelmente terá apoio considerável do público para sua conservação quando a hora chegar.

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Referências:

Lindroth RL (1989) Chemical ecology of the luna moth: Effects of host plant on detoxification enzyme activity. Journal of Chemical Ecology 15(7): 2019–2029.

Millar JG, Haynes KF, Dossey AT, McElfresh JS, Allison JD (2016) Sex Attractant Pheromone of the Luna Moth, Actias luna (Linnaeus). Journal of Chemical Ecology 42(9): 869–876.

Wikipedia. Luna moth. Disponível em < https://en.wikipedia.org/wiki/Luna_moth>. Acesso em 11 de julho de 2019.

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Sexta Selvagem: Vespa-da-Figueira-Lacerdinha

por Piter Kehoma Boll

Durante as últimas três semanas, apresentei uma figueira, a figueira-lacerdinha, uma lacerdinha que a parasita, a lacerdinha-da-figueira, e um ácaro que parasita a lacerdinha, o ácaro-da-lacerdinha-da-figueira. Todavia eu ainda não escrevi sobre uma das criaturas mais interessantes que interage com uma figueira: seu polinizador.

No caso da figueira-lacerdinha, seu polinizador é a vespa-de-figueira Eupristina verticillata, que decidi chamar de Vespa-da-Figueira-Lacerdinha. Como todas as vespas-de-figueira, esta espécie é muito pequena e completamente adaptada para viver com figos. Elas não podem sobreviver sem a espécie exata de figueira com que interagem, e a figueira em questão não pode sobreviver sem a espécie exata de vespa. Como isso funciona?

Vamos começar nossa história com uma fêmea adulta de vespa-da-figueira-lacerdinha. As fêmeas são pretas e muito pequenas, medindo cerca de 1 a 1,2 mm de comprimento somente. Esta fêmea está voando por aí procurando um figo jovem que servirá como seu ninho e sua sepultura.

Assim é uma fêmea de vespa-da-figueira-lacerdinha. Foto de Forest & Kim Starr.*

Um figo, caso você não saiba, não é um fruto verdadeiro no sentido botânico. Ele é na verdade um tipo especial de inflorescência chamado sicônio que é basicamente um saco preenchido de flores. As paredes internas de um figo contêm muitas flores masculinas e femininas minúsculas e a única maneira de chegar a elas é através de um pequeno furo na ponta do figo. E este furo só está aberto durante os estágios iniciais do desenvolvimento do figo.

Figos da figueira-lacerdinha no seu primeiro estágio de desenvolvimento. Você pode ver o furo marcado por uma “aréola” mais escura ao redor. Este é o lugar por onde uma vespa fêmea entra no figo. Créditos ao usuário do Wikimedia Vinayaraj.**

Quando a fêmea de vespa-da-figueira-lacerdinha está voando por aí, está procurando por um figo que esteja neste exato estágio de desenvolvimento. Uma vez que ela o encontre, ela se arrasta para dentro do figo através daquele furinho. Ela geralmente perde as asas enquanto faz isso porque a passagem é estreita demais. Ela até mesmo precisa usar suas mandíbulas especialmente adaptadas para a ajudarem a passar. Uma vez dentro do figo, ela procura pelas flores femininas que estão na base no figo, longe da entrada. As flores masculinas, localizadas logo na entrada, ainda não estão maduras. Contudo as vespas fêmeas chegam com pólen que pegaram em outro lugar (você vai aprender isso daqui a pouco). Quando ela chega nas flores femininas, introduz seu ovopositor (a longa estrutura no final do abdome que é usada para pôr os ovos) dentro da flor feminina e põe um ovo dentro do ovário da flor. Seu ovopositor precisa ter o tamanho exato para alcançar o ovário e pôr o ovo. Se ele é curto demais, ela não é capaz de completar sua tarefa. E enquanto ela se move de flor em flor para pôr os ovos, acaba as polinizando. Depois de terminar, a vespa morre ainda dentro do figo.

Os ovários que receberam um ovo começam a crescer e formar uma galha (um “tumor de planta”) por influência do inseto e servem como abrigo e alimento para as larvas que eclodem dos ovos. Uma larva cresce, empupa e se torna adulta dentro de uma só galha. Quando as vespas finalmente chegam ao estágio adulto, deixam a galha na qual nasceram. Isso acontece quando o figo atinge seu estágio maduro.

Os machos são os primeiros a emergir. Eles são ainda menores que as fêmeas e possuem uma cor entre o amarelo e o marrom-claro. Eles roem seu caminho através da galha e, uma vez fora dela (mas ainda dentro do figo), começam desesperadamente a procurar vespas fêmeas para inseminar. Eles fazem isso arrebentando outras galhas e, quando uma fêmea é encontrada presa dentro, a inseminam. Depois disso, os machos cavam um buraco através do figo para o lado de fora e morrem logo depois, nunca vivenciando o mundo externo.

Uma vespa-da-figueira-lacerdinha macho (à direita) comparado com uma fêmea. Foto de Forest & Kim Starr.*

As vespas fêmeas então deixam as galhas e se movem em direção ao buraco aberto pelo macho. Enquanto fazem isso, elas se movem por cima das flores masculinas, agora maduras, e ficam cobertas de pólen. Depois de deixar o figo, elas procuram outro figo que esteja no primeiro estágio de desenvolvimento, recomeçando o ciclo.

Quando uma fêmea deixa um figo maduro, ela precisa encontrar um figo imaturo logo em seguida porque estará morta em um par de dias. Em outras palavras, a única forma de isso funcionar é se houver figos no estágio certo durante o ano todo, e é isso que acontece. Diferente da maioria das espécies de plantas, que produzem flores em uma época específica do ano, figueiras estão sempre floridas. Bem, não exatamente. Uma figueira individual produz figos em um período específico do ano. Todos os figos daquela árvore amadurecem ao mesmo tempo, ou seja, uma figueira tem uma sincronia de maturação de flores intraindividual. Contudo, outras árvores da mesma espécie possuem momentos diferentes para produzir flores, ou seja, há uma assincronia de maturação de flores interindividual. Isso garante que a vespa sempre encontrará um figo que seja adequado para seu estágio de maturação quando há figueiras suficientes em volta e também garante que a figueira não será fertilizada pela próprio pólen.

Como eu mencionei ao apresentar a figueira-lacerdinha, esta árvore só consegue produzir frutos viáveis quando a vespa está presente, de forma que populações introduzidas fora da área nativa só se reproduzirão se as vespas também forem introduzidas. Contudo, a vespa será incapaz de sobreviver se não houver figueiras o bastante para fornecer figos o ano todo. É uma relação delicada entre um inseto minúsculo, frágil e de vida curta e uma árvore enorme, resistente e de vida longa. E eles precisam um do outro para sobreviver.

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Referências:

Cook J, Rasplus J-Y (2003) Mutualists with attitude: coevolving fig wasps and figs. TRENDS in Ecology and Evolution 18(5): 241–248.

Kjellberg F, Jousselin E, Hossaert-McKey M, Rasplus J-Y (2005) Biology, Ecology, and Evolution of Fig-pollinating Wasps (Chalcidoidea, Agaonidae). In Raman A, Schaefer CW, Withers TM (Eds.) Biology, ecology and evolution of gall-inducing arthropods. v.2. New Hampshire, Science, p.539-572.

McPherson JR (2005) A Recent Expansion of its Queensland Range by Eupristina verticillata, Waterston (Hymenoptera, Agaonidae, Agaoninae), the Pollinator of Ficus microcarpa l.f. (Moraceae). Proceedings of the Linnean Society of New South Wales: 126: 197–201.

Weiblen DG (2002) How to be a fig wasp. Annual Review of Entomology 47: 299–330.

Wiebes JT (1992) Agaonidae (Hymenoptera, Chalcidoidea) and Ficus(Moraceae): fig waps and their figs, VIII (Eupristina s.l.). Proceedings of the Koninklijke Nederlandse Akademie van Wetenschappen 95(1): 109–125.

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