Invasões alienígenas: a resistência está nos arroios

por Piter Kehoma Boll

Atividades humanas têm introduzido, seja deliberadamente ou acidentalmente, várias espécies em áreas fora de sua região nativa. Muitas destas espécies, quando alcançam um novo ecossistema, podem ter efeitos devastadores nas comunidades locais.

Uma prática comum é a introdução de peixes exóticos para produção de alimento ou para recreação. Apesar de o impacto de espécies de peixes exóticos poder ser severo, há vários fatores que modulam esta severidade. Contudo uma situação na qual os resultados podem ser catastróficos é quando peixes são introduzidos em corpos d’água que originalmente não possuíam peixes.

Arroios e lagos de montanha geralmente não possuem peixes por causa de barreiras físicas, especialmente quedas d’água, pois elas previnem peixes de se moverem rio acima. Mas peixes foram introduzidos em muitos lagos de montanha para fornecer um estoque local de alimento ou para pesca esportiva.

Um local que recebeu tal praga foi o Parque Nacional Gran Paradiso nos Alpes Italianos Ocidentais. Durante os anos 1960, a truta-das-fontes, Salvelinus fontinalis, um peixe que é nativo da América do Norte, foi introduzida em vários dos lagos de altitude do parque. Mais tarde, quando a área se tornou protegida, a pesca foi proibida.

Salvelinus fontinalis, a truta-das-fontes. Foto de Alex Wild.

De 2013 a 2017, um programa de erradicação de peixes foi conduzido em quatro lagos do parque: Djouan, Dres, Leynir e Nero. Os peixes foram capturados usando redes de emalhar e pesca elétrica. Como as trutas haviam colonizado os arroios que são conectados aos lagos, tiveram de ser removidas de lá também.

As comunidades de organismos vivendo em lagos e arroios foram monitoras para avaliar sua recuperação após a remoção dos peixes. Os lagos mostraram uma resiliência notável, chegando a uma estrutura de comunidade similar à de lagos onde peixes nunca foram introduzidos. Os arroios, por outro lado, não apresentaram grande diferença antes e depois da remoção de peixes. A razão, no entanto, não é porque os arroios possuem pouca resiliência. Ao contrário, os arroios mostraram grande resistência à invasão dos peixes. As trutas não pareceram afetar tanto as comunidades de macroinvertebrados de arroios. Mas por quê?

Lago Dres no Parque Nacional Gran Paradiso. Imagem extraída do website do parque (http://www.pngp.it).

Uma hipótese era de que macroinvertebrados constantemente colonizam os arroios por dispersão passiva, vindo de águas rio acima. Contudo isso não é aplicável a arroios que drenam os lagos, já que as comunidades de arroios e lagos são bem diferentes. Baixa predação por parte das trutas não é uma opção tampouco, porque se demonstrou que trutas de arroio na verdade comem mais que as de lago. Talvez invertebrados de arroio se reproduzam mais rapidamente que os de lagos? Não! Estudos demonstraram que isso é similar em ambos os ambientes.

A razão por que invertebrados de arroio são menos afetados pela introdução de peixes ainda é um mistério. Uma explicação possível é que arroios apresentam mais micro-habitats que não são explorados pelas trutas, fornecendo refúgio para os invertebrados. Precisamos de mais estudos para entender o que está acontecendo.

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Referências:

Tiberti R, Bogliani G, Brighenti S, Iacobuzio R, Liautaud K, Rolla M, Hardenberg A, Bassano B. (2019) Recovery of high mountain Alpine lakes after the eradication of introduced brook trout Salvelinus fontinalis using non-chemical methods. Biological Invasions 21: 875–894. doi: 10.1007/s10530-018-1867-0

Tiberti R, Brighenti S (2019) Do alpine macroinvertebrates recover differently in lakes and rivers after alien fish eradication? Knowledge & Management of Aquatic Ecosystems 420: 37. doi: 10.1051/kmae/2019029

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Arquivado em Conservação, Ecologia, Peixes

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