Salgadinhos de turistas estão matando espécies em áreas protegidas

por Piter Kehoma Boll

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Nao há nada mais ameaçador à natureza que os humanos, como todos sabemos. Muitas espécies se tornaram ameaçadas ou mesmo extintas devido à influência humana pelo mundo todo. Numa tentativa de proteger o que quer que tenha sobrado, temos criado áreas protegidas onde as espécies deveriam ser capazes de viver suas vidas sem os perigos da humanidade.

Contudo, de forma a aumentar a conscientização sobre a importância de preservar a biodiversidade, muitas áreas protegidas aceitam visitantes humanos. Apesar de isso ter algum efeito em melhorar a visão do visitante sobre a natureza e sua importância, há uma porção de efeitos colaterais indesejados. Humanos caminhando pela floresta podem causar ruído que perturba a fauna local e a compactação do solo causada por caminhar leva a mudanças no crescimento da vegetação e na drenagem do solo.

Mas outro comportamento humano que parece ter consequências sérias na conservação da biodiversidade é nossa tendência de carregar comida conosco, tal como lanches, e comê-la em qualquer lugar.. Pessoas visitando uma área protegida podem comer algo no caminho através da floresta ou parar para um piquenique. Muitas espécies amam restos de comida deixados por humanos e vão proliferar com eles.

Dois gaios-de-Steller no Parque Estadual de Big Basin Redwoods. Foto do usuário kgerner do iNaturalist.*

Uma espécie que se beneficia de comida humana é o gaio-de-Steller, Cyanocitta stelleri, um corvídeo que é comum ao longo da costa oeste da América do Norte. Como resultado, esta espécie não está nem um pouco ameaçada no momento e tende até a seguir humanos por causa do fácil acesso à comida. Na natureza, esta espécie é um onívoro generalista, alimentando-se de sementes, frutas, invertebrados, ovos e pequenos vertebrados, como roedores e filhotes de aves.

Outra ave que pode ser encontrada nas mesmas áreas que o gaio-de-Steller é a torda-miúda-marmorada Brachyramphus marmoratus, uma pequena ave marinha. Diferente da maioria das aves marinhas, a torda-miúda-marmorada não faz ninhos em rochedos e tocas perto da água, mas nos ramos de coníferas velhas. Como resultado, elas podem se mover até 80 km terra adentro para encontrar um local adequado para fazer o ninho. Diferente do gaio-de-Steller, a torda-miúda-marmorada não se beneficia de petiscos humanos. Ao contrário, eles podem ser sua ruína.

Uma torda-miúda-marmorada jovem encontrada no Parque Estadual de Big Basin Redwoods. Foto do usuário basinbird do iNaturalist.*

A torda-miúda-marmorada depende muito de florestas antigas para se reproduzir e a fêmea põe somente um ovo por ano, levando a uma baixa taxa reprodutiva. Devido à remoção de florestas antigas por humanos, a torda-miúda-marmorada perdeu muito de seu habitat original e atualmente é considerada uma espécie ameaçada.

Uma das poucas áreas que restam para esta espécie nidificar está localizada no Parque Estadual Big Basin Redwoods, na Califórnia. O parque contém muitas opções para acampamento, o que significa humanos trazendo comida o tempo todo. Isso atrai os gaios-de-Steller, que se esbaldam nas migalhas e outros restos e se reproduzem explosivamente. Quando humanos não estão presentes, esta população aumentada migra para novas áreas, às vezes seguindo humanos para as cidades, ou começa a se alimentar do que quer que esteja presente no parque, e uma das opções mais nutritivas são filhotes da torda-miúda-marmorada.

Com uma população já ameaçada, a torda-miúda-marmorada está prestes a ser extinta porque nosso desejo de caminhar pela floresta está acidentalmente aumentando a população de um de seus principais predadores. Será que algum dia vamos ter um impacto bom neste planeta?

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Referência:

West EH, Brunk K, Peery MZ (2019) When protected areas produce source populations of overabundant species. Biological Conservation 238: 108220. doi: 10.1016/j.biocon.2019.108220

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*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição Não Comercial 4.0 Internacional

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