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Tartarugas-verdes confundem resíduos plásticos com lulas mortas, os comem, e morrem

por Piter Kehoma Boll

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Poluição por plástico é um tópico popular recentemente e não é raro encontrar figuras de animais que morreram devido à ingestão de plástico ou outras complicações, como asfixia, causadas por pedaços de plástico. Contudo a causa da ingestão de plástico pela maioria das espécies ainda é desconhecida.

Albatroz com o estômago cheio de peças plásticas.

A tartaruga-de-couro, Dermochelys coriacea, é frequentemente mencionada como uma espécie que sofre pela ingestão de plástico devido a sua dieta ser composta primariamente por águas-vivas, com as quais sacolas plásticas flutuantes podem ser confundidas. Contudo outra tartaruga-marinha de ampla distribuição, a tartaruga-verde, Chelonia mydas, também é uma vítima comum da ingestão de plástico e quantidades tão pequenas quanto 1 g são suficientes para matar espécimes jovens bloqueando seus tratos digestivos. A dieta de tartarugas-verdes jovens e adultas é composta principalmente por ervas-marinhas e algas, de forma que a ingestão de plástico deve ser o resultado de outra causa e não sua similaridade com águas-vivas.

Uma sacola plástica em decomposição no oceano se parece com uma água-viva. Foto do usuário Seegraswise do Wikimedia.*

Apesar de serem quase estritamente herbívoras, tartarugas-verdes ingerem matéria animal quando são muito jovens e podem eventualmente consumir animais como adultas também, provavelmente como uma estratégia para sobreviver quando sua fonte de alimento principal é escassa. A ingestão de matéria animal geralmente acontece pela ingestão de animais mortos e um item animal morto comumente consumido são lulas mortas.

Uma tartaruga-verde rodeada de ervas-marinhas, sua principal fonte de alimento. Foto do usuário Danjgi do Wikimedia.**

Um estudo recente investigou a relação entre o comportamento necrofágico e o consumo de plástico na tartaruga-verde e descobriu que a quantidade de plástico ingerida por indivíduos se alimentando de lulas mortas é muito maior que a ingerida por indivíduos que não apresentam um comportamento necrofágico. No Brasil, a ingestão de plástico é responsável por cerca de 10% das mortes de tartarugas-verdes, mas este número pode chegar a 67% entre tartarugas-verdes que se alimentam de carcaças de lulas.

A ingestão de animais mortos costumava ser uma maneira eficiente de tartarugas-verdes adquirirem grandes porções de proteína. Contudo o fato de, atualmente, a maioria do material flutuante no oceano ser plástico e não animais mortos transformou uma estratégia bem-sucedida numa armadilha mortal. Se os humanos não começarem a controlar a produção de lixo plástico, haverá apenas dois resultados possíveis para as tartarugas-verdes em face a esta nova pressão seletiva: adaptação ou extinção.

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Referências:

Andrades R, Santos RA, Martins AS, Teles D, Santos RG (2019) Scavenging as a pathway for plastic ingestion by marine animals. Environmental Pollution 248: 159–165. doi: 10.1016/j.envpol.2019.02.010

Mrosovsky N, Ryan GD, James MC (2009) Leatherback turtles: the menace of plastic. Marine Pollution Bulletin 58(2): 287–289. doi: 10.1016/j.marpolbul.2008.10.018

Santos RG, Andrades R, Boldrini MA, Martins AS (2015) Debris ingestion by juvenile marine turtles: an underestimated problem. Marine Pollution Bulletin 93(1–2): 37–43. doi: 10.1016/j.marpolbul.2015.02.022

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*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 3.0 Não Adaptada.

**Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 4.0 Internacional.

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Ter poucas fêmeas transforma jabutis machos em estupradores

por Piter Kehoma Boll

A guerra entre os sexos e os infindáveis conflitos que resultam disso são um tema comum em pesquisa comportamental e evolutiva e já  foi discutida aqui várias vezes.

Como sabemos bem, até mesmo por exemplos de nossa própria espécie, os machos raramente são bons pais, estando mais interessados em produzir tantos descendentes quanto possível com pouco esforço. As fêmeas, por outro lado, devido ao seu grande investimento em ovos (e geralmente outros recursos para a prole) são mais seletivas e não aceitam qualquer macho para acasalar.

Uma das soluções mais comuns para machos resolverem este conflito sexual é por copulação forçada, ou estupro como é chamado quando acontece com a nossa espécie. Às vezes essa copulação forçada é extrema, com machos deixando as fêmeas muito machucadas para fazê-las se renderem. Uma destas espécies violentas é o jabuti-de-Hermann, Testudo hermanni, um jabuti encontrado pelas áreas mediterrâneas da Europa.

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“Vou te dar um trato, sua safada!”. Esta foto de um macho jovem tentando montar numa fêmea adulta pode parecer engraçada, mas o sexo não é divertido para jabutis fêmeas. Foto do usuário Palauenco5 do Wikimedia.*

Copulação forçada é muito mais comum em espécies em que os machos são maiores e mais fortes que as fêmeas. Este não é o caso com jabutis, mas os machos de jabuti-de-Hermann encontraram uma forma de lidar com isso. Eles perseguem as fêmeas, às vezes por horas, empurrando-as, mordendo-as, às vezes ao ponto de fazê-las sangrarem, e eventualmente as pobres fêmeas se entregam. Também é comum que os machos “estimulem” a cloaca da fêmea com suas caudas pontudas, o que resulta numa cloaca inchada e às vezes em ferimentos sérios que deixam as fêmeas com cicatrizes e deformidades horríveis. Sim, não é uma face bonita da natureza.

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A cauda de um macho. Photo do usuário Bizarria do Wikimedia.**

Um estudo recente com duas populações de jabuti-de-Hermann na Macedônia revelou que a agressividade dos machos está relacionada com a disponibilidade de fêmeas. O grupo de pesquisadores estudou uma população em que a razão fêmea:macho era perto de 1:1 e outra com um número extremamente maior de machos ao ponto de haver uma fêmea para cada 17,5 machos.

Os resultados indicaram que na população mais balanceada a cópula forçada era menos comum e geralmente apenas fêmeas adultas apresentavam ferimentos causados por machos, enquanto que na população com mais machos a falta de fêmeas levou os machos a enlouquecerem ao ponto de forçar a cópula até com fêmeas imaturas. A situação como um todo é claramente maladaptativa, á que as fêmeas acabam feridas e os machos exaustos e nenhuma prole é gerada.

Eu só consigo ver duas saídas possíveis para uma população assim: ou fêmeas mais resistentes serão selecionadas ou a população vai se tornar extinta depois que todas as fêmeas morrerem por violência masculina.

Como podemos ver, conflito sexual é um desses efeitos colaterais deletérios que a seleção natural criou. Afinal ninguém é perfeito, nem mesmo as leis fundamentais da vida.

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Referência:

Golubović, A.; Arsovski, D.; Tomović, L.; Bonnet, X. (2018) Is sexual brutality maladaptive under high population density? Biological Journal of the Linnean Society 124(3): 394–402. https://doi.org/10.1093/biolinnean/bly057

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*Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 4.0 Internacional.

**Creative Commons License
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