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Sexta Selvagem: Nori-Tenro

por Piter Kehoma Boll

Se você gosta de comida japonesa, já deve ter comido sushi com certeza e, portanto, ingeriu a famosa alga da culinária japonesa conhecida como nori que é usada para enrolar o arroz, certo? Bem, isso não quer dizer necessariamente que você tenha comido a espécie que apresentarei hoje e logo você saberá por quê.


Folhas secas de nori como usadas na culinária japonesa. Foto de Yuichi Kosio.*

Durante a maior parte da história do Japão, a principal espécie de nori usada como alimento era o nori-tenro, que é cientificamente conhecido como Pyropia tenera (anteriormente conhecido como Porphyra tenera) e conhecido no Japão como 浅草海苔 (asakusa nori). Esta espécie é uma alga vermelha e é proximamente relacionada a outras espécies comestíveis usadas em outras partes do mundo.

O ciclo de vida do nori-tenro inclui duas gerações diferentes como visto em todas as plantas. Uma geração, o gametófito, é composta de células haploides, isto é, com apenas uma cópia de cada cromossomo. O estágio de gametófito é o maior e mais comumente usado como alimento. Ele produz tanto gametas masculinos quanto femininos e usa a corrente da água para guiar os gametas masculinos, que são incapazes de nadar, até os gametas femininos. Por muito tempo, este era o único estágio de vida conhecido para o nori. Os gametófitos eram colhidos na natureza, onde cresciam sobre o substrato disponível, especialmente madeira. Somente durante o século 20 ficou claro que o esporófito, o outro estágio de vida, é menor e precisa de conchas de moluscos como substrato para crescer. De fato o esporófito já era conhecido, mas era confundido com um organismo diferente classificado em um gênero chamado Conchocelis. Assim, o esporófito ainda é comumente conhecido como o estágio Conchocelis.

Depois que o ciclo de vida completo destas algas se tornou conhecido, não demorou muito para as pessoas desenvolverem métodos de cultivo que aumentaram grandemente a produção de nori. Duas linhagens de nori logo se tornaram os principais cultivares no Japão por volta do começo dos anos 1960: Pyropia tenera var. tamatsuensis e Pyropia yezoensis f. narawaensis. A última, como você pode ver, pertence a uma espécie diferente de nori, o nori-de-Ezo, conhecido no Japão como 荒び海苔 (susabi nori).

Apesar de o nori-tenro ser considerado de melhor qualidade e melhor sabor, ele não é tão tolerante às fortes ondas e aos fortes ventos quanto o nori-de-Ezo. Como resultado, o nori-de-Ezo se tornou o cultivar favorito e se espalhou rapidamente, de forma que esta é a principal espécie usada hoje em dia na culinária japonesa. O aumento do cultivo do nori-de-Ezo tirou espaço do nori-tenro original de tal forma que atualmente o nori-tenro é uma espécie muito rara, tão rara que é considerada uma espécie ameaçada pelo governo japonês desde 1997.

A distinção entre espécies de Pyropia em populações selvagens é geralmente difícil porque existe pouca variação morfológica entre elas. Estudos moleculares recentes com nori crescendo ao longo do Japão mostraram que o nori-tenro não é tão raro quanto se pensava anteriormente, mas isso não o torna imune à extinção. Como o nori-tenro é considerado mais macio e mais saboroso que o nori-de-Ezo, tem havido algumas tentativas de aumentar o interesse comercial nele, o que poderia preveni-lo de se tornar extinto num futuro próximo.

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Referências:

Hwang MS, Kim S-O, Ha D-S, Lee JU, Lee S-R (2013) Complete sequence and genetic features of the mitochondrial genome of Pyropia tenera (Rhodophyta). Plant Biotechnology Reports 7(4): 435–443. doi: 10.1007/s11816-013-0281-4

Iwasaki H (1961) The life-cycle of Porphyra tenera in Vitro. Biological Bulletin 121(1): 173–187. doi: 10.2307/1539469

Niwa K, Iida S, Kato A, Kawai H, Kikuchi N, Kobiyama A, Aruga Y (2009) Genetic diversity and ingrogression in two cultivated species (Porphyra yezoensis and Porphyra tenera) and closely related wild species of Porphyra(Bangiales, Rhodophyta). Journal of Phycology 45(2): 493–502. doi: 10.1111/j.1529-8817.2009.00661.x

Niwa K, Kikuchi N, Aruga Y (2005) Morphological and molecular analysis of the endangered species Porphyra tenera (Bangiales, Rhodophyta). Journal of Phycology 41(2): 294–304. doi: 10.1111/j.1529-8817.2005.04039.x

ウィキペディア (Wikipedia em Japonês)。アサクサオリ。Disponível em <
https://ja.wikipedia.org/wiki/%E3%82%A2%E3%82%B5%E3%82%AF%E3%82%B5%E3%83%8E%E3%83%AA >. Acesso em 25 de março de 2019.

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Sexta Selvagem: Fritilária-Imperial

por Piter Kehoma Boll

Vamos trazer uma alta dose de beleza para a Sexta Selvagem de hoje com uma espécie maravilhosa que pode às vezes ser encontrada em seu jardim.

Fritilária-imperial crescendo em seu ambiente natural no Curdistão. Foto do usuário A2raya07 do Wikimedia.*

Fritillaria imperialis, a fritilária-imperial ou coroa-imperial, é nativa das terras altas asiáticas entre a Turquia e os Himalaias, mas é cultivada a nível global, tendo uma série de cultivares artificialmente selecionados. A planta atinge uma altura de cerca de 1 m e possui uma série de folhas em forma de lança ao longo de seu caule, de forma similar ao que é encontrado em outras espécies da família do lírio, Liliaceae, a qual pertence. As flores aparecem em uma espiral perto do topo do caule e são viradas para baixo. Uma coroa de pequenas folhas fica acima das flores, daí o nome imperialis. As flores em forma de sino são geralmente laranjas na natureza, mas, em cultivares, variam entre vermelho e amarelo.

Um cultivar chamado ‘Rubra Maxima’. Foto de Hendry Heatly.**

A fritilária-imperial vem sendo usada em medicina tradicional por séculos por pessoas vivendo em sua área de distribuição nativa. Estudos recentes revelaram que a planta contém uma série de de alcaloides, principalmente alcaloides esteroides anticolinérgicos, que possuem o potencial de serem usados para o desenvolvimento de novos medicamentos para tratar várias condições.

Apesar de sua popularidade como planta ornamental, populações selvagens da fritilária-imperial estão ameaçadas em muitos países em que ela ocorre, especialmente devido a perda de habitat. De forma a auxiliar na preservação e na restauração de populações selvagens, algumas técnicas de laboratório vêm sendo desenvolvidas para gerar clones que poderiam ajudar a aumentar o tamanho populacional na natureza.

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Referências:

Akhtar MN, Rahman A, Choudhary MI, Sener B, Erdogan I, Tsuda Y (2003) New class of steroidal alkaloids from Fritillaria imperialisPhytochemistry 63: 115–122. doi: 10.1016/S0031-9422(02)00569-1

Gilani AH, Shaheen F, Christopoulos A, Mitchelson F (1997) Interaction of ebeinone, an alkaloid from Fritillaria imperialis, at two muscarinic acetylcholine receptor subtypes. Life Sciences 60 (8): 535–544. doi: 
10.1016/S0024-3205(96)00691-1

Kiani M, Mohammadi S, Babaei A, Sefidkon F, Naghavi MR, Ranjbar M, Razavi SA, Saeidi K, Jafari H, Asgardi D, Potter D (2017) Iran supports a great share of biodiversity and floristic endemism for Fritillaria spp. (Liliaceae): A review. Plant Diversity 39(5): 245–262. doi: 10.1016/j.pld.2017.09.002

Mohammadi-Dehcheshmeh M, Khalighi A, Naderi R, Sardari M, Ebrahimie E (2008) Petal: a reliable explant for direct bulblet regeneration of endangered wild populations of Fritillaria imperialis L. Acta Physiologiae Plantarum 30(3): 395–399. doi: 10.1007/s11738-007-0126-2

Wikipedia. Fritillaria imperialis. Disponível em < https://en.wikipedia.org/wiki/Fritillaria_imperialis >. Access em 11 de fevereiro de 2019.

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Pense nos vermes, não só nas baleias, ou: como uma planária salvou um ecossistema

por Piter Kehoma Boll

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Devido à massiva interferência de práticas humanas em habitats naturais durante as últimas décadas, a restauração de ecossistemas se tornou uma tendência para tentar salvar o que ainda é salvável. Infelizmente, o esforço de ecologistas e outros profissionais por si só não é suficiente para alcançar isso, e uma seção maior da sociedade precisa se engajar em ajudar a atingir estes objetivos. Para conseguir isso, é comum apelar à beleza e à fofura de espécies ameaçadas, que geralmente incluem mamíferos e aves, pois estes chamam a atenção do público mais facilmente. Contudo a maioria das espécies ameaçadas são invertebrados e outros seres menos carismáticos, e eles são frequentemente ignorados mesmo pelos biólogos.

Felizmente as coisas são capazes de mudar em relação a isso. Recentemente, a restauração do primeiro ecossistema direcionada a salvar um invertebrado foi bem-sucedida, e eu estou aqui para falar sobre isso.

O invertebrado em questão é uma planária de água doce chamada Dendrocoelum italicum. Ela foi descoberta em 1936 em uma caverna no norte da Itália chamada Bus del Budrio. Dentro da caverna, há uma pequena lagoa de água doce, com cerca de 5 × 5 m ou pouco mais, causada por uma cachoeira vindo de um pequeno córrego que chega por um corredor estreito elevado. A espécie aparentemente é encontrada somente nessa lagoa e em mais nenhum outro lugar.

Não há fotos disponíveis de Dendrocoelum italicum, mas ela deve ser parecida com a espécie Dendrocoelum lacteum vista aqui, mas D. italicum não possui olhos. Foto de Eduard Solà.*

Durante aos anos 1980, um cano foi instalado para desviar a água do córrego para uma fazenda nas proximidades. A cachoeira deixou de existir e a lagoa secou permanentemente. A planária sobreviveu em um riachinho bem estreito que se formou dentro da caverna e em algumas poças isoladas resultantes de gotejamento de água. A condição crítica da população foi descoberta em 2016 por um grupo de pesquisadores da Universidade de Milão. Eles informaram os administradores da caverna sobre a situação e, juntos, o time começou a conscientizar os cidadãos, que se beneficiavam de um reservatório formado pela água desviada, sobre a situação da caverna, o que levou o fazendeiro responsável pelo desvio da água a concordar em remover a estrutura artificial.

Imagem do interior da caverna. Foto de Livio Mola, extraída de
https://www.naturamediterraneo.com/forum/topic.asp?TOPIC_ID=57050

A remoção aconteceu em 3 de dezembro de 2016 depois que todas as planárias ocorrentes no riachinho foram coletadas e armazenadas em tanques plásticos dentro da caverna. Quando a cachoeira foi restaurada, ela rapidamente começou a preencher a antiga lagoa de novo e, um dia depois, as planárias foram liberadas dentro da lagoa.

O ecossistema foi monitorado durante os dois anos seguintes até janeiro de 2018. O número de planárias variou grandemente durante o levantamento, mas não foi significativamente maior após a restauração do que era antes. Contudo, houve um aumento significativo na população de uma espécie de bivalve, Pisidium personatum, e um pequeno aumento na população de um crustáceo do gênero Niphargus. Adicionalmente, anelídeos da família Haplotaxidae, que estavam ausentes na caverna, apareceram após a restauração. Assim, fica claro que o ecossistema se beneficiou com o reaparecimento da lagoa.

Graças aos esforços desses pesquisadores, a planária Dendrocoelum italicum agora tem mais chances de evitar a extinção. Contudo, este não é um caso isolado. Há muitas espécies de planárias de caverna pelo mundo inteiro vivendo em condições similares, geralmente restritas a apenas uma pequena lagoa dentro de uma única caverna. Muitas delas ocorrem, ou ocorriam, na Itália, mas a ajuda chegou muito tarde para elas. Por exemplo, uma espécie próxima, Dendrocoelum beauchampi, foi descoberta em 1950 em uma caverna no noroeste da Itália chamada Grotta di Cavassola, mas um levantamento recente não encontrou planárias na caverna, que parece ter sofrido grande alteração devido a atividades humanas. De forma similar, a espécie Dendrocoelum benazzi foi descoberta em 1971 na Itália central em uma caverna chamada Grotta di Stiffe, mas hoje em dia, com a caverna aberta a turistas e com sua água poluída, as planárias desapareceram. É bem provável que tanto D. beauchampi quanto D. benazzi estejam extintos. A situação é a mesma para outras espécies italianas.

Fora da Itália, uma espécie descrita vivendo em um ambiente pequeno similar é a planária de caverna brasileira Girardia multidiverticulata, que é conhecida de apenas uma pequena lagoa de 10 m² dentro de uma caverna chamada Buraco do Bicho no Bioma Cerrado.

Girardia multidiverticulata é uma espécie de planária restrita a uma pequena lagoa de 10 m² dentro de uma caverna do Cerrado brasileiro. Créditos a Souza et al. (2015).**

O caso de D. italicum demonstra que é possível salvar populações endêmicas pequenas de habitats ameaçados, mas precisamos da ajuda do público. Esperamos que outros ecossistemas tenham um final feliz similar.

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Referêmcias:

Manenti R, Barzaghi B, Lana E, Stocchino GA, Manconi R, & Lunghi E 2018. The stenoendemic cave-dwelling planarians (Platyhelminthes, Tricladida) of the Italian Alps and Apennines: conservation issues. Journal for Nature Conservation.

Manenti R, Barzaghi B, Tonni G, Ficetola GF, & Melotto A 2018. Even worms matter: cave habitat restoration for a planarian species increased environmental suitability but not abundance. Oryx: 1–6.

Souza ST, Morais ALN, Cordeiro LM, & Leal-Zanchet AM 2015. The first troglobitic species of freshwater flatworm of the suborder Continenticola (Platyhelminthes) from South America. Zookeys 470: 1–16.

Vialli PM 1937. Una nuova specie di Dendrocoelum delle Grotte Bresciane. Bollettino di zoologia 8: 179–187.

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*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição e Compartilhamento Igual 3.0 Não Adaptada.

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Sexta Selvagem: Pé-de-Crista-Cristalino

por Piter Kehoma Boll

Mesmo nas menores poças de água-doce perdidas num campo, a diversidade de formas de vida é incrível. Infelizmente, estes ambientes estão entre os mais danificados de todos os ecossistemas na Terra e nós provavelmente levamos várias espécies pequeninas à extinção. O camarada de hoje, no entanto, ainda está vivo, e seu nome é Lophopus crystallinus, ou como eu decidi chamá-lo, o pé-de-crista-cristalino.

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Uma colônia de Lophopus crystallinus. Foto do Museu de História Natural de Londres.*

O pé-de-crista-cristalino é um membro do filo Bryozoa, às vezes chamados de animais-musgos. De fato, ele foi o primeiro briozoário a ser descrito. Como outros briozoários, o pé-de-crista-cristalino vive em uma colônia de indivíduos presos a substratos em lagos e poças onde eles existem, o que inclui a Europa e a América do Norte. Os indivíduos não são inteiramente independentes e possuem funções especializadas dentro da colônia, assim agindo como um único superorganismo. Como regra geral, briozoários, incluindo o pé-de-crista-cristalino, são filtradores, extraindo partículas e microalgas da água.

Apesar de ser consideravelmente tolerante a eutrofização (aumento da matéria orgânica na água) e poluição por metais pesados, o pé-de-crista-cristalino ainda é ameaçado por outras formas de impacto humano, como mudanças climáticas, e certamente pela destruição de seu habitat. Atualmente ele é considerado uma espécie ameaçada no Reino Unido e é o único briozoário a ter um plano de ação específico. Vamos esperar que consigamos encontrar uma maneira de evitar que ele seja varrido deste mundo.

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Referências:

References:

Elia, A., Galarini, R., Martin Dörr, A., & Taticchi, M. (2007). Heavy metal contamination and antioxidant response of a freshwater bryozoan (Lophopus crystallinus Pall., Phylactolaemata). Ecotoxicology and Environmental Safety, 66 (2), 188-194 DOI: 10.1016/j.ecoenv.2005.12.004

Hill, S., Sayer, C., Hammond, P., Rimmer, V., Davidson, T., Hoare, D., Burgess, A., & Okamura, B. (2007). Are rare species rare or just overlooked? Assessing the distribution of the freshwater bryozoan, Lophopus crystallinus. Biological Conservation, 135 (2), 223-234 DOI: 10.1016/j.biocon.2006.10.023

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Sexta Selvagem: Pinheiro-do-Paraná

por Piter Kehoma Boll

Como primeira conífera na Sexta Selvagem, decidi escolher uma das minhas amadas, o pinheiro-do-Paraná, Araucaria angustifolia.

O pinheiro-do-Paraná pode chegar a até 50 m de altura, apesar de a maioria das árvores serem menores que isso. Elas possuem um formato particular e são facilmente distinguíveis da floresta circundante onde ocorrem, a chamada Floresta Ombrófila Mista ou Floresta de Araucária, no sul do Brasil. As árvores têm um tronco cilíndrico com uma casca escura e fina que se destaca em partes grandes e flexíveis, sendo cinza na superfície externa e avermelhada na superfície interna. A copa muda sua aparência durante o desenvolvimento, sendo cônica em árvores jovens e em forma de candelabro em espécimes maduros. Árvores maduras geralmente possuem a copa acima do dossel, o que dá à floresta de araucária seu aspecto particular. As folhas crescem em um padrão espiral em torno do caule e são muito duras e com uma ponta afiada que pode facilmente perfurar a pele humana.

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Um grupo de pinheiros-do-Paraná em Campos de Jordão, Brasil, perto da distribuição mais ao norte da espécie. Foto de Vinícius RibeiroVinícius RibeiroVinícius Ribeiro.*

A distribuição atual da espécie é quase restrita ao Brasil, do norte do Rio Grande do Sul ao sul de São Paulo, com algumas populações pequenas ocorrendo em áreas vizinhas da Argentina e do Paraguai. Outrora uma espécie abundante, sua população foi drasticamente reduzida devido à intensa extração de madeira até metade do século XX e à exploração de suas sementes, chamadas de pinhões. Como resultado, ela é atualmente considerada como criticamente em perigo pela IUCN.

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Uma árvore adulta no município de Colombo, Paraná, Brasil. Foto de Mauro Guanandi.*

O pinheiro-do-paraná é uma espécie dioica, isto é, machos e fêmeas são plantas separadas. Como a maioria das coníferas, ela é polinizada pelo vento. Os grandes cones, que levam dois anos para ficarem maduros, contêm um número de sementes grandes e comestíveis usadas como alimento por muitos animais, bem como por humanos. Pinhões cozidos em água com sal é um prato típico no sul do Brasil durante o inverno. Um dos principais dispersores de sementes do pinheiro-do-paraná é a gralha-azul, Cyanocorax caeruleus, que enterra as sementes para uso futuro.

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Um cone e sementes soltas de Araucaria angustifolia num mercado. Foto de Marcelo Träsel.**

Como a maioria das (se não todas) coníferas, o pinheiro do Paraná forma associações mutualísticas com fungos, tal como o glomeromiceto Glomus clarum. Assim, de forma a preservar essa árvore incrível, também é necessário garantir a preservação de todas as suas espécies associadas, como os fungos micorrízicos e os dispersores de sementes.

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Referências:

Angeli, A. (2003). Araucaria angustifolia (Araucaria). Departamento de Ciências Florestais – ESALQ/USP. Available at: <http://www.ipef.br/identificacao/araucaria.angustifolia.asp&gt;. Access on January 26, 2017.

IUCN (2016). Araucaria angustifolia The IUCN Red List of Threatened Species DOI: 10.2305/IUCN.UK.2013-1.RLTS.T32975A2829141.en

Soares, T. S. (2004). Araucária – o pinheiro brasileiro. Revista Científica Eletrônica de Engenharia Florestal, 2 (3).

SOUZA, A. (2007). Ecological interpretation of multiple population size structures in trees: The case of Araucaria angustifolia in South America Austral Ecology, 32 (5), 524-533 DOI: 10.1111/j.1442-9993.2007.01724.x

Zandavalli, R., Dillenburg, L., & de Souza, P. (2004). Growth responses of Araucaria angustifolia (Araucariaceae) to inoculation with the mycorrhizal fungus Glomus clarum. Applied Soil Ecology, 25 (3), 245-255 DOI: 10.1016/j.apsoil.2003.09.009

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Sexta Selvagem: Fungo-da-lagarta-chinês

por Piter Kehoma Boll

A maior parte de vocês deve ter ouvido falar daqueles fungos terríveis que transformam pobres insetos em zumbis, mas você sabia que um deles é usado na China como comida? Bem, o que NÃO é usado como comida pelos chineses, não é? Enfim, esse fungo é Ophiocordyceps sinensis (antigamente conhecido como Cordyceps sinensis), mas você pode chamá-lo de fungo-da-lagarta-chinês.

O fungo é conhecido como fungo-da-lagarta porque ele infecta larvas (lagartas) de várias mariposas-fantasmas (família Hepialidae). As lagartas vivem no subsolo em prados do Planalto Tibetano e se alimentam de raízes de muitas espécies de plantas. Elas eventalmente podem se infectar com os esporos do fungo, o que as leva a um fim terrível. Dentro da lagarta, o fundo começa a crescer, preenchendo o hospedeiro com hifas em forma de cordão e forçado-o a se mover para cima, mais perto da superfície, onde morre com a cabeça virada para cima. O fungo começa a crescer para fora da cabeça da lagarta morte e forma um pequeno botão. Depois que o inverno passou, o botão cresce para cima, emergindo do solo e formando um corpo de frutificação alongado que libera novos esporos no ambiente. Este é o estágio e que o fungo é colhido por humanos, junto com a lagarta.

O corpo de frutificação de Ophiocordyceps sinensis emergindo da cabeça de uma lagarta morta. Foto de Nicolas Merky.*

O corpo de frutificação de Ophiocordyceps sinensis emergindo da cabeça de uma lagarta morta. Foto de Nicolas Merky.*

O fungo possui vários usos médicos nas medicinas tibetana e chinesa. Ele é considerado como tendo efeitos afrodisíacos e rejuvenescedores e também é usado contra o câncer e para estimular o sistema imunológico, bem como para tratar doenças respiratórias e circulatórias, problemas dos rins e no fídago, fadiga, hiperglicemia, hiperlipidemia, astenia e muitas outras enfermidades. A medicina chinesa o considera como tendo um excelente balando de yin e yang, já que ele é “tanto animal quanto planta”. Vários metabólitos bioativos foram isolados do fungo e alguns deles demonstraram atividade antimicrobiana e antitumoral.

Como resultado desse uso como uma panaceia, o fungo tem sido colhido em excesso em seu habitat natural e é atualmente considerado uma espécie em perigo na China. Ele é, portanto, considerado raro hoje em dia e seu preço pode ser mais alto que o do ouro. O fungo pode ser cultivado em uma cultura líquida ou de grãos, mas tentativas de criá-lo dentro de lagartas não foram bem sucedidas.

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Referências:

Zhang, Y.; Li, E.; Wang, C.; Li, Y.; Liu, X. 2012. Ophiocordyceps sinensis, the flagship fungus of China: terminology, life strategy and ecology. Mycology 3 (1): 2–10. DOI: 10.1080/21501203.2011.654354

Wikipedia. Ophiocordyceps sinensis. Disponível em < https://en.wikipedia.org/wiki/Ophiocordyceps_sinensis >. Acesso em 26 de maio de 2016.

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Sexta Selvagem: Palmeira-de-cera-de-Quindio

por Piter Kehoma Boll

Então a Sexta Selvagem está de volta! Depois de quase um ano… mas está!

Para reiniciar esta seção, decidi falar sobre uma planta interessante que pode ser encontrada na região onde a misteriosa Leimacopsis terricola foi encontrada no século XIX: a palmeira-de-cera-de-Quindio, ou palma de cera del Quindío, em espanhol.

Esta palmeira, que pertence à espécie Ceroxylon quindiuense, é a árvore nacional da Colômbia e nativa do Vale Cocora, um vale de alta altitude da região andina no departamento de Quindío, Colômbia, de onde era considerada basicamente endêmica. Contudo recentemente uma população significativa foi encontrada mais ao sul nos andes do norte do Peru.

Ceroxylon quindiuense no Vale Cocora, Quindío, Colômbia. Foto de Diego Torquemada*

Ceroxylon quindiuense no Vale Cocora, Quindío, Colômbia. Foto de Diego Torquemada*

Como todas as espécies de Ceroxylon (“madeira de cera” em grego), a palmeira-de-cera-de-Quindío tem um tronco cilíndrico coberto com uma cera branca marcada por cicatrizes deixadas por bases foliares. Também é a palmeira mais alta do mundo, atingindo até 60 m de altura ou até mais.

Até o começo do século XX, ela era uma espécie muito abundante na Colômbia, mas sua população já estava sendo reduzida devido a várias atividades, principalmente por ser colhida como uma fonte importante para a fabricação de velas durante o século XIX. Além disso, até muito recentemente, folhas jovens eram cortadas para ser usadas no Domingo de Ramos, levando à morte ou retardamento do crescimento. Hoje em dia ambas as práticas estão amplamente reduzidas, mas a espécie ainda está ameaçada por outras atividades. A criação de gado tornou a maior parte da floresta onde a palmeira-de-cera-de-Quindio cresce em pasto e, apesar de haver um grande número de árvores crescendo no pasto, não há indivíduos jovens, visto que todas (ou quase todas) as mudas são comidas pelo gado. Por isso, ela é considerada em perigo (EN) na Lista Vermelha de Plantas da Colômbia e Vulnerável (VU) pela IUCN. Como uma iniciativa para salvar a espécie, ela é legalmente protegida na Colômbia desde 1985, quando se tornou a árvore nacional do país.

A redução das populações de palmeira-de-cera também ameaça espécies associadas a elas, como o papagaio-de-orelha-amarela, que faz seus ninhos nos troncos ocos das palmeiras-de-cera e é uma espécie ameaçada de acordo com a IUCN. Mas esse é assunto para outra sexta…

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Referências:

Bernal, R. & Sanín, M. J. 2013. Los palmares de Ceroxylon quindiuense (Arecaceae) en el Valle de Cocora, Quindío: perspectivas de un ícono escénico de Colombia. Colombia Florestal, 16 (1), 67-79

Salaman, P. G., López-Lanús, B. & Krabbe, N. 1991. Critically endangered: Yellow-eared Parrot Ognorhynchus icterotis in Colombia Cotinga, 11, 39-41

Sanín, M. J. & Galeano, G. 2011. A revision of the Andean wax palms, Ceroxylon (Arecaceae). Phytotaxa, 34, 1-64

Wikipedia. Ceroxylon quindiuense. Disponível online em < http://en.wikipedia.org/wiki/Ceroxylon_quindiuense >. Acesso em 20 de março de 2014.

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