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Sexta Selvagem: Anjo-do-Mar-Comum

por Piter Kehoma Boll

Semana passada apresentei um belo caramujo marinho, a borboleta-do-mar-comum, com seus longos parapódios como asas que lhes permitem nadar. As borboletas-do-mar pertencem a um grupo de gastrópodes marinhos conhecidos como Pteropoda devido a este pé modificado em nadadeiras. Há dois grupos principais de pterópodes, Thecosomata, que possuem concha, e Gymnosomata, que não possuem concha. Enquanto os com concha são chamados de borboletas-do-mar, os sem concha são chamados de anjos-do-mar ou borboletas-do-mar-nuas.

O anjo-do-mar mais popular é Clione limacina, o anjo-do-mar-comum. Seu corpo é em grande parte transparente e, como todos os pterópodes, possui dois parapódios que se parecem com asas e que, junto com o corpo alongado e sem concha, o fazem parecer de fato um anjo. Apesar dessa aparência angelical, o anjo-do-mar-comum é uma criatura terrível.

Apesar da aparência serena, encontrar este belo gastrópode pode ser uma experiência assustadora. Foto de Kevin Raskoff, Hidden Ocean 2005 Expedition: NOAA Office of Ocean Exploration.

Sendo um predador, o anjo-do-mar-comum é especializado em comer a borboleta-do-mar-comum. Ambas as espécies compartilham o mesmo ambiente em águas árticas e sua associação é conhecida há séculos. A forma como o anjo-do-mar-comum captura e come a borboleta-do-mar-comum é impressionante e meio assustadora.

Um espécime, que foi trazido até a praia, em uma mão humana para comparação. Foto do usuário nbenson do iNaturalist.*

Quando um anjo-do-mar detecta uma borboleta-do-mar por perto, ele começa uma perseguição e everte seis cones bucais adesivos da boca, formando uma estrutura em forma de cesto. Essa estrutura é usada para capturar a borboleta-do-mar e, uma vez que o pobre caramujo está preso, o anjo-do-mar gira a concha da borboleta-do-mar até a abertura estar direcionada para a boca do predador.

Depois disso, o terror começa. A pobre borboleta-do-mar já se encolheu toda na concha a essa hora, mas o anjo-do-mar usa um grupo de ganchos quitinosos na boca para perfurar o corpo da borboleta-do-mar e, com ajuda da rádula, puxa o corpo inteiro da presa de dentro da concha, comendo-a toda de uma vez. É provavelmente uma morte horrível para a pobre borboleta-do-mar. Após terminar de engolir a borboleta-do-mar, o anjo-do-mar-comum pode ir atrás da próxima em cerca de dois minutos.

Desenho de um anjo-do-mar-comum se alimentando de uma borboleta do mar comum. BC = cones bucais, HK = ganchos quitinosos, S = a concha da borboleta-do-mar. Extraído de Lalli (1970).

Enquanto o ciclo de vida da borboleta-do-mar-comum é curto, durando só um ano, o do anjo-do-mar-comum é muito mais longo. Como resultado, não há borboletas-do-mar adultas para servirem de alimento para o anjo-do-mar-comum do final do outono até o começo da primavera. Por muito tempo se pensou que o anjo-do-mar-comum passaria esse tempo todo sem comer, e de fato se descobriu que ele pode sobreviver longos períodos de inanição. Contudo análises do conteúdo estomacal do anjo-do-mar-comum revelaram a presença de anfípodes e eventualmente copépodes calanoides, sugerindo que ele possa contar com algumas fontes alternativas de comida em casos de extrema necessidade. Seu alimento principal, contudo, é a borboleta-do-mar-comum sem dúvidas. Eles começam a se alimentar delas quando ainda são larvas, sempre capturando e ingerindo borboletas-do-mar que possuem um tamanho similar ao deles.

Será que o anjo-do-mar-comum conseguirá sobreviver com estas outras presas se as populações da borboleta-do-mar-comum diminuírem com as mudanças climáticas? Acho improvável, e espero que não precisemos chegar ao ponto em que isso se torne uma opção.

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Referências:

Böer M, Graeve M, Kattner G (2006) Exceptional long-term starvation ability and sites of lipid storage of the Arctic pteropod Clione limacina. Polar Biology 30:571–580. doi: 10.1007/s00300-006-0214-6

Conover RJ, Lalli CM (1972) Feeding and growth in Clione limacina (Phipps), a pteropod mollusc. Journal of Experimental Marine Biology and Ecology 9(3):279–302. doi: 10.1016/0022-0981(72)90038-X

Kallevik IHF (2013) Alternative prey choice in the pteropod Clione limacina (Gastropoda) studied by DNA-based methods. Master thesis in Biology, The Arctic University of Norway.

Lalli CM (1970) Structure and function of the buccal apparatus of Clione limacina (Phipps) with a review of feeding in gymnosomatous pteropods. Journal of Experimental Marine Biology and Ecology 4(2):101–118. doi: 10.1016/0022-0981(70)90018-3

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Sexta Sevagem: Borboleta-do-Mar-Comum

por Piter Kehoma Boll

As pessoas amam nomear criaturas marinhas fazendo analogias com coisas encontradas em terra. A espécie de hoje é mais uma desse tipo, sendo a mais bem conhecida espécie das chamadas borboletas-do-mar e, portanto, conhecida como a borboleta-do-mar-comum. Ela não tem nada a ver com borboletas, no entanto, e seu nome científico, Limacina helicina, a descreve melhor.

A borboleta-do-mar-comum é um molusco, mais precisamente um gastrópode e, como tem concha, é um “caramujo”. Ela não se arrasta pelo fundo como a maioria dos caramujos, no entanto. Com uma concha espiral medindo somente 10 mm de diâmetro em média, ela vive na coluna d’água e às vezes é descrita como uma espécie planctônica. Ela pode nadar por conta própria, no entanto, porque seu pé carnoso é transformado em duas expansões chamadas parapódios que agem como duas grandes nadadeiras. Sua concha é transparente e as partes moles são principalmente roxas, apesar de os parapódios serem quase transparentes também.

A borboleta-do-mar-comum é mesmo uma criatura linda, não é? Foto de Russ Hopcroft, University of Alaska, Fairbanks.

O habitat da borboleta-do-mar-comum inclui as águas frias da região ártica, incluindo o Oceano Ártico e áreas vizinhas dos oceanos Pacífico e Atlântico. No Pacífico, ela pode ocorrer para o sul até o Japão e regiões mais ao norte dos Estados Unidos. Espécimes maiores tendem a habitar águas mais profundas, até 150 m de profundidade, enquanto os menores vivem mais perto da superfície, até uma profundidade de 50 m. Até bem recentemente, pensava-se que a borboleta-do-mar-comum também habitasse águas antárticas, mas estudos moleculares revelaram que as populações em torno da Antártica pertencem a outra espécie, Limacina antarctica.

Veja como elas conseguem bater suas asas com velocidade,

A dieta da borboleta-do-mar-comum inclui várias criaturas planctônicas menores, especialmente crustáceos pequenos, como náuplios (larvas) de copépodes, bem como dinoflagelados, ciliados e diatomáceas. Juvenis da própria espécie também são comuns, às vezes compondo o segundo item mais comum da dieta. Para capturar a comida, elas produzem uma teia esférica de muco que flutua acima delas na água. Esta teia captura outros organismos na coluna d’água e depois é sugada e comida pela borboleta-do-mar junto com as criaturas capturadas. Esta teia é muito difícil de ser observada durante o dia por causa da refração difusa, mas aparece claramente à noite. Quando perturbada por luz, no entanto, a borboleta-do-mar-comum tende a engolir sua teia rapidamente e afundar para escapar do perigo.

Uma borboleta-do-mar-comum com sua teia de muco esférica vista como uma concentração coval de partículas mais finas logo acima dela. Extraído de Gilmer & Harbinson (1986).

A fina concha da borboleta-do-mar-comum é constituída de aragonita, a qual é altamente solúvel e sensível a mudanças na temperatura e na acidificação da água. Estudos demonstraram que o esperado aumento da acidificação dos oceanos pelas mudanças climáticas induzidas por humanos provavelmente terá um impacto negativo em populações da borboleta-do-mar-comum e espécies relacionadas. Isso é particularmente preocupante em relação à borboleta-do-mar-comum porque ela é uma espécie-chave nos ecossistemas árticos, sendo uma fonte de alimento importante para muitos animais marinhos, como peixes, baleias, aves e até outros moluscos.

Esse caramujinho não vai se dar por vencido tão facilmente, no entanto. Estudos mostraram que o periostraco (a camada externa orgânica da concha) pode impedir que a aragonita se dissolva e que um trauma físico que quebre o periostraco, permitindo contato direto da aragonita com a água, é necessário para causar a dissolução. E mesmo quando isso acontece, a borboleta-do-mar-comum pode compensar construindo novas camadas de aragonita na superfície interna da concha e consegue extrair aragonita da água para esse propósito mesmo quando os níveis na água estão muito baixos.

A borboleta-do-mar-comum é pequena mas também é durona.

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Referências:

Corneau S, Alliouane S, Gattuso JP (2012) Effects of ocean acidification on overwintering juvenile Arctic pteropods Limacina helicina. Marine Ecology Progress Series 456:279–284. doi: 10.3354/meps09696

Comeau S, Jeffree R, Teyssié JL, Gattuso JP (2010) Response of the Arctic pteropod Limacina helicina to projected future environmental conditions. PLoS One 5(6):e11362. doi: 10.1371/journal.pone.0011362

Gilmer RW, Harbinson GR (1986) Morphology and field behavior of pteropod molluscs: feeding methods in the families Cavoliniidae, Limacinidae and Peraclididae (Gastropoda: Thecosomata). Marine Biology 91:47–57. doi: 10.1007/BF00397570

Gilmer RW, Harbinson GR (1991) Diet of Limacina helicina (Gastropoda: Thecosomata) in Arctic waters in midsummer. Marine Ecology Progress Series 77:125–134.

Lischka S, Büdenbender J, Boxhammer T, Riebesell U (2011) Impact of ocean acidification and elevated temperatures on early juveniles of the polar shelled pteropod Limacina helicina: mortality, shell degradation, and shell growth.  Biogeosciences 8:919–932. doi: 10.5194/bg-8-919-2011

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Sexta Selvagem: Nerita-Preta-Havaiana

por Piter Kehoma Boll

O mar é tão cheio de formas de vida diferentes que é difícil deixá-lo uma vez que estamos nele. Assim, continuaremos no mar esta semana, mas indo para o meio o Oceano Pacífico, mais precisamente para as ilhas do Havaí. Ali, na praia, podemos achar a espécie de hoje.

Um agregado de Nerita picea em Kauai. Foto de Phil Liff-Grief.*

Chamada Nerita picea, ela é um pequeno caramujo encontrado em praias rochosas pela maior parte do Havaí, geralmente em agregados. Ela é comumente chamada de nerita-preta-havaiana, mas os havaianos nativos a chamam de pipipi.

Conchas vazias da nerita-preta-havaiana. Foto de Donna Pomeroy.**

A nerita-preta-havaiana mede cerca de 1 cm de comprimento e sua concha é externamente preta com cristas espirais, às vezes com uma fina linha mais clara correndo entre elas, e frequentemente com um tom esbranquiçado na ponta da espiral. Suas cristas são relativamente pouco marcadas quando comparada com outras espécies de nerita. Internamente a concha é branca. As partes moles do corpo também são em sua maioria pretas e assim é o opérculo, a tampa que fecha a abertura da concha quando o caramujo se retrai. O pé, no entanto, é mais claro. Quando um animal vivo é pego, ele se retrai rapidamente para dentro da concha, cobrindo a abertura com o opérculo e deixando uma margem branca ao seu redor.

Um espécime vivo com as partes moles visíveis. Foto de  Isaac Lord.**

Como a maioria dos caramujos da zona entre-marés, a nerita-preta-havaiana é herbívora e come as algas crescendo nas rochas. Ela prefere viver na zona onde as ondas quebram ou ligeiramente acima desta, diferente de seu parente mais próximo, Nerita plicata, que vive na zona superior, evitando as ondas.

Devido à sua distribuição tropical, a nerita-preta-havaiana se reproduz continuamente ao longo do ano. Não existe dimorfismo sexual entre machos e fêmeas, o que é, eu acho, “a regra” para caramujos.

A nerita-preta-havaiana era tradicionalmente usada como alimento pelos nativos havaianos e suas conchas podem ser encontradas em grande número em sítios arqueológicos do arquipélago, que datam de mais de mil anos no passado. Conchas vazias da nerita-preta-havaiana também são comumente usadas por pequenos caranguejos eremitas do gênero Calcinus.

Caranguejos-eremitas Calcinus usando as conchas de neritas-pretas-havaianas mortas. Foto de CA Clark.***

Apesar de ser uma espécie comum no Havaí e ter uma importância histórica como alimento, pouco parece ser conhecido sobre a história de vida da nerita-preta-havaiana.

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Referências:

Dye T (1994) Apparent ages of marine shells: implications for archaeological dating in Hawai’i. Radiocarbon 36(1):51–57.

Frey MA (2010) The relative importance of geography and ecology in species diversification: evidence from a tropical marine intertidal snail (Nerita). Journal of Biogeography 37:1515–1528. doi: 10.1111/j.1365-2699.2010.02283.x

Pfeiffer CJ (1992) Intestinal Ultrastructure of Nerita picea (Mollusca: Gastropoda), an Intertidal Marine Snail of Hawaii. Acta Zoologic 73(1):39–47. doi: 10.1111/j.1463-6395.1992.tb00947.x 

Reese ES (1969) Behavioral adaptations of intertidal hermit crabs. American Zoologist 9(2):343–355. doi: 10.1093/icb/9.2.343

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*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição Não Comercial e Compartilhamento Igual 4.0 Internacional.

**Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição Não Comercial 4.0 Internacional

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Sexta Selvagem: Caramujo-Pião-Morango

por Piter Kehoma Boll

Olhe para essa coisa:

É tão lindamente vermelha como um morango que sinto minha boca salivar e um desejo de mordê-la. Mas em vez de uma fruta doce e suculenta como um morango, é uma concha salgada e dura da espécie Clanculus puniceus, que possui o nome comum apropriado de caramujo-pião-morango.

Esta espécie é encontrada no Oceano Índico ao longo da costa leste da África, do Mar Vermelho ao Cabo Agulhas, incluindo ilhas próximas como Madagascar e as Mascarenas. Ela pertence à família Trochidae, comumente chamados de concha-pião ou caramujo-pião porque a concha lembra o brinquedo com esse nome.

Caramujo-pião-morango na África do Sul. Foto do usuário jaheymans do iNaturalist.*

A concha do caramujo-pião-morango mede, no adulto, pelo menos 15 mm de diâmetro, atingindo até 23 mm, e possui uma linda cor vermelha, causada por uroporfirinas, que varia de vermelho-alaranjado a carmesim. A espiral da concha, quando vista de cima, possui uma linha formada por pontos pretos, causados por melanina, intercalados por dois ou três pontos brancos. Quando vista de baixo, há duas linhas adicionais com esse padrão que correm lado a lado perto da abertura da concha.

A concha vista de vários ângulos. Foto de H. Zell.**

Como de costume entre caramujos-piões, o caramujo-pião-morango vive nas zonas entre-marés e sublitoral e se alimenta de algas que raspa das rochas usando sua língua dentada (a rádula). Eles são dioicos, isto é, há indivíduos machos e fêmeas, como de costume entre caramujos marinhos, mas não existe dimorfismo sexual.

Devido à sua beleza, a concha do caramujo-pião-morango é altamente desejada por colecionadores de conchas. Contudo pouco se sabe sobre a história natural desta espécie em particular. Eu nem mesmo consegui encontrar uma fotografia na qual o caramujo em si é visível.

Esta foi a única fotografia que encontrei em que a parte mole do corpo de um caramujo do gênero Clanculus é visível. A espécie, de Taiwan, não foi identificada. Foto de Cheng Te Hsu.***

Se você trabalha com esta espécie ou pelo menos possui uma fotografia de um espécime vivo mostrando o caramujo dentro da concha, por favor, compartilhe! Precisamos de mais informação disponível sobre as maravilhosas criaturas que compartilham este planeta conosco.

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Mais caramujos marinhos:

Sexta Selvagem: Lapa-Ornada (em 3 de maio de 2019)

Sexta Selvagem: Cone-Tulipa (em 29 de dezembro de 2017)

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Referências:

Herbert DG (1993) Revision of the Trochinae, tribe Trochini (Gastropoda: Trochidae) of southern Africa. Annals of the Natal Museum 34(2): 239–308.

Wikipedia. Trochidae. Available at < https://en.wikipedia.org/wiki/Trochidae >. Access on 29 July 2019.

Williams ST, Ito S, Wakamatsu K, Goral T, Edwards NP, Wogelius RA, Henkel T, Oliveira LFC, Maia LF, Strekopytov S, Jeffries T, Speiser DI, Marsden JT (2016) Identification of Shell Colour Pigments in Marine Snails Clanculus pharaonius and Cmargaritarius (Trochoidea; Gastropoda). PLoS ONE 11(7): e0156664. doi: 10.1371/journal.pone.0156664

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**Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição 3.0 Não Adaptada.

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Sexta Selvagem: Lapa-Ornada

por Piter Kehoma Boll

Gastrópodes são a classe de animais mais rica em espécies na Terra depois dos insetos, mas faz muito tempo desde que apresentei o último. Então hoje vou trazer um da costa da Nova Zelândia, a lapa-ornada Cellana ornata.

Duas lapas-ornadas na costa de Northland, Nova Zelândia. Foto do usuário pedromalpha do iNaturalist.*

Seu corpo em forma de cone, como na maioria das lapas, possui um padrão característico que pode ser usado para reconhecê-la. Há uma série de cristas elevadas correndo do centro escuro em direção às margens da concha. Geralmente há onze delas e elas possuem um tom alaranjado, às vezes muito intenso, quase vermelho ou marrom, e às vezes bem fraco, quase branco. A região entre as cristas é mais escura, geralmente preta, e possui uma fileira de nódulos correndo paralela às cristas, às vezes com uma fileira de nódulos adicionais menores de cada lado. O padrão pode ser obscurecido por organismos crescendo na concha, especialmente algas e cracas.

Uma lapa-ornada coberta de cracas. Foto do usuário pedromalpha do iNaturalist.*

Como de costume entre lapas, a lapa-ornada vive na zona entremarés na superfície de rochas. Ela se alimenta de algas crescendo no substrato, raspando-as da rocha usando sua rádula, a língua dentada dos gastrópodes. Quando as ondas estão batendo nas rochas ou a rocha é exposta ao sol e está secando, a lapa-ornada baixa a concha contra o substrato e se mantém firmemente presa usando seu pé poderoso. Somente quando as condições são ideais, isto é, quando a rocha esta está molhada e sem ondas fortes, é que a lapa-ornada se desloca.

Um belo espécime da lapa-ornada na Ilha Stweart. Foto do usuário naturewatchwidow do iNaturalist.**

A lapa-ornada vive cerca de dois anos e sua reprodução acontece durante o verão, por volta de fevereiro, o que significa que cada indivíduo reproduz no máximo duas vezes antes de morrer. Condições ambientais provavelmente afetam a longevidade, porque espécimes vivendo em rochas menos expostas possuem um metabolismo mais elevado que aqueles habitando um substrato que está constantemente sujeito à dessecação e que os força a ficaram inativos por longos períodos.

Comparada a outras espécies proximamente relacionadas, a lapa-ornada possui uma vida curta e poucos eventos reprodutivos. Mesmo assim, ela ainda é uma espécie comum pela Nova Zelândia, tendo desenvolvido uma fecundidade elevada que a permite proliferar.

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Referências:

Dunmore RA, Schiel DR (2000) Reproduction of the intertidal limpet Cellana ornata in southern New Zealand. New Zealand Journal of Marine and Freshwater Research 34(4): 653–660. doi: 10.1080/00288330.2000.9516966

Smith SL (1975) Physiological ecology of the limpet Cellana ornata (Dillwyn). New Zealand Journal of Marine and Freshwater Research 9(3): 395–402. doi: 10.1080/00288330.1975.9515575

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Sexta Selvagem: Cone-Tulipa

por Piter Kehoma Boll

O ano já quase terminou, mas se você tocasse a espécie da Sexta Selvagem de hoje, ele terminaria agora mesmo e sem um ano novo depois dele.

Vivendo ao longo das costas do Oceano Índico, incluindo África Oriental, Madagascar, Índia, Australia Ocidental e vários arquipélagos como as Mascarenas e as Filipinas, nosso camarada, Conus tulipa, é popularmente conhecido como o cone-tulipa. Apesar do belo nome, contudo, ele não é uma espécie legal de se ter por perto.

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Um espécie vivo de Conus tulipa na ilha Reunião, nas Mascarenas. Foto de Philippe Bourjon.*

O cone-tulipa é uma espécie do gênero Conus, formado por caramujos marinhos predadores que se alimentam de uma variedade de animais, tais como peixes, vermes e outros moluscos. Eles capturam a presa ferroando-a com um arpão venenoso que é feito de um dente modificado de sua rádula (língua). Os arpões são armazenados em um saco e disparados em presas próximas. Como muitas espécies se alimentam de presas rápidas, como peixes, o veneno é muito poderoso, podendo matar o alvo em poucos segundos. Em algumas espécies, incluindo o cone-tulipa, esse veneno poderoso é forte o bastante para matar um ser humano adulto.

Como acontece com outras espécies peçonhentas, no entanto, nem tudo é ruim. Várias toxinas diferentes e outros componentes foram recentemente isolados do veneno do cone-tulipa, muitos dos quais podem eventualmente ser usados para desenvolver novos medicamentos.

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Referências:

Alonso, D.; Khalil, Z.; Satkunanthan, N.; Livett, B. G. (2003) Drugs From the Sea: Conotoxins as Drug Leads for Neuropathic Pain and Other Neurological Conditions. Mini Reviews in Medicinal Chemistry3: 785–787.

Dutertre, S.; Croker, D.; Daly, N. L., Anderson, Å,.; Muttenhaler, M.; Lumsden, N. G.; Craik, D. J.; Alewood, P. F.; Guillon, G.; Lewis, R. J. (2008) Conopressin-T from Conus tulipa reveals an anatagonist switch in vasopressin-like peptides. Journal of Biological Chemistry283, 7100–7108.

Hill, J. M.; Alewood, P. F.; Craik, D. J. (2000) Conotoxin TVIIA, a novel peptide from the venom of Conus tulipa. The FEBS Journal, 267 (15): 4649–4657.

Wikipedia. Conus tulipa. Disponível em < https://en.wikipedia.org/wiki/Conus_tulipa >. Acesso em 28 de dezembro de 2017.

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Sexta Selvagem: Dragão-azul

por Piter Kehoma Boll

A segunda espécie de hoje é um terrível mas lindo predador da caravela-portuguesa, o dragão-azul Glaucus atlanticus que é, na minha opinião, uma das mais belas criaturas marinhas.

glaucus_atlanticus

Não é uma criatura magnífica? Photo de Sylke Rohrlach.*

Também conhecido como glauco-azul ou lesma-marinha-azul, entre muitos outros nomes, o dragão-azul é uma pequena lesma marinha que mede até 3 cm de comprimento quando adulto. Esta espécie é pelágica, o que significa que vive no oceano aberto, nem perto do fundo nem perto da costa. Apesar de ser encontrado em todos os três oceanos, evidências genéticas indicam que as populações do Atlântico, do Pacífico e do Índico divergiram mais de um milhão de anos atrás.

O dragão-azul possui um saco preenchido de gás no estômago que o faz flutuar de cabeça para baixo na água, de forma que seu lado ventral fica para cima. A larga faixa bordeada de azul ao longo do corpo, como vista na imagem acima, é o pé da lesma. Seu lado dorsal, que fica virado para baixo, é completamente branco ou cinza-claro.

Sendo uma espécie carnívora, o dragão-azul se alimenta de várias espécies de cnidários, especialmente da caravela-portuguesa. Ele geralmente coleta os cnidócitos (as células urticantes) da presa e as põe no próprio corpo, de forma que ele se torna não urticante ou até mais do que sua presa. Se você encontrar um caído na praia, tenha cuidado.

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Referências:

Churchull, C. K. C.; Valdés, Á.; Foighil, D. Ó (2014) Afro-Eurasia and the Americas present barriers to gene flow for the cosmopolitan neustonic nudibranch Glaucus atlanticus. Marine Biology, 161(4): 899-910.

Wikipedia. Glaucus atlanticus. Disponível em < https://en.wikipedia.org/wiki/Glaucus_atlanticus >. Acesso em 18 de junho de 2017.

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