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Sexta Selvagem: Levedo-de-cerveja

por Piter Kehoma Boll

Vivendo ao lado dos humanos por séculos, a espécie da Sexta Selvagem de hoje é certamente um dos fungos mais amados. Cientificamente conhecido como Saccharomyces cerevisiae, seus nomes comuns em português incluem levedo-de-cerveja, fermento-de-pão ou simplesmente levedo.

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Saccharomyces cerevisiae sob o microscópio eletrônico de varredura. Foto de Mogana das Murtey e Patchamuthu Ramasamy.*

Sob o microscópio, as células desta espécie unicelular são elipsoides ou esféricas e geralmente mostram pequenos brotos dos quais novas células crescem a partir das maiores. Mas você pode ter visto essa espécie sendo vendida como tabletes ou grãos no supermercado, visto que eles são usados para fazer pão e muitas bebidas alcoólicas, como vinho e cerveja, mas o levedo-de-cerveja é muito mais interessante do que só isso.

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Grãos de levedo-de-cerveja seco, mas ainda vivo, da forma como é vendido comercialmente.

As células do levedo-de-cerveja ocorrem naturalmente em frutas maduras, tal como uvas, e essa foi provavelmente a fonte original das linhagens atualmente cultivadas por humanos. O levedo atinge os frutos através de várias espécies de vespas que o têm crescendo em seus intestinos, um ambiente ideal para a reprodução sexual desse fungo.

Como é facilmente cultivado em laboratório e tem um tempo de geração curto, o levedo-de-cerveja se tornou um dos organismos-modelo mais importantes em estudos biológicos atuais. Ele foi, de fato, o primeiro organismo eucarionte a ter o genoma inteiro sequenciado mais de 20 anos atrás.

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Saccharomyces cerevisiae crescendo em ágar sólido no laboratório. Foto de Conor Lawless.**

Mais do que nos dar alimento e bebidas, este levedo extraordinário aumentou nosso conhecimento de expressão gênica, reparo de DNA e envelhecimento, entre muitas outras coisas. Vida longa ao levedo!

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Referências:

Giaever, G.; Chu, A. M.; Ni, L.; Connelly, C. et al. (2002) Functional profiling of the Saccharomyces cerevisiaegenome. Nature 418 (6896): 387-391.

Herskowitz, I. (1988) Life cycle of the budding yeast Saccharomyces cerevisiae. Microbiological Reviews 52 (4): 536-553.

Wikipedia. Saccharomyces cerevisiae. Available at . Access on July 25, 2017.

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Sexta Selvagem: Bolor-Cinzento

por Piter Kehoma Boll

Na Sexta Selvagem de hoje mostraremos como a beleza é só uma questão de perspectiva. Sendo um fungo ascomiceto conhecido comumente como bolor-cinzento, a espécie de hoje geralmente é encontrada crescendo em vegetais em decomposição, especialmente frutas como o morango na foto abaixo:

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Bolor-cinzento crescendo num morango. A maioria das pessoas não consideraria isso como uma imagem bonita. Foto do usuário Rasbak do Wikimedia.*

O bolor-cinzento tem uma nomenclatura biológica controversa, assim como muitos outros fungos. O nome mais comum é Botrytis cinerea, usado para seu estágio assexual (anamorfo), que é o mais comum. Seu estágio sexual (teleomorfo) é conhecido como Botryotina fuckeliana. Eu acho que esse problema, que era comum ao dar nome a fungos com estágio sexual de ocorrência rara ou desconhecida, já foi resolvido, mas como não sou um taxonomista de fungos, não posso falar muito sobre o assunto.

Mais do que somente ter um nome controverso, este fungo também tem uma interação controversa com humanos. Ele é uma praga notável em uvas e pode levar a dois diferentes tipos de infecção nelas. Uma delas é conhecida como “podridão cinzenta” e acontece em condições muito úmidas, levando à perda das uvas. A outra é chamada “podridão nobre” e é uma forma benéfica da infecção que acontece quando a condição úmida é seguida por uma seca, o que leva à produção de um vinho fino e doce devido à concentração de açúcares na uva.

Fora do mundo dos vinhos, contudo, o bolor-cinzento não é algo que você quer crescendo em suas plantações. Visto que ele ataca mais de 200 espécies, muitas delas sendo vegetais alimentícios importantes, há um grande interesse no desenvolvimento de estratégias para reduzir os dano que ele causa. E essas estratégias incluem o uso de pesticidas, óleos essenciais de plantas e mesmo outros organismos que podem parasitar o bolor-cinzento.

Mas não podemos negar que, se olharmos de perto, mesmo o bolor cinzento é belo:

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Uma linda florestinha de bolor-cinzento num morango. Foto de Macroscopic Solutions.**

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Referências:

Wikipedia. Botrytis cinerea. Available at <https://en.wikipedia.org/wiki/Botrytis_cinerea&gt;. Access on June 2, 2017.

WILLIAMSON, B., TUDZYNSKI, B., TUDZYNSKI, P., & VAN KAN, J. (2007). Botrytis cinerea: the cause of grey mould disease Molecular Plant Pathology, 8 (5), 561-580 DOI: 10.1111/j.1364-3703.2007.00417.x

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Sexta Selvagem: Bolor-Preto-do-Pão

por Piter Kehoma Boll

A espécie da Sexta Selvagem de hoje vive em nossas casas e nossos jardins, entre nossa comida e nossas plantações. E toda vez que nós a notamos, nós ficamos incomodados, porque isso significa que algo que queríamos comer agora está estragado. Seu nome é Rhizopus stolonifer, ou bolor-preto-do-pão.

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Bolor-preto-do-pão crescendo num pêssego. Foto de University of Georgia Plant Pathology Archive.*

Com uma distribuição cosmopolita, o bolor-preto-do-pão é principalmente saprófito, crescendo em frutas podres e no pão. Durante sua fase reprodutiva, ele pode ser percebido como um bolor preto e peludo, como na foto acima. Eventualmente essa espécie também pode causar uma infecção no rosto e na orofaringe de humanos, mas mais frequentemente ela pode ser um patógeno de muitas espécies de plantas, assim tendo importância econômica.

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Uma olhada mais de perto nos esporângios de Rhizopus stolonifer. Foto de Stanislav Krejčik.*

O bolor-preto-do-pão é um fungo da ordem Mucorales, conhecidos como bolores-alfinete porque seus esporângios (as estruturas que contêm os esporos sexuais) lembram um alfinete. Estes esporângios, que são pretos, são o que geralmente notamos crescendo na comida que está estragando. Quando os esporângios estão maduros, eles liberam esporos de dois tipos que germinam e originam dois tipos de hifas (conhecidas como + e -) e, quando duas hifas de tipos opostos entram em contato, elas se fundem e criam um zigósporo, que então cresce para originar novos esporângios.

Devido à sua importância como uma praga econômica, há muitos estudos tentando encontrar formas de se livrar dele e muito poucos estudos tentando entender as coisas fascinantes que ele esconde. Que pena.

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Referências:

EOL – Encyclopedia of Life: Rhizopus stolonifer. Disponível em <http://eol.org/pages/2944808/overview >. Acesso em 14 de janeiro de 2107.

Hernández-Lauzardo, A., Bautista-Baños, S., Velázquez-del Valle, M., Méndez-Montealvo, M., Sánchez-Rivera, M., & Bello-Pérez, L. (2008). Antifungal effects of chitosan with different molecular weights on in vitro development of Rhizopus stolonifer (Ehrenb.:Fr.) Vuill Carbohydrate Polymers, 73 (4), 541-547 DOI: 10.1016/j.carbpol.2007.12.020

Wikipedia. Black bread mold. Disponível em <https://en.wikipedia.org/wiki/Black_bread_mold >. Access em 14 de janeiro de 2017.

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Sexta Selvagem: Crosta-rosada

por Piter Kehoma Boll

Se você estiver andando por uma floresta na Europa pode encontrar a casca de algumas árvores coberta por uma fina crosta rosada ou alaranjada. Comumente chamada de crosta-rosada, seu nome científico é Peniophora incarnata.

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Crosta-rosada crescendo em um ramo morto. Foto de Jerzy Opiała.*

Como acontece com a maior parte dos fungos, a crosta-rosada é sapróbica, isto é, se alimenta de material morto, neste caso de madeira morta, se forma que é mais comumente encontrada em ramos mortos. Ela afeta uma variedade de espécies de plantas, especialmente angiospermas, mas pode eventualmente crescer em pinheiros.

Às vezes considerada uma peste por sua habilidade de apodrecer madeira, a crosta-rosada também tem alguns benefícios interessantes. Ela demonstrou possuir atividade microbiana, sendo uma fonte potencial para a produção de antibióticos, e também é capaz de degradar alguns produtos carcinogênicos usados para tratar madeira, como hidrocarbonetos aromáticos policíclicos.

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Referências:

EOL – Encyclopedia of Life. Peniophora Incarnata – Rosy Crust. Disponível em: <http://www.eol.org/pages/1009530/overview&gt;. Acesso em 22 de setembro de 2016.

Lee, H., Yun, S., Jang, S., Kim, G., & Kim, J. (2015). Bioremediation of Polycyclic Aromatic Hydrocarbons in Creosote-Contaminated Soil by Peniophora incarnata KUC8836 Bioremediation Journal, 19 (1), 1-8 DOI: 10.1080/10889868.2014.939136

Suay, I., Arenal, F,, Asensio, F. J., Basilio, A., Cabello, M. A., Díez, M. T., García, J. B., González del Val, A., Gorrochategui, J., Hernández, P., Peláez, F., & Vicente, M. F. (2000). Screening of basidiomycetes for antimicrobial activities Antonie van Leeuwenhoek, 78 (2), 129-140 DOI: 10.1023/A:1026552024021

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Quanto mais preto, melhor… especialmente em Chernobyl

por Piter Kehoma Boll

Todos sabemos que as plantas usam clorofila e outros pigmentos para captar energia da luz e armazená-la em moléculas sintetizadas, um fenômeno chamado de fotossíntese. É a clorofila que faz as plantas (bem como algumas bactérias e algas) serem verdes. Esta habilidade de criar o próprio alimento via fotossíntese é o que separa cianobactérias, algas e plantas de outros organismos, como animais, fungos e protozoários, já que os últimos são geralmente vistos como incapazes de captar energia diretamente do meio.

Essa visão está mudando, no entanto, especialmente para fungos.

Como a maioria dos organismos, os fungos também têm pigmentos, e um dos mais importantes é a melanina (sim, o mesmo pigmento que faz nossa pele,  nosso cabelo e nosso olhos serem escuros). Há algum tempo sabe-se que fungos vivendo em áreas com uma incidência alta de radiação solar são mais ricos em melanina que aqueles em áreas menos iluminadas. Isso acontece, por exemplo, com o mofo preto Aspergillus niger, uma espécie que ataca muitos vegetais, mas que também existe no mundo todo no solo.

Aspergillus niger, o mofo preto, é um fungo melanizado encontrado no mundo todo e que parece amar radiação ionizante. Foto do usuário do Wikimedia, Y_tambe.*

Aspergillus niger, o mofo preto, é um fungo melanizado encontrado no mundo todo e que parece amar radiação ionizante. Foto do usuário do Wikimedia, Y_tambe.*

O simples fato de fungos expostos a níveis mais altos de radiação serem mais escuros poderia simplesmente significar que eles estão se protegendo da radiação nociva que os atinge usando a melanina. Afinal é isso que acontece em animais, incluindo humanos, certo?

Mas esse não é o caso. Fungos melanizados parecem florescer em ambientes com altos níveis de radiação ionizante (raios ultravioletas, X e gama), que geralmente são vistos como muito perigosos à vida. As paredes do reator nuclear danificado de Chernobyl são cobertas de fungos melanizados e eles também são encontrados vivendo muito felizes a bordo da Estação Espacial Internacional. Experimentos demonstraram que estas espécies melanizadas de fungos parecem se beneficiar da radiação, aumentando seu crescimento e sua germinação.

Como isso poderia acontecer? Bem, a única explicação razoável parece ser que a melanina está agindo como um pigmento fotossintético, permitindo que fungos usem radiação ionizante como uma fonte de energia! E vários experimentos confirmaram isso!

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Aspergillus niger crescendo sobre uma cebola. Imagem extraída de gardener.wikia.com.*

Assim, da próxima vez que você vir um grande fungo preto em algum lugar, lembre-se de que sua cor é tão importante para ele quanto o verde é para as plantas. Eles realmente são capazes de usar a melanina como as plantas usam a clorofila e ainda por cima conseguem isso com radiações que seriam letais para outras formas de vida.

Ao final, fungos são mais similares a plantas do que pensávamos quando os considerávamos plantas também.

É uma pena que não possamos usar a melanina de nossa pele para o mesmo propósito.

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Referência:

Dadachova, E.; Casadevall, A. 2008. Ionizing radiation: how fungi cope, adapt, and exploit with the help of melanin. Current Opinion in Microbiology 11:525-531.

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Sexta Selvagem: Fungo-Dente-Sangrento

por Piter Kehoma Boll

Nossa espécie hoje é um belo fungo, Hydnellum peckii, o fungo-dente-sangrento. Ele foi descrito em 1913 por Howard J. Banker e nomeado em homenagem ao botânico C. H. Peck que o coletou em North Elba, Nova Iorque.

Sendo um cogumelo, sua parte visível é composta por seus corpos de frutificação que podem crescer a uma altura de até 10,5 cm. Quando úmidos, estes corpos de frutificação exsudam um suco vermelho, dando ao cogumelo sua bela aparência e seu nome comum. Encontrado ao longo da maior parte da América do Norte, bem como na Eurásia, ele cresce do solo e geralmente está associado com coníferas da família Pinaceae, como os gêneros Pinus, Picea, Tsuga, PseudotsugaAbies.

Espécime jovem de Hydnellum peckii. Foto do usuário da Wikipedia, Bernypisa.

Espécime jovem de Hydnellum peckii. Foto do usuário da Wikipedia, Bernypisa.

Apesar de não ser tóxico, ele possui um sabor tão amargo que se torna não-comestível. De qualquer maneira não seria bom comê-lo, visto que ele acumula o elemento pesado Césio-137 em seu micélio.

H. peckii revelou possuir atromentina, um anticoagulante efetivo similar à heparina que também possui atividade antibacteriana contra a bactéria Streptococcus pneumoniae, inibindo uma enzima essencial para a biossíntese de seus ácidos graxos. Outros usos da atromentina incluem um estimulante para a musculatura lisa e um indutor de apoptose em células U937 de leucemia.

Não somente bonito, ele também é muito útil para propósitos médicos e ecológicos.

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Referências:

Banker, H. J. 1913. Type Studies in the Hydnaceae: V. The Genus Hydnellum. Mycologia, 5 (4), 194-205 DOI:10.2307/3753385

Shiryaev, A. 2008. Diversity and distribution of thelephoroid fungi (Basidiomycota, Thelephorales) in the Sverdlovsk region, Russia. Folia Cryptogamica Estonica, 44, 131-141

Vinichuk, M. M.; Johanson, K. J. & Taylor, A. F. S. 2004. 137Cs in the fungal compartment of Swedish forest soils Science of The Total Environment, 323, 243-251 DOI: 10.1016/j.scitotenv.2003.10.009

Wikipedia. Hydnellum peckii. Available online at <http://en.wikipedia.org/wiki/Hydnellum_peckii>. Access on August 10, 2012.

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