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Indo longe com a boca aberta a novos sabores

por Piter Kehoma Boll

Todo mundo sabe que atividades humanas levaram nosso ambiente em direção a uma situação infeliz. As formas mais populares de impacto humano incluem poluição, desmatamento e superexploração de recursos naturais, mas certamente um fator importante no remodelamento de ecossistemas é a invasão de espécies.

Enquanto os humanos se movem ao redor do mundo, eles levam muitas espécies consigo, seja intencionalmente ou não, e algumas delas se estabelecem com sucesso no novo ambiente, enquanto outras não. Mas o que faz com que algumas espécies sejam invasores bem-sucedidos enquanto outras são incapazes disso?

É evidente há algum tempo que ter um nicho amplo, isto é, uma ampla tolerância a condições ambientas e um amplo uso de recursos, é importante para ser bem-sucedido em invadir um novo habitat. A amplitude de nicho trófico, isto é, a quantidade de tipos diferentes de comida que se pode ingerir, está entre as dimensões mais importantes do nicho a influenciar a disseminação de uma espécie.

Eu mesmo estudei a amplitude de nicho trófico de seis planárias terrestres neotropicais na minha dissertação de mestrado (veja referências abaixo), e ficou claro que as espécies com o nicho mais amplo são mais prováveis de se tornarem invasoras. Na verdade aquela com o nicho mais amplo, Obama nungara, já é uma invasora na Europa, como já discuti aqui.

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Um espécime de Obama nungara do Sul do Brasil que eu usei em minha pesquisa. Foto por mim mesmo, Piter Kehoma Boll.*

Mas a O. nungara possui um nicho trófico amplo em seu local de ocorrência nativo, que inclui o sul do Brasil, e provavelmente refletiu essa amplitude na Europa. Mas uma espécie que possui um nicho trófico mais restrito em seu local nativo poderia ampliá-lo em um novo ambiente?

Um estudo recente por Courant et al. (veja referências) investigou a dieta da rã-de-unhas-africana, Xenops laevis, que é uma espécie invasora em muitas partes do mundo. Eles compararam sua dieta em seu local de origem na África do Sul com aquela em várias populações em outros países (Estados Unidos, País de Gales, Chile, Portugal e França).

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A rã-de-unhas-africana Xenopus laevis. Foto de Brian Gratwicke.**

Os resultados indicaram que X. laevis possui um nicho consideravelmente amplo tanto em seus locais nativos quanto nos não-nativos, mas a dieta em Portugal apresentou uma mudança maior comparada àquela em outras áreas, o que indica uma grande habilidade de se adaptar a novas situações. De fato, a população de Portugal vive em água corrente, enquanto em todos os outros locais esta espécie prefere água parada.

Podemos concluir que parte do sucesso da rã-de-unhas-africana ao invadir novos habitats está relacionada à sua habilidade de provar novos sabores, aumentando seu nicho trófico além daquele de suas populações originais. A situação em Portugal, incluindo um ambiente diferente e uma dieta diferente, também pode ser o resultado de uma pressão seletiva maior e talvez as chances são de que esta população irá se transformar em uma nova espécie mais cedo que as demais.

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Referências:

Boll PK & Leal-Zanchet AM (2016). Preference for different prey allows the coexistence of several land planarians in areas of the Atlantic Forest. Zoology 119: 162–168.

Courant J, Vogt S, Marques R, Measey J, Secondi J, Rebelo R, Villiers AD, Ihlow F, Busschere CD, Backeljau T, Rödder D, & Herrel A (2017). Are invasive populations characterized by a broader diet than native populations? PeerJ 5: e3250.

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Sexta Selvagem: “Caracol-onça-alaranjado”

por Piter Kehoma Boll

Semana passada apresentei uma planária terrestre que se alimenta de caracóis, Obama ladislavii, ou, como eu a chamei, a planária-de-Ladislau. Assim, hoje pensei que seria legal apresentar uma situação similar ocorrendo ao contrário: um caracol que se alimenta de planárias terrestres.

Então deixe-me introduzir este pequeno predador, o caracol Rectartemon depressus. Ele não é uma espécie amplamente conhecida e assim não possui nomes populares, mas por que não chamá-lo de “caracol-onça-alaranjado”? Espécies do gênero Euglandina, que também são caracóis predadores, são chamadas de “caracóis-lobo” em inglês por comparação com um predador comum na América do Norte. Como espécies de Rectartemon são comuns na América do Sul, nós poderíamos chamá-los perfeitamente de “caracóis-onça”, certo?

Rectartemon depressus prestes a capturar uma planária terrestre Obama marmorata. Foto extraída de Lemos et al., 2012

Rectartemon depressus prestes a capturar uma planária terrestre Obama marmorata. Foto extraída de Lemos et al., 2012

Encontrado em áreas de Mata Atlântica no Brasil, o caracol-onça-alaranjado possui um corpo que varia de amarelo a laranja e uma concha esbranquiçada. É listado como uma espécie vulnerável na Lista Vermelha do Brasil, mas não é mencionado na Lista Vermelha da IUCN.

Inicialmente conhecido como um predador de outros gastrópodes terrestres, o caracol-onça-alaranjado revelou um novo item de sua dieta recentemente. Durante tentativas de encontrar itens alimentares da dieta de algumas planárias terrestres do sul do Brasil, o caracol-onça-alaranjado foi oferecido como uma opção de alimento, mas enquanto as expectativas eram de que a planária comeria o caracol, o oposto aconteceu! Após entrar em contato com a planária terrestre, o caracol simplesmente a captura com sua rádula (a língua com dentes do caracol) e a suga muito rapidamente, como se estivesse comendo um macarrão!

O caracol-onça-alaranjado consome avidamente diversas planárias terrestres, tanto espécies nativas quanto exóticas. Isso faz dele um dos primeiros predadores conhecidos de planárias terrestres. Uma de suas presas é a planária-de-Ladislau, de forma que temos um caracol que come uma planária que come caracóis!

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Referências:

Lemos, V., Canello, R., & Leal-Zanchet, A. 2012. Carnivore mollusks as natural enemies of invasive land flatworms. Annals of Applied Biology, 161 (2), 127-131 DOI: 10.1111/j.1744-7348.2012.00556.x

Santos, S. B., Miyahira, I. C., Mansur, M. C. D. 2013. Freshwater and terrestrial molluscs in Brasil: current status of knowledge and conservation. Tentacle, 21, 40-42.

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A planária-da-Nova-Guiné visita a França – uma ameaça

por Piter Kehoma Boll

Desde que a vida existe, ela se espalha. Os organismos se movem (mesmo que somente como gametas ou esporos) e conquistam novos ambientes caso se adaptem. Se não fosse assim, a vida não seria encontrada por todo o planeta. Recentemente, porém, devido à dispersão humana, as espécies conseguem atingir locais bem longe de onde nasceram muito mais facilmente. Consideramos espécies vivendo fora de sua área nativa como sendo exóticas. E há várias delas. Será que existe algum lugar sem espécies exóticas hoje em dia?

No primeiro post deste blog, eu falei sobre como espécies exóticas não são sempre uma ameaça a ecossistemas nativos. Mas muitas são, de fato, perigosas à diversidade local. O ISSG (Invasive Species Specialist Group) lista o que são consideradas as 100 piores espécies invasoras. Estranhamente eles esquecem de mencionar a pior de todas elas, Homo sapiens.

Entre essas 100 espécies, uma bem famosa é o caracol-gigante-africano, Achatina fulica. Nativo da África Oriental, ele foi introduzido por todo o mundo e é uma grande praga em jardins e áreas agrícolas, e também pode ser um hospedeiro intermediário de diversos parasitas que infectam humanos.

O caracol-gigante-africano Achatina fulica. Foto de Eric Guinther*. Extraído de commons.wikimedia.org

O caracol-gigante-africano Achatina fulica. Foto de Eric Guinther*. Extraído de commons.wikimedia.org

Numa tentativa de controlar a população de Achatina fulica, algum “gênio” decidiu introduzir mais uma espécie exótica nas áreas onde A. fulica era uma praga: um predador de caracóis voraz e generalista.

Vamos lutar contra uma praga exótica com outra praga exótica!

Vamos lutar contra uma praga exótica com outra praga exótica!

Como resultado, o caracol predador Euglandina rosea, conhecido como “caracol-lobo-rosado” ou “caracol-canibal” em inglês, foi introduzido em áreas infestadas por A. fulica. Mas E. rosea é nativo da América do Norte, enquanto A. fulica é da África Oriental. De forma a ser efetivo, E. rosea precisava ser um predador generalista, se alimentando de qualquer tipo de caracol. E é isso que ele faz…

O caracol-lobo-rosado Euglandina rosea. Foto de Tim Ross. Extraído de commons.wikimedia.org

O caracol-lobo-rosado Euglandina rosea. Foto de Tim Ross. Extraído de commons.wikimedia.org

Euglandina rosea passou a predar A. fulica, mas… ops! Ele também atacou caracóis nativos e levou diversas espécies à extinção em ilhas do Pacífico. Ele se tornou uma praga ainda pior que o caracol-gigante-africano…

Não satisfeitas com o dano causado por este predador, as pessoas decidiram introduzir mais uma espécie para controlar A. fulica. E a escolha foi outro predador de caracóis voraz e generalista, a planária-da-Nova-Guiné Platydemus manokwari. Como o nome sugere, a planária-de-Nova-guiné é nativa da Nova Guiné, novamente um lugar diferente e, assim, para se alimentar o caracol-gigante-africano, ela precisaria se alimentar de qualquer tipo de caracol. Assim, ela se tornou uma praga tão perigosa quanto a anterior e levou diversas espécies de caracóis à extinção em ilhas do Pacífico.

Até recentemente se pensava que a infestação da planária-da-Nova-Guiné estava restrita à região Indo-Pacífica, não muito longe de casa. Contudo um artigo recente de Justine et al. (2014) registra sua presenta em uma estufa em Caen, no norte da França. Este registro expande significativamente sua ocorrência no mundo e indica que ela pode estar muito mais disseminada do que se pensava anteriormente. Infelizmente, as pessoas estão mais interessadas em preservar seus jardins do que preservar a biodiversidade. Assim estas pragas predadoras provavelmente continuarão sendo introduzidas como controle biológico, mesmo sendo ameaças a ecossistemas.

Bonjour tout le monde! Vim visitar Paris! A planária-da-Nova-Guiné Platydemus manokwari. Foto de Pierre Gros**, extraída de Justine et al., 2014 via commons.wikimedia.org

Bonjour tout le monde! Vim visitar Paris! A planária-da-Nova-Guiné Platydemus manokwari. Foto de Pierre Gros**, extraída de Justine et al., 2014 via commons.wikimedia.org

Felizmente, na França, P. manokwari parece restrista a estufas. Esperemos que ela não seja encontrada em mais nenhum outro lugar.

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Referências:

Albuquerque, F., Peso-Aguiar, M., & Assunção-Albuquerque, M. 2008. Distribution, feeding behavior and control strategies of the exotic land snail Achatina fulica (Gastropoda: Pulmonata) in the northeast of Brazil. Brazilian Journal of Biology, 68 (4), 837-842 DOI: 10.1590/S1519-69842008000400020

ISSG, Invasive Species Specialist Group. 100 of the World’s Worst Invasive Alien Species. Availabe at: < http://www.issg.org/database/species/search.asp?st=100ss >. Access on April 04, 2014.

Justine, J., Winsor, L., Gey, D., Gros, P., & Thévenot, J. 2014. The invasive New Guinea flatworm in France, the first record for Europe: time for action is now. PeerJ, 2DOI: 10.7717/peerj.297

Sugiura, S., Okochi, I., & Tamada, H. 2006. High Predation Pressure by an Introduced Flatworm on Land Snails on the Oceanic Ogasawara Islands. Biotropica, 38(5), 700-703 DOI: 10.1111/j.1744-7429.2006.00196.x

Sugiura, S., & Yamaura, Y. 2008. Potential impacts of the invasive flatworm Platydemus manokwari on arboreal snails. Biological Invasions, 11 (3), 737-742 DOI: 10.1007/s10530-008-9287-1

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Espécies exóticas: elas são sempre um problema?

por Piter Kehoma Boll

Nas últimas décadas, espécies não nativas se tornaram vítimas de discriminação por parte de conservacionistas, legisladores, bem como entre cientistas, sendo condenadas por levarem espécies nativas à extinção e por “poluírem” ambientes naturais. No entanto abordagens de manejo atuais precisam considerar que sistemas naturais estão se alterando sem volta graças a mudanças climáticas, urbanização, eutrofização e outras mudanças resultantes do uso da terra.

Certamente muitas espécies introduzidas por humanos levaram a extinções e reduziram serviços ecológicos valiosos. A malária aviária, introduzida no Havaí com espécies de aves não nativas trazidas por europeus, matou mais de metade das espécies nativas. O mexilhão-zebra Dreissena polymorpha, originalmente nativo da Rússia e introduzido na América do Norte, e o mexilhão-dourado Limnoperna fortunei, nativo do sul da Ásia e introduzido na América do Sul, se tornaram um grande problema por bloquearem encanamentos de água.

Mexilhão-zebra, uma espécie invasiva na América do Norte. Foto por GerardM, da Wikipedia.

Mexilhão-zebra, uma espécie invasiva na América do Norte. Foto por GerardM, da Wikipedia.

Mas a maioria das afirmações sobre o papel destrutivo de espécies invasoras é baseado em Wilcove et al. (1998) que afirma que espécies invasoras são a segunda maior ameaça a espécies ameaçadas depois da perda de habitat, mas isso é pouco suportado por dados. Na verdade, em muitos casos a introdução de espécies exóticas aumentou a riqueza de espécies em uma região.

Os efeitos de uma espécie invasora que não causa problemas agora pode se tornar um perigo no futuro, mas o mesmo se aplica a espécies nativas. A condição de ser nativo não é sinal de um efeito necessariamente positivo. O inseto suspeito de matar mais árvores do que qualquer outro na América do Norte é o besouro nativo Dendroctonus ponderosae. Muitas espécies de árvores frutíferas introduzidas se tornaram fontes importantes de alimentação para aves locais, atraindo-as e até mesmo auxiliando na dispersão de espécies nativas.

A ideia não é defender espécies invasoras em todos os casos, mas incitar uma abordagem mais analítica da situação. Em vez de condenar cegamente uma espécie só por não ser nativa, planos de manejo precisam ser baseados em evidências empíricas e não em afirmações sem fundamento.

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Referência:

Davis et al. 2001: Don’t judge species on their origins. Nature, 474, 153-154.

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