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Sexta Selvagem: Figueira-Lacerdinha

por Piter Kehoma Boll

Com a postagem de hoje, pretendo começar uma série de três Sextas Selvagens que estão conectadas. Afinal, isso é o que a vida é, não é? Organismos interagindo.

Então para começar, vamos falar hoje sobre uma magnífica árvore, a figueira Ficus microcarpa, comumente conhecida como figueira-lacerdinha, baniano-malaio, gajumaru e muitos outros nomes. Ela ocorre nativamente da China até a Austrália, incluindo todo o sudeste da Ásia e várias ilhas do Pacífico no caminho. Contudo, ela pode ser encontrada em muitos outros países hoje porque se tornou uma planta ornamental um tanto popular.

Uma figueira-lacerdinha no Jardim Botânico de Maui Nui, Havaí. Foto de Forest & Kim Starr.*

Em seu hábitat natural, a figueira-lacerdinha atinge 30 metros de altura ou mais, com uma copa que se espalha por mais de 70 metros e um tronco com mais de 8 metros de espessura. A maioria das árvores são menores, no entanto, e nunca atingem tamanhos tão impressionantes em climas temperados. Sua casca possui uma cor cinza-clara e as folhas são lisas, inteiras e oblanceoladas, com 5 a 6 cm de comprimento. Os figos são consideravelmente pequenos, de onde o nome microcarpa (com frutos pequenos). É comum que espécimes grandes produzam raízes aéreas, que crescem dos galhos e tocam o solo, formando um sistema intrincado e belo.

Um espécime com várias raízes aéreas. Foto de Forest & Kim Starr.*

Como é típico entre figueiras, a figueira-lacerdinha é polinizada por uma vespa-do-figo, neste caso da espécie Eupristina verticillata. Fora de sua área nativa, a árvore só consegue produzir sementes viáveis na presença da vespa, de forma que o inseto precisa ser introduzido junto com ela. Seus frutos são muito atrativos para aves, que espalham as sementes em suas fezes. Após passarem pelo trato digestivo da ave e atingirem o ambiente externo de novo, as sementes atraem formigas que as espalham ainda mais. Sendo bem versátil em relação ao substrato em que germina, a figueira-lacerdinha pode crescer sobre muitas superfícies, frequentemente brotando através de frestas em muros e calçadas e os quebrando enquanto cresce.

Folhas e fruto. Foto de Forest & Kim Starr.*

A figueira-lacerdinha é usada na medicina tradicional chinesa para tratar uma variedade de condições, incluindo dor, febre, gripe, malária, bronquite e reumatismo. Estudos em laboratório isolaram compostos anticâncer, antioxidantes e antibacterianos da casca, das folhas, das raízes aéreas e dos frutos, bem como compostos antifúngicos do látex. A árvore tem, portanto, o potencial de ser usada para o desenvolvimento de muitos medicamentos.

Uma muda crescendo num muro. Foto de Forest & Kim Starr.*

Devido ao seu tamanho impressionante e o intrincado labirinto formado pela rede de raízes aéreas, a figueira-lacerdinha possui um papel importante para muitos grupos religiosos em sua região nativa, sendo frequentemente considerada a casa de espíritos, sejam eles bons ou maus, e sua presença costuma marcar locais de adoração. Independente destas crenças, no entanto, esta magnífica árvore merece toda a admiração que recebe.

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Referências:

Ao C, Li A, Elzaawely AA, Xuan TD, Tawata S (2008) Evaluation of antioxidant and antibacterial activities of Ficus microcarpa L. fil. extract. Food Control 19(10): 940–948. doi: 10.1016/j.foodcont.2007.09.007

Chiang YM, Chang JY, Kuo CC, Chang CY, Kuo YH (2005) Cytotoxic triterpenes from the aerial roots of Ficus microcarpa. Phytochemistry 66(4): 495–501. doi:10.1016/j.phytochem.2004.12.026

Kaufmann S, McKey DB, Hossaert-McKey M, Horvitz CC (1991) Adaptations for a two-phase seed dispersal system involving vertebrates and ants in a hemiepiphytic fig (Ficus microcarpa: Moraceae). American Journal of Botany 78(7): 971–977. doi: 10.1002/j.1537-2197.1991.tb14501.

Taira T, Ohdomari A, Nakama N, Shimoji M, Ishihara M (2005) Characterization and Antifungal Activity of Gazyumaru (Ficus microcarpa) Latex Chitinases: Both the Chitin-Binding and the Antifungal Activities of Class I Chitinase Are Reinforced with Increasing Ionic Strength. Bioscience, Biotechnology and Biochemistry 69(4): 811–819. doi: 10.1271/bbb.69.811

Wikipedia. Ficus microcarpa. Disponível em < https://en.wikipedia.org/wiki/Ficus_microcarpa >. Acesso em 8 de junho de 2019.

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*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição 2.0 Genérica.

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Sexta Selvagem: Piolho-da-Farinha-Comum

por Piter Kehoma Boll

Não importa onde você viva no mundo, se você já deixou farinha ou grãos armazenados por muito tempo, deve ter encontrado algum tipo de inseto que apareceu na comida, alimentando-se dela. Há muitas espécies de inseto que existem como pragas de cozinha, incluindo mariposas, besouros, e nosso camarada de hoje, o piolho-da-farinha-comum Liposcelis bostrychophila.

O piolho-da-farinha-comum, também conhecido como psocídeo doméstico, é um membro da ordem de insetos Psocoptera, que inclui a maioria das espécies conhecidas como piolhos, tal como piolhos-da-cortiça, piolhos-dos-livros e os piolhos parasitas comuns de mamíferos e aves. O piolho-da-farinha-comum é um inseto muito pequeno, medindo somente cerca de 1 mm de comprimento como adulto, e não possui asas. Provavelmente de origem tropical, ele foi identificado pela primeira vez a partir de espécimes coletados sob cascas de árvore em Moçambique, mas, durante o século XX, passou a se espalhar rapidamente ao redor do mundo.

Piolho-da-farinha-comum em farinha de trigo integral velha. Foto do usuário sea-kangaroo do iNaturalist.*

Em seu habitat natural, que provavelmente são florestas tropicais, o piolho-da-farinha-comum não é muito comum. Contudo, uma vez que ele acabou dentro de residências humanas, encontrou o lugar perfeito para proliferar. Comida armazenada, especialmente grãos, são como o paraíso alimentar para eles. Com alimento sendo transportado de um país para o outro, o piolho-da-farinha-comum conquistou o planeta todo em poucas décadas. E eles não são associados apenas a comida armazenada, mas com quase qualquer tipo de matéria vegetal, incluindo palha usada em colchões e às vezes em divisórias internas. Apesar de se alimentar destes materiais, o piolho-da-farinha-comum não causa danos sérios a eles e o principal problema é que sua população tende a crescer enormemente, fazendo-o se tornar bem incômodo só por estar ali.

A reprodução do piolho-da-farinha-comum ocorre quase exclusivamente por partenogênese, em que as fêmeas são capazes de gerar prole de ovos não-fertilizados. Machos são muito raros e foram registrados pela primeira vez apenas recentemente. Esta é provavelmente uma das razões de esta espécie ser tão bem-sucedida invadindo novos ambientes, visto que uma única fêmea pode originar uma população inteira. Há casos registrados de casas tão densamente infectadas que as paredes estavam completamente cobertas de piolhos-da-farinha.

Vários métodos vem sendo tentados para conter o avanço desta pequena criatura, mas a maioria é malsucedida. Eles parecem ser bem resistentes tanto a pesticidas químicos quanto a fungos entomopatogênicos, isto é, fungos que infectam insetos. Sua cutícula possui uma composição química peculiar, diferente da encontrada em outros insetos, que previne esporos de fungos de germinarem.

Podemos concluir que o piolho-da-farinha-comum é uma espécie que veio para ficar, não importa o que tentemos fazer para nos livrar dela.

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Referências:

Lord JC, Howard RW (2004) A Proposed Role for the Cuticular Fatty Amides of Liposcelis bostrychophila (Psocoptera: Liposcelidae) in Preventing Adhesion of Entomopathogenic Fungi with Dry-conidia. Mycopathologia 158(2): 211–2117. doi: 10.1023/B:MYCO.0000041837.29478.78

Turner BD (1994) Liposcelis bostrychophila (Psocoptera: Liposcelididae), a stored food pest in the UK. International Journal of Pest Management, 40(2), 179–190. doi: 10.1080/0967087940937187

Yang Q, Kučerová Z, Perlman SJ, Opit GP, Mockford EL, Behar A, Robinson WE, Steijskal V, Li Z, Shao R (2015) Morphological and molecular characterization of a sexually reproducing colony of the booklouse Liposcelis bostrychophila (Psocodea: Liposcelididae) found in Arizona. Scientific Reports5: 110429. doi: 10.1038/srep10429

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Sexta Selvagem: Percebe-Comum

por Piter Kehoma Boll

A superfície do oceano aberto pode a princípio parecer um grande lençol sem vida. Contudo, se você olhar mais de perto, verá que há muito mais vida lá do que poderia imaginar. E esta vida não inclui apenas o plâncton microscópico que flutua na coluna d’água, mas também grandes organismos que moram no limite entre a água e o ar. Essas criaturas são chamadas de nêuston e ocorrem em diversas formas, e uma delas é a Lepas anserifera, ou percebe-comum.

Vários percebes-comuns encontrados crescendo em um osso de sépia na costa oeste da Índia. As pernas modificadas (cirros) estão expostas, procurando comida. Foto de Abhishek Jamalabad.*

O percebe-comum é encontrado em águas tropicais e subtropicais ao redor do mundo todo. Ele pertence à subclasse Cirripedia, um grupo peculiar de crustáceos comumente conhecidos como cracas e percebes. Eles vivem presos ao substrato e são hermafroditas, ambas características que são incomuns entre artrópodes. Dentro da subclasse Cirripedia, o percebe-comum pertence à ordem Pedunculata, conhecidos como percebes, e que são caracterizados pela presença de um pedúnculo que os prende ao substrato.

Perecebe-comum em Taiwan. Um espécime menor é visto crescendo em um maior. Foto de Liu JimFood.*

O substrato escolhido pelo percebe-comum é quase exclusivamente material flutuante. Este material, que inclui algas marinhas e todo tipo de detritos, como pedaços de madeira, cocos e carcaças de animais, raramente permanece flutuando por muito tempo, ou porque sua decomposição o faz afundar ou porque ele acaba indo parar na praia. Assim, o percebe precisa encontrar uma maneira de completar seu ciclo de vida muito rapidamente, e é isso que ele faz.

Percebes-comuns crescendo numa maçã que deve ter flutuado por algum tempo e acabou na praia no estado da Bahia, no Brasil. Foto do usuário kuroshio do iNaturalist.**
Percebes-comuns crescendo sobre uma lâmpada elétrica que foi jogada na praia em Palau Pinang, na Malásia. Foto de Al Kordesch.

Percebes começam suas vidas como larvas planctônicas de apenas um olho e que, após cinco estágios, se desenvolvem em outra forma larval conhecida como ciprídeo. O único propósito do ciprídeo é encontrar uma superfície adequada para viver e, assim que a encontra, secreta uma substância glicoproteica que o prende ao substrato pela cabeça. Ele então se desenvolve em um animal adulto que secreta uma série de placas calcificadas que rodeiam seu corpo. O adulto usa sua patas plumosas (cirros) para capturar alimento, principalmente plâncton, e o carregar para dentro da concha.

Percebes-comuns crescendo numa escova que parou na praia em New Jersey, EUA. Foto de Stan Rullmann.**

Devido a atividades humanas, a quantidade de material flutuante na superfície dos oceanos aumentou grandemente. Assim, o número de substratos disponíveis para o percebe-comum também aumentou, e da mesma forma provavelmente sua população também aumentou. Infelizmente, o material flutuante gerado por humanos também inclui muitas pequenas partículas de plástico, e percebes frequentemente as ingerem junto com o alimento. Apesar de o dano causado pela ingestão de partículas de plástico ainda não ter sido averiguado, elas certamente não melhoram a saúde do percebe.

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Referências:

Goldstein MC, Goodwin DS (2013) Gooseneck barnacles (Lepas spp.) ingest microplastic debris in the North Pacific Subtropical Gyre. PeerJ 1: e184. doi:10.7717/peerj.184

Inatsuchi A, Yamato S, Yusa Y (2010) Effects of temperature and food availability on growth and reproduction in the neustonic pedunculate barnacle Lepas anserifera. Marine Biology 157(4): 899–905. doi: 10.1007/s00227-009-1373-0

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Sexta Selvagem: Cesta-de-flores-de-Vênus

por Piter Kehoma Boll

Esponjas são os animais mais esquisitos de todos, mas também alguns dos mais lindos. Uma espécie de beleza especial que é consideravelmente popular é Euplectella aspergillum, popularmente conhecida como cesta-de-flores-de-Vênus.

Cesta-de-flores-de-Vênus no Oceano Pacífico.

Crescendo no fundo do oceano em águas tropicais, a cesta-de-flores-de-Vênus é comum ao redor das Filipinas and este pode ser o único lugar onde ocorre. Outras espécies similares são encontradas em áreas próximas como o Japão, a Indonésia e a Austrália e são comumente confundidas com a cesta-de-flores-de-Vênus. Há, de fato, populações desta espécie identificadas na Austrália e na Indonésia, dentre outras áreas próximas das Filipinas, mas são consideradas subespécies devido a diferenças morfológicas sutis e podem de fato ser espécies completamente separadas.

A cesta-de-flores-de-Vênus é uma esponja de tamanho médio, medindo até 1,3 m de altura, apesar de a maioria dos espécimes medir entre 10 e 30 cm. O corpo é branco e possui vários poros que a fazem parecer uma cesta alongada, daí o nome comum. O ósculo, a grande abertura no topo, é coberto por uma rede de fibras que faz seu interior inacessível a organismos maiores.

Esqueleto de uma cesta-de-flores-de-Vênus. Créditos ao Auckland Museum.*

Recentemente, a cesta-de-flores-de-Vênus chamou a atenção de cientistas por causa da complexidade estrutural de seu esqueleto, o qual é composto por sílica (isto é, vidro). Estudos mostraram que as espículas de ancoração, isto é, aquelas que prendem a esponja ao substrato, são similares a fibras ópticas artificiais em relação a suas propriedades, mas são melhores em relação à resistência. Entender o caminho detalhado usado pelas esponja para construir estas espícula poderia levar ao desenvolvimento de maneiras mais fáceis de criar fibras ópticas e mesmo melhorar sua qualidade.

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Referências:

Monn MA, Weaver JC, Zhang T, Aizenberg J, Kesari H (2015) New functional insights into the internal architecture of the laminated anchor spicules of Euplectella aspergillum. PNAS 1112(16): 4976-498. doi: 10.1073/pnas.1415502112

Shimizu K, Amano T, Bari MR, Weaver JC, Arima J, Mori N (2015) Glassin, a histidine-rich protein from the siliceous skeletal system of the marine sponge Euplectella, directs silica polycondensation. PNAS 112(37): 11449-11454. doi: 10.1073/pnas.1506968112

Tabachnick KR, Janussen D, Menschenina LL (2008) New Australian Hexactinellida (Porifera) with a revision of Euplectella aspergillum. Zootaxa 1866: 7–68.

Weaver JC, Aizenberg J, Fantner GE, Kisailus D, Woesz A, Allen P, Fields K, Porter MJ, Zok FW, Hansma PK, Fratzl P, Morse DE (2007) Hierarchical assembly of the siliceous skeletal lattice of the hexactinellid sponge Euplectella aspergillum. Journal of Structural Biology 158: 93–106. doi: 10.1016/j.jsb.2006.10.027

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Sexta Selvagem: Mosca-Serra-do-Nabo

por Piter Kehoma Boll

Depois dos besouros, que formam a ordem Coleoptera, o segundo grupo mais diverso de insetos é a ordem Lepidoptera, que inclui borboletas e mariposas. Contudo a ordem Hymenoptera tem o potencial de eventualmente ultrapassar Lepidoptera e se tornar mais próxima dos besouros porque muitas espécies novas estão sendo constantemente descritas.

Os himenópteros mais conhecidos são as abelhas, formigas e vespas, mas uma enorme parte de sua diversidade é formada pelas chamadas moscas-serra. Uma destas espécies é comumente conhecida como mosca-serra-do-nabo e cientificamente conhecida como Athalia rosae.

Mosca-serra-do-nabo nos Países Baixos. Foto de Herman Berteler.*

A mosca-serra-do-nabo é encontrada ao longo da Região Paleártica, do oeste da Europa até o Japão, e seu nome comum vêm do fato de suas larvas se alimentarem de plantas da família Brassicaceae, que inclui o nabo, bem como o repolho, entre outros. As larvas são consideravelmente grandes e se parecem com lagartas, tendo uma cor dorsal cinza-escura, quase preta, e são mais claras perto das pernas. Quando elas estão prestes a se tornarem pupas, elas se enterram no solo, constroem um casulo e permanecem ali até se tornarem adultos.

Uma larva na Dinamarca. Foto de Donald Hobern.**

Os adultos medem cerca de 6 a 8 mm de comprimento, as fêmeas sendo maiores que os machos. O corpo e as pernas possuem uma cor amarela a laranja, mais escura na superfície dorsal do tórax, que também possui duas grandes manchas pretas. A cabeça e as antenas são pretas.

Um adulto na Alemanha. Foto de Martin Grimm.*

Himenópteros no geral são caracterizados por uma determinação sexual única na qual fêmeas são diploides, isto é, possuem dois conjuntos de cromossomos, e machos são haploide, tendo somente um conjunto. Acasalamentos conduzidos em laboratório com a mosca-serra-do-nabo, contudo, foram capazes de produzir combinações anômalas, incluindo machos diploides e machos e fêmeas triploides. Aparentemente isto é possível devido ao sexo ser determinado por um alelo em um cromossomo, de forma que machos são sempre homozigotos e fêmeas sempre heterozigotas, mas isso precisa ser explicado em outra postagem. O fato é que o estudo deste peculiar sistema nesta espécie está ajudando a entender como a determinação do sexo evoluiu em himenópteros.

Um adulto na Rússia. Foto de Roman Providuhin.*

Uma última coisa interessante a mencionar sobre a mosca-serra-do-nabo é que ela é capaz de contornar os mecanismos de defesa das plantas das quais sua larva se alimenta. Plantas na família Brassicaceae produzem um grupo de compostos chamados glucosinolatos que dão a elas seu odor e amargor característicos, como na mostarda e no rábano-de-cavalo. Estes compostos são usados por plantas como uma defesa contra pragas que se alimentam delas. Contudo a mosca-serra-do-nabo é resistente a estes compostos e consegue sequestrá-los e armazená-los em sua hemolinfa, isto é, o “sangue”, em concentrações muito maiores que as encontradas nas plantas. Quando atacadas por predadores como formigas, as larvas liberam gotas de hemolinfa em uma forma de sangramento defensivo e podem parar o ataque.

A mosca-serra-do-nabo pode ser um incômodo para humanos e suas plantações, mas é certamente um animal fascinante.

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Referências:

Müller C, Agerbirk N, Olsen CE, Boevé JL, Schaffner U, Brakefield PM (2001) Sequestration of host plant glucosinolates in the defensive hemolymph of the sawfly Athala rosae. Journal of Chemical Ecology 27(12): 2505–2516. doi: 10.1023/A:1013631616141

Müller C, Boevé JL, Brakefield PM (2002) Host plant derived feeding deterrence towards ants in the turnip sawfly Athalia rosae. In: Nielsen J.K., Kjær C., Schoonhoven L.M. (eds) Proceedings of the 11th International Symposium on Insect-Plant Relationships. Series Entomologica, vol 57. Springer, Dordrecht. doi: 10.1007/978-94-017-2776-1_18

Naito T, Suzuki H (1991) Sex determination in the sawfly, Athalia rosae ruficornis (Hymenoptera): occurrence of triploid males. Journal of Heredity 82(2): 101–104. 10.1093/oxfordjournals.jhered.a111042

Oishi K, Sawa M, Hatakeyama M, Kageyama Y (1993) Genetics and biology of the sawfly, Athalia rosae (Hymenoptera). Genetica 88(2–3): 119–127. doi: 10.1007/BF02424468

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Sexta Selvagem: Maria-Fedida

por Piter Kehoma Boll

Hemípteros constituem a quinta ordem mais numerosa de insetos com cerca de 80 mil espécies atualmente conhecidas. Entre elas, uma que é amplamente disseminada ao redor do mundo e que você pode ter visto por aí é a maria-fedida Nezara viridula, também conhecida como fede-fede, fede-fede-verde e provavelmente muitos outros nomes. O nome fede-fede aplicado a esta espécie e outras próximas se refere ao fato de que elas secretam uma substância defensiva com um cheiro forte de seu tórax quando ameaçadas.

Nezara viridula em Taiwan. Foto de Jaycee Snow.*

Esta espécie geralmente é verde quando adulta e pode ser reconhecida por uma linha de três pequenos pontos brancos na borda anterior do escutelo, a placa triangular entre as asas. Também há um pequeno ponto preto em cada um dos cantos anteriores do escutelo, alinhados com a linha de pontos brancos. Em alguns espécimes, a parte anterior da cabeça e a borda anterior do tórax podem ter uma cor diferente, geralmente branco, amarelo ou laranja, e às vezes o corpo inteiro possui uma borda branca. Durante o inverno, a cor verde geralmente desaparece e é substituída por um tom marrom.

Variedade com a borda esbranquiçada na Grécia. Foto de Anna Chapman.

Outra forma muito mais rara possui um corpo completamente laranja ou vermelho, o qual contrasta grandemente com o verde típico. Os três pequenos pontos brancos, e especialmente os pretos, ainda estão presentes, tornando fácil reconhecer estas variações como pertencendo à mesma espécie.

Variedade amarela na Argentina. Foto de Gonzalo Roget.**

A maria-fedida é originalmente de algum lugar na África oriental, provavelmente pelos arredores da Etiópia, mas atualmente é encontrada em áreas tropicais e subtropicais de todos os continentes. Com um aparelho bucal picador-sugador como todos os membros da ordem Hemiptera, ela se alimenta de mais de 30 famílias de plantas, perfurando sua superfície, injetando enzimas digestivas e depois sugando o produto parcialmente digerido. Algumas de suas plantas favoritas incluem legumes como o feijão e a soja, tornando-as pragas importantes destas plantações. Eles preferem sugar em partes mais tenras da planta, como nos brotos em crescimento ou frutos em desenvolvimento e, portanto, são comumente encontradas perto destes.

Duas marias-fedidas copulando na França. Uma tem o padrão inteiramente verde e a outra o padrão com borda branca. Foto de Bernard Dupont.***

Em áreas tropicais, a maria-fedida pode se reproduzir ao longo do ano todo, mas em zonas temperadas seu período reprodutivo é restrito aos meses mais quentes do ano. Em tais áreas, os adultos começam a acasalar e procurar alimento assim que as temperaturas sobem, às vezes viajando até 1 km por dia em busca de alimento e local para depositar os ovos.

Nezara viridula em sua forma marrom de inverno na França. A estrutura branca na cabeça, perto do olho direito, é um ovo da mosca parasitoide Trichopoda pennipes. Foto de Didier Descouens.***

O comportamento sexual da maria-fedida é bastante complexo. Os machos liberam feromônios que atraem tanto machos quanto fêmeas, aparentemente como uma maneira de aumentar as oportunidades de acasalamento. Como resultado, vários indivíduos podem ser encontrados aglomerados e prontos para copular. O comportamento de corte inclui uma série de sons estridulantes produzidos tanto pelos machos quanto pelas fêmeas e uma sequência específica de canções masculinas e femininas alternadas parece ser necessária para que a cópula ocorra.

Ovos depositados por uma maria-fedida fêmea na Nova Zelândia. Foto de Robert Briggs.****

Os ovos da maria-fedida são amarelados e a fêmea os põe em aglomerados poligonais, arranjados em fileiras regulares, e os cola uns aos outros. O tempo até a eclosão depende da temperatura do ambiente e pode levar 5 dias ou menos no verão e até 3 semanas em meses mais frios.

Ninfas de primeiro ínstar ainda ao redor dos restos dos ovos na Alemanha. Foto do usuário Slimguy do Wikimedia.****

As ninfas de primeiro ínstar eclodidas são marrom-escuras e permanecem perto umas das outras próximo às cascas dos ovos. Após fazerem a muda e se tornarem o segundo ínstar, que é preto, as ninfas passam a se dispersar. Os terceiro e quarto ínstares são marrom-escuros a pretos e possuem uma série de pontos brancos no abdome. É somente durante o quinto e último ínstar da ninfa que a cor verde do adulto começa a aparecer.

Ninfa de terceiro ínstar em Gran Canaria. Foto de Juan Emilio.***

A maria-fedida possui vários inimigos naturais, incluindo aranhas e formigas predadoras, bem como moscas parasitoides, que se alimentam dos adultos, e vespas parasitoides que se alimentam dos ovos. As espécies parasitoides são conhecidas por usarem os feromônios liberados por fede-fedes adultos para localizá-los no ambiente.

Ninfa de quinto ínstar na Nova Zelândia. Foto de Uwe Schneehagen.**

Com o aumento da temperatura causado pelas mudanças climáticas, a maria-fedida pode se espalhar para novas partes do mundo e eventualmente se tornar uma praga muito mais séria.

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Referências e leitura complementar:

Čokl A, Virant-Doberlet M, McDowell A (1999) Vibrational directionality in the southern green stink bug, Nezara viridula (L.), is mediated by female song. Animal Behavior 58(6): 1277–1283. doi: 10.1006/anbe.1999.1272

Čokl A, Zorović M, Žunić A, Virant-Doberlet M (2005) Tuning of host plants with vibratory songs of Nezara viridula L (Heteroptera: Pentatomidae). Journal of Experimental Biology 208: 1481–1488. doi: 10.1242/jeb.01557

Colazza S, Salerno G, Wajnberg E (1999) Volatile and Contact Chemicals Released by Nezara viridula (Heteroptera:Pentatomidae) Have a Kairomonal Effect on the Egg Parasitoid Trissolcus basalis (Hymenoptera: Scelionidae). Biological Control 16(3): 310–317. doi: 10.1006/bcon.1999.0763

Mattiacci L, Vinson SB, Williams HJ, Aldrich JR, Bin F (1993) A long-range attractant kairomone for egg parasitoid Trissolcus basalis, isolated from defensive secretion of its host, Nezara viridula. Journal of Chemical Ecology 19(6): 1167–1181. doi: 10.1007/BF00987378

Musolin DL, Numata H (2003) Photoperiodic and temperature control of diapause induction and colour change in the southern green stink bug Nezara viridula. Physiological Entomology 28(2): 65–74. doi: 10.1046/j.1365-3032.2003.00307.x

Todd JW (1989) Ecology and behavior of Nezara viridula. Annual Review of Entomology 34: 272–292. doi: 10.1146/annurev.en.34.010189.001421

Tougou D, Musolin DL, Fujisaki K (2009) Some like it hot! Rapid climate change promotes changes in distribution ranges of Nezara viridula and Nezara antennata in Japan. Entomologia Experimentalis et Applicata 130(3): 249–258. doi: 10.1111/j.1570-7458.2008.00818.x

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**Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição Não Comercial 4.0 Internacional

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****Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 4.0 Internacional.

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Sexta Selvagem: Fungo-do-Conhaque

por Piter Kehoma Boll

Se você mora perto ou já visitou uma destilaria, pode ter percebido manchas pretas cobrindo as paredes externas. À primeira vista elas podem parecer fuligem, mas se você olhar perto o bastante notará que na verdade são uma forma de vida.

Este fenômeno foi observado pela primeira vez em 1872 na cidade de Cognac, França e relatado por Antonin Baudoin, o diretor da Associação Francesa de Destiladores. Durante os anos seguintes, a coisa foi identificada como um fungo que atualmente é chamado de Baudoinia compniacensis e comumente conhecido como o fungo-do-uísque ou o fungo-da-porção-dos-anjos, mas eu decidi chamá-lo de fungo-do-conhaque e explicarei por que daqui a pouco.

Baudoinia compniacensis crescendo nas paredes perto de sua localidade-tipo em Cognac, França. Foto de Yann Gwilhoù.*

A razão para esse fungo crescer em torno de destilarias é porque é capaz de metabolizar etanol como uma fonte de carbono, isto é, como comida, e se prolifera com o vapor de etanol liberado de fábricas como essas. Ele é, no entanto, sensível a concentrações altas deste álcool e assim raramente cresce dentro dos prédios, preferindo as superfícies externas ou estruturas próximas, incluindo ramos de árvores.

Até agora, o fungo-do-uísque nunca foi encontrado em hábitats naturais, longe de emissões de etanol geradas por atividades humanas. Na natureza, ele provavelmente cresce perto de emissões naturais de etanol, como frutas apodrecidas, mas como estas emissões são muito menos concentradas que as geradas por humanos, ele certamente não consegue crescer tanto quanto consegue próximo a destilarias. Podemos dizer que esta espécie se tornou muito bem-sucedida após humanos passarem a produzir bebidas alcoólicas em grande escala.

Por muitos anos, todos os fungos crescendo em torno de destilarias no mundo eram considerados como pertencendo à mesma espécie, Baudoinia compniacensis. Contudo estudos moleculares recentes usando populações de diferentes partes do mundo revelaram que elas pertencem a diferentes espécies, e cada espécie parece restrita a uma certa localidade geográfica. A espécie Baudoinia compniacensis foi encontrada apenas na França. As populações na escócia formam uma espécie separada, Baudoinia caledoniensis, e o mesmo se aplica a populações nas Américas (Baudoinia panamericana), no Caribe (B. antilliensis) e no Extremo Oriente (B. orientalis). Assim, o nome fungo-do-uísque não parece adequado e serviria melhor para Baudoinia caledoniensis.

Imagens de culturas de diferentes espécies de Baudoinia. A figura F mostra o fungo-do-conhaque Baudoinia compniacensis sob o microscópio. Créditos a Scott et al. (2016).*

De qualquer forma, da próxima vez que você vir uma destilaria coberta por um mofo preto, lembre-se de que se trata de uma espécie que floresceu por nossa causa se nosso amor por álcool.

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Referências:

Scott JA, Ewaze JO, Summerbell RC, Arocha-Rosete Y, Maharaj A, Guardiola Y, Saleh M, Wong B, Mogale M, O’Hara MJ, Untereiner WA (2016) Multilocus DNA sequencing of the whiskey fungus reveals a continental-scale speciation pattern. Persoonia 37: 13–20. doi: 10.3767/003158516X689576

Scott JA, Summerbell RC (2016) Biology of the Whiskey Fungus. In: Li D-W (Ed.) Biology of Microfungi, Springer, pp. 413–428. doi: 10.1007/978-3-319-29137-6_16

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*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 4.0 Internacional.

**Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição Não Comercial Sem Derivações 3.0 Não Adaptada.

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