Sexta Selvagem: Percebe-Comum

por Piter Kehoma Boll

A superfície do oceano aberto pode a princípio parecer um grande lençol sem vida. Contudo, se você olhar mais de perto, verá que há muito mais vida lá do que poderia imaginar. E esta vida não inclui apenas o plâncton microscópico que flutua na coluna d’água, mas também grandes organismos que moram no limite entre a água e o ar. Essas criaturas são chamadas de nêuston e ocorrem em diversas formas, e uma delas é a Lepas anserifera, ou percebe-comum.

Vários percebes-comuns encontrados crescendo em um osso de sépia na costa oeste da Índia. As pernas modificadas (cirros) estão expostas, procurando comida. Foto de Abhishek Jamalabad.*

O percebe-comum é encontrado em águas tropicais e subtropicais ao redor do mundo todo. Ele pertence à subclasse Cirripedia, um grupo peculiar de crustáceos comumente conhecidos como cracas e percebes. Eles vivem presos ao substrato e são hermafroditas, ambas características que são incomuns entre artrópodes. Dentro da subclasse Cirripedia, o percebe-comum pertence à ordem Pedunculata, conhecidos como percebes, e que são caracterizados pela presença de um pedúnculo que os prende ao substrato.

Perecebe-comum em Taiwan. Um espécime menor é visto crescendo em um maior. Foto de Liu JimFood.*

O substrato escolhido pelo percebe-comum é quase exclusivamente material flutuante. Este material, que inclui algas marinhas e todo tipo de detritos, como pedaços de madeira, cocos e carcaças de animais, raramente permanece flutuando por muito tempo, ou porque sua decomposição o faz afundar ou porque ele acaba indo parar na praia. Assim, o percebe precisa encontrar uma maneira de completar seu ciclo de vida muito rapidamente, e é isso que ele faz.

Percebes-comuns crescendo numa maçã que deve ter flutuado por algum tempo e acabou na praia no estado da Bahia, no Brasil. Foto do usuário kuroshio do iNaturalist.**
Percebes-comuns crescendo sobre uma lâmpada elétrica que foi jogada na praia em Palau Pinang, na Malásia. Foto de Al Kordesch.

Percebes começam suas vidas como larvas planctônicas de apenas um olho e que, após cinco estágios, se desenvolvem em outra forma larval conhecida como ciprídeo. O único propósito do ciprídeo é encontrar uma superfície adequada para viver e, assim que a encontra, secreta uma substância glicoproteica que o prende ao substrato pela cabeça. Ele então se desenvolve em um animal adulto que secreta uma série de placas calcificadas que rodeiam seu corpo. O adulto usa sua patas plumosas (cirros) para capturar alimento, principalmente plâncton, e o carregar para dentro da concha.

Percebes-comuns crescendo numa escova que parou na praia em New Jersey, EUA. Foto de Stan Rullmann.**

Devido a atividades humanas, a quantidade de material flutuante na superfície dos oceanos aumentou grandemente. Assim, o número de substratos disponíveis para o percebe-comum também aumentou, e da mesma forma provavelmente sua população também aumentou. Infelizmente, o material flutuante gerado por humanos também inclui muitas pequenas partículas de plástico, e percebes frequentemente as ingerem junto com o alimento. Apesar de o dano causado pela ingestão de partículas de plástico ainda não ter sido averiguado, elas certamente não melhoram a saúde do percebe.

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Referências:

Goldstein MC, Goodwin DS (2013) Gooseneck barnacles (Lepas spp.) ingest microplastic debris in the North Pacific Subtropical Gyre. PeerJ 1: e184. doi:10.7717/peerj.184

Inatsuchi A, Yamato S, Yusa Y (2010) Effects of temperature and food availability on growth and reproduction in the neustonic pedunculate barnacle Lepas anserifera. Marine Biology 157(4): 899–905. doi: 10.1007/s00227-009-1373-0

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*Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição Não Comercial e Compartilhamento Igual 4.0 Internacional.

**Creative Commons License Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons de Atribuição Não Comercial 4.0 Internacional

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