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Sexta Selvagem: Vespa-Cuco-Avermelhada

por Piter Kehoma Boll

Além dos bem conhecidos parasitas internos e externos que se alimentam dos recursos do hospedeiro, a natureza possui também outros tipos de parasitismo. Um dos tipos é o chamado parasitismo de ninhada, no qual um animal põe seus ovos no ninho de outro animal de forma que eles serão criados por pais adotivos, geralmente de uma espécie diferente. Os cucos são certamente os parasitas de ninhada mais famosos, pondo ovos nos ninhos de outras aves.

Mas parasitas de ninhada existem também entre outros grupos animais, incluindo, é claro, a diversa ordem Hymenoptera. Vespas da família Chrysididae são conhecidas como vespas-cucos porque põem seus ovos nos ninhos de outras vespas. Uma espécie desta família é Hedychrum rutilans, que eu decidi chamar de vespa-cuco-avermelhada.

Uma vespa-cuco-avermelhada nos Países Baixos. Foto do usuário v_s_ do iNaturalist.*

Adultos desta espécie medem até 1 cm de comprimento e possuem um corpo com um formato que lembra uma formiga. Sua característica mais marcante, no entanto, é sua cor metálica que é típica de vespas-cucos. Na vespa-cuco-avermelhada, o abdome e a parte anterior do tórax possuem um tom avermelhado, enquanto o resto do corpo é um tanto verde.

Vivendo na Europa e nas regiões mais setentrionais da África, a vespa-cuco-avermelhada é uma adorável bebedora de néctar quando adulta. Todavia, como larva, é um parasitoide. As fêmeas põem seus ovos dentro de outro inseto para que as larvas se alimentem do hospedeiro a partir de dentro. Contudo, como eu mencionei, as vespas-cucos são parasitas de ninhada, de onde o nome vespa-cuco. Assim, elas não caçam outros insetos para servirem de hospedeiros para suas larvas. Em vez disso, invadem os ninhos de outra espécie, o lobo-de-abelha-europeu, apresentado aqui semana passada, e põem seus ovos nas abelhas que o lobo-de-abelha-europeu caçou para sua própria prole.

Vespa-cuco-avermelha na França. Foto do usuário butor do iNaturalist.*

Quando o ovo da vespa-cuco-avermelhada eclode, a larva começa a se alimentar das abelhas paralisadas e podem até mesmo se alimentar da larva do lobo-de-abelha. Mas como uma fêmea da vespa-cuco consegue invadir o ninho do lobo-de-abelha sem ser notada?

A superfície dos insetos é coberta de hidrocarbonetos cuticulares (CHCs), os quais possuem várias funções. Eles protegem o corpo da água e possuem muitas funções para comunicação química, tanto intra- quanto interespecífica. Parasitoides, por exemplo, fazem uso de sinais de CHC para encontrarem seus hospedeiros, e muitas espécies, especialmente insetos sociais como abelhas e formigas, usam CHCs para reconhecer indivíduos de sua própria colônia e detectar invasores, incluindo parasitoides e parasitas de ninhada. Assim, um lobo-de-abelha poderia facilmente localizar uma vespa-cuco se esgueirando para dentro de seu ninho, mas a seleção natural fez as mudanças necessárias. A quantidade de CHCs na superfície de vespas-cucos está bem abaixo dos níveis normais na maioria dos insetos. Como resultado, seu cheiro é tão fraco que elas não conseguem ser percebidas num ninho empestado de CHCs de lobo-de-abelha.

Um espécime na Rússia. Foto e Shamal Murza.*

Uma estratégia que lobos-de-abelha parecem ter desenvolvido para reduzir os níveis de parasitismo pela vespa-cuco-avermelhada é aumentar sua atividade no fim do dia, quando a atividade das vespas-cucos é reduzida. Durante esse tempo. é mais fácil para lobos-de-abelha entrarem em seus ninhos sem serem detectados pelas vespas-cucos. Quando um lobo-de-abelha detecta uma vespa-cuco perto de seu ninho, ele a ataca ferozmente. Contudo uma vez que a vespa-cuco tenha entrado no ninho, o lobo-de-abelha é incapaz de reconhecê-la mesmo se der de cara com ela lá dentro devido à inabilidade de detectar o invasor quimicamente.

Os dois lados, é claro, sempre tentarão encontrar novas maneiras de sucederem. Afinal, a natureza é uma corrida armamentista sem fim.

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Referências:

Kroiss J, Schmitt T, Strohm E (2009) Low level of cuticular hydrocarbons in a parasitoid of a solitary digger wasp and its potential for concealment. Entomological Science 12:9–16. doi: 10.1111/j.1479-8298.2009.00300.x

Kroiss J, Strohm E, Vandenbem C, Vigneron J-P (2009) An epicuticular multilayer reflector generates the iridescent coloration in chrysidid wasps (Hymenoptera, Chrysididae). Naturwissenschaften 983–986. doi: 10.1007/s00114-009-0553-6

Strohm E, Laurien-Kehnen C, Boron S (2001) Escape from parasitism: spatial and temporal strategies of a sphecid wasp against a specialised cuckoo wasp. Oecologia 129:50–57. doi: 10.1007/s004420100702

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*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição Não Comercial 4.0 Internacional

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Sexta Selvagem: Joaninha-Vermelha

por Piter Kehoma Boll

Joaninhas são besouros famosos por seus corpos redondos e seus élitros com manchas mais ou menos circulares. Nem todas as espécies possuem manchas, no entanto, tal como Cycloneda sanguinea, a joaninha-vermelha.

Uma joaninha-vermelha macho na Flórida, EUA. Foto de Judy Gallagher.*

Ocorrendo dos Estados Unidos até a Argentina, a joaninha-vermelha é a joaninha mais disseminada na América do Sul. Seus élitros variam de laranja a vermelho intenso, enquanto o pronoto e a cabeça possuem a típica cor preta com marcas brancas que a maioria das joaninhas possui. Há uma pequena diferença entre machos e fêmeas. Os machos têm uma listra branca correndo através do meio da metade anterior do pronoto e a cabeça tem um quadrado branco na “testa”. Já as fêmea não possuem a listra branca no pronoto e possuem o quadrado branco atravessado por uma marca preta que o transforma em duas listras brancas.

Uma fêmea no Uruguai. Foto de Joaquín D.*

Após acasalar, a fêmea põe pequenos aglomerados de ovos amarelos na vegetação, os quais eclodem em larvas após cerca de 10 dias. A larva possui a típico aparência de uma larva de joaninha e o corpo em ínstares mais tardios possui uma cor cinza-escura com marcas amarelas. O tempo entre ovo e adulto varia muito dependendo da temperatura, com temperaturas mais altas acelerando o desenvolvimento. Assim, em climas quentes, a joaninha-vermelha pode ter mais de uma geração por ano.

Uma larva no México. Foto de Francisco Sarriols Sarabia.*

A joaninha-vermelha se alimenta principalmente de pulgões e, como muitas outras espécies de joaninha, é usada como controle biológico contra essas pragas em muitas plantações, como as de algodão, pinho, feijões e frutas cítricas. Ela é um predador voraz de pulgões tanto como larva quanto como adulto, e as fêmeas preferem pôr seus ovos em plantas que são infestadas por pulgões para garantir que sua prole tenha comida o bastante.

Um macho prestes a levantar voo na Califórnia, EUA. Foto do usuário ktsny do iNaturalist.*

Atualmente uma das principais ameaças à joaninha-vermelha é a joaninha-asiática, Harmonia axyridis, que foi deliberadamente introduzida em muitas áreas das Américas. Maior e mais agressiva, a joaninha-asiática exclui a joaninha-vermelha por competição, especialmente por comer seus ovos e larvas, mas também por consumir seu alimento, já que ambas possuem pulgões como presa principal.

Este é mais um exemplo de como controle biológico pode ser uma bela alternativa a espalhar veneno nas pragas, mas somente se conduzido sem introduzir um predador voraz em outro ecossistema.

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Referências:

Cardoso JT, Lázzar SMN (2003) Comparative biology of Cycloneda sanguinea (Linnaeus, 1763) and Hippodamia convergens Guérin-Méneville, 1842 (Coleoptera, Coccinellidae) focusing on the control of Cinara spp. (Hemiptera, Aphididae). Revista Brasileira de Entomologia 47(3): 443–446. doi: 10.1590/S0085-56262003000300014 

Işkıber AA (2005) Functional responses of two coccinellid predators, Scymnus levaillanti and Cycloneda sanguinea, to the cotton aphid, Aphis gossypii. Turkish Journal of Agriculture and Forestry 29: 347–355.

Michaud JP (2002) Invasion of the Florida Citrus Ecosystem by Harmonia axyridis (Coleoptera: Coccinellidae) and Asymmetric Competition with a Native Species, Cycloneda sanguinea. Environmental Entomology 31(5): 827–835. doi: 10.1603/0046-225X-31.5.827

Sarmento RA, Venzon M, Pallini A, Oliveira EE, Janssen A (2007) Use of odours by Cycloneda sanguinea to assess patch quality. Entomologia Experimentalis et Applicata 124(3): 313–318. doi: 10.1111/j.1570-7458.2007.00587.x

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Sexta Selvagem: Piolho-de-Peixe-Comum

por Piter Kehoma Boll

Como bem sabemos, os crustáceos formam o grupo de artrópodes mais diverso tanto morfológica quando ecologicamente. Um clado peculiar é o dos arguloídeos ou piolhos-de-peixe.

Como você deve deduzir pelo nome comum, piolhos-de-peixe são parasitas de peixes e eventualmente de outros vertebrados. Uma das espécies mais comuns e conhecidas é Argulus foliaceus, chamada comumente de piolho-de-peixe-comum.

O piolho-de-peixe-comum é encontrado em corpos de água doce da Europa e parasita várias espécies diferentes de peixe. Seu único alimento é sangue de peixe, de forma que ele é obrigado a procurar um hospedeiro assim que eclode do ovo. Assim que encontram um peixe, os piolhos-de-peixe se prendem firmemente à sua pele e permanecem ali a maior parte da vida, só deixando o hospedeiro para acasalar ou se o hospedeiro morre e se torna necessário encontrar um hospedeiro novo. Trutas, percas, pardelhas e esgana-gatas são hospedeiros frequentes do piolho-de-peixe-comum.

Observe alguns ovos eclodindo e as larvas que saem deles.

O primeiro e único estágio larval, chamado de metanáuplio, mede menos de 1 mm de comprimento e possui antenas e palpos longos e plumosos, mas pernas relativamente curtas. As pernas torácicas possuem garras, no entanto, e ajudam a larva a se prender no hospedeiro. No segundo estágio, já um jovem adulto, as antenas se tornam muito mais curtas, mas as pernas crescem mais, especialmente as pernas abdominais, que se tornam plumosas como as antenas costumavam ser. Daí em diante, o corpo permanece com uma forma mais ou menos constante, mas aumenta de tamanho, atingindo cerca de 6 mm no décimo primeiro estágio.

Vários piolhos-de-peixe-comuns parasitando uma truta na Dinamarca. Foto do usuário mikkel65 do iNaturalist.*

Em ambientes naturais, o número de piolhos-de-peixe-comuns por peixe é geralmente pequeno e eles não prejudicam o hospedeiro tanto assim. Contudo, em habitats confinados, como criadouros de peixe, eles podem atingir densidades altas e acabar causando uma elevada mortalidade.

Assim como muitos outros parasitas externos e outros tipos de animais sugadores de sangue, o piolho-de-peixe-comum pode servir como hospedeiro intermediário de alguns parasitas nematódeos que infectam peixes de água doce. Os estágios larvais do verme chegam ao piolho-de-peixe quando ele se alimenta de peixes infectados e permanecem em seu corpo, eventualmente infectando um novo peixe quando o crustáceo abandona seu lar atual e procura por um novo.

Assim, às vezes o maior problema que o peixe enfrenta não é o piolho-de-peixe em si, mas sim seus caroneiros.

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Mais maxilópodes:

Sexta Selvagem: Cálano-glacial (em 1 de julho de 2016)

Sexta Selvagem: Percebe-comum (em 31 de maio de 2019)

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Referências:

Harrison AJ, Gault NFS, Dick JTA (2006) Seasonal and vertical patterns of egg-laying by the freshwater fish louse Argulus foliaceus (Crustacea: Branchiura). Diseases of Aquatic Organisms 68:167–173.

Molnár K, Székely C (1998) Occurrence of skrjabillanid nematodes in fishes of Hungary and in the intermediate host, Argulus foliaceus. Acta Veterinaria Hungarica 46(4): 451-463.

Pasternak AF, Mikheev VN, Valtonen ET (2000) Life history charactheristics of Argulus foliaceus L. (Crustacea: Branchiura) populations in Central Finland. Annales Zoologici Fennici 37: 25–35.

Rushton-Mellor SK, Boxshall GA (1994) The developmental sequence of Argulus foliaceus (Crustacea: Branchiura). Journal of Natural History 28(4): 763–785. doi: 10.1080/00222939400770391

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Sexta Selvagem: Mutuca-de-Hipopótamo

por Piter Kehoma Boll

Se você já viveu no interior ou visita o interior frequentemente, deve estar ciente da existência de um grupo incômodo de moscas que mordem humanos e outros animais, as chamadas mutucas, que compõem a família Tabanidae. A espécie de hoje é membro desta família e é cientificamente conhecida como Tabanus biguttatus e comumente pode ser chamada de mutuca-de-hipopótamo.

Esta espécie é encontrada através da África e algumas áreas do Oriente Médio, sendo, aparentemente, muito mais comum no leste e no sudeste da África. Como ocorre com todas as mutucas, a mutuca-de-hipopótamo possui uma larva semiaquática que vive em áreas lamacentas. Elas são predadores ferozes e predam outros animais vivendo no mesmo habitat, tal como larvas de tipulídeos, e podem se alimentar também de animais mortos. Quando as larvas estão prestes a empupar, elas constroem um cilindro de lama, o cobrem com uma tampa circular com apenas um pequeno buraco que as permita respirar, e permanecem ali até se tornarem adultos. Esta é, aparentemente, uma estratégia para evitar dessecação.

Mutuca-de-hipopótamo macho na África do Sul. Foto de Ryan Tippett.*

Mutucas-de-hipopótamo adultas medem cerca de 2 cm de comprimento, sendo mutucas relativamente grandes, e mostram um dimorfismo sexual considerável. Como ocorre em todos os tabanídeos, os machos são menores e possuem olhos compostos maiores que as fêmeas. Os olhos dos machos são tão grandes que tocam um ao outro, cobrindo todo o topo da cabeça. Fêmeas, por outro lado, possuem olhos menores com um espaço considerável entre eles. O corpo tanto do macho quanto da fêmea é predominantemente preto. Os machos possuem duas manchas triangulares brancas no abdome enquanto as fêmeas possuem o tórax coberto de pelos que variam de branco a dourado com uma pequena mancha preta em forma de coração no meio.

Mutuca-de-hipopótamo fêmea na África do Sul. Créditos à usuária bdwright do iNaturalist.*

Mutucas-de-hipopótamo machos adultas são inofensivas e se alimentam apenas de néctar. Fêmeas, por outro lado, precisam de sangue de mamíferos para conseguirem proteína suficiente para o desenvolvimento dos ovos. Elas atacam muitas espécies de mamíferos de grande porte, incluindo humanos, gado e até cães, mas possuem uma forte preferência por hipopótamos, de onde o nome comum.

Duas mutucas-de-hipopótamo fêmeas se alimentando num facocero-do-sul (Phacochoerus africanus spp. sundevallii). Foto do usuário happyasacupake do iNaturalist.*

Mutucas-de-hipopótamo, como todos os tabanídeos, são moscas diurnas e amam locais ensolarados. Elas evitam áreas sombreadas, então animais em áreas abertas são muito mais vulneráveis. Para conseguir sangue, uma fêmea se aproxima dos animais e lhes corta a pele com suas peças bucais afiadas, fazedo-os sangrarem e lambendo o sangue. A mordida é muito dolorida, como você deve saber se já foi picado por uma mutuca. Se não é perturbada, a mosca pode ficar até três minutos bebendo sangue.

Close das duas moscas nas costas do facocero. Foto do usuário happyasacupake do iNaturalist.*

A atividade de beber sangue das mutucas-de-hipopótamo fêmeas, e de tabanídeos em geral, as torna prováveis vetores mecânicos de alguns parasitas, incluindo espécies do gênero de flagelados Tripanossoma, bem como Bacillus anthracis, a bactéria que causa o antraz, uma doença consideravelmente comum em hipopótamos.

Mutucas-de-hipopótamo são um incômodo tão grande para hipopótamos que o comportamento deles é altamente afetado pela presença das moscas, muito mais que presença de qualquer predador de grande porte. Muitas vezes os hipopótamos permanecem na água unicamente para se livrarem destes insetos irritantes.

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Mais dípteros:

Sexta Selvagem: Mosca-doméstica (em 12 de outubro de 2012)

Sexta Selvagem: Mosca-abelha-fofa (em 29 de julho de 2016)

Sexta Selvagem: Mosquinha-do-banheiro (em 5 de abril de 2019)

Sexta Selvagem: Mosquito-de-remo-azul (em 27 de setembro de 2019)

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Referências:

Callan EM (1980) Larval feeding habits of Tabanus biguttatus and Amanella emergens in South Africa (Diptera: Tabanidae). Revue de Zoologie Africaine 94(4): 791-794.

Tinley KL (2009) Some observations on certain tabanid flies in North-Eastern Zululand (Diptera: Tabanidae). Proceedings of the Royal Entomological Society of London. Series A, General Entomology, 39(4-6), 73–75. doi: 10.1111/j.1365-3032.1964.tb00789.x

Tremlett JG (2009) Mud cylinders formed by larvae of Tabanus biguttatus Wied. (Diptera: Tabanidae) in Kenya. Proceedings of the Royal Entomological Society of London. Series A, General Entomology, 39(1-3), 23–24. doi: 10.1111/j.1365-3032.1964.tb00779.x

Wiesenhütter E (1975) Research into the relative importance of Tabanidae (Diptera) in mechanical disease transmission. Journal of Natural History, 9(4), 385–392. doi: 10.1080/00222937500770281 

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Sexta Selvagem: Aranha-florinda

por Piter Kehoma Boll

Há muitos grupos de aranhas que são bem conhecidos pelo público em geral, como caranguejeiras, papa-moscas, aranhas-lobo, tecedoras de teias orbiculares… mas um grupo com um número muito grande de espécies, a família Linyphiidae, geralmente passa despercebido.

Aranhas da família Linyphiidae são comumente conhecidas como aranhas-anãs ou tecedoras de lençóis pelo formato de suas teias. Uma espécie comum no leste dos Estados Unidos, especialmente no sudeste, é Florinda coccinea. Conhecida em inglês como black-tailed red sheetweaver, não possui nome popular em português, então decidi chamá-la simplesmente de aranha-florinda. Tendo apenas de 3 a 4 mm de comprimento, a aranha-florinda possui um corpo vermelho e uma pontinha preta no abdome. As pernas são marrom-avermelhadas a pretas.

Aranha-florinda fêmea no Mississipi, EUA. Foto de Tiffany Stone.*

Machos e fêmeas são muito similares em tamanho, com os machos sendo apenas ligeiramente menores. Os sexos podem ser facilmente distinguidos pelo abdome e pelos pedipalpos como na maioria das aranhas. As fêmeas possuem pedipalpos menores e um abdome mais arredondado, enquanto machos possuem pedipalpos com uma expansão redonda na ponta e abdome mais esbelto.

Um macho na Flórida. Foto do usuário rsnyder11 do iNaturalist.*

A teia da aranha-florinda, como a de outras tecedoras de lençol, consiste de um lençol horizontal com alguns fios adicionais por cima. Insetos voadores, quando colidem com os fios, caem no lençol e são capturados pela aranha.

Aspecto típico da teia da aranha-florinda como vista em campo, aqui coberta de gotículas de orvalho. Foto do usuário ndrobinson do iNaturalist.**

O comportamento de acasalamento da aranha-florinda começa com o macho entrando na teia da fêmea. Ele geralmente corta fora parte da teia da fêmea e deposita teia nova no mesmo lugar. Depois disso, ele se aproxima da fêmea, toca todas as pernas dela com seu par de pernas anteriores e aí começa a pseudocópula, na qual introduz os tubos de seus pedipalpos na genitália da fêmea, mas, como eles ainda estão vazios, a cópula não pode acontecer. Após algum tempo nessa brincadeira, o macho constrói uma pequena teia triangular e deposita uma gota de esperma nela. Ele então coleta o esperma com seus pedipalpos e se aproxima da fêmea mais uma vez, dessa vez fecundando-a pra valer.

De novo, a ecologia e a história de vida da aranha-florinda não são bem estudadas. E o mesmo vale para quase todas as espécies da família Linyphiidae, mesmo sendo a segunda maior família de aranhas no planeta. Elas são pequeninas demais para que a maioria de nós se importe.

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Referências:

Robertson MW, Adler PH (1994) Mating behavior of Florinda coccinea (Hentz) (Araneae: Linyphiidae). Journal of Insect Behavior 7(3): 313–326. doi: 10.1007/BF01989738

Wikipedia. Blacktailed red sheetweaver. Disponível em < https://en.wikipedia.org/wiki/Blacktailed_red_sheetweaver >. Acesso em 23 de outubro de 2019.

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*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição Não Comercial e Compartilhamento Igual 4.0 Internacional.

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Sexta Selvagem: Gota-de-Cereja

por Piter Kehoma Boll

Borboletas e mariposas, os insetos que formam a ordem Lepidoptera, possuem uma relação de amor e ódio com plantas que dão flores já que suas lagartas se alimentam ferozmente de tecidos vegetais, mas os adultos são importantes polinizadores.

Na África Subsaariana, dos Camarões à África do Sul, um lepidóptero relativamente comum é Diaphone eumela, conhecido em inglês como cherry spot. Pela falta de um termo em português, decidi cunhar o nome gota-de-cereja. Esta espécie pertence à família Noctuidae, uma das famílias mais diversas de mariposas.

Uma lagarta com a cor típica. Foto de Felix Riegel.*

As lagartas se alimentam de várias plantas da família Amaryllidaceae e possuem uma cor de fundo que varia de amarelo a verde-claro. Cada segmento do corpo possui algumas manchas laranja-claras circundadas e conectadas por uma área preta, formando uma série de anéis irregulares. A cabeça é laranja e as manchas laranjas no primeiro segmento torácico e no último segmento abdominal são mais escuras que no resto do corpo.

Quando é hora de empupar, a lagarta se enterra no solo e faz um casulo, dentro do qual faz a muda e se torna uma pupa marrom. Cerca de três semanas mais tarde a pupa se transforma em adulto.

Uma lagarta prestes a se tornar uma pupa dentro do casulo (esquerda) e duas pupas (direita). Foto de Sally Adam.*

O adulto é uma criatura linda. O tórax é coberto de pelos cinzentos com seis manchas amarelas. As asas anteriores possuem um fundo cinza e branco e três linhas pretas transversais através delas. Conectada à linha mais posterior há uma mancha vermelha com um tom cereja, de onde o nome comum. Ao longo da borda externa das asas, há uma linha amarela interrompida por projeções cinzas da cor de fundo. As asas posteriores, frequentemente escondidas sob as asas anteriores, são inteiramente brancas e o abdome, também escondido a maior parte do tempo, possui anéis amarelos e pretos reminiscentes da lagarta.

Um belo adulto. Foto de Sally Adam.*

Não consegui encontrar muita informação sobre a história de vida desta espécie. Pela análise de fotografias no iNaturalist, os adultos parecem emergir entre agosto e dezembro. As fêmeas tendem a pôr ovos em plantas cujas flores estão começando a se abrir e as lagartas mais jovens se alimentam preferencialmente de botões de flor. Lagartas mais velhas, por outro lado, se alimentam principalmente dos frutos produzidos pelas flores que elas não devoraram quando eram mais jovens.

Apesar de linda e conspícua, a gota-de-cerveja ainda é rodeada de muitos mistérios. Só precisamos de alguém interessado em estudá-los.

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Referências:

Stirton CH (1976) Thuranthos: notes on generic status, morphology, phenology and pollination biology.African Biodiversity & Conservation 12(1): a1389. doi: 10.4102/abc.v12i1.1389

Wikipedia. Diaphone eumela. Disponível em < https://en.wikipedia.org/wiki/Diaphone_eumela >. Acesso em 22 de outubro de 2019.

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Sexta Selvagem: Pulga-D’água-Comum

por Piter Kehoma Boll

Às vezes apenas uma gota de água de um lago pode conter vários organismos do plâncton que vive próximo à superfície. E um grupo comum no plâncton de água doce é a ordem de crustáceos Cladocera, conhecidos como pulgas-d’água. A espécie mais comum e disseminada é Daphnia pulex, ou pulga-d’água-comum.

Com uma distribuição a nível global e medindo cerca de 3 mm de comprimento, a pulga-d’água-comum possui um corpo típico de uma pulga-d’água. Ela geralmente é transparente e a cabeça é pequena e lisa, com dois olhos pretos facilmente visíveis e um par de segundas antenas bem desenvolvido que é usado para natação, sendo o maior par de apêndices. O tórax e o abdome são fundidos e rodeados por uma concha transparente e meio oval, fazendo a pulga-d’água-comum se parecer com uma criatura barrigudinha. A concha tem uma ponta posterior que se parece com uma cauda pontuda. As pernas torácicas, mais difíceis de distinguir por causa da carapaça, são menores que o par de segundas antenas e são usadas para criar uma corrente d’água que traz comida para a boca.

Jeitão típico de uma pulga-d’água-comum. O olho esquerdo pode ser visto como uma grande mancha preta na cabeça, o intestino é o longo tubo esverdeado e há alguns ovos atrás ele. As longas segundas antenas fazem a pulga-d’água-comum parecer estar tentando hipnotizar alguém com aquele gesto clichê de esticar os braços e balançar os dedos. Foto de Paul Hebert.*

O alimento consiste principalmente de algas e outros organismos pequenos, como bactérias, bem como fragmentos orgânicos. A pulga-d’água-comum é, portanto, um animal filtrador. Seus predadores incluem invertebrados, como artrópodes predadores, e pequenos vertebrados, como alguns peixes.

A pulga-d’água-comum é considerada um organismo modelo e tem sido estudada extensivamente em relação a vários aspectos biológicos, incluindo, por exemplo, estequiometria ecológica, que investiga a resposta de organismos a mudanças na disponibilidade de recursos. A resposta da pulga-d’água a predadores também tem sido bastante estudada e revelou, por exemplo, que ela pode aumentar de tamanho na presença de predadores invertebrados, de modo a ficar grande demais para ser comida, ou diminuir de tamanho na presença de predadores vertebrados, de forma a ficar pequena demais para ser vista. A pulga-d’água-comum também pode desenvolver estruturas especiais na presença de predadores específicos, tal como protrusões na cabeça na presença de vermes-de-vidro.

Pulga-d’água-comum no Canadá. Foto do usuário millsy3 do iNaturalist.**

O ciclo reprodutivo da pulga-d’água-comum é outro aspecto bem estudado. Como na maioria das espécies de Daphnia, a pulga-d’água-comum se reproduz por partenogênese cíclica. A maioria da população é formada de fêmeas e, durante a estação de crescimento, as fêmeas produzem ovos diploides (que são clones da mãe) toda vez que fazem a muda do exoesqueleto. Os ovos eclodem muito rapidamente, geralmente após apenas um dia, mas as pulgas-d’água recém-eclodidas permanecem dentro da mãe por cerca de três dias antes de serem liberadas. Após passarem por cerca de 5 ínstares, elas podem começar a produzir seus próprios ovos.

Quando as condições ambientais se tornam difíceis, a segunda forma de reprodução é ativada. Parte da prole produzida por partenogênese se transforma em machos e as fêmeas começam a produzir ovos haploides, que são então fertilizados pelos machos e se transformam em ovos de resistência com uma capa endurecida chamados de efípios. Um efípio pode permanecer no ambiente por muitos anos, suportando frio, seca ou ausência de alimento, e eles eclodem, produzindo fêmeas, quando as condições melhoram.

A pulga-d’água-comum foi a primeira espécie de crustáceo a ter seu genoma sequenciado. Isso revelou que esta espécie contém cerca de 31 mil genes devido a uma taxa elevada de duplicação gênica. Isso é cerca de dez mil genes a mais do que humanos possuem e é a razão de a pulga-d’água-comum ter uma capacidade tão incrível de se adaptar a mudanças ambientais.

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Mais organismos-modelo:

Sexta Selvagem: Sensitiva (em 19 de abril de 2013)

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Referências:

Colbourne JK, Pfrender ME, Gilbert D, et al. (2011) The ecoresponsive genome of Daphnia pulex. Science 331: 555–561. doi: 10.1126/science.1197761

Krueger DA, Dodson SI (1981) Embryological induction and predation ecology in Daphnia pulex. Limnology and Oceanography 26(2): 219–223. doi: 10.4319/lo.1981.26.2.0219

Tollrian R (1995) Predator‐Induced Morphological Defenses: Costs, Life History Shifts, and Maternal Effects in Daphnia pulex. Ecology 76(6): 1691–1705. doi: 10.2307/1940703

Wikipedia. Daphnia pulex. Disponível em < https://en.wikipedia.org/wiki/Daphnia_pulex >. Acesso em 22 de outubro de 2019.

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*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição 2.5 Genérica.

**Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição Não Comercial 4.0 Internacional

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