Espécies exóticas: elas são sempre um problema?

por Piter Kehoma Boll

Nas últimas décadas, espécies não nativas se tornaram vítimas de discriminação por parte de conservacionistas, legisladores, bem como entre cientistas, sendo condenadas por levarem espécies nativas à extinção e por “poluírem” ambientes naturais. No entanto abordagens de manejo atuais precisam considerar que sistemas naturais estão se alterando sem volta graças a mudanças climáticas, urbanização, eutrofização e outras mudanças resultantes do uso da terra.

Certamente muitas espécies introduzidas por humanos levaram a extinções e reduziram serviços ecológicos valiosos. A malária aviária, introduzida no Havaí com espécies de aves não nativas trazidas por europeus, matou mais de metade das espécies nativas. O mexilhão-zebra Dreissena polymorpha, originalmente nativo da Rússia e introduzido na América do Norte, e o mexilhão-dourado Limnoperna fortunei, nativo do sul da Ásia e introduzido na América do Sul, se tornaram um grande problema por bloquearem encanamentos de água.

Mexilhão-zebra, uma espécie invasiva na América do Norte. Foto por GerardM, da Wikipedia.

Mexilhão-zebra, uma espécie invasiva na América do Norte. Foto por GerardM, da Wikipedia.

Mas a maioria das afirmações sobre o papel destrutivo de espécies invasoras é baseado em Wilcove et al. (1998) que afirma que espécies invasoras são a segunda maior ameaça a espécies ameaçadas depois da perda de habitat, mas isso é pouco suportado por dados. Na verdade, em muitos casos a introdução de espécies exóticas aumentou a riqueza de espécies em uma região.

Os efeitos de uma espécie invasora que não causa problemas agora pode se tornar um perigo no futuro, mas o mesmo se aplica a espécies nativas. A condição de ser nativo não é sinal de um efeito necessariamente positivo. O inseto suspeito de matar mais árvores do que qualquer outro na América do Norte é o besouro nativo Dendroctonus ponderosae. Muitas espécies de árvores frutíferas introduzidas se tornaram fontes importantes de alimentação para aves locais, atraindo-as e até mesmo auxiliando na dispersão de espécies nativas.

A ideia não é defender espécies invasoras em todos os casos, mas incitar uma abordagem mais analítica da situação. Em vez de condenar cegamente uma espécie só por não ser nativa, planos de manejo precisam ser baseados em evidências empíricas e não em afirmações sem fundamento.

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Referência:

Davis et al. 2001: Don’t judge species on their origins. Nature, 474, 153-154.

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2 Comentários

Arquivado em Ecologia

2 Respostas para “Espécies exóticas: elas são sempre um problema?

  1. Piter, excelênte colocação … parabéns !

  2. Pingback: A planária-da-Nova-Guiné visita a França – uma ameaça | Natureza Terráquea

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