A planária-da-Nova-Guiné visita a França – uma ameaça

por Piter Kehoma Boll

Desde que a vida existe, ela se espalha. Os organismos se movem (mesmo que somente como gametas ou esporos) e conquistam novos ambientes caso se adaptem. Se não fosse assim, a vida não seria encontrada por todo o planeta. Recentemente, porém, devido à dispersão humana, as espécies conseguem atingir locais bem longe de onde nasceram muito mais facilmente. Consideramos espécies vivendo fora de sua área nativa como sendo exóticas. E há várias delas. Será que existe algum lugar sem espécies exóticas hoje em dia?

No primeiro post deste blog, eu falei sobre como espécies exóticas não são sempre uma ameaça a ecossistemas nativos. Mas muitas são, de fato, perigosas à diversidade local. O ISSG (Invasive Species Specialist Group) lista o que são consideradas as 100 piores espécies invasoras. Estranhamente eles esquecem de mencionar a pior de todas elas, Homo sapiens.

Entre essas 100 espécies, uma bem famosa é o caracol-gigante-africano, Achatina fulica. Nativo da África Oriental, ele foi introduzido por todo o mundo e é uma grande praga em jardins e áreas agrícolas, e também pode ser um hospedeiro intermediário de diversos parasitas que infectam humanos.

O caracol-gigante-africano Achatina fulica. Foto de Eric Guinther*. Extraído de commons.wikimedia.org

O caracol-gigante-africano Achatina fulica. Foto de Eric Guinther*. Extraído de commons.wikimedia.org

Numa tentativa de controlar a população de Achatina fulica, algum “gênio” decidiu introduzir mais uma espécie exótica nas áreas onde A. fulica era uma praga: um predador de caracóis voraz e generalista.

Vamos lutar contra uma praga exótica com outra praga exótica!

Vamos lutar contra uma praga exótica com outra praga exótica!

Como resultado, o caracol predador Euglandina rosea, conhecido como “caracol-lobo-rosado” ou “caracol-canibal” em inglês, foi introduzido em áreas infestadas por A. fulica. Mas E. rosea é nativo da América do Norte, enquanto A. fulica é da África Oriental. De forma a ser efetivo, E. rosea precisava ser um predador generalista, se alimentando de qualquer tipo de caracol. E é isso que ele faz…

O caracol-lobo-rosado Euglandina rosea. Foto de Tim Ross. Extraído de commons.wikimedia.org

O caracol-lobo-rosado Euglandina rosea. Foto de Tim Ross. Extraído de commons.wikimedia.org

Euglandina rosea passou a predar A. fulica, mas… ops! Ele também atacou caracóis nativos e levou diversas espécies à extinção em ilhas do Pacífico. Ele se tornou uma praga ainda pior que o caracol-gigante-africano…

Não satisfeitas com o dano causado por este predador, as pessoas decidiram introduzir mais uma espécie para controlar A. fulica. E a escolha foi outro predador de caracóis voraz e generalista, a planária-da-Nova-Guiné Platydemus manokwari. Como o nome sugere, a planária-de-Nova-guiné é nativa da Nova Guiné, novamente um lugar diferente e, assim, para se alimentar o caracol-gigante-africano, ela precisaria se alimentar de qualquer tipo de caracol. Assim, ela se tornou uma praga tão perigosa quanto a anterior e levou diversas espécies de caracóis à extinção em ilhas do Pacífico.

Até recentemente se pensava que a infestação da planária-da-Nova-Guiné estava restrita à região Indo-Pacífica, não muito longe de casa. Contudo um artigo recente de Justine et al. (2014) registra sua presenta em uma estufa em Caen, no norte da França. Este registro expande significativamente sua ocorrência no mundo e indica que ela pode estar muito mais disseminada do que se pensava anteriormente. Infelizmente, as pessoas estão mais interessadas em preservar seus jardins do que preservar a biodiversidade. Assim estas pragas predadoras provavelmente continuarão sendo introduzidas como controle biológico, mesmo sendo ameaças a ecossistemas.

Bonjour tout le monde! Vim visitar Paris! A planária-da-Nova-Guiné Platydemus manokwari. Foto de Pierre Gros**, extraída de Justine et al., 2014 via commons.wikimedia.org

Bonjour tout le monde! Vim visitar Paris! A planária-da-Nova-Guiné Platydemus manokwari. Foto de Pierre Gros**, extraída de Justine et al., 2014 via commons.wikimedia.org

Felizmente, na França, P. manokwari parece restrista a estufas. Esperemos que ela não seja encontrada em mais nenhum outro lugar.

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Referências:

Albuquerque, F., Peso-Aguiar, M., & Assunção-Albuquerque, M. 2008. Distribution, feeding behavior and control strategies of the exotic land snail Achatina fulica (Gastropoda: Pulmonata) in the northeast of Brazil. Brazilian Journal of Biology, 68 (4), 837-842 DOI: 10.1590/S1519-69842008000400020

ISSG, Invasive Species Specialist Group. 100 of the World’s Worst Invasive Alien Species. Availabe at: < http://www.issg.org/database/species/search.asp?st=100ss >. Access on April 04, 2014.

Justine, J., Winsor, L., Gey, D., Gros, P., & Thévenot, J. 2014. The invasive New Guinea flatworm in France, the first record for Europe: time for action is now. PeerJ, 2DOI: 10.7717/peerj.297

Sugiura, S., Okochi, I., & Tamada, H. 2006. High Predation Pressure by an Introduced Flatworm on Land Snails on the Oceanic Ogasawara Islands. Biotropica, 38(5), 700-703 DOI: 10.1111/j.1744-7429.2006.00196.x

Sugiura, S., & Yamaura, Y. 2008. Potential impacts of the invasive flatworm Platydemus manokwari on arboreal snails. Biological Invasions, 11 (3), 737-742 DOI: 10.1007/s10530-008-9287-1

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