Arquivo da tag: fatos

Sexta Selvagem: Lepidodermela-escamosa

por Piter Kehoma Boll

Do mais longo animal visto semana passada, hoje veremos um dos mais curtos. Medindo apenas 190 µm de comprimento, nossa camarada é chamada de Lepidodermella squamata, que eu transformei num nome “comum” como lepidodermela-escamosa.

797px-lepidodermella_squamatum

Um espécie de Lepidodermella squamata. Foto de Giuseppe Vago.*

A lepidodermela-escamosa pertence ao filo Gastrotricha, comumente conhecidos em inglês como hairybacks, traduzido como “costas-peludas”, que são todos microscópicos e distribuídos pelo mundo todo em ambientes aquáticos. Encontrada em ambientes de água doce do mundo todo, a lepidodermela-escamosa tem o tronco coberto de escamas, de onde o nome. Ela se alimenta de outros organismos pequenos, como algas, bactérias e leveduras, além de detritos.

Um dos aspectos mais interessantes da biologia da lepidodermela-escamosa é sua reprodução. Apesar de ser hermafrodita, esta espécie geralmente só produz quatro ovos durante a vida e esses se desenvolvem sem fertilização. Isso significa que a reprodução é partenogenética. Contudo, estranhamente, os indivíduos se tornam sexualmente maduros depois de porem os quatro ovos, produzindo esperma e às vezes pondo ovos adicionais, mas a maioria desses nunca eclode e, quando eclodem, produzem prole que raramente se torna adulta. A reprodução sexuada, portanto, seria teoricamente possível, mas nunca foi observada e não há formas conhecidas pelo qual o esperma poderia ser transferido de um indivíduo para o outro.

Esse desenvolvimento sexual tardio pode então não ser nada além de um vestígio do passado sexual. Talvez em futuras gerações esses traços desapareçam e não sobrará nada além da reprodução partenogenética.

– – –

Referências:

Hummon, M. R. (1984) Reproduction and sexual development in a freshwater gastrotrich 1. Oogenesis of parthenogenetic eggs (Gastrotricha). Zoomorphology 104(1): 33–41. https://dx.doi.org/10.1007/BF00312169

Hummon, M. R. (1986) Reproduction and sexual development in a freshwater gastrotrich 4. Life history traits and the possibility of sexual reproduction. Transactions of the American Microscopical Society 105(1): 97–109. https://dx.doi.org/10.2307/3226382

Wikipedia. Lepidodermella squamata. Disponível em <https://en.wikipedia.org/wiki/Lepidodermella_squamata&gt;. Acesso em 3 de setembro de 2017.

– – –

*Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição 2.0 Genérica.

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Sexta Selvagem, vermes, Zoologia

Sexta Selvagem: Verme-Cordão-de-Bota

por Piter Kehoma Boll

Há muito tempo eu apresentei alguns dos extremos do mundo animal, incluindo o maior, o mais fofo e o mais pernudo. Agora é hora de apresentar outro extremo: o mais longo. E este animal é tão longo que parece impossível. Seu nome: Lineus longissimus, popularmente conhecido como verme-cordão-de-bota. Seu comprimento: até 55 metros.

lossless-page1-399px-nemertean_lineus_longissimus-tif

Um verme-cordão-de-bota emaranhado. Foto de Bruno C. Vellutini.*

O verme-cordão-de-bota é um membro do filo Nemertea, comumente conhecidos como nemertíneos ou, em inglês, ribbon worms, algo como vermes-fita-de-laço. Encontrado ao longo da costa do Oceano Atlântico na Europa, o verme-cordão-de-bota passa a maior parte do tempo contraído, formando o que parece um amontoado de fios de lã emaranhados que não tem mais do que 30 cm de um lado ao outro. Apesar de haver registros de vermes medindo mais de 50 m, a maioria é muito menor, com 30 m já sendo um tamanho bem grande. Sua largura é de cerca de 0.5 cm, de forma que ele é quase literalmente um cordão marrom comprido.

large

Lineus longissimus fotografado na Noruega. Foto de Guido Schmitz.**

Como todos os nemertíneos, o verme-cordão-de-bota é um predador e caça sua presa entre as rochas de praias arenosas, atordoando-as com sua longa probóscide venenosa e  então engolindo-os inteiros. Macio e frágil, o verme-cordão-de-bota não tem como se proteger de predadores usando uma defesa física, mas é conhecido por ter uma série de toxinas diferentes na epiderme, incluindo algumas similares ao veneno mortal do baiacu, a tetrodotoxina (TTX), que é produzida por bactérias vivendo no muco que envolve o corpo do verme.

Agora, antes de partir, dê uma olhada nesse vídeo de um verme-cordão-de-bota engolindo um poliqueto:

– – –

Referências:

Cantell, C.-E. (1976) Complementary description of the morphology of Lineus longissimus (Gunnerus, 1770) with some remarks on the cutis layer in heteronemertines. Zoologica Scripta 5:117–120. https://dx.doi.org/10.1111/j.1463-6409.1976.tb00688.x

Carroll, S.; McEvoy, E. G.; Gibson, R. (2003) The production of tetrodotoxin-like substances by nemertean worms in conjunction with bacteria. Journal of Experimental Marine Biology and Ecology 288: 51–63. https://dx.doi.org/10.1016/S0022-0981(02)00595-6

Gittenberger, A.; Schipper, C. (2008) Long live Linnaeus, Lineus longissimus (Gunnerus, 1770) (Vermes: Nemertea: Anopla: Heteronemertea: Lineidae), the longest animal worldwide and its relatives occurring in The Netherlands. Zoologische Mededelingen. Leiden 82: 59–63.

– – –

*Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 3.0 Não Adaptada.

**Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição Não Comercial e Compartilhamento Igual 4.0 Internacional.

Deixe um comentário

Arquivado em Sexta Selvagem, vermes

Sexta Selvagem: Diatomácea-navio-lira

por Piter Kehoma Boll

É hora da nossa próxima diatomácea e, assim como com o radiolário da semana passada, é uma tarefa difícil encontrar boas imagens e boas informações de qualquer espécie para apresentar aqui.

Hoje vou apresentar uma espécie do gênero mais diverso (eu acho, ou ao menos um dos mais diversos) de diatomáceas, Navicula, um nome que significa “naviozinho” em latim devido ao formato das células. Há mais de 1200 espécies no gênero, e uma delas é chamada Navicula lyra, que eu decidi chamar de diatomácea-navio-lira. Também a encontrei com o nome Lyrella lyra, sendo a espécie-tipo de um gênero Lyrella (lirazinha) que foi separado de Navicula. Eu não sei qual é a forma oficial hoje em dia, mas parece que Lyrella às vezes é algo como um subgênero de Navicula, apesar de algumas vezes os dois gêneros não estarem nem na mesma família!

navicula_lyra

Navicula lyra, um naviozinho-lira. Foto de Patrice Duros.*

Enfim, a diatomácea-navio-lira é uma espécie planctônica que é encontrada em oceanos do mundo, estando presente em listas de espécies de todos os lugares. Ela mede cerca de 100 µm ou menos, um tamanho típico para uma diatomácea.

Como com outras diatomáceas nos gêneros NaviculaLyrella, a diatomácea-navio-lira possui diferentes variedades, que poderão eventualmente se revelarem espécies distintas, eu acho. Veja, por exemplo, a variedade constricta mostrada abaixo. Ela parece consideravelmente diferente da imagem acima, a qual aprece ser da variedade-tipo.

navicula_lyra

Lyrella lyra var. constricta. Extraído de Siqueiros-Beltrones et al. (2017)

Apesar de ser uma espécie amplamente disseminada, pouco parece ser conhecido da história natural da diatomácea-navio-lira. Você não está interessado em estudar a ecologia desses pequeninos barcos de vidro?

– – –

Referências:

Nevrova, E.; Witkowski, A.; Kulikovskiy, M.; Lange-Bertalot, H.; Kociolek, J. P. (2013) A revision of the diatom genus Lyrella Karayeva (Bacillariophyta: Lyrellaceae) from the Black Sea, with descriptions of five new species. Phytotaxa 83(1): 1–38.

Siqueiros-Beltrones, D. A.; Argumedo-Hernández, U.; López-Fuerte, F. O. (2017) New records and combinations of Lyrella (Bacillariophyceae: Lyrellales) from a protected coastal lagoon of the northwestern Mexican Pacific. Revista Mexicana de Biodiversidad 88(1): 1–20.

– – –

*Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição Não Comercial Sem Derivações 2.0 Genérica.

Deixe um comentário

Arquivado em Algas, protistas, Sexta Selvagem

Sexta Selvagem: Radiolário-esponja-de-espinhos-torcidos

por Piter Kehoma Boll

É hora do nosso próximo radiolário. Como de costume, é difícil encontrar boas informações de qualquer espécie. (Se você trabalha com radiolários e tem boas fontes disponíveis e espécies legais para sugerir, por favor, nos contate!)

É difícil encontrar imagens de radiolários vivos, especialmente aqueles identificados a nível específico, mas um que encontrei pode ser visto abaixo e é chamado Spongosphaera streptacantha, ou o radiolário-esponja-de-espinhos-torcidos, como eu decidi chamá-los.

4xspongospaerastreptacantha2014oct27

Uma bela foto de uma Spongosphaera streptacantha viva. Extraído de Galerie de l’Observatoire Océanologique de Villefranche-sur-Mer.

O radiolário-esponja-de-espinhos-torcidos é encontrado em águas quentes dos oceanos Atlântico e Pacífico (talvez do Índico também?) e, como pode-se ver, pode ter um diâmetro de mais de 1 mm se contarmos os espinhos mais longos. Como com a maioria dos radiolários, a célula desta espécie tem duas conchas concêntricas e um conjunto de espinhos que ocorrem num número de 6 a 15.

O alimento do radiolário-esponja-de-espinhos-torcidos consiste de organismos menores, como bactérias e algas, que ele captura com seus longos pseudópodes em forma de bastão chamados actinópodes.

Como com a maioria dos radiolários, o radiolário-esponja-de-espinhos-torcidos é pouco estudado em relação à sua ecologia. Esperemos que mais pessoas se interessem em estudar este fascinante grupo de organismos.

– – –

Referências:

Kurihara, T.; Matsuoka, A. (2004) Shell structure and morphological variation in Spongosphaera streptacanthaHaeckel (Spumellaria, Radiolaria). Science Reports of Niigata University (Geology), 19: 35–48. http://hdl.handle.net/10191/2141

Matsuoka, A. (2007) Living radiolarian feeding mechanisms: new light on past marine ecosystems. Swiss Journal of Geosciences, 100: 273-279. https://dx.doi.org/10.1007/s00015-007-1228-y

Radiolaria.org: Spongosphaera streptacantha. Disponível em: < http://www.radiolaria.org/species.htm?sp_id=90 >. Acesso em 8 de agosto de 2017.

Deixe um comentário

Arquivado em protistas, Sexta Selvagem

Sexta Selvagem: Mancha-marrom-do-milho

por Piter Kehoma Boll

Hoje continuarei a tendência parasita da semana passada, mas dessa vez trocando de um parasita de humanos para um parasita do milho, e de um parasita procarionte para um eucarionte. Então vamos falar de Physoderma maydis, comumente chamado de mancha-marrom-do-milho.

A mancha-marrom-do-milho é um fungo da divisão Blastocladiomycota que infecta as plantas do milho. Seu nome comum vem do fato de causar uma série de manchas marrons nas folhas das plantas infectadas.

1234218

As manchas marrons vistas nesta folha de milho são devido a uma infecção por Physoderma maydis. Créditos da foto a Clemson University – USDA Comparative Extension Slide Series.*

O ciclo de vida da mancha-marrom-do-milho é tão complexo quanto o de muitos fungos. A infecção das plantas ocorre através de esporos que ficam no solo durante o inverno e são carregados para o hospedeiro pelo vento, germinando na estação chuvosa. Os esporos germinados produzem zoósporos, esporos flagelados capazes de nadar. Nadando através da folha de milho, os zoósporos infectam células isoladas e produzem zoosporângios na superfície da folha. Os zoosporângios liberam novos zoósporos que infectam novas células. No final da primavera e no versão, os zoósporos produzem um falo que cresce para dentro da folha do milho, infectando muitas células e produzindo esporângios de parede espessa. Depois que a planta morre e as folhas se tornam secas e quebram, os esporângios são liberados e atingem o solo, onde esperam pela próxima primavera para reiniciar o ciclo.

A mancha-marrom-do-milho é considerada um problema para plantações de milho em países com pluviosidade alta. Infecções graves podem matar a planta ou reduzir severamente seu desempenho antes de as espigas estarem prontas para a colheita. Apesar de fungicidas ajudarem a reduzir a infecção através das plantações, uma das formas mais eficientes de reduzir os danos é destruindo, geralmente com fogo, os restos da colheita anterior.

– – –

Referências:

Olson, L. W.; Lange, L. (1978) The meiospore of Physoderma maydis. The causal agent of Physoderma disease of maize. Protoplasma 97: 275–290. https://dx.doi.org/10.1007/BF01276699

Plantwise Knowledge Bank. Brown spot of corn (Physoderma maydis). Available at: < http://www.plantwise.org/KnowledgeBank/Datasheet.aspx?dsid=40770&gt;. Access on Agust 7, 2017.

Robertson, A. E. (2015) Physoderma brown spot and stalk rot. Integrated Crop Management News: 679. http://lib.dr.iastate.edu/cropnews/679/

– – –

*Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição 3.0 Não Adaptada.

Deixe um comentário

Arquivado em Doenças, Fungos, Sexta Selvagem

Sexta Selvagem: H. pylori

por Piter Kehoma Boll

Já apresentei três espécies de bactéria aqui, todas de vida livre ou amiguinhas. Mas todos sabemos que muitas bactérias podem ser um verdadeiro incômodo para nós, humanos, então é hora de mostrar algumas dessas, certo?

Eu decidi começar com uma que eu pensei estar vivendo dentro de mim algum tempo atrás (mas no fim não estava), e esta é a temperamental Helicobacter pylori, que como sempre não tem nome comum, mas ela é comumente chamada de H. pylori pelos médicos, então vou chamá-la assim.

empylori

Micrografia eletrônica de um espécie de H. pylori mostrando os flagelos.

O lugar mais comum para se encontrar a H. pylori é dentro do estômago. Estima-se que mais da metade da população humana tenha essa bactéria vivendo em seu trato gastrointestinal, mas na maioria das vezes isso não afeta sua vida em nada. No entanto algumas vezes as coisas podem ficar feias.

H. pylori é uma bactéria de 3 µm de comprimento com o formato de um bastão retorcido, de onde o nome Helicobacteri, significando “bastão hélice”. Ela também tem um conjunto de quatro a seis flagelos em uma de suas extremidades, o que a faz uma bactéria muito móvel. Pensa-se que o formato torcido, junto com os flagelos, é útil para a H. pylori penetrar o revestimento de muco do estômago. Ela faz isso para escapar do ambiente extremamente ácido no estômago, sempre penetrando em direção a um lugar menos ácido, eventualmente chegando ao epitélio do estômago e às vezes até vivendo dentro das células epiteliais.

De maneira a evitar ainda mais os ácidos, a H. pylori produz grandes quantidades de urease, uma enzima que digere a ureia no estômago, produzindo amônia, a qual é tóxica para humanos. A presença de H. pylori no estômago pode levar a inflamação como uma resposta imune do hospedeiro, o que aumenta as chances das membranas mucosas do estômago e do duodeno serem prejudicadas pelos fortes ácidos, levando a gastrite e eventualmente úlceras.

A associação entre humanos e H. pylori parece ser bem velha, possivelmente tão velha quanto a espécie humana em si, pois suas origens foram traçadas até a África Oriental, o berço do Homo sapiens. Esta bactéria é, portanto, um velho amigo e rival e provavelmente continuará conosco por muitos e muitos anos no futuro.

– – –

Referências:

Linz, B.; Balloux, F.; Moodley, Y. et al. (2007) An African origin for the intimate association between humans and Helicobacter pyloriNature 445: 915–918. https://dx.doi.org/10.1038/nature0556

Wikipedia. Helicobacter pylori. Disponível em < https://en.wikipedia.org/wiki/Helicobacter_pylori >. Acesso em 5 de agsto de 2017.

Deixe um comentário

Arquivado em Bactérias, Parasitas, Sexta Selvagem, Uncategorized

A Planaria elegans de Darwin: escondida, extinta ou mal identificada?

por Piter Kehoma Boll

Durante sua viagem épica no Beagle, Charles Darwin visitou o Rio de Janeiro, no Brasil, e coletou algumas incríveis planárias terrestres, um grupo que até então era muito pouco conhecido. Uma das espécies que ele encontrou foi Geoplana vaginuloides, a espécie-tipo do gênero Geoplana, na época chamada Planaria vaginuloides.

f6387-vaginuloides-pedrabranca40

Geoplana vaginuloides (Darwin, 1844), a primeira espécie de planária terrestre brasileira a ser descrita. Foto de Fernando Carbayo.*

A segunda espécie descrita por Darwin foi chamada Planaria elegans. A descrição de Darwin é como segue (traduzida do original em inglês):

“Posição dos orifícios como em P. vaginuloides. Parte anterior do corpo pouco alongada. Ocelos ausentes na extremidade anterior, e somente alguns poucos ao redor da margem do pé. Cores belas; dorso branco-neve, com duas linhas aproximadas de marrom-avermelhado; próximo dos lados com várias linhas finas paralelas do mesmo tom; pé branco, exteriormente marcado, junto com a margem do pé, com roxo-enegrecido-pálido: corpo cruzado por três anéis sem cor, nos dois posteriores se situam os orifícios. Comprimento 1 polegada; largura mais uniforme, e maior em proporção ao comprimento do corpo que na última espécie.
Hab. O mesmo que em P. vaginuloides. [Rio de Janeiro]”

E isso é tudo que sabemos desta espécie. Darwin não forneceu nenhum desenho e pesquisadores posteriores não registraram a espécie novamente, exceto quando mencionando a publicação de Darwin. Como você pode ver pela descrição, ela não é muito acurada. Ele não diz qual é a largura de cada linha ou banda, nem quantas as “várias linhas finas paralelas do mesmo tom” há. Aqui está um rápido desenho que eu fiz de como eu imagino que a criatura seria:

planaria_elegans-e1504825786935

Minha ideia de com o que a Planaria elegans de Darwin deve ter se parecido. Cabeça para a esquerda. Créditos para mim mesmo, Piter Kehoma Boll.**

Em 1938, Albert Riester descreveu uma planária terrestre de Barreira, um distrito na cidade de Teresópolis, Rio de Janeiro, chamando-a Geoplana barreirana. Ele a descreveu como segue (traduzido do original em alemão):

“Planária terrestre encontrada sobre uma folha depois de uma chuva; maior comprimento ca. 20 mm. Meio do dorso branco com duas finas estrias paralelas roxo-vermelhas (atropurpúreo claro). Do lado de fora do branco também limitado por vermelho pálido, então segue (de cada lado) uma faixa preta e lateralmente um padrão marmorado marrom-preto sobre um fundo marrom. A listra do meio termina na [extremidade] posterior. Cabeça manchada, marcada por faixas transversais manchadas (regenerado?). Lado inferior cinza, bordeado de marrom-preto. Extremidade anterior é arqueada para trás.”

Felizmente, Riester forneceu um desenho, o qual você pode ver abaixo:

barreirana_barreirana_riester

Geoplana barreirana desenhada por Riester (1938).

Elas se parecem um pouco, certo? Felizmente Geoplana barreirana (atualmente chamada Barreirana barreirana) foi encontrada por pesquisadores posteriores e temos fotografias! Veja um espécime abaixo:

f6284_barreiranatijuca3

Um espécime de Barreirana barreirana encontrado no Parque Nacional da Tijuca, Rio de Janeiro. Foto de Fernando Carbayo.*

Riester não descreveu nenhuma marca transversal em seus espécimes, mas ele pode tê-los confundido com perda de cor em espécies preservados ou algo assim. Fora isso o espécime é muito similar ao desenho de Riester, e a anatomia interna, a qual Riester forneceu também, é compatível.

Agora vamos tentar encaixar a descrição de Darwin de Planaria elegans nessa fotografia. Fundo branco, duas listras marrom-avermelhas e várias listras finas paralelas do mesmo tom. Ele provavelmente descreveu os animais a partir de espécimes preservados, mesmo tendo-os visto vivos e os coletado. Talvez as cores já estivessem um pouco apagadas e as listras pretas, que internamente tocam duas das listras avermelhadas, possam ter sido consideradas uma única listra vermelho-roxa? Não fica claro, na sua descrição, se há branco entre as linhas marrom-avermelhadas e os lados de “roxo-enegrecido pálido”, como eu fiz no desenho, ou não, como em Barreirana barreirana, mas certamente os lados cinza-escuros de B. barreirana poderia ser o mesmo que os lados roxo-enegrecido pálidos de Planaria elegans, não acha? E B. barreirana TEM três “anéis” brancos cruzado no corpo. Você pode ver o primeiro e o segundo bem claramente no espécime acima. O terceiro não é muito bem marcado, mas você pode ver uma terceira marca branca interrompendo os lados cinzas. E as segunda e quase terceira marcadas parecem estar bem onde se esperariam estar os dois orifícios (boca e gonóporo) da planária!

E quanto ao lado ventral?  Darwin descreveu o de P. elegans como sendo branco com borda roxo-enegrecida pálida como os lados do dorso. Riester descreveu o de G. barreirana como sendo cinza bordeado de marrom-preto. Aqui está o lado ventral de Barreirana barreirana:

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

Lado ventral de Barreirana barreirana do Parque Nacional da Tijuca, Rio de Janeiro. Foto de Fernando Carbayo.*

É branco, ou cinza-claro talvez, e as bordas são da mesma cor dos lados do dorso!

Eu acho que é muito, muito provável que a Planaria elegans de Darwin e a Geoplana barreirana de Riester sejam a mesma espécie. O fato de ninguém mais além de Darwin jamais ter visto um espécime de P. elegans torna isso ainda mais provável.

O que você acha?

– – –

Veja também:

A fabulosa aventura taxonômica do gênero Geoplana.

– – –

Referências:

Darwin, C. (1844) Brief Description of several Terrestrial Planariae, and of some remarkable Marine Species, with an Account of their Habits. Annals and Magazine of Natural History 14, 241–251.

Riester, A. (1938) Beiträge zur Geoplaniden-Fauna Brasiliens. Abhandlungen der senkenbergischen naturforschenden Gesellschaft 441, 1–88.

– – –

*Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição Não Comercial 3.0 Não Adaptada.

**Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 4.0 Internacional.

Deixe um comentário

Arquivado em Criptídeos, Extinção, Taxonomia, vermes, Zoologia