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Sexta Selvagem: Tamarutaca-Pavão

por Piter Kehoma Boll

Invertebrados possuem uma probabilidade muito menor de se tornarem populares do que vertebrados, mas de vez em quando há uma exceção, e uma delas certamente é Odontodactylus scyllarus, a tamarutaca-pavão.

Tamarutaca-pavão na Baía Guinjata, Moçambique. Foto de Peter Southwood.*

Encontrada na região indo-pacífica, da costa oeste da África até Guam, a tamarutaca-pavão é uma espécie grande e colorida da ordem de crustáceos Stomatopoda, popularmente conhecidos como tamarutacas. Medindo até 18 cm de comprimento, seu corpo é em grande parte verde com algumas manchas pretas grandes com um contorno branco no cefalotórax. As patas são laranja-avermelhadas e a região em torno dos olhos possui um tom azul-claro. Devido a esta bela aparência, a tamarutaca-pavão se tornou um animal popular para ser criado em aquários.

Vista frontal de uma tamarutaca-pavão no Mar de Andaman, Tailândia. Pode-se ver os apêndices em forma de clava usados para quebrar a concha das presas. Foto de Silke Barton.**

Tamarutacas são predadores e a tamarutaca-pavão não é exceção. Ela se alimenta principalmente de moluscos de concha, como gastrópodes e bivalves, e crustáceos. Para quebrar a forte carapaça de presa, ela a acerta com um poderoso golpe usando seu segundo par de apêndices torácicos em forma de clava. Este forte ataque, causado por um complexo mecanismo no apêndice, é tão forte que quebra facilmente a concha da presa. Em aquários, isso pode ser problemático, já que às vezes elas quebram a parede do aquário. Mais do que apenas acertar a presa com uma força incrível, o ataque da tamarutaca gera uma súbita região de baixa pressão entre a concha e o apêndice quando o apêndice se retrai rapidamente. Este fenômeno, chamado de cavitação, gera uma bolha de gás que rapidamente colapsa e gera grandes quantidades de energia na forma de calor, luz e som e cria um segundo impacto na presa.

Tamarutaca-pavão fêmea carregando ovos na Indonésia. Também é possível ver os olhos com dois hemisférios separados por uma faixa de omatídios maiores arranjados em seis linhas. Foto de Terence Zahner.***

A tamarutaca-pavão também possui um magnífico sistema visual. Seus olhos compostos são divididos em um hemisfério superior e um inferior separados por uma faixa de seis linhas de omatídios (os pequenos olhos que formam o olho composto) aumentados. Estas três regiões do olho são usadas para detectar diferentes comprimentos de onda, incluindo luz ultravioleta, e incluem até mesmo células especiais que convertem luz não-polarizada em luz polarizada, permitindo que a tamarutaca detecte luz de diferentes formas a partir de diferentes partes do olho. Este complexo sistema vem sendo estudado para o desenvolvimento de dispositivos ópticos para armazenar e ler informação.

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Reference:

Jen Y-J, Lakhtakia A, Yu C-W, Lin C-F, Lin M-J, Wang S-H, Lai JR (2011) Biologically inspired achromatic waveplates for visible light. Nature Communications 2: 363. doi: 10.1038/ncomms1358

Kleinlogel S, Marshall NJ (2009) Ultraviolet polarisation sensitivity in the stomatopod crustacean Odontodactylus scyllarus. Journal of Comparative Physiology A 195(12): 1153–1162. doi: 10.1007/s00359-009-0491-y

Land MF, Marshall JN, Brownless D, Cronin TW (1990) The eye-movements of the mantis shrimp Odontodactylus scyllarus (Crustacea: Stompatopoda). Journal of Comparative Physiology A 167(2): 155–166. doi: 10.1007/BF00188107

Marshall J, Cronin TW, Shashar N, Land M (1999) Behavioural evidence for polarisation vision in stomatopods reveals a potential channel for communication. Current Biology 9(14): 755–758. doi: 10.1016/S0960-9822(99)80336-4

Patek SN, Caldwell RL (2005) Extreme impact and cavitation forces of a biological hammer: strike forces of the peacock mantis shrimp Odontodactylus scyllarus. The Journal of Experimental Biology 208: 3655–3664. doi: 10.1242/jeb.01831

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*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 3.0 Não Adaptada.

**Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição 2.0 Genérica.

***Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição Não Comercial 4.0 Internacional

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Sexta Selvagem: Nori-Tenro

por Piter Kehoma Boll

Se você gosta de comida japonesa, já deve ter comido sushi com certeza e, portanto, ingeriu a famosa alga da culinária japonesa conhecida como nori que é usada para enrolar o arroz, certo? Bem, isso não quer dizer necessariamente que você tenha comido a espécie que apresentarei hoje e logo você saberá por quê.


Folhas secas de nori como usadas na culinária japonesa. Foto de Yuichi Kosio.*

Durante a maior parte da história do Japão, a principal espécie de nori usada como alimento era o nori-tenro, que é cientificamente conhecido como Pyropia tenera (anteriormente conhecido como Porphyra tenera) e conhecido no Japão como 浅草海苔 (asakusa nori). Esta espécie é uma alga vermelha e é proximamente relacionada a outras espécies comestíveis usadas em outras partes do mundo.

O ciclo de vida do nori-tenro inclui duas gerações diferentes como visto em todas as plantas. Uma geração, o gametófito, é composta de células haploides, isto é, com apenas uma cópia de cada cromossomo. O estágio de gametófito é o maior e mais comumente usado como alimento. Ele produz tanto gametas masculinos quanto femininos e usa a corrente da água para guiar os gametas masculinos, que são incapazes de nadar, até os gametas femininos. Por muito tempo, este era o único estágio de vida conhecido para o nori. Os gametófitos eram colhidos na natureza, onde cresciam sobre o substrato disponível, especialmente madeira. Somente durante o século 20 ficou claro que o esporófito, o outro estágio de vida, é menor e precisa de conchas de moluscos como substrato para crescer. De fato o esporófito já era conhecido, mas era confundido com um organismo diferente classificado em um gênero chamado Conchocelis. Assim, o esporófito ainda é comumente conhecido como o estágio Conchocelis.

Depois que o ciclo de vida completo destas algas se tornou conhecido, não demorou muito para as pessoas desenvolverem métodos de cultivo que aumentaram grandemente a produção de nori. Duas linhagens de nori logo se tornaram os principais cultivares no Japão por volta do começo dos anos 1960: Pyropia tenera var. tamatsuensis e Pyropia yezoensis f. narawaensis. A última, como você pode ver, pertence a uma espécie diferente de nori, o nori-de-Ezo, conhecido no Japão como 荒び海苔 (susabi nori).

Apesar de o nori-tenro ser considerado de melhor qualidade e melhor sabor, ele não é tão tolerante às fortes ondas e aos fortes ventos quanto o nori-de-Ezo. Como resultado, o nori-de-Ezo se tornou o cultivar favorito e se espalhou rapidamente, de forma que esta é a principal espécie usada hoje em dia na culinária japonesa. O aumento do cultivo do nori-de-Ezo tirou espaço do nori-tenro original de tal forma que atualmente o nori-tenro é uma espécie muito rara, tão rara que é considerada uma espécie ameaçada pelo governo japonês desde 1997.

A distinção entre espécies de Pyropia em populações selvagens é geralmente difícil porque existe pouca variação morfológica entre elas. Estudos moleculares recentes com nori crescendo ao longo do Japão mostraram que o nori-tenro não é tão raro quanto se pensava anteriormente, mas isso não o torna imune à extinção. Como o nori-tenro é considerado mais macio e mais saboroso que o nori-de-Ezo, tem havido algumas tentativas de aumentar o interesse comercial nele, o que poderia preveni-lo de se tornar extinto num futuro próximo.

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Referências:

Hwang MS, Kim S-O, Ha D-S, Lee JU, Lee S-R (2013) Complete sequence and genetic features of the mitochondrial genome of Pyropia tenera (Rhodophyta). Plant Biotechnology Reports 7(4): 435–443. doi: 10.1007/s11816-013-0281-4

Iwasaki H (1961) The life-cycle of Porphyra tenera in Vitro. Biological Bulletin 121(1): 173–187. doi: 10.2307/1539469

Niwa K, Iida S, Kato A, Kawai H, Kikuchi N, Kobiyama A, Aruga Y (2009) Genetic diversity and ingrogression in two cultivated species (Porphyra yezoensis and Porphyra tenera) and closely related wild species of Porphyra(Bangiales, Rhodophyta). Journal of Phycology 45(2): 493–502. doi: 10.1111/j.1529-8817.2009.00661.x

Niwa K, Kikuchi N, Aruga Y (2005) Morphological and molecular analysis of the endangered species Porphyra tenera (Bangiales, Rhodophyta). Journal of Phycology 41(2): 294–304. doi: 10.1111/j.1529-8817.2005.04039.x

ウィキペディア (Wikipedia em Japonês)。アサクサオリ。Disponível em <
https://ja.wikipedia.org/wiki/%E3%82%A2%E3%82%B5%E3%82%AF%E3%82%B5%E3%83%8E%E3%83%AA >. Acesso em 25 de março de 2019.

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Sexta Selvagem: Mosquinha-do-Banheiro

por Piter Kehoma Boll

Não importa onde você viva, você provavelmente já viu, ao menos uma vez na vida, estes insetinhos que amam paredes de banheiros. Eles pertencem à espécie Clogmia albipunctata, popularmente conhecida como mosquinha-do-banheiro, mosquinha-do-ralo, entre outros nomes.

Mosquinha-do-banheiro em Curitiba, Brasil. Foto de Evandro Maia.*

A mosquinha-do-banheiro é encontrada pelo mundo todo, sendo mais comum em áreas tropicais, mas também é frequente em zonas temperadas. Elas estão frequentemente associadas a humanos e são encontradas em banheiros e, menos menos comumente, em cozinhas. Em áreas mais quentes, elas também podem ser vistas na na natureza, especialmente perto de pequenas poças d’água com bastante matéria orgânica, como água parada em buracos de árvores mortas.

Mosquinha-do-banheiro em Matara, Sri Lanka. Foto do usuário rvp do iNaturalist.*

É muito fácil reconhecer a mosquinha-do-banheiro. Elas são cinzas e pequenas, com um comprimento de cerca de 5 mm, e possuem duas asas relativamente grandes que faz com que lembrem uma figura invertida de um coração. O corpo e as asas são cobertos por espessos pelos acinzentados que as fazem parecer mariposas. Elas são, no entanto, parte da ordem Diptera e, portanto, proximamente relacionadas a mosquitos e moscas. Ao se olhar uma delas de perto, é possível notar alguns pontos brancos bem pequenos nas asas. As antenas são longas e cada segmento possui uma coroa separada de pelos.

As larvas da mosquinha-do-banheiro são aquáticas e se alimentam de matéria orgânica em decomposição. Elas encontram o hábitat ideal nos ralos de banheiros, nos quais há matéria orgânica e umidade suficientes e uma boa proteção contra predadores, bem como uma boa estabilidade em temperatura. A larva passa por quatro ínstares durante um período de cerca de 18 dias e então se transforma numa pupa, a qual leva cerca de 5 dias para se tornar um adulto. Os adultos não comem e sua principal função é a reprodução. O ciclo de vida completo leva cerca de um mês.

Ciclo de vida da mosquinha-do-banheiro. Créditos a Jiménez-Guri et al. (2014).**

A mosquinha-do-banheiro é inofensiva na maioria das vezes e pode até ser útil ao reduzir o acúmulo de matéria orgânica que poderia entupir sistemas de drenagem. Há alguns registros de miíase urinária, isto é, parasitismo por larvas de mosca no trato urinário, causada por esta espécie, mas são casos associados a ambientes com condições sanitárias ruins e péssima higiene pessoal. A principal preocupação com esta espécie ocorre em hospitais, já que sua presença em banheiros de hospital a faz ser um possível vetor de bactérias patogênicas levadas do sistema de drenagem para os pacientes.

Durante os últimos anos, a mosquinha-do-banheiro vem sendo estudada como um modelo de desenvolvimento embrionário e expressão de genes, especialmente para estudos comparativos com um modelo bem conhecido, a mosquinha-da-banana, Drosophila melanogaster.

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Referências:

El-Dib NA, Wahab WMAE, Hamdy DA, Ali MI (2017) Case Report of Human Urinary Myiasis Caused by Clogmia albipunctata (Diptera: Psychodidae) with Morphological Description of Larva and Pupa. Journal of Arthropod-Borne Diseases 11(4): 533–538.

Faulde M, Spiesberger M (2012) Hospital infestations by the moth fly, Clogmia albipunctata (Diptera: Psychodinae), in Germany. Journal of Hospital Infection 81(2): 134–136. doi: 10.1016/j.jhin.2012.04.006

Faulde M, Spiesberger M (2013) Role of the moth fly Clogmia albipunctata(Diptera: Psychodinae) as a mechanical vector of bacterial pathogens in German hospitals. Journal of Hospital Infection 83(1): 51–60. doi: 10.1016/j.jhin.2012.09.019

Jiménez-Guri E, Wolton KR, Gavilán B, Jaeger J (2014) A staging schefor the development of the moth midge Clogmia albipunctata. PLoS One 9(1): e84422. doi: 10.1371/journal.pone.0084422

Oboňa J, Ježek J (2012) Range expansion of the invasive moth midge Clogmia albipunctata (Williston, 1893) in Slovakia (Diptera: Psychodidae). Folia faunistica Slovaca 17(4): 387–391.

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Sexta Selvagem: Centro-hélido-gentil-contrátil

por Piter Kehoma Boll

Eucariontes unicelulares, tradicionalmente chamados de protistas, existem em uma variedade de formas e tamanhos e possuem uma classificação complexa, especialmente porque muitas linhagens evoluíram características similares. Os centro-hélidos, por exemplo, possuem uma célula redonda com vários pseudópodes em forma de agulha radialmente distribuídos chamados de actinópodes, assim se parecendo com radiolários, mas sendo apenas distantemente relacionados a eles.

Um único indivíduo do centro-hélido-gentil-contrátil. Créditos ao usuário NEON_ja do Wikimedia.*

Um centro-hélido que tem sido consideravelmente bem estudado recentemente é Raphidiophrys contractilis, para o qual decidi cunhar o nome comum centro-hélido-gentil-contrátil. Ele foi descrito em 1995 a partir de espécimes coletados em lagos salobros em Hiroshima, Japão. Como outras espécies do gênero Raphidiophrys, o centro-hélido-gentil-contrátil possui muitas estruturas de sílica, chamadas de escamas, cobrindo a célula e imersas em uma capa gelatinosa. Estas escamas são mais concentradas em torno da base dos actinópodes e se estendem para fora em torno de parte deles também. No centro-hélido-gentil-contrátil, as escamas são oblongas, achatadas e ligeiramente curvadas, lembrando um bote de borracha. O lado convexo da escama é sempre direcionado para a célula.

O centro-hélido-gentil-contrátil é um predador de outros protistas, especialmente flagelados e ciliados. Protistas pequenos são capturados pelos actinópodes e puxados rapidamente em direção ao corpo da célula por uma contração súbita do actinópode. Este comportamento é a razão de a espécie ser chamada de contractilis. Uma vez que a presa esteja perto do corpo da célula, ela é rodeada por pseudópodes e armazenada em um vacúolo alimentar, onde é digerida. A captura de presas usando os actinópodes é auxiliada por uma organela especial, chamada quinetocisto, encontrada em grande número abaixo da membrana celular. Quando o centro-hélido toca a presa, descarrega os quinetocistos que imobilizam a presa, funcionando similarmente aos cnidócitos dos cnidários.

Raphidiophrys contractilis com vários flagelados da espécie Chlorogonium elongatum presos em seus actinópodes (A) e um sendo engolido para dentro de um vacúolo alimentar (B). Extraído de Sakaguchi et al. (2002)

Quando um centro-hélido-gentil-contrátil encontra uma presa muito grande, muito maior que ele mesmo às vezes, tal como um ciliado Paramecium, ele usa um comportamento cooperativo extremo. Vários organismos individuais se fundem numa única célula grande, arrancam pedaços da presa e criam um grande vacúolo alimentar comum. Não é bizarro e incrível?

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Referências:

Kinoshita E, Suzaki T, Shigenaka Y, SugiyamaM (1995) Ultrastructure and rapid axopodial contraction of a Heliozoa, Raphidiophrys contractilis sp. nov. The Journal of Eukaryotic Microbiology 42(3): 283–288. doi: 10.1111/j.1550-7408.1995.tb01581.x

Sakaguchi M, Suzaki T, Khan SMMK, Hausmann K (2002) Food capture by kinetocysts in the heliozoon Raphidiophrys contractilis. European Journal of Protistology 37(4): 453–458. doi: 10.1078/0932-4739-00847

Siemensma FJ, Roijackers MM (1988) The genus Raphidiophrys (Actinopoda, Helozoea): scale morphology and species distinctions. Archiv für Protistenkunde 136(3): 237–248. doi: 10.1016/S0003-9365(88)80023-X

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Sexta Selvagem: Briozoário-Ferrugem-Vermelha

por Piter Kehoma Boll

É hora do nosso segundo camarada briozoário, e desta vez estou trazendo uma espécie problemática que pode se tornar um incômodo sério, o briozoário-ferrugem-vermelha Watersipora subtorquata.

O briozoário-ferrugem-vermelha é um briozoário colonial que vive em águas tropicais e temperadas e cresce em superfícies duras como rochas ou eventualmente sobre outros organismos coloniais. Cada indivíduo na colônia, chamado de zooide, vive dentro de uma estrutura alongada de material mineralizado, principalmente carbonato de cálcio, com uma abertura ovalada através da qual a boca se projeta. A colônia começa se espalhando sobre uma superfície e formando uma fina placa de material mineralizado que possui uma cor vermelho-escura, daí o nome comum de ferrugem vermelha. Conforme as colônias se tornam maiores, as partes centrais tendem a mudar para uma cor acinzentada ou enegrecida. Colônias mais velhas tendem a crescer por cima de si mesmas e se tornam estruturas em forma de folha, especialmente quando crescendo em superfícies irregulares.

Uma colônia folhosa do briozoário-ferrugem-vermelha. Os pequenos pontos são as aberturas de cada zooide. Foto de Alison Young.*

Com uma distribuição cosmopolita, a localização original do briozoário-ferrugem-vermelha é desconhecida, mas muito provavelmente ele foi espalhado pelos oceanos por atividades humanas e logo se tornou um incômodo para humanos. O briozoário-ferrugem-vermelha, como uma espécie que cresce em substratos duros, encontrou hábitats ideais em estruturas humanas como canos e navios, os quais acabam cobertos de colônias num processo chamado bioincrustação. Algumas substâncias anti-incrustantes, como tinta baseada em cobre usada em cascos de navios para prevenir bioincrustação, não conseguem prevenir seu crescimento, pois o briozoário-ferrugem-vermelha é uma espécie resistente a cobre. E após cobrir a tinta anti-incrustante com suas colônias, o briozoário-ferrugem-vermelha cria um hábitat que permite o crescimento de criaturas sensíveis a cobre.

Uma olhada mais de perto onde as estruturas individuais de cada zooide são visíveis. Foto de Damon Tighe.*

Em um lado positivo para humanos, o briozoário-ferrugem-vermelha é conhecido por produzir brioantratiofeno, uma substância com propriedades antiangiogênicas, isto é, ela previne o crescimento de novos vasos sanguíneos, o que pode ser útil no tratamento de alguns tipos de câncer.

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Referências:

Jeong S-J, Higuchi R, Miyamoto T, Ono M, Kuwano M, Mawatari SF (2002) Bryoanthrathiophene, a New Antiangiogenic Constituent from the Bryozoan Watersipora subtorquata (d’Orbigny, 1852). Journal of Natural Products 65(9): 1344–1345. doi: 10.1021/np010577+

Mackie HA, Keough MJ, Christidis L (2006) Invasion patterns inferred from cytochrome oxidase I sequences in three bryozoans, Bugula neritinaWatersipora subtorquata and Watersipora arcuataMarine Biology 149(2): 285-295. doi: 10.1007/s00227-005-0196-x

Ryland JS, De Blauwe H, Lord R, Mackie JA (2009) Recent discoveries of alien Watersipora (Bryozoa) in Western Europe, with redescription of species. Zootaxa 2093: 43–59.

Vieira LM, Jones MS, Taylor PD (2014) The identity of the invasive fouling bryozoan Watersipora subtorquata (d’Orbigny) and some other congeneric species. Zootaxa 3857: 151–182. doi: 10.11646/zootaxa.3857.2.1

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Sexta Selvagem: Fritilária-Imperial

por Piter Kehoma Boll

Vamos trazer uma alta dose de beleza para a Sexta Selvagem de hoje com uma espécie maravilhosa que pode às vezes ser encontrada em seu jardim.

Fritilária-imperial crescendo em seu ambiente natural no Curdistão. Foto do usuário A2raya07 do Wikimedia.*

Fritillaria imperialis, a fritilária-imperial ou coroa-imperial, é nativa das terras altas asiáticas entre a Turquia e os Himalaias, mas é cultivada a nível global, tendo uma série de cultivares artificialmente selecionados. A planta atinge uma altura de cerca de 1 m e possui uma série de folhas em forma de lança ao longo de seu caule, de forma similar ao que é encontrado em outras espécies da família do lírio, Liliaceae, a qual pertence. As flores aparecem em uma espiral perto do topo do caule e são viradas para baixo. Uma coroa de pequenas folhas fica acima das flores, daí o nome imperialis. As flores em forma de sino são geralmente laranjas na natureza, mas, em cultivares, variam entre vermelho e amarelo.

Um cultivar chamado ‘Rubra Maxima’. Foto de Hendry Heatly.**

A fritilária-imperial vem sendo usada em medicina tradicional por séculos por pessoas vivendo em sua área de distribuição nativa. Estudos recentes revelaram que a planta contém uma série de de alcaloides, principalmente alcaloides esteroides anticolinérgicos, que possuem o potencial de serem usados para o desenvolvimento de novos medicamentos para tratar várias condições.

Apesar de sua popularidade como planta ornamental, populações selvagens da fritilária-imperial estão ameaçadas em muitos países em que ela ocorre, especialmente devido a perda de habitat. De forma a auxiliar na preservação e na restauração de populações selvagens, algumas técnicas de laboratório vêm sendo desenvolvidas para gerar clones que poderiam ajudar a aumentar o tamanho populacional na natureza.

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Referências:

Akhtar MN, Rahman A, Choudhary MI, Sener B, Erdogan I, Tsuda Y (2003) New class of steroidal alkaloids from Fritillaria imperialisPhytochemistry 63: 115–122. doi: 10.1016/S0031-9422(02)00569-1

Gilani AH, Shaheen F, Christopoulos A, Mitchelson F (1997) Interaction of ebeinone, an alkaloid from Fritillaria imperialis, at two muscarinic acetylcholine receptor subtypes. Life Sciences 60 (8): 535–544. doi: 
10.1016/S0024-3205(96)00691-1

Kiani M, Mohammadi S, Babaei A, Sefidkon F, Naghavi MR, Ranjbar M, Razavi SA, Saeidi K, Jafari H, Asgardi D, Potter D (2017) Iran supports a great share of biodiversity and floristic endemism for Fritillaria spp. (Liliaceae): A review. Plant Diversity 39(5): 245–262. doi: 10.1016/j.pld.2017.09.002

Mohammadi-Dehcheshmeh M, Khalighi A, Naderi R, Sardari M, Ebrahimie E (2008) Petal: a reliable explant for direct bulblet regeneration of endangered wild populations of Fritillaria imperialis L. Acta Physiologiae Plantarum 30(3): 395–399. doi: 10.1007/s11738-007-0126-2

Wikipedia. Fritillaria imperialis. Disponível em < https://en.wikipedia.org/wiki/Fritillaria_imperialis >. Access em 11 de fevereiro de 2019.

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Sexta Selvagem: Opilião-de-Escudo-Platense

por Piter Kehoma Boll

Sob troncos caídos e rochas na serapilheira de florestas e jardins em torno do Rio La Plata na Argentina e no Uruguai, você pode encontrar o camarada de hoje. Cientificamente conhecido como Discocyrtus prospicuus, é um opilião, um membro de um grupo de aracnídeos que lembram aranhas. Como de costume entre pequenos invertebrados escondidos, ele não possui um nome comum, de forma que cunhei o termo opilião-de-escudo-platense para me referir a ele.

Discocyrtus prospicuus em Buenos Aires, Argentina. Foto de Nicolas Olejnik.*

O opilião-de-escudo-platense pertence à família Gonyleptidae, que inclui opiliões com corpos impressionantemente armados e um prossoma (ou cefalotórax) com um formato triangular que lembra algum tipo de escudo. Ele possui uma cor marrom-avermelhada escura e duas poderosas patas traseiras armadas com vários espinhos.

O opilião-de-escudo-platense é encontrado em várias localidades da Argentina e do Uruguai, mas especialmente em áreas de floresta em torno do Rio La Plata e seus afluentes. Como de costume entre opiliões gonileptídeos, o opilião-de-escudo-platense depende de ambientes com um grau considerável de umidade.

Diferente da maioria dos aracnídeos, os opiliões geralmente são necrófagos onívoros, alimentando-se de matéria vegetal e animal morta, e o opilião-de-escudo-platense não é diferente. Em relações predador-presa, eles geralmente são a presa de outros animais, especialmente aranhas, como as aranhas-lobo que compartilham o mesmo hábitat. Quando está de frente para uma grande aranha que está prestes a caçá-lo, o opilião-de-escudo-platense pode usar uma série de mecanismos de defesa. Uma das formas mais simples de evitar ser comido é ficar imóvel ou se fingir de morto, um comportamento chamado tanatose. Quando está de frente para um opilião aparentemente morto, uma aranha-lobo geralmente o ignora completamente, como se ele nem mesmo estivesse lá. Quando isso não é suficiente para parar o ataque, o opilião pode usar estratégias adicionais como “mostrar a bunda” para a aranha ao levantar o abdome em direção ao predador e às vezes chutando a aranha com as patas traseiras. Outro mecanismo de defesa comum em opiliões é liberar compostos químicos com um odor forte e repulsivo, mas o opilião-de-escudo-platense não parece usá-lo frequentemente, ao menos não contra aranhas.

Pouco se sabe sobre a história natural do opilião-de-escudo-platense ou qualquer de seus parentes próximos. Como eu disse várias vezes antes, precisamos de mais pessoas estudando as pequenas criaturas que vivem ao nosso redor.

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Referências:

Costa LE, Guerrero EL (2011) Geographical distribution of Discocyrtus prospicuus (Arachnida: Opiliones: Gonyleptidae): Is there a pattern? Zootaxa 2043: 1–24.

Fernandes NS, Stanley E, Costa FG, Toscano-Gadea CA, Willemart RH (2017) Chemical sex recognition in the harvestman Discocyrtus prospicuus (Arachnida: Opiliones). Acta Ethologica 20(3): 215–221. doi: 10.1007/s10211-017-0264-5

Segalerba A, Toscano-Gadea CA (2016) Description of the Defensive Behaviour of Four Neotropical Harvestmen (Laniatores: Gonyleptidae) Against a Synchronic and Sympatric Wolf Spider (Araneae: Lycosidae). Arachnology 17(1): 52–58. doi:10.13156/arac.2006.17.1.52

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