Sexta Selvagem: Amêijoa-Asiática

Desde que os humanos apareceram na Terra e começaram a migrar, carregaram outras espécies com eles para novas localidades. Isto fez os humanos não serem a única espécie a se tornar invasora e, nos últimos séculos, com a movimentação humana pelo planeta se tornando mais e mais intensa, espécies invasoras se tornaram mais e mais comuns.

Entre os moluscos bivalves, duas espécies invasoras bem populares são o mexilhão-zebra e o mexilhão-dourado, mas eles não são os únicos. Há um bivalve pequeno que não é tão frequentemente um incômodo para atividades humanas, mas certamente é um problema para espécies nativas, a chamada amêijoa-asiática, Corbicula fluminea.

Uma amêijoa-asiática em Hong Kong. Foto de Tommy Hui.*

A amêijoa-asiática é nativa do leste da Ásia onde vive enterrada no sedimento de rios, preferindo sedimentos arenosos em águas ricas em oxigênio. Sua pequena concha bivalve mede até 5 cm, apesar de a maioria dos espécimes adultos ter cerca de 3 cm de comprimento. Elas possuem uma cor que varia do marrom ao dourado, às vezes combinados, mas as camadas de cor podem descamar, causando manchas brancas.

O alimento da amêijoa-asiática consiste principalmente de fitoplâncton que ela filtra do sedimento. Populações humanas do leste da Ásia, como os chineses e coreanos, frequentemente usam a amêijoa-asiática como fonte de alimento. Durante o século XX, quando muitas pessoas do leste da Ásia migraram para outros países, a amêijoa-asiática foi levada com eles para ser criada como alimento. Como resultado, o molusco foi introduzido em bacias hidrográficas das Américas do Norte e do Sul e passou a se dispersar rapidamente.

A amêijoa-asiática não é tão tolerante a mudanças ambientais quanto outros bivalves invasores, mas sua vantagem é sua reprodução rápida. Apesar de haver linhagens tanto hermafroditas quanto dioicas, as populações invasoras são todas hermafroditas. A fertilização ocorre dentro do corpo da amêijoa mãe e as larvas se desenvolvem dentro dela, sendo liberadas já como pequenos indivíduos com concha.

Os primeiros registros desta espécie na América do Norte são de áreas na costa oeste dos Estados Unidos nos anos 1920. Um século mais tarde, a espécie é encontrada pelo país todo, tendo atingido a costa leste em menos de quatro décadas, e indo ao norte até o Canadá e ao sul até o México e a América Central.

Amêijoa-asiática em Massachusetts, EUA. Foto do usuário jfflyfisher do iNaturalist.*

Na América do Sul, a espécie foi introduzida simultaneamente no rio La Plata entre a Argentina e o Uruguai e no rio Jacuí no sul do Brasil nos anos 1970. Atualmente, menos de 50 anos depois, ela é encontrada tão ao norte quanto a Colômbia e para o sul até a Patagônia. A espécie também foi introduzida na Europa, na África e na Austrália.

Conchas coletadas no rio La Plata, em Buenos Aires, Argentina. Foto de Diego Gutierrez Gregoric.*

O principal impacto causado pela invasão da amêijoa-asiática é que ela compete com bivalves nativos, frequentemente levando a extinções locais, o que é uma grande ameaça especialmente para espécies raras, as quais podem desaparecer em poucas décadas. Apesar de impactos em atividades humanas não serem tão comuns, há casos de grandes números de indivíduos entupindo canos e outras estruturas.

Uma concha na Colômbia. Foto do usuário gerardochs do iNaturalist.*

Visto que há registros fósseis de espécies do gênero Corbicula na América do Norte, uma hipótese foi levantada sugerindo que, em vez de uma invasão, a disseminação da amêijoa-asiática neste continente é na verdade uma recolonização seguinte à última glaciação e que estes indivíduos podem ser o resultado de pequenas populações que se mantiverem de alguma forma ocultas. No entanto é muito pouco provável que a espécie tenha permanecido escondida em populações muito pequenas por milhares de anos para subitamente começar a se espalhar como o diabo em poucas décadas. Os humanos é que carregam a culpa, como sempre.

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Referências:

Araujo R, Moreno D, Ramos MA (1993) The Asiatic clam Corbicula fluminea (Müller, 1774) (Bivalvia: Corbiculidae) in Europe. American Malacological Bulletin 10(1): 39–49.

Planeta Invertebrados. Corbícula. Available at < http://www.planetainvertebrados.com.br/index.asp?pagina=especies_ver&id_categoria=27&id_subcategoria=0&com=1&id=143 >. Access on 13 February 2020.

Sousa R, Antunes C, Guilhermino L (2008) Ecology of the invasive Asian clam Corbicula fluminea (Müller, 1774) in aquatic ecosystems: an overview. Annales de Limnologie 44(2): 85–94. doi: 10.1051/limn:2008017

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*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição Não Comercial 4.0 Internacional

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